Mostrando postagens com marcador Cory Doctorow. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cory Doctorow. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

CONTENT - Selected Essays on Technology, Creativity, Copyright and the Future of the Future - Cory Doctorow








Cory Doctorow nos brinda com sua primeira coletânea de ensaios. O assunto central não poderia ser outro senão aquele em que Cory é conhecido por sua atitude e coerência, o futuro dos direitos autorais, assunto que faz muito editor correr para debaixo da mesa.

Com inteligência e pensamento afiado, além da habitual ousadia, Cory nos ilumina com sua conversa franca e sem rodeios.


Content
1. Introduction by John Perry Barlow
2. Microsoft Research DRM Talk
1. DRM systems don't work
2. DRM systems are bad for society 
3. DRM systems are bad for biz 
4. DRM systems are bad for artists 
5. DRM is a bad businessmove for MSFT 
3. The DRM Sausage Factory 
4. Happy Meal Toys versus Copyright: How America chose Hollywood and Wal-Mart, and why it's doomed us, and how we might survive anyway 
5. Why Is Hollywood Making A Sequel To The Napster Wars?
6. You DO Like Reading Off a Computer Screen 
7. How Do You Protect Artists?
8. It's the Information Economy, Stupid
9. Downloads Give Amazon Jungle Fever 
10. What's the Most Important Right Creators Have?
11. Giving it Away
12. Science Fiction is the Only Literature People Care Enough About to Steal on the Internet 
13. How Copyright Broke
14. In Praise of Fanfic 
15. Metacrap: Putting the torch to seven straw-men of the metautopia 
1. Introduction 
2. The problems
2.1 People lie 
2.2 People are lazy
2.3 People are stupid 
2.4 Mission: Impossible - know thyself 
2.5 Schemas aren't neutral 
2.6 Metrics influence results 
2.7 There's more than one way to describe something 
3. Reliable metadata 
16. Amish for QWERTY 
17. Ebooks: Neither E, Nor Books 
18. Free(konomic) E-books 
19. The Progressive Apocalypse and Other Futurismic Delights 
20. When the Singularity is More Than a Literary Device: An Interview with Futurist-Inventor Ray Kurzweil 
21. Wikipedia: a genuine Hitchhikers'Guide to the Galaxy -- minus the editors 
22. Warhol is Turning in His Grave 
23. The Future of Ignoring Things 
24. Facebook's Faceplant 
25. The Future of Internet Immune Systems 
26. All Complex Ecosystems Have Parasites 
27. READ CAREFULLY 
28. World of Democracycraft
29. Snitchtown 
30. Hope you enjoyed it! The actual,physical object that corresponds to this book is superbly designed, portable, and makes a great gift:
31. About the Author 
Metadata 





CONTENT - Selected Essays on Technology, Creativity, Copyright and the Future of the Future - Cory Doctorow [ Download ]

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O Fundo do Poço no Reino Encantado - Cory Doctorow




O escritor de ficção científica canadense Cory Doctorow, é figurinha carimbada aqui no Capacitor Fantástico.  Ele é autor, entre outros livros, do premiado 'Little Brother', que você encontra aqui, traduzido para o português com o nome 'Pequeno Irmão'.
 
Em seu site Craphound, Doctorow disponibiliza sob a licença da Creative Commons, todos seus livros gratuitamente, além de ser um incentivador de intervenções e traduções de sua obra para outros idiomas.

Lá você pode achar, por exemplo, 'Down and Out in the Magic Kingdom' traduzido para o português (excelente tradução de José Rafael de Macedo Zulio), com o singelo nome de 'O Fundo do Poço no Reino Encantado'.  Se preferir baixe a versão em formato PDF.

sábado, 27 de março de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow



Chegamos ao fim de uma experiência nova e gratificante para nós, e gostaríamos de agradecer as pessoas que tornaram possível que ela ocorresse.

Queremos agradecer principalmente ao autor, Cory Doctorow.

O Capacitor Fantástico agradece também ao Will, CHeta e Blek, este último em especial, que teve a ideia e bancou tudo sozinho, por acreditar nas ideias disseminadas por Cory e por outras pessoas, e que foi tão prestativo. Obrigado camaradas !

Little Brother (Pequeno Irmão) está disponível na integra, em português, para ser lido. Se você gostou, recomende a leitura aos seus amigos!

Esperamos que em breve, possamos ter livros semelhantes, disponíveis para todos, na rede ou nas prateleiras.

Pequeno Irmão - Cory Doctorow [ Download ]

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Epílogo


EPÍLOGO
Este capítulo é dedicado à Hudson Booksellers; eles estão praticamente em todos os aeroportos dos EUA. A maioria dos stands da Hudson tem poucos títulos (apesar da diversidade surpreendente),  mas os maiores, como o do terminal AA do aeroporto O’Hare de Chicago, é tão bom quanto qualquer loja da vizinhança. Eles dão um toque pessoal a um aeroporto, e a de Hudson já me salvou mais de uma vez durante escalas.
Hudson Booksellers



Barbara me ligou no escritório no final de semana de 4 de Julho. Eu não era o único que ia ao trabalho no feriado de final de semana, mas eu era o único que tinha a desculpa de que minha condicional não me deixava sair da cidade.

Por fim, fui condenado por roubar o telefone de Masha. Acredita nisso? A acusação fizera um acordo com minha advogada onde esqueceriam todas as acusações de “terrorismo eletrônico” e “incitação a desordem” em troca de me declarar culpado por um crime menor. Peguei três meses de liberdade condicional de meio período numa casa para jovens defensores na Missão. Eu dormia neste lugar, dividindo o dormitório com um bando de criminosos, garotos de gangues e metidos com drogas, um bando de maluco. Durante o dia eu estava “livre” para sair para “trabalhar”.

“Marcus, eles vão deixá-la sair.” ela disse.
“Quem?”
“Jonhstone, Carrie Johnstone”. ela disse. “O tribunal militar privado a isentou de qualquer delito. Os arquivos estão encerrados. Ela irá voltar a atividade. Vão mandá-la para o Iraque.”

Carrie Jonhstone era o nome da mulher com o corte de cabelo militar.  Seu nome surgiu nas audições preliminares na corte superior da Califórnia, mas só isso. Ela não disse uma palavra sobre quem de quem recebia ordens, sobre o que ela fizera, quem tinha sido preso e por quê. Ela apenas se sentou em total silencio, dia após dia, na corte de justiça.

Enquanto isso, os federais tinham feito bastante alarde sobre a decisão “ilegal e unilateral” do Governador ao fechar a prisão de Treasure Island, e da decisão do prefeito de retirar os policiais federais de São Francisco. Um monte destes policiais terminaram na prisão do estado, assim como os guardas da prisão da Baía.

E então um dia, não houve nenhuma declaração por parte da Casa Branca, nada do Congresso. E no dia seguinte, uma tensa e seca conferência de imprensa ocorreu aos degraus da mansão do Governador, onde a liderança do DHS e o governador anunciaram um “entendimento”.

O DHS iria conduzir um tribunal militar fechado para investigar “possíveis erros de julgamento” comitidos após o ataque da ponte da Baía.

O tribunal se encarregaria de utilizar todas as ferramentas possíveis para garantir que os atos criminosos seriam corretamente punidos. Em recompensa, o controle sobre as operações do DHS na Califórnia ficariam a cargo do Senado, que teria o poder de concluir, inspecionar ou repriorizar a segurança interna do Estado.

O alvoroço dos repórteres foi ensurdecedor e Barbara teve direito a fazer a primeira pergunta.

“Senhor Governador, com todo respeito, temos uma evidência incontestável gravada em vídeo de que Marcus Yallow, um cidadão deste país, nascido aqui, foi sujeito a uma execução simulada por parte dos oficiais da DHS, aparentemente agindo sob ordens da Casa Branca. O Estado realmente concordou em abandonar qualquer pretensão de justiça para seus cidadãos em face à ilegal e bárbara tortura imposta?”
A voz dela tremia mas não vacilava.

O Governador estendeu as mãos.

“Os tribunais militares se encarregarão da justiça. Se o senhor Yallow... ou qualquer pessoa que tiver um motivo de culpar o DHS... quiser justiça, além disso, é claro que poderá entrar com um processo por tais danos por conta própria contra o governo federal.”

Era isso que eu estava fazendo. Mais de vinte mil processos civis estavam arquivados contra o DHS na semana após a declaração do Governador. O meu processo estava tramitando pela ACLU e foi registrada moção, terminando nos tribunais militares exclusivos. Até aqui as cortes tinham sido bastante simpáticas.
Mas eu não tinha esperança.

“Ela saiu totalmente livre de qualquer pagamento ou castigo?”
“A declaração para a imprensa não disse muito.”
“Após um exame dos eventos ocorridos em São Francisco e em especial ao centro de detenções anti-terrorismo de Treasure Island, este tribunal chegou ao veredicto que as ações de Senhorita Jonhstone não justificam ações disciplinares posteriores. Esta palavra “posteriores” é como se eles já a tivessem punido.”

Bufei. Eu sonhara com Carrie Jonhstone quase que cada noite desde que fui libertado da prisão da Baia. Eu via sua face sobre a minha, com aquele sorrisinho enquanto dizia ao homem para me dar o que beber.

“Marcus...” Barbara disse, mas eu a interrompi.

“Tudo bem, tudo bem. Vou fazer um vídeo sobre isso. Deve ficar pronto neste fim de semana. Segunda feira é um ótimo dia para um vídeo viral. Todo mundo estará voltando do feriado, procurando alguma coisa com que se distrair na escola ou no trabalho.”

Eu via um psiquiatra duas vezes por semana como parte do meu acordo de custódia parcial.  Uma vez que meu acordo estabelecia a consulta como forma de punição, então tinha que servir para alguma coisa. Ele me ajudava a focar em fazer coisas construtivas quando estava bravo ao invés de deixar a coisa me devorar por dentro. Os vídeos ajudariam.

“Tenho que ir.” eu disse, engolindo forte para manter a emoção sob controle.
“Cuide-se, Marcus.” disse Barbara.

Ange me abraçou pelas costas assim que larguei o telefone.

“Eu tinha lido sobre isso online.” ela disse. Ela lia um milhão de feeds de notícias, puxando-as por um leitor de manchetes. Ela era nossa blogueira oficial e era boa nisso, separando as notícias interessantes e descarregando-as online como um ajudante de cozinha distribuindo pedidos de café da manha.

Virei-me em seus braços para abraçá-la de frente. Verdade seja dita, não tínhamos muito trabalho para fazer naquele dia. Eu não tinha permissão de sair à noite e ela não podia me visitar lá. Nos víamos no escritório, mas geralmente havia um monte de gente por perto, cortando nossos carinhos. Ficar sozinhos no escritório o dia todo era tentador demais. Eu estava com calor também, o que significava que estávamos ambos de camisetas e shorts, muito contato de pele acontecia, já que trabalhávamos um ao lado do outro.

“Vou fazer um vídeo.” eu disse. “Quero liberá-lo postar ainda hoje.’
“Bom. Vamos fazer, então.” ela disse.
Ange lia o realese da imprensa. Fiz um monologo sincronizado com a famosa filmagem minha na mesa de tortura, olhando para a luz da câmera como um louco, as lágrimas escorrendo, o cabelo despenteado e cheio de vômito.

“Este cara sou eu. Estou numa tábua de tortura. Estou sendo torturado numa simulação de execução. A tortura está sendo supervisionada por uma mulher chamada Carrie Johnstone. Ela trabalha para o governo. Vocês devem lembrar dela deste vídeo.”
Cortei para o vídeo de Johnstone e Kurt Rooney.
“Aqui está Johnstone e o secretário de estado Kurt Rooney, presidente em chefe estrategista: ‘A nação não ama aquela cidade. Não como pensam, é uma Sodoma e Gomorra de bichas e ateus que merecem apodrecer no inferno. A única razão do país se preocupar com o que pensam em São Francisco é que eles tiveram a sorte de serem mandados para o inferno por alguns terroristas islâmicos.’
“Ele está falando da cidade onde eu vivo. Na última contagem ,4.215 vizinhos meus foram mortos no dia que ele está se referindo. Mas alguns deles não estavam mortos. Alguns desapareceram na mesma prisão onde fui torturado. Mães e pais, crianças e amantes, irmãos e irmãs que jamais encontraram seus entes queridos novamente.... porque estavam secretamente aprisionados em uma cadeia ilegal aqui mesmo na Baía de  São Francisco. Foram mandados para fora do país. Os registros são meticulosos, mas só Carrie Johnstone tem as chaves de criptografia.”
Cortei de volta para Carrie Johnstone, o filme dela sentando-se na mesa com Rooney, rindo.
Cortei para o filme de Johnstone sendo presa.
“Quando a prenderam eu pensei que nós tínhamos justiça. Para todas as pessoas que ela feriu e fez desaparecer. Mas o presidente...”
Cortei para o Presidente rindo e jogando golfe em um dos muitos dias de descanso seus.
“...e seu chefe estrategista...”
Agora uma foto de Rooney apertando a mão de um infame terrorista que costumava estar “do nosso lado”
“...decidiram intervir. Eles a mandaram para um tribunal secreto militar e agora aquele tribunal a absolveu. De alguma forma, eles não viram nada de errado nisso tudo.”
Editei uma fotomontagem com centenas de fotos de prisioneiros em suas celas e que Barbara havia publicado no site do Bay Guardian no dia em que fui libertado.
“Nós elegemos estas pessoas. Nós pagamos seus salários. Supostamente deveriam estar do nosso lado. Supostamente deveriam defender a nossa liberdade. Mas estas pessoas...”
Uma série de fotos de Johnstone e outros sendo levados para o tribunal
"...traíram nossa confiança. Estamos a quatro meses das eleições. É tempo bastante. O bastante para vocês saírem e encontrarem cinco vizinhos…cinco pessoas que tenham desistido de votar por suas escolhas não serem ‘nenhuma dos nomes acima nenhuma das alternativas acima’.”
“Converse com eles. Faça com que prometam que irão votar. Faça com que prometam que irão tirar nosso país das mãos de torturadores e criminosos. As pessoas que riram de nossos amigos enquanto eles ainda mal acabavam de repousar no fundo da baía. Faça-os prometer falar que também irão com seus vizinhos.”
“A maioria de nós escolhe “nenhum dos acima nenhuma das alternativas acima’. Isso não funciona. Temos que escolher... escolher a liberdade.”

“Meu nome é Marcus Yallow. Eu fui torturado em meu país, mas ainda o amo. Tenho dezessete anos. Quero crescer num país livre. Quero viver em um país livre.”
Fiz a imagem desaparecer lentamente mostrando o logo do web site. Ange tinha feito com ajuda de Jolu, que tinha nos arranjado hospedagem na internet de graça, toda que precisássemos, no Porco Melancólico.

O escritório era um lugar interessante. Tecnicamente nos chamávamos Coalisão de Eleitores para uma América Livre, mas todos nos chamavam de Xneters. A organização...  sem fins lucrativos... tinha sido co-fundada por Barbara e alguns amigos advogados dela, logo após a libertação da Treasure Island. Os fundos financeiros vieram de alguns milionários da tecnologia que não acreditavam que um bando de garotos tinha ferrado com o DHS. Às vezes, eles nos pediam para ir até a Península até Sand Hill Road, onde estavam todas as empresas capitalistas e fazer uma pequena apresentação sobre a tecnologia Xnet. Haviam um zilhão de iniciativas que tentavam faturar um trocado na Xnet.
Que fosse… Eu não precisava ter nada a ver com isso, e tinha uma mesa e um escritório com fachada, bem na Valencia Street, onde distribuíamos CDs do ParanoidXbox e fazíamos workshops de como se construir antenas de WiFi melhores.

Um número surpreendente de pessoas comuns apareceu com doações, tanto de hardware (você pode rodar PanaoidLinux em quase tudo, não somente no Xbox Universal) e dinheiro. Eles nos amavam.

O grande plano era lançar nosso próprio ARG em Setembro, em tempo apara as eleições e conseguir votos e levá-los apara votar. Na ultima eleição apenas 42 por cento dos Americanos votaram... os não-votantes eram maioria. Eu continuava tentando trazer Darryl e Van para um de nossas reuniões de planejamento, mas eles continuavam declinando procurar palavra melhor, mais adequada para um adoelescente. Eles estavam passando muito tempo juntos e Van insistia em dizer que não havia nada de romântico entre eles. Daryl não me falava muito, mas me mandava longos emails sobre tudo que não tivesse ligação com Van ou terrorismo ou prisão.

Ange apertou minha mão.
“Deus, eu odeio esta mulher!” ela disse.
Eu concordei
“Mais uma destas coisas estragadas que este país mandou para o Iraque.” eu disse. “Se eles mandassem ela para o meu país, eu provavelmente me tornaria um terrorista.”
“Você se tornou um quando eles a mandaram para sua cidade.”
“É verdade.” Respondi.

“Você vai na audiência de Senhorita Galvez na segunda?”
“Com certeza.”

Eu tinha apresentado Senhorita Galvez para Ange semanas antes, quando minha antiga professora me convidou para jantar. O sindicato dos professores tinha conseguido uma audiência para ela diante do comitê Unificado das escolas do distrito para que pudesse conseguir seu velho emprego de volta. Disseram que Fred Benson seria convocado de sua (precoce) aposentadoria para testemunhar contra ela. Eu queria muito vê-la de novo.

“Quer sair para comprar um burrito?”
“Claro!”
“‘Deixa eu pegar meu molho picante.” ela disse.
Chequei meu email mais uma vez… meu email do PirateParty, que ainda tinha algumas mensagens pingadas de velhos Xneters que ainda não tinham meu endereço da Coalizão de Eleitores.
A última mensagem vinha de um dos novos provedores de anonimato brasileiro.
>Eu a achei. Você não me disse que ela era tão h4wt!
De quem seria?
Comecei a rir. “Zeb.” eu disse. “Lembra de Zeb? Eu dei a ele o email de Masha. Imaginei que já que ambos estavam vivendo as escondidas, poderia apresentar um ao outro.”
“Ele acha Masha bonita?”
“Dê um tempo para o cara, Ele devia estar animado por conta das circunstâncias.”
“E você?”
“Eu?”
“É... a sua mente está animada pelas circunstâncias?”
Segurei Ange pelo braço e olhei para ela de cima a baixo, duas vezes. Olhei fundo nos seus olhos por trás das lentes dos óculos. Corri os dedos por seus cabelos.
“Ange, eu nunca pensei tão claro em minha vida inteira.”
 Ela me beijou e eu a beijei de volta e algum tempo depois saímos para comprar aquele burrito.


FIM.








AGRADECIMENTOS.

Este livro está em débito enorme com vários escritores, amigos, mentores e heróis que o fizeram possível.

Para os hackers e ciberpunks:  Bunnie Huang, Seth Schoen, Ed Felten, Alex Halderman, Gweeds, Natalie Jeremijenko, Emmanuel Goldstein e Aaron Swartz

Para os heróis: Mitch Kapor, John Gilmore, John Perry Barlow, Larry Lessig, Shari Steele, Cindy Cohn, Fred von Lohmann, Jamie Boyle, George Orwell, Abbie Hoffman, Joe Trippi, Bruce Schneier, Ross Dowson, Harry Kopyto e Tim O'Reilly

Para os escritores: Bruce Sterling, Kathe Koja, Scott Westerfeld, Justine Larbalestier, Pat York, Annalee Newitz, Dan Gillmor, Daniel Pinkwater, Kevin Pouslen, Wendy Grossman, Jay Lake e Ben Rosenbaum

Para os amigos: Fiona Romeo, Quinn Norton, Danny O'Brien, Jon Gilbert, danah boyd, Zak Hanna, Emily Hurson, Grad Conn, John Henson, Amanda Foubister, Xeni Jardin, Mark Frauenfelder, David Pescovitz, John Battelle, Karl Levesque, Kate Miles, Neil and Tara-Lee Doctorow, Rael Dornfest e Ken Snider

Para os mentores: Judy Merril, Roz e Gord Doctorow, Harriet Wolff, Jim Kelly, Damon Knight e Scott Edelman

Obrigado a todos por me dar as ferramentas para que eu pudesse pensar e escrever sobre estas idéias.

Creative Commons
Creative Commons Legal Code
Attribution-NonCommercial-ShareAlike 3.0 Unported

Creative Commons may be contacted at http://creativecommons.org/.

Creative Commons License

Little Brother by Cory Doctorow is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-Share Alike 3.0 United States License . 





Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Epílogo [ Download ]

sábado, 20 de março de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 21


CAPÍTULO 21
Este capítulo é dedicado à Pages Books em Toronto, Canadá. Um ponto conhecido de longa data na badalada Queen Street West. Pages está localizada perto da CityTV, a pouca distância da velha Bakka, onde trabalhei. Nós, na Bakka, amávamos ter a Pages ali na rua. O que nós da Bakka representávamos par a Ficção Cientifica, a Pages significava para todo o resto, sempre com produtos que não eram encontrados em nenhuma outra parte, coisas que você não sabia estar procurando até que você as via lá. Pages também tinha uma das melhores bancas de jornal que já vi, várias revistas incríveis e zines de todo o mundo.
Pages Books: 256 Queen St W, Toronto, ON M5V 1Z8 Canada +1 416 598 1447

Eles deixaram a mim e Barbara sozinhos na sala então eu usei um dos chuveiros para me lavar... subitamente fiquei embaraçado por estar coberto de urina e vômito. Barbara chorava.
“Seus pais...” ela começou a dizer.
Senti como se fosse vomitar de novo. Deus, meus pobres pais. O que eles devem ter passado!
“Eles estão aqui?”
“Não. É complicado.” Ela disse.
“O quê?”
“Você ainda está preso, Marcus. Todos aqui estão. Eles não podem simplesmente vir aqui e abrir a porta para que saiam. Todos aqui irão passar pelo sistema criminal de justiça. Isso pode levar, bem, eu diria meses.”
“Vou ter que ficar aqui por meses?”
Ela agarrou minhas mãos.
“Não, eu acho que conseguiremos tirar você daqui bem rápido. Mas rápido é um termo relativo. Não espero que nada aconteça ainda hoje. E não será como estas pessoas que estavam aqui. Vocês serão tratados com humanidade. Vão comer comida de verdade. Nada de interrogatórios. As famílias vão poder visitá-los. Não é pelo DHS estar afastado daqui que significa você poderá simplesmente sair. O que está acontecendo aqui é algo que combatemos, uma versão do sistema de justiça do mundo bizarro que eles instituíram e colocaram no lugar do antigo sistema. Aquele com juízes, tribunais e advogados.  Então nós tentaremos transferi-lo para um centro juvenil no continente, mas Marcus, estes lugares podem ser barra pesada. Realmente barra pesada. Isto aqui pode ser melhor para você até que consigamos libertá-lo de vez.”
Libertá-lo. É  claro, eu era um criminoso... eu ainda não tinha sido acusado mas haviam muitas acusações que eles poderiam escolher para mim. Era praticamente ilegal apenas pensar coisas ruins sobre o governo.
Ela apertou minhas mãos novamente. “Isso é uma droga, mas é como vai ser. O ponto é, acabou. O Governador mandou o DHS deixar o estado, desmantelou todos os postos de controle. O Promotor Geral expediu mandatos de prisão para oficiais envolvidos em interrogatórios e aprisionamentos secretos. Eles vão para a cadeia Marcus e tudo pelo que você fez.”
Eu estava sonado. Ouvia as palavras, mas dificilmente entendia o significado. De alguma forma parecia ter acabado, mas não havia acabado de verdade.
“Olhe, nós provavelmente temos uma hora ou duas antes de tudo se ajeitar, antes de virem e levarem você de novo. O que você quer? Quer caminhar um pouco na praia? Quer comer alguma coisa? Este pessoal tem uma sala incrível para refeições... nós passamos PR ela vindo para cá. Culinária da melhor qualidade.”
Agora sim uma pergunta que eu podia responder. “Quer achar Ange. Quero achar Darryl.”

#

Tentei usar um computador que encontrei para procurar pelos números de suas celas, mas requeria uma senha, então foi necessário que andássemos pelos corredores, chamando seus nomes. Por trás das portas das celas, prisioneiros gritavam respondendo nossos chamados, ou choravam, ou suplicavam que os deixassem ir embora. Eles não entendiam o que havia acontecido, não podiam ver os guardas sendo levados algemados para as docas, vigiados pelas equipes da SWAT da Califórnia.
“Ange!” eu chamei acima do barulho, “Ange Carvelli ! Darryl Glover! É Marcus!”
Caminhamos por toda extensão do bloco de celas e eles não responderam. Achei que ia chorar. Eles podiam ter sido mandados para fora do país... podiam estar na Síria ou pior. Eu nunca os veria de novo.
Sentei-me com as costas contra a parede do corredor com meu rosto entre as mãos. Vi o rosto da mulher de cabelo curto, vi seu sorriso afetado quando me perguntava pela senha. Ela poderia ir para a cadeia por isso, mas não era o bastante. Pensei isso ao vê-la novamente. Eu poderia matá-la. Ela merecia.
“Vamos!” Barbara disse. “Vamos, Marcus, não desanime. Tem mais lugares para procurar, vamos.”
Ela estava certa. Todas as portas por quais passamos naquele bloco eram velhas, enferrujadas e datavam da época da construção. Mas no final do corredor, havia algumas portas de alta segurança grossas como um dicionário. Nos a abrimos e entramos por um corredor escuro.
Havia mais quatro celas, com portas com códigos de barras. Cada uma delas tinha um painel eletrônico junto delas.
“Darryl?” eu gritei. “Ange?”
“Marcus?”
Era Ange, chamando de dentro da cela mais distante. Ange, minha Ange, meu anjo.
“Ange!” gritei. “Sou eu, sou eu!”
“Oh Deus, Marcus!” ela respondeu e então começou a chorar.
Golpeei as outras portas. “Darryl! Darryl, você está aí?”
“Estou aqui.” A voz era baixa e bastante rouca. “Estou aqui. Sinto muito, sinto muito. Por favor, eu sinto muito mesmo.”
Ele parecia arrasado. Partido em pedaços.
“Sou eu, D!” disse encostado contra a porta. “É Marcus, acabou… eles prenderam os guardas. Eles acabaram com a DHS. Vão ser julgados, julgamentos públicos. E iremos testemunhar contra eles.”
“Eu sinto muito. Por favor, sinto muito mesmo.”
 Um patrulheiro da Califórnia chegou na porta. Sua câmera ainda estava ligada. “Senhorita Stratford?” Sua máscara facial estava levantada e parecia com outro policial qualquer, não como meus salvadores. Como qualquer um que viesse me prender.
“Capitão Sanchez.” ela disse. “Localizamos dois prisioneiros que são do meu interesse presos aqui. Gostaria que os soltasse e eu me responsabilizarei pessoalmente.”
“Madame, ainda não temos acesso ao código destas portas.” ele disse.
Ela levantou sua mão.
“Este não foi nosso acordo. Eu teria completo acesso a esta unidade. Este acordo foi feito diretamente com o Governador, senhor. Não iremos a lugar nenhum até que abra estas celas.” Seu rosto era perfeitamente tranqüilo. Ela falava sério.
O Capitão parecia como se precisasse dormir. Ele fez uma careta. “Verei o que posso fazer.” ele disse.

#

Eles finalmente conseguiram abrir as celas, quase meia hora depois. Precisaram de três tentativas, mas eventualmente conseguiram os códigos corretos que batiam com o dos arphids dos distintivos de identificação que foram tirados dos guardas presos.
Entraram primeiro na cela de Ange. Estava vestida com avental hospitalar, aberto nas costas e sua cela era ainda mais desnuda que a minha, apenas o acolchoado, sem pia, sem vaso, cama ou luz. Ela veio para o corredor piscando os olhos e a câmera de polícia a estava filmando, com a luz brilhante em seu rosto. Barbara deu um passo a frente ficando entre nós e a câmera. Ange deu um passo para fora ainda cambaleante um pouco. Havia algo de errado com seus olhos, com seu rosto. Ela chorava, mas não era isso.
“Eles me drogaram. Quando eu não parei de gritar pedindo um advogado.” Ela disse.
Foi quando eu a abracei. Ela se sucumbiu contra mim, mas me abraçou também. Ela fedia e estava suada e eu não cheirava melhor do que ela. Não quis soltá-la. Nunca.
Foi então que eles abriram a cela de Darryl.
Seu avental hospitalar estava reduzido a frangalhos. Ele estava curvado e nu, no fundo da cela, protegendo-se da câmera e de nossos olhares. Corri para ele.
“D!” sussurrei em seu ouvido. “D, sou eu. Marcus. Acabou. Os guardas foram presos. Vão nos libertar, nós vamos para casa.”
Ele tremia e apertava os olhos “Desculpa...” ele sussurrou e virou o rosto.
Eles me afastaram dele, um policial usando armadura e Barbara me levaram de volta à minha cela e fecharam a porta e foi ali que passei a noite.

#

Não me recordo muito da viagem até a corte judicial. Me acorrentaram com outros cinco prisioneiros, todos eles tinham estado presos a muito mais tempo do que eu. Um deles só falava árabe... era velho e trêmulo. Os outros eram todos jovens, eu era o único branco. Depois que fomos reunidos no deque no barco, eu vi que todos ali presos em Treasure Island eram de cor.
Eu tinha estado lá dentro apenas por uma noite, mas durou muito tempo. Uma chuva fina caía e normalmente este era o tipo de coisa que me faria procurar proteção, mas hoje eu me juntei a todos os outros jogando minha cabeça para trás, olhando para o céu infinito e cinzento deleitando-me com aquelas picadas molhadas enquanto atravessávamos a baia em direção as docas.
Eles nos levaram em ônibus. As correntes fizeram com que subir ao ônibus fosse difícil e levou um tempo até que todos se acomodassem. Ninguém se importava. Enquanto dávamos um jeito de resolver o problema geométrico de seis pessoas, uma corrente e um corredor estreito, ficamos olhando a cidade ao nosso redor, para os prédios altos.
Tudo que eu pensava era em encontrar Darryl e Ange, mas nenhum dos dois estava à vista. Era uma multidão e não tínhamos permissão de nos movermos livremente através dela. As tropas estaduais que tratavam conosco eram gentis, mas ainda assim eram enormes, armados e encouraçados. Achei ter visto Darryl na multidão, mas sempre era outra pessoa com a mesma aparência abatida que ele tinha quando o tiraram da cela. Ele não era o único que tinha sido quebrado.
Na corte de justiça nos levaram para salas de entrevistas. Uma advogada da ACLU pegou nossos dados e nos perguntou algumas coisas... quando ela veio falar comigo ela sorriu e me chamou pelo meu nome... e então fomos levados para a frente do juiz. Ele vestia a túnica habitual e parecia estar de bom humor.
O acordo foi que todos que tivessem um familiar que se encarregasse da fiança poderiam sair livres, e os outros seriam mandados para a prisão. A advogada do ACLU falou bastante com o juiz, pedindo mais tempo para localizar os familiares e trazê-los até a corte. O juiz foi simpático quanto a isso, mas quando eu me dei conta que algumas daquelas pessoas estava presa desde a explosão da ponte e que tinham sido dados como mortos pelos familiares, sem um julgamento, e tinham sido submetidos a interrogatórios, isolamento e tortura...eu mesmo quis quebrar aquelas correntes de deixá-los livres.
 Quando fui levado diante do juiz, ele me olhou e tirou seus óculos. Parecia cansado. A advogada parecia cansada. Os funcionários pareciam cansados. Pude ouvir um cochicho atrás de mim quando meu nome foi chamado. O juiz bateu seu martelo.
“Senhor Yallow” ele disse “o processo identificou-o como de risco de evasão. Acho que eles têm razão. Você certamente tem uma, digamos, história diferente a contar, do que as outras pessoas aqui. Estou tentado segurá-lo para o julgamento, não importando o quanto seus pais possam pagar de fiança.”
Minha advogada começou a dizer algo, mas o juiz a fez silenciar-se apenas com uma olhada.
“Você tem algo a dizer?”
“Eu tive a chance de fugir.” eu disse “Na semana passada. Alguém se ofereceu para me levar para fora da cidade, me ajudar a conseguir uma nova identidade. Ao invés disso eu roubei seu telefone, escapei do caminhão e corri. Eu fiz com que seu telefone... que continha evidências sobre meu amigo Darryl Glover nele...chegasse a uma jornalista e me escondi na cidade.”
“Você roubou um telefone?”
“Decidi que não podia fugir. Que tinha que encarar a justiça... que minha liberdade não valeria nada se eu fosse um homem procurado ou se a cidade permanecesse sob o controle da DHS. Se meus amigos continuassem presos. Esta liberdade para mim não era tão importante quanto a liberdade do país.”
“Mas você roubou um telefone.”
Fiz que sim.
“Sim, roubei. Planejava devolver se algum dia encontrasse a jovem dona do telefone.”
“Bem, obrigado, senhor Yallow, pelo seu discurso. Você é um jovem muito comunicativo.”
 Ele olhou para o Promotor.
“Alguns poderiam dizer que também é um jovem muito corajoso. Há um certo vídeo no telejornal desta manhã. Ele sugere que você possui razões legitimas para fugir das autoridades. Em vista disso, e de seu pequeno discurso aqui, eu lhe concederei a fiança, mas também pedirei ao Promotor Publico que acrescente uma acusação de contravenção de menor delito, devido à questão do telefone. Por conta disso, estabeleço mais 50 mil a ser acrescido na sua fiança.”
Ele bateu o martelo novamente e minha advogada apertou minha mão.
O Juiz olhou para mim novamente e ajeitou seus os óculos. Ele tinha caspa nos ombros e um pouco mais caiu quando as hastes dos seus óculos tocaram seu cabelo cacheado.
“Pode ir agora, meu jovem. E fique longe de encrencas.”

#

Me virei para sair quando alguém me agarrou. Era papai. Ele literalmente me levantou do chão, num abraço tão apertado que fez minhas costelas rangerem. Me abraçou de um jeito que me lembrou quando era criança, quando ele brincava de me jogar para o alto e me agarrando e me abraçando tão forte que quase machucava.
Um par de mãos macias me puxou gentilmente de seus braços. Mamãe. Me prendeu nos braços um pouco, sem dizer nada, as lágrimas rolando pelo seu rosto. Sorriu e o sorriso virou choro e então nos abraçávamos e os braços de papai ao nosso redor.
Quando me soltaram, e finalmente consegui dizer algo: “Darryl?”
“Encontrei com o pai dele. Darryl está hospitalizado.”
“Quando poderei vê-lo?”
“É nossa próxima parada.” papai falou. Ele estava zangado. “Darryl não...” Calou-se. “Eles disseram que ele vai ficar bem.” Sua voz sumiu.
“E Ange?”
“A mãe dela a levou para casa. Ela queria esperar por você, mas...”
Eu entendi. Sentia-me cheio de compreensão agora, de como todas as famílias de todos aqueles presos há muito tempo deviam se sentir. A corte de justiça estava repleta de lágrimas e abraços e até os meirinhos não conseguiam contê-los.
“Vamos ver Darryl.” falei. “E me empresta seu telefone?”
Liguei para Ange no caminho do hospital onde estava Darryl... São Francisco General, bem descendo a rua... e combinamos de nos ver depois do jantar. Ela falava sussurrando e rápido. Sua mãe não sabia se a castigava ou não, mas Ange não queria correr riscos.
Havia dois policiais no corredor onde Darryl estava internado. Eles mantinham uma legião de repórteres afastados. Os flashes das suas câmeras estouraram em nossos olhos como estrobos. Meus pais tinham me trazido roupas limpas  e eu havia trocado  de roupa no banco de trás do carro, mas ainda me sentia sujo mesmo depois de me lavar no banheiro da corte de justiça.
Alguns repórteres gritavam meu nome. Tá certo, eu era famoso agora. Um policial me olhou como se reconhecesse meu rosto ou meu nome gritado pelos repórteres.
O pai de Darryl nos encontrou à porta do quarto, falando baixo o bastante para que a imprensa não ouvisse. Estava usando roupas civis, jeans e suéter, roupas que imaginava que ele usava normalmente, mas tinha as insígnias de serviço espetadas no peito.
“Ele está dormindo.” ele disse. “Ele acordou há pouco e começou a chorar. Não conseguia parar. Deram algo para ele dormir.”
Ele nos deixou entrar e lá estava Darryl, seu cabelo limpo e penteado, dormindo de boca aberta. Tinha uma coisa branca nos cantos dos lábios. Seu quarto era semi-privado, e na outra cama havia um cara mais velho com aparência árabe, por volta dos 40 anos. Imaginei que fosse o sujeito a quem estive acorrentado ao sair de Treasure Island. Trocamos uma saudação embaraçada.
Então me voltei para Darryl. Peguei sua mão. Sua unhas estavam mastigadas até carne viva. Ele costumava roer as unhas quando criança, mas tinha se livrado do habito quando entrou para a escola. Acho que Van o fez largar, dizendo-lhe o como parecia grosseiro ter sempre a mão enfiada a boca o tempo todo.
Ouvi meus pais e o pai de Darryl se afastando, fechando a cortina entre nós. Coloquei meu rosto perto do dele no travesseiro. Ele tinha uma barba desigual e rala que me lembrou Zeb.
“Ei, D. Você conseguiu. Você vai ficar legal.” eu disse.
Ele roncou um pouco. Eu quase disse “Eu te amo.” uma frase que só disse para uma pessoa que não era da minha família, e que era estranha demais para ser dita para outro cara. Por fim, apenas apertei sua mão. Pobre Darryl.



Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 21 [ Download ]

sábado, 13 de março de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 20

CAPÍTULO 20
Este capítulo é dedicado à The Tattered Cover, uma legendária livraria de Denver. Eu descobri a The Tattered Cover quase que por acidente. Alice e eu tínhamos acabado de aterrissar em Denver, vindos de Londres; era bem cedo, fazia frio e precisávamos de café. Dirigimos nosso carro alugado em círculos, sem um objetivo, até darmos com a placa da Tattered Cover. Algo se acendeu no meu cérebro… eu sabia já ter ouvido falar daquele lugar. Entramos na loja (e conseguimos o café)  - uma maravilhosa loja de madeira escura,  com vários refúgios confortáveis para leitura e quilômetros e quilômetros de prateleiras.
The Tattered Cover 1628 16th St., Denver, CO USA 80202 +1 303 436 1070


Nenhum dos três caras estava por ali naquele instante, então me afastei. Minha cabeça doía tanto que achei estar sangrando, mas não achei sangue algum. Meu joelho torcido tinha enrijecido durante o tempo no caminhão, de forma que eu corria como uma marionete quebrada, e parei uma vez apenas, para cancelar o comando de deletar da foto no telefone de Masha. Desliguei seu rádio, para conservar a bateria e para evitar que alguém me rastreasse e configurei o tempo de desligamento para, no máximo, duas horas. Tentei configurar para não pedir senha para reativar ma requeria uma senha para isso. Eu teria apenas que dar um toque no teclado a cada duas horas ao menos, até que pudesse descobrir como retirar a foto do telefone. Eu precisaria recarregar também.

Eu não tinha um plano. Eu precisava de um. Precisava sentar e entrar online… para ver o que eu faria depois. Estava cansado de outros fazerem planos para mim. Não queria fazer as coisas por que Masha me mandou, por causa da DHS ou do meu pai. Ou por causa de Ange? Bem, talvez não por Ange. Isso até seria legal.
Descia em direção a casa, seguindo pelas vielas quando podia e quando podia seguia no meio da multidão de Tenderloin. Não tinha um destino na cabeça. De tempos em tempos eu colocava a mão no telefone e apertava uma tecla do telefone de Masha para evitar que entrasse em modo soneca. Fazia um certo volume, aberto no bolso da jaqueta.

Parei e me encostei a um prédio. Meu joelho estava me matando. Onde eu estava?
O’Farrel, na Hyde Street. Em frente ao “Salão de Massagem asiática”. Meus pés traidores tinham me levado de volta ao inicio, me levado de volta ao lugar onde a foto no telefone de Masha tinha sido tirada segundos antes da ponte da Baía explodir, antes da minha vida mudar para sempre.
Queria sentar no chão e chorar, mas isso não resolveria meus problemas. Tinha que ligar para Barbara Stratford, contar para ela o que havia acontecido. Mostrar a foto de Darryl.
O que eu estava pensando? Eu tinha que mostrar o vídeo que Masha me mandara - aquele onde o homem de confiança do presidente defendia ardentemente os ataques a São Francisco e admitia quando e onde os próximos ataques aconteceriam e isso não iria parar por que eles precisavam reeleger aquele homem.
Esse era o plano: Contatar Barbara, dar a ela os documentos para que os publicasse. O Vamp-evento devia ter feito as pessoas enlouquecerem, feito-os pensar que éramos mesmo um bando de terroristas. É claro que quando eu planejei isso eu pensava em como seria bom ter um pouco de distração, não importando como pareceria isso para um NASCAR Dad (pessoa que não se prende politicamente a partidos, mas à defesa de valores sociais /humanos /éticos /comportamentais ) em Nebraska.
Eu ligaria para Barbara, mas faria isso da maneira mais inteligente, de um telefone pago, usando um capuz, de maneira que as câmeras não conseguissem tirar uma foto minha. Pesquei vinte e cinco centavos do bolso e poli a moeda na aba da camisa, apagando qualquer impressão digital nela.

Fui descendo a colina até a estação BART e aos telefones da estação. Um bonde acabara de chegar quando avistei a página principal do semanário Bay Guardian na pilha junto a um negro sem-teto que sorriu para mim “Vá em frente, dê uma olhada na primeira página, é de graça. Mas olhar o jornal todo vai lhe custar 50 centavos.”
A manchete principal com letras grandes que eu não via deste o 11/9.
DENTRO DA PRISÃO DA BAÍA.
Ao lado, em letras menores:
“Como a DHS mantêm nossas crianças e amigos numa prisão secreta bem na nossa cara.”
“Por Barbara Stratford, especial para o Bay Guardian.”
O vendedor de jornais balançou a cabeça: “Pode acreditar nisso?” ele disse. “Bem aqui em São Francisco. Cara, este governo não presta!”
Teoricamente o Guardian era de graça, mas este cara parecia ter se apoderado de todas as cópias para si. Eu tinha vinte e cinco centavos à mão. Joguei na sua caneca e peguei mais uma moeda, sem me importar desta vez em apagar as impressões digitais.
“Nos disseram que o mundo mudou para sempre após o ataque a ponte da Baía. Milhares de amigos e vizinhos nossos morreram naquele dia. Praticamente nenhum corpo foi encontrado e presumidamente descansam no porto da cidade.”
“Mas uma extraordinária história contada a esta repórter por um jovem que foi feito prisioneiro do DHS minutos após a explosão, sugere que nosso governo tem ilegalmente mantido em Treasure Island, muitos daqueles que pensamos estar mortos, um lugar que foi evacuado e declarado fora dos limites para os civis logo após o atentado.”
Sentei-me no banco, o mesmo banco, notei com um arrepio na nuca, onde havíamos colocado Darryl após escapar da estação BART e li o artigo. Me custou muito não me acabar em lágrimas ali mesmo. Barbara tinha usado algumas fotos de Darryl junto comigo e elas estavam distribuídas ao longo do texto. Eram fotos de um ano atrás talvez, mas eu parecia muito mais jovem, como se tivesse uns 10 ou 11 anos. Eu havia envelhecido bastante nos últimos meses.

O artigo tinha sido muito bem escrito. Senti-me abalado por conta daquelas pobres crianças sobre as quais Barbara escrevia, e então me lembrava que ela escrevia sobre mim. O bilhete de Zeb estava lá também, sua letra de difícil leitura tinha sido reproduzida aumentada no jornal. Barbara tinha também acrescentado informações sobre outras crianças que estavam desaparecidas e presumidamente mortas, uma longa lista e perguntava quantas estavam cativas na ilha, apenas a alguns minutos de distancia dos seus pais.
Peguei mais vinte e cinco centavos do bolso e então mudei de idéia. Qual era a chance do telefone de Barbara não estar grampeado? Não tinha como ligar para ela agora, não diretamente. Eu precisava de um intermediário que entrasse em contato com ela e que a levasse para se encontrar comigo em algum lugar. Tanto para planejar.

O que eu realmente precisava era da Xnet.
Como diabos eu conseguiria entrar online? O buscador de WiFi do meu telefone piscava feito louco… havia conexão sem fio disponível à minha volta, mas eu não tinha um Xbox e uma TV, nem um DVD do ParanoidXbox para conectar este WiFi.

Foi então que eu os vi. Dois garotos da minha idade, se destacando da multidão ao topo das escadas da BART. O que me chamou a atenção foi o jeito com que se moviam, meio desajeitados, se batendo contra os usuários e turistas. Cada um deles tinha as mãos nos bolsos e evitava o contato visual. Estavam zoando com certeza, e aquele tipo de gente daquela área era a melhor para isso. Naquela vizinhança, com tantos mendigos e pedintes e loucos, ninguém faz contato visual nem nada.
Fui até um eles, que parecia realmente novo, mas não mais do que eu.
“Hei. Vocês podem vir aqui um instante?”
Ele fingiu não me ouvir. Olhou através de mim, do jeito que fazemos com um mendigo.

“Vamos lá, cara. Não tenho muito tempo.” eu disse agarrando seu ombro e sussurrei em seu ouvido: “A polícia está atrás de mim. Eu sou da Xnet.”
Ele parecia assustado, como se quisesse correr dali e seu amigo veio na nossa direção. “Estou falando sério.” Eu disse. “Me ouve.”
Seu amigo chegou junto, era mais alto e mais massudo… como Darryl.”Ei! Algum problema?”
Seu amigo cochichou em seu ouvido. Estava parecendo que iriam sair correndo.
Peguei meu Bay Guardian debaixo do braço e sacudi na frente deles. “Dê uma olhada na página 5, certo?”
Eles olharam. Olharam a manchete e a foto. E eu.
“Mano!” o primeiro disse. “Nós não merecemos.” Ele riu feito um louco e o mais forte me deu um tapa nas costas. “Não brinca…Você é o M…”
Tapei sua boca. “Cheguem aqui, OK?”
Levei-os até meu banco. Percebi algo marrom e antigo ao lado da calçada sob ele. Seria o sangue de Darryl? Aquilo me arrepiou. Nos sentamos.
“Sou Marcus” disse, acreditando que dando meu nome real eles já soubessem que eu era M1k3y. Eu estava acabando com meu disfarce, mas o Bay Guardian já o tinha feito para mim.
“Nate.” apresentou-se o menor dos dois. “Liam.” disse o maior. “Cara, é uma honra te conhecer. Você é o nosso herói…”
“Não diga isso. Não diga isso. Vocês dois parecem estar carregando um letreiro que diz ‘Somos dois vigaristas, por favor me levem para a prisão da Baía. Não podiam ser mais óbvios.”
Liam me olhou como se fosse chorar.
“Não se preocupe, ninguém pegou vocês. Depois eu dar algumas dicas para vocês.”
Ele voltou a sorrir. O que ficou estranhamente claro foi que aqueles dois realmente idolatravam M1k3y e que fariam qualquer coisa que eu dissesse. Sorriam feito dois idiotas. Aquilo não me fez bem, fiquei enjoado.
“Ouçam, eu preciso entrar na Xnet agora, mas não posso ir para casa ou sequer perto de casa. Vocês moram por aqui?”
“Eu moro.” disse Nate. “Ali na Califórnia Street. É logo ali subindo.’”Eu tinha vindo de lá. Masha estava por algum lugar por lá. Mas ainda assim, era o melhor que eu podia conseguir.
“Vamos lá.” eu disse.

#

Nate me emprestou um boné de basebol e trocamos de casacos. Eu não precisava me preocupar com o reconhecimento visual, pois meu joelho machucado do jeito que estava… eu balançava ao andar feito um cowboy do cinema.
Nate morava num apartamento enorme de quatro quartos no topo e Nob Hill. O prédio tinha um porteiro vestido com um casaco vermelho com brocados dourados e tocou o chapéu e chamou Nate de “Mister Nate” e nos deixou entrar. O lugar brilhava e cheirava a polidor de móveis. Tentei não pensar que aquele apartamento devia valer muitos milhões.
“Meu pai” explicou ele “era investidor. Tinha um bom seguro de vida. Ele morreu quando eu tinha 14 anos e nós ficamos com isso tudo. Ele estava divorciado, mas deixou minha mãe como beneficiária.”
Da janela que ia do chão ao teto era possível ver uma vista estonteante do outro lado de Nob Hill, até Fisherman’s Wharf, até as feias ruínas da Ponte da Baia e um monte de guindastes e caminhões. Através da névoa dava para vislumbrar Treasure Island. Olhar para baixo daquele jeito me deu vontade louca de pular dali.
Entrei online em seu Xbox numa enorme tela de plasma na sala de estar. Me mostrou quantos pontos de rede WiFi eram acessíveis devido a morar tão alto…uns vinte ou  trinta deles. Um bom lugar para se ser um Xnetter.

Havia um monte de emails para M1k3y. Umas 20 mil novas mensagens desde que Ange e eu tínhamos saído de sua casa naquela manhã. Muitos eram da imprensas, solicitando entrevistas, mas a maior parte dos Xnetters, pessoais que haviam lido a matéria no Guardian e queriam me dizer que fariam tudo para me ajudar, tudo que eu precisasse.
Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
Nate e Liam trocaram olhares. Tentei parar, mas não deu. Eu chorava agora. Nate foi até um armário de carvalho e fez surgir um bar entre os livros, revelando várias garrafas. Colocou algo dourado e marrom num copo e trouxe para mim.
“Um uísque irlandês raro. O favorito da minha mãe.” ele disse.
Tinha gosto de fogo, como ouro. Engoli, tentando não engasgar. Eu não gostava de bebidas, mas esta era diferente. Respirei fundo várias vezes.
“Obrigado, Nate” falei. Ele parecia como se eu tivesse acabado de condecorá-lo com uma medalha. Era um garoto legal.
“Certo.” eu disse agarrando o teclado. Os dois me olharam fascinados quando paginei através dos meus emails na gigantesca tela.
O que eu procurava mais do que tudo, era um email de Ange. Havia uma chance dela ter sido presa.
Eu fui um idiota. Não havia nada dela. Comecei separando os emails de solicitações da imprensa, os emails de fãs, os de ódio, o spam.
E então achei um de Zeb.
‘Não foi legal acordar esta manhã e encontrar o bilhete que eu pensei que você havia destruído, nas páginas de um jornal. Me fez sentir…caçado. Mas eu começo a entender por que você o fez. Não sei se consigo aprovar suas táticas, mas é fácil ver aonde quer chegar e os motivos que o movem. Se você estiver lendo isso, significa que há uma boa chance de você estar agora no submundo. Não é fácil viver assim. Eu aprendi isso. E aprendi muito mais também. Não posso te ajudar. Eu deveria. Você está fazendo o que pode por mim (mesmo sem a minha permissão). Me responda se recebeu esta mensagem, se você estiver sozinho e fugindo. Ou me responda se estiver sob custódia, na prisão da Baía, procurando um jeito de fazer a dor passar. Se eles te pegaram, você irá fazer o que eles mandarem. Sei disso. Assumirei o risco. Por você M1k3y.”
“Uau! Caaaaaaaaara!” gritou Liam. Eu queria socá-lo. Me virei para dizer algo terrível e cortar seu barato, mas ele olhava para mim com olhos do tamanho de pratos, como se ele quisesse cair de joelhos ali em devoção.
“Posso dizer...” Nate começou a dizer. “Posso somente dizer que esta é a maior honra em toda minha vida, ajudar a você? Posso?”
Agora eu estava encabulado. Não havia nada a fazer quanto a isso. Estes dois eram completamente vidrados em personalidades, mesmo eu dizendo não ser uma estrela ou algo assim, pelo menos não na minha cabeça.
“Caras, vocês podem… me deixar sozinho um pouco?”
Eles se arrastaram para for a da sala como dois cachorrinhos sendo punidos e me senti como um feitor. Teclei rápido.
“Eu fugi, Zeb. Estou fugindo. Preciso de toda ajuda que puder conseguir. Quero acabar agora com isso.” Lembrei-me do telefone de Masha no bolso e tirei-o, teclando-o para evitar que entrasse em pausa.
Eles me deixaram usar o chuveiro, me deram roupas novas, uma mochila com metade do kit de emergência dentro… barras energéticas, remédios, compressas químicas de calor e frio e um velho saco de dormir. E também enfiaram um Xbox Universal extra carregado com ParanoidLinux dentro. Foi legal da parte deles.
Continuei checando meu email para ver se Zeb respondia. Respondi os emails dos fãs. Respondi os emails da imprensa. Apaguei os emails de ódio. Eu meio que esperava encontrar algo de Masha, mas havia uma chance de a estas horas ela estar na metade do caminho para Los Angeles, com os dedos machucados e sem poder teclar direito. Teclei seu telefone de novo.

Eles me encorajaram a dormir um pouco e por um breve e vergonhoso instante eu fiquei paranóico achando que aqueles garotos estavam pensando em me delatar quando eu estivesse dormindo. O que era idiotice minha… eles poderiam tê-lo feito mesmo comigo acordado. Só não conseguia processar o fato deles saberem tanto sobre mim. Eu sabia, intelectualmente, que havia pessoas que seguiriam M1k3y. Eu tinha encontrado muitas delas naquela manhã, gritando “MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA” e vampirizando no Centro Cívico. Mas estes dois eram mais íntimos. Eles eram legais, dois bobões, poderiam ter sido meus amigos naqueles dias que antecederam a Xnet, só dois caras saindo por aí para viverem suas aventuras adolescentes. Eles tinham se voluntariado para juntar-se ao meu exército, meu exército. Eu tinha responsabilidade por eles. Se os deixasse por conta própria, eles seriam pegos cedo ou tarde. Eram confiantes demais.

“Caras, prestem atenção por um segundo. Preciso falar uma coisa séria com vocês.”
Eles quase pararam em atenção. Seria engraçado se não fosse assustador.
“É o seguinte. Agora que vocês me ajudaram, a coisa fica perigosa. Se vocês forem presos, eu serei preso. Eles vão tirar tudo que sabem…” Ergui minha mão antes que começassem a protestar. “Não, parem. Vocês não sabem o que é isso. Todo mundo fala. Todo mundo pode ser quebrado. Se vocês forem presos, vocês contarão tudo rapidinho, o mais rápido que puderem, tudo que puderem. Eles vão conseguir de qualquer jeito. É como a coisa funciona. Então vocês não podem ser presos e por isso é que vocês não podem fazer nunca mais aquilo que estavam fazendo hoje. Considerem-se afastados da ativa. Vocês serão…” busquei da memória do vocabulário dos filmes de espionagem  “uma célula adormecida. Fiquem na sua. Voltem a ser garotos comuns. Vou dar um jeito nesta situação, acabar com isso. Ou então essa coisa vai me pegar, finalmente, dar um jeito em mim. Se vocês não tiverem notícias minhas em 72 horas, assumam que fui preso. E façam o que quiserem. Mas nos próximos três dias… e para sempre, se eu fizer aquilo que quero fazer…fiquem calmos. Prometem?”

Eles prometeram com toda solenidade. Deixei que me levassem para tirar um cochilo com a promessa de me acordarem em uma hora. Tinha que cuidar do telefone de Masha e queria saber se Zeb iria entrar em contato comigo.

#

O encontro se deu num vagão do BART, o que me deixou nervoso. Câmeras demais por toda parte. Mas Zeb sabia o que estava fazendo. Ele me encontrou no último carro de certo trem partindo da estação de Powell Street, num horário que o trem ficava bem cheio. Ele esgueirou-se na multidão e os bons cidadãos de São Francisco abriram espaço para ele, com o horror que sempre cerca os mendigos de rua.
“Legal te ver de novo.” ele murmurou, de cara para a porta. Olhando para o vidro negro eu pude ver que não havia ninguém perto o bastante para nos escutar, não sem algum tipo de microfone altamente sensível - e se eles soubessem o bastante para ter grampeado o local, nós estávamos mortos de qualquer jeito mesmo.
“Legal te ver também.” eu disse “Sinto muito por aquilo.”
“Calado. Não se desculpe. Você é mais corajoso do que eu. Está pronto para ir ao submundo agora? Pronto para desaparecer?”
“Sobre isso.”
“Sim?”
“Este não é o plano.”
“Oh.” ele disse.
“Preste atenção, ok? Eu tenho…tenho fotos e vídeos. Coisas que podem realmente provar algo.”
Mexi no bolso e alcancei o telefone de Masha. Eu tinha comprado uma bateria na Union Square no caminho e tinha carregado-a num café, para que pudesse durar ainda algumas horas de uso.
“Eu preciso fazer com que isso chegue a Barbara Stratford, a mulher do Guardian. mas eles estarão vigiando... esperando que eu apareça.”
“Você não acha que eles vão estar esperando por mim também? Se o seu plano envolve me mandar a um quilômetro de distância que seja daquela mulher ou do seu local de trabalho…”
“Quero que pegue Van e venha me encontrar. Darryl não te falou sobre Van? A garota…”
“Ele me falou. Sim, falou. Não acha que eles também a estarão vigiando? Todos vocês não foram presos?”
“Acho que sim. Mas não tão intensamente. E Van está limpa. Ela nunca cooperou com nenhum dos meus… com meus projetos. Assim eles devem estar um pouco mais relaxados com ela. Se ela ligar para o Bay Guardian para fazer uma declaração para explicar porque eu estou errado fazendo tudo isso, eles podem deixá-la passar.”
Ele ficou parado, sem falar por um tempo.
“Sabe o que vai acontecer se eles nos pegarem novamente.” Não era uma pergunta.
Fiz que sim.
“Tem certeza? Alguns daqueles que estavam na prisão conosco foram levados de helicópteros. Levaram  eles para fora do país. Existem países onde a América pode usar de tortura. Países em que você irá apodrecer para sempre. Países onde você deseja que eles te matem logo, que te deixem cavar um buraco e atirar na sua nuca e acabar logo com tudo.”
Eu engoli em seco e concordei.
“Vale o risco? Podemos nos esconder por bastante tempo, bastante tempo mesmo. Algum dia nós teremos nosso país de volta. Podemos esperar que isso aconteça.”
Eu fiz que não com a cabeça.
“Não se consegue nada deste jeito. É o nosso país. Eles o tiraram de nós. Os terroristas que nos atacaram ainda estão livres… nós não estamos. Não posso me esconder por um ano, dez anos, minha vida toda, esperando que me dêem a liberdade. Liberdade é algo que você tem que pegar sozinho.”

#

Naquela tarde Van deixou o colégio como sempre, sentou-se no fundo do ônibus junto com seus colegas, rindo e falando por todo o caminho como sempre fazia. Os outros passageiros no ônibus a perceberam, pois ela falava alto, e além disso, usava um chapéu estúpido gigante, algo que parecia ter saído de uma peça escolar sobre espadachins da renascença. Em um certo ponto, todos se juntaram e então se viraram para olhar para trás, apontando e caçoando. A garota que usava o chapéu, agora, tinha o mesmo peso de Van e vista de longe, poderia ser ela.

Ninguém prestou atenção na pequena asiática que saltou alguns paradas antes da estação BART. Usava um uniforme de escola e olhava tímida para os degraus quando desceu. Ao mesmo tempo, a garota coreana que falava alto na parte dos fundos do ônibus deu um grito e seus colegas a imitara, rindo tanto que até o motorista do ônibus, se virou para vê-las com uma expressão contrariada.

Van já atravessava a rua com a cabeça baixa e seu cabelo preso atrás e cobrindo o colarinho da sua jaqueta fora de moda. Ela tinha acrescentado palmilhas nos sapatos que a faziam um tanto mais alta e tinha dispensado as lentes de contato e usava seus óculos, não o par favorito, mas o de lentes grossas que tomavam metade de seu rosto. Apesar de estar esperando por ela sob a coberta da parada de ônibus, eu quase não a reconheci. Levantei-me e a acompanhei, atravessando a rua, seguindo-a por meio quarteirão.
As pessoas que passavam por mim desviam a vista assim que podiam. Eu parecia um mendigo jovem, com minhas roupas sujas, um casacão com fita passada nos cotovelos. Ninguém olhava para um garoto de rua, porque se você faz contato visual com um, ele pode te pedir um trocado. Andei assim por toda Okland e a única pessoa que se atreveu a falar comigo foi uma testemunha de Jeová e um cientologista, ambos tentando me converter.

Van seguiu as indicações conforme eu tinha escrito. Zeb as havia passado para ela da mesma maneira que ele tinha me passado o bilhete do lado de fora da escola. Um esbarrão enquanto ela esperava o ônibus, seguido de um pedido de desculpas copioso. Eu tinha escrito um bilhete bem simples e claro: “Eu sei que você não aprova, eu entendo. Mas este é o favor mais importante que já lhe pedi. Por favor, por favor”
Ela tinha vindo. Sabia que viria. Tínhamos muita história juntos, Van e eu. Ela também não gostava do que o mundo se tornara. Apesar disso, uma pequena voz maléfica ficava me dizendo que ela estava sobre suspeita agora que o artigo de Barbara for a publicado.

Caminhamos desta forma por seis ou sete quarteirões, olhando para as pessoas mais próximas, para os carros que passavam.  Zeb me falara sobre uma forma de seguir pessoas onde cinco pessoas diferentes disfarçadas trocam de lugar enquanto te seguem, tornando impossível percebê-lo. Você precisa ir para algum lugar totalmente deserto, onde qualquer outro além de você chamaria atenção.
O viaduto para a 880 ficava a poucos quarteirões da estação BART do Coliseu e, mesmo depois de andar em círculos, não demoramos a chegar lá. O estrondo sobre nossas cabeças era atordoante. Ninguém por perto, não que eu pudesse ver. Já tinha estado ali antes de sugerir no bilhete para Van, tomando cuidado para verificar lugares onde alguém pudesse se esconder. Não havia ninguém ali.

Uma vez que ela chegou ao lugar marcado, movi-me rápido para alcançá-la. Ela piscava como uma coruja por detrás das lentes.
“Marcus!” ela disse e lágrimas surgiram em seus olhos. Acho que eu chorava também. Eu era um fugitivo muito fajuto. Muito sentimental.
Ela me abraçou tão forte que mal consegui respirar. Abracei-a ainda mais forte.
Então ela me beijou.
Não no rosto, não como uma irmã, mas nos lábios, quente e molhado, e parecia durar para sempre. Eu estava longe de me envolver…
Mentira. Sabia exatamente o que fazia. Eu a beijei de volta.
Então parei e disse afastando-a de mim: “Van.”
“Ooops...” ela disse.
“Van...” eu disse de novo.
“Desculpa. Eu…”
Algo me ocorreu naquele instante. Algo que eu acho que deveria ter percebido há muito tempo.
“Você gosta de mim, não é?”
Ela fez que sim. “Faz muitos anos.” disse.
Oh Deus. Darryl, todos estes anos tão apaixonado por ela e o tempo todo, ela pensando em mim, secretamente me desejando. E então eu acabei ficando com Ange. Ange disse que vivia brigando com Van.
“Van,” eu disse. “Van, eu lamento tanto.”
“Esqueça.” Disse, olhando para longe. “Eu sei que não daria certo. Eu só queria fazer isso uma vez, no caso de eu nunca…” Calou-se.
“Van, eu preciso que você faça algo para mim. Algo importante. Preciso que encontre com a repórter do Bay Guardian, Barbara Stratford, que escreveu o artigo. Preciso que dê uma coisa para ela.” Expliquei sobre o telefone de Masha e sobre o vídeo que Masha me mandou.
“Que bem isso pode fazer, Marcus? Qual é o objetivo?”
“Van, você está certa, pelo menos em parte. Não conseguiremos consertar o mundo colocando pessoas em risco. Quero resolver o problema dizendo aquilo que sei. Devia ter feito isso desde o início. Devia ter ido direito da prisão para a casa do pai de Darryl e contado o que sabia. Agora, eu tenho provas. Isso pode mudar o mundo. Esta é minha última esperança. A única para tirar Darryl de lá, de ter uma vida onde eu não precise ficar escondido, fugindo da polícia. E você é a única pessoa em quem confio para fazer isso.”
“Por que eu?”
“Tá brincando, né? Veja como você chegou até aqui. Você é profissional. Você é a melhor de nós. É a única em quem eu posso confiar. Isso explica por que escolhi você.”
“E por que não sua amiga Ange?” ela disse o nome sem nenhuma inflexão, como se fosse um bloco de cimento.
Olhei para baixo. “Achei que você sabia. Eles a prenderam. Ela está na prisão da baía… em Treasure Island. Está lá há dias.” Eu tentara não pensar na coisa, não pensar no que poderia ter acontecido com ela. Agora eu não conseguia me conter e comecei a chorar. Sentia meu estômago doer, como se tivesse levado um chute, e segurava-o com as mãos. Me curvei ali e a próxima coisa que me lembro foi de estar caído de lado no chão sob o viaduto, abraçando a mim mesmo e chorando.
Van ajoelhou-se ao meu lado. “Me dá o telefone.” disse com a voz cheia de raiva. Eu o tirei do bolso e passei para ela.

Envergonhado, parei de chorar e sentei. Sabia que um pouco de muco escoria pelo meu rosto. Van estava me dando aquele olhar de pura repulsa. “Você precisa evitar que isso entre em modo pausa” eu disse. “Tenho uma bateria carregada aqui’. Procurei com cuidado na mochila. Não tinha dormido à noite desde que a comprei. Coloquei o alarme para tocar a cada 90 minutos e assim podia acordar e manter o telefone fora do modo pausa. “Não feche o telefone também.”
“E quanto ao vídeo?”
“Isso é mais difícil. Mandei uma copia para mim mesmo por email mas não posso mais usar a Xnet.” Eu poderia voltar a Nate e Liam e usar do Xnet deles de novo mas não queria correr risco. “Olha, vou te dar meu login e minha senha para o servidor de email do Pirate Party. Vai precisar acessar pelo Tor… a DHS vai estar escaneando as pessoas que acessam o email do PParty.”
“Seu login e senha!” ela disse um pouco surpresa.
“Confio em você, Van. Sei que posso.”

Ela balançou a cabeça: “Você nunca deu sua senha, Marcus.”
“Não acho que isso importe mais. Ou você tem sucesso ou eu… ou será o fim de Marcus Yalow. Talvez eu consiga uma nova identidade, mas não sei. Acho que vão me pegar. Acho que sabia disso o tempo todo, que eles iriam me pegar algum dia.”
Ela olhou para mim furiosa agora. “Que desperdício! Pra quê tudo isso, afinal?”
De tudo que ela pudesse dizer, nada me magoaria tanto. Era como outro soco no estomago. Que desperdício, tudo isso, futilidade. Darryl e Ange, desaparecidos. Eu podia nunca mais ver minha família de novo. E ainda assim, a DHS tinha atirado minha cidade e meu país numa loucura fora de razão onde tudo podia ser feito em nome de deter o terrorismo.
Van parecia esperar que eu falasse algo, mas eu nada tinha a dizer.
Ela me deixou lá.

#

Zeb tinha uma pizza para mim quando voltei para “casa”… ou a tenda debaixo do viaduto da auto-estrada em Missão na qual tínhamos passado a noite. Ele tinha uma pequena tenda de acampamento, suprimentos militares, onde se lia Comissão de Coordenação de Sem-tetos de São Francisco.
A pizza era da Domino´s, fria e azeda mas deliciosa mesmo assim. “Gosta de abacaxi na sua pizza?”
Zeb sorriu condescendente comigo. “Um freegan não pode ser exigente.” ele disse.
“Freegan?”
“Como Vegan, mas só que só come comida grátis.”
“Comida grátis?”
Ele riu: “Você sabe, destas lojinhas de comida de graça?”
“Você roubou?”
“Não, maluco! Da outra loja. Daquela que fica nos fundos, feita de metal azul. Sabe? Que tem um cheiro esquisito.”
“Você pegou isso do lixo?”

Ele jogou a cabeça para trás e gargalhou: “É isso ai. Devia ver sua cara. Mas é boa, não é como se estivesse podre ou coisa assim. É fresquinha, só um pouco bagunçada. Eles jogam fora ainda na caixa. Eles jogam veneno de rato quando estão fechando, mas se você for rápido, você consegue pegar. Você tem que ver o que as lojas de doces jogam fora! Espere até ver o café da manhã. Vou te trazer uma salada de frutas que você não vai acreditar. Assim que um dos morangos fica um pouco maduro, eles atiram tudo fora.”
A pizza estava boa. Não era porque tinha ficado dentro do latão que ela estaria infectada ou algo assim. Se estava daquele jeito era só por que tinha vindo da Domino´s… a pior pizza da cidade. Nunca gostei da comida deles e eu os detestava desde que soube que eles bancavam um bando de políticos malucos que pensavam que o aquecimento mundial e evolução eram parte da trama do diabo.
Mas havia outro jeito de ver a coisa. Zeb tinha me mostrado um segredo, algo que eu não tinha pensado e que havia um mundo inteiro as escondidas lá fora, um modo de viver sem participar do sistema.
“Freegan, né?”
“Iogurte também. Para a salada de fruta. Eles jogam fora um dia após o fim de validade, mas não é como se ficasse verde à meia-noite.É iogurte, quero dizer, basicamente é leite estragado.”
Eu acreditei. O gosto da pizza era engraçado. Veneno de rato. Iogurte estragado. Morangos mofados.
Comi outra fatia. Na verdade a pizza da Domino´s não parecia tão ruim quando era de graça.
O saco de dormir de Liam era quente e muito bom após um longo e exaustivo dia. Van devia estar entrando em contato com Barbara neste instante. Ela ficaria com o vídeo e a foto. Eu telefonaria para ela pela manhã e perguntaria o que ela acha que eu devia fazer em seguida.
Eu teria que aparecer depois que ela publicasse aquilo.

Pensava sobre isso quando fechei os olhos, como seria me mostrar diante das câmeras e coisas do tipo, as câmeras seguindo o infame M1k3y entre os prédios enormes do Centro Cívico.
O som os carros passando pelo viaduto se transformou em um som parecido com o do oceano quando me deixei adormecer. Havia outras tendas por perto, de pessoas sem-teto. Eu tinha encontrado algumas delas naquela tarde, antes de escurecer e todos vinham buscar abrigo perto das tendas. Todos mais velhos que eu, com aparência rude e irritada. Contudo, nenhum deles parecia louco ou violento. Apenas gente que tivera azar ou tomara as decisões erradas ou ambas as coisas.
Devo ter dormido então, pois não me lembro de nada até que uma luz forte brilhou na minha cara, e a luz era cegante.
“É ele.” disse uma voz por detrás da luz.
“Empacote ele.” disse outra voz, uma que eu já havia ouvido antes, várias vezes nos meus sonhos, me criticando, pedindo minhas senhas. A mulher com cabelo curto.
O saco desceu rápido sobre minha cabeça e fechou tão apertado na minha garganta que vomitei minha pizza grátis. Enquanto eu tossia em espasmos, mãos fortes juntaram meus pulsos e meus tornozelos. Fui rolado até uma maca e erguido, então carregado até um veiculo, para cima ao som de passos metálicos.  Me soltaram no chão acolchoado. Nenhum som era audível na traseira do veículo após fecharem as portas. O acolchoado abafava, tudo exceto minha tosse.
“Olá, de novo” ela disse. Senti o chão se mexer. Eu estava sufocando, tentando respirar. Vômito enchia minha boca e escorria pela traquéia.
“Não vamos deixar você morrer.” ela disse. “Se você parar de respirar, vamos fazer com que respire novamente. Não se preocupe com isso.”
Eu sufocava de verdade. Tragava o ar. Mal conseguia. Profundamente, meu peito se enchia e distendia, expulsando o vômito. Mais ar.
“Veja.” ela disse. “Não é tão ruim. Bem vindo à casa, M1k3y.Temos um lugar especial para você.”
Relaxei sobre minhas costas, sentindo o veiculo se mover. O cheiro da pizza deglutida tomava tudo, mas com tão forte estimulo, meu cérebro gradualmente se acostumou, filtrando-o até que ficasse apenas um leve aroma. O balançar da van era quase reconfortante.

 E então aconteceu. Uma incrível e profunda calma me envolveu como se eu estivesse deitado na praia e o oceano viesse me levar gentilmente, carregando-me para o alto para me levar para um mar quente sob um sol quente. Depois de tudo que aconteceu, me pegaram, afinal, mas não importava. Eu tinha conseguido entregar a informação para Barbara. Eu tinha organizado a Xnet. Eu tinha vencido. E se não venci, fiz tudo que podia fazer. Mais do que eu jamais pensei que poderia fazer. Fiz uma lista mental pensando em tudo que eu tinha realizado. A cidade, o país, o mundo estava cheio de gente que não queria viver do jeito que a DHS queria que vivêssemos. Nós lutaríamos contra isso para sempre. Não podiam prender a todos.
Eu suspirei e sorri.

Ela não parava de falar, percebi. Estive tão distante em meu “lugar feliz” que ela simplesmente sumira.
“…garoto esperto como você. Achava que sabia como nos prejudicar. Nós tínhamos um olho em você desde o dia em que o liberamos. Nós teríamos agarrado você mesmo se você não tivesse ido chorar no colo daquela jornalista lésbica traidora. Não compreendo isso…achei que nós tínhamos nos entendido, você e eu…”
 Passamos sobre uma superfície metálica e a van rolou sobre pedras e então o chão mudou. Estávamos na água. Em direção a Treasure Island. Ei. Ange estava lá. Darryl também. Talvez.

#

O capuz não foi tirado até que eu estivesse na minha cela. Eles não se importaram com as algemas prendendo pulsos e tornozelos, apenas me rolaram para fora da maca para o chão. Estava escuro, mas o luar penetrava por uma pequenina janela no alto. Dava para ver o beliche sem o colchão. A sala tinha uma pia, um espaço para a cama, o vaso e nada mais.
 Fechei os olhos e deixei o oceano me levar. Flutuei livre. Em alguma parte, longe e abaixo, estava meu corpo. Eu podia dizer o que aconteceria a seguir. Seria deixado ali até mijar em mim mesmo. De novo. Eu sabia como era aquilo. Já tinha ocorrido antes. Eu ficaria cheirando muito mal. Coçava. Era humilhante, como voltar a ser um bebê.
Mas eu sobreviveria.

Gargalhei. O som foi estranho e trouxe-me de volta ao meu corpo, de volta ao presente. Gargalhei e gargalhei. Tinha passado pelo pior que eles podiam fazer e tinha sobrevivido a isso, tinha vencido eles durante meses, tinha mostrado a todos como eram tolos tiranos. Eu vencera.
Deixei minha bexiga se aliviar. Doía e estava cheia, e não havia nada de errado com o presente.
O oceano levou-me para longe.

#

Quando a manhã chegou, dois eficientes e impessoais guardas vieram cortar as tiras que prendiam meus tornozelos e pulsos. Ainda assim eu não conseguia andar… quando tentei, minha pernas reagiram como se fosse um marionete com as cordas cortadas. Tempo demais na mesma posição. Os guardas levantaram meus braços sobre seus ombros e meio que me carregaram meio que me arrastaram pelo corredor conhecido. Os códigos de barra das portas começavam a sair e descolar por conta do ar marinho.
Tive uma idéia. “Ange!” gritei. “Darryl!” gritei. Meus guardas apressaram o passo, claramente perturbados mas sem saber o que fazer a respeito. “Pessoal, sou eu, Marcus!”
Atrás de uma das portas alguém gemeu. Outro alguém gritou e aquilo soou árabe. Então uma cacofonia, mil vozes diferentes gritando.
Levaram-me a uma nova sala. Era uma velha sala de chuveiros e os canos ainda estavam lá, saindo dos azulejos mofados.
“Olá, M1k3y.” disse a mulher de cabelo curtíssimo. “Parece que você teve uma manhã muito atarefada.” ela disse, enrugando o nariz.
“Me urinei.” falei animadamente. “Você deveria experimentar.”
“Talvez devêssemos dar um banho em você”, ela disse.

 Ela assentiu e meus guardas me levaram até uma maca. Esta tinha tiras ao longo dela. Me jogaram sobre ela ,que era fria como gelo. Antes que percebesse já haviam me prendido com tiras pelos meus ombros, cintura e tornozelos. Um minuto depois, mais três tiras foram presas. Mãos de homens agarraram os corrimãos junto da minha cabeça e soltaram as travas e no momento seguinte eu era inclinado, de cabeça para baixo.
“Vamos começar com uma coisa simples.” ela disse. Suspendi a cabeça para conseguir vê-la. Tinha se aproximado de uma mesa com um Xbox nela, conectada a uma cara TV de tela plana. “Quero que me diga seu login e senha de seu email no Pirate Party, por gentileza.”
Fechei os olhos e deixei oceano me levar da praia.
“Você sabe o que significa ‘waterboarding’, M1k3y? Colocamos você de cabeça para baixo como está e jogamos água sobre seu rosto, dentro do seu nariz e boca. Não dá para segurar o reflexo de contração da laringe. Chamam isso de execução simulada e pelo que posso dizer deste lado da sala onde estou, esta é uma definição bastante justa. Não dá para lutar contra a sensação de estar morrendo.”
Tentei não prestar atenção. Tinha ouvido falar naquilo. Era tortura de verdade. E era só o começo.
Não consegui me desconcentrar. O oceano não me levava dali. Havia um aperto no meu peito, minhas pálpebras tremiam. Podia sentir a urina úmida nas minhas pernas e o suor em meu cabelo. Minha pele coçava devido ao vomito seco.
Ela deslizou a frente da minha vista. “Vamos começar pelo login.” ela disse.
Fechei os olhos, apertando-os para permanecerem fechados.
“Dêem-lhe o que beber.” ela disse.
Ouvi pessoas se movendo. Respirei fundo e segurei.
A água começou a cair em me queixo primeiro como um gotejar, uma mão de água caindo aos meus lábios, pelas narinas viradas para cima. Começava a chegar na garganta, começando a me asfixiar, mas eu não tossi. Segurava a respiração e apertava os olhos com força.
Houve um barulho do lado de fora da sala, um som caótico de botas, batendo com raiva, insultos gritados. A concha foi esvaziada sobre meu rosto.

Ouvi um murmúrio trocado entre alguém na sala, então para mim ela disse: “Só me dê o login, Marcus. É uma pergunta simples. O que posso fazer apenas com seu login?’
Desta vez foi um balde de água, de uma vez só, uma inundação sem fim, gigantesca. Não dava para segurar. Tossi e a água entrou por meus pulmões, tossi e mais água entrou. Sabia que eles não iriam me matar, mas não dava para convencer meu corpo disso. Cada fibra do meu ser. Sabia que ia morrer. Sequer podia chorar… a água continuava a jorrar sobre mim.
Então parou. Eu tossi, tossi e tossi, mas do ângulo que estava a água que eu expulsava voltava a entrar pelo nariz e queimava através dos sinus.
A tosse era tão profunda que doía, doía nas costelas e quadris enquanto eu me torcia. Odiava como meu corpo me traía, como minha mente não conseguia controlar meu corpo e eu nada podia fazer.
Ao final, a tosse cedeu e consegui ver o que se passava ao meu redor. Pessoas gritavam e parecia como se alguém estivesse brigando, lutando. Abri meus olhos e pisquei devido à luz brilhante e então virei meu pescoço ainda tossindo um pouco.
A sala tinha bem mais gente do que antes. A maioria parecia vestir armaduras corporais, capacetes e visores. Gritavam com os guardas de Treasure Island, que gritavam em resposta, seus pescoços marcados por veias saltadas.
“Pro chão!” gritou um dos homens com coletes “De joelhos no chão e as mãos para cima. Vocês estão presos.”

A mulher de cabelo curto falava em seu telefone. Um dos homens com armaduras a percebeu e foi até ela, arrancando seu telefone com um tapa da mão enluvada. Todos fizeram silêncio quando o telefone fez um arco atravessando a sala e espatifou-se em pedaços contra o chão.
O silêncio foi quebrado e os soldados encouraçados moveram-se pela sala. Dois deles pegaram cada um dos meus torturadores. Quase sorri ao ver a expressão do rosto da mulher de cabelo curto quando dois homens a seguraram pelos ombros e a viraram de costas, aplicando tiras de plástico imobilizando-a pelos pulsos.
Um dos sujeitos foi até a porta. Ele tinha uma câmera de vídeo ao ombro, onde piscava uma luz branca. Dali ele tinha visão para a sala inteira, circulou ao me redor me filmando. Fiquei o mais parado que pude, como se posasse para um retrato.
Aquilo era ridículo.
“Pode me tirar daqui?” eu consegui dizer somente com um pequeno engasgar.
Dois outros homens de armaduras blindadas vieram até mim, um deles era uma mulher e começou a me soltar. Levantaram seus visores e sorriram para mim. Tinham cruzes vermelhas em seus ombros e capacetes.
Debaixo das cruzes havia uma outra insígnia. CHP. Califórnia High Patrol. Eram da polícia estadual.
Comecei a perguntar o que faziam ali e foi quando vi Barbara Stratford. Ela passava pelo corredor e agora entrava empurrando. “Aí está você!” ela disse, vindo até meu lado e me dando o maior e mais longo abraço de minha vida.
Foi então que eu soube que a Guantánamo da Baía tinha caído nas mãos dos seus inimigos.
Eu estava salvo.


Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 20 [ Download ]

sábado, 6 de março de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 19

 

CAPÍTULO 19
Este capítulo é dedicado à livraria MIT Press, uma loja que visito nos últimos 10 anos sempre que vou a Boston. MIT, é claro, é um dos lugares lendários de onde se originou a cultura nerd mundial, e a livraria do campus sempre me surpreende, desde que coloquei o pé dentro dela pela primeira vez. Em adição aos títulos maravilhosos publicados pela editora MIT Press, a livraria fornece um tour pelo que há de mais excitante em matéria de publicações high-tech no mundo, desde zines sobre hackers, até grossas antologias acadêmicas sobre design de videogames. Este é um dos lugares em que tenho que pedir para enviar as compras para minha casa, pois elas nunca cabem em minha mala.
MIT Press Bookstore: Building E38, 77 Massachusetts Ave., Cambridge, MA USA 02139-4307 +1 617 253 5249

O email que foi enviado às 7 da manhã seguinte, enquanto eu e Ange pintávamos “VAMPMOB CENTRO CIVICO->” em pontos estratégicos pela cidade, dizia:
>REGRAS PARA A VAMPMOB
>Você faz parte de um clã de vampiros diurnos. Você descobriu o segredo de como sobreviver na luz do sol. O segredo é o canibalismo: o sangue de outro vampiro pode lhe dar a força para andar entre os vivos.
>Você precisa morder outros vampiros, quanto mais, melhor, para poder continuar no jogo. Se você passar um minuto sem morder alguém, estará fora do jogo. Uma vez que esteja fora, vista sua camiseta de trás para frente e você se torna um juiz - siga alguns vampiros para ver se eles estão mordendo.
>Para morder outro vampiro, você tem que dizer “MORDIDA!” cinco vezes antes que ele o faça. Então procure um vampiro, faça contato visual e grite “MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA” e se conseguir antes que o outro o faça, você vive e o outro se torna pó.
>Você e os outros vampiros que você encontrar no seu ponto de encontro formam o seu time. O clã. O sangue deles não serve.
>Você pode se tornar invisível ficando parado e cruzando os braços em frente ao peito. Você não pode morder vampiros invisíveis e eles não podem te morder.
>Este sistema usa o sistema de honra dos jogos. A idéia é se divertir é vampirizar por ai e não vencer.
>O jogo tem um fim que será comunicado assim que alguém for declarado vencedor. Os mestres do jogo irão fazê-lo assim que acontecer, preste atenção nos avisos.
>M1k3y
>MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA!

Nós esperávamos que por volta de uma centena de pessoas aparecesse para jogar. Mandamos quase duzentos convites cada um. Mas quando fui ver no Xbox às 4 da manha, haviam 400 respostas. Quatrocentas.
Eu alimentei com os endereços o email programado e saí. Desci as escadas, ouvi meu pai roncando e minha mãe se mexendo na cama. Fechei a porta atrás de mim.

#

As 4:15 da manhã, Potrero Hill estava tão calma quanto uma cidade do interior. Alguns sons de trânsito distante e uma vez um carro passou por mim. Parei no caixa eletrônico e tirei 320 dólares em notas de 20, enrolei-as, coloquei um elástico em volta e enfiei num bolso nas minhas calças de vampiro.
Eu vestia novamente a capa e a camisa bufante e calças de smoking que eu tinha modificado para ter bolsos suficientes para carregar um monte de coisas. Usava minhas botas de fivelas de caveira de prata e tinha despenteado o cabelo feito um dente-de-leão negro. Ange estava trazendo a maquiagem branca e tinha prometido usar o delineador nos meus olhos e pintar minhas unhas de negro. Por que não? Quando eu poderia me vestir assim de novo?
Ange me encontrou na frente da sua casa. Ela trazia sua mochila também e meias arrastão, um vestido de empregadinha estilo Lolita gótica, o rosto pintado de branco, uma maquiagem de olhos elaborada estilo kabuki,  os dedos e garganta cobertas por jóias de prata.
“Você está demais!” dissemos um para o outro ao mesmo tempo, então rimos e saímos pelas ruas, com latas de tinta spray nos bolsos.

#

Quando pensei no Centro Cívico, pensei como seria ver 40 vampmobs seguindo para lá. Eu os esperava em dez minutos em frente ao prédio da prefeitura. Na grande praça, havia apenas alguns passantes que educadamente se desviavam dos mendigos esmolentos.
Eu sempre odiei o Centro Cívico. Uma coleção de enormes prédios em formato de bolo de noiva, prédios da justiça, museus e outros prédios como a prefeitura. As calçadas eram largas, os prédios eram brancos. Nos guias turísticos de São Francisco eles faziam com que parece o Epcot Center, futurístico e austero.
Mas visto do chão era sujo e embrutecido. Sem-tetos dormiam nos bancos. O distrito ficava vazio às 6 da tarde, exceto pelos bêbados e viciados, porque com apenas um tipo de prédio por ali, não havia razão das pessoas aparecerem ali após o pôr do sol. Estava mais para uma avenida do que para uma vizinhança e as únicas casas de comercio ali eram lojas de penhora e mercadinhos de bebidas para atender aos  familiares dos vigaristas, e vender aos bêbados que faziam desse lugar seu lar durante a noite.
Eu realmente comecei a entender aquilo quando li uma entrevista de uma antiga e fabulosa planejadora urbana chamada Jane Jacobs, a primeira pessoa que realmente pensou no motivo de ser errado fatiar a cidade com auto-estradas, enfiar os pobres em projetos habitacionais e usar leis de zoneamento para se controlar o que pode e o que não pode ser feito ali.
 
Jacobs explicava que as cidades são orgânicas e tem uma grande variedade - ricos e pobres, brancos, mestiços, anglo-saxões e mexicanos, varejo e residencial e até industrial. Uma vizinhança como aquela que tem todo tipo de gente passando por ela o tempo todo seja dia ou noite precisa ter um tipo de comércio para cada necessidade, ter gente ao redor o tempo inteiro agindo como os olhos da rua.

Você já viu isso antes. Quando caminha pela parte antiga de alguma cidade e você encontra um monte de lojas legais, caras de terno, pessoas usando a última moda, restaurantes finos e cafeterias bacanas, um pequeno cinema talvez, casas com uma fachada transada. É claro que pode ter umas Starbucks também, mas tem sempre um mercado de frutas e uma floricultora cuja dona parece ter trezentos anos e ela cheira as flores gentilmente em suas vitrines. Isso é o oposto de um espaço planejado, como um shopping. É mais como um jardim selvagem ou uma floresta na maneira que surgiu.

Você não poderia estar mais longe disso do que neste Centro Cívico. Li uma entrevista com Jacobs onde ela fala sobre a antiga e ótima vizinhança que eles colocaram abaixo para construir aquilo. Era o tipo de vizinhança que aparece sem permissão ou razão.
Jacobs disse que ela havia previsto isso há alguns anos, que o Centro Cívico seria a pior vizinhança na cidade, uma cidade fantasma à noite, um lugar com algumas lojas baratas vendendo birita e motéis pulguentos. Na entrevista ela não parecia feliz em ser inocentada deste fato, soava mais como se falasse sobre um amigo falecido quando descrevia o que o Centro Cívico se tornaria.

Agora era a hora do rush e o Centro Cívico fervilhava. A estação Bart também servia como a maior estação para as linhas de bondes municipais e, se você precisasse trocar de um para outro, era lá que você o faria. Às oito da manhã, milhares de pessoas vinham pelas escadas, subindo ou descendo as escadas, entrando em táxis ou saindo de ônibus. Elas eram afuniladas pelos pontos de verificação do DHS frente aos edifícios, e driblavam os pedintes mais agressivos. Cheiravam a xampus e colônias, frescas de banho recém-tomado e armadas em seus trajes de trabalho, empunhando valises e pastas com laptops. Às 8 da manhã, o Centro Cívico era uma central de negócios.

E para cá vinham os vampiros. Uma dúzia deles vindo de Van Ness, outra vindo do Mercado. Mais alguns vindo do outro lado do Mercado. Mais alguns chegando de Van Ness. Escorregavam pelos lados dos prédios, com suas faces pintadas de branco e os delineadores pretos nos olhos, roupas escuras, jaquetas de couro, botas. Mitenes de rendinha.
Eles começavam a encher a praça. Alguns trabalhadores passavam olhando  sem aceitar que estes esquisitos perturbassem suas realidades pessoais, enquanto se empenhavam em fazer uma porcaria qualquer nas suas próximas oito horas. Os vampiros se aglomeravam em grupos, sem muita certeza de quando o jogo se iniciaria. Se juntavam em grandes grupos, como uma mancha de óleo vazando, todos estes pontos negros num só lugar. Vários usavam cartolas e casacas antigas. Muitas das meninas elegantes vestiam fantasias empregadinhas góticas com gigantescos saltos plataforma.
Tentei estimar um número. 200. E cinco minutos depois, 300. 400. E continuavam chegando. Os vampiros tinham amigos.
Alguém beliscou meu traseiro. Virei e vi Ange, rindo tanto que tinha que se segurar.
“Olhe para eles, cara, olhe para todos eles!” ela disse. O dobro do povo que tinha poucos minutos atrás. Não tinha idéia de quantos eram Xneters, mas facilmente uns mil deles compareceram à minha festinha. Cristo.
O DHS e a Polícia de São Francisco começavam a aparecer por ali, falando em seus rádios. Ouvi uma sirene ao longe.
“Certo.” disse segurando Ange pelo braço. “Vamos lá!”
Mergulhamos em meio a multidão e logo que achamos nosso primeiro vampiro, ambos dissemos bem baixinho “mordida mordida mordida mordida mordida!” Minha vitima era um surpresa - mas bela- garota com teias de aranha pelas mãos e uma máscara grotesca. Ela disse “Droga!” e saiu dali sabendo que eu a tinha pego.
A coisa do “mordida mordida mordida mordida mordida!” já rolava pelos vampiros mais próximos. Alguns atacavam os outros e outros corriam buscando proteção, se escondendo. Esquivei-me entre os mundanos usando-os como cobertura, após ter garantido minha primeira vitima. Por toda volta, gritos de “mordida mordida mordida mordida mordida!” e risos e pragas.
O som se espalhava como um vírus através da multidão. Todos os vampiros sabiam que o jogo tinha começado e aqueles que antes permaneciam juntos agora partiam como moscas. Riam e sibilavam e corriam por toda parte passando a notícia de que o jogo começara. E mais vampiros estavam chegando.
8:16. Hora de pegar outro vampiro. Me abaixei e me movi assim entre as pernas daqueles que iam em direção às escadas do Bart. Eles saltavam ao me ver, surpresos, e tentavam me evitar. Minha mira-laser estava apontada para um par de botas na plataforma com dragões nas pontas e não esperava isso quando fiquei de cara com outro vampiro, um garoto de 15 ou 16 anos, cabelo cheio de gel, penteado para trás e usando uma jaqueta de PVC de Marilyn Manson com colar de dentes falsos onde estavam inscritos intrincados símbolos.
“Mordida mordida mordida…” ele começou, quando um dos mundanos voou sobre ele tropeçando e foram ao chão. Cai por sobre ele e gritei “mordida mordida mordida mordida mordida!” antes que pudesse se recompor de novo.

Mais vampiros chegavam. As roupas eram realmente de assustar. O jogo congestionou as calçadas e foi em direção a Van Ness, espalhando-se na direção da  rua do Mercado. Motoristas buzinavam, os condutores de bonde mostravam sua irritação com as campainhas. Ouvi mais sirenes, mas agora o tráfego começava a parar em todas as direções.

Aquilo era assustadoramente fantástico.

MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA 

O som vinha de toda parte. Havia tantos vampiros agora, brincando com tanto vigor, que era um rugido. Arrisquei-me de pé ali, olhando a volta e percebendo estar bem no meio de uma multidão gigantesca de vampiros que iam tão longe o quanto podia enxergar em todas as direções.
MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA 
Aquilo era melhor que o concerto no Parque Dolores. Aquele tinha sido furioso e mandara ver, mas este era, bem, era divertido. Era como voltar ao tempo do recreio, aos jogos que brincávamos enquanto o sol brilhasse, centenas de moleques perseguindo uns aos outros. Os adultos e os carros apenas faziam a coisa mais divertida, muito mais.
E era isso que era, diversão pura e simples. Todos nós estávamos rindo agora.
Mas a polícia a esta altura já estava mobilizada. Ouvi helicópteros. Daqui a alguns segundos estaria terminado. Era hora de decretar o fim e jogo.
Agarrei um vampiro.
“Fim de jogo: quando a polícia ordenar que nos dispersássemos, finjam que estão sendo envenenados por gás. Passe adiante. O que foi que eu disse?”
A vampira era uma menina, pequena que pensei ser realmente muito nova, mas devia ter uns 17 ou 18 pelo seu rosto e sorriso. Ela disse: “Oh, esta é boa.”
“O que eu disse?”
“Fim de jogo: quando a polícia ordenar que nos dispersemos, finjam que estão sendo envenenados por gás. Passe adiante. O que foi que eu disse?”
“Certo. Passe adiante.”
Ela se misturou com a multidão. Eu agarrei outro vampiro e disse a mensagem para ele. E ele partiu para passar a mensagem.
Em algum lugar da multidão eu sabia que Ange estava também fazendo o mesmo. No meio da multidão devia haver gente infiltrada, falsos Xnetters, mas o que eles fariam ao saber disso? Os policiais não tinham escolha. Eles iam dar ordens para que dispersássemos. Isso era garantido.
 Eu tinha que achar Ange. O plano era nos encontrarmos na estatua do fundador, na praça, as chegar lá seria complicado. A multidão não se mexia mais, ela se aglomerara, como a multidão no caminho da Bart quando as bombas explodiram. Era praticamente impossível conseguir atravessá-la.
“AQUI É O DEPARTAMENTO DE SEGURANÇA ESTADUAL. DISPERSEM IMEDIATAMENTE!”
Ao redor, centenas de vampiros se atiravam ao chão, apertando suas gargantas esfregando os olhos, tossindo buscando ar. Era fácil fingir ter sido intoxicado por gás, nós todos havíamos visto os vídeos da festa em Missão Dolores Parque, com as nuvens de pimenta.
“DISPERSEM IMEDIATAMENTE!”
Caí ao chão protegendo minha mochila, retirei um boné de basebol vermelho que estava preso ao cinto das calça e o enfiei na cabeça então agarrei minha garganta e fiz a pior imitação de intoxicação.
Os únicos ainda de pé eram os mundanos,os assalariados que apenas queriam chegar aos seus empregos. Olhei ao redor enquanto tossia.
“AQUI É O DEPARTAMENTO DE SEGURANÇA ESTADUAL. DISPERSEM IMEDIATAMENTE! DISPERSEM IMEDIATAMENTE!”
A voz de Deus fazia meus intestinos doerem. Sentia-a nos molares, nos fêmures, na minha espinha.
Os assalariados estavam apavorados. Afastavam-se tão rápido quanto podiam, mas não em uma direção em particular. Os helicópteros pareciam pairar diretamente sobre nós não importando onde estivéssemos. Os policiais agora avançavam com dificuldade em meio à multidão e tinham os capacetes fechados. Alguns com escudos. Alguns com mascaras contra gases. Eu tossia forte.
Então os assalariados começaram a correr. Eu provavelmente teria que correr também. Vi um cara rasgar uma jaqueta de 500 dólares e amarrar os trapos ao redor do rosto antes de seguir para o sul em direção à Missão

Não era para isso acontecer - a coisa do fingimento era para assustar as pessoas e deixá-las confusas, mas não levá-las ao pânico de um estouro de boiada.
E então havia gritos agora, gritos. Reconheci da noite do parque. Este era o som de gente aterrorizada, correndo e se chocando uns contra os outros na tentativa de fugir dali.
E vieram as sirenes de ataque aéreo.
Não ouvia aquilo desde as bombas, mas eu nunca as esqueceria. Me cortaram e foram direto ao meu ponto fraco, fazendo minhas pernas virarem geléia. Isso me fez querer correr em pânico. Fiquei de pé, com o boné vermelho a cabeça, pensando somente numa coisa. Ange. Ange e a estátua do fundador.
Todos estavam de pé agora, correndo e gritando, em todas as direções. Empurrei algumas pessoas n meu caminho, segurando a mochila e o boné, enquanto ia na direção da estátua. Masha devia estar me procurando e eu procurava por Ange. E Ange não estava lá.
Empurrei e xinguei. Usei os cotovelos. Alguém pisou tão forte no meu pé que achei ter se quebrado e o empurrei e ele caiu. Ele tentou se levantar e alguém tropeçou nele. Eu era empurrado e empurrava.
Então alguém com mãos fortes agarrou meu pulso e cotovelo e num movimento fluido trouxe meu braço para as minhas costas. Senti como se meu ombro fosse sair do lugar e imediatamente me curvei. Gritando, um som que mal se ouvia devido ao brilho da multidão, do bater das pás dos helicópteros e do lamento das sirenes.
Fui endireitado, seguro por mãos fortes as minhas costas que me seguravam como se fosse uma marionete. Estava seguro de tal maneira que mal dava para virar-me. Não podia pensar nos helicópteros ou em Ange. Tudo que conseguia pensar era em me livrar de quem me mantinha preso. Consegui me mexer de maneira a ficar frente a frente com esta pessoa.
Era uma garota seu rosto anguloso parecendo um roedor, estava meio oculto por enormes óculos de sol. Sob os óculos, escapava um pouco de seu cabelo rosa espetado.
‘Você!” eu disse. Eu a conhecia. Ela tinha tirado uma foto minha e ameaçado me delatar ao vigia de gazeteiros. Cinco minutos antes dos alarmes de bomba começarem.  Ela tinha sido esperta e cruel. Nós corremos juntos daquele lugar em Tenderloin quando a polícia caiu sobre a gente e eu fui hostil e eles decidiram que eu era um inimigo.
Ela - Masha - se tornara aliada deles.

“Olá M1k3y!” ela disse beijando minha orelha, de perto, como se fossemos amantes. Ela soltou meu braço e eu me desvencilhei dela.
“Cristo! É você!”
“Sim, eu. O gás vai vir em dois minutos. Vamos ralar fora.”
“Ange, minha namorada, está na estátua do fundador.”
Masha olhou por sobre a multidão. “Sem chances! Se tentarmos chegar lá estamos ferrados. O gás vai baixar em dois minutos, caso não tenha entendido o que eu disse.”
Parei ali mesmo. “Não vou sem Ange!”
Ela riu: “Problema seu. É seu funeral!” ela gritou no meu ouvido.
Ela começou a empurrar a multidão se afastando para o norte em direção aos subúrbios. Eu continuei forçando caminho para a estátua. Um segundo depois, meu braço estava de novo às costas e eu estava sendo puxado para trás.
“Você sabe demais, seu Mané! Já viu meu rosto. Você vai comigo.”
Gritei e lutei contra ela até parecer que meu braço se partiria, mas ela continuava me puxando para trás. Com ela me usando como aríete, fizemos um bom avanço através da multidão. O som dos helicópteros mudou de repente e ela me deu um forte empurrão e gritou “Corre! Aí vem o gás!’
O barulho da multidão também mudou. Os gritos e reclamações pareceram diminuir bastante. Eu já tinha ouvido aquele som de algo sendo lançado no ar antes. Aquilo me levou de volta ao parque. O gás caia como chuva lentamente. Prendi a respiração e corri.
Nos livramos deles e ela soltou meu braço. Avancei com dificuldade o mais rápido que pude pelas calçadas enquanto a multidão ia se esvaziando. Íamos em direção a um grupo de policiais da DHS com escudos para confronto, capacetes e máscaras. Assim que passamos perto deles, eles se moveram em nossa direção para nos bloquear mas Masha exibiu um distintivo e eles se dissiparam como ela fosse Obi Wan Kenobi dizendo “Nós não temos os droids que vocês estão procurando.”
“Sua filha da puta!” falei enquanto corríamos pela rua do mercado. “Temos que voltar para pegar Ange!”
Ela apertou os lábios e balançou a cabeça “Sinto muito, chapa! Eu não vejo meu namorado há meses. Ele deve achar que estou morta. Se voltarmos para pegar Ange, estamos mortos. Se continuarmos, teremos uma chance. E se nós tivermos uma chance, ela também terá. Aqueles garotos não vão todos ser mandados para a prisão. Provavelmente irão pegar uns poucos para interrogatório e mandar o resto para casa.”
Tínhamos alcançado a rua do mercado, passado pelas casas de strip-tease onde os bêbados e viciados acampavam e usavam de banheiro ao ar livre. Masha me levou para uma pequena alcova, por uma portinha daqueles night-clubes. Tirou a jaqueta e virou ao avesso - o forro era de uma padrão grosso e do lado de dentro virado parecia diferente. Ela tirou um chapéu de lã do bolso e atarraxou na cabeça, parecendo um pico fora do lugar. Então ela pegou removedor de maquiagem e começou a trabalhar no seu rosto e unhas. Em minutos, era uma mulher diferente.

 “Mudança de guarda-roupa” ela disse. “Agora é sua vez. Tire os sapatos, a jaqueta e este boné.”
Eu sabia onde ela queria chegar. Os guardas deviam estar procurando atentamente por qualquer um que pudesse estar participando de um Vampmob. Tirei o boné. Nunca gostei de bonés de basebol. Enfiei minha jaqueta na mochila e peguei uma camisa de mangas longas com a foto de Rosa Luxemburgo nela, coloquei sobre a camisa preta. Deixei que Masha tirasse a maquiagem de meu rosto e tinta das unhas e um minuto depois eu estava limpo.
“Desligue o telefone.” ela disse. “Está carregando algum arphid?”
Eu tinha meu cartão do estudante, meu cartão de banco, meu Passe Rápido. Foi tudo para uma bolsa prateada que ela carregava consigo e que reconheci como sendo um saco Faraday à prova de ondas de rádio. Mas assim que ela a guardou percebi que tinha dado minha identidade para ela. Se ela estivesse trabalhando para o outro lado…

A grandeza daquilo que estava acontecendo começou a aparecer para mim claramente. Em minha cabeça eu imaginava ter Ange comigo neste ponto. Ange faria com que fosse dois contra um. Ange me ajudaria a ver se eu deixasse algo escapar. Se Masha não fosse tudo que ela dizia ser.
“Coloque estes seixos dentro dos sapatos antes de ….”
“Estou bem. Eu dei um jeito no pé. Nenhum programa de identificação vai me apanhar agora.”
Ela concordou e vestiu sua mochila. Eu peguei a minha e saímos dali. O tempo total pra nos trocarmos não chegou a um minuto. Parecíamos e andávamos agora como duas pessoas diferentes.
Ela consultou o relógio e balançou a cabeça. “Vamos lá. Temos que ir para o ponto de encontro. Não pense em correr. Você tem duas opções: eu ou a cadeia. Eles ficarão analisando os filmes daquela reunião de vampiros por vários dias, mas quando acabarem, cada rosto neles estará num banco de dados. Nossa saída do local será notada. Agora somos dois criminosos procurados.”

#

Ela nos levou até a rua do Mercado, através de Tenderloin. Eu conhecia a vizinhança. Era aquela onde estivemos procurando por um ponto de acesso aberto de WiFi, jogando Harajuku Fun Madness.
“Para onde vamos?” perguntei.
“Vamos pegar uma carona. Cale a boca e me deixe pensar.” ela respondeu.
Nos movíamos rapidamente e o suor escoria por nossos rostos, sob o cabelo, através das costas, escorregando pelo rego da bunda e coxas. Meu pé doía de verdade e eu via as ruas de São Francisco provavelmente pela última vez.
E estávamos subindo com dificuldade, indo para aquele lugar onde a miséria de Tenderloin dava lugar aos imóveis mais inacessíveis de Nob Hills. Minha respiração se transfomava em arfadas irregulares. Ela nos levava por becos estreitos usando as ruas maiores apenas para alcançar a ruela seguinte.
Acabávamos de entrar por outra viela, Sabin Place, quando alguém atrás de nos gritou: “Parados aí!” cheio de júbilo perverso. Paramos e nos viramos.
Na beira da viela Charles meio vestido a caráter para o Vampmob, uma camisa preta e jeans com o rosto pintado. “Olá, Marcus. Vai a algum lugar?” Sorriu um sorriso largo e úmido. “Quem é a sua namorada?”
“O que você quer, Charlie?”
‘Bem, eu tenho estado de olho naqueles traidores da Xnet desde que eu te vi distribuindo DVDs na escola. Quando fiquei sabendo da sua VampMob, eu resolvi participar, só para ver se você ia dar as caras e o que iria fazer. E sabe o que eu vi?’
Não disse nada. Ele estava com o telefone na mão, apontando para nós, Gravando. Talvez estivesse já pronto para discar 911. Ao meu lado, Masha ficou dura como uma tábua.
“Eu vi você liderando a maldita coisa. E eu gravei tudo, Marcus. Agora eu vou chamar a polícia e você vai esperar quietinho por eles. E depois você vai passar um bom tempo na prisão.”
Masha deu um passo à frente.
‘Parada aí, guria’ ele disse. “Eu te vi trazendo ele até aqui. Eu vi tudo…”
Ela deu outro passo e arrancou o telefone da sua mão, enquanto que com a outra ela mostrava uma carteira aberta.
“DHS, seu babaca! Eu sou do DHS. Eu estava seguindo este tapado até seus líderes para ver onde ele iria. Agora você estragou tudo. Nós temos um nome para isso e chamamos de ‘Obstrução da segurança nacional!’ Você vai ouvir muito sobre isso a partir de agora.”
Charles recuou, suas mãos no ar, na frente dele. Parecia mais pálido ainda sob a maquiagem. “O quê? Não! Quer dizer, eu não sabia! Eu só estava tentando ajudar!”
“A última coisa que precisamos é de um bando de agentes especiais juniores nos ajudando, camarada. pode falar isso para o juiz!”
Ele se moveu recuando de novo, mas Masha foi rápida. Agarrou seu pulso e o girou do mesmo jeito que fizera comigo no Centro Cívico. A mão dela foi aos bolsos de trás e trouxe uma tira de plástico, uma algema, com a qual ela rapidamente prendeu seus pulsos.
Isso foi a última coisa que vi antes de sair correndo dali.

#

Já estava longe, perto fim da viela quando ela me alcançou, lançando-me ao chão. Eu não conseguia me mover muito rápido por conta do pé machucado e o peso da mochila. Fui de cara ao chão e meu rosto feriu-se no asfalto.
“Jesus Cristo! Você é um idiota! Você acreditou naquilo, não foi?” ela disse.
Meu coração queria sair do peito. Ela estava sobre mim e lentamente me deixou sair.
“Vou precisar algemar você, Marcus?”
Fiquei de pé. Tudo doía. Eu queria morrer.
“Vamos lá!” ela disse, “Agora não estamos tão longe.”

#

Nosso objetivo acabou sendo um caminhão estacionado numa ruazinha de Nob Hill, dezesseis rodas, do tamanho de um daqueles inconfundíveis caminhões da DHS que ainda se viam pelas esquinas de São Francisco, com suas antenas à vista.
Este, contudo, tinha estampado na lateral “Três caras e um caminhão de mudança” e os três caras estavam saindo e entrando de um alto prédio de apartamentos, com toldo verde. Carregavam móveis, caixas fechadas, enchendo o caminhão e cuidadosamente empacotando tudo.
Ela nos levou para dar uma volta pelo quarteirão, aparentemente insatisfeita com alguma coisa e ao passarmos novamente por eles, ela fez contato visual com o homem que tomava conta do caminhão, um cara com um cinto de ferramentas e luvas grossas. Tinha um rosto gentil, sorriu para nós, enquanto subia os três degraus da escada, entrando em seu interior. “Debaixo da mesa grande”, ele disse. “Deixaremos um espaço para vocês.”
O interior estava cheio pela metade, ou um pouco mais. Mas havia um corredor estreito ao redor de uma enorme mesa coberta por cobertores e com plástico bolha nas pernas.
Masha me puxou para baixo da mesa. Ali era apertado e empoeirado e tive que segurar um espirro assim que nos metemos entre as caixas. O espaço era tão pequeno que estávamos praticamente um sobre o outro. Eu não achava que Ange pudesse caber ali conosco.
“Puta!” eu disse olhando para Masha.
“Cala a boca! Você devia lamber minhas botas em agradecimento. Você acabaria numa cela em uma semana. E não seria aqui em São Francisco. Talvez você fosse parar na Síria. Acho que é para lá que mandam quando querem sumir com alguém.”
Eu coloquei minha cabeça entre meus joelhos e respirei profundamente.
“Por quê você fez uma coisa tão estúpida quanto declarar guerra a DHS?”
Eu contei para ela. Sobre ter sido humilhado e sobre Darryl.
Ela vasculhou os bolsos e tirou um telefone. Era de Charlie. “Telefone errado.” Tirou outro telefone do bolso. Ligou e a luz do telefone iluminou nosso pequeno forte. Após teclar por um instante elao  mostrou  para mim.
Era a foto que ela tinha tirado de nós, um pouco antes das bombas explodirem. Uma foto de Jolu e Van, eu e… Darryl.
Eu segurava na minha mão a prova de que Darryl estivera conosco antes de sermos levado para ficar em custódia da DHS. Prova de que ele estava vivo e bem e em nossa companhia.
“Você tem que me dar uma cópia disso. Eu preciso.” Eu disse.
“Quando a gente chegar em Los Angeles.” ela falou, fechando o telefone. “Quando você tiver entendido como ser um fugitivo sem nos colocar em perigo de sermos despachados para a Síria. Não quero que tenha idéias sobre resgatar este cara. Ele está seguro onde está… por enquanto.”
Pensei em tirar o telefone dela à força, mas ela já demonstrara sua força física. Ela devia ser faixa preta ou algo assim.

Ficamos sentados lá no escuro, ouvindo os outros três caras encherem o caminhão, caixa após caixa, amarrando coisas e grunhindo de esforço ao fazê-lo. Tentei dormir, mas não consegui. Masha não tinha problemas para isso. Ela roncava.
Ainda havia luz brilhando através do estreito e obstruído corredor através do qual entrava o ar fresco do exterior. Fiquei olhando para lá, pensando em Ange.
Minha Ange. Seus cabelos escorrendo sobre seus ombros enquanto virava a cabeça de um lado para outro, rindo de algo que fiz. Pensei em seu rosto quando a vi pela ultima vez, sumindo na multidão da VampMob. Todas aquelas pessoas da VampMob, como aquelas no parque, sendo derrubadas e sofrendo, o DHS avançando com seus cassetetes. Aqueles que desapareceram.
Darryl. Preso na Treasure Island, sendo levado da sua cela para intermináveis interrogatórios sobre os terroristas.
O pai de Darryl, acabado, barbado e embriagado. Depois, de banho tomado para “as fotos.” Lacrimejando feito um menininho.
Meu próprio pai, e o jeito com que ele mudou devido ao meu desaparecimento em Treasure Island. Tinha sido quebrado, como o pai de Darryl, mas ao seu modo. E seu rosto, quando eu contei onde eu estivera.
E foi então que eu soube que não podia fugir.
Foi quando eu soube que precisava ficar e lutar.

#

A respiração de Masha era pesada e ritmada, mas quando eu tentei alcançar seu bolso com um movimento tão lento quanto o de uma geleira, tentando pegar seu telefone, ela se mexeu um pouco e fungou. Congelei e sequer respirei por dois minutos inteiros, contando um hipopótamo, dois hipopótamos…
Devagar, sua respiração voltou a ficar como antes. Retirei seu telefone do bolso do casaco milímetro por milímetro, meus dedos tremiam pelo esforço de mover-se tão lentamente.
Então o peguei, tinha a forma de uma pequena barra de doce.
Virei-me em direção a luz quando tive um flash de memória. Charles segurando seu telefone, nos filmando. Com um telefone na forma de uma pequena barra de doces, prateado, com logos de uma dúzia de companhias. O tipo de telefone subsidiado em que você é obrigado a ouvir um comercial cada vez que faz uma ligação.

Estava escuro demais para ver o telefone perfeitamente no caminhão, mas eu podia senti-lo. Tinha decalques nas laterais. Sim. Sim. Eu tinha roubado o telefone de Charles.
Virei-me devagar, devagar, bem devagar. Alcancei seu outro bolso. O seu telefone era grande e massudo, com uma ótima câmera e sabe-se lá mais o quê.
Eu já tinha conseguido antes, o que fazia a coisa toda mais simples. Milímetro por milímetro novamente, libertei-o do seu bolso, parando apenas quando ela fungou por duas vezes.
Estava com ele e comecei a me voltar, levando-o comigo, quando sua mão moveu-se rápida como uma cobra e agarrou meu pulso, com força, os dedos se fechando nos ossos da minha mão.
Engasguei e vi os olhos de Masha abertos me fitando.
“Você é um idiota!” ela disse, tirando-me o telefone. “Como achava que ia conseguir desbloqueá-lo?”
Engoli em seco. Senti os ossos do meu pulso sendo espremidos. Fiz força para não gritar.
Com a outra mão ela me socou. “Era isso que você queria?” Ela me mostrou a nossa foto. “Esta foto?”
Não disse nada. Meu pulso parecia que iria se quebrar.
“Talvez eu a apague, acabando com esta tentação!” Sua mão livre moveu-se em direção ao telefone. Seu telefone perguntava se ela estava certa do que iria fazer e ela teve que olhar para ele para ver o botão certo.
Foi aí que eu ataquei. Eu ainda tinha o telefone de Charles na minha outra mão e acertei sua mão o mais forte que consegui, batendo meus dedos na mesa sobre nós. Acertei-a tão forte que o telefone se partiu e ela gritou e sua mão se afrouxou. No mesmo movimento alcancei sua outra mão, e seu telefone agora desbloqueado com seu polegar ainda sobre a tecla de OK. Seus dedos ficaram no ar quando arranquei o telefone dela.

Corri para o corredor estreito usando as mãos e joelhos, em direção da luz. Senti suas mãos acertando meus pés e tornozelos por duas vezes. E ainda precisei empurrar uma daquelas caixas que haviam nos emparedado como o Faraó em sua tumba. Algumas caixas caíram atrás de mim e ouvi Masha gemer.
A porta de correr do caminhão estava aberta numa brecha e eu mergulhei através dela. Os degraus haviam sido retirados e me vi balançando sobre a rua, pendurado. Agarrei-me ao pára-choques e arrastei desesperadamente o fecho da porta, até o seu fim. Masha gritou do lado de dentro… Eu devia ter acertado seus dedos. Pensei que iria vomitar, mas não o fiz.
Eu tinha trancado o caminhão. 



Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 19 [ Download ]