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domingo, 13 de junho de 2010

Treze Fantasmas - Clark Ashton Smith





“Tenho sido fiel, Cínara, à minha maneira.”


John Alvitong tratou de levantar-se sobre o travesseiro enquanto murmurava para si a citação amplamente conhecida do poema de Downson. Porém sua cabeça e seus ombros caíram para trás com transbordante impotência, e se filtrou por seu cérebro como um fio de água gelada a compreensão de que talvez o doutor tivesse razão – talvez o final fosse realmente iminente. Pensou brevemente em fluídos de embalsamar, flores secas, cravos de ataúde e gramados murchos; mas tais idéias eram bastante distantes da tendência de seu pensamento, e preferiu pensar em Elspeth. Afastou seus fúnebres pensamentos com um conveniente estremecimento.

Muitas vezes pensava em Elspeth, nesses dias. Porém não a esquecia realmente em nenhum momento. Muita gente o chamava de sem-vergonha; porém ele sabia, e sempre haveria de saber, que estavam errados. Diziam que havia rasgado ou partido o coração de doze mulheres, incluindo os de suas duas esposas; e de um modo o suficientemente estranho, incluindo os exageros dos fofoqueiros, o número era correto. Contudo, ele, John Alvington, sabia com certeza que somente uma mulher, a que nada contava entre as doze, havia realmente importado realmente alguma vez em sua vida.

Havia amado a Elspeth e a ninguém mais. As outras mulheres foram todas um erro, ilusões: haviam lhe atraído só porque imaginou, durante períodos variáveis, que havia encontrado nelas algo de Elspeth. Havia sido cruel com elas provavelmente, e com absoluta certeza não lhes havia sido fiel. Porém ao enganá-las, não havia sido muito mais leal à Elspeth?

De algum modo a imagem que tinha dela agora era mais clara, mais do que antes.

Como se tivesse sacudido o pó acumulado de um retrato, via com estranha claridade a inquieta ironia de seus olhos e o ligeiro sacudir de seus cabelos castanhos que sempre acompanhava seu sorriso jovial. Era inesperadamente alta para uma pessoa tão semelhante a um duende, porém tanto mais admirável por isso; e ele nunca havia gostado de outra coisa a não ser de mulheres altas.

Com tanta freqüência tinha ficado maravilhado, como ante um fantasma, ao encontrar outra mulher de maneiras similares, similar figura ou expressão de olhos ou cadência de voz; e que absoluta foi sua decepção quando chegou a ver a irrealidade e falsidade do que era parecido. Que irreparavelmente ela, o amor verdadeiro, se havia interposto antes ou depois entre ele e todas as demais.

Começou a recordar coisas que quase havia esquecido, tais como o camafeu que ela havia levado depois do dia em que se conheceram, e um pequeno sinal em seu ombro esquerdo, de que havia olhado numa ocasião quando ela usava um vestido por demais decotado para aquela época. Muito recordava a roupagem lisa e verde-pálido que se aderia tão deliciosamente em sua esbelta silhueta naquela manhã em que ele se foi precipitadamente com um rápido adeus, para não voltar a vê-la...

Nunca, pensava, havia sido sua memória tão boa: seguramente o médico estava equivocado, pois não se havia produzido debilidade alguma de suas faculdades. Era quase impossível que estivesse mortalmente enfermo, quando podia evocar todas as lembranças de Elspeth com tal desenvoltura e clareza.

Agora repassava todos os dias de seu compromisso de sete meses, que podia ter terminado em um ditoso casamento se não tivesse sido por sua propensão a tomar ofensas irracionais, e pela própria explosão de temperamento com que reagia e sua falta de tática conciliatória na disputa crucial. Que próximo, que doloroso resultava tudo. Perguntou a si mesmo que malvado desígnio havia ordenado sua separação e o havia enviado a uma busca vã de um rosto a outro rosto ilusório para o resto de sua vida.

Não recordava, não podia recordar outras mulheres – somente lembrava que havia sonhado de algum modo por um breve espaço de tempo que se pareciam com Elspeth. Outros poderiam considerá-lo um Don Juan – porém ele se considerava um sentimental sem remédio, se é que alguma vez houve algum.

Que ruído era aquele, perguntou a si mesmo. Alguém havia aberto a porta de casa? Devia ser a enfermeira, pois ninguém mais viria a essa hora da tarde.

A enfermeira era uma moça agradável, porém não era como Elseth.

Tentou virar-se um pouco para poder vê-la, e de alguma maneira conseguiu, graças a um esforço titânico completamente desproporcional ao fraco movimento.

Não era a enfermeira, pois ela ia sempre vestida de um branco imaculado que correspondia à sua profissão. Esta mulher trajava um vestido de cor verde viçoso e agradável, pálido como o verde da água na superfície do mar. Não pôde ver seu rosto, pois permanecia em pé com as costas para a cama; porém havia algo estranhamente familiar naquele vestido, algo que quase não podia recordar, a principio. Logo, com um claro sobressalto, supôs que se parecia com o vestido que Elspeth levava no dia de sua disputa, o mesmo vestido que havia estado representando um pouco antes. Ninguém usava nunca um vestido de semelhantes medidas e estilo, hoje em dia. Quem em todo o mundo poderia ser? Havia uma curiosa familiaridade com respeito a sua figura, também, pois era bastante alta e esbelta.

A mulher se voltou, e John Alvington viu que era Elspeth – a própria Elspeth da qual se havia separado com um amargo adeus, e que havia morrido sem permitir-lhe sequer vê-la outra vez. E contudo como poderia ser Elspeth, se estava morta a tanto tempo? Logo, por uma questão de lógica, como poderia ela haver morrido alguma vez, posto que estivesse ali, diante dele, naquele momento? Parecia infinitamente preferível crer que estava viva, e ele desejava tanto falar-lhe, porem a voz falhou quando tentou pronunciar seu nome.

Agora pensou que ouvia a porta abrir-se outra vez, e foi consciente de que outra mulher permanecia nas sombras atrás de Elspeth. Essa se adiantou, e observou que trajava um vestido verde, idêntico em cada detalhe àquele que usava sua amada. Ela levantou a cabeça – e o rosto era o de Elspeth, com os mesmos olhos zombadores e boca caprichosa. Porém como podia haver duas Elspeths?

Com profundo desconcerto, tratou de acostumar-se a extravagante idéia; e ainda assim, enquanto lutava com um problema tão incompreensível, uma terceira figura de verde pálido, seguida por uma quarta e uma quinta, entrou e se colocou atrás das duas primeiras. E não foram estas as últimas, pois outras entraram uma a uma, até que o quarto ficou repleto de mulheres, todas elas com os modos e aparência de sua noiva morta.

Nenhuma delas pronunciou uma palavra, porém todas olhavam Alvington com uma expressão na qual parecia agora discernir um gracejo mais profundo que o travesso encanto que uma vez havia encontrado nos olhos de Elspeth.

Ficou muito quieto, lutando com uma obscura e terrível perplexidade. Como podia haver tal multidão de Elspeths, quando ele só podia lembrar de ter conhecido uma? E quantas havia de todo modo? Algo o impulsionou a contá-las, e achou que havia treze fantasmas de verde. E após assegurar-se deste ato, se sentiu sacudido por algo familiar com respeito ao número. Não dizia o povo que ele havia partido o coração de treze mulheres? Ou eram no total somente doze? De qualquer maneira, contando a própria Elspeth, quem realmente havia partido  o coração, havia treze.

Então todas as mulheres começaram a agitar seus cabelos, de uma maneira que ele recordava muito bem, e todas elas riram com uma risada ligeira e brincalhona. Poderiam estar rindo dele? Elspeth havia feito isso muitas vezes porém ele a havia amado com devoção apesar de tudo...

De repente, começou a sentir-se inseguro acerca do numero exato de figuras que enchiam sua morada; pareceu-lhe, em um momento, que eram mais do que havia contado, e depois, que eram menos. Perguntou-se quem dentre elas era a verdadeira Elspeth, porque depois de tudo sentiu confiança de que nunca havia existido uma segunda – só uma série de mulheres que se assemelhavam em aparência e que não eram em realidade como ela de modo algum , uma vez que chegava a conhecê-las.

Finalmente, conforme tratava de contá-las e escrutar os rostos apinhados, todos se tornaram imprecisos, confusos e indefinidos, e quase esqueceu o que estava tratando de fazer...Qual delas era Elspeth? Ou será que havia existido alguma vez uma autêntica Elspeth?

Não estava seguro de nada, no final, quando chegou o esquecimento e passou a esse território no qual não existem nem as mulheres, nem os fantasmas, nem o amor e nem os problemas numéricos.




Tradução de Rogério Silvério de Farias

domingo, 2 de maio de 2010

A Formiga Elétrica - Philip K. Dick




Às 4:15 PM TST, Garson Poole acordou em sua cama de hospital.

Sabia que estava deitado na cama de um hospital, em uma enfermaria de três leitos e percebeu, além disso, duas coisas: que ele já não tinha a mão direita, e que não sentia nenhuma dor.

Eles me deram um analgésico forte, disse para si mesmo, enquanto olhava a parede distante, com a janela exibindo a cidade de Nova York. Redes em que os veículos e pedestres disparavam, e rodas que brilhavam ao sol da tarde, o brilho da luz poente  agradou-o. Não é tão tarde, ele pensou. Nem para mim.

Um fone estava na mesa ao lado de sua cama, ele hesitou, depois pegou-o e ligou para uma linha externa. Um momento depois, ele olhava para Louis Danceman, responsável pelas atividades Tri-Plan, na sua ausência.

“Graças a Deus você está vivo!" disse Danceman, o rosto grande e carnudo como a superfície marcada da lua, encheu-se de alívio. "Estive ligando para todos e..."
“Eu só perdi a mão direita" disse Poole.
"Mas você vai ficar bem. Quero dizer, eles podem enxertar outra."
"Há quanto tempo estou aqui?" Poole perguntou. Onde estavam os enfermeiros e os médicos, se perguntou, porque não estavam ali, reclamando por ele fazer uma chamada?
"Quatro dias" disse Danceman. "Tudo aqui na fábrica vai energeticamente bem. Na verdade nós recebemos pedidos de compra de três sistemas distintos, todos aqui na Terra. Dois em Ohio e um em Wyoming. Ordens de compra sólidas, com um terço de antecedência e os habituais três anos de crédito para arrendamento opcional."
"Venha me tirar daqui", disse Poole.
"Não posso, até que a mão nova..."
"Posso colocá-la mais tarde."

Ele queria desesperadamente voltar ao ambiente familiar; a memória do foguete mercantil grotescamente aparecendo na tela do piloto, se fechasse os olhos, veria novamente sua nave danificada, um prejuízo enorme. As sensações cinéticas...ele estremeceu, lembrando-se. Acho que estou com sorte, disse para si mesmo.

"Sarah Benton está com você?" Danceman perguntou.
“Não”. Naturalmente, sua secretária pessoal, mesmo que apenas por considerações de trabalho, deveria estar por perto paparicando-o com seu jeito infantil e chato.
Todas as mulheres gordas gostam de agir como a mãe de outras pessoas, pensou.
E são perigosas, se caírem sobre você, podem matá-lo.
"Talvez seja isso que me aconteceu", disse ele em voz alta. "Talvez Sarah tenha caído sobre meu foguete".
"Não, não, uma haste da aleta de direção se separou durante o tráfego pesado na hora do rush e você..."
"Eu me lembro".

Virou-se em sua cama quando a porta da enfermaria abriu e um médico vestido de branco, e duas enfermeiras de azul apareceram, vindo em direção a sua cama.

"Falo com você depois" disse Poole e desligou o fone. Respirou profundamente.
"Não deveria telefonar tão cedo" disse o médico que olhou seu boletim. "Sr. Garson Poole, proprietário da Tri-Plan Electronics. Criador de dardos que seguem suas presas por um raio de mil milhas, respondendo a padrões de ondas encefálicas. Você é um homem bem-sucedido, Sr. Poole. Mas, Sr. Poole, você não é um homem. Você é uma formiga elétrica".
"Cristo", disse Poole atordoado.
"Então não poderemos tratá-lo aqui, agora que nós descobrimos. Soubemos assim que nós examinamos a sua mão direita ferida; vimos os componentes eletrônicos e em seguida fizemos um raio-x do seu torso, e claro que eles confirmaram nossa hipótese."
"O que" disse Poole "é uma" formiga elétrica"?
 Mas ele sabia, ele conhecia a expressão.
Uma enfermeira disse: "Um robô orgânico."
"Eu sei" disse Poole.
Uma transpiração fria subiu para a superfície de sua pele e por todo seu corpo.
"Você não sabia" disse o médico.
“Não”. Poole sacudiu a cabeça.
O médico disse: "Nós recebemos uma formiga elétrica a cada semana, ou quase. Até trazida aqui por um acidente de foguete, como o seu, ou alguém que busca a internação voluntária... pessoas a quem, como você, nunca lhes foi dito, e que acreditavam-se humanas. Quanto à sua mão... ". Ele fez uma pausa.
"Esqueça a minha mão" disse Poole selvagemente.
"Tenha calma".
O médico inclinou-se sobre ele, olhou profundamente para o rosto de Poole.
"Temos um veículo de transporte para levá-lo a um serviço de assistência, no caso, de reparos ou substituição de peças, e sua mão poderá ser feita por um gasto razoável, quer para si mesmo, tratando-se de auto-propriedade, ou para seus proprietários, se existirem. De qualquer forma você estará logo de volta em sua mesa na Tri-Plan, funcionando como antes."
"Exceto" disse Poole "que agora eu sei."

Questionou se Danceman ou Sarah, ou qualquer um dos outros no escritório sabia. Teriam eles, ou um deles, o comprado? Projetado-o?

Um títere, disse a si mesmo, isso é tudo que eu sou. Nunca realmente devo ter comandado a empresa, era uma ilusão implantada em mim quando fui feito... juntamente com a ilusão de que eu sou humano, e que estou vivo.

"Antes de sair para a instalação de reparos" disse o doutor "você poderia gentilmente pagar a conta na recepção?"
Poole disse acidamente: "Como pode haver uma conta a pagar se vocês não tratam formigas aqui?"
"Para os nossos serviços" disse a enfermeira. "Até onde sabemos."
"Mandem-me a conta" disse Poole com raiva e fúria impotente. "Mandem a conta para minha empresa."

Com grande esforço conseguiu sentar-se, sua cabeça não parava, pisou hesitante no chão. "Ficarei feliz em sair daqui", disse ele enquanto se ajeitava. "E muito obrigado pela sua atenção humana".

"Obrigado também, Sr. Poole” disse o médico. "Ou melhor, eu deveria dizer apenas Poole".

 (...)


A Formiga Elétrica - Philip K. Dick [ Download ]





A Formiga Elétrica - Roteiro de David Mack e desenho de Pascal Alixe - N.1 [ Download ]

sábado, 17 de outubro de 2009

Stalker (A máquina dos desejos) - Parte 6 de 6




SEXTA PARTE



Outra vez no bar.
O lugar está vazio. Atrás do balcão o corpulento atendente com o avental manchado.

Nossos personagens estão sentados na mesa do canto, sujos, maltrapilhos, com a barba de vários dias por fazer. À frente de cada um, há uma caneca de cerveja meio vazia.

O Escritor começa um discurso:
- …imagino este prédio como um gigantesco templo. Tudo que a imaginação já criou, a fantasia e o pensamento ousado do homem são tijolos de ouro, com que foram levantadas as paredes deste templo. Filosofia, livros, pinturas, teorias éticas, tragédia, sinfonias... até mesmo, porque não, as ideias científicas fundamentais. Tudo isso se deve a vossa tecnologia, os altos fornos, as colheitas… tudo para que se trabalhasse menos e se devorasse mais. As ideias científicas são os andaimes, guindastes... naturalmente necessários para se construir o templo, sem eles o templo seria impossível, mas eles cedem e desmoronam, e são erguidos de novo. Primeiro de madeira, depois pedra, de aço e plástico finalmente, mas não passam de guindastes e andaimes para se levantar o grande templo da cultura, objetivo maior e infinito da humanidade. Tudo morre, tudo é esquecido e desaparece, fica somente este templo... falando com franqueza, a humanidade existe unicamente para...

O Professor toma um gole da caneca e grunhe:
- Você se atreve a responder... para que serve a humanidade?
- Não me interrompa – diz o Escritor – é pouco educado! Existe unicamente – continua – para produzir obras de arte! Imagens da verdade absoluta.
Pausa.

O Escritor sorri irônico.
- É uma piada – acrescenta – Olhe aqui a cerveja... é cerveja isso não? Que tal tomarmos outra rodada?
- Não tenho mais dinheiro, fala o Professor.
- Eu tampouco, profere abatido o Escritor.
- Você acha mesmo que em toda parte vão te fazer fiado – diz irritado o Professor para o Escritor.
- Sim, menos aqui...

O Stalker deixa sobre a mesa várias moedas pequenas, junto com lixo, e move as moedas com um dedo contando-as.
- Aqui está – diz ele – tem o bastante para outras canecas.

Junto da mesa aparece o atendente, coloca com destreza as canecas entre eles, cheias de cerveja e cobertas de espuma. Retira aquelas vazias. O Stalker com ar compungido, observa o atendente e acerta a pilha exigua de moedas. O atendente faz um gesto tranquilizador e desaparece.

- É um leitor meu – diz o Escritor com ares de superioridade – ele me reconheceu!
O Stalker e o Professor olham para o sembante sujo do Escritor, para o enorme hematoma do seu olho direito, e o trapo ensanguentado sobre ele, olham e depois sem dizer uma palabra, bebem um grande gole das canecas.

- Não – diz o Stalker – isso não é beber de verdade camaradas! Vou telefonar agora mesmo para minha mulher e ordenar que me traga dinheiro.
O Escritor o segura pela manga.
- Para que? Telefonarei para qualquer redação.
O Stalker o rechaça.
- Calma ai... fui eu quem os convidou, e não você. Fique quieto ai!

Vai até o telefone público, marca um número e neste momento enxerga pela janela suja sua mulher chegando ao Bar. Desliga e retorna para a mesa.

Sua mulher vai até eles e diz ao marido:
- O que faz aqui sentado? Vamos embora!
- Agora mesmo – diz – mas sente-se um pouquinho. Sente conosco. Por que está com pressa?

Ela se senta satisfeita, pega-o pelo braço e olha para o Escritor e o Professor.
- Sabem que minha mãe era contra meu casamento com ele? Por que ele era um bandido de verdade. Metia medo a toda comarca! Era jovem e ágil como... bem, minha mãe dizia: É um stalker, um suicida, vai passar a vida na cadeia... e os filhos? Lembra, ela dizia, como são os filhos de um stalker... eu não discutia, eu sabia perfeitamente que era um suicida, que passaria a vida na cadeia e sabia quanto aos filhos. Mas o que eu podia fazer? Estava certa que seria feliz com ele. Sabia também, é claro, que passaria por maus momentos, porém mais vale uma felicidade amarga que uma vida apagada. Mas pode ser que tudo isso só tenha me ocorrido agora. Ele chegou junto de mim e disse carinhosamente ‘Vem comigo!’ e eu fui. E nunca me arrependi. Nunca! Passamos maus momentos. Tive que superar o medo. Passei vergonha, mas nunca me arrependi e nunca invejei a ninguém. Ele tampouco. O destino é assim. A vida é assim, somos como somos. E se não existissem tristezas na vida, não existiriam as alegrias. Seria muito pior. Nem haveria esperança. Assim é. Agora temos que ir. Vamos! Deixei a bebê sozinha.

Levantam.

- Estes são meus amigos – diz o Stalker – Até agora não consegui nada melhor...

Se vão.

O Escritor e o Professor observam o casal se afastar.




FIM













sábado, 10 de outubro de 2009

Stalker (A máquina dos desejos) - Parte 5 de 6



QUINTA PARTE


O Stalker ouvia com a boca aberta o Escritor falar.
- Eu achava estar jogando um jogo novo e interessante – confessa o Escritor – Pensei na coisa como uma aventura. Logo compreendi amigo, que não seria fácil. E para dizer a verdade, não acredito muito nestas maravilhas todas. Pensei que se tivesse que pedir algo, seriam histórias e eu escreveria sobre elas. Por que nunca se escreveu sobre isso antes… todavia… Não, Olho de Lince, meu amigo, estes jogos eu não jogarei…
- Olha Professor, diz o Stalker desconcertado – o que se passa? Diga algo!
O Professor deu de ombros.
- Como é? Pergunta o Stalker -Estou indo em busca de saúde para minha filha, para minha desafortunada filha, e vou receber... sei lá o que?
- Sabe sim – disse carinhosamente o Professor – todos sabem perfeitamente bem.
- Deixe-o –interrompe o Escritor, e se faz um novo e embaraçoso silêncio.

Depois o Stalker diz com raiva:
- Já chega! Todos de pé!
O Professor vai taciturno e atrás o Escritor e, quase pisando-lhe nos calcanhares, o Stalker.

-Bom, não vou mentir – diz ele – quando vim para cá eu não pensava na minha filhinha, está bem… Mas agora, por ela sou capaz de qualquer coisa! E você me diz que…
-Olhe, pare de reclamar – diz o Escritor sem se virar – Por que me perturba? Eu não sei de verdade o que você deseja. Nem você sabe! E por Deus, não se distraia! Preste atenção no caminho… tudo que não precisamos agora é de você nos espancando…
Diante deles na trêmula névoa se vê erguida a caçamba de uma escavadora enferrujada e ao final eles param frente à suave descida que leva ao mesmo lugar de antes.
Param para olhar enfeitiçados o vale mágico.

O Stalker observa a encosta e nota algumas manchas negras.
- Bem, podem dizer que estão com sorte rapazes! Diz com a voz apagada – Ele se rendeu.
- Quem se rendeu? Pergunta passando por ele o Professor.
- O Açogueiro. Vêem as manchas pretas? O bandido entregou os pontos. Acabou! Podemos ir sem medo!
- Você enxerga um Açougue? Pergunta o Escritor e se senta ao chão – Bonito nome!
- Melhor não pode ser! Foi aqui que o Raposa usou de seu último coringa de carne e osso. Seu apelido era Kaschei o Imortal, um jovenzinho tonto...
- E você também me usou pra isso? Perguntou o Professor – Logo a mim? Nas mãos do Açougueiro?
- O que você pensa? O túnel e o Açougueiro valeram à pena! Só assim se pode seguir em frente. Uma chance em quatro... uma loteria! Mas na Zona não há jogos de azar...
- Isso é inconcebível! – disse o Escritor – Atravessar estes lugares mortais assassinando os amigos, e tudo por um saco de dinheiro...
- Em primeiro lugar – disse com firmeza o Stalker – não se vem até aqui com amigos. Além disso um Stalker não tem amigos. Seu amigo é ele mesmo, e em segundo lugar, por dinheiro se fazem coisas bem mais extremas. Será que você vive na lua?
- E se eu não tivesse ido? Pergunta o Professor.
- Chega! Grita o Stalker – Tivesse ido ou não... tivemos sorte e agora acabou. O túnel resultou em nada, o açougueiro se entregou. Acham que sou sádico? Pensam que fico feliz em ter que mandá-los para a morte? Bem, quer quer ir primeiro? Você? Perguntou ao Escritor – Você fez por merecer...
O Escritor balança a cabeça.
- Não! Já disse que não vou! Quero só olhar esta maravilha com meus próprios olhos. Sou um cético.
-Huh! Não tenha medo, eu disse que ele entregou os pontos. Mas se quer assim, eu vou primeiro. Que tal assim? Pergunta ao Professor.
- Vá, vá... só faltava isso, responde o Professor. Você nunca pensou em me perguntar antes...
- Como não? Perguntou o Stalker – Então para que veio aqui? Eu não precisei convencê-lo a vir... você mesmo pediu e me ofereceu dinheiro! Não?
Em vez de responder o Professor imitou o Escritor e sentou-se ao chão, colocando a mochila entre as pernas.

- Que barbaridade! Olhem os idiotas! Disse o Stalker desconcertado. – Arriscaram a vida, passaram por tudo isso para chegarem até aqui e vejam só o que fazem! Se sentam ai tranqüilos!
- E o fazemos acertadamente – diz o Escritor – você devia se sentar tambem. Precisamos descansar antes de regresar.
- Este bobalhão ficou careca e esse outro tem a polícia esperando por ele na cidade... peça ao menos que te devolvam o cabelo!
- Quem perde a cabeça não precisa de cabelo – disse o Escritor – deixa estar anjo da guarda, não se ofenda! Senta aqui com a gente, esperaremos um pouco e beberemos conhaque e então voltaremos para casa com a ajuda de Deus.
- Era só o que faltava! Para casa! Grita o Stalker fechando os pulsos.

O Stalker dá meia volta e se encaminha para a encosta. Seus passos decididos em um primeiro momento, vão perdendo força até se deter sem saber o que fazer. Dá meia volta e com o mesmo passo decidido regressa até eles.
- Está bem, pode me explicar por que não quer ir ? pergunta ao Escritor – Mas fale a verdade e pare com charlatanice!
- Não me importa. Estou com medo. Não me conheço e eu não confio em mim. A única coisa que sei com segurança é que ao longo de minha vida minha alma se encheu com tudo que não presta. Não quero descarregá-la encima de gente que não conheço e logo depois, como o Raposa, meter o pescoço na corda. É melhor eu encher a cara tranquilo e pacificamente na minha asquerosa mansão. Vai! Mas não pense que por estarmos vivos você não nos matou. Você nos matou! Mesmo estando vivos! E não vá achando que sabe tudo! O que pode saber um ingênuo como você! Chora lágrimas de arrependimento pela filha… me perdoe, mas você é como aquele bandido que tinha sangue até os cotovelos e levava no peito uma tatuagem que dizia ‘Não esqueço o amor de minha mãe’. Fica calmo Stalker. Não estamos ainda no ponto para merecer o lugar, nem devíamos ter vindo em busca da felicidade.
- Se eu estivesse limpo do pó e sujeira, é possível que eu tampouco tivesse vindo! Grita com raiva o Stalker.
- Está falando como o burro de Balaam! Diz o Escritor.
- Nao compreendo! Reclama o Stalker balançando a cabeça – Não compreendo...
- Sorte sua não compreender! Vá até lá e então compreenderá... mas então estará perdido! Você sempre se viu nas alturas, como se fosse melhor que todos... como se fosse um homem de ferro, altivo e livre, mas na realidade é um jumento e nada mais! E vai voltar de lá feito um incapacitado, meio morto e coberto de vergonha. Em comparação contigo, o Raposa pareceria um anjo. Acabou! Deixa-me em paz!

Enquanto discutiam o Professor havia retirado da mochila um cilindro prateado que ao sol brilhava pálido.
O cilindro sem detalhes lembrava na parte superior, o disco do telefone do centro de controle.
- O que é isso Professor? Perguntou o Escritor.
- Uma bomba atômica.
- Atômica?
- Sim, vinte quilotons.
- De onde veio isso e para que?
- Eu e meus amigos a fizemos, quero dizer, meus ex-amigos. Decidimos que precisávamos destruir este lugar. Ainda acho isso. O lugar não traz felicidade para ninguém. Mas se cair nas mãos erradas… dá medo de pensar. Mas agora já não sei... eles começaram a falar que isso era uma maravilha e uma esperança, que não se deve matar uma maravilha destas, e que não devemos matar a esperança. Nos arrependemos. De uma forma que só os cientistas sabem como. E eles esconderam a bomba, mas eu a encontrei – ergueu os olhos – vocês compreendem? Ainda estou certo do que devo fazer. Basta marcar quatro números e dentro de uma hora... o fim, ninguém mais vai vir até aqui.
Calou-se um instante antes de completar:
- E jamais na Terra haverá um lugar como este novamente.
- Pobrezinho... disse baixinho o Escritor.
- Compreendem? Trata-se de um principio geral – diz o Professor – Não faça nunca algo que não pode ser reversível. Enquanto este lugar estiver acessível, não haverá descanso para ninguém, nem sossego... nem descanso nem sossego.
Neste momento o Stalker explodiu.
- Maditos sejam! Por que fui me juntar a vocês! - grita – Porcaria de intelectuais! Charlatões! Eu devia ter ido, devia ter aceito o dinheiro sem pensar em mais nada, viveria à toda, como todos vivem! E me arrumaram uma encrenca! Me corroeram a alma, parasitas! E o que eu faço agora? Hein ? Não posso fazer nada! Não posso ir até lá, nem ficar aqui... Quer dizer que tudo foi inútil e que nunca mais haverá coisa alguma?
O Stalker agarra o Professor pelos ombros.
-Então acabe com tudo! Não será então de todo inútil! Ao menos haverá um proveito!
Leva as mãos à cabeça agitado. E logo se torna imóvel.
- Olha – susurra ele na cara do Escritor – Eu não valho nada, mas e minha mulher? Por minha filha, que tal? Não por mim, por mim não, mas por minha mulher! Ela é uma santa! A única coisa que ela tem é o bebê. Por minha mulher, hein?
Agarra o Professor e o sacode.
- Não! Não faça isso! Não deve! Não toque nela! Não há outra esperança!

O Professor afasta suas mãos. O Escritor e o Stalker contemplam o Professor enquanto este desenrosca com esforço a parte superior do cilindro, a levanta e arranca alguns cabos que saem de dentro e começa a desmontá-la e arrancar peça após peça.

Neste instante o sol se põe e vem a escuridão.



FIM DA QUINTA PARTE

sábado, 3 de outubro de 2009

Stalker (A máquina dos desejos) - Parte 4 de 6


QUARTA PARTE


Perambularam por uma estrada secundária coberta de finíssimo pó.
A cada passo o pó se levantava e parava suspenso no ar durante certo tempo, imóvel.

Ao longo do caminho vários postes telegráficos decrépitos. Fazia calor e a colina tremulava longe.
O Professor, que ia na frente naquele momento se deteve, e derrepente virou-se para seus companheiros e falou desconcertado:
- Tem um automóvel ali… e seu motor está ligado.
- Não se importe com isso – falou o Stalker – está ligado há vinte anos. Melhor olhar para o chão e não se afaste do centro da estrada.

Passaram em frente a um caminhão novo em folha, como se tivesse recém-saído da fábrica.
Seu motor funcionava e do escapamento saia uma fumaça azulada. Mas as rodas estavam fundidas com a terra e pela porta entreaberta, via-se ao invés do chão da cabine, o mato crescendo.

Em certa ocasião, provavelmente no mesmo dia da Visita, um enorme caminhão transportava por esta estrada em um reboque especial, um tubo largo, de um metro de diâmetro para o gasoduto. O caminhão colidiu com um poste à esquerda da estrada e o tubo foi lançado do reboque atravessando o caminho. Provavelmente o tubo arrancou alguns postes telegráficos e telefônicos e que estavam agora tombados pela estrada.

Sobre os fios havia crescido um tipo de farrapo avermelhado que caia como cortina, fechando o caminho da estrada.

Junto ao acostamento a boca negra de um túnel. A terra adiante estava carbonizada, como se dela tivessem saído chamas.

- Precisaremos entrar por ali? Perguntou o Escritor sem falar com ninguém especificamente.
- Entraria se eu mandasse, disse friamente o Stalker recolhendo alguns cascalhos nas valas de escoamento da chuva. – Vamos, separem-se! Toma impulso com o braço e atira uma pedra pela boca do túnel.
Ouve-se uma pedra retumbando dentro. O Stalker aguarda um pouco e atira outra. Se repete o mesmo som e depois o silêncio.

- Bem, diz o Stalker sacodindo as mãos vagarosamente – Podemos… - volta-se para o Escritor e diz – Você, vai andando!

O Escritor começa a dizer algo, mas ao fim suspira resignado. Tira do casaco uma garrafinha chata, desenrosca a tampa e toma vários goles e a entrega ao Professor.
O Escritor limpa a boca com a manga do casaco. Não tirava os olhos do Stalker, parecendo esperar alguma coisa. Mas não havia nada que esperar.
- Agora estamos por conta do destino? Pronuncia com um riso forçado.
Dá um passo em direção, mas para diante da terrível goela negra.
Mete as mãos nos bolsos e se volta.
- E por que eu? Pergunta arcando as sobrancelhas – Por quê? Não vou!
O Stalker se aproxima dele e o Escritor recua.
- Vai sim! Rosnou o Stalker entre dentes.
O Escritor faz que não. O Stalker o acerta ao estômago e na cabeça, depois agarra-o e lhe dá algumas bofetadas.
- Claro que vai! Grunhe com ímpeto.

O Professor tenta segurá-lo pelo braço. O Stalker sem ver acerta uma cotovelada no Professor que lhe acerta o nariz, e faz com que seus óculos voem longe.

- Anda!
O Escritor limpa o sangue dos lábios, olha para a palma da mão e olha para o Stalker.
- Meu Deus… - exclama.
Uma profunda repugnância se espelha em seu rosto, e sem dizer uma palavra, cospe em direção dos pés do Stalker, dá meia volta e entra no túnel.
O Stalker de imediato se afasta e faz o mesmo com o Professor.

De dentro chegam chiados e pancadas e uma respiração entrecortada. O Professor ajeita os óculos com as mãos ainda tremendo. Uma das lentes está rachada. Silêncio.

- Me segue! Grita o Stalker e se lança dentro da boca negra.
Os dois saem em um recinto circular. Seguramente em outros tempos havia uma espécie de centro de controle ali. Mesas e cadeiras e sobre as mesas vários telefones (todos desligados) mapas topográficos meio podres, lápis esparramados. Ao chão vê-se caixas de conservas e garrafas. Não se sabe por que, mas há um carrinho de bebê também.

O Escritor está sentado numa das mesas, segurando uma garrafa.
- É isso! Quem está com medo? Disse animado o Stalker.
É evidente que está ali pela primeira vez e olha tudo com curiosidade, reparando em cada canto. O Escritor, lutando para abrir a garrafa, o observa entre sombrio e irônico.

- Quando digo que pode ir é porque pode – prossegue o Stalker – Me dê isso aqui! Por que tanta demora? –arranca a garrafa das mãos do Escritor e a destampa com habilidade – Onde devo servir? Não temos copos. Beberemos no gargalo, você primeiro, você merece…
Enquanto isso o Professor percorre o local, colocando os fones nos ganchos.

O Escritor dá um longo gole da garrafa e depois a apóia no joelho e lambe os beiços.
- Que foi? Está quente? Pergunta alegre o Stalker - É claro que o Raposa esteve por aqui, provavelmente descansou e se aliviou… mas tú bebe, bebe, vou tomar uma inteira, tem um monte delas.
- Querido Chingachguk (personagem de ficção, um índio moicano) - enfatiza o Escritor - Eu compreendo que seus rodeios não são outra coisa a não ser uma forma de pedir-me desculpas. Eu o perdôo. Você teve uma infância desgraçada, o meio em que foi criado, eu compreendo perfeitamente. Mas não se engane. Me vingarei sem falta!

O Stalker, virando outra garrafa, fala:
- É sério?
- Sim, sim, sou um homem vingativo como todos os escritores e artistas em geral. Agora mesmo não penso em outra coisa a não ser lhe meter uma bala entre as omoplatas… Mas o farei de um jeito mais elegante. Enfiarei uma agulha em teu crânio que vai lhe parecer que o mundo se tornou um inferno. Bem no cérebro, no seu sistema nervoso central…

Nesse mesmo momento, ouve-se um telefone tocar. Todos estremecem, e o Professor logo toma o fone e atende.
- Alô… ele diz.
Uma voz impaciente pergunta irritada:
- É dois-vinte-três- quarenta e quatro doze? Como está a ligação?
- Não sei, responde o Professor.
- Obrigado, só estou testando.
Ele ouve alguns apitos. Desliga. Os três se olham e depois para o telefone.

O Professor pega o aparelho novamente e disca rapidamente um número. Seu rosto possui uma expressão maliciosa.
- Pronto! Responde uma voz de homem.
- Perdoe-se me eu o incomodo, mas, por favor – diz o Professor – estava querendo lhe falar algo. Suponho que sabe quem está falando?
Pausa.
- Quem?
- É do edifício velho, a sala de caldeira, quarto bunker. Acertei?
- Vou chamar a polícia!
- É tarde – pronuncia jubiloso o Professor – estou fora de seu alcance. Sabe onde me encontro? Estou a dois passos do lugar, e você não pode fazer nada! Chame quem você quiser, escreva uma denûncia, pode formar uma comissão de especialistas em medicina, atiça meus funcionários se quiser, ameaça-os, faz o que quiser e quando quiser. Estou te telefonando para te dizer que você é um cretino e que apesar de tudo, estou a dois passos do lugar!
Pausa.
- Está me ouvindo? Pergunta o Professor ao telefone.
- Você compreende que é teu fim como cientista?
- Eu agüentarei. Valerá à pena.
- Compreende que a prisão te aguarda? Trabalhos forçados!
- Chega! Estou a dois passos! Acha que pode me assustar agora?
Pausa.
- Meu Deus – pronuncia o interlocutor invisível – A que ponto chegamos! Já faz tempo que você não pensa mais no trabalho! Tu não é sequer um Heróstrato (o jovem que pôs fogo no templo de Diana, por querer a imortalidade), tu só quer me xingar, você é o menininho que se alegra por ter conseguido colocar insetos na sopa… mas recorda demônio, como tudo começou! Que idéias, que imensidão! E agora só pensa em mim e em você. Onde estão os milhões e milhares de milhões de que falamos, os milhares de milhões de seres que não sabem nada! Meu Deus pense! Conclua tua… infâmia. Apesar de tudo ainda te lembro que és um assassino. Mata a esperança. Centenas de gerações virão depois de nós e cada uma destas milhares de milhões de pessoas te amaldiçoarão e o desprezarão.
O Professor aperta os botões e bate no gancho, mas a voz não se cala.
- Seguramente não está se importando agora com o que estou dizendo. Se sente dono da situação e não compreende nada… não desligue o telefone! Ouve o que tenho a lhe dizer, pois estou falando com você. O cárcere não é o pior que te espera. Você mesmo nunca irá se perdoar. Eu sei, já o vejo enforcado na cela, com os próprios suspensórios.
O Professor desliga o telefone com um golpe e permanece um tempo parado, sem se virar.

- A conversa foi divertida – comenta o Stalker e bebe um trago da garrafa.
- Não liguem para isso – diz o Professor – Foi simplesmente uma conversa com um colega.

Senta-se na mesa e toma a garrafa das mãos do Stalker. Examina o rótulo.
–Vamos meus amigos, bebam e descansem – diz o Stalker – bebam, pois nos falta um último trecho apenas. Se vira para o Escritor. – Bem, e tu? Por que se calou? O que queria me dizer?
- Não estou mais desgostoso. Por incrível que pareça – responde o Escritor. Ouça, é verdade que estamos a dois passos do lugar?
- Não exatamente dois passos de verdade, diria que estamos perto.
Um longo silêncio. Depois o Escritor diz:
- Sabem de uma coisa? Fizemos mal em vir até aqui. Que diabo! Não pensei que fosse assim. Não seguirei adiante.
- Como não seguirá? Pergunta o Stalker.
- Não irei. Vocês vão e eu os espero aqui. Os receberei quando voltarem felizes e contentes…
- Não camarada, isso não!
- Por quê? Tem outro túnel? Pergunta o Escritor com malícia. - Deixe que o Professor o prove. Ele se importa.
- Que? Que besteira está falando?
- Não importa a besteira de que falo. O que importa é que não seguirei em frente. Se dependesse de mim, vocês também não… como os qualificou o Professor? Benfeitores? Tampouco lhes deixaria ir.
- Que está dizendo? Ficou louco? Faltam só dois passos…
- O importante não é o que falta, mas sim o que percorremos! Está quase gritando – Nos divertimos bastante! E chegamos aqui!
- Aonde você chegou? Pergunta o Stalker com a voz rouca de ódio.
- Eu? Me diga você por que o Raposa se enforcou?
- Por que ele não foi ao lugar pela riqueza, mas pelo irmão menor.
- Por seu irmão?
- Foi. Ele o havia levado consigo para a Zona e em algum momento, ele trocou de lugar com ele. Muito tempo depois, quando velho, ficou com dor na consciência, voltou ao lugar de novo para restaurar a vida do irmão. Mas quando chegou ao lugar, de novo cedeu à cobiça e em vez do irmão quis mais dinheiro. Entende?
- Magnífico – disse o Escritor – Era o que eu pensava. Mas me explique o seguinte, por que ele se pendurou? Por que não voltou ao lugar denovo e desta vez pelo irmão? Ein?
- Isso eu também não sei, disse o Stalker sombrio.
- Pois eu sei. E eu também sei por que se enforcou. Ao Raposa o que é do Raposa e só do Raposa e de ninguém mais. Você mesmo me disse que neste lugar se realizam os desejos mais secretos. E o que ele gritou? Quero recuperar meu único irmão, quero a felicidade para todos os seres humanos, me dê inspiração! Neste lugar se realizam aqueles desejos que são da tua natureza, o essencial para você. Desejos que você sequer tem idéia, que te dominam e te guiam pela vida. Foi isso que aconteceu com o Raposa. Tu, meu anjo, não entendeu nada. Não foi a cobiça que o venceu. Ele ficou de joelhos naquele lugar e suplicou pela sua alma, como lhe parecia ser o certo a fazer, com toda sua consciência enferma, pediu que lhe devolvessem o irmão, mas recebeu um monte de dinheiro e não podia receber nada mais do que isso, por que ao Raposa o que é do Raposa. Por que a consciência, a tortura da sua alma são uma ficção, uma invenção da mente. Quando ele entendeu isso, se enforcou.


FIM DA QUARTA PARTE

sábado, 26 de setembro de 2009

Stalker (A máquina dos desejos) - Parte 3 de 6


TERCEIRA PARTE


O Stalker abre os olhos.
Permanece deitado por um pouco, ouvindo com atenção.
Logo se levanta e sai da sombra e para junto ao Professor e ao Escritor que estão dormindo. Os examina com cuidado, primeiro um e depois o outro. Sua expressão é concentrada e parece medir-los, finalmente mordendo o lábio inferior, ordena em voz baixa:
- De pé!

A estreita ravina entre as colinas está cheia de um liquido viscoso e turvo.
Seguem por um terreno pantanoso e podre. Sobre a superficie da água vê-se uma névoa repulsiva. O Stalker vai à frente com o Escritor e o Professor ao final. Respiram com dificuldade, vê-se que estão exaustos.

Derrepente o Stalker para como se tivesse tropeçado em um obstáculo invisível. Parece preso ao chão e move a cabeça cheirando o ar.
O Escritor se detém ao lado e apoia-se num bastão, percebe algo errado.
- O que se passa? Pergunta.
- Silêncio! Disse com a voz baixa o Stalker

Faz um movimento como se fosse andar, mas está imóvel no mesmo lugar. Mete a mão no bolsinho e puxa uma arruela, vai lançá-la mas não se decide. A arruela cai ao chão. Seu rosto lívido está banhado de suor.

- Se não for isso... sussurra.
Retrocede abrindo os braços. Depois sem olhar, pega o bastão do Escritor e o afunda ao pântano junto ao seu pé.
- Por aqui será mais seguro... venham, sigam-me!
Avançam com cuidado, afundando até os joelhos quase.
- Pra que? Pergunta o Escritor aborrecido e cansado.
O Stalker não responde, tateando o caminho com a vara, ele vai se afastando da parte seca.

Em meio à névoa, com água na cintura, caminham com dificuldade, caindo e se levantando, submergindo e voltando à tona cuspindo e tossindo. Não podem parar, pois o pântano os engoliria.

Subitamente o Professor afunda até a altura do pescoço, se esforça para sair, mas não consegue.
- Socorro! Grita com suas últimas forças.
O Stalker se vira. Seu semblante reflete sincero horror.
- Aonde pensa que vai? Grita com a voz rouca e avança para o Professor – A mochila! A mochila!
O Professor faz um movimento com a cabeça ainda na superfície.
- O bastão! Dê-me o bastão! Grita afônico.
-Tire a mochila!
- Largue da mochila, seu idiota! Grita o Escritor igualmente impotente preso ao pântano.
- O bas... - a cabeça do Professor afunda e reaparece e ele ruge – Me dá o bastão seu imbecil!
Tenta agarrar-se ao bastão estendido e falha, por fim o encontra e o segura com as duas mãos.
É então puxado para a parte seca.

- Você ia direto pro fundo, feito uma pedra, grita com ele o Stalker – E me levaria com você.
O Escritor havia sido deixado sozinho, arrastando-se pelo pântano, sem largar a mochila.
- Não devia ter nos metido ali, argumenta o Professor.
- A você não importa onde decido meter-nos.
- Pois a mochila também pouco te importa!
- O que leva dentro dela? Um tesouro? Levantou a voz o escritor, mas o Professor fingiu não o ouvir.
- Parece mentira! Estávamos indo por um caminho plano e seco, e derrepente você cisma em nos enfiar nesta... latrina!
- O olfato me disse que deveríamos fazê-lo... entende? O olfato!
- Que olfato!
- Quatro olhos imbecil! O Stalker bate em seus joelhos e pedaços de barro seco caem.
- Meus olhos não são da sua conta! E basta! Uma besteira atrás da outra...
- Não é besteira! Eu devia te bater com este cajado! Me dá a garrafa… por causa de calças secas esteve a ponto de ir para outro mundo.
- Que calças? Perguntou o Escritor.
- Não é o que ele leva na mochila? Ou seria comida?
- O que levo na mochila não importa! Eu não podia me libertar, não podia! Teria me afogado antes de largar a mochila, maldito seja!
- Bom, já basta! O Stalker se levantou e tomando a frente, escrutinou o caminho – Onde viemos parar? Não conheço este lugar! Por que o canalha do Raposa não assinalou nada sobre este pântano... e tem algo ali... claro, pode ser que tenha aparecido depois dele...
- A propósito – deixou ouvir sua voz o Professor – O Raposa foi o único que chegou ao tal lugar?
- Não conheço outros.
- E quem tentou e não chegou lá? Perguntou de pronto o Escritor.
- Sei de alguns. Eu também não cheguei.
- E para que tentaram? Perguntou o Professor.
- Cada qual tinha seu sonho... Dinheiro principalmente, claro. Acha que não sei por que você está aqui? Quer que eu diga? Não te admitiram na expedição científica e você está aqui para provar que foi um equivoco! Quer resolver assuntos pessoais e fazer alguma descoberta que os deixe de queixo caídos. Que digam: Olha, o nosso Professor é realmente um homem importante! Vamos lhe dar um prêmio Nobel.
- Está bem... e você?
O Stalker calou-se contrariado.
- Tenho meus motivos... familiares.
- Como o Raposa? Perguntou baixinho o Professor.

O Stalker se virou bruscamente e o encarou, mas o Professor tinha os olhos cerrados, os braços cruzados sobre o peito.
- Não me compare com ele! Disse o Stalker em tom ameaçador – Você não o conhece, nunca o viu e nem me conhece. Não há como comparar.
- Não sabe de nada, disse o Professor sem abrir os olhos.
- Deixe-o, está bem – disse irritado o Escritor –...fique com seu ‘não sabe nada de nada’. Não sabe nem o que é o binômio de Newton. Motivos familiares... perdeu tudo nas corridas, não tem o que comer em casa, não quer trabalhar por que é um pobretão de nascimento... amigo das biritas e das cartas... e das mulheres, claro, um mendigo e uma bruxa pedindo dinheiro... e com um monte de filhos, uns bandidos que não saem da carceragem... 'não sabe nada de nada'...

Durante todo o discurso o Stalker ficara ruborizado, tentando dizer algo e interrompê-lo, mas sem poder. E quando o Escritor se calou então disse:
- Você... como pode falar assim de mim? O que sabe? Você é um escritor vagabundo e vendido à melhor oferta... deveria escrever nas paredes de banheiros, seu aproveitador... e da minha filha, o que você sabe? Nasceu inválida, sabe disso? É apenas uma criaturinha, mas a fazem sofrer porque é cega e anda com muletas! Tudo que eu trouxe da Zona gastei com médicos, que nunca prometeram cura alguma. Professores tão bons! Como você! Para que falar com você, imbecil!

Levantou-se bruscamente e saiu dali desaparecendo na névoa.

- Não devia ter dito isso – disse o Professor.
- Por quê? Me diga por quê? Tudo que ele disse foi mentira. Acabou de inventar!
- Não mesmo. Eu o conheço faz tempo. Sua biografia é de meter medo. Começou como Stalker ainda cedo, esteve várias vezes na prisão e só se deu mal na vida. E a sua filha é mesmo uma mutante, uma vitima da Zona, como dizem os jornais. Faz tempo que trabalhou no instituto, então...
- De todo jeito ele mente. Não se trata da filha. Falou da filha pela primeira vez. Mas os marginalizados não gostam de ser chamados assim. Precisam de ajuda, que lhes dêem de bandeja nobres sentimentos... o patrão diante do coitado, o trata com benevolência, mas volta para casa com um saco de dinheiro...
Faz uma pausa.

O Professor sorri sarcasticamente.
- Que volte com migalhas, mas já é uma fortuna. Que volte vivo, sorte dele. Que o alcance uma bala da patrulha, azar o dele. E tudo o destino...
- Que sabedoria desanimadora é essa?
- Folclore local. Você esquece sempre que estamos na Zona. Na Zona não se pode fazer movimentos bruscos, nem soltar expressões ásperas.
- Perdão, mas não gosto quando enchem de filosofia aquilo que é o mais elementar possível.
- Bom... mas você gosta de alguma coisa... de uma maneira geral?
- Gostava de escrever, mas agora não gosto de nada.
- Você nunca pensou no que vai acontecer com todas as pessoas que acreditam neste lugar para o qual estamos indo? Perguntou o Professor.
- Muitos acreditam que ele existe, mas como chegarão até lá?
- Chegarão meu amigo, chegarão. Um entre cada mil consegue chegar. Por que o raposa chegou... e o raposa não é o pior. Tem outros. Não precisam de ouro, nem tem assuntos familiares para tratar. Donos do mundo, meu caro! Rechaçaram o mundo inteiro à sua vontade, todos frustrados imperadores da Terra, grandes inquisidores, Fuhrers de todo o tipo, benfeitores e simpatizantes... Já pensou nisso?
- Francamente não, respondeu o Escritor.
- Pois pense. Estou inclinado a pensar nas histórias assustadoras que ocorrerão. Nas boas não, mas nas assustadoras sim...
O Escritor torceu a boca e olhou firme o Professor.
- Apesar de tudo você não compreende estas pessoas – disse ao fim – mais uma vez os filósofos de plantão. Claro, é possível que consigam refazer o mundo inteiro, mas na realidade não se importam com o mundo, tudo o que quer são as mulheres, aguardente e quanto mais dinheiro melhor... porque lhes falta imaginação Professor! Ou em último caso, desejarão que um automóvel atropele seu chefe. Compreende de onde saem todos estes Fuhrers? Mesmo que não goste de mulheres, ou não se importe com os críticos, ou tenha um bafo horroroso, você professor, vai se convencer disso quando chegar ao local, por que eu te conheço muito bem. Tem escrito na sua cara que pensa em fazer um bem monstruoso para toda a humanidade. Outro em meu lugar ficaria assustado com isso. Mas eu... vê? Estou tranquilo.
- Parece tranquilo – disse o professor – Sim. Você nos analisa com sua própria régua. Não sei se você seria um bom político ou sociólogo... Mas e você?
- Não se meta em meus assuntos. Para mim o mundo de vocês não vale um peido. Do mundo de vocês só me interessa um homem, este aqui – o Escritor aponta com o dedo para o próprio peito – Este homem não é o máximo? Está muito bem neste mundo, apesar de tudo tem assentado tijolos de ouro...
- Ouça – disse o Professor – Não se engane. Você mesmo disse que estava indo para lá em busca de inspiração, em busca de beleza e tranquilidade...
- Mas quando 'aquilo' souber quem eu sou, terei tranquilidade, inspiração e beleza...
- E se entender que você é uma porcaria? E se entender que você não só não fez bom uso de seus tijolinhos de ouro, mas que os roubou de outros? Que bela tranquilidade!
- Isso, meu querido Einstein, não é problema seu. Dedique-se por favor à salvar a sua humanidade, mas sem contar comigo.
- Sim, sim, eu compreendo. O que me preocupa é outra coisa. A mim me parece que você simplesmente quer que todos te deixem em paz, se possível para sempre.
- Palavras sábias.
- Todos e, portanto, você também – disse o Professor – por este motivo eu te peço que pense bem no porquê você está indo até aquele lugar. Pense bem! Por que existem milhares de milhões de seres que não tem culpa alguma por você ser um merda!

O Stalker volta.
- Chega de descansar! Andando!


FIM DA TERCEIRA PARTE

sábado, 19 de setembro de 2009

Stalker (A máquina dos desejos) - Parte 2 de 6


SEGUNDA PARTE


A neblina se foi.

À esquerda do aterro o horizonte, uma planície acidentada, sem qualquer sinal de vida, mergulhada em sombras verdes. Mas sobre o horizonte, espalhando-se no céu claro, despontava um brilho esmeralda, puro como as cores do arco-íris: a aurora própria da Zona.

E depois a cadeia de montanhas negras sob o sol verde, quebrada em pedaços desiguais.

- Vim até aqui por isso também… disse o Escritor com a voz rouca.
Seu rosto estava verde como o do Professor em silêncio.
- Não olhem para lá, disse o Stalker. Olhem aqui.
O Escritor e o Professor se viram.

À direita do terreno uma planície também acidentada, com postes visíveis à distância e a armação retorcida de uma linha de energia de alta voltagem.
Podia se ver uma estrada entre as montanhas.

Aqui o terreno descreve um arco largo, e é possível ver um comboio que trouxe até ali, há algum tempo atrás, uma unidade de tanques do exército. Mas algo havia acontecido, logo adiante.
A locomotiva e os primeiros vagões haviam descarrilado. Vários vagões estavam atravessados no terreno, os tanques tombados e virados de lado, expondo as lagartas ao ar.
Pelo visto haviam conseguido baixar vários tanques ao terreno e alguns conseguiram chegar quase até a estrada, mas não avançaram muito além, parados entre o terreno e a estrada, em grupos pequenos, com os canhões apontando para direções diversas.
Alguns deles, não se sabe por que, sem as lagartas, outros fundidos ao chão até a altura das torres, outros fechados hermeticamente e outros deixados com as escotilhas abertas.

- Onde estão… as pessoas? Perguntou em voz baixa o Escritor – Havia gente ali.
- Penso a mesma coisa sempre que venho aqui, respondeu o Stalker falando baixo. -Por que eu os vi quando embarcaram na nossa estação de trem, eu era um menino. Na época todos achavam que se tratava de um inimigo que queria nos conquistar. Por isso enviaram estes tanques… estratagemas - cuspiu – Ninguém nunca voltou. Nem uma alma viva. Bom, chega. Nossa direção será aquele poste que se vê ali… - estendeu o braço demonstrando – mas não olhem para o poste. Olhem para seus pés. Já disse e repito. Vocês são uns merdas! Novatos! Sem mim não valem nada, estarão perdidos como coelhos. Por este motivo seguirei atrás, iremos em fila indiana. Mudaremos o cabeça da fila por turnos. Primeiro será o Professor. Indicarei a direção e não se afastem, porque será pior para vocês. Peguem suas mochilas!

O professo se abaixa e joga a mochila ao ombro.
- Professor, a primeira direção será aquela pedra branca. Vê? Vamos andando… ordena o Stalker.
O professor começa a atravessar o terreno primeiro. Depois de uns cinco passos, o Stalker ordena:
- Escritor, é tua vez, siga-o.
E pouco depois ele mesmo o faz.

A manhã esverdeada da Zona havia se diluído com a luz habitual do sol.
Depois de percorer o aterro, agora subiam devagar, em fila única, pela suave encosta de uma colina. A partir dali é possível ver o aterro como a palma da mão. Algo estranho está acontecendo sobre os tanques tombados, parecem jorros de ar quente subindo, sobre este lugar, de tempos em tempos, as luzes iridescentes neles formam um arco-íris brilhante.
Mas eles não olham para lá. O Professor vai na frente e antes de cada etapa, examina suspeitando de onde pisa. O Escritor segue atrás, sem se importar tanto onde pisa.
O Stalker está calado. Seu olhar vai dos pés rápidos e de passos automáticos, acostumados com o lugar, até a nuca do Escritor e da nuca do Professor para a direita do Professor e a esquerda do Professor, e de novo aos seus pés.
O Professor alcança o topo e o Stalker ordena:
- Pare!

O Professor para obediente, mas o Escritor dá outros passos e se volta descontente.
O Stalker está imóvel, de olhos semicerrados e move os dedos da mão estendida como se apalpasse algo no ar.
- O que é? Pergunta com irritação o Escritor.
O Stalker baixa a mão lentamente e se aproxima do Professor. Seu rosto está pleno de tensão e perplexidade.
- Não se movam! Diz com a voz rouca.
O Escritor olha ao redor assustado.
- Não se mova imbecil – ordena o Stalker.
Estão imóveis como estátuas, cercados pelo mato verde, e os arbustos ondulam vagarosamente ao vento e um sol os ilumina gentilmente. Logo o Stalker diz de súbito:
- Acabamos de sair de um mau caminho… vamos andando. Não! Aguardem, vamos fumar um cigarro.
Senta-se de cócoras e retira do bolsinho um maço de cigarros. Tira um com os lábios e oferece-a para o Professor, que se põe ao seu lado. O Escritor pergunta com irritação:
- Bem, posso ao menos ficar com vocês?
- Sim. Responde o Stalker. - Pode se aproximar. Sua voz endurece – O que foi que eu te disse?
O Escritor se detém na metade do caminho.
- O que foi que eu te disse desgraçado? Eu disse ‘Pare’ e você seguiu andando, e eu disse ‘Não se mova’ e você se moveu. Assim ele não vai chegar ao final, diz o Stalker ao Professor.
- O que posso fazer? Sou lento para reagir, queixou-se lamentando o Escritor – Me dê um cigarro, por favor…
- Se tem problemas devia ter ficado em casa, disse o Stalker tirando do bolso um punhado de porcas de diversos tamanhos. Começa a “tatear” o caminho.
Atira a porca adiante dele. Para. Vai até onde a porca caiu. Joga outra. E assim vai, de uma porca até outra. Chama o Professor.
- Venha. Parece que saímos do caminho.
Avançam com passos de passarinho. O professor, depois o Escritor e o Stalker.

O sol está no alto e no céu não há uma nuvem sequer.
À esquerda um aclive, à direita um açude cheio de água negra parada.
Um silêncio profundo, não se ouvem pássaros nem insetos, apenas o som da vegetação sob os pés. Poucos passos depois o Escritor começa a cantar uma musiqueta. Dá alguns passos, se agacha, pega uma varinha e com ela começa a golpear a perna da calça.
O Stalker observa sério suas ações. E quando o Escritor põe-se a quebrar com a vareta as florezinhas à direita e à esquerda, o Stalker tira do bolsinho uma tarraxa e com boa pontaria acerta a nuca do escritor. Um repentino grito interrompe sua musiqueta alegre.
Ele leva as mãos à cabeça e se senta de cócoras, encolhendo-se. O Stalker para a seu lado.
- É assim que vai ser, diz. – Não temos tempo para reclamações… Não fez nas calças, fez?
O escritor se endireita lentamente.
- O que foi que eu fiz de errado? Pergunta assustado, apalpando a nuca.
- Quis te mostrar o que vai lhe acontecer se continuar agindo assim na Zona – explica o Stalker – Você é um suicida.
- Está bem, está bem, responde o Escritor umedecendo os lábios com a língua. – Eu entendi.

Atravessam um terreno baldio. Brilham vidraças quebradas, um chaleira velha, uma boneca com as pernas arrancadas, trapos, montes de latas de conservas oxidadas.
O Escritor vai na frente, tem o rosto tenso e uma expressão malévola.
Chegam a uma vala enorme. Dentro, o corpo desinflado de um balão para defesa antiaérea. Seguem pisando com cuidado a superfície que cede abaixo dos pés, e logo o Escritor solta um grito, parecido mais com o grasnado de um corvo, e se detém.
E começa a ensopar. O liquido brota de seu corpo atravessando a roupa, goteja pela cara, dos dedos esticados jorram esguichos, e os cabelos se agarrando ao rosto e bochechas e depois começam a escorrer pelo peito e ombros.
- Calma pessoal – diz o Stalker – Nos pegaram! Pro chão – grita para o Escritor – Jogue-se ao chão! E você também Professor! Pro chão!
O Stalker e o Professor agora estão deitados, mas o Escritor não. Câimbras estremecem seu corpo. Mas logo tudo cessa inesperadamente. O liquido vai secando a olhos vistos. O Escritor está tão seco quanto antes, a não ser por tufos de seu próprio cabelo que estão por sobre ele.
Ele desfalece e tomba de costas.
O Stalker e o Professor se levantam e cautelosamente vão até o Escritor.
- Não é nada, não é nada – diz o Stalker. – Logo ele vai se levantar. Mas para falar a verdade, o maldito teve sorte… Aqui mesmo, pessoas boas tiveram os olhos arrancados, e ele não perdeu mais do que cabelo… Está bem, levante-se, levante-se… saia do chão!
O Escritor se põe de pé com dificuldade. Apalpa a cabeça e olha os cabelos em suas mãos.
- Vamos – diz o Stalker. – Não vai poder contá-los mesmo. Professor, siga na frente!

Entram por debaixo de uma rede de camuflagem apodrecida pelo tempo.
Percebe-se que ali haviam, em outros tempos, nichos para metralhadoras. Vêem caixas de munição, metralhadoras fundidas com o terreno, capacetes e antigas máscaras cobertas de areia.
- Vamos fazer uma parada – anuncia o Stalker.
Todos permanecem de pé, imóveis. O silêncio os envolve e apenas o vento sibila num jornal sujo e rasgado, que se enrolou na perna do Professor.
- Esperem – diz o Escritor – Não sei o que há com minhas pernas… não funcionam.
- O que foi? Pergunta o Professor sem se virar.
O escritor solta uma risada nervosa e diz:
- Não sei… já passou, graças a Deus – e olhando para os lados grunhe – Que lugar infeliz!
Acomodam-se à sombra da rede. O Stalker derrama bebida nos copos de cada um. Eles bebem.
- Está com fome Professor? Pergunta o Escritor mordendo com asco um ovo cozido.
- Para falar a verdade, não estou bem – responde o outro.
- Uma cerveja cairia bem – suspira o Escritor. - Bem gelada! Minha garganta está seca.
O Stalker serve mais uma dose para cada um. O Professor pergunta apreensivo:
- Ficaremos muito tempo aqui?
- Não sei - o Stalker responde sombrio.
- O que diz o mapa?
- O que poderia dizer um mapa? E para que serve um? Não há escala. É verdade que o Raposa retornou em dois dias, mas era o Raposa.
- Quem é o Raposa? Pergunta o Escritor.
O Stalker sorri dissimulado, acende vagarosamente um cigarro.
- O Raposa, meu amigo, não era como nós. Ele começou nos primeiros dias, me trouxe até aqui quando eu cresci. Era um grande homem. Um que…
- E por que era? Perguntou o Escritor – Ele…?
- Sim, isso mesmo que está pensando. Ele saia com um ou dois e voltava sozinho. Vocês tinham que ter ido com ele... -riu de modo desagradável olhando para o Professor e o Escritor – Mas chegariam até aqui com ele também. Bom – interrompe-se – Façam o que quiserem, que eu vou tirar uma soneca. Só não façam barulho... e nem pensem em sair andando por aí...

O Stalker se preparou para dormir, colocando a cabeça sobre a mochila.
O Professor e o Escritor se recostaram contra o declive argiloso. Fumam e conversam.
- E o que aconteceu com este sujeito, o Raposa? Perguntou o Escritor.
- Foi o único que chegou ao centro da Zona e retornou – respondeu o Professor - Voltou e dois dias depois estava rico... fabulosamente rico. O Professor calou-se.
- E o que mais?
- Uma semana depois ele se enforcou.
- Por quê?
O Professor fez que não sabia com os ombros.
- Um caso pouco comum. Pensei que poderíamos ir ao tal lugar com o nosso Stalker. Ele foi ver o Raposa e o encontrou pendurado pelo pescoço. Numa mesa havia um mapa e um bilhete de despedida, desejando-lhe sorte.
- E o nosso guia não teria lhe...?
- Sim, pode ser, assentiu o Professor.
Fumaram calados por um momento.
- E o que lhe parece Professor? Será verdade que este lugar existe? O lugar onde os desejos se realizam?
- O Raposa ficou rico. Toda sua vida ele sonhou em ser rico.
- E se enforcou.
- Mas você tem certeza que ele queria mesmo a riqueza, o Raposa? Por isso pergunto, para que alguém iria querer ir até a Zona? O que acontece é que a gente nunca sabe realmente o que deseja. É complicado. A cabeça quer uma coisa, a medula outra e a alma outra ainda. É um problema sem solução. Em todo caso, estou aqui por um motivo intimo, compreende? Um desejo intimo.
- Certo – concorda o Escritor – você explicou muito bem. Antes eu disse que vinha até aqui em busca de inspiração. Mentira. Não dou a mínima para a inspiração…
O Professor o olha curioso.
O Escritor continua depois de uma pausa.
- Mesmo que seja verdade, e que busque inspiração… como vou saber chamar aquilo que desejo? E como vou saber se quero aquilo que quero? São coisas incompreensíveis, basta dizer e seu sentido se perde, se dilui. Como uma água viva ao sol. Já viu uma?
O Professor baixa os olhos e passa a observar suas unhas sujas e ruídas.
- Tá bom, tá bom. A propósito, devo dizer-lhe que para você é contraproducente ir até lá…
O escritor concorda hipocritamente.
- Sim claro, sim,… e vou logo dizendo, não sou um cientista… você é diferente! É um cientista de verdade? Então está claro! Trata-se de um experimento… a verdade em última instância. Mas, acredito eu, não existem provas. Tudo pode ter sido inventado por alguém, é o que acha? Tudo isso é uma invenção idiota! Estão enganando a todos nós, mas quem? Não se sabe quem. E para que? Tampouco se sabe…
- Apesar de tudo seria interessante saber quem e por que.
- Não é nada disso! 'Quem e para que’! Para que servem seus conhecimentos? Que consciência poderá ser mais pura? Qual consciência irá doer? A minha? Eu não tenho uma, não tenho nada além de nervos. Quando critico algum canalha, eu sofro. Elogio outro canalha, mais uma ferida. Para eles tanto faz o que eu escrevo. Engolem qualquer coisa. Coloque sua alma e seu coração e eles engolirão também. Tanto faz a porcaria que eu escrevo. Todos, sem exceção, são gente instruída, e tem fome sensorial, e todos ronroneiam ao meu redor, jornalistas, redatores, críticos e damas da sociedade sem fim… mas logo elas se gabam diante dos maridos, que eu me dignei a dormir com elas! E todos exigem, me dá me dá! E eu dou, e sinto asco, faz tempo que deixei de ser um escritor. Que escritor dos infernos sou eu que odeio escrever, se para mim escrever é um martírio, uma ocupação desagradável e vergonhosa, algo como uma dolorosa função fisiológica.
Calou-se subitamente e permaneceu por um pouco com os olhos fechados. Um tique nervoso contraiu a musculatura do seu rosto.
- Antigamente eu achava que eu era necessário para eles – prossegue em voz baixa – Achava que alguém podia se tornar melhor e mais honrado por haver lido meus livros. Mais puro… não sou necessário para coisa alguma! A única coisa que tenho é minha casa. Com piscina. Quando morrer, dois dias depois terão me esquecido e começarão a devorar outro qualquer. Queria fazê-los à minha imagem e semelhança. Mas eles me transformaram à maneira deles. Antes o futuro era só uma repetição do presente, e todas as mudanças se vislumbravam no horizonte. Agora não há mais futuro. Uniu-se ao presente. Mas será que estamos preparados para isso? Eu tentei prepará-los, mas eles não querem se preparar. Tanto faz para eles, não fazem mais do que engolir a tudo.
- Quanta veemência – disse devagar o Professor – muita veemência... você está disposto a salvar a todos, Senhor Escritor!
- Me deixe em paz! Responde o outro sem abrir os olhos.
- Não, não mesmo, isso é muito perigoso, não percebe? Um benfeitor veemente!
O Escritor se senta de frente ao Professor e o encara furioso.
- Quem é perigoso? Quem? Eu quero tranqüilidade, entende? A Paz!
- Entendo! Mas você não vai para o deserto e busca uma vida tranqüila. Você vai para a Zona
O escritor se põe novamente de costas ao barranco e tapa os olhos com as palmas das mãos.
- Ouça, não quero discutir com você! Da discussão nasce a luz... maldita seja!


FIM DA SEGUNDA PARTE

sábado, 12 de setembro de 2009

Stalker (A máquina dos desejos) - Parte 1 de 6



A segunda edição da revista Ficção Contemporânea, dedicada a Ficção Científica soviética, trazia um texto intitulado 'Stalker or The desire machine' (O guia ou A máquina dos desejos), escrita por um dos grandes mestres da FC mundial, Arkadi Strugatsky.

Não se trata exatamente do roteiro do filme Stalker (1979), dirigido por Andrei Tarkovsky, que também fora responsável por filmar a obra máxima de FC de Stanislav Lem, Solaris.

O Guia ou A Máquina dos desejos é um relato fluido, da FC seminal dos irmãos Boris e Arkadi Strutgasky (sumariamente FC humanista), e que incluiu um pouco da atmosfera do filme de Tarkovski.

No livro dos irmãos Strugatsk, 'Piquenique à margem da estrada', de onde a ídeia para o filme foi retirada, a Zona se encontra no Canadá e Tarkovsky utilizou o nome em inglês, Stalker ('guia' em inglês), e não em russo.



INTRODUÇÃO

Há vários anos atrás tivemos a honra de participar da criação do filme 'Stalker'.
Este filme teve primeiramente como base, o quarto capítulo de nosso livro 'Piquenique à margem da estrada'.
No decorrer do trabalho (que levou 3 anos para ser concluído) percebemos que o filme não teria nada em comum com o livro. O roteiro definitivo apenas manteve do livro a palavra Stalker, e a mística Zona, o lugar onde os desejos se tornam realidade. Aqui está um dos primeiros roteiros e que resultou no conhecido filme. Nos propuseram muito gentilmente publicá-lo também, pois assim como o filme, o roteiro teria direito a existência.
Arkadi Strugatsky.


***



PRIMEIRA PARTE

A casa do Stalker


Uma casa cheia de trastes velhos. Uma manhã de inverno bem cedo. Lá fora, reina a escuridão. Um homem taciturno joga o cobertor para o lado e se levanta da cama em silêncio. Pega algumas roupas e na ponta dos pés, vai até o banheiro e começa a se vestir. Não vê quando sua mulher aparece, desgrenhada e sonolenta à porta do banheiro, numa camisola velha.
- Aonde vai tão cedo?
Nenhuma resposta.
- Pegar rãs... volto logo. Eu tenho um assunto a tratar. Durma...
- O que você quer dizer com logo?
- Eu disse que voltarei e é o suficiente. Vá dormir.
- Não minta. Eu sei para onde você vai. Esqueça! Não deixarei que vá!
- Calma! E não grite...
- Eu não quero que vá. Meu coração me avisou... você e seus truques velhos outra vez! Quer parar na cadeia?
- Vale mais ir para a prisão... do que continuar nesta vida. Pra mim chega.
- Você não vai a lugar nenhum.
Ele endireitou bruscamente. Ela grita:
- Vá em frente, me bate, me bate, sim, você pode fazê-lo! Por que não me bate? Molengão...você é um molenga! Onde está a sua palavra? Olha o que você se tornou!
- Acalme-se! Assim vai acordar o bebê...
- Que acorde! Para ver o seu pai, ver o que ele é! Diga-me, onde está a sua palavra? Onde? Sai como um ladrão na ponta dos pés...
- É o que eu sou, um ladrão! Parece novidade para você! Descobriu a pólvora! Mas não roubo das pessoas... eu disse para você se acalmar!
- Não, agora não me acalmarei. Por cinco anos você foi para a Zona e eu nada disse. Esperando que a qualquer momento te capturassem. Fiquei calada enquanto você estava na cadeia. Você me ouviu dizer uma palavra, hein? Dois anos sem um centavo nesta casa, e eu em silêncio. A pulseira, lembrança de minha mãe, você roubou e foi jogar no hipódromo, não pense que não sei o que aconteceu com ela!
- Vai se calar ou não?
- Me ouve! Eu imploro! Eu nunca pedi nada. Se você quiser, eu fico de joelhos ... Espera, espere um minuto... Eu vou e volto logo.
Sai do banheiro e voltou com um envelope nas mãos.
- Olha, aqui está o dinheiro. Você quer? Toma, vá com os amigos para as corridas... talvez você
esteja com sorte...
- O que é isso? Você está louca? Guardamos esse dinheiro para o médico...
- Não importa, você vai receber mais. Pedirei emprestado... Mas não vá para lá...
- Acalme-se de uma vez! Pode ficar calada? Não vai pedir emprestado pra ninguém, ninguém vai dar mais... Olhe para você! Não podemos viver assim!
- Mas você me prometeu! Você me deu sua palavra...
- Eu fui um idiota, por isso eu te prometi. Você também é culpada! Você mesma me levou a este ponto! Você quer que eu, um Stalker, peça esmolas? Que viva do seu dinheiro? Basta. Melhor não me perturbar.
- Mas se te prometeram trabalho! Você me disse que sim. Que você estava indo trabalhar em um táxi.
- Aghh, de novo esta história do táxi? Quantas vezes eu tenho que dizer que não vou trabalhar para eles! Nunca trabalhei para ninguém! Eles que trabalhem para mim! Deixe-me ir!
- Não!
- Eu parei de ir para a Zona e o que mudou? O bebê ficou curado? Temos mais dinheiro?
- E se você não voltar, o que será de nós?
- Não seja uma ave de mau agouro! E se eu não voltar, merecerei o que receber!
Ele a empurra.
- Está bem, sai daqui! Oxalá apodreça por lá! Maldito seja o dia que eu te conheci! Verme!
Amaldiçoei Deus por ter me dado esta criança! É tudo culpa sua, Canalha! Ladrão! Ladrão! Ladrão!
A menina começa a chorar. Ele sai para o corredor, batendo a porta.
Uma lâmpada pendurada no bocal ilumina a beirada da janela. Lá embaixo, no pátio, um homem bem vestido cambaleia, sem chapéu, com seu casaco manchado. Olhando de perto se vê que está mais bêbado que um gambá.


O Bar

O Stalker atravessa a rua escura e lamacenta devido a neve.
Entra no bar aberto dia e noite. Não há quase ninguém e o taberneiro cochila atrás do balcão. Sentado em uma mesa tomando café está o cientista. Ao ver o Stalker ele consulta o relógio, e este faz um gesto com a mão.
- Espere, eu vou tomar um café.
Pega uma xícara de café no balcão e senta-se na frente do cientista e bebe alguns goles.
O cientista olha para ele.
- Bem, não fique muito esperançoso - diz o Stalker. - Você pode retornar de mãos vazias. Isso depende do tempo... Então, não fique feliz por antecedência. Não se esqueceu da lanterna?
- Não, ela está no carro.
Deixam o bar e entram no carro estacionado nas proximidades.
O Stalker ao volante. O carro arranca.


Na Casa do Escritor

Todas as janelas estão iluminadas. Há música, vozes e risos embriagados de mulheres.
No portão estão o Escritor e uma convidada. O Escritor está vestindo um longo casaco preto e
um cachecol de malha. A convidada está na frente dele com uma garrafa e um copo às mãos.
- Querida! O mundo é um absurdo - enfatiza o Escritor acenando e agitando um dedo. Mais chato do que uma ostra... Sendo assim, não pode haver telepatia ou fantasmas, ou discos voadores. Nada disso...
- Sim, mas a nota de Campbell ... diz a convidada.
- Campbell é um romântico. Avis Rara in Terris, como não há nenhuma outra. O mundo é governado por leis implacáveis e não poderia ser mais chato... Você nunca percebeu que só é interessante quando elas são violadas? E não existem discos voadores de nenhuma espécie: o que seria muito interessante...
- Mas e o Triângulo das Bermudas Não vai dizer que...
- Sim. Eu vou. Não há Triângulo das Bermudas. Há um triângulo ABC onde a, b e c são as medidas dos lados do triângulo... Não acha isso tedioso? Na Idade Média era interessante. Havia bruxas, fantasmas, gnomos... Cada casa tinha o seu fantasma, em cada igreja havia um Deus... O mundo era novo, entende? Mas agora, de cada quatro pessoas uma é velha. Que tédio, meu anjo. Oh, que chatice!
- Mas você não vai dizer que a Zona... é criação de uma supercivilização que...
- Mas e se a área não tem nada a ver com qualquer supercivilização? Simplesmente tenha se manifestado por outra lei safada e chata que não conhecíamos antes... E mesmo que uma... supercivilização existisse, também provavelmente seria chata... Também teria suas leis, seus triângulos e não teria duendes, nenhum Deus...
Som de automóvel. E escritor se vira.
- Estão vindo me buscar. Adeus minha querida amiga.
Arranca a garrafa da convidada e se encaminha para o carro.
Iluminado pelos faróis junto a porta do motorista, aparece a cara risonha e molhada e que por um instante parece perplexa.
- Perdão... diz o Escritor. Creio que estão me procurando.
- Sim estamos, diz o Stalker. Sente-se no banco de trás.
- Ah, você está aqui... muito prazer. Mas quem é este outro sujeito? Achei que eu estava de óculos...
- Rápido!
O carro arranca.
O Escritor cai ao banco traseiro.
- Eu digo - pronuncia gaguejando - Eu tenho uma pequena surpresa: Onde deixei os óculos?
O cientista aperta os lábios.
- Óculos, pode dizer o que quiser, mas são um sintoma de intelectualidade! Pontifica o Escritor.
O Stalker fala sobre seu ombro:
- Está bêbado?
- Eu? De que maneira... De jeito nenhum. Não muitos copos. Tomei alguns copos, sim. Antes de ir pescar. Porque agora nós vamos pescar. Não?


O Posto de segurança

O carro pára em uma caminho de terra secundário. Ao redor se vê um matagal confuso.
O Stalker sai do carro calmamente e vai para o final da estrada, onde se vê o asfalto reluzente e molhado. O Cientista também vai sai do carro e caminha ao seu lado.
- Para que trouxe este intelectual? Pergunta o Cientista.
- Não importa, responde o Stalker. Ele ficará bem. Eu prometo. E depois de dar uma pausa, acrescenta - Por outro lado, o dinheiro dele não é pior do que o seu...
O Cientista o observa rapidamente, mas não abriu mais a boca.
Eles param em uma encruzilhada e do mato avistam o posto de segurança que está na estrada, cerca de cem metros à frente.
Na casa não há luz na janela. Em seguida, o brilho pálido de um refletor poderoso, duas motocicletas com sidecar e um carro patrulha blindado estacionados.
À direita e à esquerda da estrada, muros cobertos por arame e torres armadas com
metralhadoras. A portas da Zona estão abertas.
- A patrulha, diz o Stalker.
- Estão todos dormindo. Completa o Cientista. - Temos de acelerar e atravessar com toda velocidade...Eles não terão tempo nem mesmo para piscar.
- Você é um estrategista. Diz o Stalker.
Sobre o posto de guarda desce lentamente um nevoeiro cinza. Em poucos minutos o nevoeiro engoliu a construção, a porta da garagem e muro. Na névoa cinza vê-se uma mancha pálida de luz.
- Assim é melhor. Diz o Stalker.
Retornam rapidamente ao carro. O Escritor, que dormia no banco de trás, acorda.
- Hã? Pronuncia com uma voz tonitruante. - Chegamos?
O Stalker se vira e, segurando seu rosto com seus cinco dedos, empurra-o com força.
O Escritor atordoado, abre os olhos arregalados e diz num sussurro:
- Ok... entendido... vou ficar calado.
O carro começa a rolar, lentamente, saindo do mato para a estrada, vira e lentamente, muito lentamente, corresponde avança em direção aos sinais de luz que limitam a velocidade, passa frente ao posto de segurança. Ao entrar no raio de luz do farolete das viaturas, iluminando o nevoeiro, vê-se na nas laterais negras uma inscrição em três idiomas:

INSTITUTO DAS NAÇÕES UNIDAS DE CULTURAS EXTRATERRESTRES.

Inesperadamente ouvem uma rajada de metralhadora.
Luzes violáceas do posto se acendem em meio ao nevoeiro.
Agora o carro corre a toda velocidade pela estrada molhada.
O Stalker, com uma ponta de cigarro no canto da boca, lida com o volante.
O clarão das luzes brilham nos óculos de seu vizinho à direita.
O escritor, inclina-se a frente, agarrando com as duas mãos o encosto do banco da frente e fica olhando para a estrada. As coisas se acalmam.
O Stalker diminui e com as luzes apagadas o carro desliza com cautela para fora da estrada, sai pelo caminho, deixando-se fundir com alguns arbustos. Depois que o motor para, ele fala na escuridão:
- Rápido. Sigam-me de perto. Não levantem a cabeça, a mochila deve ser levada à esquerda. Não tenham medo, eles não nos vêem. Se tocar em algo, não gritem nem corram. Se eles nos pegam, nos matarão. Precisaremos nos afastar da estrada. Pela manhã irão nos procurar. Está claro?
- Eu tomaria um trago, disse baixo o Escritor.
- Calma seu beberrão. Vamos!


Antes da partida

Um túnel escuro sem iluminação. Brilham à luz dançante da lanterna elétrica.
Todos os três estão na beira de um vagonete de manutenção. Uma faísca azul por um momento ilumina com estrondo a abóbada úmida. Passam por uma lâmpada que mal ilumina.
- Que ótimo, diz o Escritor. Está mais escuro do que a boca de um lobo. Não vejo nada. É verdade que você é um Professor?
- Sim.
- Meu nome é... começa o Escritor a dizer, mas é interrompido pelo Stalker.
- Você se chama Escritor.
- Hum... diz o Cientista. Se for assim como eu devo me chamar?
- Você é o Professor, responde o Stalker.
- Eles me chamam de Professor, bem, e eu sou um Professor.
- Encantado, diz o Escritor. Bem, eu sou um Escritor e eu, naturalmente, todo mundo me chama, não sei porquê, de Escritor. Você pode imaginar como é chato?
- Você é um escritor famoso?
- Não.
- E o que você escreve?
- Como posso dizer... Principalmente sobre gente. Eles não querem ler outra coisa.
- Acho que tem razão. Provavelmente não vale a pena escrever sobre mais nada.
- Não é verdade. Em geral não vale a pena escrever sobre nada. E você é um químico?
- Mais um físico.
- Também deve ser muito chato, não?
- Acho que sim. Sobretudo quando não se tem muita sorte.

O túnel fica para trás.
Na escuridão do amanhecer, iluminado pelas faíscas, o carrinho elétrico rola ao longo do aterro.
- Bem, para mim, é o oposto, diz o escritor. Me aborrece quando a sorte está comigo há muito tempo...
- E quem a sorte acompanha por muito tempo? Pergunta o Stalker. - Se você perde tudo um dia nas corridas.
- Caro olho de lince, diz o escritor. - O Professor e eu estávamos conversando sobre outras corridas bem diferentes. Nós a cavalgamos toda a vida, e não chamamos de obstáculos, mas os reflexos da realidade objetiva, ou falando na linguagem de leigos, na busca da verdade. Ela se esconde, e nós a procuramos. Encontramos a armadilha, nós divertimo-nos e seguimos em frente. Não é verdade, Professor?
- Minha verdade, em qualquer caso, não se esconde, diz o Professor. Deus é astuto, mas não mal-intencionado.
- O Diabo, corrige o Escritor.
- Einstein dizia "Deus", e se referia à natureza.
- Mas os maniqueístas dizem "o Diabo" e se refere ao Diabo. Pois bem, o Diabo, pode não ser mal-intencionado: esconde a verdade de nós desde o início, e jamais a encontramos.Vocês saem cavando em um lugar ou noutro. Cavam e, ah, o núcleo é composto de prótons. Cavam um pouco mais e que beleza! O triângulo ABC. Não foi tão mal. O meu diabo é diferente. Ele está de braços cruzados. Busco a verdade, mas enquanto isso ele não faz nada com ela. E quando consigo extrair a verdade, temos uma bagunça. Tomemos por exemplo o princípio de Arquimedes... Desde o começo era verdade, continua a ser assim hoje e sempre. Qualquer um pode ver. Mas basta achar qualquer vaso do século oitavo... sim, no século VIII, que agora estão num Museu despertando a admiração pela simplicidade do desenho e da forma, e todos ao redor abrem um palmo de boca, até que se diz que não são do século oito, que que foram feitos por Gur, que o meteu no meio das escavações para causar impacto. Sua forma continua sem igual e o desenho simples, mas a admiração desaparece.
- Espere. Você não tem razão, diz o Professor - Você está falando dos profanadores e dos esnobes.
-Nada disso. Falo dos vasos, diz o Escritor, eu mesmo levo vinte anos modelando e como sou um escritor bastante conhecido, me admiram os críticos pelo meu desenho lacônico e pela forma sem igual. Mas dentro de dez anos pode aparecer um moleque que irá gritar que o rei está morto. E dentro de cem anos, quem sabe, aparecerá outro e começará a gritar: Eureca! Referindo-se as minhas obras. Casos assim já ocorreram.
-Meus Deus, exclama o Professor, você pensa nisso mesmo?
- Foi a primeira vez na vida. Em geral penso pouco. A mim isso me prejudica.
- Quero dizer que não é possível, seguramente, escrever uma historia e pensar como se irá ler a mesma em cem anos.
- Claro que não. Mas por outro lado, se não vão ler, para que eu escreveria?
- E o dinheiro? intercede maldoso o Stalker. - Não pensa nisso? Eu penso em mulheres, corridas, são tudo em que penso. A pura verdade! Vale mais perguntar o quanto lhe pagam por linha escrita.
Silêncio e depois o Professor diz em voz baixa.
- Se é tão simples assim, por que veio a Zona conosco?
- Silencio! ordenou o Stalker.

A velocidade do vagonete diminuiu.
À frente, emergindo da escuridão, se aproximam das ruínas do edifício da estação.
- Chegamos. O Stalker salta sobre os dormentes - Vamos fazer uma pausa.
- Que bom! Diz o Escritor se endireitando. Bem, pelo menos podemos tomar um trago?

Sobre um jornal estendido sobre a plataforma do vagonete, colocam a garrafa térmica de café, uma garrafa de licor e alguns pacotes abertos de comida.
Os três mastigam com vontade, bebendo dos copos descartáveis.
Já está totalmente claro, mas as névoa não se dissipam de tão densas, não leitosas mas quase verdes.
- Para mim vocês dois não passam de principiantes, diz o Stalker. Nunca os vi na Zona e não espero nada bom de vocês. Podem ter me contratado e vou me esforçar para mantê-los vivos o maior tempo possível, portanto, não se ofendam. Não há tempo para gentilezas. Vou castigá-los com o que estiver à mão se não fizeram as coisas direito...
- Por favor, não no meu braço esquerdo, disse o Escritor.
- Por quê?
- Eu o fraturei quando jovem. Eu tenho cuidado com ele.
- Ah... o Stalker sorriu malicioso. Eu pensei que você era canhoto e escrevia com a esquerda. Bem, então te acertarei na cabeça.
- Você está sendo muito severo conosco, disse o escritor esticando a mão para alcançar a garrafa.
O Stalker pega a garrafa, enrosca a tampa com força e a guarda no bolsos do casaco.
O Escritor cantarola enquanto se serve de café.
- Que silêncio, diz o Professor fumando pensativo, encostado com as costas na lateral do vagonete.
-Aqui é sempre silencioso, diz o Stalker. As metralhadoras ficam longe, cerca de quinze quilômetros e não há na Zona nada que faça barulho.
- É possível que estejam a quinze quilômetros? Diz surpreso o Professor. - Eu não tinha idéia de que poderiamos ter penetrado tanto...
- Podemos. Penetramos. Já, já a névoa vai se dissipar e verás como.
De repente eles ouvem um ruído longo e chilreante em meio à névoa.
Todos tremem, até o Stalker.
- O que é isso? Pergunta o Escritor que ficou pálido.
O Stalker balança a cabeça em silêncio.
- E se, apesar de tudo, for verdade que eles vivem aqui...? Pergunta o Professor.
- Quem? Pergunta desdenhosamente o Stalker.
- Eu não sei ... Mas há uma lenda que diz que algumas pessoas ficaram na Zona...
- Isso não é boato e não é lenda, interrompeu o Stalker. Aqui não existe e não pode haver ninguém. É a Zona, entende? A Zona!
Enquanto conversam o Escritor vira a cabeça olhando de um lado para o outro. Está ainda pálido, mas gradualmente se acalma.
- E claro, eu entendo, ele diz que a Zona é a Zona e não uma festa, ou uma bebedeira ou um banquete...mas em todo caso, trouxe algo comigo...
- O que você trouxe? Os olhos do Stalker estão fixos sobre o escritor.
- O que você trouxe espantalho?
O Escritor dá um tapinha no bolso traseiro.
- Me dá! diz o Stalker estendendo a mão.
- Por quê?
- Me dá, já disse!
O Escritor hesita. A expressão de superioridade desaparece em seu rosto.
- Na Zona não se pode atirar, imbecil, diz o Stalker. - Me dê sua arma.
- Não dou, diz com determinação o Escritor, mas acrescenta imediatamente, baixando-o. - Eu preciso dela, entende?
- Eu entendo, diz o Stalker com a voz inesperadamente suave. - Mas não vai precisar dela. Se te pegarem, nem Deus vai poder te salvar. Mas se você estiver em perigo, eu te salvarei. Morto, não, morto vou deixá-lo aqui. Mas se estiver vivo eu te salvarei. Prometo. Não peguei seu dinheiro para nada. Me dá.
O Escritor puxa do bolso de trás uma pequena Browning para uso feminino.
- Não tem mais do que uma bala... na câmara, balbucia
- Entendi...
O Stalker faz saltar o cartucho e atira a arma de maneira desdenhosa entre os dormentes.
- Na Zona não se pode atirar, diz como se ensinando-o. Na Zona às vezes é perigoso atirar até mesmo uma pedra. E você? pergunta virando-se ao Professor.
Ele passa dois dedos ao bolso do casaco.
- Para um caso desses, eu trouxe uma pílula , diz sério.
- O quê, o quê?
- Uma pílula. Veneno.
O Stalker está pasmo.
- Vamos, vamos meninos...Será que vieram até aqui para morrer? Bem, não querem aproveitar para alíviar-se? Pergunta o Stalker saltando os dormentes. - Mais tarde pode ser que não tenham tempo para isso, ou não tenham onde fazer...
Ele se afasta da vagonete e desaparece no nevoeiro.
- Bem, ele está certo, por que você está aqui? Um escritor famoso, com uma casa maravilhosa... mulheres, seguramente está muito bem de vida.
O Professor olha para o Escritor, levantando as sobrancelhas.
- Isso você não pode compreender, Professor, responde o escritor distraidamente atirando para o ar e pegando com a mão o copo descartável. - Há um conceito que é chamado de inspiração. Vou pedir por ela.
- Como é? Significa que perdeu a veia literária? O Professor pergunta baixinho.
- O quê? Ah, sim, o fato é que eu nunca tive. Bem, isso não interessa. E você?
O Professor não tem tempo para responder.
O Stalker reaparece.
- Vamos partir em breve. Preparem-se.


FIM DA PRIMEIRA PARTE