sábado, 15 de setembro de 2007

'Do Pai-Robô à Bio-Puta" - Charles Tonderai Mudede

,“Quase todas as ciências devem alguma coisa aos diletantes, freqüentemente, muitos pontos de vista valiosos. Mas o diletantismo como o princípio único seria o fim da ciência. Aquele que anseia pela ‘visão’, que vá ao cinema...” (Max Weber)

A ciência ocidental nos deu dois mundos: um mundo Newtoniano e um Darwiniano.

E se nós pudermos nos arriscar a uma definição ampla das nossas últimas descobertas científicas, poderíamos descrever como uma série de embates entre estas duas doutrinas: física versus biologia, a máquina versus o corpo, exploração de espaço versus a pesquisa molecular; um nos conduzindo às estrelas, o outro à célula; um fascinado por leis inexoráveis, o outro tendendo para a probabilidade estatística; um apontando para longe de Deus, o outro perseguido pela psique; um masculino, o outro inegavelmente fêmea.

E o vencedor desta competição poderá ganhar financiamento ilimitado e a completa lealdade das massas.

Por muitos anos, o mundo Newtoniano deteve o controle nesta competição; elaborando máquinas que responderiam nossas perguntas.
Bilhões foram destinados à robótica e programas espaciais; telescópios e sondas lançadas aos céus, mas quando transmitiram suas descobertas, todos eles nos mostraram mais estrelas brilhantes, mais galáxias espirais, mais vazio, mais perguntas.

Finalmente, perdemos a fé em Newton e nos jogamos aos pés da ciência Darwiniana, que fez crescer um ouvido humano nas costas de um rato e duplica um simples carneiro.

Nestes últimos 20 anos, nossa mudança de fé, nossa transição de Newtonianos para Darwinianos, pode ser traçada por uma série de filmes de ficção-científica de grande bilheteria.

Das décadas de 70 e 80 como sendo os últimos anos de dominação Newtoniana aos 90, marcando a ascensão do novo mundo Darwiniano.

‘Alien’, 1979, Ridley Scott

Este filme é excepcional não unicamente porque começa um ciclo que James Cameron identificou como “tecno-noir" (Blade Runner, Terminator, Robocop), mas pela primeira vez na ficção científica, um alienígena é imaginado, não como o descendente de uma civilização altamente organizada (‘Newton’), avançada em eficiência e com armas sofisticadas que vaporizam o inimigo, mas ao invés disso, como um primitivo sanguinolento, uma criatura empenhada em uma luta intergaláctica Darwiniana para a sobrevivência. Aqui a batalha entre as doutrinas está claramente representada, a ciência Newtoniana escapa por pouco, derrotando a criatura que fica perdida no espaço, sozinha entre as estrelas.


'Terminator', 1984, James Cameron

Embora a máquina tente passar por um ser humano, a estória assegura a honra e a dignidade emocional da espécie humana, amante da liberdade. Mas admiramos a eficiência do homem-máquina; o cyborg com seu exterior de imitação de carne humana e o esqueleto de metal. Esta criatura não tem emoções e sua vida tem significado totalmente Newtoniana.


‘RoboCop’, 1987, Paul Verhoeven

Como um ser humano comum, o oficial de polícia Murphy (Peter Weller) era um policial fraco com uma arma fraca tentando manter a ordem em uma cidade, que em todos os níveis (dos escritórios das corporações nas alturas aos pequenos negócios nas ruas) está fora de controle e torna-se "o coração das trevas." Mas como um homem-máquina equipado com armas poderosas, ele pode retornar com a sociedade à sua normalidade , como planetas rebelados de suas órbitas, voltam aos seus lugares Newtonianos. (É interessante notar que o RoboCop está quase morto na mesma fábrica (‘Fordiana’) decaída onde, sete anos mais tarde, o modelo T-800 em ‘Terminator 2’, o último homem-máquina, está para morrer em um banho líquido e quente.)


‘Aliens’, 1987, James Cameron

Imagine um planeta colonizado por seres humanos Newtonianos, que foram rapidamente destruídos por alienígenas Darwinianos, que culmina em um combate fatal entre a mulher-máquina (Ripley dentro de um manuseador-robô de carga pesada) e o alienígena. Novamente o mundo Darwiniano perde, mas não por muito tempo, sua vez está chegando.


‘Species’, 1995, Roger Donaldson

Com a destruição do último homem-máquina (Arnold Schwarzenegger) naquela triste despedida no fim de ‘Terminator 2’, o cenário é caracterizado, não unicamente pela era pós-industrial, mas também pela era ‘bestial’. Neste filme isto rapidamente torna-se claro, que o mundo, Darwiniano, é dominado por mulheres, reprodutores, as viúvas negras - e não por homens racionais de metal, como no mundo Newtoniano.
A história é esta: DNA humano é misturado com DNA alienígena, e o resultado é uma ultra-atrativa, hiper-instintiva, tremendamente sensual humana, dedicada ao fundamental (ou funnaminal, como Joyce poderia colocar isto) princípio Darwiniano: transar com machos saudáveis e produzir bebês-alienígenas saudáveis.


‘Mimic’, 1997, Guillermo Del Toro

Em ‘Mimic’, uma bióloga brilhante (Mira Sorvino), que é estéril e falha em produzir crianças com o companheiro viril (que é também um cientista, mas de menor importância) salva o planeta de uma infestação de baratas mortais. Mas ao tocar nos segredos do DNA, torna-se a mãe de uma nova semente de insetos-humanos que, outra vez, são dirigidos por motivos Darwinianos - eles não desejam apenas sobreviver, mas dominar Nova Iorque, a capital do mundo financeiro e centro de comando para não menos do que todos aqueles satélites transmitindo dinheiro virtual.


‘Alien: Resurrection’, 1997, Jean Pierre Jeunet

Neste novo ‘Alien’, Ripley é transformada por experimentos (DNA) , numa poderosa criatura (besta). Nesta condição, ela está distante do homem-máquina que tentou tornar-se em ‘Aliens’, ao invés disso, aqui ela é perfeição, perfeição da natureza, perfeição de movimento, sexualidade, instintos. Neste formato mais elaborado, ela torna-se a mãe e rainha dos aliens (ela também esbarra na semelhança com a Rainha Elizabeth I, ou ao menos os desenhos que tenho visto desta criatura mítica). E ao fim do filme, vemos seus descendentes retornarem para a Terra, para controlar o povo esperançoso e possivelmente proibir a exploração do espaço para sempre.

Apesar de grupos de resistência à ordem Darwiniana ainda persistirem, e muitos que "adoram o espaço" estão bastante céticos sobre o futuro das corporações de biotecnologia (como em ‘Blade Runner’), o fim do espaço é definitivo. A palavra oficial da 20th Century Fox Estudio, produzindo o próximo 'Alien' diz tudo: "O filme se passará na Terra."


Considere filmes mais recentes, como o de Paul Verhoeven, ‘Starship Troopers’ e Andrew Niccol ‘,Gattaca’. Ambos pretendem deixar claro que o valor social dos ‘Exploradores Espaciais’, ‘Viajantes das estrelas’ e ‘Uniões Galácticas’ não passam de vapores de pura fantasia.
(Em ‘Gattaca’, o programa espacial às luas geladas de Saturno, funciona unicamente como uma metáfora do desejo interior do herói para escapar a realidade eficiente da bio-utopia na Terra.)

O mundo Newtoniano não mais nos transmite ou pressupõe um futuro acreditável, ao invés disso, é útil unicamente quando se deseja olhar para trás, como com o mito dos Cavaleiros do Rei Arthur, decifra os medos e sonhos do passado, muito tempo atrás, em um lugar distante, muito distante...

Charles Tonderai Mudede nasceu em Zimbabwe. Ele vive hoje em Seattle e, junto com o ensino de literatura no Seattle Arts and Lecture , contribui como crítico de cinema no semanal ‘The Strange’.
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