terça-feira, 20 de julho de 2010

Perry Rhodan (HQ)




Perry Rhodan - HQ - Nosso Homem no Espaço [ Download ]

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Visão Alienígena - Ensaios sobre a Ficção Científica Brasileira




A Devir estará lançando no dia 22 de Julho de 2010, na Livraria da Vila em São Paulo, o novo livro da brasilianista M. Elizabeth Ginway.

Visão Alienígena - Ensaios sobre a Ficção Científica Brasileira (232 páginas, R$ 35,00) é uma reunião de 14 ensaios publicados originalmente em livros e revistas acadêmicas dos Estados Unidos e no Brasil.

A autora americana, especialista em FC brasileira, estará autografando no local, além de participar de uma palestra com os presentes.

A Livraria da Vila fica na Alameda Lorena num.1731, Bairro Jardins, São Paulo.

Seu primeiro livro, Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro (Brazilian Science Fiction: Cultural Myths and Nationhood in the Land of the Future) foi publicado nos EUA em 2004, e no ano seguinte aqui.

O lançamento inaugura o selo “Enciclopédia Galáctica” da Devir, dedicado a discussão e análise dos gêneros ficção científica, fantasia e horror.

domingo, 18 de julho de 2010

Entrevista com Terry Pratchett



Terry Pratchett é um escritor milionário.

É provavelmente o escritor mais apreciado e seguido fanaticamente da Inglaterra. Quase sempre está entre os primeiros nas listas de livros mais vendidos, e o único a fazer sucesso tanto com crianças quanto com adultos.

Prolifico, escreve praticamente dois livros por ano, e ninguém se espanta ao entrar em uma livraria e encontrar paredes inteiras tomadas com seus lançamentos. Nas suas turnês, centenas de fãs apaixonados ficam horas nas filas atrás de seu autógrafo. Ganhou a Carnegie Medal de literatura infantil.


Porém, se você cruzar com ele na rua, provavelmente não vai percebê-lo.
Entre seus colegas, Pratchet não desperta nem entusiasmo, nem reconhecimento.

Pratchet é um homem pequeno, quase sempre vestido de preto e usando um chapelão que esconde a calvicie. Apesar de seus muitos fãs e seus milhões no banco, e mesmo sendo um sucesso de vendas, sempre foi desprezado pela elite literária que torce o nariz para o gênero fantasia.

Pergunta: Você pode fazer um monte de inimigos aparecendo contente por ai, vendendo um monte de livros, ganhando muito dinheiro, sem se importar muito com isso.

Terry Pratchett: Se alguém me oferecesse, ganhar um prêmio famoso como o The Booker, ou ser o número um de vendas, eu diria que prefiro ser o número um! É uma coisa típica de um jornalista, você quer que suas palavras entrem na cabeça das pessoas, quanto mais gente melhor, e é claro, você quer ser pago por isso!

Seu carro-chefe de vendas, a série Discworld (um mundo que se sustenta nas costas de 4 elefantes que por sua vez são amparados por uma gigantesca tartaruga que navega no espaço) é sombrio e repleto de coisas estranhas, o mesmo elenco bizarro de gnomos, trolls, magos, zumbis, vampiros e duendes de sempre, comum, mas a fantasia escrita por Pratchett não é do tipo Harry Potter; ele assume que tem mais a ver com GK Chesterton neste aspecto, que é 'pegar aquilo que é familiar e cotidiano e transformá-lo, mostrando ao leitor, um ponto de vista diferente, como se visse tudo pela primeira vez.'

Pratchett: Minhas histórias mexem com conceitos reais, como política, liberdade de expressão..., mas basta colocar um dragão no meio disso para alguém te taxar de escritor de fantasia.

Sua primeira inspiração veio de 'The wind in the willows'. Como filho único, ele teve uma infancia idílica em uma vila de Beaconsfield, entre outros moleques. Não sabia ler até os dez anos, mas quando começou, lia tudo que podia ler e foi num sábado na biblioteca, que ele enveredou pela estante de literatura adulta.

Pratchett: 'The wind in the willows' era um livro incrivelmente estranho. Eu não o entendia muito bem, e por isto fiquei apaixonado por ele.

Pergunta: Discworld vai acabar algum dia?

TP: Sim, tem que acabar. Eventualmente vai se tornar muito restritivo. Enquanto eu puder fazer com que seja interessante... é um mundo, não preciso me fixar em um determinado personagem ou outro, mas há um limite. Tenho me preocupado estes anos em escrever livros, não em publicá-los, ou sendo um autor, o que pode ser dito em meu detrimento. Isso ocupa cada vez mais o meu tempo. Eu vou ter que dar um tempo e decidir onde diabos eu quero chegar.

Pergunta: Você raramente, ou nunca, disse muito sobre as origens de seu trabalho, e como nascem as ideias para suas histórias.

Pratchett: Eu nasci em uma enfermaria, mas logo fui levado para uma pequena aldeia em Buckinghamshire. Sou o típico exemplo de filho único. A casa em que eu cresci sequer tinha água. Era uma espécie de terra perdida. Tínhamos lampiões e minha mãe costumava voltar para casa com uma bateria de 90 volts para o rádio. Mas nós não pensávamos que éramos pobres. Sabíamos que estávamos todos na mesma situação, por isso pensei que era a maneira como as coisas eram.

Isso foi logo depois da guerra (Segunda Grande Guerra), de modo que, se você tivesse uma casa com um telhado sobre ela, você era um privilegiado. Havia muitas crianças na aldeia, e era idílico, porque nós éramos a geração pré-televisão. Estávamos sempre em meio a uma nuvem de poeira, com braços e pernas de fora. Nós não tivemos uma lagoa perto, caso contrário eu teria me afogado bem jovem. Mas tínhamos tudo o que se precisava nesta idade. Nós provavelmente nunca nos afastamos mais do que uma milha de nossa casa. Mas havia bosques e campos, você sabe. Era magnífico.

Uma das minhas primeiras memórias é a de ser levado pela minha mãe até uma grande loja chamada Gammages, em Londres, para ver o Papai Noel. Um menino que cresce em uma casa com velas e lampiões e derrepente vai parar em Londres, de trem... o que por si só já é uma emoção. Tinha uns seis anos. Fomos até uma loja de departamentos iluminada. Mais brinquedos do que eu era capaz de imaginar.
Muito da minha escrita no futuro se deveria ao que aconteceu naquele dia. Eu me perdi naquela loja. Quando minha mãe me encontrou, eu estava subindo as escadas para descer em seguida, do outro lado.

O bom desta época era que, ao passo que outras crianças tinham muitos irmãos e irmãs, eu tinha um quarto só para mim, e na época do Natal, todos os presentes eram para um garoto só.

Pergunta: E então, no decorrer do tempo você descobriu o fandom.

Pratchett: Isso veio mais tarde. Em 1957, a Brook Bond (chá); lançou seus cartões sobre o espaço. Minha família toda bebia chá para que eu pudesse colecionar essas coisas. Eram como cartões de beisebol. Levei um tempo para perceber isso, e só no último ano eu descobri a astronomia. Tínhamos um céu muito limpo. Tinha uns 50 destes cartões de chá e, basicamente, eu sabia mais de astronomia do que 99,99 por cento da população. E eu colecionava avidamente e observava o céu.

Você sabe, depois que você sai de casa, sua mãe joga fora todas as suas coisas. Recentemente entrei em contato com um colecionador, graças a Internet, e comprei os cartões novamente. Eu era como Proust menino. Ele come um biscoito e volta no tempo. Olhei para o cartão com Júpiter, o planeta é preto e roxo nesse cartão, e eu tenho 9 anos de idade novamente.

Meus pais então me compraram um telescópio. Tudo o que você podia ver tinha um halo em volta dele. Fiquei especialista na lua. E depois de alguns anos comprei um LX2000 Meade, e depois tive um observatório próprio.

Curiosamente, a ficção científica veio da astronomia. Eu não era realmente um astrônomo, porque os astrônomos têm que levar a coisa a sério, e fazer matemática. Eu achava muito legal porque você podia ficar acordado a noite toda.

Eu tenho um tipo de mentalidade turística. Tenho interesse nas coisas. Eu aprendo o bastante, mas nunca vou totalmente a fundo. Eu tinha um rádio de ondas curtas. Eu o construí, um receptor, e era divertido. Então, eu inventei o circuito integrado.

Pergunta: Como assim?

Pratchett: Foi interessante. Eu não sabia de alguém que tinha feito isso antes, mas eu estava sentado lá pensando, construía esses rádios transistores pouco maiores que caixas de fósforos. Eu tinha um transistor, que me custou sete shillings e seis pence, um terço de uma libra hoje. E transistores eram caros, tinha que juntar dinheiro para comprar um transistor. E eu pensei: "OK, e se eu pudesse fazer com que o resistor, o capacitor e o transistor e o diodo, todos fizessem parte da mesma peça? Para que você precisa de fio entre eles?” Eu tinha apenas 13 anos na época, mas se eu fosse um pouco mais velho, e corresse rápido ao escritório de patentes, quem sabe?

Pergunta: Lembro-me da história de Arthur C. Clarke, de que se ele patenteasse o conceito de satélites de comunicações, teria se aposentado rico em 1947.

Pratchett: Ficção Científica. Tudo isso me excitava. Isso e o fato de te lido "The wind in the willows”, de Kenneth Grahame, eu estava ficando interessado em fantasia. Estava sendo atraído e finalmente seria sugado pela "ficção científica". Acho que li tudo que foi publicado em capa dura de FC. Nem toda FC era publicada em revistas, mas se você fosse numa convenção, todos tinham lido o que você leu. E as meninas eram proibidas nestes lugares.

Pergunta: E sua primeira venda?

Pratchett: Eu tinha 13 anos. Depois da escola eu costumava ir a um lugar em Alta Wickham, um pequeno barracão que chamávamos de "A pequena livraria", onde uma senhora idosa fazendo tricô e chá durante todo o dia, vendia pornografia. Mas para ter algo para colocar nas vitrines, ela parecia ter um suprimento ilimitado, de qualidade razoavelmente boa, de FC britânica e americana. Acho que deve ter vindo da base aérea nas proximidades. Eu ia lá duas vezes por semana, depois da escola.

Estava consciente de que as prateleiras mais altas tinham um material proibido.

Mas todo o chão estava tomado por caixas de papelão cheias de coisas maravilhosas; Deus sabe, eu acho que minha mãe jogou tudo fora.

Qualquer pessoa que soubesse o que a loja vendia, deveria ficar perplexa com esse garoto de 13 anos de idade, que ia lá duas vezes por semana e saia com uma mochila cheia! Quero dizer, como diabos ele encontrava tempo para fazer sua lição de casa?

Sim, eu fiz uma venda e eu descobri sobre o fandom, e fui para minha primeira convenção em 1963 ou 64, e foi isso. Eu abandonei o colégio depois de três ou quatro anos, porque tinha um emprego, eu era um jornalista estagiário no jornal local, o que significava que você era um coitado. Trabalhava duro e eles te pagavam uma ninharia, mas você era o aprendiz, você estava aprendendo um ofício. Eu trabalhava à noite, e eu estava namorando, e estava estudando para os exames que você tem que passar para obter o seu certificado de formação, e não tinha tempo para mais nada.

Mas eu sempre tive um livro na cabeça, e que levaria cerca de cinco anos para escrevê-lo. Depois que eu publiquei 'The colour of Magic' (1983), ele realmente começou a vender rápido. E assim, ganancioso, eu escrevi Light Fantastic (1986), e minha vida mudou de repente. Quando escrevi Mort (1987), que foi o quarto livro, eu estava fazendo dinheiro com os livros, mais do que o suficiente para largar o trabalho, que como todos sabem, eu era assessor de imprensa de uma usina de energia nuclear.

Pergunta: Estou certo em recordar que assumiu o cargo logo após o acidente de Three Mile Island?

Pratchett: [riso] Entrei para a indústria não muito depois de Three Mile Island (1979), e eu estava lá quando veio Chernobyl (1986). Mas nós tínhamos nossos próprios acidentes locais. Toda sexta-feira parecia que um dos reatores iria explodir. Meu trabalho era dizer: "Bem, nós não deixamos escapar muita radioatividade!" Na verdade, nada muito grave realmente aconteceu, mas a sensibilidade para as questões nucleares era tanta que até um desligamento planejado se tornou um grande negócio.

Eu aprendi muito sobre esse trabalho. Quando você coloca cientistas e engenheiros e burocratas, todos juntos no mesmo edifício, todo tipo de coisas interessantes surgem.

Pergunta: Discworld é possivelmente a mais bem sucedida saga sobre eras.

Pratchett: Bem, tem essa mulher, eu não sei se você já ouviu falar dela... Se você reduzir um pouco os parâmetros, como "a maior saga escrita por um careca", esse tipo de coisa, bem, talvez seja. OK, ok, vendeu bem. Cerca de 40 milhões de cópias em todo o mundo até agora.

Como eu posso explicar... Era para me divertir com alguns clichês do gênero. Foi tão simples assim. Ao longo dos anos foi sendo construída, de toda a leitura aleatória que eu lia, uma espécie de investigação sem saber o que é que você está pesquisando. A natureza de Discworld me deu a oportunidade de fazer todo tipo de coisas. Poderia caber tudo nele. Por volta do quarto livro eu descobri a alegria da trama. (em Mort). Voltei um pouco no tempo com Sourcery [1988], porque eu sabia que os fãs queriam mais de Rincewind. Eu particularmente não gostei de escrevê-lo, mas ficou na lista dos best-seller por três meses. E então eu disse: "Esquece os fãs, vou fazer o que eu gosto!"

Agora, eu meio a fazer minhas próprias coisas, e pelo fato que muito mudou ao longo dos anos, acho que no geral eu escrevo melhor do que antes. Havia, de certa modo, mais liberdade nos livros iniciais, porque o maior problema com um universo criado como este é que ele fica cheio.

Isso se torna um tipo de problema, é como ter o Superman no local e não há realmente muito espaço para Batman. Será o simples peso da história e da geografia que provavelmente irá acabar com Discworld ao fim.

Pergunta: Como o conceito de bruxaria chamou a atenção de um menino?

Pratchett: Uma coisa particular sobre a Inglaterra é que a magia está em toda parte. Certamente nos campos, cada pedra tem uma lenda sobre ela. Cada morro é um lugar onde Arthur esteve.

Pergunta: Cada nascente...

Pratchett: ...é santa ou algo parecido, ou provavelmente pertence a fadas ou santos, ou ambos. Quando morávamos em Mendips, a uma curta distância de Wimblestone, no Solstício de Verão tinha gente que ia dançar no campo, e há todas aquelas histórias sobre um agricultor que tentou arrancar as pedras com seus cavalos e não conseguiu movê-las. Na verdade, é um pedaço de conglomerado dolomítico, se por acaso você souber do que falo.

Pergunta: Eu tenho que perguntar, qual era o pub mais próximo?

Pratchett: Dizem que todos os pubs de Mendips são conectados por linhas retas... a sidra faz coisas muito estranhas ao cérebro.

Pergunta: Terry, você prestou o serviço militar?

Pratchett: Não, ele deixou de ser obrigatório cerca de três anos antes da minha vez, senão eu teria servido.

Pergunta: Eu pergunto isso porque muitas das observações em seus livros, sobre militares, são agudas, por exemplo, a forma como os soldados jovens fumam cigarros.

Pratchett: Bem, sim. Eu realmente vi um cara que quando via alguém chegando, e ele não deveria ser pego fumando, ele fazia isso. [Ele imita um homem escondendo um cigarro aceso na boca.] É apenas uma observação da vida. Eu fico o tempo todo respondendo a coisas assim, sobre os militares, como você sabe sobre bruxas... Bem, é dinâmica de grupo. Como a dinâmica de um grupo, com uma classe de oficiais acima deles, por exemplo. É apenas a maneira como as pessoas agem. 

(...) Sou fascinado com motores a vapor e telégrafo, e mecanismos intrincados. Acho que a tecnologia estava em sua melhor forma, pouco antes da era digital, porque você só usava a eletricidade para girar os motores. No momento que a telefonia substituiu a telegrafia, encontraram formas de receber 12 mensagens simultaneamente ao longo de um fio telegráfico.

A verdadeira ingenuidade de um Jules Verne aplicada a um mundo de engrenagens e palhetas vibratórias. Era bem mais divertido do que circuitos integrados.

Pergunta: Você já ganhou muitos prêmios, e há um em particular que continua mais misterioso para aqueles nascidos na América, do que qualquer outro. Em 1998 lhe foi concedida a Ordem do Império Britânico. Agora, se eu entendi bem, você não tem que ir ao Palácio de Buckingham e conhecer a rainha?

Pratchett: Foi o príncipe Charles neste dia. E ele se disse um admirador de Discworld.

Pergunta: E como foi a conversa?

Pratchett: Bem, eu queria colocá-lo à vontade. Eu disse, "Bom, há quanto tempo você tem sido um príncipe? Tanto tempo assim?" Ele fez algumas perguntas. Ele não disse: "Ei, sou um dos seus maiores fãs. Pode autografar um livro para mim?" A família real não faz esse tipo de coisa.

Deixe-me explicar como funciona. Você recebe uma carta do gabinete do primeiro-ministro, e a primeira coisa que fiz foi telefonar para o meu agente e dizer: "Isto é uma piada, não é?" E ele fez um silêncio para depois dizer: "Não é uma piada."

Foi um grande dia quando tudo aconteceu. Maio. Meu último livro tinha alcançado o número um em vendas. Então eu saí no meu jardim e uma orquídea selvagem tinha florescido. E então eu abri esta carta dizendo que eu tinha sido indicado a OBE (Order of the British Empire). Assim, foi algo como se os leitores, Deus e a realeza, tivessem me premiado no mesmo dia.

A carta do gabinete do primeiro-ministro é muito estranha. Ela diz: "Agora olhe, se fôssemos dar-lhe um prêmio, e nós não estamos dizendo que vamos dar, se nós disséssemos que sim, você não diria não, certo?" Tudo isso para salvar do embaraço. E então eu escrevi uma carta de volta, dizendo: "Se vocês o fizerem, e eu entendo que vocês talvez não o façam, eu com toda a probabilidade diria sim". Você tem que ter muito calma sobre isso. O que é um pouco difícil.

Como quando eu ganhei o prêmio Carnegie, que é possivelmente o maior prêmio de livros infantis. Você fica sabendo cerca de dois meses antes da divulgação. E é muito difícil não falar sobre isso. Você tem que manter o silêncio sobre o assunto.

E então minha mãe veio me ver receber a ordem. E vocês podem imaginar a minha mãe andando pelo Palácio de Buckingham. [ele imita a mãe limpando a poeira da mesa e balançando a cabeça em desaprovação] Minha esposa e minha filha também estavam lá. Foi muito bom.

Mas foi estranho. Todos os OBEs entrando, e todos os CBEs e MBEs e IBES, HGI, HIVS, tudo de uma só vez. E não há álcool. O Palácio de Buckingham tem feito isso já há muito tempo. Não há nenhum álcool na cerimônia. De qualquer modo, eu estava em um traje elegante de morrer e depois de você finalmente conversar um pouco, tudo que você quer é um brandy.

É meio estranho, porque o único serviço que eu prestei para a literatura foi declarar em cada ocasião possível que eu não gostava daquilo. Eu não estou muito certo porque aceitei. É quase que uma moda fazer pouco disso. Mas só vale a pena fazê-lo se você pode dizer às pessoas que você menospreza aquilo, não adianta se ninguém souber, não é? Eu pensei; quando as pessoas me perguntarem por que eu aceitei, darei a melhor razão: Para fazer minha mãe orgulhosa.

Outra resposta seria que nós sempre brigamos para tirar a Ficção Científica do seu gueto. Bem, se eles estão indo te premiar com tanta pompa, esteja lá quando as medalhas forem entregues. Nunca recuse uma medalha ou uma promoção.



Entrevista concedida a Jim Young na Minicon (2005) e ao The Guardian (8-11-02)

Terry Pratchett


Terence David John Pratchett (28 de Abril de 1948) nasceu em Beaconsfield, Buckinghamshire (Inglaterra).

Talvez o mais bem sucedido escritor inglês de fantasia, apelidado por alguns fãs como Pterry (seguindo uma convenção que ele criou, onde seus personagens receberam nomes como Ptraci e Pteppic), é mais conhecido por seu maior sucesso de vendas, a série Discworld.

Pratchett nunca frequentou uma universidade, nem sequer completou os estudos secundários, trocando-os pelo aprendizado profissional em uma oficina de carpintaria.

Aos 13 anos, depois de voltar de uma convenção de FC, escreveu uma história de fantasia que acabou sendo impressa no jornal, pela qual lhe pagaram 14 libras. Com o dinheiro, comprou uma máquina de escrever usada e o destino se mostrou à sua frente.


Aos 17 anos já trabalhava em um jornal local como assessor de imprensa, posteriormente assumiu um cargo público no Ministerio de Eletricidade, trabalhando, principalmente com a indústria nuclear.

Nas horas vagas ele escrevia. Seu primeiro romance, 'The Carpet people' foi publicado em 1971. Deste seu 'hobby' amador, surgiu um romance despretensioso, 'The Colour of Magic', que seria publicado em 1983, tornando-se um sucesso imediato. Além de inaugurar a saga Discworld, o livro iniciou o boom da fantasia inglesa nos anos 80, vendendo mais de 150 mil cópias em capa dura, e quase 350 mil em edição mais barata, apenas na Inglaterra.

Quando Pratchett percebeu que ganhava 5 vezes mais em suas horas de folga escrevendo, do que trabalhando o dia inteiro, decidiu se tornar escritor em tempo integral.


Com mais de 35 livros até o momento, a série Discworld é uma obra de fantasia satírica, de um humor cáustico e irônico, situada em mundo em forma de disco chato, que gira sobre as costas de quatro elefantes gigantes, apoiados sobre uma enorme tartaruga, que atravessa nadando o espaço.

Em 2005, Pratchett tornou-se o centro de uma polêmica, ao criticar a cobertura da mídia dada a autora de Harry Potter. Suas observações foram mal interpretadas, como um ataque à própria Rowling.

Notório por sua predileção por usar grandes chapéus pretos, Pratchett é dono de um recorde assombroso. Vendeu 45 milhões de livros (publicados em 33 idiomas) no mundo inteiro.

Site oficial

Terry Pratchett (La Ciencia en Mundodisco, Turntables of the night, Theater od cruelty, The unadulterated cat, The Discworld timeline, The dark side of the sun, The computer who believed in Santa, The carpet people, Tha amazing Maurice and his educated roden, Tama Princess of Mercury, Strata, Nation, El puente del Troll, Bromeliad Series, Johnny series, Good Omens com Neil Gaiman, Discworld series (36 livros) ) [ Download ]

sábado, 17 de julho de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 16)




LOGO QUE, oficialmente, deixou o trabalho naquela noite, Rick Deckard cruzou a cidade para a rua dos animais: os vários quarteirões dos grandes comerciantes de bichos, com suas imensas vitrinas e cartazes atraentes.

Ainda não o deixara a nova, horrível e excepcional depressão que o abatera antes naquele dia. Isto, estar entre animais e negociantes de animais, parecia o único ponto fraco no véu de depressão, uma falha através da qual poderia, talvez, agarrá-la e exorcizá-la, No passado, de qualquer modo, a vista de animais, o cheiro de transações financeiras envolvendo altas somas, fizeram muito por ele.
Talvez, nesse instante, o efeito fosse o mesmo.

— Sim, senhor — disse um novo e elegantemente vestido vendedor, em tom de prosa, quando ele ficou olhando boquiaberto, expressão vidrada e humilde para as peças expostas. — Está vendo alguma coisa que o agrade?
— Estou vendo um bocado de coisa de que gosto. É o custo que me incomoda — disse Rick.
— O senhor simplesmente nos diz o tipo de negócio que quer fazer — sugeriu o vendedor —, o que quer levar para casa e quanto quer pagar. Levaremos a proposta ao nosso gerente de vendas e obteremos sua aprovação.
— Eu tenho três mil, em dinheiro. — O Departamento, no fim do dia, pagara sua recompensa. — Quanto custa — perguntou — aquela família de coelhos ali?
— Senhor, se o senhor pode fazer um pagamento inicial de três mil, posso transformá-lo no proprietário de alguma coisa muito melhor que um casal de coelhos. Que tal um bode?
— Não pensei muito em bodes — disse Rick.
— Posso perguntar se isto representa uma nova faixa de preços para o senhor?
— Eu, geralmente, não ando por aí com três mil no bolso — reconheceu Rick.
— Era isso o que eu pensava, quando o senhor falou em coelhos. O problema com coelhos, senhor, é que todo mundo tem um deles. Eu gostaria de vê-lo subir para a classe dos bodes, que acho que é a sua. Para ser franco, o senhor me parece mais um amigo dos caprinos.
— Quais são as vantagens dos bodes?
— A evidente vantagem do bode — explicou o vendedor — é que ele pode ser ensinado a dar cabeçadas naqueles que queiram roubá-lo.
— Não se eles o atingem com um dardo paralisante e descem por escada de corda de um hovercar pairando no alto.

Sem se deixar abater, o vendedor continuou:
— Um bode é leal. E possui uma alma livre, natural, que nenhuma gaiola pode prender. E nos bodes há um aspecto adicional excepcional, que o senhor talvez desconheça. Com muita freqüência, quando a pessoa investe num animal e o leva para casa, descobre alguma manhã que ele comeu alguma coisa radiativa e morreu. Um bode não é incomodado por quase-alimentos contaminados. Pode comer ecleticamente, mesmo coisas que derrubariam uma vaca ou um cavalo e, principalmente, um gato. Como investimento a longo prazo, achamos que o bode — e especialmente a cabra — oferecem vantagens sem concorrência ao criador sério.
— Esse bode é fêmea?
Notara um bode preto, grande, colocado bem no centro da jaula. Dirigiu-se para lá e o vendedor acompanhou-o. O bode, achou Rick, era belo.
— Sim, esse bode é fêmea. Um bode núbio preto, muito grande, como o senhor pode ver. É uma oferta soberba no mercado deste ano, senhor. E estamos oferecendo a um preço atraente, muito, muito baixo.

Tirando do bolso o amarfanhado Sidney's, Rick consultou na lista bodes, núbios, pretos.
— Será uma compra à vista? — perguntou o vendedor. — Ou o senhor vai dar de entrada um animal usado?
— Só dinheiro — disse Rick.

Num pedaço de papel, o vendedor rabiscou um preço e, em seguida, por um instante, quase furtivamente, mostrou-o a Rick.
— Caro demais — disse Rick. Tomou o papel da mão do vendedor e escreveu uma cifra mais modesta.
— Nós não poderíamos vender um bode por esse preço — protestou o vendedor. Escreveu outra cifra. — Esse bode tem menos de um ano. A esperança de vida dele é muito longa. — Mostrou a cifra a Rick.
— Negócio feito — disse.
Assinou o contrato com reserva de domínio, deu como entrada seus três mil dólares — todo o dinheiro do prêmio — e logo depois viu-se no carro, muito confuso, enquanto empregados da loja ajeitavam a gaiola da cabra. Sou dono de um animal agora, disse para si mesmo. De um animal vivo, não elétrico. Pela segunda vez em minha vida.

A despesa, o endividamento contratual, apavoravam-no.
Descobriu que tremia um pouco. Mas eu tinha que fazer isto, afirmou para si mesmo A experiência com Phil Resch... Tenho que recuperar minha confiança, minha fé em mim mesmo e em minha capacidade. Ou não vou conservar meu emprego.

Com as mãos dormentes, lançou o hovercar para o alto, a caminho de seu apartamento, e de Iran. Ela vai ficar zangada, pensou. Porque o animal vai preocupá-la, a responsabilidade. E uma vez que ela fica em casa o dia todo, um bocado de trabalho de manutenção do animal caberá a ela.

Mais uma vez, sentiu-se desalentado.
Ao pousar no telhado de seu prédio, passou algum tempo no carro, compondo mentalmente uma história bem verossímil para contar à esposa. Meu emprego exige o animal, pensou, raspando o fundo de seus argumentos. Questão de prestígio.
Não poderíamos continuar por mais tempo cuidando de uma ovelha elétrica, isso minava minha moral Talvez eu possa lhe dizer isso, resolveu.

Descendo do carro, tirou do assento traseiro a gaiola da cabra e, resfolegando, conseguiu colocá-la no chão. A cabra, que deslizara para um lado durante a mudança de posição, considerou-o com acesa perspicácia, mas não emitiu som algum.
Desceu até seu andar e seguiu um caminho conhecido pelo corredor até a porta,
— Hei — recebeu-o Iran, ocupada na cozinha com o jantar. — Por que chegou tão tarde?
— Venha até o telhado — disse ele. — Quero lhe mostrar uma coisa.
— Você comprou um animal. — Tirou o avental, passou pensativa a mão pelo cabelo e saiu com ele do apartamento, percorrendo ambos em grandes e ansiosos passos o corredor. — Você não devia tê-lo comprado sem mim — reclamou. — Eu tenho o direito de participar de uma decisão dessas, a aquisição mais importante que nós jamais.
— Eu queria que fosse uma surpresa — desculpou-se ele.
— Você ganhou algum dinheiro de prêmio hoje — acusou-o Iran.
— Ganhei — concordou Rick —, aposentei três andros. — Entraram no elevador e, juntos, aproximaram-se mais de Deus. Eu tinha que comprar o animal — disse.
— Hoje, alguma coisa saiu errada. Uma coisa sobre aposentá-los. Para mim, não teria sido possível continuar sem comprar um animal. — O elevador chegou nesse momento ao telhado. Saiu à frente da mulher na escuridão da noite e levou-a à gaiola. Ligando os holofotes — mantidos ali para uso de todos os residentes do prédio — apontou para a cabra, em silêncio. À espera da reação dela.
— Oh, meu Deus — disse baixinho Iran. Foi até a jaula, olhou para dentro, recuou e, em seguida, deu a volta, examinando a cabra de todos os ângulos. — Ela é real?
— perguntou. — Não é falsa?
— Absolutamente real — assegurou ele. — A menos que me tenham passado a perna. — Mas isso raramente acontecia. A multa por falsificação seria astronômica: duas vezes e meia o pleno valor de mercado do animal. — Não, não me passaram para trás.
— É um bode — disse Iran. — Um bode preto núbio.
— Fêmea — corrigiu-a Rick. — Assim, mais tarde, talvez possamos cruzá-la. E teremos leite, com o qual poderemos fazer queijo.
— Poderemos tirá-la daí? Colocá-la onde está a ovelha?
— Ela precisa ficar amarrada — disse ele. — Pelo menos durante alguns dias.
Em voz baixa e estranha, disse Iran:
— "Minha vida é amor e prazer." Uma velha canção, de Joseph Strauss. Lembra-se? Quando nos conhecemos? — Pôs suavemente uma das mãos no ombro dele, inclinou-se e beijou-o. — Muito amor E muito prazer.
— Obrigado — disse ele, e abraçou-a.
— Vamos descer correndo e dar graças a Mercer. Depois, poderemos voltar aqui novamente e dar logo a ela um nome. Ela precisa de um nome. E talvez você possa arranjar uma corda para amarrá-la. — E começou a afastar-se.

Ao lado de sua égua, Judy, penteando-a e escovando-a, o vizinho, Bill Barbour, gritou para eles: — Hei, que bonito bode vocês arranjaram, Deckard. Parabéns. Boa noite, Sra. Deckard. Talvez vocês ganhem cabritinhos. Eu talvez troque meu potro por uns dois cabritos.
— Obrigado — disse Rick. E seguiu Iran na direção do elevador, — Isto lhe cura a depressão? — perguntou à esposa, — Cura a minha.
— Claro que cura minha depressão — garantiu ela. — Agora podemos dizer a todo mundo que a ovelha é falsa.
— Não há nenhuma necessidade de fazermos isso — retrucou ele, cauteloso.
— Mas nós podemos dizer — insistiu Iran. — Compreenda, agora nós não temos nada para esconder. O que sempre quisemos, realizou-se. É um sonho! — Mais uma vez, pôs-se nas pontas dos pés, inclinou-se e beijou-o, habilmente, o hálito ansioso e errático fazendo-lhe cócegas. Ela estendeu a mão para apertar o botão do elevador.
Alguma coisa avisou-o. Alguma coisa obrigou-o a dizer:
— Não vamos descer ainda para o apartamento. Vamos ficar aqui com a cabra. Vamos simplesmente nos sentar, olhar para ela e talvez lhe dar alguma coisa para comer. Para que começássemos, a loja me deu um saco de aveia, E podemos ler o manual sobre manutenção de caprinos. Incluíram isso também, sem cobrar extra. Vamos chamá-la de Euphemia. — O elevador, porém, chegara e Iran já entrava. — Iran, espere — disse ele.
— Seria imoral de nossa parte não nos fundirmos com Mercer num gesto de gratidão — respondeu Iran. — Segurei hoje os punhos da caixa e ela me aliviou um pouco a depressão... apenas um pouco, não como isto. Mas, de qualquer modo, fui atingida por uma pedra, aqui. — Mostrou o punho, onde ele viu uma pequena contusão escura. — E lembro-me que pensei como ficamos melhor, numa situação tão melhor, quando estamos com Mercer. A despeito da dor. Dor física, mas, espiritualmente, juntos. Senti todo mundo, em todo mundo, que havia feito a fusão no mesmo momento. — Com a mão, impediu que se fechasse a porta corrediça do elevador.
— Entre, Rick. Isto levará apenas um momento. Você raramente experimenta a fusão. Quero que você transmita agora a todas as pessoas o estado de espírito em que se encontra. Você deve isso a elas. Seria imoral conservar isto apenas para nós mesmos.
Ela, claro, tinha razão. Assim, entrou no elevador e, mais uma vez, desceram.

Na sala de estar, em frente à caixa de empatia, Iran rapidamente ligou-a, sua face animada de crescente satisfação.
A emoção iluminava-a como se ela fosse uma lua nova crescente.
— Eu quero que todo mundo saiba — disse ao marido. — Uma vez, isto aconteceu comigo. Uma vez entrei em fusão e captei alguém que acabava de adquirir um animal. E depois, certo dia... — Seu rosto ensombreceu-se momentaneamente, desaparecido o prazer. — Certo dia, comecei a receber de alguém cujo animal tinha morrido. Mas outros de nós compartilhamos com elas nossas diferentes alegrias... eu não tinha nenhuma, como você bem pode imaginar, e isso animou a tal pessoa. A gente pode até mesmo fazer contato com um suicida potencial. O que temos, o que estamos sentindo poderia...
— Elas terão nossa alegria — comentou Rick —, mas nós perderemos. Trocaremos o que sentimos pelo que elas sentem. Nossa alegria se perderá.

A tela da caixa de empatia mostrava nesse instante correntes velozes de vivas e informes e cores. Inspirando profundamente, a esposa segurou firme os dois punhos.
— Nós não perderemos realmente o que sentimos, não se o mantivermos claramente na mente. Você nunca, realmente, sentiu a sensação de fusão, sentiu, Rick?
— Acho que não — respondeu. Mas, nesse momento, pela primeira vez, começou a perceber o valor que pessoas como Iran obtinham com o mercerismo. Possivelmente, sua experiência com Phil Resch, o caçador de cabeças, alterara alguma minúscula sinapse nele, fechara um circuito neurológico e abrira outro. E isto, talvez, tivesse ocasionado uma reação em cadeia.
— Iran — disse em tom urgente, puxando-a da caixa de empatia. — Escute aqui. Quero lhe falar sobre o que me aconteceu hoje.

Levou-a até o sofá e sentou-a de frente para ele.
— Conheci outro caçador de cabeças — disse. — Um que nunca vi antes. Um tipo predatório, que parece gostar de destruí-los. Pela primeira vez, depois de estar com ele, considerei os andros de maneira diferente. Quero dizer, à minha própria maneira, eu estivera considerando-os como ele. — Submeti-me a um teste, a uma pergunta, e confirmei isso — continuou Rick. — Eu tinha começado a empatizar com andróides e veja só o que isso significa. Você mesma disse isso esta manhã: "Aqueles pobres andros". De modo que você sabe do que é que eu estou falando. Este foi o motivo por que comprei a cabra. Nunca me senti antes assim. Talvez pudesse ser uma depressão, como essas que você sente. Agora posso compreender por que você sofre quando está deprimida. Sempre pensei que você gostava disso e que podia deixar esse estado a qualquer tempo, se não sozinha, pelo menos com ajuda do condicionador. Mas quando a pessoa fica deprimida daquele jeito, ela não se importa, cai em apatia, porque a pessoa perde o senso de valor. Não importa se a pessoa se sente melhor, porque se não tem valor...
— O que é que você me diz de seu trabalho? — O tom de voz dela atingiu-o como uma estocada. Pestanejou.— Seu emprego — repetiu Iran. — Quais são os pagamentos mensais pela cabra? — Estendeu a mão. Pensativo, ele tirou do bolso o contrato que assinara e entregou-o à esposa.
— Tudo isso — disse ela em voz fraca. — Os juros. Meu Deus... só os juros. E você fez isso porque estava deprimido. Não, como uma surpresa para mim, como disse antes. — Devolveu-lhe o contrato. — Bem, isso não importa. Ainda estou contente porque você comprou a cabra. Eu a amo. Mas é um enorme ônus.
Parecia desolada.
— Eu posso mudar para outro trabalho — disse Rick. — O Departamento realiza dez ou onze atividades diferentes. Roubo de animais. Eu poderia ser transferido para isso.
— Mas o dinheiro do prêmio. Vamos precisar dele, ou levam de volta a cabra.
— Eu conseguirei que prorroguem o contrato, de trinta e seis para quarenta e oito meses. — Tirou do bolso uma caneta esferográfica e rabiscou rapidamente nas costas do contrato. — Dessa maneira, serão cinqüenta e dois e cinqüenta a menos por mês.
Tocou nesse momento o videofone.
— Se não tivéssemos voltado para aqui — queixou-se Rick —, se tivéssemos ficado no telhado, fazendo companhia à cabra, não teríamos recebido este telefonema.
Dirigindo-se para o videofone, disse Iran:
— Por que é que você está com medo? Não vão tomar a cabra, ainda não. — Começou a erguer o aparelho.
— É o Departamento — disse ele. — Diga que eu não estou em casa. — Dirigiu-se para o quarto de dormir.
— Alô — disse Iran no aparelho.
Mais três andros, pensou Rick, que eu devia estar caçando hoje, em vez de ter vindo para casa. Na videotela já se formara o rosto de Harry Bryant, de modo que era tarde demais para fugir. Sentindo duros os músculos das pernas, voltou ao aparelho.
— Sim, ele está — dizia nesse momento Iran. — Nós compramos uma cabra. Dê um pulinho aqui para vê-la, Sr. Bryant. — Uma pausa, enquanto ela escutava. Em seguida, passou o aparelho a Rick. — Ele tem uma coisa que lhe quer dizer.
Dirigindo-se para a caixa de empatia, sentou-se sem demora e, mais uma vez, agarrou os punhos duplos. Foi absorvida quase no mesmo instante.

Rick permaneceu com o telefone na mão, consciente da partida mental da esposa, consciente de sua própria solidão.
— Alô — disse no aparelho.
— Temos gente seguindo dois dos andróides restantes — informou Harry Bryant. Falava do escritório. Rick notou a escrivaninha conhecida, a confusão de documentos e papéis, o entulho. — Obviamente, eles desconfiaram de alguma coisa... Deixaram o endereço que D ave lhe deu e agora podem ser encontrados no...espere. — Bryant procurou na escrivaninha e, finalmente, localizou o que queria.

Automaticamente, Rick tirou a caneta do bolso e, com o contrato de compra da cabra sobre os joelhos, preparou-se para escrever.
— Edifício Conapt 3967-C — continuou o Inspetor Bryant, — Vá para lá logo que puder. Temos que supor que eles sabem sobre os que você pegou: Garland, Luft e Polokov. Foi por isso que fugiram ilegalmente.
— Ilegalmente — repetiu Rick. Para salvar a vida.
— Iran disse que você comprou uma cabra — disse Bryant — Hoje mesmo? Depois que deixou o trabalho?
— A caminho de casa.
— Eu vou aí ver a sua cabra depois que você aposentar os andróides que restam. Por falar nisto...falei há pouco com Dave. Contei o trabalho que lhe deram. Ele manda parabéns e diz para tomar mais cuidado. Disse que os tipos Nexus-6 são mais sabidos do que pensava, Na verdade, ele não queria acreditar que você pegou três num só dia.
— Três é suficiente — queixou-se Rick. — Não posso fazer mais nada. Tenho que descansar.
— Mas amanhã eles desaparecem — disse Bryant. — Saem de nossa jurisdição.
— Não tão cedo assim. Ainda vão ficar por aqui.
— Vá lá hoje à noite — ordenou Bryant. — Antes que eles se fortifiquem, Não esperam que você ataque tão depressa.
— Claro que esperam — disse Rick. — E vão estar à minha espera.
— Está com medo? Por causa do que Polokov...
— Eu não estou com medo — declarou Rick.
— Então, qual é o problema?
— Muito bem — concordou Rick. — Vou para lá. — Começou a baixar o telefone.
— Informe-me logo que obtiver algum resultado. Estarei aqui no escritório.
— Se eu os pegar, vou comprar uma ovelha.
— Você já tem. Tem desde que o conheço.
— É elétrica — disse Rick. E desligou. Uma ovelha de verdade desta vez, disse a si mesmo. Tenho que conseguir uma. Como compensação.

A esposa continuava agachada em frente à caixa preta de empatia, o rosto em êxtase, Ficou ao lado dela durante algum tempo, uma das mãos em seu peito, sentindo-o, subindo e descendo, a vida nela, a atividade. Iran não o notou: a experiência com Mercer, como sempre, tornara-se completa.

Na tela a figura apagada, velha, envolvida no manto de Mercer, subia laboriosamente e, no mesmo instante, uma pedra passou por ele. Observando-o, pensou Rick: meu Deus, há alguma coisa pior na minha situação do que na dele. Mercer não tem que fazer coisa alguma que lhe seja estranha. Ele sofre, mas, pelo menos, não se exige que viole sua própria identidade.

Curvando-se, suavemente, tirou os dedos da esposa dos punhos duplos. Em seguida, ele mesmo, assumiu-lhe o lugar. Pela primeira vez em semanas. Obedecendo a um impulso. Não planejara isso. De repente, acontecera.

À sua frente, uma paisagem de ervas daninhas, sarças, uma desolação. O ar recendia a odores selvagens; isto era o deserto e não havia chuva.
Viu um homem, uma luz triste em seus olhos cansados, cheios de dor.
— Mercer — disse Rick.
— Eu sou seu amigo — disse o velho. — Mas você deve continuar como se eu não existisse. Pode compreender isto? — Estendeu mãos vazias.
— Não — respondeu Rick. — Não posso entender isso. Eu preciso de ajuda.
— Como é que eu posso salvá-lo — disse o velho — se não posso salvar a mim mesmo? — Sorriu. —Não compreende? Não há salvação.
— Então, para o que serve isto? — indagou Rick. — Para o que é que você serve?
— Para lhe mostrar — retrucou Wilbur Mercer — que você não está sozinho. Estou aqui com você, e sempre estarei. Vá e faça seu trabalho, mesmo sabendo que é errado.
— Por quê? — perguntou Rick. — Por que devo fazê-lo? Vou pedir demissão de meu cargo e emigrar.
O velho respondeu:
— Pedir-lhe-ão que faça o mal onde quer que vá. Esta é a condição básica da vida, ser obrigado a violar sua própria identidade. Em alguma ocasião, todas as criaturas vivas têm que fazer isso. É a sombra final, a derrota da criação, a maldição em ação, a maldição que se alimenta de toda a vida. Em toda parte do universo.
— Isso é tudo o que você pode me dizer? — perguntou Rick.

Uma pedra assoviou na sua direção; abaixou-se, mas ela pegou-o na orelha. Imediatamente, soltou os punhos e se viu, mais uma vez, em sua sala de estar, ao lado da esposa e da caixa de empatia. A cabeça doia-lhe fortemente com a pancada; levantando a mão, notou que o sangue começara a correr, caindo em grandes e brilhantes gotas por um dos lados de seu rosto.
Iran, com um lenço, enxugou-lhe a orelha.
— Acho que estou contente porque você me soltou. Eu realmente não posso suportar isso, receber uma pedrada. Obrigado por ter recebido a pedrada em meu lugar.
— Estou indo — disse Rick.
— Um trabalho?
— Três. — Tomou-lhe o lenço e dirigiu-se para a porta, ainda tonto e, nesse momento, com vontade de vomitar.
— Boa sorte — disse Iran.
— Eu não consegui coisa alguma segurando esses punhos — explicou Rick. — Mercer me falou, mas o que disse não ajudou. Ele não sabe mais do que eu. Ele é simplesmente um velho subindo uma colina para morrer.
— Mas essa não é a revelação?
— Eu já tive essa revelação — retrucou Rick. Abriu a porta que dava para o corredor. — Até mais tarde. — Saindo para o corredor, fechou a porta às suas costas.

Conaot 3967-C, pensou, lendo o endereço nas costas do contrato. Isto fica longe, nos subúrbios. Lá quase tudo está abandonado. Um bom lugar para quem quer esconder-se. Exceto pelas luzes da noite. É por elas que me guiarei, pensou. As luzes. Fototrópicas. Como a mariposa da caveira. E em seguida, depois disto, refletiu, não haverá mais.
Vou fazer alguma outra coisa, ganhar a vida de outra maneira. Estes três são os últimos. Mercer tem razão. Tenho que acabar com isto. Mas, pensou, não acho que possa. Dois andros juntos...Isto não é uma questão moral, é uma questão prática.

Eu, provavelmente, não posso aposentá-los, compreendeu. Mesmo que tente. Estou cansado demais e hoje aconteceram coisas demais. Talvez Mercer soubesse disso, refletiu. Talvez tenha previsto tudo o que vai acontecer.
Mas sei onde procurar ajuda, que me foi oferecida antes e que recusei.
Chegou ao telhado e um momento depois, na escuridão de seu hovercar, discou.
— Rosen Association — respondeu a telefonista de plantão.
— Rachael Rosen — disse ele.
— Perdão, senhor?
— Chame Rachael Rosen — ordenou em voz áspera Rick.
— A Srta. Rosen está esperando . .
— Tenho certeza de que está — respondeu. E esperou.
Dez minutos depois, o rosto pequeno e moreno de Rachael Rosen apareceu na videotela.
— Alô, Sr. Deckard
— Está ocupada agora ou posso conversar com você? — perguntou. — Como você disse hoje, mais cedo — mas não parecia que era o dia de hoje; uma geração nascera e morrera desde que falara com ela pela última vez. E todo o peso, todo o cansaço dela, resumira-se em seu corpo; sentia o fardo físico. Talvez, pensou, por causa da pedra. Com o lenço, enxugou a orelha que ainda sangrava.
— O senhor cortou a orelha — disse Rachael, — Que pena.
— Você pensou, realmente, que eu não lhe telefonaria? Como você disse?
— Eu lhe disse — admitiu Rachael — que sem mim um dos Nexus-6 o pegaria antes que o senhor o pegasse.
— Você se enganou.
— Mas está telefonando, de qualquer modo. Quer que eu vá até aí, em São Francisco?
— Hoje à noite — disse ele.
— Oh, é tarde demais. Vou amanhã. É uma hora de viagem.
— A ordem que recebi foi pegá-los hoje à noite. — Interrompeu-se por um momento e depois disse: — Dos oito iniciais, sobraram três.
— O senhor dá a impressão de que passou por momentos horríveis.
— Se você não vir aqui hoje à noite — disse Rick —, vou caçá-los sozinho e não poderei aposentá-los. Eu acabei de comprar uma cabra — acrescentou, — Com o dinheiro de prêmio dos três que peguei.
— Vocês, humanos — riu Rachael. — Caprinos têm um cheiro horrível.
— Só os bodes. Li isso no livro de instruções que veio com ela.
— O senhor está realmente cansado — comentou Rachael. — Parece confuso. Tem certeza, realmente, que sabe o que está fazendo, pegar mais três Nexus-6 no mesmo dia? Ninguém jamais aposentou seis andróides num único dia.
— Franklin Powers — disse Rick. — Há mais ou menos um ano, em Chicago. Ele aposentou sete.
— Da obsoleta variedade McMillan Y-4 — observou Rachael. — Isto é uma coisa diferente. — Pensou um pouco. — Rick, não posso ir, Nem mesmo jantei ainda.
— Preciso de você — disse. Senão, vou morrer, pensou. Sei disso. Mercer sabia. Acho que você sabe, também. E estou perdendo meu tempo fazendo-lhe um apelo. Ninguém pode apelar para um andróide; não há nele coisa alguma que ressoe.
— Sinto muito, Rick — disse Rachael —, mas não posso ir aí hoje à noite. Terá que ser amanhã.
— Vingança de andróide — comentou Rick.
— O quê?
— Porque eu lhe dei uma rasteira na Escala Voigt-Kampff.
— Você pensa isso? — Olhos esbugalhados, ela perguntou: — Realmente?
— Adeus — disse Rick e começou a desligar.
— Escute aqui — interrompeu-o rapidamente Rachael —, você não está usando a cabeça.
— Parece isso porque vocês tipos Nexus-6 são mais inteligentes do que os humanos.
— Não, eu realmente não compreendo — suspirou Rachael. — Posso ver que você não quer realizar esse trabalho hoje à noite ...talvez nunca mais. Você tem certeza que quer que eu torne possível para você aposentar os três andróides restantes? Ou quer que eu o convença a não tentar?
— Venha até aqui — sugeriu ele — e nós alugaremos um quarto de hotel.
— Por quê?
— Por causa de uma coisa que ouvi hoje — respondeu ele, rouco. — Sobre situações envolvendo homens, humanos, e mulheres, andróides. Venha a São Francisco hoje à noite e eu desisto dos andros restantes. Faremos outra coisa.

Ela observou-o atenta, e em seguida disse bruscamente:
— Muito bem. Vou para aí. Onde é que eu o encontro?
— No St. Francis. É o único hotel mais ou menos decente ainda em funcionamento na área da baía.
— E você não fará nada até que eu chegue aí.
— Ficarei no quarto do hotel — prometeu ele — assistindo a Buster Amigão na TV. A convidada dele nos três últimos dias foi Amanda Werner. Gosto dela. Poderia ficar olhando-a o resto de minha vida. Ela tem seios que sorriem.

Desligou e simplesmente ficou ali durante algum tempo, a mente vazia.
Finalmente, o frio do carro despertou-o. Ligou a chave de ignição e um momento depois tomava a direção do centro de São Francisco.
E do St. Francis Hotel.


O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 16) [ Download ]

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Vimana


Sobre o portal VIMANA:

Dizem que as vimanas eram as naves espaciais dos deuses da antiga Índia.

Sendo assim, nada mais natural que escolhêssemos esse nome para o portal que reúne autores, jornalistas, pesquisadores, artistas e amantes da ficção científica, fantasia e terror, em todas suas vertentes. E que também traz uma série de textos a respeito do universo insólito, os enigmas e mistérios que cercam a humanidade desde que ela existe.

O portal é um espaço aberto para que todos os interessados nesses assuntos possam divulgar seus trabalhos – sejam livros, ilustrações, fotografias, entrevistas, matérias, vídeos, áudios; não há restrição quanto à mídia, desde que circule pelos temas propostos.

Dessa forma, seguindo o conceito da democratização do conhecimento, pretendemos estabelecer um grande ponto de encontro do universo fantástico brasileiro, ampliando a discussão sobre o gênero e propondo reflexões mais aprofundadas.

Muitos teóricos das comunicações já disseram que informação é fundamental – e, para alguns, é poder. No nosso caso, acreditamos que informação é vital, desde que bem fundamentada; caso contrário, é apenas boato e fofoca.

Nesse contexto, o portal Vimana surge como um espaço de crescimento constante – tanto de material de pesquisa quanto de novidades e informações. É um espaço aberto para os fanáticos por ficção científica, fantasia, terror e mistérios. Para os que conhecem muito (ou tudo) sobre algum dos assuntos, ou para os que sabem pouco, mas querem saber mais.

A Vimana é uma nave bem grande, e pode abrigar os mais diversos personagens, com as mais variadas histórias. E tem uma imensa capacidade de navegação, que pode nos levar a... bem, isso vocês é que decidem.

Dimensão Paralela



Apresentação:

A rede social Dimensão Paralela foi criada com o objetivo de divulgar diferentes artes da cena gótica brasileira, podendo também estudar e divulgar artistas e obras estrangeiros. Apreciamos diferentes assuntos como a literatura, canto e música, dança e expressão corporal, teatro, desenho e pintura, animações, escultura, artersanato, origami, cinema, fotografia, filosofia, mitologias, ciências, ecologia, moda e estética e tantas outras possibilidades.

Valorizaremos as mais diferentes formas de expressão, em especial as artes alternativas capazes de revelar e criar estéticas vindas de fontes incomuns como a introversão filosófica, solidão, mistérios e segredos, maturidade, sensibilidade e assim por diante.

Portanto se você é uma pessoa que tem uma mente madura e sensível para entender e sentir certas coisas tão subjetivas e abstratas fora da realidade "normalóide" seja bem-vindo a essa Dimensão Paralela.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Sites sobre cinema fantástico

Toda semana surgem na rede, sites/blogs brazucas sobre cinema e tv, e cada vez mais é possível encontrar aqueles que se dedicam aos gêneros, em especial, a Ficção Científica, a Fantasia e o Terror.
Vale a pena conhecer alguns deles...








quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ciência à mão - Portal de ensino de ciências - Ficção Científica



No portal Ciência à mão da USP, é possível encontrar vasto material sobre ficção científica, voltado para o ensino de ciências através da discussão da literatura e do cinema de FC.

 

terça-feira, 13 de julho de 2010

Trilhas sonoras do filme Blade Runner




Blade Runner OST - The 25th Anniversary Edition
Blade Runner OST - 'Struzan Beta Edition'
Blade Runner OST - 'Definitive Edition'
Blade Runner OST - 'Deck Definitive Edition'
Blade Runner OST - 'MR3' Edition
Blade Runner OST - Gongo Version
Blade Runner OST - 'Off World Music'
Blade Runner OST - 'Esper' Edition
Blade Runner - Los Angeles - November 2019



Do blog 36-15 Moog

Radiation Cinema


Nossos B-movies favoritos, resenhas e imagens fantásticas! Radiation Cinema !




segunda-feira, 12 de julho de 2010

Carta de Philip K. Dick sobre o filme Blade Runner



11 de Outubro de 1981


Mr.Jeff Walker
The Ladd Company
4000 Warner Boulevard
Burbank
Calif.91522


Caro Jeff:

Aconteceu de assistir ao programa "Hooray for Hollywood", que passou hoje à noite no canal 7, com uma matéria sobre BLADE RUNNER (bem, para ser honesto, eu não assisto a esse programa; alguém me avisou que iriam fazer uma matéria sobre BLADE RUNNER e que seria bom se eu assistisse). Jeff, depois de assistir – e especialmente depois de ouvir Harrison Ford falar sobre o filme - cheguei à conclusão que não se trata de ficção científica; e que não é fantasia; isso é exatamente aquilo que Harrison disse: futurismo. O impacto de BLADE RUNNER será simplesmente surpreendente, tanto no público quanto nas pessoas criativas – e, eu acredito, na ficção científica como um todo. Desde que comecei a escrever e a vender obras de ficção científica há trinta anos que isso é algo importante para mim. Devo dizer com toda franqueza que esta área gradualmente e permanentemente vem se deteriorando nos últimos anos. Nada que fizemos, individualmente ou coletivamente, chega aos pés de BLADE RUNNER. Não é escapismo; é super-realismo, tão realista e detalhado e autêntico e convicnente que, bem, depois de assistir ao programa eu reencontrei pálida, por comparação, a minha “realidade” atual. O que quero dizer é que todos vocês podem ter criado coletivamente uma forma única de expressão artística e gráfica que nunca foi vista. E, eu acho, BLADE RUNNER pode revolucionar nossos conceitos sobre o que é a ficção científica e, mais, o que ela pode ser.

Deixe-me resumir desta forma. A ficção científica preparou lenta e inevitavelmente uma morte monótona para si mesma: tornou-se senso comum, derivativa, rasa. De repente, vocês aparecem, alguns dos melhores talentos que existem hoje em dia, e agora temos uma nova vida, um novo começo. E sobre o meu papel no projeto BLADE RUNNER, só posso dizer que nunca havia imaginado que um trabalho meu – ou um conjunto de ideias minhas – poderia ser elevado a dimensões tão inacreditáveis. Minha vida e meu trabalho criativo estão justificados e completos graças à BLADE RUNNER. Obrigado… e será um sucesso comercial tremendo. Provará-se invencível.

Cordialmente,

Philip K. Dick

domingo, 11 de julho de 2010

Paolo Bacigalupi



Paolo Bacigalupi (1 de Abril de 1973) nasceu em Colorado Springs, Colorado (EUA),viveu no oeste americano com seus pais, por um breve tempo em uma comunidade, e frequentou o Oberlin College, em Ohio, onde conheceu sua esposa e formou-se em Estudos do Leste Asiático.

Após graduar-se em 1994, trabalhou na China, como consultor para empresas estrangeiras interessadas em entrarem no mercado chinês, retornou para aos EUA dois anos depois, passando a trabalhar para uma empresa de desenvolvimento WEB, em Boston. Bacigalupi trabalha no High Country News, um jornal ambientalista bi-semanal.

Vencedor de diversos prêmios de Ficção Científica e Fantasia, como Nebula, Compton Crook e Theodore Sturgeon, Paolo costuma aparecer em diversos jornais da costa oeste americana.

Seu romance de estreia "The Windup Girl" (2009), arrebatou o prêmio Nebula e o Locus de 2010, e foi indicado pela revista Time Magazine como um dos melhores livros (Top 10 Books) de 2009.

Segundo a revista, "um sucessor de William Gibson, mas sem os computadores."

Apesar de não citar influências, ele não nega ter aprendido as lições de mestres do passado - a intensidade de William Gibson, as histórias de Heinlein, os futuros ambientalmente comprometidos de John Brunner, e de Ursula K. Le Guin, a noção de que "você pode realmente dizer alguma coisa com FC, e ser boa FC."

Como qualquer escritor de ficção científica, ele não tem a pretensão de prever o futuro. Mas, diz ele, seus mundos brotam organicamente, como cogumelos a partir de estrume, a partir das tendências atuais.

The Windup Girl (que levou 3 anos para ser escrita) é a história de Emiko, uma mulher criada em uma creche de engenharia de crescimento, para atender aos caprichos sexuais de um empresário japonês e posteriormente abandonada, passa a vagar pelas ruas de Bangkok. Situado em um mundo sem petróleo, onde a economia global é definida por calorias, Emiko encontra Anderson Lago, que está à procura de alimentos extintos, para a sua empresa AgriGen.

Comida e energia, são temas comuns em seu trabalho.
Dono de um estilo pessimista, distópico, perturbador e intenso, sua obra não apresenta as emocionantes fronteiras do espaço, e nenhuma saída mágica para uma energia não poluente.

Bacigalupi diz que escrever de outra forma seria desonesto.  

"Toda vez que você lê uma notícia e olha os dados, eles não levam a nada de bom", diz ele. "Nada do que se diz, nos convence de que vai ser melhor, que haverá mais energia, que as espécies ameaçadas... Eu não vou escrever para consolar o leitor, e dizer que está tudo bem... Nós não estamos fazendo nada que seja minimamente sustentável." 


Site de Paolo Bacigalupi

Paolo  Bacigalupi ( The Windup Girl, Pocket Full of Dharma, Pump Six, Pump Six and Other stories, The Calorie Man, The Fluted Girl, The People of Sand and Slag, The Tamarisk Hunter, Yellow Card Man, Ship Breaker ) [ Download ]

sábado, 10 de julho de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 15)





— PODEMOS CONVERSAR? — perguntou Roy indicando Isidore.
Pris, vibrando de felicidade, respondeu:
— Tudo bem, até certo ponto. — A Isidore, disse: — Desculpe-nos. — Levou os Batys até um canto da sala e conversou com eles em voz baixa. Voltaram em seguida para junto de J. R. Isidore, que se sentia embaraçado e deslocado.
— Este é o Sr. Isidore — apresentou-o Pris. — Está cuidando de mim. — As palavras saíram-lhe dos lábios envolvidas num sarcasmo quase malicioso.
Isidore piscou.
— Estão vendo? Ele me trouxe um pouco de comida natural.
— Comida! — ecoou Irmgard Baty e dirigiu-se em passos flexíveis até a cozinha a fim de verificar. — Pêssegos — disse, imediatamente pegando uma tigela e uma colher.

Sorrindo para Isidore, comeu, com pequeninas dentadas animais. Seu sorriso, diferente do de Pris, transmitia um calor simples e não possuía veladas conotações.
Indo atrás dela — sentia-se atraído por ela — disse Isidore:
— Vocês são de Marte.
— Somos, desistimos de lá. — Sua voz subia e descia, enquanto que, com a sagacidade de uma ave, seus olhos azuis faiscavam para ele. — Que prédio horrível este onde vocês moram. Ninguém mais mora aqui, não é? Não vimos nenhuma outra luz.
— Eu moro lá em cima — explicou Isidore.
— Oh, eu pensei que você e Pris, talvez, estivessem morando juntos. — Irmgard Baty não dava a impressão de desaprovar. Falava sério, obviamente, como uma mera declaração de fato.

Azedamente, mas ainda sorrindo, Roy Baty disse:
— Bem, eles pegaram Polokov.
O júbilo que aparecera na face de Pris ao ver os amigos desfez-se imediatamente.
— Quem mais?
— Pegaram Garland — continuou Roy Baty. — Pegaram também Anders e Gitchell e hoje, um pouco mais cedo, pegaram Luba. — Deu as notícias como se elas, perversamente, o agradassem, como se tivesse prazer em contá-las. Como se apreciasse o choque que via na face de Pris. — Eu não acreditava que eles pegariam Luba, Lembra-se que eu continuei a dizer isso durante...a viagem?
— Então, isso deixa... — disse Pris.
— Nós três — completou Irmgard com um tom de apreensiva urgência na voz.
— Esse é o motivo per que estamos aqui. — A voz de Roy Baty trovejou com um novo e inesperado calor humano; quanto pior a situação, mais parecia ele apreciá-la.
Isidore não conseguia entendê-lo absolutamente.
— Oh, Deus — exclamou Pris, abalada.
— Bem, eles tinham aquele investigador, aquele caçador de cabeças — disse agitada Irmgard — chamado Dave Holden. — Os lábios dela gotejaram veneno ao pronunciar o nome. — E Polokov quase o pegou.
— Quase o pegou — repetiu Roy, seu sorriso nesse momento de proporções imensas.
— De modo que ele está no hospital, esse tal Holden — continuou Irmgard. — E, evidentemente, deram a lista dele para outro caçador, e Polokov quase o pegou, também. Mas tudo terminou com ele aposentando Polokov. Depois, ele foi atrás de Luba. Sabemos disso porque ela conseguiu comunicar-se com Garland e ele mandou alguém capturar o caçador e levá-lo para o prédio da Mission Street. Entenda, Luba telefonou-nos depois que o agente de Garland capturou o caçador. Ela tinha certeza de que tudo acabaria bem, certeza de que Garland o mataria. — E acrescentou:
— Mas evidentemente alguma coisa saiu errada na Mission. Não sabemos o quê. Talvez nunca venhamos a saber.
— Esse caçador tem nossos nomes? — perguntou Pris.
— Oh, tem, sim, querida — respondeu Irmgard. — Mas ele não sabe onde nós estamos. Roy e eu não vamos voltar para nosso apartamento. Colocamos no carro tudo o que pudemos e resolvemos ocupar um destes apartamentos abandonados, neste velho prédio infestado de ratos.
— Isso é prudente? — perguntou Isidore, reunindo coragem. — T-t-todos ficarem em um único lugar?
— Bem, eles pegaram todos os outros — retrucou Irmgard em tom de voz tranqüilo.
Ela também, como o marido, parecia estranhamente resignada, a despeito de sua agitação superficial.

Todos eles, pensou Isidore, são estranhos. Sentiu isso, mas sem poder determinar o motivo. Como se um desligamento peculiar e maligno lhes saturasse os processos mentais. Exceto, talvez, Pris. Ela, sem dúvida alguma, estava profundamente amedrontada. Pris parecia quase certa, quase natural. Mas...
— Por que você não vai morar com ele? — perguntou Roy a Pris, indicando Isidore. — Ele poderia lhe dar certo grau de proteção.
— Um debilóide? — perguntou Pris. — Eu não vou morar com um debilóide. — Suas narinas se dilataram de indignação.

Rapidamente, Irmgard contestou-a:
— Acho que você está sendo tola em ser esnobe numa ocasião como esta. Caçadores de cabeças movem-se com grande rapidez. Ele pode tentar liquidar tudo esta noite mesmo. Pode haver um bônus para ele se conseguir fazer o trabalho...
— Cristo, fechem a porta — disse Roy, dirigindo-se para ela. Bateu-a com força com um golpe e, em seguida, fechou-a a chave sem demora. — Acho que você deve ir para o apartamento de Isidore, Pris, e também acho que Irm e eu devemos ficar neste mesmo edifício. Desta maneira, podemos nos ajudar mutuamente. Tenho alguns componentes elétricos no meu carro, sucata que arranquei da nave. Vou instalar um aviso de dupla ação, Pris, de modo que você nos possa ouvir e nós possamos ouvi-la e também preparar um sistema de alarme que qualquer um de nós pode disparar. É óbvio que as identidades artificiais não deram certo, nem mesmo a de Garland. Claro, Garland pôs a própria cabeça no nó, trazendo o caçador de cabeças para a Mission Street. Isso foi vim erro. E Polokov, em vez de se manter tão longe quanto possível do caçador, resolveu abordá-lo. Nós não vamos fazer isso. Vamos ficar na moita. — Não parecia preocupado o mínimo. A situação parecia despertar-lhe uma energia quase maníaca. — Eu acho... — inalou barulhentamente, prendendo a atenção de todos ali na sala, inclusive Isidore. — Eu acho que há um motivo por que nós três ainda continuamos vivos. Acho que se ele tivesse a menor pista sobre o lugar onde estamos agora, já estaria aqui. A idéia toda por trás de caçada de cabeças é trabalhar rápido como o diabo. É nisso que está o lucro.
— E se ele esperar — concordou Irmgard — nós escapuliremos, como fizemos antes. Aposto que Roy tem razão. Aposto que ele tem nossos nomes, mas não nossa localização. Pobre Luba, na Casa da Ópera, bem à vista de todo mundo. Nenhuma dificuldade para encontrá-la.
— Bem — disse afetado Roy —, ela quis a situação dessa maneira. Acreditava que ficaria mais segura como uma figura conhecida do público.
— E você disse para ela fazer o contrário — lembrou Irmgard.
— Isso mesmo — anuiu Roy. — Disse a ela e disse a Polokov para não tentar passar por um agente do W.P.O. E disse também a Garland que um de seus próprios caçadores o pegaria, o que foi possível, concebível e exatamente o que de fato aconteceu. 
Balançou-se para a frente e para trás sobre seus grossos calcanhares, sua face transbordando de sabedoria.
— E-e-eu acho pelo que e-e-estou ouvindo que o Sr. Baty é o líder natural de vocês.
— Oh, sim, Roy é um líder — garantiu Irmgard.
— Ele organizou nossa... viagem. De Marte até aqui.
— Neste caso — opinou Isidore — é melhor vocês fazerem o que e-e-ele sugere. — Sua voz fraquejou, de esperança e tensão. — Eu acho que seria s-s-sensacional se você fosse morar comigo, Pris. Eu ficaria em casa uns dois dias, longe do trabalho... Eu tenho férias vencidas. Para ter certeza de que você ficaria bem. — E talvez Milt, que era muito inventivo, pudesse projetar uma arma que ele pudesse usar. Alguma coisa imaginativa, que matasse caçadores de cabeças... o que quer que eles fossem. Tinha na mente uma impressão indistinta, mal entrevista, de alguma coisa implacável que conduzia uma lista impressa e uma arma, que desempenhava automaticamente a função banal e burocrática de matar, uma coisa sem emoções, ou mesmo uma face, uma coisa que, se morta, era imediatamente substituída por outra parecida com ela, E assim por diante até que todas as pessoas que fossem reais e vivas tivessem sido eliminadas.

Incrível, pensou, que a polícia não possa fazer coisa alguma com relação a isso, Não posso acreditar nisso. Estas pessoas devem ter feito alguma coisa. Talvez tenham emigrado de volta para a Terra ilegalmente. Fomos avisados — a TV nos avisa — para comunicar o pouso de qualquer nave fora dos campos aprovados. A polícia tinha que estar vigilante para casos como esses.
Mas, mesmo assim, ninguém mais era deliberadamente assassinada. Isto era contra o mercerismo.

— O debilóide — disse Pris — gosta de mim.
— Não o chame assim, Pris — disse Irmgard, Lançou um olhar de compaixão a Pris. — Pense no que ele poderia chamar você.
Pris nada disse. Sua expressão tornou-se enigmática.
— Vou começar a armar o aparelho de alarma — disse Roy. — Irmgard e eu vamos ficar neste apartamento. Pris, você vai com o Sr ... Isidore. — Dirigiu-se para a porta, andando com espantosa velocidade para um homem tão pesado.

Num instante, desapareceu pela porta, que voltou a fechar-se com um estrondo. Nesse momento, Isidore teve uma momentânea, estranha alucinação: viu por um momento uma estrutura de metal, uma plataforma de polias, circuitos, baterias, torretas e engrenagens — e, em seguida, a figura desleixada de Roy Baty desapareceu. Uma vontade de rir subiu dentro dele. Nervosamente, suprimiu-a. E sentiu-se confuso.
— Um homem de ação — disse Pris em voz distante. — É uma pena que ele seja tão desajeitado com as mãos, fazendo coisas mecânicas.
— Se nós formos salvos — retrucou Irmgard em tom de repreensão, severo, como se a repreendendo —, será por causa de Roy.
— Mas valerá a pena? — perguntou Pris, principalmente para si mesma. Encolheu os ombros e, em seguida, inclinou a cabeça na direção de Isidore. — Muito bem, J. R., vou-me mudar para seu apartamento e você pode me proteger,
— T-t-todos vocês — respondeu imediatamente Isidore.

Solene e em voz baixa, um pouco formal, Irmgard Baty lhe disse:
— Quero que saiba que apreciamos muito o que está fazendo, Sr. Isidore. O senhor é o primeiro amigo que penso que encontramos aqui na Terra. Isto tudo é uma grande bondade sua e, talvez, algum dia, possamos retribuir o que está fazendo por nós. — Deslizou para ele e deu-lhe uma palmadinha no ombro.
— Você tem alguma ficção pré-colonial que eu possa ler? — perguntou-lhe Isidore.
— Perdão? — Interrogativamente, Irmgard olhou para Pris.
— Aquelas velhas revistas — explicou Pris. Juntara umas poucas coisas para levar consigo. Isidore tomou-lhe a trouxa das mãos, sentindo aquela alegria que vem apenas da satisfação de um objetivo atingido. — Não, J. R., nós não trouxemos nenhuma conosco, pelas razões que expliquei.
— E-e-eu vou à biblioteca amanhã — disse ele, saindo para o corredor. — E vou arranjar para v-v-você e para mim alguma coisa para lermos, de modo que você possa ter alguma coisa para fazer, além de esperar.

Levou Pris escada acima para seu apartamento, escuro, vazio, congestionado de coisas, morno. Levando as coisas dela para o quarto, imediatamente ligou o aquecedor, as luzes e o único canal de seu aparelho de TV.
— Eu gosto daqui — disse Pris, mas no mesmo tom desligado e remoto de antes.

Andou de um lado para o outro, as mãos enfiadas nos bolsos da saia, na sua face uma expressão amarga, quase de indignação em seu grau de desagrado. Em contraste com o que dissera pensar.
— O que é que há? — perguntou ele, colocando-lhe as coisas em cima do sofá.
— Nada. — Parou à janela panorâmica, puxou para os lados a cortina e olhou abatida para fora.
— Se você pensa que eles andam à sua procura... — começou ele.
— É um sonho — explicou ela — induzido pelas drogas que Roy me deu.
— P-p-perdão?
— Você realmente pensa que existem caçadores de cabeças?
— O Sr. Baty disse que eles mataram seus amigos.
— Mas Roy Baty é tão louco como eu — retrucou Pris. — Nossa viagem foi entre um hospital para doentes mentais na Costa Leste e aqui. Todos nós somos esquizofrênicos, com vidas emocionais defeituosas... o efeito de achatamento, é assim que chamam a isso. E nós temos alucinações coletivas.
— Eu não pensei que aquilo fosse verdade — disse ele, aliviado.
— Por que não pensou? — Girou para fitá-lo atentamente, num olhar tão sério que ele sentiu que enrubescia.
— P-p-porque coisas como essas não acontecem. O g-governo jamais executa pessoa alguma, por qualquer crime. E o mercerismo...
— Mas, compreenda — explicou Pris —, se o indivíduo não é humano, então toda a coisa se torna diferente.
— Isso não é verdade. Mesmo animais, mesmo enguias roedores, serpentes e aranhas, são sagrados.

Pris, ainda olhando-o fixamente, disse:
— Assim não pode ser, pode? Como você disse, mesmo animais são protegidos pela lei. Toda a vida. Todo ser orgânico que se contorce, estrebucha, cava, voa, anda em bandos, põe ovos ou... — Interrompeu-se porque nesse momento Roy Baty entrou abruptamente, abrindo com violência a porta do apartamento. Trazia a reboque uma extensão de fio.

— Os insetos — disse ele, sem demonstrar o menor embaraço por tê-los ouvido sem que eles soubessem — são especialmente sacrossantos. — Tirando um quadro da parede da sala de estar, ligou um pequeno aparelho eletrônico ao prego, deu um passo para trás, examinou o trabalho e voltou a recolocar o quadro no lugar. — Agora, o alarma. —
Puxou o fio que se arrastava e que terminava num aparelho complexo. Sorrindo seu estranho sorriso, mostrou o aparelho a Pris e Isidore. — O alarma. Estes fios correm por baixo do tapete. São antenas. Captam a presença de uma ... — hesitou — entidade mentacional — disse obscuramente — que não é uma de nós quatro.

— Bem, toca, e depois o quê? — perguntou Pris. — Ele vai entrar aqui com uma arma. Não podemos cair sobre ele e matá-lo a dentadas.
— Este aparelho — continuou Roy — tem uma unidade Penfield. Logo que o alarme soa, ela emite um estado de espírito de pânico para o. .. intruso. A menos que ele aja com grande rapidez, o que pode fazer. Um pânico enorme. Aumentei a freqüência até o máximo. Nenhum ser humano pode permanecer nas vizinhanças por mais de alguns segundos. Tal é a natureza do pânico: leva a movimentos circulares aleatórios, fuga sem finalidade e espasmos musculares e neurais. — E concluiu: — O que nos dará oportunidade de pegá-lo. Possivelmente. Tudo dependendo da competência dele.
— O alarme não nos afetará? — quis saber Isidore.
— Bem, e daí? — disse Roy, voltando a seu trabalho de instalação. — De modo que ambos saem correndo daqui no maior pânico. Isto nos dará tempo para reagir. E eles não matarão Isidore. Não figura na lista deles. Este o motivo porque ele é útil como proteção.
— Você não podia arranjar coisa melhor, Roy? — perguntou brusca Pris.
— Não — respondeu ele —, não posso.
— A-a-amanhã eu posso conseguir uma arma — disse Isidore entrando na conversa.
— Você tem certeza de que a presença de Isidore aqui não vai disparar o alarme? — perguntou Pris. — Afinal de contas, ele é...você sabe.
— Compensei as emanações cefálicas dele — explicou Roy. — A soma delas não provocará coisa alguma. Será necessária a presença de mais um ser humano. Uma pessoa. — Fechando a cara, olhou para Isidore, dando-se conta do que dissera,
— Vocês são andróides — disse Isidore. Mas não se importou Isto não fazia diferença alguma para ele. — Agora estou compreendendo por que eles querem matar vocês — continuou. — Na realidade, vocês não são vivos.
— Tudo nesse instante fazia sentido para ele. O caçador de cabeças, a morte dos amigos deles, a viagem para a Terra, todas essas precauções.
— Quando usei a palavra "humano" — disse Roy Baty a Pris —, usei a palavra errada.
— Tudo bem, Sr. Baty — tranqüilizou-o Isidore. — Mas o que é que isso me importa? Quero dizer, eu sou um especial. Eles tampouco me tratam muito bem, como, por exemplo, eu não posso emigrar. — Descobriu que começara a gritar. — Vocês não podem vir para cá. Eu não posso. .. — Acalmou-se.
Após uma pausa, Roy Baty observou laconicamente:
— Você não gostaria de Marte. Não está perdendo coisa alguma.
— Eu estava me perguntando quanto tempo demoraria antes de você compreender — disse Pris a Isidore. — Nós somos diferentes, não?
— Foi isso provavelmente o que fez com que Garland e Polokov cometessem erros — disse Roy Baty. — Estavam tão danadamente certos de que conseguiriam passar por humanos, Luba, também.
— Vocês são intelectuais — disse Isidore. Sentia-se excitado novamente, por ter compreendido. Emoção e orgulho. — Vocês pensam abstratamente, e eu não. .. — Fez um gesto, as palavras enredando-se umas nas outras. Como sempre. — Eu gostaria de ter um intelecto, como vocês têm. Neste caso, eu passaria no teste, não seria um debilóide, Acho que vocês são muito superiores. Eu poderia aprender um bocado com vocês.

Após um intervalo, Roy Baty disse:
— Vou acabar de instalar o alarma. — E voltou a trabalhar.
— Ele não compreende ainda — disse Pris numa voz seca, quebradiça — como nós saímos de Marte. O que fazíamos lá.
— O que não podíamos evitar de fazer — grunhiu Roy Baty.
Irmgard estava na porta aberta que dava para o corredor e eles a notaram no momento em que falou:

— Não acho que tenhamos que nos preocupar com o Sr. Isidore — disse, séria. Dirigiu-se em passos rápidos para ele e olhou-o no rosto. — Como ele disse, tampouco o tratam muito bem. E ele não está interessado no que fazíamos em Marte. Conhece-nos, gosta de nós, e uma aceitação emocional como esta... é tudo para ele. É difícil para nós entendermos isto, mas é verdade. — A Isidore disse, mais uma vez bem perto dele e observando-o com atenção:
— Você poderia ganhar um bocado de dinheiro nos denunciando, compreende isso? — Virando-se, anunciou: — Está vendo, ele compreende, mas ainda assim não vai fazer coisa alguma.
— Você é um grande homem, Isidore — disse Pris.
— Um crédito para sua raça.
— Se ele fosse um andróide — disse convicto Roy —, nos denunciaria amanhã às dez. Iria para o trabalho e isso seria o fim. Estou arrasado de admiração. — Seu tom de voz não podia ser decifrado. Isidore, pelo menos, não podia compreendê-lo. — E nós imaginamos que este aqui seria um mundo sem amigos, um planeta de faces hostis, todos contra nós. — Soltou uma gargalhada alta.
— Eu não estou absolutamente preocupada — declarou Irmgard.
— Você devia estar morrendo de medo — observou Roy.
— Vamos votar — sugeriu Pris. — Como fazíamos na nave quando estávamos em desacordo.
— Bem — disse Irmgard —, não vou dizer mais coisa alguma. Mas se recusarmos esta oportunidade, não acredito que possamos encontrar outro ser humano que nos aceite e nos ajude. O Sr. Isidore é ... — Procurou a palavra.
— Especial — acabou Pris a frase para ela.

Solene, cerimoniosamente, fizeram a votação.
— Nós ficamos aqui — disse firme Irmgard. —Neste apartamento, neste edifício.
— Eu voto que matemos o Sr. Isidore e nos escondamos em algum outro lugar — disse Roy Baty. Ele e a esposa — e John Isidore — voltaram-se rigidamente para Pris.
Em voz baixa, ela resolveu:
— Eu voto para que façamos aqui nossa defesa. — E acrescentou em voz mais alta: — Acho que o valor de J. R. para nós supera o perigo que ele encerra, o de saber. Obviamente, não podemos viver entre humanos sem sermos descobertos. Foi isso o que matou Polokov, Garland, Luba e Anders. Foi isso o que matou todos eles.
— Talvez eles tenham feito justamente o que estamos fazendo — observou Roy Baty. — Depositaram fé, confiaram em um dado ser humano, que pensaram que era diferente. Como você disse, especial.
— Nós não sabemos se foi isso — objetou Irmgard.
— Isso é apenas uma conjectura. Acho que eles, que eles...
— Fez um gesto vago. — Andaram por aí. Cantaram em um palco, como Luba. Nós confiamos ...eu vou-lhe dizer no que foi que nós confiamos e que nos pôs nesta encrenca toda, Roy: em nossa droga de inteligência superior! — Olhou zangada para o marido, seus pequenos e altos seios subindo e descendo rápidos. — Nós somos tão sábios...Roy, você está agindo assim, nesse momento. Droga, você está agindo assim agora!
— Eu acho que Irm tem razão — apoiou-a Pris.
— Assim, confiamos nossas vida a um tipo subpadrão, bichado... — começou Roy, mas desistiu. — Estou cansado — disse simplesmente. — Foi uma longa viagem, Isidore. Mas não ficaremos muito tempo aqui. Infelizmente.
— Tomara que eu possa tornar agradável a estada de vocês aqui na Terra — disse feliz Isidore.

Tinha certeza de que poderia. Parecia-lhe a coisa mais fácil do mundo, a culminação de toda sua vida, e da nova autoridade que manifestara naquele dia no videofone, no trabalho.



O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 15) [ Download ]

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Modern Classics of Science Fiction - Gardner Dozois



Let me talk to you for a moment about a few things that this anthology is not.

It is not an evolutionary overview of science fiction, for many of the stories that have had the greatest evolutionary impact on the field, and that would have to be included and analyzed in such an overview, were also stories that I personally didn’t much like, and they are not here.

It is not really a historical survey of the various periods of science fiction history, either, since such a survey, to function well, would have to include a balanced selection of represen-tative stories from the various aesthetic factions that are always in contention in any period of genre history, and would have to look beyond first-rate authors to the second-rank authors, from whose work you can often get a more accurate idea of the essential nature of the different kinds of work that are being done… but those stories are not here, either.

It isn’t a Politically Correct book, either, since to be Politically Correct, more care would have had to be taken in selecting the proportionately proper number of writers from each of SF’s political cliques and pressure groups—are there enough hard-science writers enough leftists enough British writers enough women—and no such demographic care was exercised.

Nor is it made up of comfortably expedient choices that could be expected to score me a lot of personal brownie points—several of my best friends and closest colleagues have no work here, for instance, which will no doubt hurt their feelings, and there are a number of important and influential genre figures I could usefully have flattered by putting them in these pages and who will probably not be flattered by finding that they have been omitted.

Nor was the book designed with an eye to insuring me a margin of safety with reviewers, since there are a number of icons, from Heinlein to Dick to Ballard, that I will no doubt be pilloried for leaving out.
...

The best stories, in fact, seem essentially to be timeless. (We’re still reading the Odyssey, aren’t we?) A good story is like a benign virus—even when it orginates in the minds of men and women long years dead, it can reach across the abyss of the grave, across thousands of miles of distance and hundreds of years of time, across every barrier of custom or prejudice or age, and, touching a living mind, infect that mind with the dream at its heart… can leave the one that it infects with dreaming shaken and changed forever, forever dizzy and raddled with a vision that came to them from outside the fortress self, burning up with the fever of dreams. And then they may touch someone else…

Long years from now, long after everyone in this anthology or involved with it have gone to dust, the stories here may still touch someone, and cause that person touched to blink, and put the book down for a second, and stare off through the hollow air, and shiver in wonder.



Contents
Preface

The Country of the Kind - Damon Knight
Aristotle and the Gun - L. Sprague de Camp
The Other Celia - Theodore Sturgeon
Casey Agonistes - Richard McKenna
Mother Hitton’s Littul Kittons - Cordwainer Smith
The Moon Moth - Jack Vance
The Golden Horn - Edgar Pangborn
The Lady Margaret - Keith Roberts
This Moment of the Storm - Roger Zelazny
Narrow Valley - R. A. Lqfferty
Driftglass - Samuel R. Delany
The Worm That Flies - Brian W. Aldiss
The Fifth Head of Cerberus - Gene Wolfe
Nobody’s Home - Joanna Russ
Her Smoke Rose Up Forever - James Tiptree, Jr
The Barrow - Ursula K. Le Guin
Particle Theory - Edward Bryant
The Ugly Chickens - Howard Waldrop
Going Under - Jack Dann
Salvador - Lucius Shepard
Pretty Boy Crossover - Pat Cadigan
The Pure Product - John Kessel
The Winter Market - William Gibson
Chance - Connie Willis
The Edge of the World - Michael Swanwick
Dori Bangs - Bruce Sterling

Afterword

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