quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O prazer de compartilhar



do site Qprocura

 Eles não têm olho de vidro, perna-de-pau e nem andam com um papagaio no ombro. Mesmo assim a indústria da música e do cinema insiste em chamá-los de piratas e em afirmar que são os grandes vilões da internet. Mas um estudo publicado neste mês pela revista eletrônica /First Monday/ mostra justamente o contrário. A motivação dos usuários de programas de compartilhamento de arquivos como o Kazaa e o SoulSeek - que permitem que você baixe os arquivos de música e vídeo de outros e ofereça os seus - não estaria só em pegar arquivos de graça mas também em "presentear", em compartilhar seu acervo com outras pessoas. Por isso, não basta que a indústria crie mecanismos tecnológicos para que as pessoas usufruam legalmente de bens culturais na Internet; será preciso também levar em conta o desejo que elas têm de ajudar e oferecer arquivos a outros.

A conclusão é de Kevin McGee e de Jorgen Skageby, pesquisadores da Universidade de Linkoping, na Suécia, e autores do artigo "Gifting Technologies". Por seis meses, ambos frequentaram e analisaram listas de discussão de usuários dos sistemas P2P - sigla para ponto-a-ponto, a tecnologia que permite a troca direta de arquivos na internet - e entrevistaram mais de 100 desses usuários. O objetivo era buscar entender o fenômeno da troca de arquivos na rede a partir da perspectiva da dádiva, ou seja, de trabalhos anteriores que falam da troca ou do ato de dar presentes como um fenômeno social. O que os autores descobriram é que não é possível reduzir a ocorrência da dádiva na internet - que acontece nos programas de P2P - nem a um "roubo", em que as vítimas são os detentores dos direitos autorais, nem meramente a uma troca interessada, em que os sujeitos só compartilham porque estão interessados também em baixar arquivos.

Indústria age com truculência

Nos últimos dois anos, a indústria do entretenimento tem promovido uma verdadeira cruzada contra os usuários dos programas de P2P. As ações vão desde multas até a prisão e os métodos incluem a espionagem eletrônica de usuários. A onda de processos movida pela indústria da música começou em setembro de 2003 e, até agora, pelos cálculos da EFF (Fundação da Fronteira Eletrônica, entidade que luta pela legalização do compartilhamento de arquivos) já são mais de 6 mil ações legais. No início deste mês, a indústria do cinema anunciou que deverá seguir os passos das gravadoras e também iniciará uma onda de processos. "Ações contra os usuários não significam o pagamento de direitos aos artistas. Nós precisamos de uma solução construtiva. Os compartilhadores são mais de 60 milhões, só nos EUA, um número maior de pessoas do que o que elegeu o atual presidente", diz a EFF.

Os efeitos dos processos movidos pela indústria puderam ser sentidos pelos pesquisadores suecos. Ao tipificar os diversos grupos de compartilhadores ele encontraram a figura do que chamaram de "presenteadores amedrontados". Esse grupo ofereceria seus arquivos de uma forma mais selecionada, escolhendo aqueles que podem receber ou quais arquivos serão compartilhados. "O mais surpreendente é que esse tipo de ação não seria motivado pelo medo de serem pessoalmente alvo de processo mas pelo medo de que os mecanismos de compartilhamento sejam ameaçados", dizem os pesquisadores. Eles encontraram casos de pessoas que deixaram de compartilhar arquivos sujeitos aos direitos autorais da indústria.

Muito mais do que uma troca interessada

As características dos diversos grupos de compartilhadores permitem dizer que a atividade vai muito além do "é dando que se recebe". Vários teriam motivações ideológicas, acreditando não só que a "informação tem que ser livre", mas em um certo "espírito do compartilhamento". Os pesquisadores afirmam também que muitos dos que aparentemente oferecem seus arquivos apenas para poderem conseguir músicas ou filmes de outros (a chamada pseudo-dádiva), na verdade são bastante benevolentes com aqueles que não compartilham nada. Ou seja, depois de bloquearem aqueles usuários que claramente não oferecem nada em troca - os chamados de sangue-sugas - os compartilhadores voltam a oferecer seus arquivos para a comunidade.

Foram encontrados, inclusive, alguns usuários que ajudam outros que tenham um gosto parecido com o do compartilhador ou que estão em dificuldades. Quando encontram alguém que tem uma conexão muito lenta e que vai levar muito tempo para conseguir um arquivo, eles deixam seus computadores ligados por horas, só para que a conexão do receptor não seja cortada. Ou ainda oferecem a quem está baixando uma música, por exemplo, outros arquivos de estilo semelhante ao que está sendo enviado.

"Quando você compartilha algo com alguém você o faz não porque espera algo em de volta... Quando você quer algo do outro isso é uma troca", declarou um dos entrevistados. Para os pesquisadores, há nos mecanismos de oferecimento de arquivos algo que vai além do que tem sido notado até hoje e que mistura altruísmo e ideologia. Mesmo que a indústria crie mecanismos poderosos e acessíveis para que bens digitais sejam adquiridos, essas iniciativas falharão se o espírito do compartilhamento não for levado em conta.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Compartilhar conhecimento traz mais crescimento do que se imagina



do blog Baguete

Compartilhar é uma palavra intrigante.

Por que? Porque significa que algo que você considera seu poderá ser utilizado por outra pessoa, e com a sua permissão.

Além de identificar uma atitude altruísta, o que sempre é positivo, significa estar disposto a contribuir para o crescimento do outro, que sempre está atrelado ao seu próprio crescimento.

Quando você compartilha o seu conhecimento, você não está apenas dividindo ou repassando informação, você está abrindo espaço para a troca e para o crescimento como pessoa e profissional. Seu e do outro.

Muitas pessoas persistem no equívoco de que conhecimento deve ser tratado como um nicho, em que um único dono deve ser o tratado como o “imperador da informação”. Completamente errado. Compartilhar faz com que você se direcione a buscar mais, e faz com que os outros também busquem mais como você.

Esta atitude faz com que o que era considerado complexo ou único passe a fazer parte da rotina e todos tem de encontrar novos desafios para enxergar novas perspectivas para si próprio.

No mundo dos negócios, ganha mais quem mais compartilha conhecimento. Porque todos querem saber, todos querem comprar, todos querem crescer.

Se você está disposto a crescer e fazer de seu negócio ou carreira um sucesso, não se limite ao seu mundo. Compartilhe com seus aliados, com a sua equipe ou com seus colegas o seu conhecimento. Este é o verdadeiro sentido do crescimento.

Quando lhe perguntarem se você teme repassar conhecimento, não exite em dizer que o conhecimento precisa ser compartilhado, pois você pensa no outro como se fosse você mesmo.

Na verdade, saber compartilhar é evoluir, mais que qualquer coisa. É não se limitar, mas expandir os limites, até onde você desejar, que pode significar aboli-los.

Saiba que o único limite possível é apenas o seu entendimento a este respeito.

Compartilhe.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Compartilhar para crescer: O valor da reciprocidade




do blog Criatividade Aplicada

Lendo o artigo Por uma blogosfera solidária de Ricardo Cabianca, me lembrei de outro artigo lido há tempo e resolvi fugir um pouco do assunto deste blog e dar meu palpite.

James Bender, em seu livro How to Talk Well (New York: McGraw-Hill Book Company, Inc., 1994), relata a história de um fazendeiro premiado pela qualidade de sua lavoura de milho. Todo ano seu milho recebia o primeiro prêmio na exposição de seu estado. Uma vez um jornalista o entrevistou e conheceu algo interessante sobre como ele cultivava seu milho.

O jornalista descobriu que o fazendeiro fornecia suas sementes para os fazendeiros vizinhos. “Como você se permite compartilhar sua melhor semente de milho com seus vizinhos, se eles competirão com você todos os anos?” o jornalista perguntou.

“Bem senhor”, respondeu o fazendeiro, “você não sabe? O vento pega o pólen do milharal e o espalha de lavoura para lavoura. Se meus vizinhos cultivarem milho inferior, a polinização cruzada vai certamente degradar a qualidade de meu milho. Se pretendo cultivar um milho de qualidade, eu tenho de ajudar meus vizinhos a cultivar um bom milho”.

Este fazendeiro está muito ciente das conexões da vida. Seu milho não pode melhorar a não ser que o milho de seus vizinhos também possa melhorar. A mesma coisa ocorre em outras situações e dimensões. Aqueles que escolhem viver em paz devem ajudar seus vizinhos a ter paz. Aqueles que querem viver felizes devem ajudar os outros a encontrar a felicidade, pois o bem estar de cada um está firmemente ligado ao bem estar de todos.

O mesmo se pode dizer de uma comunidade dedicada ao intercâmbio de conhecimento e que compartilha um mesmo recurso tecnológico como a blogosfera. À medida que cada um contribui com o melhor de sua experiência, cada membro tem a oportunidade de se aperfeiçoar e melhorar continuamente suas próprias contribuições à comunidade. À medida que cada um se fortalece, a comunidade se torna mais forte, mais dinâmica e prestigiada.

Não se trata de assumir uma posição ingênua e ignorar a competição que existe dentro de toda comunidade, mas do reconhecimento de que uma comunidade forte tem um valor maior para ser compartilhado. Ela oferece mais possibilidades, opções e criatividade para todos. Cada um colherá sua parte conforme seus talentos e capacidade, mas certamente colherá uma parcela maior com uma mentalidade de abundância do que com uma mentalidade de escassez.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Início de um novo ano, tempo propício para reflexões e mudanças



A passagem de ano deveria servir para algo mais do que festas e trocarmos a folhinha do calendário, ao menos é o que pensamos aqui no Capacitor Fantástico.

O início de um novo ano nos leva a avaliar o que fizemos nos dias passados, e por consequência disso, escolher outros rumos, ou reafirmar nossas convicções e intenções.

Recentemente fomos duramente massacrados, via email, por algumas 'pessoas' que, apesar de se dizerem fãs do blog, nos criticaram 'sem-dó-nem-piedade', por estarmos divulgando ebooks que, segundo eles, iriam 'bombar' nos sites deles, pois eram raros e iriam garantir um bom número de acessos e consequentemente, 'din-din' na conta.

Francamente, tem gente que ainda não entendeu como a coisa funciona.
Entrou em uma festa onde se ouve chorinho e insiste em dançar rumba...

Poderíamos responder perguntando se já viram algum anúncio de produtos à direita ou à esquerda, ou se repararam que, ao clicar em algum link indicado por nós para Download, se havia um esquema de monetização embutido.

Mas responderemos de outra forma..

Para aqueles que ainda não 'prestaram atenção na música', resolvemos fazer uma Semana de conscientização (gostamos da pompa), sem link para download... 'nenhunzinho'.

(Ok, não será exatamente uma semana, apenas até sexta.)


Bom proveito a todos ( com muita calma pra pensar ) !

domingo, 10 de janeiro de 2010

Poul Anderson



Poul William Anderson (25 de novembro de 1926 - 31 de Julho de 2001) nasceu em Bristol, Pensilvânia (EUA), mas passou a infância no Texas. Após a morte de seu pai, sua família mudou-se para a Dinamarca, voltando aos Estados Unidos com o agravamento da Segunda Guerra Mundial na Europa, estabelecendo-se em Minnesota.

Anderson formou-se em física na Universidade de Minnesota em 1948 e, embora bacharelado com honras, não fez nenhuma tentativa para trabalhar como físico.

Começou a escrever ficção científica em 1937, enquanto estava convalescente de uma doença. O seu primeiro conto, publicado na revista Astounding em Setembro de 1944, foi 'A matter of relativity'.
Em 1947 publicou a sua primeira obra de envergadura: 'Tomorrow's children', na mesma revista, com apenas 20 anos, ainda um estudante.

Poul Anderson é lembrado como um dos mais criativos e altamente prolíficos autores de ficção científica da Golden Age (Época de Ouro). Escreveu cerca de 70 romances e mais de 100 contos, que apareceram em dezenas de antologias. 

Anderson é provavelmente mais celebrado pelas suas narrativas de aventuras, (pouco se dedicava a esforços na análise psicológica dos personagens) especialmente ao imaginar planetas cientificamente plausíveis e diferentes da Terra. Suas histórias freqüentemente mostravam heróis confrontados por um mundo alienígena.

Ele firmemente acreditava que uma condição para a continuação da raça humana, implicava na expansão para o espaço, razão pela qual sempre foi opositor das ideias de que a exploração do espaço seria um desperdício de dinheiro e um luxo desnecessário.

Esta conexão entre espaço e liberdade é claramente uma extensão do conceito americano da fronteira, onde os descontentes podem reivindicar por novas terras, como os pioneiros que levam a vida para asteróides mortos (Tales of the Flying Mountains), ou se instalam em planetas semelhantes à Terra, cheios de vida (Star Fox).

Poul Anderson recebeu todos os principais prêmios para um autor de FC e Fantasia, como o Gandalf Grand Master, o Hugo Award (sete vezes), John W. Campbell, Memorial Award , Locus Award (41 nomeações e uma vitória ), o Prémio Nebula (por três vezes), o Pegasus Award, Prémio Prometheus (quatro vezes, incluindo a especial Prometeu Lifetime Achievement Award em 2001) e o Grand Master Award pela SFWA.

Recentemente Poul Anderson voltou a ser debatido na internet, após vários fãs perceberem similaridades de seu conto 'Call Me Joe', com o filme ‘Avatar’, de James Cameron. No conto, cientistas em uma estação orbital, utilizam de "tecnologia psíquica' para assumir o controle da mente de um 'autômato biológico' (o Joe do título), que está sendo usado para estudar a superfície de Júpiter. O cientista que está fazendo este trabalho, um paraplégico mal-humorado, é capaz de viver - por "procuração" – na superfície de Júpiter. Os problemas começam a surgir quando fica evidente que o meio ambiente alienígena moldou uma personalidade que não deseja mais viver sob a ‘limitação humana’.  Em ‘Call me Joe’, Anderson lida com questões que apenas a FC consegue explorar com tanta propriedade, como a eterna pergunta sobre o que nos define como seres humanos.

Em entrevista para a Locus em 1997, Anderson disse que gostaria de ser lembrado por ‘Tau Zero’, ‘Midsummer Tempest’,’The boat of Million Years’ (limítrofe entre a ficção científica e fantasia), ‘Three Hearts and Three Lions’ e ‘The Enemy Stars’.

Sobre a FC americana, ele disse na época: "Tanta coisa na ficção científica norte-americana é provinciana... como essa suposição de que haverá no futuro uma cultura mais ou menos como a nossa, e com os mesmos ideais e as mesmas noções de como fazer as coisas, apenas com uma tecnologia mais aprimorada. Não funciona desta maneira..."



Poul Anderson ( Essas estrelas são nossas, A mágoa de Odin, O avatar, Os guardiões do tempo, Tau zero, Queen of air and darkness, Atraves de los tiempos, Brain Wave, Carne Compartida, Gitanos del espacio, Conan el rebelde, Cosecha de estrellas, Cuidado Terrestre, Delenda est, The dipteroid phenomenon, Duelo en Sirte, El xerife del canyon gulch, El avatar, El barbaro, El camarada, El campamento, El canto del chivo, El cielo en desintegracion, El crepusculo del mundo, El mundo del Satán, El pueblo del aire, El pulgar verde, El unico juego entre los hombres, El viaje mas largo, En orbita, We have fed our seas, Epilogo, Escudo invulnerable, Estado de emergencia, Eutopia, Fantasmas, Fin del capitulo, Fire time, War of the wing-men, Gheto, Guardiones del tiempo, Guerra de alados, The high crusade, High treason, In Memoriam, La espada rota, Le fiera y la bella, La gran cruzada, La luz, La nave de un millon de anos, La onda cerebral, La reina del aire y la oscuridad, La ultima medicina, Las estrellas son de fuego, Lo mejor de Poul, Los corredores del tiempo, Mesajero del futuro, Mirkleim, Ningun hombre escapa a su destino, No habra tregua para los Reyes, Operation Chaos, Operation Luna, Punto decisivo, Satan's world, Saturn game, Sin mundo propio, Star Ways, Starfares, The martian crown jewels, There will be time, Three hearts and three lions,  Tres corazones y tres leones, Valiente para ser Rey, The unicorn trade, The boat of a million years, The midsummer tempest, A shrine for lost children, A world named Cleopatra, Birthright, Broken sword, Call me Joe, Cold Victory, Corridors of time, Explorations, Eutopia, Flandry series, Fleet of stars, For love and glory, Genesis, Goat boy, Goat song, Harvest of stars series, Hokas Pokas, How to be ethnic, Inheritors of Earth, Margin of profit, Maurai and Kith, Murasaki, No truce with kings, Operation Luna, Plato's cave, Shield, Sky people, The Van Rijn method, The byworlder, The dancer from Atlantis, The demon of scattery, The Earth book of Stormgate, The enemy stars, The game of empire, The high crusade, The long night, The long way home, The makeshift rocket, The man who counts, The merman's children, The people of the wind, The problem of pain, The psychotechnic League, The season of forgiveness, The star fox, The tale of Hauk, The valor of Cappen Varra, Three worlds to conquer, Time patrol series, Time patrolman, Trade to stars, Two in time, Vault of the ages, Virgin planet, Wings of victory, Hoka!Hoka!Hoka! ) [ Download ]

sábado, 9 de janeiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 11



CAPÍTULO 11

Este capítulo é dedicado à livraria University da Universidade de Washington, cuja seção de Ficção Científica se compara às melhores que existem, graças ao olhar aguçado e dedicado de seu responsável por compras, Duane Wilkins. Duane é um verdadeiro fã de Ficção Científica - eu o encontrei pela primeira vez na Convenção Mundial de Ficção Cientifica em 2003 em Toronto - e isso se mostra na vitrine eclética e atualizada de sua loja. Um dos indicadores de uma grande livraria está na qualidade de suas resenhas próprias - pequenos cartões presos às prateleiras (geralmente escritos a mão) exortando as virtudes dos livros que de outra forma você não conheceria. O pessoal da University é claramente beneficiado graças à tutela de Duane.  
The University Bookstore 4326 University Way NE, Seattle, WA 98105 USA +1 800 335 READ

Jolu ficou de pé, tomando a palavra:
“É assim que a coisa começa, pessoal. Assim é que ficamos sabendo de que lado vocês estão. Vocês podem não querer ser parados nas ruas e ser presos por suas crenças, mas se vocês possuem crenças, isso nos deixara saber isso. Isso irá criar a rede de confiança que nos dirá quem está dentro e quem está fora.. Se formos pegar nosso pais de volta, precisamos fazer isso. Nós precisamos fazer algo assim.”
Alguém na audiência - foi Ange - levantou a mão segurando uma garrafa de cerveja.
“Pode me chamar de burra, mas eu não entendi isso tudo. Por que vocês querem que a gente faça isso?”
Jolu olhou para mim e eu para ele. Parecia tão óbvio quando nós organizamos aquilo.
“A Xnet não é só uma maneira de jogarmos games de graça. É a última rede de comunicação livre da América. É a única maneira de nos comunicarmos sem sermos espionados pela DHS. Para que isso funcione, precisamos saber que a pessoa com quem falamos não é um espião. Isso quer dizer que precisamos saber com quem trocamos mensagens são as pessoas que pensamos ser.”
“É ai que vocês entram. Vocês estão aqui por que acreditamos em vocês. Acreditamos de verdade. Acreditamos o bastante para arriscar nossas vidas.”

Alguns vaiaram. Isso pareceu melodramático e estúpido.
Eu voltei ao meu discurso.
“Quando as bombas explodiram” eu disse e algo perfurou meu peito, algo doloroso. “Quando as bombas explodiram, haviam quatro de nós na Rua do Mercado. Por algum motivo, o DHS decidiu que isso nos fazia suspeitos. Colocaram sacos em nossas cabeças, nos levaram para um barco e nos interrogaram por dias. Eles nos humilharam. Mexeram com nossas cabeças. E então nos deixarão ir embora.”
“Todos saímos, exceto uma pessoa. Meu melhor amigo. Ele estava conosco quando eles nos prenderam. Ele tinha sido ferido e precisava de cuidados médicos. Ele nunca mais foi visto. Eles disseram que se nós contássemos para alguém o que aconteceu, eles nos prenderiam e sumiriam com a gente para sempre.”
“Para sempre.”

Eu tremia. A vergonha. A maldita vergonha..Jolu tinha apontado a luz em mim.
“Deus do céu!” eu disse. “Você são os primeiros a saber dessa história. Se ela se espalhar, podem apostar que eles saberão quem contou. Podem apostar que eles virão bater na minha porta.” Respirei fundo. “É por este motivo que me ofereci para trabalhar pela Xnet. Este é o motivo da minha vida, a partir de agora, servir para combater a DHS. Cada respiração minha, todos os dias. Até que fiquemos livres novamente. Qualquer um de vocês pode me mandar para a cadeia agora, se quiser.”
Ange levantou a mão de novo. “Nós não vamos trair você.” ela disse. “Não mesmo. Eu conheço bem cada um aqui e posso prometer isso. Eu não sei dizer em quem eu posso confiar, mas eu sei em quem não posso confiar: gente velha. Nossos pais. Adultos. Quando eles pensam que alguém pode ser espionado é sempre um outro alguém, um sujeito ruim. Quando pensam em alguém sendo preso e mandado para uma prisão secreta, é sempre um outro alguém - alguém de cor, alguém jovem, alguém do estrangeiro.”
‘Eles se esqueceram de como é ter a nossa idade. Ser objeto de suspeita o tempo todo. Quantas vezes vocês já subiram num ônibus e cada pessoa nele deu para você aquele olhar como se você estivesse gargarejando com merda e arrancando a pele de animaizinhos? E o que é pior, eles estão se tornando adultos cada vez mais cedo. Antigamente costumava-se dizer que não se podia acreditar em ninguém com mais de 30. Eu digo, não confie em ninguém com mais de 25!”

Isso fez com que todos rissem, e ela riu também. Ela era pequena, de uma maneira bem esquisita de ser, como um jóquei de cavalos, com uma cara longa e queixo cumprido. “Eu não estou brincando, sabe? Quer dizer, pense nisso. Quem é que elege todos estes palhaços? Quem deixa que eles invadam nossa cidade? Quem votou para que colocassem câmeras nas salas de aula e nos seguissem por aí com estes assustadores chips espiões nos nossos passes de trânsito e nos carros? Não foi alguém de 16 anos. Podemos ser bobos, podemos ser jovens, mas não somos escória.”
“Eu quero uma camisa dizendo isso!” falei.
“Seria uma boa.” ela disse. Nós sorrimos.
“Onde preciso ir para conseguir minhas chaves?” ela perguntou e puxou seu telefone.
“Vamos fazer isso logo ali, num lugar isolado nas cavernas. Eu te levo até lá e preparo para você. Então você vai poder fazer o que precisa e vai deixar a máquina para seus amigos tirarem fotos de sua chave pública e eles poderão assiná-la quando chegar em casa”.

Levantei a voz e falei: “Mais uma coisa! Caramba, eu esqueci de dizer! Não acredito! Apaguem as fotos após terem entrado com as chaves. A última coisa que queremos são estas fotos num álbum no Flickr com todos nós aparecendo conspirando juntos.”
Houve um consentimento geral, risos nervosos e então Jolu apagou a lanterna e na súbita escuridão eu não pude ver mais nada. Aos poucos, meus olhos se ajustaram e fui até as cavernas. Alguém vinha atrás e era Ange. Virei-me e sorri para ela e ela sorriu de volta, com dentes luminosos na escuridão.
“Obrigada por dizer aquilo! Você foi demais!”
“Você passou mesmo por tudo isso? O saco na sua cabeça e tudo mais?”
“Sim. Aquilo aconteceu. Eu nunca contei para ninguém, mas aconteceu.” Pensei por um momento e disse: “Sabe, ficamos muito tempo sem falar sobre isso e começou a parecer como se tivesse sido apenas um pesadelo. Mas foi de verdade.” Parei e entrei na caverna. “Estou contente de poder finalmente contar para as pessoas sobre isso. Se tivesse demorado mais, eu acho que começaria a duvidar da minha própria sanidade.”
Coloquei o laptop sobre uma rocha seca e liguei-o inicializando a partir do DV nele enquanto ela observava. “Vou religá-lo para cada pessoa. Este é um disco ParanoidLinux padrão, acho que vai precisar confiar em mim.”
“Diabos!” ela disse. “Mas isso é mesmo sobre confiança, não é?”
“É. Confiança.”

Dei alguns passos me afastando enquanto ela executava o gerador de chaves, ouvindo-a teclar e mexendo o mouse para gerar o aleatoriamente, ouvindo as ondas quebrando longe e os ruídos de toda festa onde havia cerveja.
Ela saiu da caverna carregando o laptop. Nele, em letras brancas luminosas estava a sua chave pública, sua “impressão digital” e seu endereço de email. Ela segurou a tela junto do rosto enquanto eu puxava meu telefone.
 “Xis” ela disse. Eu tirei sua foto e devolvi o celular ao bolso. Ela foi até os outros e deixou-se ser fotografa com o laptop. Foi engraçado. Ela tinha bastante carisma, você não sentia vontade de rir dela, mas com ela. Enfim, foi divertido! Nós estávamos declarando uma guerra secreta à polícia secreta. Quem diabo a gente pensava que era?

E foi assim, na próxima hora e depois, todos tirando fotos e fazendo fotos. Encontrei todos por lá. E eu conhecia muitos deles - alguns eram meus convidados - e os outros eram amigos dos meus amigos ou amigos dos amigos de meus amigos. Devíamos ser todos amigos. E ficamos conforme a noite se ia. Eram todos gente boa.

Quando quase todos tinham ido embora, Jolu foi fazer sua chave e voltou de lá rindo encabulado. Minha raiva por ele tinha passado. Ele estava fazendo o que tinha que fazer. Sabia que não importava o que ele tinha dito, ele sempre estaria lá para me ajudar. Tínhamos ido para a cela da DHS juntos. Van também. Não importava, aquilo tinha nos unido para todo sempre.
Fiz minha chave e fui encontrar minha turma e deixei que tirassem fotos minhas, então subi na mesma ruína de antes e chamei a atenção de todos.
“Alguns de vocês perceberam que há uma falha vital no processo: o que aconteceria se este laptop não fosse confiável? Se secretamente gravasse nossas instruções? Se estivesse nos espionando? Se Jose-Luis e eu não fossemos confiáveis?”
Mais alguns risos, um pouco mais calorosos que antes, mais alcoólicos.
“Quer dizer, se nós estivéssemos do lado errado, isso aqui poderia a todos nós - todos nós! - em apuros. Provavelmente na cadeia.”
Os risos ficaram nervosos.
“É por isso que vou fazer isso!” disse, e peguei o martelo do meu pai, que havia trazido comigo.
Coloquei o laptop numa pedra e ergui o martelo, Jolu o seguiu com sua lanterna.
CRASH - sempre sonhei em acabar com um laptop com um martelo e finalmente consegui. Me senti pornograficamente bem. E mal.
A tela plana se partiu em milhões de pedaços. Continuei batendo nele até o teclado saltar, expondo a placa mãe e o HD. CRASH - mirei no HD e acertei com tudo que podia. Precisou de três porradas para o case se partir, expondo o interior frágil. Continuei até que não tivesse restado nada maior do que um isqueiro, então joguei tudo dentro de um saco de lixo. A platéia gritava loucamente - alto o bastante para eu ficar preocupado de que alguém longe dali pudesse ouvir e chamar a lei.
“OK! Agora se quiserem me acompanhar, vou até o mar e mergulhar isso em água salgada por dez minutos.”
A princípio ninguém se interessou, mas então Ange veio de trás e pegou meu braço com sua mão quente e disse no meu ouvido: “Isso foi lindo” e seguimos juntos para a praia.

O caminho até lá estava bem escuro e traiçoeiro, mesmo iluminado por nossas pequenas lanternas. Umas pedras lisas e pontudas que dificultavam nossa caminhada ainda mais carregando três quilos de componentes eletrônicos quebrados em um saco plástico. Quase caí e ia me machucar feio, mas ela me segurou com uma pegada surpreendentemente forte e me manteve firme de pé. Fui jogado contra ela, perto o bastante para sentir seu perfume, igual ao de um carro novo. Eu adorava este cheiro.
“Obrigado.” consegui dizer, encarando seus olhos enormes que pareciam ampliados ainda mais por seus óculos masculinos e pretos. Não conseguia saber de que cor eles eram no escuro, mas eu apostava que eram negros, baseado no seu cabelo negro e complexão azeitonada. Parecia mediterrânea, talvez grega, espanhola ou italiana.

Me curvei para mergulhar o saco na água salgada do mar, deixando se encher. Uma onda veio e ensopou meus sapatos e ela riu. Mal falávamos diante do mar. Tinha algo de mágico neste silêncio sem palavras.
Até aquele momento eu tinha beijado um total de três garotas em toda minha vida, sem contar aquela vez que voltei para a escola e fui recebido como um herói. Não era um número gigantesco, mas também não era pouco. Eu tinha um radar muito bom para garotas, e achei que deveria beijá-la. Ela não era UAU no sentido tradicional, mas tinha algo sobre ela e a noite e a praia, alem disso ela era esperta e entusiasmada e comprometida.

Mas eu não a beijei nem peguei sua mão. Ao invés disso, nós tivemos um instante que eu poderia chamar de “espiritual”. As ondas quebrando, a noite, o mar e as rochas e nossa respiração. O momento se prolongou. Eu suspirei. Tinha sido bem trabalhoso. Tinha muita coisa para fazer ainda esta noite, colocar todas as chaves no meu chaveiro, assiná-las e passar à frente as chaves assinadas. Dar o “start” na rede de confiança.
Ela suspirou também.
“Vamos embora” eu disse.
“Vamos” ela disse.
Voltamos. Tinha sido uma noite boa.

#

Jolu esperou que o amigo de seu irmão viesse pegar as geladeiras. Eu fui andando com o resto do pessoal pela estrada até o ponto de ônibus mais perto e subi a bordo. É claro que nenhum de nos estava usando um passe municipal original. Os Xnetters costumavam clonar os passes de outros, três ou quatro vezes por dia, assumindo nova identidade a cada viagem.

Era difícil ficar quieto no ônibus. Estávamos um pouco bêbados e nossas caras na luz do ônibus estavam hilárias. Falávamos um pouco alto e o motorista usou seu inter-comunicador para baixarmos a voz duas vezes então disse para calarmos a boca ou ele chamaria a polícia.
Isso nos fez rir bastante e acabamos desembarcando em massa antes que ele chamasse os policiais. Estávamos agora em North Beach e havia muitos ônibus, taxis, o BART da Rua do Mercado, clubes com suas luzes neon e cafés, para separar nosso grupo, então nos dispersamos.
Cheguei em casa,  liguei o Xbox e comecei a salvar as chaves da tela do meu telefone celular Era um trabalho chato e hipnótico. Estava um pouco bêbado e quase dormindo.

Estava prestes a cochilar quando uma janela nova do IM (Instant Messager) se abriu.
> Oi
Não reconheci o apelido -- spexgril -- mas tinha uma idéia de quem podia ser.
> Oi
Teclei cautelosamente.
> Sou eu, de hoje à noite
Então ela colou um bloco de cripto. Eu já tinha entrado sua chave pública no meu chaveiro, então fiz o client do IM tentar decodificar o código com a chave.
> Sou eu, de hoje à noite
Era ela!
> Legal te encontrar aqui
Teclei e criptografei para minha chave pública e enviei por correio
> Foi ótimo te encontrar.
Eu teclei
> Você também. Não conheço muitos garotos espertos que são também uma graça e tão sociais. Bom Deus, você não dá muita chance para uma garota.
Meu coração socava no peito.
 > Olaaaa? Tá ligado?  Não nasci aqui, pessoal, mas vou acabar morrendo aqui. Não esqueça de dar gorjeta ao garçom, eles trabalham duro. Estou aqui a semana toda.
Ri demais.
> Estou aqui, aqui. Rindo tanto que não consigo teclar.
> Ao menos meu humor-fu ainda funciona!
Hum.
> Foi realmente ótimo te conhecer.
> Sim, costuma ser. Para onde você vai me levar?
> Levar você?
> Na nossa próxima aventura.
> Não tenho nada planejado.
> Ok -- então eu vou te levar. Sexta. Dolores Park. Um concerto ilegal a céu aberto.
> O que?
> Não lê a Xnet? Está por toda parte. Já ouviu falar das Putas Velozes?
Quase sufoquei. Era a banda de Trudy Doo-- a mulher que pagou a Jolu para aprimorar o código da sua indienet.
> Sim. Já ouvi falar deles.
> Vão fazer um enorme show e vai ter tipo cinqüenta bandas lá nas quadras de tênis e vão trazer suas próprios amplificadores e o som vai rolar a noite inteira.

Senti como se eu vivesse debaixo de uma pedra. Como pude perder isso? Tinha uma livraria anarquista em Valencia que eu passava em frente às vezes quando ia para a escola e que tinha um pôster de um velho revolucionária chamada Emma Goldman com um titulo “Se eu não puder dançar, não quero fazer parte da sua revolução!” Tinha gasto todas minhas energias pensando em como usar o Xnet para organizar a luta contra o DHS, mas aquilo era muito mais legal. Um grande show - Não tinha idéia de como fazer um desses, mas eu ficava feliz que alguém o fizesse.

E agora que pensei nisso, eu estava orgulhoso pra caramba deles estarem usando a Xnet para isso.

#

No dia seguinte eu parecia um zumbi. Ange e eu tínhamos conversado/flertado, até as 4 da manhã. Felizmente para mim era sábado e pude dormir à vontade, mas entre a ressaca e o sono profundo, mal pude colocar duas idéias juntas.

Lá pelo almoço me levantei e fui para as ruas. Fui até o Turk para comprar meu café - nestes dias, se estava sozinho, eu sempre comprava meu café lá, como se o Turco e eu fizéssemos parte de algum clube secreto.
Pelo caminho passei por alguns grafites frescos; eu gostava dos grafites da Missão, grandes painéis atraentes, ou estênceis bem humorados dos estudantes de arte. Gostava dos caras poderem fazer isso bem debaixo do nariz da DHS. Era um outro tipo de Xnet, suponho - eles tinham tudo quanto é jeito de saber o que estava acontecendo, onde pintar, que câmeras estavam funcionando. Algumas câmeras tinham sido pintadas por spray, eu percebi.

Talvez usassem a Xnet!

Pintado em letras de cinco metros de altura, na parede ao lado do estacionamento estava escrito:
 ‘NÃO ACREDITE EM NINGUÉM COM MAIS DE 25’.

Parei. Será que alguém tinha saído da minha ‘festa’ na noite passada e vindo até ali com uma lata de tinta? Muitos viviam nesta vizinhança.

Dei uma volta pela cidade com meu café. Pensava se devia ligar alguém para ver se estavam a fim de ir ao cinema ou coisa parecida. Era quase sempre assim nos sábados. Mas quem chamar? Van não estava falando comigo. Não estava a fim de falar com Jolu e Darryl… bem, não podia ligar para Darryl.
Fui para casa e fiz alguma pesquisa nos blogs do Xnet. Estes blogs eram impossíveis de se rastrear - a não ser que o autor fosse estúpido demais de colocar seu nome nele - e tinha muitos assim. A maioria era apolítica, mas muitos não eram. Falavam sobre escolas e da falsidade das pessoas. Falavam sobre a polícia..
O show no parque estava sendo muito falado. O assunto pulava de um blog para outro, virando uma avalanche sem que eu percebesse. E o concerto se chamava ‘Não confie em ninguém com mais de 25.’
Bem, isso explicava de onde Ange tirara aquilo. Era um bom slogan.

#

Na segunda pela manhã eu decidi que queria dar uma checada naquela livraria anarquista de novo, ver se conseguia algum daqueles pôsteres de Emma Goldman. Precisava de uma lembrança.
Voltei à rua 16 e a Missão, no meu caminho da escola, e daí para Valencia. A loja estava fechada, mas peguei o horário de funcionamento e me certifiquei de que ainda tinham os pôsteres.
Andando pela Valencia, fiquei impressionado com a quantidade de coisas a respeito do ‘Não Confie em
Ninguém com mais de 25’. Metade das lojas tinham ao menos um produto na vitrine: Lancheiras, roupas, estojos, bonés. As lojas modernas estavam cada vez mais rápidas. Quando um meme surgia na rede, em um dia ou dois as lojas já colocavam o produto à venda. Bastava um vídeo engraçado de um cara no Youtube, de um cara voando com jatos feitos de propulsão de água com gás aparecer na sua caixa de entrada na segunda, para na terça você já poder comprar uma camisa com fotografias do vídeo.

Mas era incrível ver algo fazer a passagem do Xnet para as lojas. Jeans detonados com o slogan escrito com tinta imitando caneta escolar.
Boas notícias voam.

Estava escrito no quadro quando entrei na sala durante a aula de Estudos Sociais de Senhorita Galvez. Todos sentados em suas cadeiras, sorrindo. Parecia haver algo profundamente animador na idéia de que todos podiam confiar uns nos outros e que o inimigo poderia ser identificado. Eu sabia que não era completamente verdade, mas também não era inteiramente falso.
Senhorita Galvez veio ajeitando o cabelo e sentou-se à frente de seu computador escolar e o ligou. Então virou-se e viu o que estava escrito no quadro. Todos rimos. Bem espontâneos, mas rimos.
Quando se virou ela também ria. “Parece que a presunção pegou os escritores de slogan do país. Quantos de vocês sabem de onde esta frase veio?”

Olhamos uns para os outros. “Hippies.” disse alguém e nós rimos. Os hippies estavam por toda São Francisco, assim como os tipos meio doidos com barbas enormes e roupas tingidas e o tipo mais novo, menos mal vestido e que talvez jogasse mais fotbag, do que protestasse contra alguma coisa.
“Bem, Hippies, sim. Mas quando pensamos em hippies hoje em dia, pensamos somente na música e nas roupas. As roupas e a música foram incidentais para a maior parte daqueles daquela época, os anos 60. Vocês já ouviram falar dos movimentos dos direitos civis e o final da segregação, garotos brancos e negros pegando ônibus para o sul, para manifestar-se pelo voto negro e protestar contra o racismo oficial. A Califórnia era um dos lugares de onde vieram os líderes dos direitos civis. Sempre fomos um pouco mais políticos do que o resto do país e aqui foi um lugar onde os negros podiam conseguir empregos iguais aos brancos, um pouco melhor do que nossos amigos sulistas.”
“Os estudantes de Berkeley fizeram sua parte, nos campus de Bancroft e Telegraph Avenue. Vocês provavelmente já sabem. Bem, o campus tentou impedi-los. O presidente da Universidade baniu qualquer tipo de organização política no campus, mas os garotos dos direitos civis não pararam. A polícia tentou prender um deles e o colocaram detido num automóvel, mas 3000 estudantes cercaram a polícia e não a deixaram sair. Não iriam deixar o garoto ser colocado na prisão. Subiram no veículo e começaram a discursar sobre a Primeira Emenda e Liberdade de Expressão.”
“Aquilo gerou o movimento pelo direito à liberdade de expressão. Começou com os hippies, mas foi também do movimento estudantil radical que veio. Grupos pelo poder aos negros, como os Panteras Negras  e mais tarde dos direitos dos gays, como os Panteras Rosas também. Grupos radicais de mulheres, até separatistas lésbicas que queriam abolir os homens no geral!  E os Yippies. Alguém já ouviu falar dos Yippies?”
“Eles não levitaram o Pentágono?” falei. Tinha visto um documentário sobre isso.
Ela riu. “Tinha esquecido disso, mas sim, foram eles! Yippies eram hippies bastante políticos, mas não eram muito sérios do jeito que pensamos a política atual. Eram brincalhões. Atiravam dinheiro na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Cercaram o Pentágono com centenas de manifestantes e disseram que um feitiço mágico iria levitá-lo. Inventaram um tipo de LSD imaginário, que podia ser atirado por spray nas pessoas com armas de espirrar até ficarem chapados. Eram hilários e faziam grandes shows na televisão - um yippie chamado Wavy Gravy costumava colocar os manifestantes vestidos de Papai Noel para que as câmeras pudessem mostrar oficiais da polícia prendendo e arrastando o velho Noel no noticiário noturno - e mobilizava muita gente.”
“O grande momento deles foi durante a convenção democrática nacional de 1968, onde foram protestar contra a guerra do Vietnã. Milhares invadiram Chicago, dormindo em parques e fazendo piquete o dia inteiro. Levavam para as ruas uns troços bizarros naquele ano, como escolher um porco (pig) chamado Pigasus como candidato a presidência. A polícia e os manifestantes brigavam nas ruas, como já tinham feito antes, mas os policiais de Chicago não eram tão espertos ao ponto de deixarem os repórteres em paz. Bateram nos jornalistas e estes retaliaram mostrando o que acontecia de verdade nestes embates, o país todo pôde ver os garotos sendo espancados pela polícia de Chicago. Chamou-se de ‘Police riot’ (Baderna polícial)”
“Os Yippies gostavam de dizer ‘Não confie em ninguém com mais de 30’ Queriam dizer que as pessoas que tinham nascido antes de um certo tempo, quando a América tinha lutado contra os nazistas, não conseguiam entender o que significava amar seu país o bastante para se recusar a lutar contra os vietnamitas. Diziam que uma vez que se atingia os 30 anos, suas atitudes ficavam congeladas e que não podia entender o por que os jovens de hoje iam para as ruas, desertavam, piravam.”
“São Francisco foi o Marco Zero para eles. Exércitos revolucionários foram fundados aqui. Alguns explodiam prédios e roubavam bancos pela causa.  Alguns destes garotos crescerem para ser mais ou menos normais, enquanto outros acabaram na cadeia. Alguns daqueles caras da universidade que fugiram do alistamento fizeram coisas magníficas - por exemplo, Steve Jobs e Steve Wozniak, que fundaram a Apple Computadores e inventaram o PC.”

Eu estava ligado na coisa. Conhecia um pouco sobre aquilo, mas nunca tinha ouvido ninguém contar deste jeito. Ou talvez nunca me importasse tanto quanto agora. Subitamente, aquelas demonstrações de rua não pareciam tão estúpidas depois de tudo. Talvez tivesse algo para o tipo de ação do movimento Xnet.
Levantei a mão. “Eles venceram? Os Yippies venceram?”

Ela me olhou demoradamente e disse:
“Eles meio que se implodiram. Alguns foram presos por drogas e outras coisas. Outros mudaram e se tornaram yuppies e mudaram de lado, passando a dar palestras contando sobre como foram estúpidos, sobre como a ganância era boa e como eles tinham sido cegos.”
“Mas eles mudaram o mundo. A guerra no Vietnã acabou e aquele tipo de conformidade de obediência sem questionamento que chamavam de patriotismo ficou fora de moda totalmente. Direitos para os negros, mulheres e gays. Direitos para os chicanos, para pessoas deficientes, toda a tradição de liberdades civis foi criada ou fortalecida por esta gente. Os movimentos de protesto de hoje são diretamente descendentes daquelas lutas.”
“Não poso acreditar que esteja assim falando deles.” disse Charlie. Ele estava curvado em seu assento, meio sentado e seu rosto magro e afilado tinha ficado vermelho. E suado, olhos grandes e lábios grandes e excitado parecendo um pouco cm um peixe.
Senhorita Galvez fez-se ereta um pouco e disse; “Continue, Charlie.”
“Você acabou de descrever terroristas. Os terroristas de hoje. Eles explodiam prédios, como disse. Tentaram destruir nossa Bolsa de Valores. Batem em policiais e evitam que os policiais prendam quem está quebrando a lei. Eles nos atacaram!”

Senhorita Galvez assenti lentamente. Poderia dizer que ela estava tentando pensar como agir com Charlie, que parecia estar prestes a explodir.
“Charles levantou um ponto interessante. Os Yippies não eram estrangeiros, eram cidadãos Americanos. Quando diz que eles nos atacaram, precisa pensar em quem são ‘eles’ e ‘nós’. Quando são seus compatriotas...”
“Besteira!” ele gritou. Estava de pé. “Estamos em guerra com eles. Estes caras estão ajudando o inimigo. É fácil dizer quem somos nós e quem são eles: se você apóia a América, você é um de nós. Se você apóia as pessoas que atiram em Americanos, então é um deles.”
“Alguém mais quer comentar?”

Várias mãos se ergueram. Senhorita Galvez os chamou. Alguns disseram que a razão dos vietnamitas atirarem em Americanos era por que os Americanos se meteram no Vietnã e começaram a andar pelas selvas de lá com armas. Outros disseram que Charles tinha razão e que pessoas não deviam ser permitidas a fazer coisas ilegais.

Todos debatiam bem, exceto Charlie, que só sabia gritar e interromper quando eles tentavam colocar suas idéias. Senhorita Galvez tentava fazê-lo esperar por sua vez várias vezes, mas não estava conseguindo.
Eu procurava algo no meu computador escolar, algo que eu sabia ter lido.
Encontrei. E fiquei de pé. Senhorita Galvez parou, esperando. Os outros a imitaram e se calaram. Mesmo

Charlie olhou para mim depois de um tempo, seus olhos enormes e úmidos queimando e me odiando.
“Queria ler uma coisa.” Eu disse. “ É curto. Os Governos são instituídos entre os homens, dando a eles o poder pelo consenso dos governados, sendo que, se de alguma forma este se tornar destrutivo, é do direito do povo alterá-lo ou o abolir e instituir novo governo, amparando sua fundação em tais princípios e organizando seus poderes da forma que garantam sua efetiva segurança e felicidade.”
 


Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 11 [ Download ]

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Seria “Avatar” de James Cameron, um plágio?




Um paraplégico que se conecta artificialmente com uma forma de vida artificial, criada somente com a missão de explorar um planeta hostil, deleita-se com a liberdade e a força de seu novo corpo, enquanto luta com predadores selvagens e, gradualmente, vai se tornando um nativo, na medida que passa mais tempo conectado.

Sinopse do mega-sucesso de bilheteria 'Avatar' ?

Não. Esta história chama-se 'Call me Joe', e foi escrita por Poul Anderson em 1957.

Não é a primeira vez que Cameron enfrenta acusações de plágio. Com 'O Exterminador do Futuro', o diretor foi obrigado a reconhecer (e dar crádito) que se utilizou das ideias de outro famoso escritor de FC, Harlan Ellison. Teria plagiado dois episódios seus, escritos para a série de televisão 'The Outer Limits'.

E se tanta coincidência entre o filme de Cameron e o livro de Anderson não fosse o bastante, o mesmo Anderson possui em sua obra, um livro chamado... Avatar. Já outros preferem apontar semelhanças entre o filme e uma série de quadrinhos da Marvel, intitulada Timespirits, ou com o filme de animação 'Delgo'.

Mas enquanto James Cameron não assume que deve a Poul Anderson ao menos o reconhecimento, que tal conhecer melhor 'Call me Joe', e tirar suas próprias conclusões?

Call me Joe - Poul Anderson [ Download ]





Starstream #4 - c/ a adaptação para quadrinhos do conto 'Call me Joe' de Poul Anderson [ Download ]





Lido no blog EbooksGratis

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Under The Dome - Stephen King




No final do ano de 1976, Stephen King desistia de um projeto (já com quase 80 páginas escritas) que batizara de 'Canibais'. Uma década depois, voltaria a tentar avançar no tema, agora renomeado 'Canibais sob o Domo', igualmente sem sucesso.

Segundo ele, desenvolver a ideia exigiria muito dele, e tinha medo de estragar a história, por preguiça ou falta de ânimo naquela época. As duas tentativas de escrever o que viria a ser depois 'Under the Dome', tinham em comum, explorar o comportamento de grupos, quando isolados do resto da sociedade.

Do antigo material perdido, sobrou apenas o primeiro capítulo, reescrito em detalhes por King apenas de lembrança.

A ideia que não saiu de sua cabeça, por mais de 20 anos era:  O que aconteceria se derrepente, um campo de força invisível isolasse uma pequena cidade por completo?

A cidade de Chester's Mill (população de cerca de 2.000 pessoas) é subitamente cortada do contato com o resto do mundo, por uma barreira invisível, impedindo que qualquer coisa, senão uma pequena quantidade de ar e vapor d'água, passe através dela.

Depois do "Dia do Domo", como é chamado o evento, a cidade rapidamente desmorona em anarquia, e uma guerra eclode entre a população, antes pacífica, agora paranóica, violenta e suicida.





"...the blood hits the wall like it always hits the wall."

Poucos escritores conseguem criar tantas histórias incríveis, a partir do 'O que aconteceria se...', tão bem quanto Stephen King, um hit maker da literatura.

Quem mais senão ele, pegaria uma situação implausível, um domo selando uma cidade inteira, e traria-a para a realidade, elaborando-a com detalhes e observações minuciosas, e criando ao final, a sensação de que aquilo não é assim tão improvável...

Repleto de referências de outros livros seus, 'Under the Dome' conta também com personagens facilmente identificaveis no imaginário de King, todos construídos de forma que nos faz quase jurar conhecê-los pessoalmente. Temos a ex-fuzileira vivendo de remorso e culpa, presa em um emprego miserável. O sujeito forte, mas que se vê fragilizado pelas circunstâncias, o ranzinza lunático-religioso-inescrupuloso, e é claro, não poderia faltar um menino, bastante sábio para sua pouca idade, e que enxerga com clareza a situação.    

'Under the Dome' tem a marca dos melhores trabalhos de King, podendo ser comparado a 'The Stand', pela forma que trabalha o imponderável, ou 'The Mist', pela situação claustrofóbica, porém de ambos, o que lembramos (e apreciamos), são os pequenos e sombrios segredos que emergem de seus personagens...

King não somente apresenta seu diorama de velhos arquétipos, mas revira a moralidade complexa dos dias atuais.  E faz tudo isso embalado em uma história de puro terror...


Nota: A DreamWorks TV (leia-se 'Steven Spielberg') adquiriu os direitos da adaptação do livro.

Nota2: O marketing viral para lançamento do livro, contou com a criação na internet, de sites sobre  Chester's Mill, como a Câmara de comércio e turismo da cidade, o restaurante, o jornal e o mercado.

Nota3: No início de janeiro de 2008, King declarou em uma entrevista que, 'seria responsável pela morte de muitas árvores em breve'. Este era seu jeito de dizer que o primeiro manuscrito de 'Under the Dome', pesava quase 9 quilos, e continha mais de duas mil páginas...

Under the Dome - Stephen King [ Download ]

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

The Original Battlestar Galactica (5 livros)












The Original Battlestar Galactica (1-Battlestar Galactica, 2-The Cylon death machine, 3-Ressurrection, 4-Rebellion, 5-Paradis) [ Download ]

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O Prêmio Nebula



 Assim como o Hugo, o Nebula é um dos mais antigos e valiosos prêmios dentro do universo da FC e Fantasia em lingua inglesa.

Desde 1965, a Science Fiction and Fantasy Writers of America (SFWA) premia com o Nebula, os melhores trabalhos de FC ou Fantasia, dentro das faixas:

Novel: 40.000 palavras ou mais
Novella: De 17.500 a 40.000
Novelette: De 7.500 a 17.500
Short story:  Menos de 7.500 palavras
Script: Roteiro para cinema, TV ou rádio ou peça.

Os membros do SFWA podem sugerir trabalhos publicados durante o ano e até aqueles do ano anterior, desde que não tenham sido indicados anteriormente, até 15 de novembro. Entre esta data e 15 de Fevereiro do ano seguinte, os membros escolhem 5 ou mais de cada categoria.
Os 6 mais votados de cada categoria vão para a cédula de votação final como indicados para receber os prêmios. A votação final se dá até o final de Março.

Durante a cerimônia de entrega, outros prêmios dados pela SFWA também são as vezes entregues, como o
Author Emeritus pela contribuição aos gêneros, o Damon Knight Memorial Grand Master Award pelo conjunto da obra, o Bradbury Award pela excelência na arte, e Andre Norton Award, pelo melhor trabalho para jovens em FC e/ou Fantasia. A partir de 2009, a SFWA também premia pessoas que tiveram alguma relevância na ficção especulativa, com o Solstice Award. Assim como o título de Grand Master, trata-se de uma homenagem póstuma.

A SFWA conta com, aproximadamente, 1.500 membros, a maioria vivendo nos EUA. Para fazer parte da associação é necessário que o autor(a) tenha sua obra publicada em inglês, pertencente aos gêneros Ficção Científica, Fantasia ou terror, e que pague uma anuidade que varia de 60 a 100 dólares, dependendo do tipo de afiliação.





Melhor romance (novel) por ano de premiação:

1965 - Dune de Frank Herbert    
1966 - Babel-17 de Samuel R. Delany e Flowers for Algernon de Daniel Keyes
1967 - The Einstein Intersection de Samuel R. Delany    
1968 - Rite of Passage de Alexei Panshin    
1969 - The Left Hand of Darkness de Ursula K. Le Guin    
1970 - Ringworld de Larry Niven    
1971 - A Time of Changes de Robert Silverberg    
1972 - The Gods Themselves de Isaac Asimov    
1973 - Rendezvous with Rama de Arthur C. Clarke    
1974 - The Dispossessed de Ursula K. Le Guin    
1975 - The Forever War de Joe Haldeman    
1976 - Man Plus de Frederik Pohl    
1977 - Gateway de Frederik Pohl    
1978 - Dreamsnake de Vonda McIntyre
1979 - The Fountains of Paradise de Arthur C. Clarke    
1980 - Timescape de Gregory Benford    
1981 - The Claw of the Conciliator de Gene Wolfe    
1982 - No Enemy But Time de Michael Bishop    
1983 - Startide Rising de David Brin
1984 - Neuromancer de William Gibson    
1985 - Ender's Game de Orson Scott Card    
1986 - Speaker for the Dead de Orson Scott Card    
1987 - The Falling Woman de Pat Murphy    
1988 - Falling Free deLois McMaster Bujold    
1989 - The Healer's War de Elizabeth Ann Scarborough    
1990 - Tehanu: The Last Book of Earthsea de Ursula K. Le Guin    
1991 - Stations of the Tide de Michael Swanwick    
1992 - Doomsday Book de Connie Willis    
1993 - Red Mars de Kim Stanley Robinson    
1994 - Moving Mars de Greg Bear    
1995 - The Terminal Experiment de Robert J. Sawyer    
1996 - Slow River de Nicola Griffith    
1997 - The Moon and the Sun de Vonda McIntyre    
1998 - Forever Peace de Joe Haldeman    
1999 - Parable of the Talents de Octavia E. Butler
2000 - Darwin's Radio de Greg Bear    
2001 - The Quantum Rose de Catherine Asaro    
2002 - American Gods de Neil Gaiman    
2003 - The Speed of Dark de Elizabeth Moon    
2004 - Paladin of Souls de Lois McMaster Bujold     
2005 - Camouflage de Joe Haldeman   
2006 - Seeker de Jack McDevitt    
2007 - The Yiddish Policemen's Union de Michael Chabon
2008 - Powers de Ursula K. Le Guin


Prêmio Nebula de melhor romance (1965-2008) [ Download ]

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O Prêmio Hugo



Frequentemente você lê no Capacitor Fantástico, que este ou aquele autor de FC foi indicado, ou recebeu, um prêmio Hugo, mas você conhece a história deste respeitado prêmio, ou como são escolhidos os vencedores?

Desde 1953, (e a partir de 1955 anualmente) o Hugo Awards premia o melhor livro de Ficção Científica ou Fantasia, de cada ano, publicado em inglês no ano anterior. Atualmente não apenas livros, pois existem 15 categorias, que vão de fanzine a editor, passando por filme, peça de rádio, webzine, graphic story, etc.

O nome do prêmio é uma homenagem ao "Pai da FC", o editor da revista Amazing Stories, Hugo Gernsback, responsável tanto por levar a Ficção Científica para o grande público, quanto fomentar o interesse em se escrever este gênero nos EUA. 

O formato do troféu muda a cada ano, mas mantendo uma referência ao foguete cromado, do troféu original desenhado por Jack McKnight e Ben Jason, a partir de um ornamento comum para automóveis da década de 50.

Atualmente cabe ao World Science Fiction Society, a organização do prêmio. A WSFS também é  responsável pelas famosas convenções de FC e Fantasia (Worldcon), que ocorrem pelo mundo.

O processo de votação se dá da seguinte forma:

Entre Janeiro e Março, os participantes da Worldcon daquele ano (que pagam algo em torno de 50 dólares para participar), escolhem cinco pessoas ou trabalhos de destaque no ano anterior, distribuidas pelas 15 categorias. Aproximadamente mais de 500 indicados ao todo.

Em Abril é divulgada a lista dos finalistas (os cinco mais votados) de cada categoria, e a cédula para votação é enviada para os membros da WSDS daquele ano. Por volta de Julho (dependendo da época da Worldcon) sai o resultado, e é feita uma cerimônia para entrega dos troféus.

Embora não exista prêmio em dinheiro, receber um Hugo, além do prestígio, impulsiona as vendas e promove o autor mundialmente.




Os vencedores de melhor livro de cada ano:

1946 - The Mule, Isaac Asimov (atribuído em 1996)
1951 - Farmer in the Sky, Robert A. Heinlein (atribuído em 2001) 
1953 - The Demolished Man, Alfred Bester
1954 - Fahrenheit 451, Ray Bradbury (atribuído em 2004)
1955 - They'd Rather Be Right (The Forever Machine), Mark Clifton e Frank Riley
1956 - Double Star, Robert A. Heinlein
1958 - The Big Time, Fritz Leiber
1959 - A Case of Conscience, James Blish
1960 - Starship Troopers, Robert A. Heinlein
1961 - A Canticle for Leibowitz, Walter M. Miller, Jr.
1962 - Stranger in a Strange Land, Robert A. Heinlein
1963 - The Man in the High Castle, Philip K. Dick
1964 - "Here Gather the Stars" (Way Station), Clifford D. Simak
1965 - The Wanderer, Fritz Leiber
1966 - Dune, Frank Herbert e "…And Call Me Conrad" (This Immortal), Roger Zelazny
1967 - The Moon Is a Harsh Mistress, Robert A. Heinlein
1968 - Lord of Light, Roger Zelazny
1969 - Stand on Zanzibar, John Brunner
1970 - The Left Hand of Darkness, Ursula K. Le Guin
1971 - Ringworld, Larry Niven
1972 - To Your Scattered Bodies Go, Philip José Farmer
1973 - The Gods Themselves, Isaac Asimov
1974 - Rendezvous with Rama, Arthur C. Clarke
1975 - The Dispossessed, Ursula K. Le Guin
1976 - The Forever War, Joe Haldeman
1977 - Where Late the Sweet Birds Sang, Kate Wilhelm
1978 - Gateway, Frederik Pohl
1979 - Dreamsnake, Vonda N. McIntyre
1980 - The Fountains of Paradise, Arthur C. Clarke
1981 - The Snow Queen, Joan D. Vinge
1982 - Downbelow Station, C. J. Cherryh
1983 - Foundation's Edge, Isaac Asimov
1984 - Startide Rising, David Brin
1985 - Neuromancer, William Gibson
1986 - Ender's Game, Orson Scott Card
1987 - Speaker for the Dead, Orson Scott Card
1988 - The Uplift War, David Brin
1989 - Cyteen, C. J. Cherryh
1990 - Hyperion, Dan Simmons
1991 - The Vor Game, Lois McMaster Bujold
1992 - Barrayar, Lois McMaster Bujold
1993 - A Fire Upon the Deep, Vernor Vinge e Doomsday Book, Connie Willis
1994 - Green Mars, Kim Stanley Robinson
1995 - Mirror Dance, Lois McMaster Bujold
1996 - The Diamond Age, Neal Stephenson
1997 - Blue Mars, Kim Stanley Robinson
1998 - Forever Peace, Joe Haldeman
1999 - To Say Nothing of the Dog, Connie Willis
2000 - A Deepness in the Sky, Vernor Vinge
2001 - Harry Potter and the Goblet of Fire, J. K. Rowling
2002 - American Gods, Neil Gaiman
2003 - Hominids, Robert J. Sawyer
2004 - Paladin of Souls , Lois McMaster Bujold
2005 - Jonathan Strange & Mr Norrell, Susanna Clarke
2006 - Spin, Robert Charles Wilson
2007 - Rainbows End, Vernor Vinge
2008 - The Yiddish Policemen’s Union, Michael Chabon
2009 - The Graveyard Book, Neil Gaiman


Prêmio Hugo de melhor livro (1946-2009) [ Download ]

domingo, 3 de janeiro de 2010

Bruce Sterling




"...O povo da Ficção Científica precisa parar de se preocupar tanto com o passado ou o futuro remotos, e prestar mais atenção nos dias de hoje, na loucura desse nosso tempo. Escritores sérios precisam deixar um pouco estes mundos distantes, e partir para as ruas e pensar em um futuro em que as pessoas possam acreditar. Precisamos falar para uma nova audiência, não somente para o fã de FC, mas para as pessoas lá fora, para a população global, gente que está assistindo pela televisão, o antigo mundo se desintegrar, e que não sabem o que fazer com isso, o que pensar disso, ou mesmo como agir.

Precisamos ir além de simplesmente usar o exótico como modelo de nossas fantasias, precisamos encontrar um interesse comum para as questões globais. Primeiro que tudo, precisamos tratar de traduzir nosso trabalho para outros idiomas, precisamos ir além daquilo que de nós é esperado, além dos parâmetros de publicação e marketing nacionais.

Precisamos disso para entrar em contato. Os muros, as barreiras, estão caindo por todo mundo.
Precisamos aproveitar para aprender, aprender com e sobre outras pessoas. 

A Ficção Científica tem a vantagem de possuir um (limitado) apelo internacional.
Se não fizermos um esforço, uma tentativa séria para entender e tentar "modelar" este futuro - um futuro verdadeiro - começando já, então, sendo totalmente honesto, deveríamos abandonar a Ficção Científica como um gênero. Não deveríamos tentar continuar com esta coisa, se formos abandonar o que é de direito e de nascença, seu clamor intelectual legítimo.

Existem outras formas de se escrever ficção que valha a pena ser lida, para quem procura diversão e simples escapismo, mas a Ficção Científica deveria servir para algo mais.

E ela poderia abraçar este desafio. Não seria tão difícil. Apesar de sua origem humilde, a FC já passou por coisa bem pior no passado e sobreviveu. Podemos ser loucos, mas não somos estúpidos.

Vamos deixar o lugar confortável, vamos correr grandes riscos e cometer erros de verdade, profetizar e nos expor ao ridículo, somos escritores de Ficção Científica, este é o nosso maldito trabalho.

Ao menos poderemos dormir sossegados, pela pureza de nossas intenções." 



Trecho de 'Shinkansen', incluso em FC, hackers, política, ciberpunks em 50 textos

Bruce Sterling ( The Agberg Ideology, Artificial Life, Buckymania, Creation Science, Digital dolphins in the dance od biz, Gurp's Labour Lost, Internet, Magic Vision, Midnight on the Rue Jules Verne, My Rihla, Outer cyberspace, Shinkansen, Slipstream, The spearhead of Cognition, A statement of principle, Superglue, Updike's Version, Bicycle repairman, Crystal express, Distraction, Heavy Weather, In Paradise, Islands in the Net, Luciferase, Our Neural Chernobyl, Sneaking for Jesus 2001, The hacker crackdown, The interoperation, The littlesr jackal, The wonderful power of storytelling, Think of the prestige, Mozart in Mirrorshades ) [ Download ]

sábado, 2 de janeiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 10



CAPÍTULO 10
Este capítulo é dedicado à Anderson’s Bookshops, uma lendária livraria infantil de Chicago. A Anderson’s é uma antiga empresa familiar, que começou como um mercado de outros tempos: além de outras coisas, também vendia livros. Hoje é um império de sucesso em livros infantis e com incríveis e inovadoras práticas de venda que unem crianças e livros de maneira realmente excitante. A melhor delas são as feiras móveis de livros, quando eles enviam enormes caminhões abarrotados de livros diretamente para as escolas das crianças - voilá, feira de livros instantânea!
Anderson's Bookshops: 123 West Jefferson, Naperville, IL 60540 USA +1 630 355 2665

O que você faria se descobrisse que tem um espião no seu meio? Você poderia denunciá-lo, colocá-lo contra a parede e obrigá-lo a confessar. Mas você terminaria com outro espião e o novo espião seria mais cauteloso do que o anterior e talvez não pudesse ser descoberto tão fácil.

Aqui está uma idéia melhor: comece interceptando as comunicações do espião e passando-lhe informações erradas. Vamos dizer que os superiores dele o instruíram para obter informações sobre seus movimentos. Deixe o espião lhe seguir à vontade e tomar todas as notas que quiser, porém quando ele for enviar as informações ao Quartel General, substitua estas informações por falsas. Se quiser, mande informações erradas e estranhas para que ele seja desacreditado.Você pode fabricar uma crise de modo a fazer com que o outro lado revele a identidade de seus espiões. Resumindo, você os controlaria. 
Isso se chama ataque do homem-no-meio; se você parar para pensar é bem assustador. Alguém que fique nesta posição pode te prejudicar de muitas maneiras.

É claro, tem um jeito sensacional de escapar do ataque do homem-no-meio: Usando cripto. Com criptografia, não importa se o inimigo pode ver suas mensagens, porque ele não pode decifrá-las, alterá-las e reenviá-las. Esta é uma das principais razões para usar criptografia.

Mas lembre-se: para a criptografia funcionar, você precisa ter chaves para as pessoas com quem você quer falar. Você e seu parceiro precisam compartilhar este segredo, ter algumas chaves para que possam criptografar e descriptografar mensagens de modo que o homem-do-meio fique de fora.
É onde reside a idéia da chave pública. É um pouco trabalhosa, mas é inacreditavelmente funcional também.
Em criptografia de chave pública, cada usuário fica com duas chaves. São longas cadeias matemáticas ininteligíveis, e possuem uma propriedade quase mágica. Qualquer coisa que você embaralhe com uma chave o outro poderá entender e vice-versa. E são as únicas chaves com as quais você poderá fazer isso - se você pode desembaralhar uma mensagem com uma chave, você sabe que pode embaralhar com a outra (e vice-versa).

Então você usa uma destas chaves (não importa qual) e você a publica. Deste modo ela não é mais secreta. Qualquer um no mundo poderá conhecê-la. Por este motivo, obviamente, ela se chama “pública”.
A outra chave você guarda no canto mais longínquo do seu cérebro. Protege-a com a sua própria vida. Não deixa que outra pessoa fique sabendo dela. É chamada chave privada (Duh!)
Agora digamos que você é um espião e quer falar com seus chefes. Suas chaves públicas são conhecidas por todos. Ninguém conhece a sua chave privada, só você. Ninguém sabe a chave privada deles a não ser eles.

Você quer mandar uma mensagem. Primeiro você a criptografa com sua chave privada. Você poderia mandar a mensagem deste jeito, e funcionaria bem, desde que eles soubessem quando a mensagem chegasse e foi você que a mandou. Como? Porque se eles podem decriptografá-la com sua chave pública, significa que só pode ter sido criptografada com sua chave privada. É o equivalente a pôr seu selo ou assinatura no fim da mensagem. Isso diz “Eu escrevi isso e ninguém mais. Ninguém a adulterou ou alterou.”
Na verdade, isso infelizmente não mantém sua mensagem secreta, porque sua senha pública é bem conhecida (e tem que ser, ou você estaria limitado a mandar mensagens para as poucas pessoas que têm sua chave pública). Qualquer um que interceptar a mensagem vai poder lê-la. Eles não podem mudá-la e fazer parecer que veio de você, mas se você não quiser que qualquer um saiba o que está dizendo, então precisa de uma solução melhor.

Então, ao invés de só criptografar a mensagem com sua chave privada, você também a criptografa com a chave pública de seus chefes: agora ela está duplamente fechada. A primeira criptografia- a chave pública de seus chefes - só pode ser aberta com a chave privada de seus chefes. A segunda criptografia- sua chave privada - só é aberta com sua chave pública. Quando seus chefes receberem a mensagem, eles a abrirão com ambas as chaves e agora eles terão certeza de que a) você a escreveu e b) apenas eles podem ler.
Muito legal! O dia que eu descobri isso, Darryl e eu imediatamente trocamos chaves e passamos meses trocando mensagens como se fossem altos segredos militares sobre onde iríamos nos encontrar após a escola ou onde quer que Van pudesse nos encontrar.

Mas se você quer entender sobre segurança, você precisa considerar as possibilidades mais paranóicas. Do tipo, o que aconteceria se eu te enganasse pensando que minha chave pública é a chave pública de seu chefe? Você poderia criptografar a mensagem com sua chave privada e minha chave pública. Eu descriptografaria a mensagem, leria, criptografaria novamente com a chave pública verdadeira do seu chefe e a mandaria. Assim o seu chefe saberia que ninguém, a não ser você, poderia ter escrito a mensagem e ninguém, a não ser ele, poderia ter lido.

E eu ficaria no meio, como uma aranha gorda na teia, e todos seus segredos me pertenceriam.
Agora, a maneira mais fácil de consertar isso é anunciar amplamente sua chave pública. Se for realmente fácil para qualquer um saber qual é sua verdadeira chave, as coisas para o homem do meio ficam muito, muito difíceis. Mas sabe o que mais? Fazer as coisas serem bem conhecidas é tão difícil quanto guardar um segredo. Pense nisso - quantos bilhões de dólares são gastos em comerciais de xampu e outras porcarias apenas para fazer com que muitas pessoas conheçam o que algum anunciante quer que elas saibam?

Tem um jeito mais barato de fazer isso: A rede de confiança. Digamos que, depois de sair do Quartel General, você e seus chefes sentem para um café e um conte ao outro suas chaves. Nada mais de homem-do-meio! Você tem certeza das chaves que possui porque foram todas colocadas em suas mãos.
Até aí, tudo bem. Mas existe um limite natural para se fazer isso: com quantas pessoas você consegue encontrar-se fisicamente e trocar chaves? Quantas horas do dia você quer se dedicar a escrever o equivalente a seu próprio catalogo telefônico? Quantas destas pessoas estão dispostas a fazer o mesmo por você?  

Pense nisso como um auxílio à lista telefônica. O mundo é um lugar com várias listas telefônicas e quando você precisa de um número, você pode procurar na lista. Mas muitos destes números você já conhece ou pode perguntar a alguém. Hoje, quando estou na rua com meu telefone celular, eu perguntaria a Jolu ou Darryl se eles têm o número que eu procuro. É mais rápido e fácil do que procurar online e eles também são mais confiáveis. Se Jolu tem o número e eu confio nele, então confio também neste número. Isso se chama “confiança transitiva” - a confiança que se move através da rede de nossos relacionamentos.
Uma rede de confiança é uma versão maior que isso. Digamos que eu encontre Jolu e pegue sua chave. Posso colocá-la no meu “chaveiro” - uma lista de chaves que eu assino com minha chave privada. Isso significa que você não pode abri-la com minha chave pública e fica claro para mim - ou alguém com minha chave, enfim - diz que “essa chave pertence a este cara.”
Então eu te passo meu “chaveiro” e a confiança de que eu pessoalmente verifiquei cada chave nele, você pode então acrescentá-lo ao seu “chaveiro”. Agora você encontra alguém e lhe passa seu “chaveiro”. O chaveiro começa então a ficar maior e maior, e determina que você confia no cara seguinte na corrente e ele confia no cara seguinte e assim vai, você está assim bastante seguro.

O que me traz de volta às festas de assinatura das chaves. Isso significa exatamente o que quer dizer, uma festa onde todos se encontram e assinam um as chaves dos outros. Quando Darryl e eu trocamos chaves foi tipo uma mini festa de assinatura de chaves, uma festa com apenas dois tristes geeks. Mas, com mais gente, está criada a semente da rede de confiança, e a rede se espalha a partir daí. Assim que qualquer um com seu “chaveiro” sai pelo mundo e encontra outras pessoas, acrescentam mais e mais nomes as suas chaves. Você não precisa encontrar gente nova a partir daí, apenas acreditar que a chave que você pegou das outras pessoas de sua rede é válida.
Por isso, rede de confiança e festas particulares são como arroz e feijão.

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‘Diz ao pessoal que é uma festa super-privada, somente convidados. É para não trazer ninguém de fora ou eles não serão admitidos!’ Eu disse.
Jolu me olhou sobre seu café. “Tá brincando não é? Se você disser isso, todo mundo vai trazer amigos de fora.”
“Argh” eu disse. Eu passava uma noite por semana com Jolu, atualizando o código do indienet. O Porco Melancólico pagava por isso, o que era realmente bizarro. Eu nunca tinha sido pago para escrever programas.  
“Então o que a gente faz? Só queremos pessoas em quem confiamos de verdade, e não queremos dizer o motivo até ter as chaves de todos e então poder mandar uma mensagem em segredo para eles.”
Jolu reescrevia e eu olhava sobre seu ombro. Isso se chamava “Programação extrema” o que era um pouco embaraçoso. Nós chamávamos apenas “programação”. Duas pessoas conseguem visualizar erros melhor do que uma. Como diz o clichê “duas cabeças...”.

Estávamos acabando a última lista de erros e prestes a acabar uma nova versão. Tudo gravado em background, assim nossos usuários não precisariam fazer nada, eles acordariam com um programa melhor esperando por eles. Era muito louco saber que o código que eu escrevi seria usado por centenas de milhares de pessoas, amanhã.

“O que faremos? Eu não sei! Acho que teremos que viver com isso…”
Lembrei dos nossos dias de  Harajuku Fun Madness. Desafios sociais envolvendo grande número de pessoas como parte de um jogo.
“OK, você está certo. Mas vamos ao menos tentar manter em segredo. Diga-lhes que podem trazer no máximo uma pessoa e tem que ser alguém que conheçam pessoalmente, no mínimo por uns cinco anos.”
Jolu olhou para a tela. “Hei, isso vai dar certo. Já posso ver. Quero dizer, se você me diz para não trazer ninguém, todos dirão ‘Quem diabos ele pensa que é?’ Mas quando você põe desta maneira, parece algo do tipo 007.”
Eu encontrei um erro. Bebemos mais café. Fui para casa e joguei um pouco de Clockwork Plunder, tentando não pensar em donos de chaves com perguntas estúpidas e dormi como um bebê.

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Sutro Baths era uma autêntica ruína romana de mentira, em São Francisco. Quando abriu em 1896, era a maior casa de banhos do mundo, um gigantesco solarium de vidro vitoriano repleto de piscinas e banheiras e até uma queda d’água. O declínio começou nos anos 50 e os proprietários a incendiaram em 1966 para receber o seguro. Tudo que restou foi um labirinto de pedra desgastada pelo tempo próximo às bordas de um penhasco em Ocean Beach. Se parece com uma ruína romana, desmoronada e misteriosa e além estão algumas cavernas que vão dar no mar. Quando o mar está alto e bravo, as cavernas se inundam e invadem as ruínas - são conhecidos casos ocasionais de turistas que se afogaram por lá.

Ocean Beach fica um pouco depois do parque Golden Gate, uma linha de precipícios com caríssimas residências abandonadas sobre o abismo de uma praia estreita e infestada por águas-vivas e surfistas malucos. Há uma pedra enorme e branca que se sobressai na praia rasa, chamada Seal Rock e costumava ser o lugar onde os leões marinhos se juntavam até que foram realocados para um ambiente mais propício para os turistas, em Fisherman Wharf.

À noite é difícil encontrar alguém por lá. É muito frio, com o spray de sal que impregna seus ossos se você deixar. As rochas são pontiagudas e há sempre vidro quebrado e de vez em quando, agulhas deixadas por viciados.

Um lugar sensacional para uma festa.

Minha idéia era espalhar alguns panos encerados no chão e alguns aquecedores químicos. Jolu sabia onde conseguir a cerveja - seu irmão mais velho, Javier, tinha um contato que tinha um lance de venda de bebidas para menores de idade, o que pagava bem e iria providenciar para nossa festinha privada, barris com gelo e quanta cerveja nós quiséssemos. Usei uma parte da grana que ganhei com a programação da indienet e o cara ficou de aparecer na hora, 8 da noite, uma hora após o pôr do sol e trazer seis barris de gelo em sua picape até as ruínas dos Banhos. E trouxe até um barril vazio.

“Vocês meninos, brinquem direito!” ele disse ajeitando seu chapéu de cowboy. Ele era um samoano gordo com um enorme sorriso e uma pavorosa camisa sem manga dando para ver os pêlos saindo do sovaco e da barriga. Tirei vintinho da minha grana e passei para a sua mão - sua margem de lucro era de 150%. Nada mal.

Ele olhou para a minha grana e disse “Você sabe, eu poderia tirar isso de você.” disse sorrindo. “Afinal de contas eu sou um criminoso.”
Guardei o dinheiro no bolso e olhei francamente nos olhos dele. Eu tinha sido estúpido de mostrar quanto dinheiro eu estava carregando, mas eu sabia que algumas vezes você tem que se garantir.
“Tô só de brincadeira contigo!” ele disse, finalmente. “Mas toma cuidado com este dinheiro. Não sai mostrando ele por aí.”
“Valeu!” eu falei. “Onde está a DHS quando se precisa dela?”
Seu sorriso ficou ainda maior. “Há! Eles nem são tiras de verdade. Aqueles pica-paus não sabem de nada.”
Olhei para sua picape. Bem em seu quebra-vento havia um passe rápido. Pensei quanto tempo demoraria até pegarem ele.
“Vai ter garotas aqui esta noite? É pra isso que você pediu tanta cerveja?”
Eu sorri e acenei para ele como se me despedindo. Ele entendeu a dica e foi embora. Seu sorriso nunca se abalava.

Jolu me ajudou a esconder as geladeiras nos entulhos, trabalhando à luz de pequenas lanternas de LED branco presas a nossas testas. Uma vez que estavam no lugar, jogamos pequenos porta-chaves com LEDs dentro dos isopores para facilitar encontrá-los depois. 
Era uma noite sem lua e com neblina, e as luzes de rua distantes nos iluminavam. Eu sabia que pareceríamos labaredas à mira infravermelha, mas não há como juntar um monte de gente sem ser visto. Eu estava preparado para ser mandado embora dali, como se fosse uma pequena festa de bêbados na praia.

Eu não bebia muito. Sempre tinha cerveja, maconha e ecstasy nas festas que ia desde que tinha 14 anos, mas eu odiava fumar (contudo sou meio favorável a um brownie de haxixe às vezes), ecstasy tem um efeito muito prolongado - leva um final de semana para ficar no barato e outro para voltar ao normal - e cerveja, bem, é legal, mas eu ainda não entendo o que tem de tão bom. Meu favorito são grandes e elaborados coquetéis, do tipo servido em uma réplica de vulcão de cerâmica, com seis camadas, em fogo e um macaco de plástico na beirada, mas isso tudo é mais teatral do que qualquer outra coisa.

Eu gosto de ficar bêbado. Só não gosto da ressaca, e cara, eu sempre fico de ressaca. Provavelmente isso deve ter a ver com o tipo de drinques que são servidos em um vulcão de cerâmica.
Mas não dá pra dar uma festa sem colocar um tonel ou dois de cerveja no gelo. É o esperado. Faz a coisa toda funcionar. As pessoas fazem coisas bem estúpidas depois de muitas cervejas, mas não como meus amigos, e sim aqueles que têm carros. E pessoas fazem mesmo coisas estúpidas, não importa - cerveja ou maconha ou o que for, são todas secundárias ao fato principal.
Jolu e eu abrimos cada qual uma cerveja - Anchor Steam para ele e Bud Lite para mim - brindamos batendo as garrafas e sentamos numa pedra.
“Você disse para eles 9 da noite?”
“Sim!” ele disse.
“Eu também.”
Bebemos em silêncio. A Bud Lite era a coisa menos alcoólica no gelo. Eu precisava ter as idéias bem claras mais tarde.
“Você ficou com medo alguma vez?” eu disse ao fim.
Ele se virou para mim. “Não, cara, não fiquei. Eu sempre estou com medo. Tenho medo desde o minuto que as explosões ocorreram. Tenho tanto medo as vezes que não quero nem sair da cama.”
“Então por que está fazendo isso?”
Ele sorriu e disse:
“Talvez eu não faça isso por muito tempo. Quero dizer, é ótimo te ajudar. Legal mesmo! Não me lembro de ter feito algo assim tão importante. Mas, Marcus, meu camarada, tenho que te dizer...” e sua voz se arrastou até sumir.
“O quê ?” Eu sabia o que viria em seguida.
“Não posso fazer isso para sempre” disse, finalmente. “Talvez nem mais um mês. É muito arriscado. O DHS, não dá para brigar contra eles. É loucura. De verdade.”
“Você parece aVan.” eu disse. Minha voz soou mais amarga do que eu pretendia.
“Não estou te criticando, cara. Acho muito bacana você ser tão corajoso e fazer tudo isso. Mas não dá. Não posso viver minha vida o tempo todo apavorado.”
“O que está dizendo?”
“Estou dizendo que estou fora. Eu vou ser uma destas pessoas que agem como se tudo estivesse bem, como se tudo fosse voltar ao normal algum dia. Vou usar a internet como sempre usei e somente usarei a Xnet para jogos. Eu vou parar com tudo isso, é o que estou dizendo. Nunca mais vou fazer parte dos seus planos.”
Eu não disse nada.
“Eu sei que estou te deixando sozinho. E não queria isso, acredite. Não gostaria que você desistisse de mim. Você não pode declarar guerra ao governo dos EUA. Não é uma briga que alguém possa vencer. Ver você tentar é como assistir um pássaro se jogando contra o vidro de uma janela, de novo e de novo.”

Ele esperava que eu dissesse algo. O que eu queria dizer era, Jesus Cristo, Jolu, muito obrigado por me abandonar! Você se lembra como foi quando eles nos soltaram? Você se lembra como era o nosso país antes deles tomarem conta de tudo? Mas não era o que ele queria que eu dissesse. O que ele queria era:
“Eu entendo, Jolu. Eu respeito a sua escolha.”
Ele virou o resto da garrafa, puxou outra e arrancou a tampinha.
“E tem mais uma coisa...” ele falou.
“O quê?”
“Eu não ia dizer isso, mas quero que entenda o motivo de estar fazendo isso.”
“Caramba, Jolu, o que?”
“Eu odeio dizer isso, mas você é branco. Eu não sou. Gente branca pode ser pega com cocaína e só precisam passar pelo tratamento de reabilitação. Pessoas de cor são pegas com crack e vão para a prisão por vinte anos. Pessoas brancas vêem a polícia na rua e se sentem seguras. Pessoas de cor vêem os policiais na rua e pensam que estão ali pra te prender. Sabe o modo que o DHS está lidando com você? A lei deste país sempre foi assim conosco.”

Aquilo era injusto. Eu não pedi para ser branco. Eu não pensava que podia ser corajoso apenas por ser branco. Mas eu sabia o que Jolu estava dizendo. Se os policiais paravam alguém na Missão e pediam para ver a identidade, havia grande chance desta pessoa não ser branca. Qualquer risco que eu estivesse correndo, o de Jolu era maior ainda. Qualquer penalidade que eu tivesse que pagar, Jolu pagaria mais.
“Não sei o que dizer.” falei.
“Não precisa dizer nada. Eu só queria que você soubesse, para que pudesse entender.”
Vi algumas pessoas vindo pelo caminho na nossa direção. Eram amigos de Jolu, dois mexicanos e uma garota que eu conhecia de vista, pequena e engraçada, sempre com óculos escuros tipo Buddy Holly que a faziam parecer uma estudante de artes rebelde que sempre conseguia alcançar o sucesso nos filmes para adolescentes.

Jolu nos apresentou e demos cervejas para eles. A garota não quis e tirou da bolsa uma garrafinha pequena e prateada de vodka e me ofereceu. Tomei um gole - vodka quente requer um paladar apurado - e devolvi o frasco que era decorado com Parappa o Rapper.
“É japonesa” ela disse. “Eles têm estas garrafinhas para birita baseadas em jogos infantis. Totalmente demais!”
Eu me apresentei e ela se apresentou como ‘Ange’, e apertamos as mãos um do outro - sua mão era quente e seca com unhas curtas. Jolu apresentou seus camaradas, que eram seus conhecidos desde um acampamento de computadores na quarta série. Mais gente foi surgindo - cinco, então dez, e então vinte. Já era um grupo bem grande.

Tínhamos dito para que chegassem as 9:30 em ponto e aguardamos até as 9:45 para ver quem ainda apareceria. Quase 3/4 dos amigos de Jolu estavam presentes. Eu havia convidado todas as pessoas que realmente eu confiava. Ainda assim, eu era mais discriminador que Jolu, ou menos popular. Agora que ele me contou que estava saindo fora, me fez pensar que ele era menos discriminatório. Eu estava bravo com ele, mas tentava não demonstrar, concentrando-me em socializar com os outros. Mas ele não era estúpido. Ele sabia o que estava rolando. Eu podia ver que estava realmente deprimido. Bom.
“OK!” eu disse subindo em uma ruína. “OK, EI, ALÔ?” Alguns poucos mais próximos prestaram atenção em mim, mas aqueles ao fundo continuavam conversando. Levantei os braços como um juiz de futebol, mas estava escuro demais. Ao final tive a idéia de usar a lanterna LED do chaveiro para apontar cada um deles que ainda conversavam e atrair a atenção para mim. Aos poucos, a turma se aquietou.

Saudei a todos e agradeci por terem vindo e pedi que se aproximassem para que eu pudesse explicar o motivo de estarem ali. Podia dizer que estavam cientes da discrição da coisa, intrigados e um pouco calorentos por conta da cerveja.

‘É o seguinte. Todos vocês usam o Xnet. Não foi uma coincidência a Xnet ter sido criada logo apos a DHS tomar conta da cidade. As pessoas que a criaram são parte de uma organização devotada à liberdade individual, e criaram a rede para nos manter a salvo da DHS.”Jolu e eu já tínhamos trabalhado naquele discurso com antecedência. Nós não iríamos contar que estávamos por detrás disso tudo, não para todos.
Era muito arriscado. Ao invés, iríamos nos colocar como meros tenentes do exército de “M1k3y”, agindo para organizar a resistência local.
“A Xnet não é pura. Ela pode ser usada pelo outro lado, assim como nós. Sabemos que existem espiões da DHS que também a utilizam. Eles usam truques de engenharia social para tentar que nós nos revelemos, para poderem vir nos prender. Para que a Xnet tenha sucesso, precisamos pensar numa maneira de evitar que eles nos espionem. Precisamos de uma rede dentro da rede.”

Parei e esperei que entendessem. Jolu havia sugerido que poderia ser um pouco pesado para alguns entender que eles estavam sendo recrutados para uma célula revolucionária.
“Prestem atenção, não estou pedindo que façam nada. Vocês não precisam sair por ai causando interferência ou coisa assim. Vocês foram convidados para vir por serem pessoas legais e sabemos que podemos confiar em vocês. É com esta confiança que eu espero que contribuam esta noite. Alguns de vocês já conhecem a rede de confiança e as festas de assinatura de chaves, mas para o resto de vocês, eu vou explicar bem devagar como isso funciona...’ E foi o que fiz.
‘Agora o que eu quero de vocês esta noite é que encontrem aqui as pessoas e pensem o quanto podem confiar nelas. Nós ajudaremos a vocês a gerar chaves e compartilhar elas com os outros.’

Esta parte era complicada. Pedir para que trouxessem seus laptops não funcionaria, mas ainda precisávamos fazer algo muito complicado e que não funcionaria muito bem com papel e caneta.
Eu havia trazido um laptop que eu e Jolu montamos na noite anterior quase que a partir do zero. “Eu trouxe este laptop de confiança. Cada componente foi colocado dentro dele com nossas próprias mãos. Está executando uma versão não padrão de ParanoidLinux, a partir de um DVD. Se existe uma máquina confiável neste mundo, com certeza é esta aqui.”

“Eu tenho um gerador de chaves nela. Vocês vão vir aqui e fazer uma entrada aleatória - apertar as teclas, mexer o mouse - e isso será usado para criar uma chave aleatória pública e privada para você. Essa chave aparecerá na tela. Vocês poderão tirar uma foto dela com o celular e apertar qualquer tecla para que ela desapareça para sempre - ela não será guardada neste computador. Então o programa irá te mostrar a sua chave pública. Neste instante, você vai chamar todas as pessoas daqui em quem confiam e que confiam em você e eles vão tirar uma foto da tela com você junto dela, assim eles saberão de quem é a chave.”
“Quando vocês chegarem em casa, vão precisar converter as fotos em chaves. Isso vai dar um pouco de trabalho, eu receio, mas só precisarão fazer isso uma vez. Vocês precisam ser super cuidadosos ao digitar - um erro e estarão ferrados. Felizmente temos um jeito de dizer se deu certo; debaixo da chave tem um número menor, chamado “impressão digital”. Uma vez que você tenha digitado a chave, você pode gerar uma “impressão digital” dela. É só comparar. Se forem iguais, você está digitando certo.”

Todos estremeceram. OK, eu estava pedindo para fazer algo bem estranho, mas ainda assim era preciso.




Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 10 [ Download ]

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

2.0.1.0. e contando...



O Capacitor Fantástico deseja a todos um 2010 repleto de FC/Fantasia/Terror/Mistério/Fantástico !