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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Asimov por Asimov



Muito embora eu já tenha escrito mais de cento e vinte livros, sobre qualquer assunto, desde astronomia até Shakespeare, e de matemática até sátira, é provavelmente como escritor de ficção científica que sou melhor conhecido.

Comecei como escritor de ficção científica, e durante os primeiros onze anos de minha carreira literária escrevi apenas e tão-somente histórias de ficção científica, apenas para publicação em revistas — e por um pagamento escasso. A idéia de efetivamente publicar bons livros nunca passou por minha mente, em essência humilde.

Mas veio o tempo em que comecei a produzir livros, e então comecei a reunir o material que de início escrevi para revistas.
Entre 1950 e 1969, dez coletâneas apareceram (todas publicadas pela Doubleday).

Estas continham oitenta e cinco histórias (mais quatro peças de versos cômicos) originalmente destinados, e publicados, em revistas de ficção científica. Quase um quarto delas veio dos primeiros onze anos.

Para registro, estes livros são:

Eu, Robô -1950 (I, Robot)
Fundação -1951 (Foundation)
Fundação e Império -1952 (Foundation And Empire)
Segunda Fundação- 1953 (Second Foundation)
Nós, os Marcianos -1955 (The Martian Way, And Other Stories)
A Terra é Espaço o Bastante -1957 (Earth Is Room Enough)
Nove Amanhãs -1959 (Nine Tomorrows)
O Resto Dos Robôs -1964 (The Rest Of The Robots)
Os Mistérios De Asimov -1968 (Asimov’s Mysteries)
O Cair Da Noite -1969 (Nightfall And Other Stories)

Pode-se argumentar que isto tenha sido bastante, mas com esta argumentação, omite-se o delirante apetite de meus leitores (abençoados sejam!). Estou constantemente recebendo cartas pedindo listas de histórias antigas, minhas, para que os missivistas possam revirar lojas de livros usados procurando revistas antigas.

Há pessoas que preparam bibliografias de minha ficção científica (não perguntem a mim por que) e que querem saber todo o tipo de pormenores insignificantes a meu respeito. Até mesmo ficam irritados quando descobrem que algumas das primeiras histórias nunca foram vendidas.

Querem essas, também, aparentemente, e parecem pensar que eu negligentemente destruí uma fonte natural.

Assim, quando a Panther Books, da Inglaterra, e a Doubleday, sugeriram que eu fizesse uma coleta daquelas minhas primeiras histórias ainda não coligidas nos dez livros arrolados acima, não mais pude resistir. Todos que me encontraram sabem como sou sensível a elogios, e se você pensa que posso suportar este tipo de adulação por mais de meio segundo (numa estimativa grosseira), está totalmente errado.

Afortunadamente, tenho um diário, que tenho mantido desde 1º de janeiro de 1938 (o dia anterior a meu décimo oitavo aniversário); e que pode me dar datas e pormenores.(ver nota 1)

Comecei a escrever quando era muito jovem — onze, creio. As razões são obscuras. Poderia dizer que foi o resultado de um impulso irracional, mas isto indicaria que apenas não poderia pensar em nenhuma razão.

Talvez foi porque eu era um leitor ávido numa família que era pobre demais para comprar livros, mesmo os mais baratos, além do que, uma família que considerava livros baratos, leitura inadequada. Eu precisava ir à biblioteca (meu primeiro cartão de biblioteca foi tirado para mim por meu pai, quando eu tinha seis anos de idade) e me permitia dois livros por semana.

Isto simplesmente não era suficiente, e minhas necessidades levaram-me a extremos. No começo de cada período letivo, avidamente lia todo livro escolar que era adotado, indo de capa a capa, como uma deflagração personificada. Como fui abençoado com uma memória tenaz e lembrança instantânea, era todo o estudo que eu tinha de fazer para aquele período letivo, mas eu já tinha acabado antes do fim da semana, e então, ler o
quê?

Então, quando eu tinha onze anos, ocorreu-me que se eu escrevesse meus próprios livros, poderia relê-los a meu bel-prazer. Nunca realmente escrevi um livro inteiro, claro. Eu começava um e continuava mexendo com ele até que me cansava e começava outro.

Todos estes escritos iniciais foram-se para sempre, embora ainda me lembre de alguns pormenores bem claramente.

Na primavera de 1934, fiz um curso especial de inglês dado na minha escola (“Boys’ High School, no Brooklyn, Nova Iorque), que enfatizava o aspecto da redação. O professor era também conselheiro da faculdade para a revista literária semestral feita pelos estudantes, e era intenção dele coletar material.
Fiz aquele curso.

Foi uma experiência humilhante. Tinha catorze anos na época, catorze anos bastante imaturos e inocentes. Escrevia trivialidades, enquanto que todo mundo na classe (que eram dezesseis ao todo) escreviam peças sofisticadas, de tom trágico. Todos eles não faziam segredo de seu particular desprezo por mim, e não obstante eu me ressentisse disto amargamente, não havia nada que eu pudesse fazer.

Por um momento, pensei que os vencera, quando uma de; minhas produções foi aceita para a revista semestral, ao passo que muitas das deles foram rejeitadas. Infelizmente, o professor contou-me, com uma rude insensibilidade, que a minha era a única apresentada que era humorística, e como ele precisava ter uma peça não-trágica, foi forçado a tomá-la.

Era chamada “Irmãozinhos” (“Little Brothers”), tratando do nascimento de meu próprio irmão mais novo, havia cinco anos, e foi minha primeira peça publicada. Suponho que pode ser localizada nos arquivos da “Boys’ High”, mas eu não a tenho. Por vezes imagino o que aconteceu com todos aqueles grandes escritores trágicos da classe. Não me lembro de um só nome e não tenho intenção de jamais tentar descobrilos — mas por vezes, fico pensando.

Apenas em 29 de maio de 1937 (de acordo com uma data que, uma vez anotei — se bem que foi antes que começasse meu diário, de modo que não tenho certeza), que a vaga idéia ocorreu-me de escrever algo para publicação profissional; algo pelo que seria pago!

Naturalmente, teria que ser uma história de ficção científica, pois eu tinha sido um fanático da ficção científica desde 1929, e não reconhecia nenhuma outra forma de literatura que de qualquer modo fosse digna de meus esforços.

A história que comecei a compor para este fim, a primeira história que jamais escrevera com o fito de me tornar um “escritor”, era intitulada “Saca-rolha Cósmico” (“Cosmic Corkscrew”).

Nela, eu via o tempo como uma hélice (isto é, algo como uma mola de cama).

Poder-se-ia cortá-la de uma volta diretamente para a próxima, assim movendo-se para o futuro por um exato intervalo, mas sendo incapaz de viajar um dia a menos no futuro.

Meu protagonista cortou o tempo e descobriu a Terra deserta. Toda a vida animal havia desaparecido; se bem que havia sinais de que a vida existira até muito tempo antes — e nenhuma indicação do que havia causado o desaparecimento. Era narrada na primeira pessoa, num asilo de loucos, porque o narrador, claro, fora colocado num hospício depois de voltar e tentar contar a história.

Escrevi apenas algumas páginas em 1937, então perdi o interesse, O mero fato de que tinha a publicação em mente, me paralisava. Enquanto algo que eu escrevia destinava-se apenas para meus olhos, podia ficar despreocupado. O pensamento de outros possíveis leitores pesava grandemente sobre cada uma de minhas palavras. — Então abandonei o projeto.

Então, em maio de 1938, a mais importante revista no campo, Astounding Science Fiction, mudou seu prazo de publicação da terceira quarta-feira do mês para a quarta sexta-feira.
Quando o número de junho não veio no seu dia de costume, fiquei deprimido.

A 17 de maio, não pude mais suportar, e tomei o metrô até o nº 79 da Sétima Avenida, onde a editora, Street & Smith Publications, inc, estava então localizada. Ali, um funcionário da firma informou-me da mudança de prazos, e a 19 de maio, chegou o número de junho. (ver nota 2)

A proximidade do desespero, e o alívio extático que se seguiu, reativaram meu desejo de escrever para publicação. Voltei a “Saca-rolha Cósmico”, e a 19 de junho, estava acabado.

A questão seguinte era: o que fazer com ele. Não tinha a menor idéia do que se fazia com um manuscrito que se desejava publicar, e tampouco quem eu conhecia. Discuti o assunto com meu pai, cujo conhecimento do mundo real era pouco maior do que o meu, e ele também não fazia idéia.

Mas então ocorreu-me que, no mês anterior, eu tinha ido até o nº 79 da Sétima Avenida meramente para perguntar sobre a não-aparição de Astounding. Não havia me dado conta de ter feito isso. Por que não repetir a viagem, então, e levar o manuscrito em pessoa?

A idéia era assustadora. Tornou-se ainda mais assustadora, quando meu pai sugeriu que preliminares necessárias incluíam a barba feita e minha melhor roupa. Isto significava que eu teria que gastar um tempo adicional, e o dia já estava acabando e eu teria que estar de volta para fazer a entrega dos jornais vespertinos. (Meu pai tinha uma doceira e uma banca de jornais, e a vida era muito complicada naqueles dias para um escritor criativo e de inclinação artística e sensível como eu.

Por exemplo, vivíamos num apartamento em que todos os quartos estavam alinhados, e o único modo de ir da sala de estar para o quarto de meus pais, ou de minha irmã, ou de meu irmão, era passando por meu quarto.

Meu quarto era freqüentemente passagem, e o fato de que eu poderia estar nas dores da criação, nada significava para ninguém.) Cheguei a um meio-termo. Fiz a barba, mas não me incomodei em trocar de roupa, e lá fui eu. A data era 21 de junho, 1938.

Eu estava convencido de que, por ousar pedir para ver o editor de Astounding Science Fiction, eu seria atirado fora do edifício, e meu manuscrito seria picotado e jogado atrás de mim, como confete. Meu pai, porém (que tinha ideais nobres) estava convencido de que um escritor — com o que ele significava qualquer um com um manuscrito — seria tratado com o respeito devido a um intelectual. Não tinha receios nenhum — mas era eu que ia entrar naquele edifício.

Tentando mascarar o pânico, pedi para ver o editor. A garota atrás da mesa (posso ver a cena agora com o olho de minha mente exatamente como ocorreu) falou brevemente ao telefone e disse: — “O sr. Campbell poderá vê-lo”.

Conduziu-me por uma sala grande, pomposa, cheia de grandes rolos de papel e enormes pilhas de revistas e permeada com o cheiro celestial de papel (cheiro que até hoje recorda minha juventude com dolorosa minúcia e reduzem-me a lágrimas de nostalgia). E ali, numa pequena sala do outro lado, estava o sr. Campbell.

John Wood Campbell Jr. estava trabalhando para Street &Smith já há um ano, e tomara o comando de Astounding Stories (que logo rebatizou como Astounding Science Fiction), havia quase dois meses.

Tinha então apenas vinte e oito anos. Sob seu próprio nome e seu pseudônimo, Don A. Stuart, era um dos mais famosos e altamente considerados autores de ficção científica, mas estava para enterrar sua reputação para sempre sob o renome muito maior que estava para ganhar como editor.

Deveria permanecer como editor de Astounding Science Fiction e de seu sucessor — “Analog Science Fact— Science Fiction por um terço de século. Durante todo esse tempo, ele e eu permanecemos amigos, mas por mais velho que eu ficasse, e por mais venerável e respeitável astro de nosso campo mútuo eu me tornasse, nunca me aproximei dele com nada senão o respeito que ele me inspirou na ocasião de nosso primeiro encontro.

Ele era um homem grande, e obstinado, que fumava e falava constantemente, e que apreciava, acima de tudo, a criação de idéias ultrajantes, com que agredia seu interlocutor, e desafiava-o a refutar. Era difícil refutar Campbell, mesmo quando suas idéias eram absoluta e loucamente ilógicas.

Conversamos por mais de uma hora, naquela primeira vez. Ele mostrou-me os próximos números da revista (números verdadeiramente futuros, já produzidos). Vi que ele publicara uma de minhas cartas no número seguinte, e outra no próximo — de modo que conhecia a genuinidade de meu interesse.

Contou-me a respeito dele mesmo, sobre seu pseudônimo e sobre as suas opiniões.

Contou-me que seu pai havia enviado um de seus manuscritos para Amazing Stories quando tinha dezessete anos, e que deveria ser publicado, mas a revista o perdeu, e ele não tinha cópia em carbono. (Neste ponto, fiz melhor do que ele. Trouxe a história eu mesmo, e tinha um carbono.) Também prometeu ler minha estória naquela noite, e enviaria uma carta, quer aceitando ou rejeitando, no dia seguinte. Prometeu também que em caso de rejeição, diria o que estava errado, de modo que eu pudesse me aperfeiçoar.

Cumpriu todas as promessas. Dois dias mais tarde, a 23 de junho, tive notícias dele. Era uma rejeição.

(Como este livro trata de eventos reais, e não é uma fantasia — você não deve se surpreender se minha primeira história foi instantaneamente rejeitada.)

Eis o que eu disse no meu diário sobre a rejeição: “As 9:30 recebi de volta o “Saca-rolha Cósmico”, com uma educada carta de rejeição. Ele não gostou do começo lento, e do suicídio no final.”

Campbell também não gostara da narrativa na primeira pessoa e do diálogo rígido,e também apontou que a extensão (nove mil palavras) era inconveniente — muito longo para um conto, e muito curto para uma novela. As revistas precisam ser montadas como quebra-cabeças, e certos comprimentos de contos eram mais convenientes que outros.

Por aquela época, porém, estava em plena euforia. A alegria de ter passado mais de uma hora com John Campbell, a emoção de conversar face a face em termos iguais com um ídolo, já tinha me enchido com a ambição de escrever outra história de ficção científica, melhor que a primeira, de modo que pudesse consultá-lo de novo. A agradável carta de rejeição — duas páginas inteiras — em que discutia minha história seriamente e sem traços de paternalismo ou desprezo, reforçou minha alegria. Antes de 23 de junho terminar, estava a meio caminho do primeiro esboço de outra história.

Muitos anos mais tarde, perguntei a Campbell (com quem, então, tinha travado grande amizade) por que ele havia se ocupado de mim, já que aquela primeira história era literalmente intragável.

“Realmente era”, disse, francamente, pois nunca adulava. “Por outro lado, eu vi algo em você. Você estava ansioso e escutava, e sabia que não desistiria, não importando quantas rejeições eu lhe desse. Enquanto você estivesse desejoso de trabalhar duro e aperfeiçoar-se, eu estava pronto a trabalhar com você.”

E assim era John. Eu não era o único escritor, calouro ou veterano, com quem ele trabalhava deste modo. Pacientemente, e com sua enorme vitalidade e talento, construiu um corpo dos melhores escritores de ficção científica que o mundo tinha, até então,jamais visto.

O que aconteceu a “Saca-rolha Cósmico” depois disto, sinceramente, não me lembro. Abandonei-a e nunca a apresentei em nenhum outro lugar. De fato, não a rasguei e joguei fora; simplesmente repousou em alguma gaveta de escrivaninha, até que, eventualmente, a perdi de vista. Em qualquer caso, não mais existe.

Esta parece ser uma das principais fontes de desconforto entre os arquivistas — parecem pensar que a primeira história que escrevi para publicar, por pior que fosse, seria um importante documento. Tudo o que posso dizer, amigos, é que sinto muito, mas não havia modo de saber, em 1938, que minha primeira tentativa pudesse ter interesse histórico algum dia.

Posso ser um monstro de vaidade e arrogância, mas não sou tão monstruosamente vaidoso e arrogante.

Além do que, antes de terminar o mês, eu terminava minha segunda história,“Clandestino” (“Stowaway”), e estava concentrado nela.Levei-a ao escritório de Campbell a 18 de.julho de 1938, e ele apenas demorou-se um pouquinho mais para devolvê-la, mas a rejeição veio a 22 de julho.

Disse em meu diário, quanto à carta que a acompanhava: “... foi a rejeição mais simpática que se possa imaginar.

Realmente, a melhor coisa depois de ser aceita. Disse-me que a idéia era boa, e o enredo, passável. O diálogo e a movimentação, continuava, não eram rígidos e lentos (o que foi uma agradável surpresa para mim) e que não havia nenhum erro em particular, mas apenas um ar geral de amadorismo, constrangimento forçado. A história não se desenvolvia suavemente. Isto, ele disse, eu superaria assim que tivesse experiência suficiente. Assegurou-me que eu provavelmente estaria apto a vender minhas histórias, mas isto significava talvez trabalho de um ano e uma dúzia de histórias antes de começar realmente...”

Não é de surpreender que tal “carta de rejeição” mantivesse-me carregado com um enorme entusiasmo para escrever, e logo pus-me a trabalhar numa terceira história.

Além disso, eu estava suficientemente encorajado a tentar submeter “Clandestino” a alguém mais. Naqueles dias, havia três revistas de ficção científica nas bancas.

Astounding era a aristocrata delas, mensal, com os cantos encurvados, e uma aparência de classe. As outras duas, Amazing Stories e Thrilling Wonder Stories eram um tanto mais primitivas na aparência e publicava histórias com mais ação e enredos menos sofisticados.

Enviei “Clandestino” a Thrilling Wonder Stories, que, porém, rejeitou-a prontamente a 9 de agosto de 1938 (com uma carta impressa). A estas alturas, porém, eu estava profundamente engajado com minha terceira história, a qual, como veio a ser, estava fadada a se sair melhor— e mais depressa. Neste livro, no entanto, estou incluindo minhas histórias não na ordem de publicação, mas na de redação — que, presumo, é mais significativo do ponto de vista do desenvolvimento literário. Tratarei, portanto, de “Clandestino”.

No verão de 1939, no tempo em que obtive meus primeiros poucos sucessos, retomei a “Clandestino”, remodelei-o, e tentei Thrihing Wonder Stories de novo. Indubitavelmente, eu tinha uma leve suspeita de que o novo lustro de meu nome faria com que lessem-no com uma atitude diferente do que havia sido o caso quando eu era completamente desconhecido. Estava completamente errado. Fui rejeitado de novo.

Então tentei Amazing, e, de novo, foi rejeitada.

Isto significaVa que a história tinha morrido, ou teria significado, se não fosse o fato de que a ficção científica estava entrando numa pequena expansão, ao aproximar-se o fim da década de 30. Novas revistas estavam sendo fundadas, e pelo fim de 1939, planos foram feitos para publicar uma revista a ser chamada Astonishing Stories que era vendida a dez centavos (Astounding custava vinte centavos o exemplar).

A nova revista, juntamente com uma revista-irmã, Super Science Stories, seria editada com grandes dificuldades por um jovem fã da ficção científica, Frederik Pohl, que estava completando vinte anos (era um mês mais velho do que eu) e que, desta forma, fazia sua entrada no que viria a ser uma marcante carreira profissional na ficção científica.

Pohl era um rapaz magro, de voz suave, com o cabelo já escasseando, um rosto solene, e seus dentes se projetavam ao sorrir, dando-lhe um aspecto de coelho. Os fatos econômicos de sua vida mantinham-no afastado da escola, mas ele era muito mais brilhante (e sabia disso) do que qualquer graduado que já encontrei.

Pohl era amigo meu (e ainda é) e talvez tenha feito mais para me ajudar a começar a minha carreira literária do que ninguém exceto, claro, o próprio Campbell. íamos juntos às reuniões do fã-clube. Ele tinha lido meus manuscritos e gostara deles — e agora precisava de histórias depressa — e a preço baixo para suas novas revistas.

Pediu para ver meus manuscritos de novo. Começou escolhendo uma de minhas histórias para seu primeiro número. A 17 de novembro de 1939, quase um ano e meio depois de “Clandestino” ter sido escrito, Pohl selecionou-a para inclui-lo em seu segundo número de Astonishing. Era um inveterado trocador de títulos, porém, e colocou “A Ameaça de Calisto” na história, e foi assim que foi publicada.

Notas
1- O diário começou com o tipo de coisa que um adolescente escreveria, mas logo degenerou num tom simples de registro literário. E, para qualquer um que não eu, literalmente entediante tanto, de fato, que deixo-o para quem quer que o queira ler. Ninguém nunca lê mais do que duas paginas. Ocasionalmente alguém me pergunta se nunca senti que meu diário deveria registrar meus sentimentos mais íntimos, e emoções, e minha resposta é sempre “Não, nunca!” Afinar, para que ser um escritor se vou desperdiçar meus sentimentos e emoções mais íntimos num mero diário
2- Contei esta história com com alguma minúcia num artigo intitulado “Retrato do Escritor enquanto Rapaz”, incluído no Capítulo 17 de meu livro de ensaios, "Ciência, Números e EU". Nele, confiando apenas na memória, disse que tinha chamado Street & Smith ao telefone. Quando consultei meu diário para verificar as datas reais para este livro, fiquei surpreso ao descobrir que realmente havia feito a viagem de metrô — realmente uma aventura ousada para mim naqueles dias, e uma medida de meu desespero


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sábado, 29 de agosto de 2009

Viagem Fantástica 2 - Rumo ao Cérebro - Isaac Asimov



A viagem, por si só, pode ser a melhor parte da
empreitada, mas só se você conseguir chegar até seu destino. Dezhnev (pai)



MORRISON SENTIU calor imediatamente e perdeu o fôlego. Como dissera Konev, a temperatura era de trinta e sete graus, como a de um dia quentíssimo de verão, sem que houvesse sombra ou brisa para refrescar.

Olhou em volta, tentando se orientar. Ficou claro que Natália miniaturizara ainda mais a nave enquanto ele estivera lutando para se enfiar no escafandro.

A parede ladrilhada do capilar estava bem mais longe.

Ele só conseguia ver um pequeno pedaço dela, porque havia um imenso objeto nebuloso atrapalhando a visão: um glóbulo vermelho, era claro. Uma plaqueta também passou entre o eritrócito e a parede, deslizando bem devagar.

Tanto os objetos quanto a nave e ele próprio estavam navegando com a corrente muito lenta do interior do capilar, pelo que ele pôde deduzir quando escolheu alguns “ladrilhos” como referência.
Morrison tornou a se perguntar por que sentia tão pouco o movimento browniano.

Continuava tendo a sensação de tremor, ainda que pouco intensa, e podia ver que os objetos à sua volta também pareciam tremer. Até o desenho das células da parede parecia se alterar um pouco, de um forma estranha. Mas não tinha tempo para especulações e análises.

Tinha que cumprir a missão e voltar para a nave.

Estava a mais ou menos um metro dela. Um “metro subjetivo”, pensou. Quantos mícrons teria, de quantos milionésimos de metro seria a distância real? Não se deu ao trabalho de tentar calcular.

Começou a manobrar com as nadadeiras para voltar à superfície da nave. O plasma era muito mais viscoso que a água do mar e a sensação era desagradável.

O calor, naturalmente, continuava. Não diminuiria enquanto o corpo dentro do qual se encontrava estivesse vivo. Sua testa já estava coberta de suor. Tinha que trabalhar rápido. Esticou o braço para tocar o ponto pelo qual deixava a nave, mas não conseguiu. Era quase como se a mão estivesse apertando uma almofada elástica de ar comprimido, mas ele não via nada entre ela e o casco, a não ser o próprio fluido.

Compreendeu logo o que estava acontecendo. A superfície externa do escafandro tinha carga elétrica negativa e a porção do casco que tentara tocar, também. Estava sendo repelido. Mas aquilo não deveria causar problema: era só achar algum pedaço do casco com carga contrária. Tateou até sentir o plástico mas isso não adiantou muito.

A sensação era a mesma que tocar uma superfície incrivelmente escorregadia.

De repente, com um “clique” quase audível, a mão esquerda grudou no casco. Encontrara um ponto com carga positiva. Tentou soltá-la com um pequeno esforço e, logo em seguida, com toda a força do braço. Era como se a mão estivesse soldada à superfície.

Começou a tatear com a direita, procurando um ponto de apoio para livrar a esquerda. “Clique”, outra vez. Apoiou o peso do corpo na direita e puxou a esquerda com toda a força.

Nada aconteceu. Estava preso ao casco, crucificado nele.

O suor rolava fortemente pelo rosto e depositava-se sob as axilas.
Começou a gritar, inutilmente, e a agitar as pernas. Os da nave acompanhavam com os olhos todos os seus movimentos, mas como gesticular sem usar as mãos?

O glóbulo vermelho que o vinha acompanhando o tempo todo aproximou-se e apertou seu corpo contra a nave. Seu tronco, no entanto, não ficou grudado.

Tocara, por sorte, uma área sem carga positiva. Sophia estava observando-o fixamente, tentando dizer-lhe alguma coisa, mas Morrison não sabia ler os movimentos de seus lábios, pelo menos em russo.

Notou que ela mexia num controle do computador e o braço esquerdo soltouse.
A moça devia ter reduzido a intensidade da carga. Balançou a cabeça para ela, torcendo para que entendesse seu gesto de agradecimento.
Tudo o que tinha a fazer agora era caminhar com os braços, saltando de carga em carga positiva, até a popa da nave.

Foi-se movimentando aos poucos, com dificuldade, e descobriu que, mais que a força da interação eletromagnética, o que atrapalhava agora era a pressão macia do glóbulo vermelho.
— Sai! Vai embora! — gritou em vão. O corpúsculo desempenhava um papel completamente passivo. Não era afetado por gritos.

Empurrou-o com força, usando os dois pés e uma das mãos. A superfície elástica e fina do glóbulo, de início, recuou e afundou, mas a resistência foi aumentando à medida que seus membros foram avançando.

Morrison viu que aquilo não adiantava.
Cansado, deixou o corpo ser empurrado de volta contra a nave.
Tentou recuperar o fôlego, o que não foi fácil, quente e ensopado de suor como estava. Começou a tentar imaginar o que o poria fora de combate primeiro: a desidratação ou a febre, que fatalmente viria, se continuasse incapaz de se livrar do calor produzido pelo próprio corpo e, ainda por cima, extenuando-se daquele jeito na luta para afastar o glóbulo vermelho.

Levantou o braço o máximo que conseguiu e o baixou com toda a força num golpe, voltando a borda da nadadeira manual contra a película do glóbulo, que se rompeu como um balão de borracha. A tensão superficial foi alargando cada vez mais o corte e o conteúdo começou a vazar: uma nuvem fina de grânulos.

O corpúsculo foi esvaziando e encolhendo.
Morrison sentiu-se culpado. Teve a sensação de que matara uma criatura inofensiva. Consolou-se com o pensamento de que havia trilhões daqueles no sistema circulatório e que seu tempo de vida, de qualquer maneira, não passava de uns quatro meses.

Agora já podia se deslocar até a popa. Não havia condensação no plástico do escafandro. Nem poderia haver: tudo estava à mesma temperatura e o tecido fora desenvolvido de forma a não aderir a nada.

O que poderia se condensar provavelmente estava rolando de um lado para outro, com seus movimentos, e se acumulando nas dobras do escafandro.
Chegou à popa, ao ponto em que as linhas aerodinâmicas da nave eram rompidas pelas saídas dos três motores a microfusão.

Estava o mais longe possível do centro de gravidade. Confiou na sorte e esperou que os outros quatro tivessem a mesma idéia e se reunissem o mais perto possível da proa.

Lamentou não lhes ter recomendado aquilo antes.
O que tinha a fazer agora era encontrar áreas com cargas positivas para apoiar as mãos e empurrar com força.

Sentiu-se um pouco tonto. A causa seria física ou emocional?
Não fazia diferença. O efeito era o mesmo.

Respirou profundamente, sentindo os olhos ardendo com as gotículas de suor que escorriam sobre eles. Não podia fazer nada quanto a elas. Teve outro acesso de fúria contra os idiotas que haviam projetado aquele traje de mergulho.

Entre aquilo e nada, pouca diferença havia.
Conseguiu firmar as mãos no casco e começou a bater as nadadeiras dos pés. Daria certo? A massa que tinha que movimentar era de alguns microgramas, apenas, mas de que energia dispunha? Uns poucos microergs? Sabia que a relação entre quadrados e cubos lhe dava uma vantagem enorme mas, mesmo assim, qual seria a eficiência de seu empurrão?

A nave moveu-se. Era fácil constatar o movimento, usando os “ladrilhos” da parede do capilar como referência. Seus pés já podiam tocar a parede, o que significava uma rotação de noventa graus.

O eixo principal da nave estava perpendicular à corrente. Firmou os pés na parede e empurrou de novo, com um exagero de força.

Se rompesse o capilar, as conseqüências poderiam ser terríveis, mas sabia que não dispunha de muito tempo, e não estava suficientemente lúcido para pensar a longo prazo. Felizmente, seus pés soltaram-se das células da parede, como se tivesse chutado uma cama elástica, e a nave girou um pouco mais.

Em seguida, encalhou.
Morrison procurou entender o que estava acontecendo, apertando os olhos com esforço para ver melhor. Estava perdendo a respiração no calor úmido e abafado do escafandro.
Era, com certeza, outro glóbulo vermelho. Só podia ser.

Dentro do capilar, o trânsito engarrafava-se como os carros na avenida principal de alguma cidade grande. Desta vez não hesitou. Baixou logo a nadadeira da mão direita, repetindo o golpe anterior, e causou um enorme talho.

E não perdeu tempo, como antes, lamentando a execução de uma vítima inocente.
Tornou a bater os pés e a nave retomou a rotação.
Torceu para que estivesse na direção certa.

E se tivesse invertido sua posição durante o selvagem ataque ao eritrócito, deslocando a nave de volta à situação anterior? Deixou sem resposta a pergunta.
Já estava quase sem condições de raciocinar.
A nave agora estava paralela a eixo do capilar.

Completamente sem fôlego, ele tentou observar os “ladrilhos” da parede.
Se parecessem se deslocar na direção da popa, a proa estaria apontada de maneira correta, contra a corrente, voltada para a junção do capilar com a arteríola.

Achou que tudo estava certo. Não, não conseguia achar mais nada.
Certo ou errado, tinha que retornar para a nave.

Não estava disposto a dar a vida em troca de êxito.

Mas onde estava a escotilha? Tateou cegamente a superfície do casco, sentindo aqui e ali as áreas de carga positiva e deslocando o corpo aos trancos.

Conseguiu entrever quatro figuras no interior da nave, fazendo gestos que não foi capaz de interpretar. Os vultos começaram a sair de foco. Alguém. apontou para cima. E onde era para cima?

Encontrava-se sem força para mover o corpo.

O último pensamento foi o de que, para cima ou para baixo, não fazia muita diferença para quem não tinha massa nem peso.

Deu um impulso para cima, sem entender bem por quê, e a escuridão o envolveu completamente.




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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Before the golden age - Isaac Asimov


Before the Golden Age é uma antologia composta por 25 histórias de Ficção científica, inicialmente publicadas nos anos 30, em revistas populares (pulp magazines).

Estas histórias, selecionadas por Asimov, tem por principal critério de escolha, terem sido responsáveis por influenciá-lo em seu início de carreira.
A antologia inclui também o conto 'BIG GAME', escrita por Asimov e que nunca foi vendida.

A qualidade da antologia, devido a sua abrangência, vai de embaraçosa à excelente, contudo, fornece uma retrospectiva histórica única do gênero em seu início.


1931

* "The Man Who Evolved" by Edmond Hamilton
* "The Jameson Satellite" by Neil R. Jones
* "Submicroscopic" by Capt. S.P. Meek
* "Awlo of Ulm" by Capt. S.P. Meek
* "Tetrahedra of Space" by P. Schuyler Miller
* "The World of the Red Sun" by Clifford D. Simak

1932

* "Tumithak of the Corridors" by Charles R. Tanner
* "The Moon Era" by Jack Williamson

1933

* "The Man Who Awoke" by Laurence Manning
* "Tumithak in Shawm" by Charles R. Tanner

1934

* "Colossus" by Donald Wandrei
* "Born of the Sun" by Jack Williamson
* "Sidewise in Time" by Murray Leinster
* "Old Faithful" by Raymond Z. Gallun

1935

* "Parasite Planet" by Stanley G. Weinbaum
* "Proxima Centauri" by Murray Leinster
* "The Accursed Galaxy" by Edmond Hamilton

1936

* "He Who Shrank" by Henry Hasse
* "The Human Pets of Mars" by Leslie Frances Stone
* "The Brain Stealers of Mars" by John W. Campbell
* "Devolution" by Edmond Hamilton
* "Big Game" by Isaac Asimov

1937

* "Other Eyes Watching" by John W. Campbell
* "Minus Planet" by John D. Clark
* "Past, Present, and Future" by Nat Schachner

1938

* "The Men and the Mirror" by Ross Rocklynne


Before the golden age - A sci-fi anthology of the 1930s - Editado por Isaac Asimov [ Download ]

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Isaac Asimov's Robots in Time - William F.Wu



In “Robot Visions,” Dr. Isaac Asimov writes about a question inherent in any time travel story—whether individuals traveling in time will alter events that would have occurred without the interference of a time traveler. Most writers who tackle this question write about changing the past and whether doing so is desirable or not. The Good Doctor, once again exhibiting the originality of his own vision, chooses to focus on a more rarely examined concern: of traveling into the future, and the possible consequences of doing so.

Stories that merely take place in the future are not the same as stories about individuals who travel from their own time, whatever it is, to their future. To my knowledge, the first science fiction novel to tell such a story is the classic novel by H. G. Wells,The Time Machine. In it Wells writes of a man who travels to the distant future from Victorian England, the time and place in which Wells was writing the novel. However, Wells presented a dystopian vision of the future as a warning of what could happen if the rigid social and economic divisions of his own society worsened to the extreme. The possibility of avoiding that vision lay not with the time traveler, but with the people who lived in Wells’s time. Wells did not really examine whether his time traveler’s report to his friends back in his own time would bring about a different future.

Two theories of history influence the tale any writer tells about time travel. One belief is that only large forces such as technological advance, economic change, and the development of religions and philosophies determine the direction of history. The other theory is that any event, “no matter how small, sends out ripples of influence that profoundly affect all other events. An historian told me that his colleagues are about evenly divided in their support of these theories.
Authors of time travel stories always write with one or the other implicit, if not explicit, in their work.

I first discovered the science fiction of Isaac Asimov as a child and have read both his fiction and nonfiction in the years since then. Writing time travel stories about his positronic robots and his Three Laws of Robotics is therefore a special honor for me, and I hope you will enjoy theRobots in Time series. By way of introduction, this book presents the late Dr. Asimov’s fantastic “Robot Visions.”

William F. Wu.


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Gold - The Final Science Fiction Collection - Isaac Asimov


Pouco após a morte do bom doutor, a HarperPrism publicou uma coleção de seus ensaios e alguns contos, chamada GOLD. O livro se divide em 3 seções.
Na primeira estão 15 contos, nunca publicados em nenhuma coletânea (ao menos até então).
A segunda seção traz algumas introduções escritas para diversas antologias, e a terceira, e talvez a mais interessante, traz o pensamento de Asimov, sobre a arte de escrever.
Apesar da leitura sempre agradável que seus contos proporcionam, a leitura dos ensaios expõe um pouco do que se passava pela cabeça do premiado e cultuado autor, em seus ultimos anos de vida, sua busca por uma definição da Ficção Científica feita nestes dias e de seus subgêneros, com os quais, visivelmente o bom doutor não se sentia muito à vontade.

Conteúdo:

PART ONE: THE FINAL STORIES
CAL
LEFT TO RIGHT
FRUSTRATION
HALLUCINATION
THE INSTABILITY
ALEXANDER THE GOD
IN THE CANYON
GOOD-BYE TO EARTH
BATTLE-HYMN
FEGHOOT AND THE COURTS
FAULT-INTOLERANT
KID BROTHER
THE NATIONS IN SPACE
THE SMILE OF THE CHIPPER
GOLD

PART TWO: ON SCIENCE FICTION
THE LONGEST VOYAGE
INVENTING A UNIVERSE
FLYING SAUCERS AND SCIENCE FIC TION
INVASION
THE SCIENCE FICTION BLOWGUN
THE ROBOT CHRONICLES
GOLDEN AGE AHEAD
THE ALL-HUMAN GALAXY
PSYCHOHISTORY
SCIENCE FICTION SERIES
SURVIVORS
NOWHERE!
OUTSIDERS, INSIDERS
SCIENCE FICTION ANTHOLOGIES
THE INFLUENCE OF SCIENCE FICTION
WOMEN AND SCIENCE FICTION
RELIGION AND SCIENCE FICTION
TIME-TRAVEL

PART THREE: ON WRITING SCIENCE FICTION
PLOTTING
METAPHOR
IDEAS
SUSPENSE
SERIALS
THE NAME OF OUR FIELD
HINTS
WRITING FOR YOUNG PEOPLE
NAMES
ORIGlNALITY
BOOK REVIEWS
WHAT WRITERS GO THROUGH
REVISIONS
IRONY
PLAGIARISM
SYMBOLISM
PREDICTION
BEST-SELLER
PSEUDONYMS
DIALOG
ACKNOWLEDGMENTS

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sábado, 8 de novembro de 2008

A sensação de poder - Isaac Asimov - Parte 1/2

Jehan Shuman estava acostumado a lidar com os homens responsáveis pelas tropas espalhadas pela Terra. Era apenas um civil, mas tinha criado os programas que possibilitaram o surgimento dos mais avançados computadores automáticos de guerra. Consequentemente, os generais ouviam sua opinião. Os líderes das comissões parlamentares também.

Havia um militar e um político no salão especial do Novo Pentágono. O general Weider tinha um rosto bronzeado pelos raios de muitos sóis, e sua pequena boca, cheia de rugas, quase não aparecia. O deputado Brant tinha um rosto suave e olhos claros. Ele fumava um charuto denebiano com a segurança de alguém cujo patriotismo era tão notório que podia se permitir certas liberdades.

Shuman, alto, distinto, um típico programador de elite, encarou-os destemidamente.
- Cavalheiros - disse ele -, esse é Myron Aub.
- É aquele que tem um talento incomum, que você descobriu por acaso - disse Brant, sereno.
- Ah. - Ele estudou o pequeno homem de cabeça oval e careca com uma curiosidade cordial.

Em resposta, o homenzinho torceu os dedos de suas mãos ansiosamente. Nunca tinha visto homens tão importantes em sua vida. Era um técnico envelhecido e sem importância, que há muito tempo tinha fracassado em todos os testes destinados a selecionar as pessoas talentosas da humanidade e se acomodara numa rotina de trabalhos não especializados. Tinha apenas um passatempo que, de pois de descoberto pelo grande programador, acarretara todo esse estardalhaço.

- Acho infantil esse clima de mistério - disse o general Weider.
- Vai deixar de achar em um minuto - disse Shuman. - Esse é o tipo de coisa que não pode vazar para qualquer um... Aub! Havia um pouco de autoritarismo na sua maneira de pronunciar esse nome monossilábico, mas, nesse caso, era o grande programador falando para um simples técnico. - Aub! Quanto é nove vezes sete?

Aub hesitou um pouco. Seus olhos pálidos brilharam, ligeiramente ansiosos.
- Sessenta e três - disse ele.

O deputado Brant levantou as sobrancelhas.
- Ele acertou?
- Veja você mesmo, deputado.

O deputado tirou seu computador de bolso, apertou as teclas duas vezes, olhou para a superfície na palma de sua mão e guardou-o.

- É esse o talento que você trouxe para nos mostrar? Um ilusionista?
- Mais que isso, senhor. Aub decorou algumas operações e com elas faz cálculos num papel.
- Um computador de papel? - disse o general. Ele parecia aflito.
- Não senhor - disse Shuman pacientemente. - Não é um computador de papel. É um simples pedaço de papel. General, o senhor faria a gentileza de sugerir um número?
- Dezessete - disse o general.
-E o senhor, deputado?.
- Vinte e três.
- Ótimo. Aub, multiplique esses números e, por favor, mostre a esses cavalheiros como você faz isso.
- Sim, programador - disse Aub, fazendo uma reverência com a cabeça. Tirou um bloco de um dos bolsos da camisa e do outro uma caneta de bico fino. Sua testa se enrugava enquanto desenhava meticulosamente no papel.

O general Weider interrompeu-o bruscamente.
- Deixe-me ver isso.
Aub entregou-lhe o papel.
- Bem, isso parece com o número dezessete - disse Weider.
O deputado Brant balançou a cabeça.
- Parece sim, mas eu acho que qualquer um pode copiar as figuras de um computador. Talvez até eu possa fazer um dezessete razoável, mesmo sem prática.
- Se vocês deixarem Aub continuar, cavalheiros - disse Shuman, sem se perturbar.
Aub continuou com as mãos um pouco trêmulas. Depois de algum tempo, disse em voz baixa:.
- A resposta é trezentos e noventa e um.

O deputado Brant checou de novo o computador. - Por Deus, é isso mesmo. Como ele adivinhou?.
- Ele não adivinhou, deputado - disse Shuman. - Ele calculou o resultado nesse pedaço de papel.
- Conversa furada - disse o general, impaciente. - O computador é uma coisa, desenhos no papel são outra.
- Explique, Aub - pediu Shuman.
- Pois não, programador. Bem, eu escrevo dezessete, embaixo dele, escrevo vinte e três. Depois, digo comigo mesmo: sete vezes três...

- Só que o problema é dezessete vezes vinte e três interrompeu-o o deputado, cortês.
- Sim, eu sei - disse o pequeno técnico, num tom sério. Mas eu começo por sete vezes três, porque é assim que funciona. Agora, sete vezes três são vinte e um.
- Como é que você sabe isso? - perguntou o deputado.
- É uma questão de memória. É sempre vinte e um no computador. Já conferi um monte de vezes.
- Isso não quer dizer que vai ser assim para sempre, não? disse o deputado.
- Talvez não - gaguejou Aub. - Não sou matemático. Mas as minhas respostas sempre estão certas.
- Continue.
- Sete vezes três é vinte e um, então eu escrevo vinte e um. Depois, um vezes três é três e, então, escrevo o três embaixo do dois de vinte e um.
- Por que embaixo do dois? - perguntou de pronto o deputado.
- Porque.. - Aub olhou desesperado para o seu superior, como se estivesse pedindo ajuda. - É difícil de explicar.
- Se vocês aceitarem o seu trabalho por um momento, podemos deixar os detalhes para os matemáticos.
Brant se acalmou.
- Três mais dois é igual a cinco - disse Aub. - Então o vinte e um vira cinqüenta e um. Você deixa isso de lado um pouquinho e começa de novo. Você multiplica sete por dois, que é catorze e um por dois, que dá dois. Se você colocá-los assim, isso vai dar trinta e quatro. Agora coloque o trinta e quatro embaixo do cinqüenta e um dessa forma e faça a soma, então terá a resposta final, que é trezentos e noventa e um.

Houve um momento de silêncio.
- Não acredito nisso - disse o general Weider. - Ele vem com essa conversa furada e desenha os números, multiplica e soma dessa maneira, mas não acredito. Isso é muito complicado. Não passa de um truque.
- Não, senhor - disse Aub, ansioso. - Só parece complicado porque o senhor não está acostumado. Na verdade, as regras são muito simples e funcionam com qualquer número.
- Qualquer número, hein? - disse o general. - Então, vamos ver. - Pegou o seu computador (um modelo GI de estilo austero)e apertou-o ao acaso. - Escreva cinco sete três oito no papel. Isto é cinco mil, setecentos e trinta e oito.
- Sim, senhor - disse Aub, pegando uma folha em branco.
- Agora - mais toques no seu computador - sete dois três nove. Sete mil, duzentos e trinta e nove.
- Sim, senhor.
- Agora, multiplique esses dois números.
- Isso vai demorar um pouco - disse Aub, com uma voz trêmula.
- Fique à vontade - disse o general.
- Vá em frente, Aub - disse Shuman, incisivo.

Aub pôs-se a trabalhar, inclinando-se para baixo. Virou outra página e mais outra. O general pegou o relógio e viu as horas.
- Você já terminou o seu número de magia, técnico?.
- Estou terminando, senhor. Aqui está, senhor. Quarenta e um milhões, novecentos e trinta e sete mil, trezentos e oitenta e dois. Ele mostrou o resultado rabiscado no papel.
O general Weider sorriu amargamente. Ele pressionou o botão de multiplicação do seu computador e deixou os números rodopiarem até parar. Então ele olhou o resultado e gritou surpreso. - Grande Galáxia, esse cara está certo.

O Presidente da Federação Terrestre tinha adquirido uma expressão macilenta devido à longa permanência nos escritórios; nas audiências, ele permitia que uma expressão vagamente melancólica tomasse conta de suas feições. A guerra denebiana, depois de um breve começo de grande agitação e muita popularidade, tinha se restringido a uma sórdida questão de manobras e contramanobras, com o descontentamento crescendo continuamente na Terra. Provavelmente também estava crescendo em Deneb.

E agora, o deputado Brant, líder do importante Comitê de Apropriações Militares, estava alegre e entusiasmadamente desperdiçando a sua audiência falando barbaridades.
- Calcular sem um computador - disse o presidente, impaciente - é absolutamente impossível..
- Calcular - disse o deputado - é apenas um sistema de manipulação de dados. Uma máquina pode fazer isso, da mesma forma que a mente humana. Deixe-me dar-lhe um exemplo. E, usando as novas habilidades que tinha aprendido, desenvolveu somas e produtos até que o presidente, a despeito de sua desconfiança, se mostrou interessado. - Isso sempre funciona?.
- Sempre, Sr. Presidente. É infalível.
- É difícil de aprender?.
- Passei uma semana até pegar o macete. Acho que o senhor precisaria de menos tempo.
- Isso é um joguinho interessante - disse o presidente, depois de pensar um pouco. - Mas qual a sua utilidade?.
- Qual a utilidade de um bebê recém-nascido, Sr. Presidente? Por enquanto, não tem nenhuma utilidade, mas o senhor não vê, isso aponta o caminho que libertará a máquina. Pense bem Sr. Presidente. - O deputado se levantou e sua voz profunda automaticamente assumiu algumas das entonações que usava nos debates. - A guerra denebiana é uma guerra de computador contra computador. Os computadores deles produzem um escudo impenetrável de contramísseis contra os nossos mísseis, assim como os nossos fazem contra os deles. Quando modernizamos nossos computadores, eles também modernizam os deles, e há cinco anos existe um equilíbrio precário e inútil.

[Parte 2]

A sensação de poder - Isaac Asimov - Parte 2/2

[Parte 1]

Agora temos em nossas mãos um método para ir além do computador, pular por sobre ele, ultrapassá-lo. Combinaremos a mecânica do computador com o pensamento humano; teremos o equivalente aos computadores inteligentes; bilhões deles. Não posso prever detalhadamente quais serão as conseqüências, mas elas serão incalculáveis. E, caso os denebianos se antecipem a nós nesse aspecto.. o resultado pode ser uma catástrofe.
- O que podemos fazer? - disse o presidente, preocupado.
- Colocar o poder da administração em favor de um projeto secreto de computação humana. Chame-o de Projeto Número, se quiser. Posso me responsabilizar pelo meu comitê, mas vou precisar do apoio da administração.
- Mas até onde a computação humana pode ir?.
- Não há limites. De acordo com o programador Shuman, que me apresentou essa descoberta...
- Já ouvi falar de Shuman, é claro.
- Sim. Bom, o Dr. Shuman me disse que, teoricamente, não há nada que um computador faça que não possa ser feito pela mente humana. O computador apenas processa um número finito de dados e opera um número finito de operações a partir deles. A mente humana pode reproduzir esse processo.

O presidente pensou um pouco.
- Se Shuman diz isso, estou inclinado a acreditar nele... em teoria. Mas, na prática, como alguém pode saber como um computador funciona?
Brant sorriu cordialmente.
- Sr. Presidente, eu fiz a mesma pergunta. Ao que parece, houve uma época em que os computadores eram projetados diretamente pelos seres humanos. Eram computadores simples; antecederam a época em que o uso racional dos computadores fez com que eles projetassem computadores mais avançados.
- Sim, sim. Continue.
- Aparentemente, o técnico Aub conseguiu, por puro lazer, reconstituir alguns desses velhos esquemas, estudou os detalhes do seu funcionamento e descobriu que podia copiá-lo. A multiplicação que acabei de fazer para o senhor é uma imitação do funcionamento de um computador.
- Surpreendente!

O deputado tossiu educadamente.
- Se posso fazer mais uma observação, Sr. Presidente... quanto mais pudermos desenvolver essa coisa, mais poderemos desviar nosso esforço federal da produção de computadores e de sua manutenção. Assim que o cérebro humano assumir o poder, nossas melhores energias poderão ser canalizadas para procurar a paz, e a influência da guerra nos homens comuns será menor. Isso será mais vantajoso para o partido no poder, é claro.
- Ah - disse o presidente. - Entendo o que você quer dizer. Bem, sente-se, deputado, sente-se. Preciso de algum tempo para pensar. Enquanto isso mostre-me esse truque da multiplicação de novo. Deixe ver se eu consigo pegar o macete.
O programador Shuman não tentou apressar o assunto. Loesser era conservador, muito conservador, e gostava de lidar com os computadores da mesma forma como seu pai e seu avo. Mesmo assim, ele controlava o monopólio de computadores do oeste europeu; se conseguisse entusiasmá-lo com o Projeto Número, um passo muito grande seria dado.

Mas Loesser continuava com um pé atrás
- Não sei se gosto da idéia de afrouxarmos as nossas rédeas sobre os computadores. A mente humana é uma coisa caprichosa. O computador sempre nos dará a mesma resposta para o mesmo problema. Qual a garantia que temos de que com a mente humana será assim?
- A mente humana, Loesser, apenas manipula os fatos. Não importa se a mente humana ou a máquina faz isso. Elas são apenas instrumentos.
- Sim, sim. Acompanhei sua engenhosa demonstração de que a mente humana pode imitar o computador, mas isso me parece um pouco vago. Aceito a teoria, mas que razão n6s temos para achar que a teoria será confirmada na prática?

- Acho que temos uma razão, senhor. Afinal de contas, os computadores não existiram sempre. O homem das cavernas, com suas trirremes, machados de pedra e estradas de ferro, não tinha computadores .
- E provavelmente não sabia calcular.
- Você sabe muito bem que sim. Até a construção de uma estrada de ferro ou de um zigurate requeria algum tipo de cálculo, e, como nós sabemos, isso foi feito sem computadores.
- Você está sugerindo que eles calculavam da mesma maneira que você me mostrou?
- Provavelmente não. Afinal de contas, esse método, que, a propósito, chamamos de "grafítico", da velha palavra européia graphos, que quer dizer "escrita"... esse método foi desenvolvido a partir dos próprios computadores, portanto não pode ter sido usado pelos primitivos. Ainda assim, o homem das cavernas deve ter tido algum método, não?

- Artes perdidas! Se você está falando de artes perdidas...
- Não, não é isso. Não sou um entusiasta das artes perdidas, embora não afirme que não exista nenhuma. Afinal, o homem comia cereais antes de aprender a fazer culturas hidropônicas, e se os primitivos comiam cereais, eles deviam cultivá-los no solo. De que outra forma poderiam ter conseguido?

- Não sei, mas só acreditarei em terra cultivada quando vir algum grão crescer no chão. Também só acreditarei que se faz fogo esfregando uma pedra na outra no dia em que me mostrarem que isso é possível.
Shuman tentou ser conciliador.
- Bem, vamos nos ater aos graníticos. Isto tudo faz parte do processo de eterificação. O transporte por meio de pesados equipamentos está sendo substituído por transferência direta de massa. Os instrumentos de comunicação se tornam cada vez mais leves e mais eficientes. Por causa disso, compare seu computador de bolso com aquelas engenhocas pesadas de mil anos atrás. Então, por que não dar também o Ultimo e definitivo passo, e abolir os computadores? Vamos, senhor, o Projeto Número é inevitável; ele está progredindo rapidamente. Mas queremos sua ajuda. Se o patriotismo não for suficiente para engajá-lo, pense na aventura intelectual que está em jogo.

- Que progresso? - disse Loesser com ceticismo. - O que você pode fazer além de multiplicar? Pode integrar uma operação transcendental?
- Dentro em breve, senhor, Dentro em breve. No mês passado, aprendi a dividir. Posso determinar, e corretamente, quocientes inteiros e quocientes decimais.
- Quocientes decimais? De quantas casas?
O programador Shuman tentou manter um tom natural.
- Qualquer número!

Loesser ficou de queixo caído.
- Sem um computador?
- Faça um problema.
- Divida vinte e sete por treze. Em seis casas.
Cinco minutos depois, Shuman disse:
- Dois, vírgula, zero sete meia nove dois três.

Loesser conferiu.
- Isso é realmente fantástico. A multiplicação não me impressionou muito porque, afinal, isso envolvia números inteiros e acho que uma hábil manipulação pode conseguir isso. Mas decimais...
- E isso não é tudo. Há uma nova pesquisa em curso que até agora é ultra-secreta e que, falando sinceramente, não posso revelar. Mesmo assim... estamos perto de aprender a fazer uma raiz quadrada.

- Raiz quadrada?
- Ainda tem algumas coisas pendentes e não conseguimos acertar na mosca, mas o técnico Aub, o homem que inventou essa ciência e que tem uma incrível sensibilidade para a coisa, assegura que está prestes a resolver o problema. E ele é apenas um técnico. Um homem como o senhor, um matemático talentoso e tarimbado, não encontraria tanta dificuldade.
- Raiz quadrada - resmungou Loesser, encantado.
- Raiz cúbica também. E então? Está conosco?
Loesser levantou a mão rapidamente.
- Pode contar comigo.

O general Weider marchava de um lado para o outro da sala e se dirigia aos ouvintes à sua frente como se fosse um professor ranzinza diante de uma turma de estudantes indóceis. Pouco lhe importava se eram os cientistas civis que coordenavam o Projeto Número. O general era um líder em todos os lugares e assim se comportava em todos os momentos de sua vida.

- Nenhum problema com as raízes quadradas, então - disse ele. - Eu mesmo não sei como fazê-las, mas já estão concluídas. Mesmo assim, não vamos interromper o projeto só porque já solucionamos os problemas que alguns de vocês consideram essenciais. Vocês podem fazer o que quiserem com os grafíticos depois que a guerra acabar, mas, nesse exato momento, temos problemas específicos que precisam ser solucionados.

Num canto distante, o técnico Aub ouvia aflito. É claro que há muito tempo deixara de ser um técnico, tendo sido dispensado de suas tarefas e convocado a participar do projeto, com um título pomposo e um ótimo salário. Mas é claro que as diferenças sociais permaneciam e os líderes científicos, altamente classificados, jamais o aceitariam em seu meio ou o tratariam em pé de igualdade.

E Aub tampouco desejava isso. Sentia-se tão incomodado entre eles como eles se sentiam incomodados na sua presença.

- Nós só temos uma meta, cavalheiros - estava dizendo o general. - Substituir os computadores. Uma nave que possa viajar pelo espaço sem um computador a bordo pode ser construída em um quinto de tempo e por um décimo dos custos de uma nave computadorizada. Poderíamos ter frotas especiais cinco ou dez vezes maiores do que as de Deneb se eliminássemos os computadores. E até vejo mais além disso. Talvez agora pareça loucura ou um simples sonho. Mas no futuro eu posso ver mísseis tripulados .

Houve um instantâneo murmúrio por parte da platéia.
O general prosseguiu:
- No momento, nosso problema principal é que a inteligência dos mísseis é limitada. O computador que os controla não pode alterar o rumo programado e, por essa razão, eles sempre acabam sendo detidos por antimísseis. Poucos mísseis, se é que algum consegue chegar a seu objetivo, e a guerra de mísseis está prestes a acabar; felizmente, tanto para o inimigo, como para nós.

Por outro lado, um míssil com um ou dois homens dentro, controlando o vôo com graníticos, seria mais leve, mais ágil e mais inteligente. Isso nos daria uma vantagem que pode significar a vitória. Além disso, cavalheiros, as necessidades da guerra nos obrigam a lembrar de uma coisa. Um homem é mais descartável do que um computador. Mísseis tripulados podem ser lançados em maior número e sob circunstâncias que nenhum general empreenderia se usasse mísseis computadorizados.

Ele discorreu sobre muito mais coisas, mas o técnico Aub não esperou.
O técnico Aub, na intimidade dos seus aposentos, elaborou cuidadosamente sua carta de despedida. Ela dizia o que se segue: "Quando comecei a estudar o que agora chamam de graníticos, isso não passava de um passatempo. Nada mais do que um agradável passatempo, um exercício para a cabeça.

Quando o Projeto Número começou, achava que as pessoas fossem mais esclarecidas do que eu e que os graníticos poderiam ser usados para ajudar a humanidade, apoiando a modernização dos instrumentos necessários à transferência de massas. Mas agora vejo que ele só será usado para a morte e a destruição.

Não posso suportar a responsabilidade de ter inventado os grafíticos.
Depois, virou contra si o foco do despolarizador de proteínas e morreu instantaneamente.
Eles se reuniram em torno do túmulo do pequeno técnico para prestar-lhe honra por sua notável descoberta.

O programador Shuman fez uma reverência com a cabeça, junto com os outros, mas continuou imóvel. O técnico tinha dado sua contribuição e não era mais necessário. Ele podia ter começado os graníticos, mas agora que o projeto já estava em andamento, iria se desenvolver automaticamente até triunfar, tornando os mísseis tripulados uma realidade, juntamente com tantas outras coisas.

Nove vezes sete, pensou Shuman com orgulho, sessenta e três. Não precisava mais que um computador lhe dissesse isso. Sua própria cabeça era um computador. E isso lhe dava uma fantástica sensação de poder.

The feeling of Power (1957) - Isaac Asimov.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Asimov Science Ficiton


Editorial: The 2005 Dell Magazines Award
Reflections: The Greatness of Cornelius Drible
Softly Spoke the Gabbleduck by Neal Asher
Point of Origin by Catherine Wells
The Summer of the Seven by Paul Melko
Kath and Quicksilver by Larry Niven & Brenda Cooper
He Woke in Darkness by Harry Turtledove
A Shadow Over the Land by Liz Williams
Bottom Feeding by Tim Pratt
A Birth by Carrie Richerson
Verse
On Books: Peter Heck
The SF Conventional Calendar
Letters

Asimov Science Ficition (Agosto-2005) [ Download ]

sábado, 26 de janeiro de 2008

O sofrimento de um escritor (de Ficção Científica) - Isaac Asimov






Em teu cérebro repousam desordenadas as idéias.
Tramas de ficção científica que elabora com grande prazer.
Juntam-se em sua cabeça e de forma obstinada te ferem até se ver inquieto e louco de raiva.
Quando com a mulher amada, sua mente gira como um torvelinho, até o ponto de não mais ouvi-la. Quando em meio a um concerto, recorda o passado e perde uma nota da sinfonia que executava. Ao volante do carro, repara muitos metros depois, ter passado por um sinal vermelho e para completar, caramba, acerta a lateral de um outro veículo, espatifando seus faróis.
Quando teu chefe lhe dá um tapa nas costas (por ter feito um bom trabalho) e te olha com uma cara estúpida, e você diz algo idiota e ele se convence que você bebeu.
Quando coisas assim te sucedem, te deixando aborrecido, não culpe as forças sobrenaturais.
Se és um escritor de ficção científica, você se verá desviado de teu prumo, tão certo quanto as estrelas seguem suas órbitas, tua mente de escritor, surda, muda e cega às tolices da vida que te oprime, enquanto as maravilhas do espaço te apertam num abraço entre estrelas.
Começas com uma nave, mergulhada na vertigem do hiper-espaço, em rota para Castor e que percebe, para sua infelicidade, estar perdida em uma galáxia como a nossa, porém desconhecida.
Sentindo-se aflito pela continuação, inventa uma série de criaturas, vilãs e trapaceiras, de aparência horrível e com as piores e mais perversas intenções.
Nossos bravos heróis, enfrentando estas hordas, se vêem em situações cruciais, uma vez que o inimigo descobriu nossa galáxia e pretende subjuga-la.
Agora vem a complicação, pois precisa resolver a questão, de modo a manter o interesse no relato.
Os terrestres são quatro (não mais que isso) enquanto o número de inimigos é incalculável.
Nossos heróis são capturados e levados até os tirânicos e desprezíveis líderes que perguntam
‘Onde fica a Terra?’ e eles permanecem silenciosos, com a bravura que encantará os seus leitores.
Espera um pouco... Vejamos, assim não dá! Esqueceu da mocinha! Inventa uma e a faz boa e pura (com algum atrativo sexual) e não a veste por demais. Faz com que faça parte da tripulação, assim também será capturada e os inimigos lhe devorarão com olhos lascivos.
Há um desejo intenso nos olhos dos malvados, o que não espanta; a mocinha é de perto linda e suave como uma pluma.
Não, melhor corrigir esta parte e desfazer a parte da sedução, pois como os inimigos são répteis, não seriam atraídos por ela.
Que então assustem a mocinha, ameaçando com suas armas, para tentar arrancar a confissão dos terrestres. Então estes conseguem romper suas algemas, escreva algumas cenas violentas de luta. Cada terrestre é um lutador nato e seus punhos valem por dezenas.
E chegado a este ponto da história sua cabeça já estará dando voltas.
Já não sabe onde estás, nem onde estacionou o carro, sua gravata está torta e não tem idéia das horas, nem se dá conta do que estão a falar, nem por que te olham daquele jeito, duvidando se és um tipo esquisito ou se está louco, o que explica o brilho dos olhos, até que finalmente concluem que está fora de si.
Mas a tortura passou.
E foi por gosto e por prazer de deixar no papel antes em branco, as palavras bem escolhidas, por ter acabado de escrever um novo conto de ficção científica.
Isaac Asimov - 1957