quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Encontro com RAMA - Arthur C. Clarke
Rama estava silencioso como um túmulo – e talvez o fosse.
Nenhum sinal de rádio, em qualquer freqüência; nenhuma vibração que os sismógrafos pudessem captar, além de microssismos indubitavelmente causados pelo crescente calor do Sol; nenhuma corrente elétrica; nenhuma radioatividade. Uma quietude quase agourenta; seria de crer que até num asteróide houvesse mais
barulho.
Que é que nós esperávamos? pensou Norton. Um comitê de recepção? Não sabia se havia de sentir-se desapontado ou aliviado. Em todo caso, era a ele que parecia caber a iniciativa.
As ordens que tinha recebido eram para esperar durante vinte e quatro horas, depois sair e explorar. Ninguém dormiu muito nesse primeiro dia; os próprios membros da tripulação que não estavam de serviço passaram o tempo controlando os instrumentos que tenteavam em vão, ou simplesmente contemplando pelas vigias a paisagem friamente geométrica. Este mundo está vivo? Perguntavam-se e tornavam a perguntar-se. Está morto? Ou simplesmente adormecido?
Na primeira excursão, Norton levou consigo apenas um companheiro – o Capitão-de-corveta Karl Mercer, seu valente e talentoso oficial de Sustentação da Vida. Não tencionava em absoluto distanciar-se da nave a ponto de ficar fora do alcance da vista é, se houvesse algum contratempo, era pouco provável que um
grupo maior oferecesse mais segurança. Tomou, contudo, a precaução de levar mais dois membros da tripulação que, já metidos nos seus trajes espaciais, esperavam na eclusa de ar.
Os poucos gramas de peso que lhes davam os campos gravitacional e centrífugo combinados não ajudavam nem impediam; tinham de confiar exclusivamente nos seus jatos. Logo que fosse possível, disse Norton de si para si, armaria uma cama-de-gato com cabos de amarração entre a nave e as casamatas, de modo que os exploradores pudessem mover-se de um lado para outro sem desperdício de propulsores.
A mais próxima casamata ficava a apenas dez metros da eclusa de ar, e a primeira preocupação de Norton foi verificar se o contato não havia causado nenhum dano à nave. O casco da Endeavour repousava contra a parede curva com uma pressão de várias toneladas, mas essa pressão estava uniformemente distribuída. Mais tranqüilo, ele pôs-se a flutuar em volta da estrutura circular, procurando determinar qual seria o seu objetivo.
Apenas havia Norton percorrido alguns metros quando notou uma interrupção na parede lisa, aparentemente metálica. A princípio julgou que se tratasse de uma espécie de decoração, pois não parecia ter nenhuma função útil. Seis sulcos ou fendas radiais sanavam profundamente o metal e, dentro deles, havia seis barras cruzadas como os raios de uma roda, sem aro, com um pequeno cubo no centro. Mas não havia meio de fazer girar a roda, pois estava embutida na parede.
Notou então, com uma excitação crescente, que havia escavações mais profundas nas extremidades dos raios, perfeitamente torneadas de modo a receber dedos (garras? tentáculos?). Se uma pessoa se colocasse assim, apoiando-se contra a parede, e puxasse o raio assim...
Macia como seda, a roda deslizou para fora da parede. Com inexprimível assombro – pois estava virtualmente convencido de que quaisquer partes móveis teriam sido soldadas pelo vácuo há muitos séculos – Norton viu-se de repente com uma roda de malaguetas nas mãos. Era como se fosse o capitão de algum
velho navio à vela, manejando o leme do seu barco.
Ainda bem que o pára-sol do seu capacete não permitia que Mercer lhe observasse a expressão...
Estava surpreendido, mas também sentia raiva de si mesmo; talvez já houvesse cometido o primeiro erro. Estariam soando agora sinais de alarma no interior de Rama, ou o seu ato irrefletido fizera disparar algum mecanismo implacável?
Mas a Endeavour não comunicou nenhuma alteração; os seus sensores ainda nada detectavam além de leves crepitações térmicas e dos movimentos do próprio comandante.
– Bem, Capitão... Vai girar a roda?
Norton pensou mais uma vez nas instruções recebidas. "Siga o seu alvitre, mas proceda com cautela." Se consultasse o Controle da Missão sobre cada um de seus movimentos, nunca chegaria a parte alguma.
– Qual é o seu diagnóstico, Karl? – perguntou a Mercer.
– Trata-se, evidentemente, do controle manual de uma eclusa de ar... com certeza um sistema auxiliar de emergência para os casos de falha de força. Não posso imaginar nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, que não tome tais precauções.
"E seria à prova de falhas", disse Norton lá no seu íntimo. "Só poderia ser operado se não houvesse possibilidade de perigo para o sistema..."
Segurou duas hastes opostas do molinete, firmou os pés no chão e testou a roda. Esta não se moveu.
– Me ajude aqui – pediu a Mercer.
Cada um dos dois segurou um raio; fizeram quanta força tinham, mas não conseguiram produzir o menor movimento.
Não havia, é claro, motivo para supor que os relógios e os saca-rolhas girassem, em Rama, no mesmo sentido que na Terra...
– Vamos experimentar o sentido contrário – sugeriu Mercer. Desta vez não houve resistência. A roda girou quase sem esforço, descrevendo um círculo completo. Aí, então, com muita suavidade, o mecanismo engatou.
A meio metro deles, a parede curva da casamata começou a mover-se como a concha de um mexilhão que se abre vagarosamente. Algumas partículas de pó, impelidas pelo ar que escapava, saíram flutuando, a cintilar como diamantes na intensa luz solar.
O caminho que levava a Rama estava aberto.
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sábado, 21 de março de 2009
Os nove bilhões de nomes de Deus - Arthur C. Clarke

–- Este é um pedido um tanto estranho –- disse o doutor Wagner, com o que esperava poderia ser um comentário plausível. –- Que eu me lembre, é a primeira vez que alguém pede um computador de seqüência automática para um monastério tibetano. Eu não gostaria de me mostrar inquisitivo, mas me custa pensar que em seu... hum... estabelecimento, existam aplicações para semelhante máquina. Poderia me explicar o que tentam fazer com ela?
–- Com muito prazer –- respondeu o lama, arrumando a túnica de seda e deixando cuidadosamente a um lado a régua de cálculo que tinha usado para efetuar a equivalência entre as moedas. –- Seu ordenador Mark V pode efetuar qualquer operação matemática rotineira que inclua até dez cifras. Entretanto, para nosso trabalho estamos interessados em letras, não em números. Quando tiverem sido modificados os circuitos de produção, a máquina imprimirá palavras, não colunas de cifras.
–- Não compreendo...
–- É um projeto em que estivemos trabalhando durante os últimos três séculos; de fato, desde que se fundou o lamaísmo. É algo estranho para seu modo de pensar; assim espero que me escute com a mente aberta, enquanto explico.
–- Naturalmente.
–- Na realidade, é muito singelo. Estivemos recolhendo uma lista que conterá todos os possíveis nomes de Deus.
–- O que quer dizer?
–- Temos motivos para acreditar –- continuou o lama, imperturbável –- que todos esses nomes se podem escrever com não mais de nove letras em um alfabeto que idealizamos.
–- E estiveram fazendo isto durante três séculos?
–- Sim; achávamos que nos custaria ao redor de quinze mil anos completar o trabalho.
–- Oh! –- exclamou o doutor Wagner, com expressão um tanto aturdida. –- Agora compreendo por que quiseram alugar uma de nossas maquinas. Mas qual é exatamente a finalidade deste projeto?
O lama vacilou durante uma fração de segundo e Wagner se perguntou se o tinha ofendido.
Em todo caso, não houve rastro alguma de zanga na resposta.
–- Chame-o de ritual, se quiser, mas é uma parte fundamental de nossas crenças. Os numerosos nomes do Ser Supremo que existem: Deus, Jehová, Alá, etcétera, só são etiquetas feitas pelos homens. Isto encerra um problema filosófico de certa dificuldade, que não me proponho discutir, mas em algum lugar entre todas as possíveis combinações de letras que se podem fazer estão os que se poderiam chamar de verdadeiros nomes de Deus. Mediante uma permutação sistemática das letras, tentamos elaborar uma lista com todos esses possíveis nomes.
–- Compreendo. começaram com o AAAAAAA... e continuaram até o ZZZZZZZ...
–- Exatamente, embora nós utilizemos um alfabeto especial próprio. Modificando os tipos eletromagnéticos das letras, arruma-se tudo; e isto é muito fácil de fazer. Um problema bastante mais interessante é o de desenhar circuitos para eliminar combinações ridículas. Por exemplo, nenhuma letra deve figurar mais de três vezes consecutivas.
–- Três? Certamente você quer dizer dois.
–- Três é o correto. Temo que me ocuparia muito tempo explicar o por que, mesmo que você entendesse nossa língua.
–- Estou seguro disso –- disse Wagner, apressadamente –- Continue.
–- Por sorte, será fácil adaptar seu computador de seqüência automática a esse trabalho, posto que, uma vez sendo programado adequadamente, permutará cada letra por turno e imprimirá o resultado. O que iria demor quinze mil anos se poderá fazer em cem dias.
O doutor Wagner ouvia os débeis ruídos das ruas de Manhattan, muito abaixo. Estava em um mundo diferente, um mundo de montanhas naturais, não construídas pelo homem. Nas remotas alturas de seu longínquo país, aqueles monges tinham trabalhado com paciência, geração após geração, enchendo suas listas de palavras sem significado. Havia algum limite às loucuras da humanidade? Não obstante, não devia insinuar seus pensamentos.
O cliente sempre tinha razão...
–- Não há dúvida –- replicou o doutor –- de que podemos modificar o Mark V para que imprima listas deste tipo. Mas o problema da instalação e a manutenção já me preocupa mais. Chegar ao Tibet nos tempos atuais não vai ser fácil.
–- Nos encarregaremos disso. Os componentes são bastante pequenos para podermos transportar de avião. Este é um dos motivos de ter eleito sua máquina. Se você pode fazer chegar à Índia, nós proporcionaremos o transporte dali em diante.
–- E querem contratar dois de nossos engenheiros?
–- Sim, para os três meses que se supõe que dure o projeto.
–- Não duvido de que nossa seção de pessoal lhes proporcionará as pessoas idôneas. –- O doutor Wagner fez uma anotação na caderneta que tinha sobre a mesa –- há outras duas questões –- antes de que pudesse terminar a frase, o lama tirou uma pequena folha de papel.
–- Isto é o saldo de minha conta do Banco Asiático.
–- Obrigado. Parece ser... hum... adequado. A segunda questão é tão corriqueira que vacilo em mencioná-la... mas é surpreendente a freqüência com que o que consideramos óbvio acaba nos atrapalhando. Que fonte de energia elétrica vocês tem?
–- Um gerador diesel que proporciona cinqüenta kilowatts a cento e dez volts. Foi instalado faz uns cinco anos e funciona muito bem. Faz a vida no monastério muito mais cômoda, mas, certamente, na realidade foi instalado para proporcionar energia aos alto-falantes que emitem as preces.
–- Certamente –- admitiu o doutor Wagner. –- Devia ter imaginado.
A vista do parapeito era vertiginosa, mas com o tempo se acostuma a tudo.
Depois de três meses, George Hanley não se impressionava pelos dois mil pés de profundidade do abismo, nem pela visão remota dos campos do vale semelhantes a quadrados de um tabuleiro de xadrez. Estava apoiado contra as pedras polidas pelo vento e contemplava com displicência as distintas montanhas, cujos nomes nunca se preocupou de averiguar.
Aquilo, pensava George, era a coisa mais louca que lhe tinha ocorrido jamais.
O “Projeto Shangri-Lá”, como alguém o tinha batizado nos longínquos laboratórios.
Por semanas o Mark V estava produzindo quilômetros de folhas de papel cobertas de galimatias.
Pacientemente, inexoravelmente, o computador ia dispondo letras em todas suas possíveis combinações, esgotando cada classe antes de começar com a seguinte.
Quando as folhas saíam das máquinas de escrever electromáticas, os monges as recortavam cuidadosamente e as pregavam a uns livros enormes. Uma semana mais e, com a ajuda dos céus, teriam terminado. George não sabia que obscuros cálculos tinham convencido aos monges de que não precisavam preocupar-se com as palavras de dez, vinte ou cem letras.
Um de seus habituais quebra-cabeças era que se produzisse alguma mudança de plano e que o grande lama (a quem eles chamavam Sam Jaffe, embora não lhe parecesse absolutamente) anunciasse de repente que o projeto se estenderia aproximadamente até o ano 2060 da Era Cristã. Eram capazes de uma coisa assim.
George ouviu que a pesada porta de madeira se fechava de repente com o vento ao tempo que Chuck entrava no parapeito e parava ao seu lado. Como de costume, Chuck ia fumando um dos charutos puros que lhe tinham feito tão popular entre os monges que, parece, estavam completamente dispostos a adotar todos os menores e grande parte dos maiores prazeres da vida. Isto era uma coisa a seu favor: podiam estar loucos, mas não eram tolos.
Aquelas freqüentes excursões que realizavam à aldeia abaixo, por exemplo...
–- Escuta, George –- disse Chuck, com urgência. –- Soube algo que pode significar um desgosto.
–- O que aconteceu? A máquina não funciona bem? –- Esta era a pior contingência que George podia imaginar. Era algo que poderia atrasar a volta e não havia nada mais horrível. Tal como se sentia ele agora, a simples visão de um anúncio de televisão lhe pareceria um maná caído do céu. Pelo menos, representaria um vínculo com sua terra.
–- Não, não é nada disso. –- Chuck se instalou no parapeito, o que não era habitual nele, porque normalmente lhe dava medo o abismo. –- Acabo de descobrir qual é o motivo de tudo isto.
–- O que quer dizer? Eu pensava que sabíamos.
–- Certo, sabíamos o que os monges estão tentando fazer. Mas não sabíamos por que. É a coisa mais louca...
–- Isso eu imagino –- grunhiu George.
–- ...mas o velho me acaba de falar claramente. Sabe que ele aparece a cada tarde para ver como vão saindo as folhas. Pois bem, desta vez parecia bastante excitado ou, pelo menos, mais do que está acostumado a estar normalmente. Quando lhe disse que estávamos no ultimo ciclo, me perguntou, nesse sotaque inglês tão fino que tem, se eu tinha pensado alguma vez no que tentavam fazer. Eu disse que eu gostaria de sabê-lo... e então me explicou.
–- Continua; estou entendendo.
–- O caso é que eles acreditam que quando tiverem feito a lista de todos os nomes, e admitem que há uns nove trilhões, Deus terá alcançado seu objetivo. A raça humana terá acabado aquilo para o qual foi criada e não terá sentido algum continuar. Certamente, a idéia é algo assim como uma blasfêmia.
–- Então que esperam que façamos? Suicidarmo-nos?
–- Não há nenhuma necessidade disto. Quando a lista estiver completa, Deus entra em ação, acaba com todas as coisas!
–- Oh, já compreendo! Quando terminarmos nosso trabalho, será o fim do mundo.
Chuck deixou escapar uma risadinha nervosa.
–- Isto é exatamente o que disse ao Sam. E sabe o que ocorreu? Olhou-me de um modo muito estranho, como se eu tivesse cometido alguma estupidez e disse: “Não se trata de nada tão corriqueiro como isso”.
George pensou durante um momento.
–- Isto é o que eu chamo de uma visão ampla do assunto –- disse depois. –- Mas o que supõe que deveríamos fazer a respeito? Não vejo que isso faça a mínima diferença para nós. Afinal já sabíamos que estavam loucos.
–- Sim... mas não percebe o que se pode acontecer? Quando a lista estiver acabada e o plano final não der certo, ou não ocorrer o que eles esperam, seja o que for, podem-nos culpar do fracasso. É nossa máquina que estiveram usando. Esta situação eu não gosto nem um pouco.
–- Compreendo –- disse George, lentamente. –- Há nisso um certo interesse. Mas esse tipo de coisas ocorreu outras vezes. Quando eu era um menino, lá em Louisiana, tínhamos um pregador louco que uma vez disse que o fim do mundo chegaria no domingo seguinte. Centenas de pessoas acreditaram e algumas até venderam suas casas. Entretanto, quando nada aconteceu, não ficaram furiosos, como se pode esperar. Simplesmente, decidiram que o pregador tinha cometido um engano em seus cálculos e seguiram acreditando. Parece-me que alguns deles acreditam ainda.
–- Bom, mas isto não é Louisiana, se por acaso ainda não deu conta. Nós não somos mais que dois e monges há a centenas aqui. Eu tenho consideração por eles e sentirei pena pelo velho Sam quando vir seu grande fracasso. Mas de todo modo, eu gostaria de estar em outro lugar.
–- Isso eu estive desejando durante semanas. Mas não podemos fazer nada até que o contrato tenha terminado e cheguem os transportes aéreos para nos levar. Claro que –- disse Chuck, pensativamente –- sempre poderíamos tentar uma ligeira sabotagem.
–- E isso só pioraria as coisas.
–- O que eu quis dizer não foi isso. Olha -- Funcionando as vinte e quatro horas do dia, tal como está fazendo, a máquina terminará seu trabalho dentro de quatro dias a partir de hoje. O transporte chegará dentro de uma semana. Pois bem, tudo o que precisamos fazer é encontrar algo que tenha que ser reparado, quando fizermos uma revisão; algo que interrompa o trabalho durante um par de dias. Nós consertaremos, certamente, mas não com muita pressa. Se calcularmos bem o tempo, poderemos estar no aeródromo quando o último nome ficar impresso no registro. Então já não nos poderão agarrar.
–- Não gosto da idéia –- disse George. –- Seria a primeira vez que abandonei um trabalho. Além disso, faria-lhes suspeitar. Não; vamos ficar e aceitar o que vier.
–- Ainda não gosto dessa disso –- disse ele, sete dias mais tarde, enquanto os pequenos mas resistentes cavalinhos de montanha os levavam para baixo, serpenteando pela estrada. –- E não pense que fujo porque tenho medo. O que passa é que sinto pena desses infelizes e não quero estar junto deles quando perceberem quão tolos foram. Pergunto-me como vai ser com Sam.
–- É curioso –- replicou Chuck –- mas quando lhe disse adeus, tive a sensação de que ele sabia que nós partíamos e que não lhe importava, porque sabia também que a máquina funcionava bem e que o trabalho ficaria muito em breve acabado. depois disso... claro que, para ele, já não há nenhum depois...
George se voltou na cadeira e olhou para trás, atalho acima.
Era o último sítio de onde se podia contemplar com claridade o monastério. A silhueta dos achaparrados e angulares edifícios se recortava contra o céu crepuscular: aqui e alí se viam luzes que resplandeciam como as janelas do flanco de um transatlântico. Luzes elétricas, certamente, compartilhando o mesmo circuito que o Mark V. Quanto tempo seguiriam compartilhando?, perguntou-se George. Destroçariam os monges o computador, levados pelo furor e o desespero? Ou se limitariam a ficar tranqüilos e começariam de novo todos seus cálculos?
Sabia exatamente o que estava passando no alto da montanha naquele mesmo momento.
O grande lama e seus ajudantes estariam sentados, vestidos com suas túnicas de seda e inspecionando as folhas de papel, enquanto os monges principiantes as tiravam das máquinas de escrever e as pregavam aos grandes volumes.
Ninguém diria uma palavra.
O único ruído seria o incessante golpear das letras sobre o papel, porque o Mark V era por si completamente silencioso, enquanto efetuava seus milhares de cálculos por segundo.
Três meses assim, pensou George, era para subir pelas paredes.
–- Ali está! –- gritou Chuck, assinalando abaixo para o vale. –- Não é belo!?
Certamente era, pensou George. O velho DC3 estava no final da pista, como uma pequena cruz de prata. Dentro de duas horas os estaria levando para a liberdade e a sensatez.
Era algo assim como saborear um licor de qualidade. George deixou que o pensamento lhe enchesse a mente, enquanto o cavalinho avançava pacientemente para baixo.
A rápida chegada da noite nas alturas do Himalaia quase lhes caia em cima. Felizmente, o caminho era muito bom, como a maioria dos da região e eles foram equipados com lanternas.
Não havia o mais ligeiro perigo: só certo desconforto causado pelo intenso frio. O céu estava perfeitamente iluminado pelas familiares e amistosas estrelas. Pelo menos, pensou George, não haveria risco de que o piloto não pudesse decolar por conta das condições do tempo.
Esta tinha sido sua ultima preocupação.
Ficou a cantar, mas deixou disso logo. O vasto cenário das montanhas, brilhando por toda parte como fantasmas brancos e encapuzados, não o animava a cantar.
De repente, George consultou seu relógio.
–- Estaremos lá dentro de uma hora –- disse voltando-se para Chuck. Depois, pensando em outra coisa, acrescentou: –- Pergunto-me se o ordenador terá terminado seu trabalho. Estava calculado para esta hora.
Chuck não respondeu; assim George se voltou completamente para si. Pôde ver a cara do Chuck; era um oval branco voltado para o céu.
–- Olhe –- sussurrou Chuck; George elevou a vista para o espaço.
Sempre há uma última vez para tudo.
Viram sem nenhuma comoção... as estrelas estavam apagando-se.
FIM
Esta história foi escrita, na falta de algo melhor para fazer num final de semana chuvoso no Hotel Roosevelt. J. B. S. Haldane (famoso geneticista e biólogo britânico) disse sobre ela: "Você é uma das poucas pessoas vivas que escreveu algo original sobre Deus. Se você se propusesse a escrever uma hipótese teológica, você poderia ser um sério problema público."
Estou satisfeito em permanecer um profeta, com 'p' minúsculo,
Todavia, parece que criei um mito duradouro: não faz muito tempo, um programa de rádio da BBC, se referiu a primeira parte desta história como um fato atual. Computadores da IBM estariam entrando no campo dos estudos bíblicos, talvez este tema esteja se aproximado um pouquinho da realidade.
The Nine Billion Names of God (1953) - Arthur C. Clarke
Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. Se quiser outros títulos nos procure Viciados em Livros, será um prazer recebê-lo em nosso grupo.
sábado, 5 de abril de 2008
A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Notas e links
O PLANETA DOS MACACOS E O OSCAR
O filme ‘O Planeta dos Macacos’ (PLANET OF THE APES) foi baseado no romance de Pierre Boulle, dirigido por Franklin Schaffner e recebeu três indicações para o Oscar de 1968: Arranjo musical (Jerry Goldsmith), Figurino (Morton Haack) e Maquiagem (John Chambers). Ganhou com o último.
O CENÁRIO LUNAR
Havia uma teoria na época sobre uma conspiração ligando Stanley Kubrick e a NASA. Ele teria auxiliado na criação dos efeitos especiais utilizados na fraude do pouso lunar americano.
A imagem http://www.afraudedoseculo.com.br/images/kubrick3.jpg é do set do filme ‘2001’.
A RENÛNCIA QUE QUASE CANCELOU O FILME
Lyndon B. Johnson, líder político democrata, eleito vice-presidente de John Kennedy em 1960, assumiu a presidência dos EUA após o assassinato de Kennedy e foi o idealizador da ‘Grande Sociedade’. Sob seu governo, o país fez explorações espaciais espetaculares. Quando três astronautas orbitaram com sucesso a lua (Dezembro de 1968) Johnson disse:: "Vocês levaram todos nós, de todo o mundo, a uma nova era."
Apesar de ter sido reeleito em 1964, crises como a da questão racial e a situação no Vietnã, o levaram a entregar o cargo em 1968. Morreu cinco anos depois, de ataque cardíaco, em seu rancho no Texas.
BRITSH INTERPLANETARY SOCIETY (BIS)
A FAMOSA PARTIDA DE XADREZ ENTRE MÁQUINA E HOMEM
Em Maio de 1997 o supercomputador da IBM, Deep Blue, disputou várias partidas com o campeão mundial de xadrez da época, Garry Kasparov, derrotando-o. O evento foi transmitido pela Internet.
A BELL
Conhecida como Bell Labs ou hoje, AT&T Bell Laboratories, é uma empresa dedicada a pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias e teve sua origem na Bell Telephone Company fundada em 1878 por Alexander Graham Bell.
ALAN TURINGA ENIGMA
Enigma era uma máquina usada para de/criptografar mensagens. Usada comercialmente desde 1920, foi adotada pela Alemanha Nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
A ilha de Sri Lanka, ou pequena lágrima da Índia, no passado conhecida como Serendib, Dharma e Ceilão, fica no sul da Ásia, a 31 km da Índia. Ex-colônia inglesa, é desde 1948, uma república independente.
Marvin Lee Minsky professor da MIT, formado em matemática pela Harvard e Princeton, é uma autoridade no campo da Inteligência Artificial, psicologia cognitiva, lingüística computacional, robótica e ótica. Trabalhou na construção do primeiro simulador de rede neural e colaborou no desenvolvimento das mãos mecânicas, no microscópio de varredura, no sintetizador musical e na linguagem Logo, entre outras invenções.
DAISY
A canção ‘Daisy Bell’, que faz parte da cultura popular inglesa, foi utilizada em 1962 pelo físico John Larry Kelly Jr. da Bell Labs, para demonstração do sintetizador de voz desenvolvido pela empresa. Arthur Clarke por coincidência visitava na época um amigo, John Pierce, na Bell Labs, e ficou tão impressionado que solicitou uma gravação para ser usada em ‘2001, Uma Odisséia no espaço’.
A letra: ‘ There is a flower within my heart / Daisy, Daisy / Planted one day by a glancing dart / Planted by Daisy Bell / Whether she loves me or loves me not / Sometimes it's hard to tell / Yet I am longing to share the lot / Of beautiful Daisy Bell / Daisy, Daisy, give me your answer do / I'm half crazy all for the love of you / It won't be a stylish marriage / I can't afford a carriage / But you'll look sweet upon the seat / Of a bicycle built for two / We will go 'tandem' as man and wife / Daisy, Daisy / Ped'ling away down the road of life / I and my Daisy Bell / When the road's dark, we can both despise / Policemen and lamps as well / There are bright lights in the dazzling eyes / Of beautiful Daisy Bell / I will stand by you in "wheel" or woe / Daisy, Daisy / You'll be the bell(e) which I'll ring you know / Sweet little Daisy Bell / You'll take the lead in each trip we take / Then if I don’t do well / I will permit you to use the brake / My beautiful Daisy Bell’
Big Brother é um personagem ficcional do romance 1984 (de George Orwell), o enigmático ditador de Oceania, um estado totalitário. Orwell descreve que todos nesta sociedade, são permanentemente mantidos sob a vigilância através da tele-telas. O povo é constantemente relembrado disso pela frase ‘Big Brother está vendo você’ e a sua representação lembra a aparência do ditador russo Stalin. O livro não deixa claro se Big Brother realmente existe como uma pessoa ou se é uma imagem criada pelo Partido que governa Oceania.
DOUG LENAT
Douglas B Lenat, matemático e físico, é presidente da Cycorp Inc. em Austin,Texas, e um proeminente pesquisador de inteligência artificial, engenharia ontológica, especialmente sobre ‘máquinas que aprendem’ (programa Eurisko). Trabalha também com simulações militares e ficou conhecido por um artigo criticando a validade do conceito de mutação randômica do Darwinismo.
SONHO E REALIDADE, O COMPUTADOR DE 2001
Como se construir HAL hoje, em 3 simples passos
Restaurando a reputação de HAL (Wired)
Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4
A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Parte 4/4

Stork: Será que o desenvolvimento dos CG mudará a natureza fundamental da nossa interação com computadores. Será mais visual do que tátil?
Clarke: Irá ser cada vez mais visual, mas também pela fala, e as pessoas já estão tratando computadores como indivíduos, cada vez mais.
Stork: Você consegue enxergar seu laptop ou desktop com uma personalidade ou uma identidade?
Clarke: Meu computador tinha um programa que dizia ‘Me desculpe Dave, eu não posso fazer isso’, quando eu o mandava fazer algo idiota. Mas não é uma personalidade de verdade ainda.
Stork: Podemos ocasionalmente atribuir um sentido nosso às máquinas, mas HAL tinha seu próprio e sabia que existia, de alguma forma. De onde isso veio?
Clarke: Não tenho certeza de onde tiramos nosso sentido de identidade, obviamente ele se desenvolve conforme crescemos e presumidamente HAL também desenvolveu ao nascer em Urbana, ao aprender com Mr.Langley.
Clarke: Não vejo razão por que um computador não possa possuir qualquer atributo que um ser humano possui. Gosto de citar Marvin Minsky quando diz ‘Sou uma máquina, eu penso’. e você poderia dizer ‘Sou uma máquina, tenho emoções.’ E nós somos máquinas, máquinas baseadas em carbono, algumas pessoas podem dizer ‘ah, você é muito mais do que uma máquina’. Ok, me mostre o que temos, que uma máquina não poderia ter? Esta discussão já dura milhares de anos, eu acho. O fantasma na máquina.
Stork: Então para você não há diferença fundamental entre coisas animadas e inanimadas?
Clarke: Neste espectro contínuo sim, entre estar vivo e não estar, consciente e inconsciente não há divisórias, acho.
Stork: A obscura distinção entre humanos e máquinas, entre animados e inanimados, pensante e não pensante.
Clarke: A barreira entre máquinas e homens, entre computadores e homens, está se movendo o tempo todo. E eventualmente haverá computadores que pensarão serem seres humanos, se você deixar que eles se desenvolvam. E ultimamente podem haver computadores que começaram a fazer coisas que nós sequer começamos a entender, já que uma geração de computadores sucede a outra, com mais e mais recursos. Este é o pensamento que assusta muita gente. Sabe, a velha história de Frankenstein, mas eu sempre disse, talvez otimisticamente, que a real inteligência não será malévola.
Stork: Por que?
Clarke: Qualquer inteligência não será malévola ou agressiva, até que tenha que se defender. Costumo dizer que se houver uma guerra entre homem e máquina, eu saberei dizer que lado a começou.
Stork: Mas imagine que Kubrick discordasse disso. Que máquinas pudessem ser malévolas e que fossem. Ele poderia ter uma idéia diferente de quem começou a guerra.
Clarke: Kubrick tinha uma visão sarcástica, se não pessimista, da tecnologia. É claro que ‘Dr.Strangelove’ é um clássico exemplo de máquinas que vão para o lado errado. Eu não sei se ele concordaria comigo, que uma máquina realmente inteligente não faria o mal.
Stork: Para seres humanos evoluírem é necessário algum conflito. As máquinas não necessitam da seleção natural, do conflito. Talvez esta noção do beneficio inerente ao conflito seja algo que se perca com relação às máquinas e portanto, elas não precisariam ser beligerantes.
Clarke: Nós provavelmente desenvolvemos nossos instintos agressivos através da evolução, por vivermos em um ambiente perigoso, então as máquinas não teriam este pano de fundo, então talvez não fossem agressivas e não fossem malévolas, a não ser que fossem deliberadamente programadas por nós neste sentido, o que é incidentalmente o que ocorre hoje. Todas esperando dentro de silos subterrâneos espalhados pelo mundo.
Stork: Você é praticamente um otimista quanto a tudo que eu li e tudo que sei sobre você. Tudo que eu vi de Kubrick me parece bem pessimista. Foi difícil trabalhar junto com ele, se admitirmos que vocês são pessoas com visões de vida diferentes?
Clarke: Discutíamos sobre todo tipo de coisa, mas não me lembro de perdermos nossa cabeça em momento algum, um com o outro; exceto talvez por uma coisa; a data de publicação do livro.
Clerke: Ele disse que não tinha tempo de olhar meu manuscrito, pois estava ocupado demais com o filme. Apesar disso, tudo correu bem.
Stork: Na sua opinião, quais são as maiores diferenças entre o livro e o filme?
Clarke: São inúmeras diferenças fundamentais entre eles. No livro usamos a gravidade de Júpiter como um impulso (flyby), exatamente como a Galileo fez e está fazendo e as outras sondas espaciais também. Fomos para Saturno por dois motivos: Saturno é o mais belo e mais espetacular dos planetas. Nós decidimos não ir para Saturno no filme por que o departamento de artes não conseguiria reproduzi-lo, e fiquei feliz com isso, por que sei da incrível complexidade dos anéis de Saturno. Nosso Saturno iria parecer ultrapassado, datado. Fiquei feliz por trocar por Júpiter, que também é bastante espetacular, de qualquer maneira.
Stork: O departamento de artes trabalhou bem com a lua. Diga-nos sobre o esforço de fazer uma lua direito. Vocês depois conversaram com astronautas que estiveram lá e que poderiam comparar sua versão com a lua de verdade.
Clarke: Quando fizemos o filme não sabíamos exatamente como era a superfície lunar. Sabemos agora que a superfície é bombardeada constantemente. Tivemos que fazer algumas apostas. Felizmente não estávamos tão longe da verdade. Não pareceu muito ridícula. Os astronautas depois nos cumprimentaram. Eu tenho ao meu lado um belo mapa lunar da missão Apollo 15, com a assinatura deles. Eles deram nome a uma das crateras, de um dos meus livros. Muitos disseram que parecia que nós havíamos estado lá antes deles.
Stork: Uma das diferenças entre o livro e o filme, é que o livro explica bastante enquanto o filme não. Por que não ter as explicações no filme?
Clarke: Sempre sou acusado de dar explicações demais no livro e Stanley era acusado de não tê-las feito, mas Stanley dizia para mim ‘Eu quero dar a você uma experiência emocional, e você não precisa entender exatamente o que está acontecendo, se você sentir aquilo que eu quero evocar.’ Acho que ele estava certo. Stanley queria criar um mito, e um mito é inesgotável e você pode ter suas próprias idéias sobre aquilo ou você pode não concordar com a opinião do cara sentado ao lado. Eu tentei explicar o necessário. Talvez eu tenha explicado coisas demais.
O legado de HALParte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Notas e Links
A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Parte 3/4

Stork: HAL vive em uma espaçonave entre cientistas, engenheiros e astronautas, mas muito do que hoje ocorre na ciência de computadores está ligado ao lado comercial. Qualquer pessoa possui um computador de mesa, ou um som digital, ou um relógio digital. Me parece uma tendência que foi subestimada e não prevista em 2001.
Clarke: Ninguém imaginou como os computadores tomariam conta do mundo. O presidente da IBM ficou famoso por dizer em 1940, que só haveriam no mercado, cinco ou seis computadores, não me lembro do número exato, mas cada casa hoje tem mais computadores do que isso, quase que em cada quarto. Ninguém, nem mesmo o mais louco dos escritores de ficção cientifica, talvez apenas Isaac Asimov, colocou um Palm top em suas histórias. Isaac provavelmente, eu certamente não.
Stork:
Clarke: Apenas vemos o que é obvio eventualmente.
Stork: Você foi tão presciente sobre os satélites orbitais. Nos conte sobre sua previsão.
Clarke: Bem, o conceito de um satélite de comunicação orbital é, honestamente, algo simples. Se eu não tivesse escrito meu artigo em 1945, eu sabia de 10 pessoas que o fariam em 1946.
Stork: Descreva-o para nós.
Clarke: Em 1945 eu trabalhava com o mais avançado radar do mundo. Radar de aproximação, que trabalhava com freqüências de 3cm de tamanho de onda. Era um grande segredo. Lembro que quando um dos nossos magnetrons, que geravam a energia, teve que ser mandado para reparos, tive que portar uma arma, no caso de tropas de paraquedistas alemães tentarem roubá-lo. Acho que não faria tanta resistência assim e nem tão eficaz. De qualquer forma, os magnetrons eram secretos e agora tem um em cada forno de microondas. Trabalhava nesse radar de feixe estreito e é claro, que eu sempre estive interessado em viagens espaciais, toda minha vida, e tinha sido membro da British Interplanetary Society, em 1936 em Liverpool. Em 1945 quando parecia que a guerra logo terminaria, alguns de nós, prematuros cadetes do espaço, nos reunimos e dissemos, bem, como podemos fazer algum dinheiro para construir nosso foguete para chegarmos até a lua. Enquanto pensávamos sobre isso, o conceito de usar satélites como retransmissores me surgiu. Não tenho certeza hoje como a idéia não surgiu para outros, nas nossas discussões. Eu fui aquele que escreveu o artigo, então eu o desenvolvi como um trabalho e que incluía tudo que já fora feito até aquela época, incluindo algo que só recentemente foi feito, como o link ótico entre satélites.
Stork: Dos dois maiores desenvolvimentos no mundo da comunicação, satélites e Internet, você foi diretamente responsável por um deles.
Clarke: O que eu não previ e ninguém o fez, foi o extraordinário aparecimento dos cabos. Escrevi um livro sobre o cabo atlântico. Ninguém nunca imaginou que simples filamentos de vidro, teriam uma performance tão superior a qualquer cabo de cobre e desbancariam, inclusive, os satélites - mas são limitados ao sistema ponto a ponto e você precisa de satélites para cobertura global e móvel.
Stork: Durante a produção do filme, você viu apenas partes e pequenos pedaços. A primeira vez que assistiu inteiro foi na noite de lançamento. Você ficou impressionado?
Clarke: Acho que vi o filme completo pouco antes disso, mas só rapidamente e mais o final. Stanley ainda estava montando-o, cortando e mudando-o e não me lembro de meus sentimentos a respeito da primeira vez no cinema, que foi em Uptown, em Washington. Na verdade eu estive nas três apresentações noturnas sucessivas, esta em Washington, em New York e em Los Angeles, vestido de pingüim. Faz tanto tempo, não confio na minha memória do evento. Quase foi um fracasso, devido ao Presidente Johnson ter anunciado sua renûncia e Martin Luther King tinha sido assassinado, muitas coisas estavam acontecendo nos bastidores. Nós realmente não sabíamos o que tínhamos realizado.
Stork: Fale-nos do Oscar.
Clarke: 2001 foi indicado. Acho que por efeitos especiais. Estava no Arthur Chandler Pavilion para a cerimônia, com o melhor discurso não lido jamais escrito. Foi sem dúvida um desapontamento, quando eles anunciaram que você não conseguiu aquilo que tanto desejava. Acho que fiquei um pouco aborrecido por que ‘O planeta dos Macacos’ ganhara um Oscar por maquiagem e achava que tínhamos feito algo ao menos tão bom quanto aquilo.
Stork: O que você teria dito se tivesse ganho?
Clarke: Não tenho a menor idéia do que dizia o discurso. Tenho que procurá-lo qualquer dia desses. Deve estar enterrado nos ‘clarkivos’.
Stork: Vamos falar de HAL e da sua visão. Nós vemos primeiramente HAL como um grande olho vermelho. De onde ele veio?
Clarke: O famoso olho vermelho foi um produto do departamento de artes e eu acredito que alguem em algum lugar, tem o verdadeiro olho que foi leiloado. Na verdade não faz muito sentido, pois eu queria visão binocular. Por que era vermelho? Dava uma impressão agourenta, mas não era prático.
Stork: Mas a gente tinha a impressão de que era ominipresente, não interessava onde você ia, tinha um olho.
Clarke: O Grande HAL está olhando você!
Stork: Você foi unfluenciado pelo Grande Irmão (Big Brother)?
Clarke: Nós estamos entrando em um mundo onde computadores tipo HAL estão nos vigiando. Eles estão instalando câmeras pelas cidades, particularmente em áreas de alta criminalidade, o que nos causa alguma preocupação, mas sou a favor.
Stork: Então HAL reconhece os tripulantes. Ele faz leitura labial. Nos fale de suas habilidades.
Clarke: A única que eu sei foi a sugestão de Stanley, o poder de ler lábios. Primeiro, eu não acreditava que um computador pudesse fazê-lo. Segundo, por que alguem se importaria em dar esta capacidade a ele? É um ponto inportante que nunca foi explicado. De qualquer jeito, produziu uma seqüência inesquecível.
Stork: Mas talvez a leitura labial só tenha aparecido. Uma vez que você tem reconhecimento de fala, uma vez que tem visão,HAL poderia ter juntado tudo isso. Além disso, você nunca aprende leitura labial e assim mesmo consegue fazê-lo.
Clarke: Bem, eu não consigo ler lábios, a não ser que o faça inconscientemente. E agora que estou ficando surdo, eu deveria estar fazendo mais leitura labial. Mas parece incrível para mim que um bom leitor de lábios, possa enganar as pessoas a volta, a ponto de achar que ele pode ouvir.
Stork: Que tipo de problemas HAL teria com este problema de visão? Ele tinha que reconhecer a equipe.
Clarke: O problema técnico é fazer com que HAL reconhecesse o que acontece ao seu redor, milhões e bilhões de bytes de informação por segundo. O que é relevante, e o que não é. É um problema fantástico de programação, mas tenho certeza de que pode ser resolvido, apesar de eu não saber como.
Stork: Por que os seres humanos são tão bons nisso e as máquinas não?
Clarke: Acho que os humanos são bons em extrair mensagens importantes das suas cercanias, por que se não soubessemos que o tigre dentes de sabre está na espreita, nós não estaríamos aqui. Então selecionamos esta nossa habilidade para isso.
Stork: Mas como ele consegue saber onde a tripulação se encontra? Parece um milagre de certa forma, no meio daquela confusão de sinais sensoriais, HAL de alguma forma pode escolher o que ver, o que ouvir.
Clarke: O mais importante para HAL é saber onde a tripulação se encontra. O trabalho de ensiná-lo o que é importante seria tremendo. É o inesperado. Coisas que ninguém pode provavelmente ter imaginado, é que causam os problemas reais. Quero dizer, coisas realmente impossíveis, que vemos na tecnologia de acidentes, que ninguém sonhou o que ocorreria e acontecem.
Stork: Humanos são flexíveis e muita gente acha que os computadores só fazem aquilo que lhes dizem e que nunca serão capazes de antecipar estes eventos inesperados.
Clarke: É uma falácia imaginar que computadores só fazem aquilo que lhes dizem para fazer, por que nós podemos estender suas habilidades. Podemos dizer a eles para serem curiosos, e eles podem aprender coisas que nós não sabemos. Isso já foi feito, de fato, na matemática.
Stork: Quer falar sobre isso? No trabalho de Doug Lenat sobre descobrir novos teoremas matemáticos com computadores?
Clarke: Não sei muito a respeito.
Stork: Nós humanos confiamos bastante na visão. Muito do nosso mundo é visual, muito do nosso cérebro é visual. Acha que poderia ter um HAL sem visão?
Clarke: HAL sem visão seria limitado, mas existem outros sentidos, a habilidade de ler ondas eletro-magnéticas. O som, é claro, você pode ‘ver’ através do som, como os golfinhos fazem. Apesar da visão ser importante, talvez não seja tão mais importante.
Stork: Outro aspecto de HAL é sua emoção. HAL parecia mais emocional do que sua tripulação, como mencionou. Por que fazê-lo assim?
Clarke: Existe um argumento a ser considerado e que poderia explicar o por que de computadores emocionais. Será que poderiam ser inteligentes se não tivessem emoções? É uma questão para a qual não tenho certeza de saber a resposta. Eu penso que emoções são essenciais, a outra é, podemos ter emoções sem inteligência, e todos conhecemos pessoas assim.
Stork: Como ele demonstra estas emoções? Ele é só um olho e uma voz.
Clarke: Com sua voz. É claro que a voz é critica. Não imagino HAL sem a voz de Douglas Rain. De outro modo, é claro, ele mostra suas emoções com suas ações. Desconectar os astronautas dos sistemas de suporte de vida por exemplo.
Stork: Ele diz que tem medo. Um computador pode sentir medo?
Clarke: Não tenho certeza que possa, mas pode ser programado para se comportar como tal. Não sei qual a distinção filosófica entre uma coisa e outra.
Stork: No filme ouvimos a explicação que a programação emocional de HAL faz com que, seja mais fácil de se falar com ele. Mas se HAL possuía sentimentos genuínos nunca saberemos. Ele tinha?
Clarke: Acho que sim. Há uma discussão no filme de fato, onde dois astronautas tentam decidir se HAL tem uma personalidade e se ele é uma pessoa de verdade, e um deles diz ‘ele age como se acreditasse que é’. E é isso. Eu tenho um cachorro e sou muito ligado a ele e eu acho que ele me ama, mas será que ele está somente agindo como se me amasse?
Stork: Isso importa?
Clarke: Quando um comportamento se parece tanto com a coisa real, qualquer que seja, a ponto de não poder distinguí-los, então eu acho que não importa.
Stork: Como você concebeu a morte de HAL?
Clarke: A sua morte é certamente um dos aspectos mais emocionantes do filme, quando Bowman puxa lentamente os módulos. Ainda bem que não fizemos aquele filme nos dias de hoje, pois seriam microchips deste tamanho (indica com os dedos algo minúsculo) ao invés de belos módulos manuseáveis. Não seria nada dramático. Mas, é um tipo de lobotomia, é claro. A idéia básica é essa.
Stork: Você colocou estes módulos apenas para causar o efeito ou existia alguma consideração cientifica por detrás ?
Clarke: Puramente efeito dramático, queríamos que fossem puxados, um depois do outro.
Stork: A sala do cérebro era grande como uma casa e muito iluminada. Quem estava lá além de HAL para ver tanta luz?
Clarke: A sala do cérebro de HAL é engraçada, se pensarmos nos computadores de hoje. Um dos engenheiros poderia precisar entrar lá para ver se tudo estava de acordo.
Stork: Por que a tripulação não tinha relógios digitais?
Clarke: É difícil imaginar o que uma mudança tecnológica pode fazer em 30 anos ou desde que o filme foi feito. Não me lembro dos relógios. Acho que tínhamos alguns com um design antigo por lá, em algum lugar. Poucas tecnologias desaparecem completamente.
Stork: HAL parecia bem simples graficamente. Quer falar algo sobre o crescimento do CG (Computer Graphics)?
Clarke: Aquilo que vemos em 2001 parecia impressionante na época. É claro que hoje podemos fazer coisas incríveis.
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A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Parte 2/4

Stork: Kubrick via 2001 por um lado ‘espiritual’. Por que você acha que ele pensava assim?
Clarke: O uso que Kubrick dava para a palavra ‘espiritual’ em relação ao filme é complicado de definir. Eu acho que ‘emocional’ talvez fosse melhor.
Stork: É notável que seja ‘emocional’, quando os personagens não demonstram suas emoções.
Clarke: Surpreendentemente muito da emoção vem quando HAL desconecta os astronautas que dormem e você vê os sistemas de suporte a vida falhando, aquilo é muito tocante.
Stork: Muitos momentos decisivos ocorrem no silêncio.
Clarke: Tentamos ser precisos sempre. Parte da ação acontece fora da Discovery, no espaço, que é claro, totalmente silencioso.
Stork: O que pensa sobre o progresso da Inteligência artificial?
Clarke: Concordo que a Inteligência artificial, como definimos, está uns dez anos à nossa frente. Este dia virá.
Stork: Se você escrevesse esta mesma história hoje, você faria HAL igual?
Clarke: Em ‘2010’ eu fiz mudanças em HAL, e eventualmente fiz dele um sujeito bacana. Se eu tivesse planos de fazer um novo filme, eu certamente o faria desta forma.
Stork: Por que você o fez?
Clarke: Acho que mesmo o pior sujeito pode ser recuperado eventualmente, e esta é uma mudança interessante, fazer de HAL um bom sujeito.
Stork: Então você não pensa nele como uma extensão natural da maldade humana?
Clarke: Inteligência é uma ferramenta que pode ser usada para o bem ou para o mal. A história humana prova que sem a inteligência não se pode fazer nada. É como o fogo. Sem ele não teríamos a civilização e olhe quanta destruição o fogo causou.
Stork: Tem uma cena maravilhosa de HAL cantando ‘Daisy’. Pode nos dizer como isso se originou?
Clarke: Quando HAL é desconectado e canta ‘Daisy, Daisy’ é uma piada, por que o primeiro computador construído para falar nos laboratórios da Bell em 1940, 1950,
cantou ‘Daisy, Daisy’ com uma voz bem mecânica; combinamos isto com meu amigo John Pierce, o diretor do laboratório.
Stork: HAL nasceu em Urbana, Illinois. Por que?
Clarke: Eu escolhi Urbana por um motivo pessoal. Meu professor de matemática aplicada na Kings era George MacVeaty, que depois foi para Urbana e para a Universidade de Illinois. Eu descobri depois que George trabalhou em Bletchley Park, onde eles quebraram o código do Enigma, o código alemão. E aconteceu que o primeiro computador, o Colossus, foi construído com o propósito de quebrar este código. Também em Bletchley Park, trabalhava Alan Turing e ele desenvolveu o teste Kana Machine, eles escreveram um livro chamado ‘Kana Machine Think’ e eles inventaram o famoso teste que se você está conversando, digamos, através de um teleprinter ou um computador e não puder dizer se o seu interlocutor do outro lado, é um ser humano ou uma máquina, estará provado que do outro lado haverá uma inteligência. Hoje este teste é aplicado em outras áreas e as pessoas podem ser enganadas por pouco tempo, mas eventualmente você perguntará alguma coisa e receberá uma resposta estúpida.
Stock: HAL nasceu em 12 de Janeiro de 1992. Por que a data, e por que tão antes de 2001?
Clarke: Acho que HAL teve duas datas de nascimento, uma no filme e outra no livro e ambas ocorreram bem antes de 2001. Não sei por que escolhemos estas datas. Nem estou certo de que sabiam que ambas eram domingos.
Stork: Você chegou a pensar em fazer de HAL um robô. Por que a rejeitou?
Clarke: Pensamos em fazer HAL um robô convencional. Poderia se mover e fazer coisas. Então nós chegamos a conclusão de que seria um clichet. Já haviam muitos monstros mecânicos, você sabe. Robbie, o robô e outros. E é claro, o mais belo robô de todos, em Metropolis, de Fritz Lang. Então fugimos do clichet e pensamos que se distribuíssemos sensores nós poderíamos ver tudo por toda parte e talvez manipuladores que poderiam controlar coisas, não precisariamos mover o cérebro central. Poderia ficar em um só lugar, imóvel. De novo esta era uma idéia antiga, de Olof Stapledon, ‘Last and First men’ onde há uma raça de gigantescos cérebros imóveis, com suportes de vida e todo tipo de sensores, mas nunca se mexiam. Não precisavam.
Stork: Você pode dizer então que primeiramente foi por rações artísticas? Não fazê-lo como um robô.
Clarke: Acho que parte por razões artísticas e também por que era bem mais fácil assim. Imagine em um confronto ente os astronautas e um HAL móvel, balançando os braços e tudo mais, seria uma cena bem dramática - acho que algo parecido com isso é feito de tempos em tempos, mas fico agradecido por não termos feito. Incidentalmente eu me tornei como HAL, por que não posso me mover, mas tenho sensores espalhados pelo mundo.
Stork: HAL matou. Foi assassinato?
Clarke: Quando ele mata, não acho que seja assassinato. Bem, depende inteiramente da sua definição. Podemos dizer que foi auto-defesa, que é um argumento utilizado pela lei. Acho que foi mais auto-defesa do que assassinato.
Stork: Não seria imoral, se desconectar um computador inteligente como HAL?
Clarke: Esta é uma pergunta interessante, se seria imoral desconectar ou desligar-se temporariamente um computador inteligente. De outra forma, alguns computadores poderiam ser capazes de dormir de tempos em tempos, como nós. É um ponto para se discutir. Uma das razões pelas quais fizemos HAL daquele jeito, foi poder mostrá-lo sendo dramaticamente desconectado. Puxando aquelas coisas. Mas é claro, não seria tão dramático se fossem microchips.
Stork: HAL pergunta, não no filme, mas no livro, se vai sonhar quando for desligado. Um computador sonha quando está desligado?
Clarke: Não vejo por que razão não possam. Nós sonhamos para organizar e rejeitar todo tipo de input e informações que retemos durante o dia. Jogue no lixo isso, guarde aquilo, e assim vai. Isso é só o que os sonhos fazem. Estou certo que um computador inteligente terá que fazer o mesmo. Provavelmente o fará por multi-tarefa e não precisará ser desligado.
Stork: Ao longo do filme vemos vários comerciais interessantes. Fale-nos sobre eles e por que você achou que seria a Bell Telephone a ganhar o espaço em 2001.
Clarke: Como a maioria dos filmes de grande orçamento, tenta-se jogar com a indústria, por dois motivos, algumas vezes as companhias irão pagar por isso, de qualquer jeito é uma boa publicidade, nas duas direções, mesmo que nenhum dinheiro venha a aparecer. A Bell Labs é claro, se interessou. É uma ironia que tenha sido desfeita pouco depois do lançamento do filme.
Stork: Nos fale sobre o xadrez como uma marca da inteligência e o que HAL tem a ver com isso.
Clarke: Kubrick escolheu o xadrez por várias razões, estou certo disso. Um dos motivos é que ele modestamente ganhava para jogar xadrez na Washington Square, contra adversários, poucos dólares, mas dava para viver. Felizmente eu nunca aprendi nem as regras mais básicas. Deliberadamente, pois tinha medo de que se eu aprendesse, seria possuído. Foi muita sorte; esta foi uma decisão que tomei quando criança. Eu era aficcionado por jogo de damas e dardos, mas xadrez, de jeito algum! E se eu tivesse me tornado um enxadrista, 2001 nunca teria sido feito. Estou certo que Stanley e eu passaríamos muito tempo jogando e eu ficaria muito frustrado por ser derrotado por ele. Se xadrez é uma prova de inteligência, é claro que é discutível, desde que o campeão de xadrez atual é um computador.
Stork: Por que diz que é discutivel? Deveria significar que a máquina é inteligente. Acha que Deep Blue é inteligente?
Clarke: Se xadrez for um teste de inteligência, então obviamente alguns computadores são mais inteligentes do que seres humanos. Mas se xadrez for uma questão de ‘força bruta’; você sabe, utilizar algoritimos, apenas tentando de tudo até que se encontre um que funcione, então não é realmente inteligência.
Stork: Então você está dizendo que não existem máquinas inteligentes hoje?
Clarke: Tenho duvida se existe alguma máquina realmente inteligente hoje, mas estou certo de que existem algumas sendo testadas. Talvez em dez anos. Robôs que podem construir outros robôs já são uma realidade.
Stork: É vida artificial?
Clarke: Vida artificial é outra questão, não é o mesmo que inteligência artificial. Existem células automatas que são padrões que se movem de um computador para outro de acordo com regras bem simples, e tem um comportamento como seres vivos. Elas podem ser definidas como criaturas vivas, embora suas possibilidades sejam limitadas, eu diria.
Stork: Então você define a vida como algo separado do substrato?
Clarke: Vida é algo que surge com complexidade. Aconteceu de surgir aqui, com base no carbono. Mas poderia ser silício, amônia, plasma. Como no livro de Fred Hoyles ‘The black cloud’ - tudo é possível. Mesmo galáxias inteligentes. É claro que elas pensavam bem vagarosamente.
Stork: E quanto aos sistemas econômicos, são grandes e bem complexos. Aprendem, podem reagir, trocar produtos e as pessoas agem dentro dele.
Clarke: Sim, sistemas econômicos mundiais, são certamente organismos. Eu escrevi um conto, muitos anos atrás, chamado ‘Dial F for Frankenstein’, onde eu assumo que o sistema telefônico mundial em certo ponto, se torna uma entidade viva. Depois de uma ligação, ele subitamente começa a pensar e toma o controle do mundo. Escrevi isso nos anos 60 e acho que foi publicado na Playboy. ‘Dial F for Frankenstein’ se tornou datado hoje, por que ninguém mais disca é claro, e hoje se isso acontecesse, não seria com o sistema telefônico, mas com a Internet. Mas é claro que é uma possibilidade real. Quando a Internet irá tomar conta?
Stork: Alguma sugestão? Alguma idéia?
Clarke: Acho que a Internet já assumiu o controle. Passo 90% do meu tempo na Internet trocando emails, então provavelmente isso já aconteceu.
Stork: Mas ainda não é inteligente. Acho que concorda comigo.
Clarke: A Internet não é inteligente, nem a maioria das pessoas que a utilizam. Acho as vezes penso que não sou inteligente, por gastar tanto tempo da minha vida nela.
Stork: Computadores são ubiguos. Tratamos com eles de diversas maneiras. Teclamos neles, falamos com eles, escrevemos neles com canetas especiais. Como HAL. Você poderia especular que métodos surgirão para que humanos e máquinas se comuniquem?
Clarke: Hoje usamos teclados para nos comunicar. E cada vez mais usaremos a voz e eles falarão conosco. Em breve, acho que teremos implantes cerebrais e isso já está sendo testado - já está acontecendo. Na semana passada, um rapaz ganhou uma mão biônica que era controlada mentalmente. É obvio que é o próximo passo, e em um dos meus livros eu mostro um capacete que se ajusta ao crânio. Com milhares de micro eletrodos, não irei entrar em detalhes técnicos, deixarei para os engenheiros. E teremos comunicação mental direta, telepatia eletrônica se preferir, com computadores e é claro, entre eles. Irá revolucionar a sociedade. É algo bastante comum em livros de ficção científica. Uma coisa que me preocupa é a quantidade enorme de informação que estamos guardando. Quando ficaremos sem espaço para tanto? Parece que não vai acontecer por que os equipamentos de armazenamento estão ficando cada vez mais poderosos e os números são inacreditáveis. Vivo em um pais onde a grande maioria acredita em reincarnação. Meu problema com a reincarnação é: como funciona este mecanismo de entrada-e-saida e como é o sistema de armazenamento? Nunca tive uma resposta, mas acho interessante. Se somos de alguma forma guardados depois de morrer e então podemos ser reavivados, então a pergunta é - se a informação nunca se perde, se tudo é guardado de algum modo no tecido cósmico, então todo mundo que já viveu deveria reincarnar e isso é um assunto para séria especulação filosófica.
Stork: Então você prevê um estado único entre homens e máquinas?
Clarke: Homens e máquinas vão se unir. Hoje já existem pessoas com mecanismos artificiais dentro de seus corpos. Corações artificiais. Um dia eles terão cérebros artificiais. Serão capazes de baixar nossos pensamentos, nossas personalidades em um computador. Acho inevitável. E não me preocupa. O fato de ser um bípede baseado em carbono, não me leva a menosprezar um bípede baseado em silicio.
Stork: Direitos iguais?
Clarke: Direitos iguais para robôs.
Parte 1 - Parte 3 - Parte 4 - Notas e Links
Marvin Minsky - The Turing option [ Download ]
Alan Turing - Can machines think [ Download ]
Fred Hoyle - Black Cloud [ Download ]
Olaf Stapledon - Last and first men [ Download ]
A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Parte 1/4
Dawn of HAL -Entrevistador Dr. David G. Stork
Stork: Diga-nos como foi seu primeiro encontro com Kubrick e como 2001 começou.Clarke: Estava em Sri Lanka quando Stanley Kubrick me escreveu e disse que queria fazer um bom filme de ficção científica, que ficasse famoso, subentendendo que até então não havia nenhum que fosse bom o bastante. Não concordei totalmente com ele. Nesta época eu estava indo para New York, trabalhar em um projeto para a Time/Life, um livro que se chamaria ‘Man and Space’. Assim que cheguei, entrei em contato com Stanley e nos encontramos e decidimos trabalhar em um projeto que se chamaria ‘The journey beyond the stars’, acho que era esse o título. Minha sugestão era ‘How the solar system was one’, que eu ainda acho que era um bom título. Você está ouvindo Steven Spielberg? De qualquer forma, eu estava trabalhando na Time/Life e estava numa reunião com Stanley certa tarde e eu ia de um projeto para o outro, então tive que voltar para Sri Lanka e nós mantivemos nos falando de todo jeito. Quando finalmente o contrato ficou pronto, me mudei para a Inglaterra e lá a maioria do trabalho foi feito. Apesar disso, a maioria dos meus escritos preliminares foram feitos na suíte do Hotel Chelsea, em New York.
Stork: Quais idéias são suas? Quantas são dele? Como foi o relacionamento para escrever o roteiro?
Clarke: Depois de mais de um quarto de século é difícil lembrar quem fez o que. Mas tenho certeza de que o título ‘2001’ foi de Stanley. E ainda não sei de onde tirou, não sabia na época, que 2001 era o primeiro ano de um novo século e de um novo milênio.
Começamos selecionando seis contos meus que achei que seria um material que poderíamos utilizar. Mas de fato, usamos apenas um, ‘The sentinel’, que era sobre a descoberta de um artefato alienígena na lua.
Stork: Mas não existe um computador em ‘The Sentinel’, então você precisou acrescentar mais um personagem, HAL.
Clarke: É claro que o personagem chave na expedição era o computador HAL, que como muitos disseram era o único personagem humano no filme. HAL surgiu aos poucos. Em certo momento íamos usar uma voz feminina. Athena, acho que era seu nome. Não sei por que, de novo, mudamos para HAL. Tentei por anos acabar com a lenda de que HAL viesse de IBM. Mas de fato, como disse no livro, HAL vem de ‘Heuristic Algorithmic’, e significa que ele pode trabalhar com um programa pronto ou pode olhar em volta e procurar uma solução melhor, desta forma você vai ter o melhor dos dois mundos. Foi assim que HAL foi criado.
Stork: Ficou popular que HAL vinha de IBM, apenas sendo a sílaba anterior. Qual foi a sua reação quando isso foi divulgado?
Clarke: Não sei quem descobriu a coincidência, que não foi realmente marcante. E não me lembro de Stanley ter comentado sobre isso. Por algum tempo ficamos embaraçados com isso, mas eu acho que hoje a IBM se orgulha da associação.
Stork: E como era no set de filmagem?
Clarke: Raramente eu ia ao set. Em anos eu só visitei duas ou três vezes. Acho que minha principal impressão de Stanley era sua determinação e também sua bondade. As pessoas pensam que ele era um tirano, um personagem do tipo Napoleão. É claro que Napoleão era uma personalidade que interessava a Stanley. Mas não, ele tinha muita atenção comigo.
Stork: Como você aprendeu sobre ciência da computação? Aquele era o inicio da moderna ciência da computação. Como você imaginou que HAL seria?
Clarke: Sempre me interessei por computadores. No meu tempo de serviço civil, eu costumava freqüentar o Museu das Ciências. O item que mais me fascinava era o computador incompleto de Babbage. Uma maravilhosa maçaroca de engrenagens, que podia calcular tabelas algorítmicas. De fato, houve um modelo posterior que foi terminado. Eu já coloquei minhas mãos nele uma vez. Acho que está num filme no Museu das Ciências. Então, sempre me interessei, acho que ele aparece em várias histórias minhas, acho que era inevitável...

Stork: Você também aprendeu como programar em um HAL Jr. 9.000. Nos fale disso.
Clarke: A Hewlett Packard gentilmente me presenteou com um dos primeiros computadores de mesa. Aprendi sua programação bem primitiva. Tinha cartões que eram inseridos dentro. Lembro de escrever um programa com 25 linhas e somente cinqüenta erros nele.
Stork: Mas você com certeza leu e se aconselhou com cientistas. Nos diga como foi.
Clarke: Quando estavamos fazendo 2001, nós consultamos especialistas em diversas áreas concernentes a certas partes do filme. Então, obviamente, encontramos os melhores nesta área de computação, o que significa dizer MIT e Marvin Minsky, que veio ao estúdio e conversou com a gente. E sabe, nós pegamos suas idéias, mas que não foram necessariamente responsáveis pelo que acontece no filme.
Stork: O que eles disseram?
Clarke: Não me lembro agora.
Stork: O filme é tão preciso quanto a descrição da tecnologia, por que isso é tão importante, usar da ciência corretamente, quando se faz um filme ou qualquer trabalho de arte?
Clarke: Isso sempre provocou discussão - o quão preciso cientificamente precisa ser um filme de ficção científica. E meu argumento é de que se não for assim, não é ficção científica, é fantasia. Agora, não tenho nada contra a fantasia, alguns dos meus trabalhos favoritos são de fato fantasia. Mas se for ficção científica então deve haver possibilidade daquilo acontecer ou pelo menos não deve haver argumentos contra. Algumas vezes eu estendo meus horizontes, como no meu romance com Baxter, ‘The light of other days’, criamos uma espécie de bureau do tempo, onde se pode ver e ouvir qualquer coisa que já aconteceu. Bem, tivemos que escrever muito para explicar como ele funcionaria. Então você não pode provar que é impossível. Pode ser que toda a informação esteja de alguma forma guardada em algum lugar. Sendo assim, nós poderíamos ser capazes de recuperá-la.
Stork: 2001 devia parecer muito distante em 1964. Você chegou a pensar seriamente em estar aqui hoje, no início de um novo século ?
Clarke: Em 1964, quando começamos a trabalhar no filme, o primeiro pouso lunar ainda levaria 5 anos para acontecer. 2001 se parece de fato, com 1984; foi uma data escolhida aleatoricamente, pois parecia um futuro remoto. Não sei onde suspeitava ou esperava estar por volta de 2001, você sabe que assumimos que as coisas que mostramos um dia iriam acontecer. Hoje nos esquecemos que na década de 60, haviam planos por parte da NASA, de se colocar homens em Marte na década de 80.
Stork: Então você está desapontado?
Clarke: Sempre me pergunto o por que das coisas que mostramos, como a base lunar, a exploração de júpiter, ainda não aconteceram. Minha resposta é que muito mais coisas aconteceram do que poderíamos pensar. A exploração através de sondas de quase todos os planetas. Closes da superfície marciana, a Sojourner correndo entre as rochas. Que visão fascinante!
Stork: Dos novos desenvolvimentos, algum em particular mexeu com você?
Clarke: Suponho que a maior surpresa em tecnologia desde que fizemos 2001 foi a revolução do microchip. Foi uma das maiores na história. É um dos exemplos da terceira lei de Clarke - qualquer tecnologia avançada o bastante é indistinguível de magia. Meu exemplo favorito é o cd-rom. Aqui está um disco prateado que cabe na sua mão e você pode colocar um filme inteiro nele! Nos mais modernos, você pode colocar oito filmes inteiros nele!
Stork: HAL, é claro, era inteligente ou parecia, e era bem malvado. Você de alguma forma ligava inerentemente a inteligência à maldade?
Clarke: Inteligência não é algo fácil de se definir. Eu gosto de pensar que seja a reação apropriada à qualquer circunstancia. HAL se viu diante de uma situação onde ele pensou que a missão estava em perigo, devido ao comportamento dos astronautas e tomou uma decisão que ele depois admitiria ter sido desastrosa.
Stork: Por todo o filme existe esta ligação do desenvolvimento ferramental com o bélico. A bela cena onde o osso está flutuando e corta para uma arma nuclear no espaço. Parece fazer esta ligação, entre inteligência e guerra.
Clarke: É um fato triste que muito do desenvolvimento tecnológico se destina a destruição, e este é um dos temas de 2001. Não fica claro no filme, quando aquele osso sobe no ar e se torna um artefato nuclear orbital. Mas é exatamente o que quer dizer.
Stork: Então por que vocês decidiram que HAL deveria matar a tripulação?
Clarke: No filme isso acrescenta dramaticidade para uma história que alguns críticos disseram depois, onde quase nada acontecia. Nós não explicamos o por que. Se tivéssemos feito, parte da magia se perderia. De fato, fui acusado de fazer com que a magia fosse destruida, por explicar demais o que acontecera, nos livros seguintes.
Stork: Quer dizer que não vai explicar agora?
Clarke: Bem, eu não expliquei exatamente por que HAL fez o que fez. Mas Stan foi gentil ao dizer que nós estávamos tentando construir um mito. E um mito deve ser inesgotável, e deve ter um número de explicações pendentes, na verdade muitos livros foram escritos por outras pessoas, explicando do que 2001 se tratava.
The Sentinel [ Download ]
The light of other days [ Download ]
Marvin Minsky - Why peoples think computers can't [ Download ]
Marvin Minsky - Society of mind [ Download ]
Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Notas e Links
domingo, 23 de março de 2008
Ao mestre com carinho

Livros de Arthur C.Clarke em inglês [ Download ]
2001-2010-2061-3001 – The complete odyssey
A fall of moondust
A time odyssey 1 – Time’s eye
A time odyssey 2 – Sunstorm
Childhood's end
Cradle
Expedition to Earth
History lesson
Imperial Earth
Islands in the sky
Nightfall
Rama 1 – Rendez-vous with Rama
Rama 2 – Rama revisited
Rama 3 – The garden of Rama
Rama 4 – Rama revealed
Reach for tomorrow
Tales from the white hart
The fountains of paradise
The ghost from the Grand Banks
The lost worlds of 2001
The nine billion names of God
The pacifist
The sand os Mars
The trigger
The light of other days
The songs of Distant Earth
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ARTHUR CHARLES CLARKE
Arthur Charles Clarke (16 de Dezembro, 1917 - 18 de Março de 2008)
O maior talento de Arthur Charles Clarke consistia em transitar entre a arte e a ciência com igual clareza, inteligência e paixão.
Seus trabalhos, de descobertas científicas a literatura de ficção, da aplicação técnica ao entretenimento, tiveram um impacto direto na vida das pessoas, no presente e nas futuras gerações.
Como ocorreu com muitos jovens de sua idade naquela época, a Segunda Guerra Mundial interrompeu esta rotina e em 1939 ele se alistou na RAF e pouco depois se tornaria oficial encarregado do primeiro equipamento de radar do tipo talk-down, ainda em fase experimental. Após a guerra, Clarke retornou para Londres e para a BIS, tornando-se seu presidente de
Ao mesmo tempo que colaborava em assuntos estritamente científicos, Clarke exercitava sua veia de escritor. Sua primeira história vendida, ‘Rescue Party’ foi publicada na revista ‘Astounding Science’ (Maio 1946). Era o começo de uma carreira prolífica e brilhante, com mais de 70 títulos de ficção que lhe deram os prêmios Nebula em 1972, 1974 e 1979 e o Hugo em 1974 e 1980, além de ter recebido o título de Grande Mestre dos Escritores de Ficção Científica da América em 1986.
Um exemplo da sua genialidade literária aliada ao seu caráter visonário-tecnológico, está em ‘O Vento Solar’, uma coletânea de todos seus contos escritos na década de 60 e que consegue abarcar temas como o laser, o código genético, as primeiras sondagens de Marte e Vênus com robôs, o descobrimento dos pulsars e o desembarque na Lua.
Se Asimov tinha suas leis robóticas, Arthur elaborou as Leis de Clarke e que dizem assim:
1. Quando um cientista reconhecido e experiente, diz que algo é possível, ele está provavelmente certo. Quando ele diz que algo é impossível, ele está muito provavelmente errado.
2. O único jeito para desvendar o limite do possível é ir além dele, através do impossível.
3. Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica.
Em 1964 começou a trabalhar com o já famoso produtor de cinema Stanley Kubrick, naquele que seria seu maior sucesso de público e que o faria conhecido mundialmente. Quatro anos depois ele dividiria a indicação ao Oscar com Kubrick pela versão para cinema de ‘2001: A Space Odyssey’.
Em 1985 Clarke publicaria a sequência ‘2010: Odyssey Two’ e com o diretor Peter Hyams trabalharia para a versão para o cinema. O trabalho só foi possível pela utilização de um computador Kaipro e um modem, ligando Clarke
Seu trabalho lhe rendeu inúmeros prêmios e homenagens.
A órbita geo-estacionária, 36 mil quilômetros acima da linha Equador, foi oficialmente batizada pela International Astronomical Union como sendo a Órbita Clarke.
Além disso, seu nome batizou um asteróide, 4923 Clarke, e uma espécie de dinossauro, Serendipaceratops arthurcclarkei, descoberto em Inverloch na Austrália. Mas a maior das honras lhe coube quando a Rainha da Inglaterra o agraciou com o título de nobreza, em cerimônia que ocorreu
Sir Arthur morava em Colombo, Sri Lanka (ex-Ceilão) desde 1956, e era um entusiasta, praticante e incentivador da exploração submarina, tendo escrito diversos livros voltados para esta sua paixão.
Em 2004 sobreviveu ao terrível tsunami que praticamente destruiu toda a região, porém perdeu sua escola de mergulho em Hikkaduwa.
Nos seus últimos anos de vida, Arthur estava preso a uma cadeira de rodas, devido a complicações da poliomielite, que se agravara bastante.
Arthur Charles Clarke também ficou famoso pelas suas frases e em uma delas dizia:
“Se nós tivermos aprendido algo da história das invenções e descobertas, é que, à longo prazo – e muitas vezes a curto prazo – as profecias mais audaciosas parecem ridiculamente conservadoras.”
http://www.clarkefoundation.org/
http://www.2001exhibit.org/
http://www.arthurcclarke.net/
2001: Uma odisséia no espaço
2010: Odisséia Dois
2061: Odisséia Três
3001: A Odisséia Final
A cidade e as estrelas
A estrela
A luz das trevas
A sonda do tempo
A última ordem
Alvorada de Saturno
As canções da terra distante
As fontes do paraíso
Contos da taberna
Crime em Marte
Dinossauros
Massa crítica
Não haverá outra manhã
O fim da infância
O outro lado do céu
O martelo de Deus
O vento solar
Os náufragos de Selene
Rama I
Rama II
Sentinela
Terra Imperial
Um processador de textos acionado por vapor
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