segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
A Internet e as Bibliotecas na Ficção Científica - 1/5
A BIBLIOTECA TOTAL
"Tu, que me lês, estás seguro de entender minha linguagem?"
Borges (1972)
Bibliotecas que colocassem ao nosso alcance todo o conhecimento universal, sempre foi um sonho da humanidade e graças as mentes de escritores visionários, podem ser encontradas na literatura mundial.
Um nome importante na busca pelo acesso universal ao conhecimento é o belga Paul Otlet (1868-1944) empresário, ativista, advogado e autor do livro ‘Traité de Documentacion’ (1934). Otlet escreveu centenas de artigos sobre como recolher e organizar informações generalizadas. Outlet por décadas, aprimorou incansavelmente métodos de catalogação, alguns inventados por ele, que pudessem disponibilizar todo o conhecimento, de maneira organizada, para a sociedade.
Das discussões fomentadas por ele, surgiram as primeiras idéias utópicas sobre o relacionamento de documentos, os sistemas de informação (Otlet é por muitos considerado o pai da internet), do “livro universal”, a teia de conhecimento humano, o acesso remoto a bases de dados através de dispositivos telefônicos, etc.
Quando o escritor e bibliotecário Jorge Luis Borges (escritor argentino e um dos maiores representantes do realismo fantástico) escreveu o conto “A Biblioteca de Babel”, ele quis ir ainda mais adiante nesse sonho.
A biblioteca Borges se confundia com o próprio universo e guardava em espaços hexagonais intermináveis todos os livros possíveis – os escritos e os por serem escritos -, em todos os idiomas e dialetos – os decifráveis e os indecifráveis-, fruto das combinações de vinte e poucos símbolos.
A ficção literária está povoada de bibliotecas vastas e imaginárias. Palácios de saberes que ambicionam reunir todos os livros escritos em todos os tempos ou que dominam totalmente o universo dos personagens que estão à sua volta. Além da biblioteca de Borges, há também a biblioteca criada por Cervantes para Alonso Quijano – Dom Quijote - que era o alimento da sua loucura; a biblioteca repleta de passagens secretas e espelhos, que a tornava virtualmente infinita, imaginada por Umberto Eco em “O Nome da Rosa”; a biblioteca fantástica do Capitão Nemo, de H.G. Wells (1866-1946) que em 1937 criou o que seria a Permanent World Encyclopaedia, apoiada na tecnologia de microfilmes, na época, ainda em sua infância.
“Toda a memória humana pode ser, e provavelmente o será a curto prazo, acessível para cada indivíduo” (WELLS, 1937).
“Qualquer estudante em qualquer parte do mundo, sentado em seu estúdio com o seu projetor, no momento mais conveniente poderá examinar uma réplica exata de qualquer livro ou qualquer documento” (WELLS, 1938).
Apesar disso, é comum ouvirmos que na literatura de Ficção Científica (FC), nenhum escritor jamais "previu" o surgimento da Internet (que completou 40 anos de sua criação) como a conhecemos hoje.
Isso não é de todo verdade.
Alguns escritores, a partir dos anos 70, abordaram as possibilidades das redes de computadores – incluindo aqueles eventos que possivelmente se seguiriam ao seu desenvolvimento – o ciberespaço e a libertação da máquina através da consciência artificial (não raramente vista como uma ameaça ao “homem-criador”).
Talvez o que tenha ocorrido foi que os autores subestimaram a comunicação entre pessoas, e a valorização do conteúdo a despeito da tecnologia.
A Era de Ouro da FC (anos 40 e 50), responsável em grande parte por direcionar nossa imaginação, projetou o homem já vivendo no futuro, “queimando” algumas etapas, se podemos dizer assim.
A utilização popular dos computadores e o aprimoramento das tecnologias de rede, (condições necessárias ao fenômeno conhecido hoje como globalização) não mereceram tanto destaque na imaginação dos escritores, quanto por exemplo, robôs autônomos, voos espaciais e a colonização de outros planetas (sem falar do contato com formas de vida extra-terrestres).



