A viagem, por si só, pode ser a melhor parte da
empreitada, mas só se você conseguir chegar até seu destino. Dezhnev (pai)
empreitada, mas só se você conseguir chegar até seu destino. Dezhnev (pai)
MORRISON SENTIU calor imediatamente e perdeu o fôlego. Como dissera Konev, a temperatura era de trinta e sete graus, como a de um dia quentíssimo de verão, sem que houvesse sombra ou brisa para refrescar.
Olhou em volta, tentando se orientar. Ficou claro que Natália miniaturizara ainda mais a nave enquanto ele estivera lutando para se enfiar no escafandro.
A parede ladrilhada do capilar estava bem mais longe.
Ele só conseguia ver um pequeno pedaço dela, porque havia um imenso objeto nebuloso atrapalhando a visão: um glóbulo vermelho, era claro. Uma plaqueta também passou entre o eritrócito e a parede, deslizando bem devagar.
Tanto os objetos quanto a nave e ele próprio estavam navegando com a corrente muito lenta do interior do capilar, pelo que ele pôde deduzir quando escolheu alguns “ladrilhos” como referência.
Morrison tornou a se perguntar por que sentia tão pouco o movimento browniano.
Continuava tendo a sensação de tremor, ainda que pouco intensa, e podia ver que os objetos à sua volta também pareciam tremer. Até o desenho das células da parede parecia se alterar um pouco, de um forma estranha. Mas não tinha tempo para especulações e análises.
Tinha que cumprir a missão e voltar para a nave.
Estava a mais ou menos um metro dela. Um “metro subjetivo”, pensou. Quantos mícrons teria, de quantos milionésimos de metro seria a distância real? Não se deu ao trabalho de tentar calcular.
Começou a manobrar com as nadadeiras para voltar à superfície da nave. O plasma era muito mais viscoso que a água do mar e a sensação era desagradável.
O calor, naturalmente, continuava. Não diminuiria enquanto o corpo dentro do qual se encontrava estivesse vivo. Sua testa já estava coberta de suor. Tinha que trabalhar rápido. Esticou o braço para tocar o ponto pelo qual deixava a nave, mas não conseguiu. Era quase como se a mão estivesse apertando uma almofada elástica de ar comprimido, mas ele não via nada entre ela e o casco, a não ser o próprio fluido.
Compreendeu logo o que estava acontecendo. A superfície externa do escafandro tinha carga elétrica negativa e a porção do casco que tentara tocar, também. Estava sendo repelido. Mas aquilo não deveria causar problema: era só achar algum pedaço do casco com carga contrária. Tateou até sentir o plástico mas isso não adiantou muito.
A sensação era a mesma que tocar uma superfície incrivelmente escorregadia.
De repente, com um “clique” quase audível, a mão esquerda grudou no casco. Encontrara um ponto com carga positiva. Tentou soltá-la com um pequeno esforço e, logo em seguida, com toda a força do braço. Era como se a mão estivesse soldada à superfície.
Começou a tatear com a direita, procurando um ponto de apoio para livrar a esquerda. “Clique”, outra vez. Apoiou o peso do corpo na direita e puxou a esquerda com toda a força.
Nada aconteceu. Estava preso ao casco, crucificado nele.
O suor rolava fortemente pelo rosto e depositava-se sob as axilas.
Começou a gritar, inutilmente, e a agitar as pernas. Os da nave acompanhavam com os olhos todos os seus movimentos, mas como gesticular sem usar as mãos?
O glóbulo vermelho que o vinha acompanhando o tempo todo aproximou-se e apertou seu corpo contra a nave. Seu tronco, no entanto, não ficou grudado.
Tocara, por sorte, uma área sem carga positiva. Sophia estava observando-o fixamente, tentando dizer-lhe alguma coisa, mas Morrison não sabia ler os movimentos de seus lábios, pelo menos em russo.
Notou que ela mexia num controle do computador e o braço esquerdo soltouse.
A moça devia ter reduzido a intensidade da carga. Balançou a cabeça para ela, torcendo para que entendesse seu gesto de agradecimento.
Tudo o que tinha a fazer agora era caminhar com os braços, saltando de carga em carga positiva, até a popa da nave.
Foi-se movimentando aos poucos, com dificuldade, e descobriu que, mais que a força da interação eletromagnética, o que atrapalhava agora era a pressão macia do glóbulo vermelho.
— Sai! Vai embora! — gritou em vão. O corpúsculo desempenhava um papel completamente passivo. Não era afetado por gritos.
Empurrou-o com força, usando os dois pés e uma das mãos. A superfície elástica e fina do glóbulo, de início, recuou e afundou, mas a resistência foi aumentando à medida que seus membros foram avançando.
Morrison viu que aquilo não adiantava.
Cansado, deixou o corpo ser empurrado de volta contra a nave.
Tentou recuperar o fôlego, o que não foi fácil, quente e ensopado de suor como estava. Começou a tentar imaginar o que o poria fora de combate primeiro: a desidratação ou a febre, que fatalmente viria, se continuasse incapaz de se livrar do calor produzido pelo próprio corpo e, ainda por cima, extenuando-se daquele jeito na luta para afastar o glóbulo vermelho.
Levantou o braço o máximo que conseguiu e o baixou com toda a força num golpe, voltando a borda da nadadeira manual contra a película do glóbulo, que se rompeu como um balão de borracha. A tensão superficial foi alargando cada vez mais o corte e o conteúdo começou a vazar: uma nuvem fina de grânulos.
O corpúsculo foi esvaziando e encolhendo.
Morrison sentiu-se culpado. Teve a sensação de que matara uma criatura inofensiva. Consolou-se com o pensamento de que havia trilhões daqueles no sistema circulatório e que seu tempo de vida, de qualquer maneira, não passava de uns quatro meses.
Agora já podia se deslocar até a popa. Não havia condensação no plástico do escafandro. Nem poderia haver: tudo estava à mesma temperatura e o tecido fora desenvolvido de forma a não aderir a nada.
O que poderia se condensar provavelmente estava rolando de um lado para outro, com seus movimentos, e se acumulando nas dobras do escafandro.
Chegou à popa, ao ponto em que as linhas aerodinâmicas da nave eram rompidas pelas saídas dos três motores a microfusão.
Estava o mais longe possível do centro de gravidade. Confiou na sorte e esperou que os outros quatro tivessem a mesma idéia e se reunissem o mais perto possível da proa.
Lamentou não lhes ter recomendado aquilo antes.
O que tinha a fazer agora era encontrar áreas com cargas positivas para apoiar as mãos e empurrar com força.
Sentiu-se um pouco tonto. A causa seria física ou emocional?
Não fazia diferença. O efeito era o mesmo.
Respirou profundamente, sentindo os olhos ardendo com as gotículas de suor que escorriam sobre eles. Não podia fazer nada quanto a elas. Teve outro acesso de fúria contra os idiotas que haviam projetado aquele traje de mergulho.
Entre aquilo e nada, pouca diferença havia.
Conseguiu firmar as mãos no casco e começou a bater as nadadeiras dos pés. Daria certo? A massa que tinha que movimentar era de alguns microgramas, apenas, mas de que energia dispunha? Uns poucos microergs? Sabia que a relação entre quadrados e cubos lhe dava uma vantagem enorme mas, mesmo assim, qual seria a eficiência de seu empurrão?
A nave moveu-se. Era fácil constatar o movimento, usando os “ladrilhos” da parede do capilar como referência. Seus pés já podiam tocar a parede, o que significava uma rotação de noventa graus.
O eixo principal da nave estava perpendicular à corrente. Firmou os pés na parede e empurrou de novo, com um exagero de força.
Se rompesse o capilar, as conseqüências poderiam ser terríveis, mas sabia que não dispunha de muito tempo, e não estava suficientemente lúcido para pensar a longo prazo. Felizmente, seus pés soltaram-se das células da parede, como se tivesse chutado uma cama elástica, e a nave girou um pouco mais.
Em seguida, encalhou.
Morrison procurou entender o que estava acontecendo, apertando os olhos com esforço para ver melhor. Estava perdendo a respiração no calor úmido e abafado do escafandro.
Era, com certeza, outro glóbulo vermelho. Só podia ser.
Dentro do capilar, o trânsito engarrafava-se como os carros na avenida principal de alguma cidade grande. Desta vez não hesitou. Baixou logo a nadadeira da mão direita, repetindo o golpe anterior, e causou um enorme talho.
E não perdeu tempo, como antes, lamentando a execução de uma vítima inocente.
Tornou a bater os pés e a nave retomou a rotação.
Torceu para que estivesse na direção certa.
E se tivesse invertido sua posição durante o selvagem ataque ao eritrócito, deslocando a nave de volta à situação anterior? Deixou sem resposta a pergunta.
Já estava quase sem condições de raciocinar.
A nave agora estava paralela a eixo do capilar.
Completamente sem fôlego, ele tentou observar os “ladrilhos” da parede.
Se parecessem se deslocar na direção da popa, a proa estaria apontada de maneira correta, contra a corrente, voltada para a junção do capilar com a arteríola.
Achou que tudo estava certo. Não, não conseguia achar mais nada.
Certo ou errado, tinha que retornar para a nave.
Não estava disposto a dar a vida em troca de êxito.
Mas onde estava a escotilha? Tateou cegamente a superfície do casco, sentindo aqui e ali as áreas de carga positiva e deslocando o corpo aos trancos.
Conseguiu entrever quatro figuras no interior da nave, fazendo gestos que não foi capaz de interpretar. Os vultos começaram a sair de foco. Alguém. apontou para cima. E onde era para cima?
Encontrava-se sem força para mover o corpo.
O último pensamento foi o de que, para cima ou para baixo, não fazia muita diferença para quem não tinha massa nem peso.
Deu um impulso para cima, sem entender bem por quê, e a escuridão o envolveu completamente.

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