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sábado, 30 de julho de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch




Este espetacular romance de Thomas M. Disch, trouxe algo notável para a Ficção Científica da década de 60, o respeito que é concedido somente às obras primas, e que colocou Disch no panteão de autores consagrados como J.G.Ballard e H.G.Wells.

Em um cenário angustiante, as cidades foram reduzidas a cinzas e plantas exóticas capazes de alcançar 180 metros em apenas um mês, estão sugando toda água doce que encontram. Até os Grandes Lagos começam a secar. Ao norte de Minnesota, Anderson, um velho agricultor com uma Bíblia em uma mão e uma pistola na outra, lidera os cidadãos em uma luta diária pela existência miserável.

Quando algo domina a paisagem por tempo suficiente, acaba caindo em intrincados padrões que acabam levando à sua decadência. Em 'OS GENOCIDAS' esse ponto é cuidadosamente trazido à tona, mostrando exatamente como a humanidade reagiria diante de mudanças radicais em seu ecosistema.

Primeiro a chegada das plantas misteriosas na forma de sementes que crescem a níveis surpreendentes até mesmo para as mentes mais estudiosas, e que começam a ocupar espaço, expulsando a praga humana. A reação como seria de se esperar, é de inabalável arrogância, já que as pessoas se veem como dominantes. Eles não pensam que estão em perigo porque, afinal de contas, as plantas não poderiam ser invasores, e optam por manter o controle utilizando métodos que mantem o 'problema' fora das vistas.
Aos poucos no entanto, as pessoas passam a perceber que a extinção é iminente.

Em uma comunidade agrícula à margem das cidades em ruínas, Thomas Disch começa a pintar um retrato vívido da humanidade. Muitos elementos da história surgem a partir dessas páginas e que tornam-se cativantes, obrigando ao leitor a devorar avidamente página após página. Os personagens pouco a pouco ganham vida, suas idéias e ideais misturando-se com suas origens.

Disch definitivamente não é um porta-voz dos fatores redentores da humanidade, ao contrário. Ele não encobre o fato de que a brutalidade é um componente chave para a sobrevivência quando as estruturas tradicionais vem abaixo. Nada de "luz versus trevas". Em vez disso, explora a forma como os indivíduos se sentem e como conseguem sobreviver quando o mundo cai aos pedaços. Seria mais 'trevas versus trevas'. 

E isso significa fazer pequenas coisas para manter o passado vivo e às vezes justifica atos ainda piores, respondendo não só a pergunta do que as pessoas estão dispostas a fazer para se manterem vivas, mas também a questão de, quando os porcos estiverem extintos, de onde virão as salsichas, se ainda forem uma lembrança saborosa em nossas memórias mais profundas.

'OS GENOCIDAS' foi escolhido para fazer parte da lista dos cem clássicos da ficção científica mundial de todos os tempos.



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sábado, 23 de julho de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Epílogo)

 




 EPÌLOGO
A extinção das espécies


Assim como um verme passando através de uma maçã poderia supor que a maçã, a sua substância e qualidade, consistia apenas daqueles poucos elementos que passam por seu próprio corpo magro, quando na verdade todo o seu ser está envolto na fruta e sua passagem quase não a diminuiu, Buddy, Maryann e seu filho, Flor e Orville, emergiram da terra depois de uma longa passagem através do labirinto de seus próprios, e puramente humanos, males, não tendo conhecimento da presença onipresente do grande mal que chamamos de realidade.

O mal que existe em toda parte, mas só podemos ver o que está diante de nossos narizes, apenas lembrar do que passou por nossas barrigas.

As bolas de basquete cinzentas, cheias da polpa da fruta bombeada, erguidas sobre uma terra que não era mais verde. Então, como os primitivos limpavam suas terras, as máquinas que serviam aos fazendeiros alienígenas tinham transformado a terra em uma pira. As hastes altas das Plantas grandes foram consumidas,  a visão da grandeza de uma civilização caindo em ruínas. Os poucos humanos que permaneceram voltavam à terra mais uma vez. Quando reapareceram, o manto que pendia sobre a terra queimada deu boas-vindas com o eclipse da noite.

Em seguida, um vento a partir do lago, diluíu o manto para revelar cumulus pesados acima.
As chuvas vieram. A água pura limpou os céus e lavou incrustações de meses de seus corpos pintados de terra preta. Saiu o sol e secou a chuva, e seus corpos se glorificaram no calor tênue de Abril. Ainda que a terra fosse negra, o céu estava azul, e à noite as estrelas Deneb, Vega, Altair, surgiam ainda mais brilhantes do que qualquer um deles lembrava ter visto. Vega particularmente, brilhava. Na madrugada, um pedaço de lua subiu ao leste. Mais tarde, o céu se iluminou e mais uma vez o sol iria nascer.

Tudo parecia muito bonito para eles, pois eles acreditavam que a ordem natural das coisas, isto é, a sua ordem fora restaurada.

Houve expedições raízes abaixo para procurar vestígios de frutas que a colheitadeiras tivessem esquecido. Tais vestígios eram raros, mas existiam; e racionando esses pedaços de casca com moderação, podiam esperar sobreviver o verão ao menos. Por enquanto havia água e as ervas daninhas no lago, e logo que se tornou mais quente, eles planejaram ir ao longo do Mississipi, para o sul quente. Havia também a esperança que o oceano ainda existisse. O lago estava morto. Ao longo da costa enegrecida pelo fogo, cardumes de peixes fedorentos foram morrer. Mas que o oceano pudesse estar na mesma condição era impensável.

A esperança era de que a Terra tinha sobrevivido. Em algum lugar sementes brotariam no solo quente, sobreviventes, como eles próprios, floresceriam da terra que se tornaria verde novamente.
Mas a esperança principal sem a qual todas as outras esperanças eram vãs, era de que as Plantas tivessem ido embora, e que essa temporada tinha acabado. As esferas blindados haviam ido embora após o estupro de um planeta, o fogo queimara mais o restolho, e a terra agora acordava do pesadelo daquela segunda criação dos alienígenas.
Esta era a esperança de todos.

Em seguida, todos os lugares da terra estavam cobertos com um tapete verde dos mais ricos. As chuvas que tinham lavado o céu limpo da fumaça da queima tinha também trazido bilhões de esporos do segundo plantio. Como todos os híbridos, a Planta era estéril e não poderia se reproduzir sozinha. Uma nova cultura tinha que ser plantada a cada primavera.
Em dois dias as plantas já estavam na altura dos tornozelos.

Os sobreviventes espalhados pela uniformidade plana e verde da planície, se assemelhavam a
figuras em uma reprodução renascentista ilustrando noções de perspectiva.
As três figuras mais próximas, a meia distância, compunham uma espécie de Santa Família, embora se aproximando, não pudessem deixar de notar que suas características eram regidas por outra emoção que não a felicidade.

A mulher sentada no solo, de fato, chorava amargamente, e o homem de joelhos atrás dela, as mãos plantadas em seus ombros como que para consolá-la, mal consegue conter suas próprias lágrimas. Sua atenção estava fixa sobre a magra criança em seus braços, que em vão tentava sugar seu peito seco.

Um pouco mais adiante, outra figura - ou deveríamos dizer duas? - Sem qualquer iconográfica paralela, a menos que permitisse que esta fosse um Niobe aflito com suas crianças. No entanto, Niobe é descrita geralmente sozinha ou na perspectiva de todas as quatorze crianças; esta mulher estava segurando o esqueleto de uma única criança em seus braços. A criança tinha cerca de 10 anos de idade quando morreu. O cabelo vermelho da mulher era um chocante contraste com o verde por toda parte sobre ela.
  
Quase no horizonte poderiam se ver as figuras de um homem e uma mulher, nus, de mãos
dadas, sorrindo. Certamente estes eram Adão e Eva antes da queda, embora apareceram um pouco mais magros do que são geralmente representados. Além disso, muito mal combinados em relação à idade: ele tinha quarenta,e ela foi mal entrara em sua adolescência. Eles caminhavam para o sul e, ocasionalmente, falavam um com o outro.

A mulher, por exemplo, virou a cabeça para o homem e disse: "Nunca nos disse qual era seu ator favorito." E o homem respondeu: "David Niven. Eu sempre gostei de David Niven.”
E sorriam!

Mas estas figuras eram muito, muito pequenas. A paisagem dominava inteiramente.
O verde parecia infinito. Vasto embora a Natureza ou a Arte pouco tivessem a ver com aquilo.
Mesmo visto de perto, apresentava um aspecto monótono. Em qualquer metro quadrado de terreno, uma centena de mudas crescia, cada qual exatamente igual a outras.
A natureza é pródiga. De uma centena de mudas apenas um ou duas sobreviveria; de uma centena de espécies, apenas uma ou duas.

No entanto, não seria o homem.

_____________
Eis que até a lua não resplandece, e as estrelas não são puras aos seus olhos.
E quanto menos o homem, que é um verme, e o filho do homem, que é um vermezinho!
Jó 25:5-6
_____________

FIM







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sábado, 16 de julho de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 19)





DEZESSEIS
Seguros em casa


Às vezes a distância é o melhor remédio, e se você quiser recuperar-se deve seguir em frente. Além disso, se você parar não pode ter certeza se conseguirá começar novamente.

Não que eles tivessem muita escolha, tiveram que continuar a subir. Então foram para cima. Era mais fácil agora. Talvez fosse apenas o contraste entre uma coisa certa (é claro, se eles não escorregassem, o tipo de perigo que quase não estimulava-os neste ponto) e a presença da morte que tinha sobrecarregado-os nesses últimos dias, e de modo que a ascensão era também um ressurreição.

Havia apenas uma pessoa ansiosa agora, e era Buddy. E até isso foi dissipado, pois após  menos de uma hora de escalada tinham atingido o nível de sua base, e Maryann estava  esperando lá. A lâmpada estava queimando para que eles pudessem ver de novo, e a visão do  outros, machucados e sangrando, trouxe lágrimas aos seus olhos e os fez rir como crianças  em uma festa de aniversário. O bebê estava bem, todos eles.

"Você quer ir até a superfície agora? Ou você quer descansar?"
"Agora" Buddy disse.
"Descansar" disse Orville. Ele tinha acabado de descobrir que seu nariz estava quebrado. 
Sempre tinha sido um belo nariz... reto e fino, um nariz orgulhoso.
"Estou horrível não?" Ele perguntou para Flor.
Ela balançou a cabeça tristemente e beijou seu nariz, mas ela não diria nada. Ela não tinha dito uma palavra desde que a coisa tinha acontecido lá em baixo.
Orville tentou retornar seu beijo, mas ela desviou o cabeça.
Buddy e Maryann afastaram-se para ficar a sós.
"Ele parece muito maior" Buddy observou, embalando Buddy Junior. "Quanto tempo estivemos  longe?"
"Três dias e três noites. Foram dias longos, porque eu não conseguia dormir. Os outros já foram até a superfície. Eles não iam me esperar. mas eu sabia que você voltaria. Você me prometeu. Lembram-se?"
"Hum-hum", disse ele e beijou a mão dela.
"Greta voltou" disse Maryann.
"Isso não faz diferença para mim. Não mais."
"Foi por sua causa que ela voltou. Ela me disse isso. Ela disse que não pode viver sem você."
"Ela só disse isso porque está nervosa."
"Ela...mudou. Você vai ver. Ela não voltou pelo tubérculo onde eu estava esperando, mas no  próximo, acima. Venha, vou levá-lo até ela."
"Parece que você quer me ver com Greta novamente."
"Eu só quero o que você quer, Buddy. Você disse que Neil está morto. Se você quiser fazê-la sua segunda esposa, eu não vou impedir você...se é o que você quer."
"Isso não é o que eu quero, caramba! E da próxima vez que eu falar que te amo, é melhor você acreditar em mim. Ok?"
"Ok", disse ela na sua voz juvenil, beata. Havia até mesmo a sugestão de riso abafado.  "Mas é melhor vê-la de qualquer maneira. Porque você vai ter que pensar em alguma forma de  fazê-la voltar à superfície. Mae Stromberg está de volta também, mas já subiu com o resto 
deles.Ela ficou meio louca. Ela ainda estava carregando Danny com ela, o que sobrou de  Denny. Ossos principalmente. Este é o tubérculo. Greta está do outro lado, no fim. Eu vou  ficar aqui com a lâmpada. Ela prefere o escuro."

Buddy sentiu seu medo. Em breve, avançando através do tubérculo, ele cheirava algo muito  pior. Dirigir por uma cidade no sul de Minnesota, na temporada das compotas uma vez, ele  tinha cheirado algo assim, uma casinha azeda. "Greta?" Disse.
"Buddy, é você Buddy?" Foi com certeza a sua voz que respondeu, mas seu timbre tinha  mudado sutilmente. Não houve a nitidez dos 'Ds' e do 'B' inicial. "Como você está Buddy?  Não chegue mais perto!"
Houve um som ofegante, e quando Greta começou a falar novamente, ela balbuciava, como uma  criança que tenta falar com a boca cheia de leite. "...você. Eu queroo ser sua.  Peeerdoe-me. Podemos começar tudo de novo...como Adão e Eva...só nós".
"O que há de errado com você?" perguntou. "Você está doente?"
"Não. Eu..." Um som de gargarejo violento. "Estou apenas com um pouco de fome. Eu fico  assim de vez em quando. Maryann me trazia minha comida, mas ela nunca vai trazer-me o  bastante. Buddy ela está tentando me fazer morrer de fome!"
"Maryann" Buddy chamou. "Traga a luz aqui."
"Não, não!" Greta gritou. "Você tem que responder a minha primeira pergunta, Buddy. Não há  nada entre nós agora. Maryann me disse que se você...não...vá embora! A luz fere meus  olhos." Houve um som, sugando, como quando alguém se move muito de repente em uma banheira  cheia, e o ar liberando novas marés de fedor.
Maryann entregou a seu marido a lamparina.
Greta Anderson tinha afundado em si mesma. Seu corpo inchado tinha perdido todas as  características humanas: era uma massa de gordura flácida. Os contornos de seu rosto foram  obscurecidos por dobras de carne soltas como um retrato de aquarela que foi deixado de  fora em uma tempestade.

"Ela não se move mais" Maryann explicou, "está pesada demais para se levantar. Os outros  acharam ela quando estavam procurando por Flor, e eles a puxaram até aqui com cordas. Eu  lhes disse para deixá-la aqui, porque ela precisa de alguem para cuidar dela. Eu trago a  comida dela. É um trabalho em tempo integral."
A comoção de carne aos seus pés se tornou mais agitada, e parecia quase com uma expressão  no rosto. Ódio, talvez. Em seguida, uma abertura no centro da face, boca, e a voz de Greta  disse: "Vá embora, você me dá nojo!"
Antes de partirem, a figura a seus pés já estava enchendo com punhados da polpa do  fruto a cavidade no centro de sua face.


Enquanto os homens e Flor descansavam, Maryann teceu uma espécie de chicote de fios mesmo  sob protestos veementes de Greta que não gostou se ser amarrada com ele e buscou o cesto de roupa que havia sido resgatado do fogo da Sala comum. Se não o fizesse, a Greta em intervalos de hora em hora, iria começar a pegar punhados da sujeira em torno dela e outras coisas goela abaixo. Ela já não parecia estar ciente da diferença, mas Maryann estava, e era por causa dela própria que mantinha a cesta com comida.

Depois que Greta tinha comido o suficiente da polpa do fruto, geralmente ficava bem, como agora, para alguns momentos de conversa, Maryann tinha sido grata por isso durante as longas e escuras horas de espera. Como Greta muitas vezes observava durante estes interlúdios sóbrios: "A pior parte é o tédio. Isso é o que me levou a minha condição...Havia um filme, não me lembro o nome agora, onde ela era pobre e tinha um sotaque engraçado, e Laurence Harvey era um estudante de medicina que se apaixonou por ela. Ou então foi Rock Hudson. Ela o tinha na palma de sua mão. Ele teria feito qualquer coisa que ela pedisse. Não me lembro como termina, mas tinha outro que eu gostava mais, com James Stewart...se lembra dele...? Ela vivia nesta bela mansão em San Francisco. Oh, você devia ter visto os vestidos que ela tinha. E o cabelo lindo assim! Ela deve ter sido a mulher mais bonita do mundo. E ela caiu de uma torre no final. Eu acho que é assim que termina."
"Você deve ter visto quase todos os filmes que Kim Novak já fez" disse Maryann placidamente enquanto amamentava o bebê em seu peito.
"Bem, se havia algum que eu perdi, eu nunca ouvi falar. Eu gostaria que você soltasse essas cordas". Maryann nunca respondia às suas queixas. "Tinha aquele em que ela era uma bruxa, mas não um abruxa das antigas, sabe? Ela tinha um apartamento na Park Avenue ou em algum lugar assim. E o mais belo gato siamês que eu já vi".
"Sim. Acho que você me falou desse já."
"Bem, por que você nunca contribuiu para a conversa? Devo ter-lhe dito sobre cada filme que eu já vi até hoje."
"Eu nunca vi muitos filmes."
"Você acha que ela ainda está viva?"
"Quem...Kim Novak? Não, eu suponho que não. Devemos ser os últimos. Isso é o que diz Orville."
"Estou com fome de novo."
"Você só come. Você não pode esperar?"
"Estou com fome, eu estou dizendo! Você acha que eu gosto disso?"
"Oh, tudo bem." Maryann pegou da cesta e foi até o fruto e partiu uma seção mais saudável do tubérculo. Preenchida a cesta pesava uns 20 quilos ou mais. Quando ela não podia ouvir nas proximidades Maryann, Greta explodiu em lágrimas.
"Oh Deus, eu odeio isso! Eu odeio ela! Oh, eu estou com tanta fome!"
Sua língua doía ansiando ser coberta com o amado sabor do licorice, como a língua de um fumante  habitual de três maços de nicotina em uma só manhã, quando não tem cigarros.
Ela não era capaz de esperar pelo retorno de Maryann. Quando tinha afugentado o pior de sua fome. ela parou de jogar as coisas em sua boca e gemeu em voz alta na escuridão.
"Oh Deus, como eu me...! Eu, o que me...que eu!"


Eles tinham transportado Greta por um longo caminho, parando apenas para descansar quando  tinham atingido o tubérculo mais alto em que passaram a primeira noite do inverno subterrâneo. O frio era um alívio bem-vindo em relação ao calor húmido. O silêncio de Greta era ainda mais bem-vindo. Durante toda a subida, ela se queixou de que o cinto a estrangulava, que ela esta presa nas videiras e eles estavam puxando-a, que ela estava com fome. Ao passarem por cada tubérculo, Greta enchia sua boca a uma taxa prodigiosa.
Orville estimou que ela pesava 200 quilos. "Oh, mais que isso" Buddy disse. "Você está sendo gentil."
Eles nunca teriam sido capaz de puxá-la se a seiva das raizes que cobria o revestimento da  cavidades não tivesse sido um lubrificante eficaz. O problema agora era como içá-la nos últimos trinta metros, na vertical da raiz primária. Buddy sugeriu um sistema de polias, mas Orville temiam que as cordas à disposição não fossem capazes de suportar o peso total de Greta. "E mesmo que pudessem como vamos tirá-la através do buraco? Em dezembro, Maryann mal era capaz de espremer-se através dele."
"Um de nós vai ter que voltar para pegar o machado."
"Agora? Não quando estamos tão perto do sol. Eu digo, vamos deixá-la aqui, onde há comida à mão para ela e faremos o resto do caminho por nós mesmos. Mais tarde voltaremos, com tempo suficiente para sermos bons samaritanos."
"Buddy, que barulho é esse?" Maryann perguntou. Não querendo interromper.
Eles prestaram atenção, e antes mesmo de ouvi-lo, temiam o que pudesse ser, o que era.
Um som, um gemido, não tão alto como o ruído da esfera de metal tinha feito tentando empurrar o seu caminho pela caverna, porque, por um lado, era mais longe, e por outro, não parecia ter a mesma dificuldade de vencer a entrada. A lamentação ficou mais alta, em seguida, um som enorme seguiu, como quando o ralo drenando a agua de uma piscina.
Fosse o que fosse, estava agora no tubérculo com eles.
Com uma fúria repentina como seu terror, um vento levantou-se e atirou-os em seus joelhos.
Marés de fruta líquida levantaram do chão e paredes cairam e o teto, o vento varria crista de cada onda sucessiva e levou-os para a extremidade do tubérculo, como espuma que derramam da máquina de lavar. Tudo o que podia ser visto à luz do lampião eram flashes brancos de espuma. Maryann apertou seu filho ao peito convulsivamente, depois que uma rajada de vento quase levou-o de seus braços. Ajudada por Buddy, inclinando-se contra o vento, ela chegou até a raiz que se ramificava para fora do tubérculo. Lá eles se abrigaram dos piores efeitos do vendaval, que parecia a uivar ainda mais ferozmente. Coube a Orville a tentativa de resgatar Greta, mas era uma tarefa impossível. Mesmo em circunstâncias normais, seria difícil puxar seu peso no piso escorregadio do fruto; e sozinho, contra o vento, ele não poderia carregar ela. Na verdade ela parecia estar se movendo para o turbilhão com a polpa da fruta. Depois de uma terceira tentativa quixotesca, se entregou voluntariamente as súplicas mudas de Flor e juntou-se a Buddy e Maryann na raiz.
Greta deslizou para a frente. Milagrosamente a lamparina que havia sido confiada a ela durante o período de descanso ainda estava acesa. Na verdade, queimava mais brilhante do que antes.
Embora sua visão começasse a tremer como um filme mal emendado, ela estava certa em seus últimos momentos de consciência que podia ver o grande estômago palpitante da coisa, laranja brilhante e rosada que só poderia ser chamado Peach Pango e, sobreposto a ele, uma grade cintilante Cinderella Vermelho. A grade parecia crescer a um ritmo alarmante. Então, ela sentiu toda a massa de seu serlevado por um redemoinho, e por um momento breve sem peso, ela era jovem novamente, e então ela caiu de uma grande altura.
Na raiz eles ouviram o som. Maryann abraçou-se e Buddy murmurou alguma coisa.
"O que você disse?" Orville gritou, a tempestade havia atingido seu auge, e até mesmo
aqui na raiz eles estavam agarrados às videiras para não serem sugados de volta para o tubérculo.
"Eu disse que teremos vermes na cidra esta noite" Buddy gritou de volta.
"Quê?..."
"Vermes!..."

O som áspero, que tinha sido inaudível durante a tempestade, ressurgiu, e tão abruptamente como o vento tinha brotado, morreu. quando o os sons diminuiram a um nível tranquilizador, os cinco voltaram para o tubérculo. Mesmo sem a lamparina, a mudança ficou evidente: o chão estava vários metros mais baixo do que tinha sido; vozes ecoavam das superfícies, que eram duras como rocha, até mesmo a casca grossa do fruto havia sido raspado. e no centro deste espaço maior, mais ou menos no nível de suas cabeças, um tubo grande se estendia desde a abertura da raiz superior para a inferior. O tubo era quente ao toque e estava em constante movimento para baixo.
"Um tipo de aspirador de pó" Orville disse. "Deixou este lugar limpo. Não há o suficiente  aqui para alimentar um rato."
"As colheitadeiras vieram" disse Buddy. "Você não acha que eles plantaram todas essas coisas para deixá-las a apodrecer, não é?"
"Bem, é melhor ir até a superfície e ver a cara deste fazendeiro MacGregor."

Mas eles estavam estranhamente relutantes em deixar o tubérculo seco.
Um humor elegíaco tinha se estabelecido. "Pobre Greta", disse Flor.
Todos eles se sentiram melhor quando esta simples lembrança foi pronunciado. Greta estava morta, e o velho mundo parecia ter morrido com ela.

Eles sabiam que o mundo que encontrariam ao subir não seria o mesmo que eles tinham deixado para trás.



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sábado, 9 de julho de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 18)



QUINZE
SANGUE E LICORICE

Sua mão tocou o corpo morto dela. Buddy pensou no início que era o cadáver de seu pai, mas então se lembrou de como tinha uma vez tropeçado no mesmo corpo frio e experimentado o terror: havia um caminho de volta! Este era o fio que conduziria para fora do labirinto.

Percorreu o caminho de volta até Orville e Flor.
"Neil está dormindo?" Perguntou.
"Ele parou de fazer barulho" Orville disse. "Está dormindo ou está morto."
Buddy contou-lhes as novas. "...isso significa que podemos voltar pelo caminho que tentamos em primeiro lugar. Para cima. Foi um erro nosso voltar atrás."
"Aqui estamos nós, em um círculo completo. A única diferença agora" Orville observou "é que temos Neil conosco. Talvez o melhor a fazer fosse deixá-lo para trás. Podemos ir agora!".
"Eu pensei que tínhamos concordado em deixar os outros decidirem o que fazer com Neil."
"Nós não vamos acabar com ele. Estaremos deixando-o quase exatamente no mesmo lugar que o encontramos, capturado na armadilha que fez para você. além disso, podemos deixar o corpo de Alice em seu caminho, e ele pode descobrir por si mesmo que o caminho de volta é por onde ele a jogou para baixo."
"Não meu meio-irmão. Não Neil. Ele só se assustará ao encontrar o corpo. Descobrir o caminho de volta para ele seria o mesmo que esperar que descubrisse o teorema de Pitágoras sozinho. Inferno, aposto que se você tentasse explicar isso para ele, ele mesmo assim não acreditaria."
Flor, que tinha estado a ouvir tudo isso atordoada, começou a tremer, a tensão que o corpo dela tinha sofrido por tanto tempo começava a dissipar-se.
Era como no tempo em que ia nadar no lago; sua carne tremia, mas ao mesmo tempo sentia-se estranhamente rígida. Em seguida, seu corpo, nu e tenso, de repente foi pressionado contra Orville, e ela não sabia se ele tinha vindo até ela ou ela até ele.

"Querida, nós vamos conseguir voltar! Nós vamos...depois de tudo! Oh, minha querida!"
A voz estridente de Neil veio da escuridão: "Eu ouvi isso!"
Embora ela pudesse ouvir Neil à frente, Flor sustentou o beijo desesperadamente. Seus dedos apertados nos braços musculosos de Orville. Seu corpo esticado para a frente. Em seguida, uma mão fechada em torno da boca e outra em torno de seu ombro a puxou para longe de Orville, mas ela não se importou. Ela ainda estava atordoada com a felicidade, e imprudente era o amor.

"Eu suponho que você estava dando-lhe mais respiração artificial?" Neil zombou.
Foi talvez sua primeira piada autêntica.
"Eu estava beijando ele" Flor respondeu orgulhosamente. "Estamos apaixonados".
"Eu o proíbo de beijá-lo!" Neil gritou. "Eu a proíbo de estar apaixonada. Proíbo!"
"Neil, me solte!" Mas suas mãos se fechavam ainda mais apertado.
“Você...Jeremias Orville! Vou dar um jeito em você. Você... eu tenho observado você o tempo todo. Vem enganado muita gente, mas nunca me enganou. eu sabia o que você estava fazendo. Eu vi o jeito que você olhou para Flor. Bem, você não vai consegui-la. O que você vai conseguir é uma bala em sua cabeça."
"Neil, solte-me. Você está me machucando."
"Neil" Buddy disse em um tom baixo, o tom que se adota com animais assustados, "essa menina é sua irmã. Você está falando como se ele tivesse roubado sua namorada. Ela é sua irmã."
"Ela não é."
"O que diabos você quer dizer com isso?"
"Quer dizer que eu não me importo!"
"Seu sujo."
"Orville, é você? Por que não vem aqui, Orville? Eu não vou deixar Flor ir embora. Você vai ter que vir resgatá-la. Orville?"

Ele puxou os braços de Flor para trás das costas e agarrou os pulsos finos com a mão esquerda. Quando ela lutou, torceu os braços para cima dolorosamente algemado-a com a mão livre. Quando ela parecia pacificada, ele tirou o Python do coldre, como quem tira uma jóia do porta-joias amorosamente.

"Vem cá Orville, e veja o que eu tenho para você.”
"Tenha cuidado. Ele tem uma arma!" gritou Buddy. "A arma do Pai."

A voz de Buddy veio mais da direita do que Neil tinha esperado. Jogou seu peso a frente, mas não estava realmente preocupado, porque tinha uma arma e eles não.
"Eu sei" disse Orville.
Um pouco para a esquerda. O espaço dentro deste tubérculo era longo e estreito, muito estreito para virem pelos lados.
"Eu tenho algo para você também Buddy, se você acha que vai escapar depois que o cérebro do seu amigo pular para fora. Eu tenho um machado."
Ele riu uma risada feia.
"Ei! É uma piada Buddy...amigo, entendeu?"
"É uma droga de piada, Neil. Se você quer melhorar sua personalidade, não deve fazer piadas."
"Isso é apenas entre Orville e eu, Buddy. Vá embora ou... ou eu vou cortar sua cabeça fora, isso é o que vou fazer."
"É? Com o que? Com seus dentões?"
"Buddy" Orville advertiu, "ele pode ter encontrado o machado. Eu o trouxe comigo."
Felizmente ninguém pensou em perguntar por quê.
"Neil, deixe-o ir. Deixe-o ou eu nunca vou falar com você de novo. Se você parar de agir desta forma, todos nós podemos ir para cima e esquecer que isso aconteceu."
"Não, você não entende Flor. Você não está segura ainda."
Seu corpo se inclinou para frente até que seus lábios estavam tocando os ombros dela e descansaram por um momento, sem certeza do que fazer. Em seguida, sua língua começou a lamber a polpa da fruta com a qual todo o seu corpo estava coberto. Ela conseguiu a gritar.
"Quando você estiver segura, eu vou deixar você ir, eu prometo. Depois, você pode ser minha rainha. Haverá apenas nós dois e o mundo inteiro. Nós vamos para a Flórida, onde nunca neva, nós dois."
Ele falou com eloqüência natural, pois tinha parado de pensar sobre o que disse, e as palavras saíram de seus lábios sem censura, pelos mecanismos defeituosos da consciência. Era mais um triunfo para o lado primitivo.
"Vamos deitar na praia, e você pode cantar, enquanto eu assovio. Mas ainda não mocinha. Não até que você esteja segura. Em breve."

Buddy e Orville pareciam ter parado de se mover a frente. Tudo estava quieto, exceto pelo pingar do fruto maduro. O sangue de Neil subira à cabeça, o efeito que o medo induz ao animal. Eles estão com medo de mim! pensou. Medo da minha arma! O peso da pistola na mão, o modo como seus dedos se curvavam em torno dela, a forma como um deles pressionava o gatilho, lhe proporcionou mais prazer  gratificante do que seus lábios tinham conhecido tocando o corpo da irmã.

Eles estavam com medo dele. Eles podiam ouvir sua respiração difícil e o som de Flor choramingando (que ela manteve apenas para que eles pudessem ouvi-la e avaliar sua distância), e ficaram para trás. Eles tinham muito desprezo por Neil e estavam prontos para arriscar suas vidas desesperadamente contra ele. Certamente havia alguma maneira de enganá-lo.
Talvez se ficasse com raiva o suficiente, faria algo tolo desperdiçando sua única bala em um ruído no escuro ou soltasse Flor.

"Neil" sussurrou, "todo mundo sabe sobre você. Alice disse a todos o que você fez."
"Alice está morta" Neil zombou.
"Seu fantasma!" Buddy assobiou. "Seu fantasma está aqui procurando por você. Por conta do que você fez para ela".
"Ah, isso é um monte de besteira. Eu não acredito em fantasmas".
"E por causa do que você fez ao Pai. Isso foi uma coisa terrível de se fazer, Neil. Ele deve estar com raiva de você. Deve estar procurando por você também. Ele não vai precisar de uma lâmpada para encontrá-lo.”
"Eu não fiz nada!"
"O Pai sabe. Alice sabe também, não é? Todos nós sabemos. Foi assim que você obteve a pistola Neil. Você matou para obtê-la. Matou seu próprio pai. Qual é a sensação de fazer algo assim? Diga-nos. O que ele disse no último momento?"
"Cale-se! Cale a boca!"

Quando começou a falar mais uma vez, tinha o mesmo tom estridente de novo, enquanto a voz parecia estar chegando mais perto dele. Em seguida ficou quieto de novo, o que era pior. Neil começou a encher o silêncio com suas próprias palavras: "Eu não o matei. Por que eu iria querer fazer isso? Ele me amava mais do que amava qualquer outra pessoa, porque eu era o único que sempre lutava por ele. Eu nunca fugi, não importa o quanto eu queria fugir. Nós éramos amigos, o Pai e eu. Quando ele morreu..."
"Quando você o matou!"
"É isso mesmo, quando eu matei ele, ele disse: Agora você é o líder Neil. E ele me deu sua arma. Essa bala é para Orville, disse ele. Pai, eu disse, farei qualquer coisa que você mandar. Nós sempre fomos amigos, o Pai e eu. Eu tinha que matá-lo, você entende, não? Ora, ele teria casado a Flor com Orville. Ele disse isso. Pai, eu disse, você tem que entender...Orville não é um de nós! Eu expliquei isso com muito cuidado, mas ele só ficava ali e não dizia nada. Ele estava morto. Mas ninguém se importava. Todo mundo odiava ele, exceto eu. Nós éramos amigos, o Pai e eu. Camaradas".

Era evidente, para Orville, que o estratagema de Buddy estava falhando em seu efeito desejado. Neil estava além do ponto de que poderia ser abalado. Ele estava no limite.

Enquanto Neil falava, Orville avançou, agachado, com a mão direita explorando o ar a frente dele, feito os bigodes de um rato. Se Neil não estivesse segurando Flor, ou se não tivesse uma arma, seria uma simples questão de correr abaixado e acertá-lo. Agora era necessário, para seu próprio bem, mas mais especialmente por Flor, desarmá-lo ou se certificar de que seu disparo se perdesse.
A julgar por sua voz, Neil não podia estar longe. Balançou a mão em arco lentamente, e encontrou não a arma, não, mas a coxa de Flor.
Ela não o traiu com sua surpresa, não fez o menor ruído.
Agora seria fácil arrancar a arma da mão de Neil. A mão de Orville se estendeu para cima e para a esquerda: ele deveria estar aqui.
O metal do cano da arma tocou a testa de Orville.
A arma fez um contato tão perfeito que Orville podia sentir o orifício côncavo, dentro de um círculo de metal frio.
Neil puxou o gatilho. Houve um som de clique. Puxou o gatilho novamente. Nada.
Dias de imersão na seiva haviam umedecido a pólvora.
Neil não entendeu porque a arma falhou, mas após o outro clique, estava ciente do que tinha ocorrido. O punho de Orville veio-se em seu plexo solar e desviou na caixa torácica.  Neil tombou para trás e a mão que segurava a pistola desceu com força total, onde ele supostamente achava que estaria a cabeça de Orville.
A coronha chocou-se contra algo duro. Orville fez um gemido.
Sorte...Neil teve sorte. Ele bateu de novo em algo macio. Nenhum ruído. O corpo de Orville estava aos seus pés. Flor tinha conseguido escapar, mas Neil não se importou com isso agora.
Ele tirou o machado de seu cinturão, onde tinha estava preso, o cabeça chata contra o seu estômago, o cabo cruzando sua coxa esquerda.

"Você fique longe Buddy, está ouvindo? Ainda tenho um machado.”
Em seguida, ele pulou na barriga de Orville e em seu peito, mas sem sapatos não conseguiria ferí-lo, então sentou-se em sua barriga e começou a bater-lhe no rosto com os punhos.
Neil estava fora de si. Ele ria, como ele ria!
Mas mesmo assim parava em intervalos para brandir na escuridão o machado.
"Whoop-xixi!" ele gritava. "Whooppee!"
Alguém estava gritando. Flor.

A parte mais difícil era manter Flor calma. Ela não queria parar.
"Não!" Buddy disse. "Você vai se matar. Não sei o que fazer. Ouça-me, pare de gritar e escute.”
Ele a balançou. Ela se acalmou.
"Eu posso manter Orville longe dele, então deixe-me fazê-lo. Enquanto isso, você vai até o caminho onde estivemos antes. Ao longo do desvio. Você se lembra do caminho?"
"Sim.”
"Você vai fazer isso?"
"Sim. Mas você tem que levar Jeremias para longe dele.”
"Então eu vou esperar para ver você lá em cima. Vá em frente agora."
Buddy tinha pego o cadáver rígido e podre de Alice, quando Orville correu como um tolo e estragou tudo.
Ele avançou alguns metros na direção da voz de Neil, parou, agarrou o corpo da velha junto ao peito como uma armadura.

"Oooow"  gemeu.
"Buddy" Neil gritou de pé erguendo o machado "vá embora!"
Mas Buddy só fazia a mesma bobagem de gemidos e suspiros que as crianças fazem brincando de fantasma em uma noite de verão ou em um sótão escuro.
"Não pode me assustar" disse Neil. "Eu não tenho medo do escuro."
"Não sou eu, juro" Buddy disse calmamente. "É o fantasma de Alice. Ela está vindo te pegar. Você não pode sentir o cheiro?"
"Ah, isso é um monte de besteira" Neil respondeu.
O gemido recomeçou. Ele ficou na dúvida, se retornava para Orville ou ia atrás de Buddy.
"Pare com isso" gritou: "Eu não gosto desse barulho".

Ele podia sentir o cheiro! O cheiro de seu pai quando estava para morrer!
A investida de Buddy dera resultado. O cadáver atingiu Neil com força total. Uma mão endurecida acertou os olhos e a boca, rasgou-lhe o lábio.
Ele caiu agitando o machado descontroladamente. O cadáver fez um som horrível. Neil gritou também. Talvez fosse apenas um grito de todos, Neil e o cadáver juntos. Ele rolou e outra vez ficou de pé. Ainda tinha o machado.
Em vez de Orville, havia alguém debaixo de seus pés. Ele sentiu a face rígida, os cabelos, os braços inchados. Era Alice. Ela não estava mais amarrada e algo estava saindo de sua boca.
Alguém estava gritando. Neil.
Ele gritou o tempo todo, cortando o corpo da mulher morta.
A cabeça caiu de um só golpe de machado. Ele dividiu o crânio com outro.
Enterrou o machado várias vezes em seu dorso. Uma vez o machado caiu e feriu-lhe o tornozelo, um golpe feio. Ele caiu, e o corpo desmembrado cedeu debaixo dele como fruta podre. Ele começou a rasgá-lo com as mãos. Quando não havia mais possibilidade de feri-lo novamente, ele se levantou, respirando pesadamente e gritou, não sem uma certa reverência: "Flor?"
Estou bem aqui.
Ah, ele sabia que ela ia ficar para trás, ele sabia! "E os outros?" Perguntou.
Eles foram embora. Eles me disseram para ir embora também, mas eu não fui. Eu fiquei para trás.
"Por que você fez isso, Flor?"
Porque eu te amo.
"Eu também te amo Flor. Eu sempre te amei. Desde que você era apenas uma criança".
Eu sei. Vamos embora juntos. Sua voz cantarolava embalando-o, sua mente cansada como um berço. Em algum lugar longe daqui, onde ninguém possa nos encontrar. Florida. Nós vamos viver juntos, só nós dois, como Adão e Eva, e pensar em novos nomes para todos os animals.
Sua voz ficou mais forte, mais clara e mais bonita. Vamos navegar em um bote inflável pelo Mississippi. Apenas nós dois. Noite e dia.
"Oh" disse Neil.
Começou a caminhar em direção à bela voz.
"Oh, continue." Ele estava andando em círculos.
Eu vou ser sua rainha e você vai ser meu rei, e não haverá mais ninguém no mundo.
Sua mão tocou sua mão. Sua mão tremia.
Beije-me, disse ela. Não é isso que você sempre quis?
"Sim".
Seus lábios procuraram os lábios dela. "Oh, sim.”
Mas a cabeça, e portanto seus lábios, não estavam no lugar onde se esperaria que estivessem. Não estava em seu pescoço.
Finalmente ele encontrou a cabeça a alguns metros de distância.
Os lábios que provou ao beijá-la com gosto de sangue e licorice.
E por alguns dias, satisfez a luxúria de anos com a cabeça de Alice Nemerov, RN.


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sábado, 2 de julho de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 17)



Para baixo a seiva se transformava num dilúvio. Empurrava os corpos uns contra os outros ou para longe tão casualmente como enchentes levam consigo as árvores da margem do rio.
Fortes correntes atirava-os contra as paredes da raiz onde as curvas eram muito traiçoeiras ou muito íngremes.

Dias de escalada foram retraçados em minutos.

Ainda mais para baixo a seiva tornou-se mais grossa, como o pudim antes de alcançar uma fervura. Mas o ritmo não abrandava. Era como descer uma pista de esqui em um pedaço de papelão. Pelo menos eles não precisavam se preocupar em repetir o erro: não era mais possível se mover contra a correnteza em direção ao lago.

Nessa profundidade, havia agora trechos inteiros onde a seiva quente enchia o vazio da raiz. Conseguindo uma golfada de ar, Orville (que era sempre o primeiro a testar qualquer nova passagem), seguia a corrente sem resistir e com esperança. Havia sempre algum ramo alimentado pela raiz inundada acima, pequena demais para subir através dela, talvez, mas grande o suficiente para enfiar a cabeça e obter ar. Mas da próxima vez, é claro, poderia não haver tal abertura. Poderia ser um beco sem saída.

Esse medo, que a corrente estivesse levando-os a um beco sem saída, tomava toda a sua atenção.
Mais e mais vezes seus corpos eram arrastados para enredar-se nas redes dos capilares inchados de seiva que margeavam as passagens inexploradas. Uma vez Orville fora pego na rede, onde a raiz tinha dividido abruptamente em dois. Buddy e Flor logo atrás, encontraram-no, as pernas movendo-se na correnteza. Sua cabeça batera contra a rígida cunha que separa os dois ramos da raiz. Ele estava inconsciente, talvez afogado. Eles o puxaram pela perna da calça mas ela deslizou pelos quadris estreitos. Então cada um pegou um pé e o puxaram para fora. A uma curta distância encontraram uma área onde a raiz ligeiramente inclinava para cima, apenas a metade sob a seiva. Buddy abraçou Orville em um abraço de urso e começou a empurrar o líquido para fora de seus pulmões ritmicamente. Então Flor tentou a respiração boca-a-boca, que tinha aprendido nas aulas de natação na Cruz Vermelha.

"O que você está fazendo?" Neil perguntou nervoso.
"Ela está fazendo respiração artificial" Buddy respondeu irritado. "Ele quase se afogou lá atrás."
Neil colocou os dedos entre a boca de Orville e Flor e em seguida, segurou firmemente Orville.
"Você está beijando-o!"
"Neil!" Flor gritou. Ela tentou arrancar os dedos do irmão, mas mesmo o desespero não emprestava-a força suficiente. Ninguem consegue permanecer desesperado tanto tempo, e ela passara desse limite há muito tempo.
"Vou matá-lo!"
Buddy desferiu um golpe na direção onde deveria estar Neil, mas resvalou no ombro de Orville. Neil começou a arrastar o corpo de Orville para longe.
"Ele nem está de calças" disse Neil irritado.
"Ela saiu quando estávamos puxando-o. Dissemos para você, lembra?"

A privação repentina de oxigênio, vindo depois dos seus esforços de revitalização, provou ser exatamente o estímulo necessário para Orville.Quando o corpo que estava carregando começou a se mexer, Neil soltou-o assustado. Havia pensado que Orville estava morto, ou quase.
Buddy e Neil então tiveram um longo debate sobre a nudez (quer no caso particular de Orville e em geral) presente, em excepcional circunstâncias. O argumento foi sobretudo um pretexto para Buddy dar uma chance de Orville recuperar suas forças.
"Você quer voltar para o superfície" Buddy perguntou "ou quer ficar aqui e se afogar?"
"Não!" Disse Neil, mas mais uma vez. "Não está certo. Não!"
"Você tem que escolher!"
Buddy ficou contente por saber que poderia jogar com os medos de Neil tão facilmente quanto uma gaita.
"Porque se vamos subir, vamos ter que ir juntos, e vamos precisar de algum tipo de corda."
"Tinhamos uma corda."
"E você a perdeu Neil."
"Eu não. Eu não!"
"Bem, você foi o último que teve ela na mão e agora ela se foi. Agora precisamos de uma outra corda. Claro, se você não se importar em voltar... Ou se acha que pode fazer melhor".
Eventualmente Neil concordou.
"Mas Flor não vai tocá-lo, entendeu? Ela é minha irmã. Entendeu?"
"Neil, você não precisa se preocupar com isso até estarmos todos em casa, seguros" Buddy comtemporizou.
"E eles não devem falar mais uns com os outros também. Porque se eu digo assim, assim vai ser. Flor, você vai na minha frente e Buddy atrás. Orville por último".

Neil, nu agora exceto para cinto e coldre, atou as pernas das suas calças juntas, e cada um fez o mesmo apertando-as na corda improvisada.
A água era profunda e tão quente que a pele parecia estar saindo de seus ossos, como uma galinha que ferve por muito tempo.
A correnteza estava enfraquecendo, porém, avançavam mais lentamente.

Logo eles haviam encontrado uma abertura de raiz acima a partir do qual a água que jorrava dali não era muito pior do que quando tinham notado primeiramente... há quantos dias?
Cansados, quase mecanicamente, começaram a subir novamente.
Flor lembrou de uma canção do berçário da escola sobre uma aranha atingida pela água da chuva:

Então o sol saiu e levou a  chuva embora, e a pequena aranha começou a subir novamente.

Ela começou a rir, como havia feito com as estranhas palavras do poema de Jeremias, mas desta vez ela não conseguia parar de rir, apesar do quanto o riso lhe doia.
De todos eles, Buddy era o mais chateado com isso, pois ele podia se lembrar do inverno anterior na Sala Comum, e as pessoas que no descongelamento da neve, rindo e cantando, pessoas que nunca mais veria. O riso de Flor não era diferente dos deles.

A raiz naquele ponto se abria em um tubérculo da fruta, e eles decidiram descansar e comer. Orville tentou acalmar Flor, mas Neil disse para ele calar a boca. A polpa agora estava semi-líquida, caia em suas cabeças e ombros como os excrementos de grandes aves com diarreia.

Neil estava dividido entre seu desejo de ir para onde o barulho do riso de sua irmã não iria perturbá-lo e um desejo igualmente forte para ficar perto e protegê-la. Ele cedeu, movendo-se para uma distância média, onde podia deitar de costas, sem intenção de dormir, só para descansar o corpo...Sua cabeça caiu sobre o cabo do machado que Jeremias tinha deixado cair ali. Soltou um pequeno grito, que ninguém notou. Estavam todos cansados. Ele sentou-se por um longo tempo pensando, com os olhos doendo com o esforço de enxergar, embora não pudesse ver nada naquela escuridão.

A polpa amolecida continuava a cair de cima, respingando em seus corpos e no chão com sons crepitantes, como beijos de crianças.


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sábado, 25 de junho de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 16)




QUATORZE
O CAMINHO PARA CIMA


O silêncio que por meses tinha sido absoluto, era quebrado agora pelo gotejar da seiva.
Era como o som da água no início da primavera, fluindo pelas sarjetas da cidade os bancos de neve derretidos.

Enquanto descansavam não falavam, a declaração mais inócua de Neil poderia jogá-los em um estado de excitação histérica. Naturalmente eles sabiam sobre Anderson e Alice, mas quando Buddy começava a se preocupar em voz alta sobre sua esposa e filho, Neil se queixava que estava sendo "egoísta", que tudo que ele pensava era sexo. Quando Orville falou das dificuldades e especularam (com mais ânimo) sobre suas chances de chegar à superfície, Neil pensou que eles estavam culpando-o.
O silêncio parecia ser a melhor política, mas Neil não podia suportar mais do que alguns momentos
de silêncio também. Em seguida, ele começava a reclamar:
"Se não tivéssemos derrubado a lamparina, não estaríamos tendo problemas agora."
Ou, lembrando um dos temas preferidos do pai: "Por que eu tenho que pensar por todos? Por que?"
Ou começava aassoviar. Suas músicas favoritas eram polcas,  Beer Barrel, Red RiverValley, Donkey Serenade (que ele acompanhava percussivamente com o estalar das bochechas) e o tema do Êxodo.
Uma vez que começava qualquer uma dessas, poderia ir assim até dormir.
Não seria tão ruim se ele fosse afinado.

Era mais difícil para Buddy. Flor e Orville tinham um ao outro. Na escuridão se davam as mãos, e durante o solo de Neil, como um macaco diligente, poderiam arriscar mesmo um beijo em silêncio.

Ali não havia nem norte, nem sul, leste ou oeste, nem para cima ou para baixo. Não haviam unidades de distância, apenas estimativas aproximadas de temperatura e profundidade, e sua única medida de tempo decorrido era o tempo que levava para seu corpo cair exausto demais para continuar.

Eles nunca sabiam se estavam na periferia ou próximo ao coração do labirinto. Eles podiam subir através dos canais já abertos, algumas centenas de metros, ou mesmo dez, para encontrar-se em um beco sem saída. Era necessário não apenas encontrar um caminho para cima, mas encontrar o caminho para cima. É era difícil fazer Neil entender por que isso acontecia. Quando Flor tinha explicado a ele, ele pareceu concordar mas depois, quando Orville trouxe o assunto de novo, começou a questionar tudo de novo.

Estavam encharcados com seu próprio suor e com a seiva, que em áreas menos íngremes atingia quatro a cinco centímetros. Depois de horas de escalada estavam a uma altura em que o calor não era tão opressor (nas profundezas sentiam-se como numa sauna).
Orville estimara que pela temperatura estavam a prováveis quatrocentos e cinquenta metros da superfície. Normalmente, ao longo de um percurso conhecido, eles podiam subir aquela altura em pouco mais de três horas. Agora poderia levar muito bem dias.

Orville tinha esperança de que o fluxo de seiva diminuísse à medida que alcançavam níveis mais elevados, mas ao contrário, foi piorando. De onde é que tudo isso vem? A logística de abastecimento de água da planta era algo que nunca tinha parado para pensar. Bem, ele não poderia parar agora.
Não conseguia simplesmente agarrar um cipó e subir pela encosta, você tinha que fazer da mão uma espécie de gancho e enfiá-la em uma concavidade. Então não era possível ajudar a próxima pessoa depois de você. Tinha que segurar-se com as duas mãos feridas. Você se agarrava lá e sentia-se solto, esperava não deslizar na seiva para longe demais. Uma vez que você se soltava, não era tão mal, você deslizava ao longo da inclinação macia e não era muito íngreme, como um tobogã, até que surgia algo mais duro na colisão, e então você tinha que começar a subir o seu caminho de volta através do lodo. Mas você sabia que seu corpo poderia suportar um longo caminho ainda, e esperava que fosse suficiente.

Poderiam ter escalado doze horas ou duas vezes isso. Tinham comido e descansado algumas vezes, mas não dormido. Eles não tinham dormido, de fato, desde antes da noite que Anderson morrera e Maryann parido. Agora devia ser noite novamente. Suas mentes embotadas com a necessidade de sono.
"Necessidade absoluta" Orville repetia.
Neil se opôs. Ele temia que se dormisse, eles iriam tirar a arma dele. Não eram confiáveis.
Mas ele poderia apenas ficar ali e deixar seu corpo relaxar...muito cansado, isso é que ele...
Foi o primeiro a dormir e eles não tomaram sua arma. Eles não se importavam com ela. Eles não queriam  sua arma: só queriam dormir.

O repertório de sonhos de Neil não era maior que seu estoque de músicas. Primeiro ele sonhou o seu sonho de beisebol. Então subindo as escadas da velha casa na cidade. Então sonhou com Flor. E sonhou o seu sonho de beisebol novamente, só que desta vez foi diferente: seu pai era o homem da primeira base. O sangue jorrava da ferida na luva do homem da primeira base, a ferida da mão que abria e fechava, abria e fechava.
Mas por outro lado os sonhos eram apenas o mesmo de sempre.

No dia seguinte, depois de uma hora ou mais, a dor das suas mãos passou, e foi a rigidez o mais difícil de suportar. Suas roupas se agarravam aos membros, como pele que não poderia ser retirada.

"Nós vamos nos mover mais rápido" Orville, disse "se não ficaremos presos debaixo das roupas."
Um pouco mais tarde, já que parecia que a idéia não iria vir de Neil por si só, Buddy acrescentou:
"Se nós atarmos nossas roupas juntas e usarmos como corda, poderíamos escalar mais rápido."
"Sim" Neil disse "mas você está esquecendo que há uma senhorita com a gente."
"Oh, não se preocupem comigo" Flor protestou.
"Apenas as nossas camisas, Neil. Não seria tão diferente de nadar."
"Não!" O tom estridente rastejando em sua voz novamente. "Não seria certo!" Não adiantava discutir com ele uma vez que já tinha se convencido disso.
Ele era seu líder.
Na próxima vez que pararam para descansar e comer, a seiva caia sobre eles em pedaços grandes, como gotas anunciando uma tempestade de verão. O fluxo principal da seiva que corria através da raiz estava agora em seus tornozelos. Assim como eles não estavam bastante encharcados ainda, suas roupas agarravam-se a eles, como ternos de fita adesiva.
Eles só podiam circular livremente somente quando estavam encharcados.
"Eu não agüento mais" disse Flor começando a chorar. "Eu não posso suportar isso!"
"Força agora, Miss Anderson. Queixo para cima! Tally-ho! Lembre-se do Titanic!"
"Agüentar o quê?" Neil perguntou.
"Estas roupas" disse ela. E de fato era só uma parte do que ela não podia suportar mais.
"Ah, acho que ela está certa" disse Neil, tão desconfortável quanto os outros. "Não há nada errado se apenas tirarmos as camisas. Entreguem para mim, e eu vou dar nó nas mangas."
"Boa idéia!" Orville disse. Todos eles as entregaram para Neil.
"Flor!" Disse. "Eu não me referi a você. Não é certo."
Ela não disse nada. Neil deu uma espécie de risadinha. "Bem, se é assim que você quer" disse ele.
Coisas brotavam da pequena abertura acima como água jorrando com força de uma fonte principal.
Não poderia ser chamado de seiva. Era mais como água. Estavam felizes por poderem se limpar. Mas era frio, muito frio.

As raízes que ascendiam entre eles eram cada vez menores ao invés de maiores.
Para passar por elas agora eles tinham que rastejar nas mãos e joelhos, e mesmo assim raspariam a cabeça no teto se não tivessem cuidado. Com água até os cotovelos.
"Eu acho" afirmou Orville com cautela, "que estamos chegando sob o lago Superior. Esta quantidade de água não pode ser proveniente somente do degelo da primavera."
Esperou Neil protestar. Depois, ainda com mais cautela:
"Acho que teremos que voltar por onde viemos. Vamos torcer para ter uma melhor sorte na próxima."
A razão de Neil não ter protestado foi que ele não tinha ouvido. A voz de Orville tinha sido abafado pelo rugido da água, hectares e hectares de Plantas sedentas retirando a água do fundo do lago.
Orville explicou várias vezes a sua teoria quando recuaram para um lugar mais calmo.
Em seguida, Flor tentou.

"Neil, olhe, é muito simples, a única maneira de nos distanciarmos do lago é para baixo. Porque se tentarmos nos mover ao longo deste nivel, podemos muito bem estar seguindo leste -  para dentro do lago, assim como sudoeste, para longe dele. Se tivéssemos a lamparina, poderíamos usar a bússola, mas não temos a lamparina. Nós poderíamos ir norte ou sul, seguindo a beira do lago. Não há como dizer quanto da área abaixo do lago Papai explorou no inverno passado. Nós apenas temos que ir para baixo. Você entendeu?"
Orville aproveitou a ocasião para trocar algumas palavras em particular com Buddy:
"Que diabos, vamos deixá-lo aqui, se ele não quer ir com a gente. Vai ser culpa dele se ele se afogar."
"Não" disse Buddy "não seria certo. Eu quero fazer isso direito."
"Ok, eu vou", disse Neil  para Flor "mas acho que tudo isso é um monte de besteira. Eu só estou indo por sua causa. Lembre-se disso."


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sábado, 18 de junho de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 15)



TREZE
CUCO, JUG-JUG, PU-WE, TO-WITTA-WO!



Há pessoas que não conseguem gritar mesmo quando a ocasião pede enfaticamente para gritar.
Qualquer sargento pode dizer aos homens, bons soldados, que quando correrem para enfiar uma baioneta nas vísceras de um boneco de serragem, devem fazê-lo com um tipo qualquer de grito de guerra, ou na melhor das hipóteses imitando um, um hesitante Morra! Morra! Morra! 
Não é que estes homens não tivessem as emoções primordiais de ódio e sede de sangue, mas se tornaram muito civilizados, desligados da experiência de uma fúria incontrolável e pura.
Talvez uma verdadeira batalha desperte isso neles, talvez não.
Há mais emoções primordiais, mais elementares para a sobrevivência, do que o ódio e a sede de sangue, mas elas também podem ser silenciadas, com maneiras civilizadas.
Apenas situações extremas podem libertá-las.

Orville Jeremiah era um homem muito civilizado. Os últimos sete anos o libertara de muitas formas,  mas ele não havia apagado a sua civilidade até muito recentemente, quando os acontecimentos lhe ensinaram a desejar a consumação de sua vingança acima de sua própria felicidade e segurança.
Era um começo.
Mas quando estava ao lado de Flor, o machado em sua mão invisível, ele próprio invisível, ouvindo os gritos que o medo arrancava de sua garganta, a emoção mais primordial do amor venceu, quebrou o Jeremias civilizado. Deixando cair a arma, ficou de joelhos e começou a beijar o corpo jovem que agora era a coisa mais importante e bonita do mundo.

"Flor" ele chorou de alegria. "Flor, Flor!"
E continuou sem sentido repetindo o nome dela.
"Jeremias! É você, meu Deus, eu pensei que era ele!"
E ele ao mesmo tempo: "Como eu poderia ter amado um fantasma, sem corpo, quando tudo isso...perdoe-me! Você pode me perdoar?"
Ela não conseguia entendê-lo. "Perdoar você!" Ela riu e chorou e eles disseram muitas coisas um ao outro sem pensar, sem compreender mais do que o fato de ainda não assimilarem que estavam apaixonados.

A paixão tende a ser, se não completamente inocente, lenta.
Orville e Flor não podiam apreciar a felicidade de olhar por horas um nos olhos do outro, mas a escuridão permitia tanto quanto negava. Eles namoraram. Eles chamaram um ao outro pelos nomes carinhosos de romances colegiais (nomes que Orville não havia usado com Jackie, a não ser, quando as mãos de Orville caíram sobre ela, com expressões mais grosseiras), e estes querido, estes meu doce, minha amada, pareciam expressar filosofias de amor.
Eventualmente algumas palavras de senso comum perturbavam a solidão perfeita de seu amor, como seixos jogados em um lago tranqüilo.

"Os outros devem estar procurando por mim" disse ela. "Tenho que avisar que estou bem."
"Sim, eu sei, eu estava ouvindo Alice falar com você."
"Então você sabe que papai queria isso. Ele ia dizer isso quando..."
"Sim, eu sei."
"E Neil..."
"Eu sei isso também. Mas você não precisa se preocupar com ele agora."
Inclinando-se ele beijou o lóbulo macio de sua orelha.
"Não vamos falar sobre isso ainda. Posteriormente faremos o que temos de fazer."
Ela empurrou Orville para longe dela.
"Não Jeremias. Ouça-me, vamos lá para fora, para algum lugar longe de todos eles, do ódio, do ciúme. Algum lugar onde eles nunca vão nos encontrar. Podemos ser como Adão e Eva e pensar em novos nomes para os animais. Há um mundo todo lá fora."

Ela não disse mais nada, pois percebeu que havia mesmo um mundo todo lá fora. Estendeu uma mão para alcançar Orville puxando-o de volta e para empurrar o mundo para longe por um pouco mais, mas em vez da carne viva de Orville sua mão encontrou o quadril fraturado de Alice.
Ela sussurrou. "Isso não pode terminar aqui!"
"Não vai acabar" prometeu ele a seus pés. "Nós temos a vida inteira pela frente. Uma vida dura. Na minha idade, eu deveria saber."
Ela riu. Então para o mundo inteiro ouvir, ela gritou:
"Estamos aqui em baixo. Vá embora. Nós vamos encontrar nosso caminho de volta por nós mesmos."
Mas Buddy já havia encontrado-os, entrando no tubérculo por uma passagem lateral.
"Quem é esse com você?" Perguntou ele. "Orville é você? Eu deveria te dar uma surra por isso! Você não sabe que o velho está morto? Que inferno!"
"Não Buddy, você não entende." Ela disse. "Está tudo bem, Orville e eu estamos apaixonados."
"Sim, eu entendo tudo muito bem. Ele e eu vamos ter uma conversa sobre isso em particular. Eu só espero ter chegado aqui antes dele poder colocar o seu amor à prova. Pelo amor de Cristo Orville, esta menina tem apenas catorze anos! Ela é jovem o suficiente para ser sua filha. Ela é jovem o suficiente para ser sua neta."
"Buddy! Não é assim!" Flor protestou. "É o que o pai queria para nós. Ele disse para Alice e depois..."
Buddy avançou com a sua voz como um guia, tropeçando no corpo da enfermeira.
"Inferno!"
"É Alice. Se você apenas me ouvisse!" 
Flor rompeu em lágrimas que a frustração misturava com tristeza.

"Sente-se" Orville disse "e cale a boca por um minuto. Você está tendo conclusões erradas, e há um monte de coisas que você não conhece. Não discuta, Buddy, ouça!"
"A questão então não é o que deve ser feito no caso de Neil, mas quem pode fazer isso" concluiu Orville. "Eu não acho que deveria ter que suportar esta responsabilidade, nem você. Pessoalmente eu nunca gostei da forma arrogante de seu pai de ser juiz, júri e escrever as leis. É uma honra ter sido nomeado como seu sucessor, mas uma honra que prefiro declinar. Este é um assunto para a todos opinarem".
"Concordo. Eu sei que se eu fizesse...o que tem que ser feito, eles diriam que foi por motivos pessoais. E isso não seria verdade. Eu não quero nada que ele tem. Não mais. Na verdade, a única coisa que eu quero agora é voltar e ver Maryann e meu filho".
"Então a única coisa a fazer é definir sobre como encontrar os outros. Flor e eu podemos ficar fora do caminho até que o assunto tenha sido resolvido. Neil pode ser rei por um dia, mas ele vai ter que dormir em algum momento, e haverá tempo suficiente para depô-lo."
"Tudo bem. Nós vamos voltar agora, mas não ao longo da minha corda. Seria muito fácil de se deparar com Neil dessa maneira. Se subir as videiras da raiz por onde veio, não haverá perigo de atravessar seu caminho."
"Se Flor concordar com isso, eu também concordo.”
“Jeremis seu velho estranho, eu posso subir essas raízes duas vezes mais rápido que qualquer outro de trinta e cinco anos de idade, e duzentos quilos".
Buddy ouviu o que ele supôs ser um beijo e apertou os lábios em desaprovação.
Embora em teoria, ele concordasse com tudo o que Orville havia dito em sua própria defesa e na de Flor, os tempos haviam mudado, o casamento precoce era agora algo positivo à maneira antiga, e Orville (este tinha sido o argumento de Flor) era certamente o mais cobiçado dos sobreviventes, e tinha a benção póstuma de Anderson para sua união. Apesar de todas essas irrefutáveis razões, Buddy não podia deixar de sentir um certo desgosto pela coisa toda. Ela ainda é uma criança, disse para si mesmo e isso para ele, era um fato indiscutível. Mas engoliu seu desgosto como uma criança engole alguns vegetais a fim de sair dali e fazer algo mais importante.
"Vamos dar o fora" disse ele.

Para retornar à raiz primária por onde Flor e Orville tinham descido era necessário voltar ao longo do caminho que Buddy tinha vindo e em seguida por uma ramificação angulosa da raiz, tão estreita que mesmo engatinhando era difícil.
Mas este foi apenas um prenúncio das dificuldades que enfrentaram para subir na raiz vertical.
As vinhas através da quais eles esperavam subir estavam cobertas com uma fina película de limo, a mão não conseguia agarrá-los com a firmeza para não escorregar. Somente nos pontos nodais, onde as videiras  formavam uma espécie de estribo, é que se podia conseguir uma pegada segura, e não era sempre certo que haveria uma outra intersecção nodal. Tinham sempre que recuar e refazer o caminho ao longo de uma rede de videiras diferente. Ainda mais frustrante é que os pés (embora nus) estavam constantemente a escorregar destes estribos improvisados.
Era como tentar subir uma escada de corda untada, e com degraus faltando.

"Não parece que estamos tentando nos matar?" Buddy perguntou retoricamente. "Eu não sei de onde esse limo está vindo, mas isso não parece que vai diminuir. Quanto mais alto formos, mais chances de quebrar o pescoço se cairmos. Por que não voltamos pela minha corda, afinal? Não é provável que vamos encontrar com Neil, e se o fizermos, basta não deixá-lo saber o que conversamos. Eu prefiro o risco de encontrá-lo a enfrentar outros cem metros por esta coisa untada."

Isto pareceu a atitude mais sensata, e eles voltaram para o tubérculo. A descida foi fácil como escorregar em cano liso. Seguindo a linha de Buddy por uma encosta suave, eles notaram que aqui também as videiras estavam umidas e escorregadias debaixo de seus pés descalços. Sentindo a camada de vinhas, Orville descobriu que um pequeno riacho do lodo descia a ladeira.

"O que você acha que é isso?" Buddy perguntou.
"Acho que a primavera finalmente chegou" Orville respondeu.
"E esta é o curso da seiva! Eu reconheço a sensação e o cheiro agora, oh, como conheço esse cheiro!"
"Primavera" Flor disse. "Nós vamos poder voltar à superfície!"

A felicidade é contagiosa (e não estavam lá todos os motivos para uma jovem ser feliz em qualquer caso?) e Orville citou parte de um poema:
"Primavera, a doce Primavera, o presente do ano ao rei;
Então cada coisa floresce, as empregadas na roda dançam,
O frio não fere, os lindos pássaros cantam,
Cuckoo, jug-jug, pu-we, to-witta-wo!”  (n.t.: SPRING de Thomas Nashe)
"Que lindo poema!" disse ela pegando sua mão e a apertando.
"Um monte de bobagem!" Buddy disse "...Cuckoo, jugjug, pu-we, to-witta-wo!"
Os três riram alegremente.
O sol já parecia estar brilhando sobre eles, e nada mais era necessário para fazê-los rir de novo, só que um deles repetisse as velhas e tolas rimas elizabetanas.



Cerca de dois mil metros acima de suas cabeças, a terra revivia, sob a influência do sol brilhante, o fato que havia passado o equinócio. Mesmo antes das últimas manchas de neve terem derretido do lado sul das pedras, as folhas das Plantas grandes desfraldaram para receber a luz, começando sem mais delongas a executar seu trabalho como se outubro fora ontem.
Exceto pelo barulho das folhas estalando ao se abrirem (o que acabou em um dia), era uma primavera silenciosa. Não haviam pássaros a cantar.
As folhas gritavam famintas às hastes, secas devido ao frio inverno do norte, e as hastes gritavam famintas às raízes, onde a seiva aguardava. As folhas, necessárias para fazer o alimento novo, começavam a ferver por capilares inumeráveis. Onde esses capilares tinham sido quebrados pela passagem do homem, a seiva jorrava para fora e espalhava-se sobre as vinhas que cobriam as cavidades das raízes. À medida que mais e mais a seiva era derramada através das artérias da Planta que despertava, formava riachos, fundindo-se com outros riachos, gerando pequenos riachos, córregos e estes corriam para inundar as profundezas das raízes. Em depressões em que os capilares estavam ainda intactos, a seiva fora reabsorvida, mas em outros lugares, os níveis destes riachos subiam mais e mais inundando as raízes, como esgotos no repentino degelo de Março.
Em ambos os hemisférios, a Planta estava chegando ao final de uma longa estação e agora, em intervalos regulares sobre a terra verde, descendo dos céus primaveris, esferas imensas brilhantes, bombardeando e esmagado várias Plantas sob seu peso.
Vistos a distância, a paisagem se assemelhava a um leito de trevos cobertos com bolas cinzentas de basquete. Estas bolas de basquete em algumas horas ao sol, se partiam a partir das aberturas em suas bases e centenas de cílios exploratórios, cada um dos quais movendo-se para a Planta mais perto e então como eficazes brocas pouco a pouco começavam a perfurar o caule lenhoso na cavidade raiz abaixo. Quando uma passagem satisfatória tinha sido aberto, o cílio era atraído de volta para a bola de basquete cinza.
A colheita estava sendo preparada.




Neil tinha passado três vezes ao círculo de corda que ele havia feito para interceptar Buddy, e estava começando a ter a sensação de que havia sido pego em sua própria armadilha (embora como tinha acontecido, ele ainda não entendia).
Então como temia, Buddy podia ser ouvido retornando ao longo da raiz. Flor e Orvifie estavam com ele, todos rindo! Dele? Ele tinha que se esconder, mas não havia onde se esconder, e ele não queria se esconder de Flor. Então disse: "Ah, oi."
Eles pararam de rir.
"O que você está fazendo aqui?" Buddy perguntou.
"Bem, veja você, uh...Esta corda aqui,...Não, não é isso."
Quanto mais ele falava, mais confuso ficava, e  Buddy mais impaciente também.
"Ah, não importa. Venha. Encontrei Flor. Orville também. Vamos nos juntar aos outros agora. É primavera. Você não percebeu o lodo – Hei – o que é isso?"
Ele tinha encontrado o ponto onde o fim de sua própria corda estava atada ao seu próprio meio.
"Essa certamente não é a interseção de onde partimos. Eu me lembro que eu tinha ido para baixo numa raiz tão pequena como esta."
Neil não sabia o que fazer. Ele queria bater na cabeça de seu irmão xereta, é o que ele queria fazer, e atirar em Orville apenas para ver a  explosão de seus miolos.
Mas ele sentiu que isso era melhor ser feito longe de Flor, que não entenderia.
Uma conversa sussurrada estava acontecendo entre Buddy, Orville e Flor.
Então Buddy disse: "Neil, você fez..."
"Não! Eu não sei como...aconteceu sozinho! Não foi minha culpa!"
"Bem, você é um burro turrão!" Buddy começou a rir. "Porque, se você tivesse que cortar um galho de uma árvore, eu juro que você iria se sentar no lado errado ao fazê-lo. Você amarrou a minha linha em um círculo, não?"
"Não Buddy, juro por Deus! Como eu disse, eu não sei como..."
"E você não trouxe sua própria linha pela qual poderia voltar. Oh, Neil, como você fez isso?"
Orville e Flor se juntaram ao riso de Buddy.
"Oh, Neil!" Flor gargalhou. "Oh, Neil!"
Isso fez com que Neil se sentisse bem, ouvir Flor dizer o nome dele assim, e ele começou a rir junto com todos eles.
Ele era a piada!
Surpreendentemente parecia que Buddy e Orville não iam fazer oposição. Talvez soubessem o que era bom para eles!
"Parece que vamos ter que encontrar nosso caminho de volta da melhor forma possível" Orville disse com um suspiro quando estavam todos rindo. "Neil, você gostaria de nos guiar?"
"Não" disse Neil novamente sombrio e tocou o Python em seu coldre por garantia.
"Não, eu vou ser o líder, mas vou na retaguarda."

Uma hora depois, eles encontraram um beco sem saída, e sabiam que estavam completamente perdidos. Não era mais possível quebrar os vasos capilares com os braços. Estavam inchados de seiva e muito resistentes.
Foram obrigados por isso a ficar estritamente dentro dos limites de caminhos já abertos. Graças as explorações de Anderson, havia muitos destes. Demais deles.
Orville resumiu a situação: "Ao subsolo meus queridos! Vamos ter que tomar outro elevador para chegar lá."
"O que você disse?" Neil perguntou.
"O que eu disse foi que..."
"Eu ouvi o que você disse! E eu não quero que você use essa palavra de novo, entendeu? Tenho que lembrar para vocês quem é o líder aqui, hein?"
"Que palavra, Neil?" Flor perguntou.
"Meus queridos!" Neil gritou.
Neil era sempre capaz de gritar quando sentia que a ocasião pedia isso. Ele não era civilizado, e o primitivol estava muito próximo à superfície de sua mente. Parecia crescer próximo dela, o tempo todo.



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sábado, 11 de junho de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 14)



DOZE
FANTASMAS E MONSTROS


É melhor você se esconder, ela pensou, e foi assim que se perdeu.
Certa vez, quando Flor tinha sete anos, seus pais tinham ido para Duluth no fim de semana, levando o bebê, Jimmie Lee com eles, deixando-a sozinha na grande casa de dois andares na periferia de Tassel.
Era o décimo oitavo aniversário de casamento deles. Buddy e Neil, eram meninos grandes, um fora ao baile e outro para um jogo de beisebol. Ela assistiu um pouco de televisão e em seguida brincou com suas bonecas.
A casa estava muito escuro, mas era regra do pai nunca ligar mais de uma lâmpada por vez.
Ela não se importava em sentir-se um pouco assustada. Havia algo de bom nisso. Então ela apagou todas as luzes e fingiu que o monstro estava tentando encontrá-la no escuro. Mal ousando respirar e nas pontas dos pés, descobriu esconderijos seguros para todos os seus filhos: Lulu, porque ela era
negra, no depósito de carvão no porão, Ladybird, atrás de caixa dos gatos; Nelly, a mais velha, na lixeira sob a mesa do papai. Ficou mais e mais assustador. O monstro procurava-a por todos os lugares da sala, exceto no único lugar onde ela estava, atrás do terraço de pedra.
Quando saiu da sala, Flor subiu as escadas, mantendo-se próxima à parede para que não rangesse.
Mas fez um rangido, e o Monstro ouviu e veio atrás dela.
Com um grito excitado ela correu para o primeiro quarto e fechou a porta atrás dela. Era o quarto de Neil, e a imensa cabeça de alce com grandes chifres olhou com raiva para ela do seu posto sobre a cômoda. Ela sempre teve medo dos alces, mas estava com mais medo ainda do Monstro lá fora no corredor, escutando em cada porta para saber se ela estava lá dentro.
Entrou no armário de Neil, que estava entreaberto e se escondeu entre as botas fedorentas e velhos e sujos jeans. A porta do quarto se abriu. Estava tão escuro que não conseguia ver sua mão na frente de seu rosto, mas podia ouvir o Monstro fungando. Ele veio até a porta do armário e parou. Ele cheirava ela lá dentro.
O coração de Flor quase parou de bater, e orou a Deus e a Jesus que o monstro fosse embora.
O Monstro fez um barulho alto e terrível e abriu a porta, e pela primeira vez Flor viu o que parecia ser o Monstro. Ela gritou e gritou e gritou.

Neil foi o primeiro a chegar em casa naquela noite, e não conseguiu entender o que Flor estava fazendo em seu quarto com seu jeans sujo enfiado na cabeça, choramingando como se ela tivesse apanhado de cinta, e tremendo como um passarinho pego em uma tempestade de neve de abril.
Mas quando ele a segurou, seu corpinho tornou-se todo rígido, e nada a sossegaria a não ser dormir naquela noite na cama de Neil.
Na manhã seguinte, ela acordou com febre, e seus pais tiveram que abreviar a sua viagem e voltar para casa e cuidar dela. Ninguém entendeu o que tinha acontecido, mas Flor não se atreveu a dizer-lhes sobre o Monstro, que eles não podiam ver.
Eventualmente, o incidente foi esquecido.
Como Flor crescia, o conteúdo dos seus pesadelos era submetido a uma gradual mudança: os monstros antigos não eram mais aterrorizantes do que a cabeça de alce sobre a cômoda.
A escuridão porém, era o próprio material do terror, e Flor, correndo e rastejando através das raízes, descendo e descendo, sentiu o velho medo repossuí-la.
De repente todas as luzes da casa tinham sido desligadas. A escuridão se encheu de monstros, como despejar água em uma banheira, e ela correu, desceu escadas e corredores para baixo à procura de um armário para esconder-se dentro.
Durante todos esses últimos e longos dias com seu pai morrendo, e mesmo antes, Flor tinha ficado muito só. Ela sentia que havia algo que ele queria dizer a ela, mas que não iria deixar-se dizer.
Pensou que ele não queria que ela o visse morrer, e ela tinha se forçado a ficar de fora.
Alice e Maryann, com quem ela costuma passar seu tempo, não tinham outra preocupação que não o bebê. Flor queria ajudá-las, mas ela era muito jovem. Ela estava naquela idade quando se fica incomodada com a presença do nascimento ou da morte. Ela ficava próxima destes grandes acontecimentos e lamentava-se por ser excluída do seu âmbito.

Imaginou-se morrendo: como ficariam tristes todos, por terem negligenciado-a!
Mesmo Orville não tinha tempo para Flor. Ou ele ficava desligado de si próprio ou ao lado de Anderson. Só Neil parecera mais chateado com doença do velho homem.
Quando Orville encontrava Flor, olhava para ela com tamanha intensidade que a menina afastava-se, corada e até mesmo um pouco assustada. Não sentia que o entendia mais, e isso, de certa forma, a fez amá-lo mais e mais desesperadamente.

Mas nenhuma dessas coisas teria feito fugir assim, exceto em fantasias. Foi só depois que ela havia visto a expressão no rosto de Neil, o jeito quase sonâmbulo de suas feições, quando ela tinha ouvido falar o nome dela naquele determinado tom de voz, foi então que Flor, como uma corça que captura o cheiro de um caçador, entrou em pânico e começou a correr para as profundezas da escuridão, buscando abrigo.

Correu cegamente, e por isso era inevitável que iria passar por cima de um dos declives em uma raiz primária. No escuro, mesmo se você fosse cuidadoso, isso aconteceria. O vazio engoliu tudo.
De joelhos dobrados, entrou pela primeira vez na polpa da fruta, em seguida, seu corpo lançado para a frente afundou-se profundamente, profundamente nela. Foi descer ilesa, apenas a alguns centímetros de distância do corpo quebrado, mas ainda respirando, de Alice Nemerov, RN.



Ele havia falhado, ele Jeremias Orville. Ao invés de vingar-se, ele tinha assistido, dia após dia, a morte de Anderson, sua agonia, sua humilhação, e ele sabia que Jeremias Orville, nada tinha a ver com isso. Foi a Planta e o simples acaso que tinha acabado com Anderson.
Orville tinham estado ali como Hamlet, e disse amém para as orações de Anderson, só havia enganado-se por sua sutileza. Ele tinha sido tão ganancioso achando que os sofrimentos de Anderson deviam a ele, e não de nenhuma Planta que tinha levado o velho e sua tribo para uma terra de leite e mel. E agora seu inimigo estava morrendo por um mero acidente, infetado por uma mordida.

Orville remoia sozinho, na escuridão profunda, uma imagem, um fantasma, que tomava forma no ar. A cada dia a aparição ganhava definição, mas ele sabia, mesmo depois do primeiro branco cintilante, que era Jackie. Mas uma Jackie que nunca tinha sido: jovem, ágil, doce, a essência da graça e delicadeza feminina. Ela o fez, com suas artimanhas familiares, declarar seu amor por ela. Ele jurou que a amava, mas ela não estava satisfeita, ela não iria acreditar nele. Ela fez-lhe dizer isso de novo e de novo.Ela o lembrou das noites que estiveram juntos, dos tesouros de seu corpo jovem...e o horror de sua morte. Então perguntou novamente: Você me ama?
Eu amo, eu amo, ele insistiu. Eu te amo. Como você pode duvidar disso?
Ele estava em agonia pelo desejo de possuí-la novamente. Ansiava por um último beijo, o leve toque, um sopro só, mas fora recusado.

Eu estou morta, ela lembrou, e você não se vingou de mim.
"Quem é que vai pagar por isso?" ele perguntou em voz alta, agarrando o machado, que ele vinha segurando na palma da sua mão durante todo este tempo.
"Me dê um nome e com este machado mesmo eu...".
Flor, o fantasma sussurrou, não sem uma pitada de ciúme.
Você me abandonou por aquela criança. Você cortejou uma criança.
Não! Era só para poder traí-la. Foi tudo por sua causa!
Então vá traí-la agora, e eu retornarei para você. Então, só então, eu vou te beijar. Então, quando você me tocar, sua mão vai sentir a carne. E com essas palavras ela desapareceu.

No mesmo instante, ele soube que não tinha sido real, que esta era possivelmente, o início da loucura. Mas ele não se importava. Embora não fosse real, ela estava certa.
Imediatamente ele foi em busca de sua vítima. Encontrou-a em pé à beira de um grupo ao redor do cadáver de seu pai. Alice Nemerov perto do cadáver e Neil Anderson também estava lá, delirando. Orville não prestou atenção a nada disso. Então Flor, como se estivesse sentindo sua intenção,  correu loucamente pelos túneis escuros da Planta.
Ele a seguiu. Desta vez, faria o que devia ser feito, cuidadosamente rápido e com um machado.



Pressionando a polpa dura e crocante da casca do fruto entre as palmas das mãos, Flor foi capaz de espremer algumas gotas de água oleosa. Mas era quente nesta profundidade e mal conseguiu reavivar Alice. Começou novamente a massagear as mãos finas da velha, seu rosto, a carne flácida dos braços. Mecanicamente repetiu as mesmas palavras de conforto:
"Querida Alice, por favor...Tente acordar, tente...Alice, é Flor... Alice?... Está tudo bem agora. Oh, por favor!"
A mulher parecia estar consciente, pois gemia.
"Você está bem? Alice?"
Alice fez um barulho. Quando falava, quando podia falar, sua voz estava anormalmente alta e estranhamente resoluta.
"Meu quadril. Eu acho...sim, está quebrado."
"Oh não! Oh, Alice! Isso... dói?"
"Como o inferno, minha querida."
"Porque ele fez isso? Por que Neil..."
Flor fez uma pausa, ela não se atreveu a dizer o que Neil tinha feito. Agora que Alice estava consciente, seu próprio medo caiu sobre ela novamente. Era como se ela tivesse revivido Alice apenas que poder ser capaz de dizer a ela, que o monstro não era real, apenas algo que ela tinha imaginado.
"Por que ele me jogou aqui em baixo? Porque, minha cara, o filho da puta assassinou seu pai, e porque eu sabia que era tolo o bastante para fazer isso. E acho que ele nunca gostou muito de mim."
Flor disse que não queria acreditar, que era um absurdo. Ela fez Alice dizer o que sabia, apelou para as evidências, refutou-as. Fez repetir cada detalhe da história, e ainda não acreditava. Seu irmão tinha falhas, mas não era um assassino.

"Ele me matou, não?" Era uma pergunta difícil de responder.
"Mas por que ele faria uma coisa dessas? Por que matar um homem que está quase morto? Não faz nenhum sentido. Não havia nenhuma razão."
"Foi por você, minha cara."
Flor quase podia sentir a respiração do monstro no pescoço.
"O que você quer dizer?" Ela agarrou a mão de Alice quase com raiva. "O que eu tenho com isso?"
"Porque ele deve ter achado que seu pai tinha a intenção de casar você e Orville Jeremiah."
"Papai...Eu não entendo!"
"Ele queria que Jeremias fosse o novo líder, para tomar seu lugar. Ele não queria isso, mas viu que teria que ser assim. Mas ele me proibiu de falar sobre isso. Eu lhe disse para esperar. Eu pensei que poderia mantê-lo vivo. Eu nunca pensei...".

Alice falava, mas Flor tinha parado de escutar. Ela entendeu agora o que seu pai queria lhe dizer e por que ele hesitou. Luto e vergonha inundaram-na: ela tinha se enganado com ele, ela sofrera sozinha. E ele só queria a sua felicidade, a felicidade que ela queria para si! Se ela pudesse voltar para pedir perdão, agradecer-lhe. Era como se Alice, por essas poucas palavras, acendesse todas as luzes na casa de seu pai e restaurasse a vida. Mas as palavras de Alice dissiparam essa ilusão.

"É melhor você tomar cuidado" disse ela severamente. "Não se atreva em confiar nele. Especialmente você."
"Oh não, não, você não entende. Eu o amo. E eu acho que ele me ama também."
"Orville não! É claro que ele te ama. Qualquer tolo pode ver isso. É com Neil que você deve prestar atenção. Ele é louco."
Flor não protestou. Ela sabia, melhor do que Alice, embora menos consciente até agora, que era verdade.
"E parte de sua loucura tem a ver com você."
"Quando os outros souberem o que ele fez, quando eu lhes contar..."
Flor não precisava dizer mais do que isso. Quando os outros souberem o que Neil tinha feito, ele
seria morto.
"É por isso que eu lhe disse. Então eles irão descobrir."
"Direi a eles mesmo. Nós temos que voltar. Agora. Aqui, coloque o seu braço em volta do meu ombro." Alice protestou, mas Flor não quis ouvir. A mulher era leve. Flor poderia levá-la se necessário.
Um grito angustiado separaram os lábios da mulher idosa, e ela empurrou o braço de Flor.
"Não, não, a dor...Eu não posso."
"Então eu vou buscar ajuda."
“Que ajuda? De quem? Um médico? Uma ambulância? Eu não pude ajudar seu pai a se recuperar de uma mordida do rato!" O som que penetrou acima delas foi mais eloquente do que quaisquer palavras que ela poderia ter pretendido dizer. Por um longo tempo Flor tocou os lábios dela para manter o silêncio. Quando sentiu que Alice estava pronta para ouvir, ela disse:
"Então eu só vou sentar aqui com você."
"E me ver morrer? Vai demorar um pouco. Não mais que dois dias, no entanto, e na maioria das vezes eu estarei fazendo esses barulhos terríveis. Não haveria conforto para mim. Mas há algo que você pode fazer. Se você for forte o suficiente."
"Seja o que for, eu vou fazê-lo."
"Deve prometer."
Pegou a mão de Flor e apertou em garantia. "Deve fazer por mim o que Neil fez por seu pai."
"Matar você? Não! Alice, você não pode me pedir isso."
"Minha querida, eu fiz isso no meu tempo para aqueles que pediram. Alguns deles tinham menos razão do que eu. Uma seringa de ar, e a dor..."
Neste momento ela gritou.
"Flor, eu lhe peço."
"Alguém pode vir. Nós faremos uma maca."
"Sim, alguém pode vir. Neil pode vir. Você pode imaginar o que ele faria se ele me encontrasse ainda viva?"
"Não, ele não o fará!" Mas imediatamente ela sabia que ele faria.
"Você deve, minha querida. Vou fazer que cumpra a sua promessa. Mas beije-me em primeiro lugar. Não, não assim, nos lábios."
Os lábios trêmulos de Flor pressionaram contra os de Alice, rígidos com o esforço para conter a dor.
"Eu amo você" sussurrou. "Eu amo você como minha própria mãe."
Então ela fez o que Neil tinha feito.
O corpo de Alice se afastou instintivamente, um protesto irrefletido e Flor soltou-a.
"Não!" Alice suspirou. "Não me torture, faça-o!"
Flor não soltou até a velha estar morta.
A escuridão cresceu mais escura, e Flor pensou que podia ouvir alguém descendo pelas vinhas da sobrecarregada raiz. Houve um ruído alto quando um corpo desceu pela polpa da fruta.
Flor sabia que era o  monstro: e ele se pareceria com Neil.
Ela gritou e gritou e gritou.
E o monstro tinha um machado.


"Retorne logo" ela implorou.
"Eu prometo."
Buddy abaixou-se para sua esposa, errando os lábios na escuridão (a luz, por ordem de Neil, fora ficar com o corpo do velho) e beijando o nariz em seu lugar. Ela riu feminina. Então, com um excesso de cautela, ele tocou um dedo no braço de seu filho pequeno.
"Eu amo você", disse sem se preocupar em definir se estava se dirigindo a ela ou a criança, ou talvez ambos. Ele não reconhecia a si mesmo. Ele só sabia que, apesar dos terríveis acontecimentos dos últimos meses e, especialmente da última hora, sua vida parecia de alguma forma ter ganho um significado que não tinha há anos. As considerações sombrias não poderiam diminuir a plenitude de suas esperanças, nem diminuir o brilho da sua satisfação.
Mesmo no pior desastre, na maior das derrotas, a máquina da alegria continuava a moagem para alguns poucos felizardos.

Maryann parecia mais consciente do que ele em seu pequeno círculo encantado, pois ela murmurou:
"Que coisa terrível."
"O quê?" Buddy perguntou. Sua atenção estava nos dedinhos minúsculos de Buddy Junior.
"Alice. Eu não consigo entender por que ele fez aquilo.”
"Ele é louco" disse Buddy movendo-se relutantemente para fora do círculo.
"Talvez ela o tenha xingado. Ela tem, ela tinha, uma língua afiada, você sabe. Quando ele voltar, eu vou ver o que houve. Sabe-se lá que idiotice ele fará a seguir. Orville vai ajudar, e há outros também.”
“Mas ele tem uma arma e nós não. E o importante agora é encontrar Flor."
"Claro que sim. Isso deve vir em primeiro lugar. É que é uma coisa tão terrível."
"É uma coisa terrível" ele concordou. Ele podia ouvir Neil chamando-o de novo.
"Eu tenho que ir agora." Ele começou a se afastar.
"Eu queria que a luz estivesse aqui, para que eu poder vê-lo mais uma vez."
"Parece que você não acha que eu vou voltar."
"Não! Não diga isso, nem mesmo de brincadeira. Você vai voltar. Eu sei que você vai. Mas Buddy?"
"Maryann?"
"Diga mais uma vez."
"Eu te amo".
"E eu te amo."
Quando ela teve certeza de que ele se fora, acrescentou: "Eu sempre te amarei."


Os vários membros do grupo de busca seguiam seu caminho através do labirinto de raízes divergentes sobre uma única corda fina, trançada por Maryann a partir da fibra do cipó. Quando qualquer membro do grupo separava-se do corpo principal, amarrava sua própria bobina de corda na corda comum, que levaram de volta para o tubérculo, onde Anderson estava deitado ao lado da luz vigilante.
Neil e Buddy desceram para mais distante ao longo da corda comum. Quando perceberam estavam em um cruzamento de novas raízes. Buddy atou uma extremidade de sua corda para o final da linha principal e saiu para a esquerda. Neil fez o mesmo para a direita, mas por uma curta distância.
Depois sentou-se para pensar.

Neil não confiava em Buddy. Nunca confiou. Agora que seu pai morrera, ele não teria que confiar ainda menos? Pensou que era tão inteligente quanto, e Buddy fez aquele moleque. Como ele era o único homem no mundo que nunca teve um filho? Neil o odiava por outros motivos também, que iam longe em sua mente. Não seria presumível que Neil Junior, se viesse a existir, seria o resultado de outras sementes que não a sua. Isso era um pensamento que não tinha tido ainda.
Neil estava preocupado. Percebeu que vários dos homens haviam mostrado uma resistência à sua autoridade, e esta resistência parecia mais forte em Buddy. Um líder não pode permitir que a sua liderança seja desafiada. Seu pai sempre foi duro sobre isso. Não parecia fazer qualquer diferença para Buddy que Anderson escolhesse Neil para assumir por ele. Buddy tinha sido sempre um selvagem, um rebelde, um ateu. Isso é o que ele era! Neil pensou surpreso com o quão perfeitamente a palavra definiu tudo em seu irmão. Um ateu! Por que não percebera isso antes?

De uma forma ou de outra, ateus tinham que ser excluidos. Devido ao ateísmo ser como um veneno no reservatório da cidade, como... Mas Neil não conseguiu lembrar do resto. Havia passado um longo tempo desde que seu pai tinha dado um bom sermão contra o ateísmo e contra a Suprema Corte.
Na esteira desta percepção outra nova idéia veio para Neil. Foi para ele uma verdadeira inspiração, uma revelação, quase como se o espírito de seu pai descesse do céu e sussurrasse em seu ouvido.

Ele ligaria a linha de Buddy em círculo! Então quando Buddy tentasse voltar, acabaria seguindo a corda em círculo. Uma vez que você entendesse o conceito básico, era muito simples.
Havia um percalço no entanto, quando você pensava sobre isso com cuidado.
Uma parte do círculo estaria aqui, neste cruzamento, e Buddy poderia talvez, descobrir o final da linha principal, onde ainda estava atado Neil. Mas não se o círculo não chegasse neste cruzamento!

Rindo de si mesmo, retirou o nó da corda de Buddy e começou a seguir enrolando a corda para cima à medida que avançava. Quando percebeu que ele tinha voltado o suficiente, amarrou ao longo de um ramo menor da raiz, desenrolando a corda enquanto engatinhava junto. Esta raiz pequena ligada a outra igualmente pequena, e dai para outra. As raízes da planta iam sempre circulando em torno de si, e se você ficasse só girando na mesma direção, você geralmente voltava ao ponto onde começou.
E com certeza Neil logo estaria de volta à raiz maior, onde ele pegou a linha de Buddy.
Buddy provavelmente não iria muito longe.

O truque de Neil estava indo  esplendidamente bem. Tendo quase chegado ao final do comprimento da corda, ele atou à outra extremidade que formava um círculo perfeito. Agora, Neil pensou com satisfação, deixaria-o tentar encontrar o caminho de volta.
Que tentasse! O ateu!
Neil começou a andar para trás a maneira que ele tinha vindo, usando a corda de Buddy como uma guia, rindo por todo o caminho.

Só então ele se notou que havia algum tipo de lodo engraçado sobre suas mãos e suas roupas também.



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sábado, 4 de junho de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 13)




Naquela noite, quando foi contado o número de sobreviventes (Anderson tinha cada vez menos condições de fazê-lo), Orville e Buddy vieram com o número de vinte e três. Neil, desta vez, contou vinte e quatro.
"Ele é lento" Buddy brincou. "Dê-lhe tempo. Ele vai alcançar a gente ainda."

Alice Nemerov, RN, sabia que Anderson ia morrer. Não só porque ela era uma enfermeira e reconhecia o inicio de uma gangrena. Ela tinha visto muitos morrerem antes que ele fosse mordido pelo rato, mesmo antes dos desmaios que haviam se tornado uma ocorrência diária. Quando um velho está se preparando para morrer, você pode ver estas coisas claramente. Isso porque ela era uma enfermeira, e porque ela havia tentado fazer alguma coisa para mantê-lo vivo.
Por este motivo, ela o havia persuadido a não falar com Orville e Flor sobre suas intenções para eles. Ela lhe oferecia uma esperança de vida. Pelo menos parecia uma esperança.
No início, quando a esperança tinha sido real, ela já havia tentado sugar a infecção, como em um acidente ofídico. O único efeito foi que ela ficou com náuseas e não conseguiu comer por dois dias. Agora, metade do pé dele estava azul escuro, morto. A decomposição agia muito rapidamente, se é que não tinha começado.
"Por que você não continuou sugando a infecção?" Neil perguntou.
"Não faria nenhuma diferença agora. Ele está morrendo."
"Você poderia tentar. Isso é o mínimo que poderia fazer. "
Curvado para baixo, Neil examinava o rosto adormecido de seu pai.
"Ele está respirando melhor agora?"
"Às vezes, a respiração fica muito difícil. Às vezes, ele mal parece respirar. Nenhum dos sintomas está fora do comum."
"Seus pés estão frios" disse Neil critico.
"O que você espera?" Alice agarrou ele  já sem nenhuma paciência. "Seu pai está morrendo. Você não entende isso? Apenas uma amputação poderia salvá-lo e neste ponto, na sua condição, ele não poderia sobreviver a amputação. Ele está exaurido, é um homem velho. Ele quer morrer."
"Isso não é culpa minha, não é?” Neil gritou.
Anderson acordou por um momento e Neil foi embora.
Seu pai havia mudado muito nos últimos dias e Neil sentia-o estranho com ele. Era como estar diante de um estranho.
"O bebê é um menino ou uma menina?" Sua voz era quase inaudível.
"Nós não sabemos ainda, Sr. Anderson. Pode demorar uma hora. Mas não mais do que isso. Tudo está pronto.
Ela fez as ligaduras a partir de sobras de corda. “Buddy trouxe da superfície um balde de neve, ele disse que foi uma nevasca de março de verdade lá em cima e fomos capazes de esterilizar a faca e lavar um par de peças de algodão. Não vai ser um parto hospitalar, mas eu tenho certeza que vai dar tudo certo."
"Nós devemos orar".
"...Você deve orar, Sr. Anderson. Você sabe que eu não sou ligada a essas coisas."
Anderson sorriu, e não foi por um milagre, uma expressão não muito desagradável. Morrer parecia suavizar o homem velho, e nunca tinha sido mais agradável do que agora.
"Você é como minha esposa, como Senhora. Ela deve estar no inferno por seus pecados e seu escárnio, mas o inferno não pode ser muito pior do que isso. De alguma forma, porém, eu não posso imaginá-la lá."
"Não julgueis para que não sejas julgado, Sr. Anderson."
"Senhora sempre disse isso também. Era a sua escritura favorita."
Buddy interrompeu-os: "O tempo acabou, Alice.Temos que ir."
"Vá lá, vá na frente, não fique aqui" Anderson pediu. Desnecessariamente, pois ela já tinha ido embora, levando a luz com ela.

A escuridão começou a cobri-lo como um cobertor de lã, como um cachecol.
Se for um menino, Anderson pensou, eu posso morrer feliz.
Era um menino.
Anderson estava tentando dizer algo. Neil não conseguia entender bem o que. Ele inclinou seu ouvido próximo à boca seca do velho. Ele não podia acreditar que seu pai estava morrendo. Seu pai! Ele não gostava de pensar nisso.
O velho murmurou algo. "Tente falar mais alto", disse Neil gritando em seu ouvido. Em seguida, a outros que estavam ao redor: "Onde está a luz? Onde está Alice? Ela deveria estar aqui agora. Porque vocês estão em pé ao meu redor assim?”
"Alice está com o bebê" Flor sussurrou. "Ela disse que levaria apenas mais um minuto."
Em seguida, Anderson falou de novo, alto o suficiente para Neil e mais ninguém ouvir.
"Buddy". Isso foi tudo que ele disse, embora ele tenha dito isso várias vezes.
"O que ele disse?" Flor perguntou.
"Ele disse que quer falar comigo sozinho. O resto de vocês, vá embora e deixe-nos juntos. Papai quer falar-me sozinho."
Houveram suspiros das poucas pessoas que ainda não estavam dormindo (o período de vigília terminara muitas horas atrás) e afastaram-se do tubérculo para deixar pai e filho juntos.
Neil esforçou-se para ouvir o menor som além, que teria significado que alguém permanecera nas proximidades. Nesta escuridão abissal, a privacidade nunca era uma coisa certa.
"Buddy não está aqui" disse finalmente com a certeza de que estavam a sós. "Ele está com Maryann e o bebê. E Alice. Há algum tipo de problema no jeito que ele respira."
Neil tinha a garganta seca e quando tentou engolir saliva, isso o machucou. Alice, pensou com raiva, deveria estar aqui. Todas as pessoas falavam, era o bebê, o bebê. Ele estava farto do bebê.
Curiosamente a mentira de Greta tinha causado efeito sobre Neil. Ele acreditava nela de verdade, inquestionável, assim como Maryann acreditava no nascimento virginal de Cristo. Neil tinha a capacidade de afastar simplesmente, fatos inconvenientes e considerações da lógica tal como teias de aranha. Ele já tinha decidido que o nome do seu bebê seria Neil Junior. Isso mostraria ao velho Buddy!
"Encontre Orville" Anderson sussurrou. "E traga os outros para cá. Eu tenho algo para dizer."
"Você pode dizer para mim? Hein, pai?"
"Traga Orville, eu disse!" O velho começou a tossir.
"Ok, ok!" Neil andou certa distância da pequena cavidade no fruto, onde seu pai estava, contando até cem (na sua pressa, saltou tudo entre cinquenta e nove e setenta), e voltou.
"Aqui está ele meu pai, como você pediu."
Anderson não achou estranho que Orville não o cumprimentasse. Todo mundo, nestes últimos dias, ficava mudo em sua presença, na presença da morte.
"Eu deveria ter dito isso antes, Jeremias" começou falando rapidamente, com medo de que essa renovação súbita de força o abandonasse antes que ele pudesse terminar.
"Esperei muito tempo. Embora eu saiba que você está esperando por isso. Eu posso dizer pelos seus olhos. Portanto, não havia necessidade de..."  parou tossindo. "Aqui" (ele gesticulou debilmente na escuridão) "tome o meu revólver. Há somente uma bala, mas alguns deles o vêem como uma espécie de símbolo. É bom que seja assim. São tantas coisas que eu queria te dizer, mas não tive tempo."
Neil ficava mais e mais agitado durante a despedida de seu pai e finalmente não se conteve:
"O que você está falando, papai?"
Anderson riu. "Ele ainda não entendeu. Você quer dizer a ele ou eu?"
Houve um longo silêncio. "Orville?" Anderson perguntou.
"Dizer o que, papai? Eu não entendo!"
"Isso. Orville Jeremiah está assumindo a partir de agora. Então, traga-o aqui!"
"Papai, você não pode estar falando isso." Neil começou a mastigar aflito seu lábio inferior. "Ele não é um Anderson. Ele nem é da vila. Ouça, Pai, eu lhes direi que vou assumir, né? Eu faria um trabalho melhor do que ele. Apenas me dê uma chance. Isso é tudo que peço, apenas uma chance."
Anderson não respondeu. Neil começou tudo de novo, num tom mais suave, mais persuasivo.
"Pai, você tem que entender...Orville não é um de nós."
"Ele vai ser em breve, pequeno bastardo. Agora traga-o aqui."
"O que você quer dizer com isso?"
"Quer dizer que eu vou casar ele com sua irmã. Agora, deixe de besteira e traga-o aqui. E sua irmã também. Traga-os todos aqui."
"Papai, você não pode, pai!"
Anderson não disse outra palavra. Neil mostrou-lhe todos os motivos que tornava impossível casar Flor com Orville. Por que Flor tinha apenas doze anos de idade! Ela era irmã de sua irmã! Não entende isso? E quem era esse tal de Orville? Ele não era ninguém. Eles deveriam tê-lo matado há muito tempo, juntamente com os outros saqueadores. Neil não tinha dito isso na época? Neil mataria-o agora, se Anderson pedisse.
Não importa que argumentos Neil oferecesse, o velho apenas descansava ali. Estaria morto? Neil se perguntou. Não, ele ainda estava respirando. Neil sentiu-se mal.
Seus ouvidos aguçados pegaram sons de outros retornando.
"Deixem-nos em paz!" Gritou para eles. Eles foram embora de novo, incapazes de ouvir Anderson
ordenar o contrário.
"Nós temos que falar sobre isso, você e eu pai" confessou Neil. Anderson não iria dizer uma palavra, nem uma palavra.
Com lágrimas nos olhos, Neil fez o que tinha que fazer. Pressionou as narinas do velho e segurou a outra mão firmemente em cima de sua boca. Ele mexeu-se um pouco no início, mas estava muito fraco para lutar. Quando o velho ficou muito, muito calmo, Neil pegou em suas mãos e procurou sentir se ele ainda estava respirando.
Ele não estava.

Em seguida, Neil pegou o coldre e pistola do velho e prendeu ao seu próprio corpo.
Era uma espécie de símbolo.
Pouco depois Alice chegou com a luz, e foi sentir o pulso do homem morto.
"Quando ele morreu?" Perguntou ela.
"Só um minuto atrás" disse Neil. Foi dificil compreendê-lo, ele chorava. "E ele pediu-me que tomasse o seu lugar. E ele me deu a sua pistola."
Alice olhou para Neil desconfiada. Em seguida inclinou-se sobre o rosto do cadáver e estudou atentamente sob a lâmpada. Havia manchas nas laterais do nariz e o lábio foi cortado e sangrava. Neil estava curvado para trás. Não conseguia entender de onde o sangue tinha vindo.
"Você o matou."
Neil não podia acreditar em seus ouvidos: ela tinha chamado-o de assassino!
Ele bateu em Alice ao alto da cabeça com a coronha da pistola. Então limpou o sangue que escorria pelo queixo do pai e a polpa de frutas espalhada pelo lábio cortado.
Mais pessoas vieram. Ele explicou-lhes que seu pai estava morto, que ele, Neil Anderson, iria assumir o lugar de seu pai. Ele também explicou que Alice Nemerov tinha deixado seu pai morrer, quando poderia tê-lo salvo. Toda a conversa dela sobre cuidar do bebê era tolice.
Foi tão ruim quanto se ela tivesse matado-o. Ela teria que ser executada como um exemplo. Mas não imediatamente. Por enquanto apenas iriam amarrá-la. E amordaçá-la.
Neil cuidou da mordaça ele mesmo.
E todos obedeceram. Estavam acostumados a obedecer Anderson, e estavam esperando Neil assumir a tarefa por anos.
Naturalmente, eles não acreditavam que Alice fora de alguma forma culpada, mas não tiveram tempo de acreditar em um monte de coisas que Anderson havia dito a eles, e eles sempre obedeceram  de qualquer maneira. Talvez se Buddy estivesse lá, ele teria algo a dizer. Mas ele estava com Maryann e seu filho recém-nascido, que ainda estava fraco. E eles não ousariam trazer o bebê para perto de seu avô, por medo de infecção.
Além disso, Neil acenava com a Python livremente. Todos sabiam que havia uma bala sobrando e ninguém queria ser o primeiro a iniciar uma discussão.
Quando Alice estava firmemente amarrada, Neil perguntou onde estava Orville. Ninguém o vira sair, ou ouviu falar dele por alguns minutos.
"Encontrem-o e tragam-no aqui. Agora mesmo! Flor! Onde está Flor? Eu a vi aqui um minuto atrás."
Mas Flor também não foi encontrada.
"Ela se perdeu!" Neil exclamou num lampejo de compreensão. "Ela se perdeu nas raízes. Nós precisamos criar um grupo de busca. Mas primeiro encontrem Orville. Não, primeiro alguém me ajude com isso."
Neil agarrou Alice pelos ombros. Alguém pegou seus pés. Ela não pesava mais do que um saco de ração e a na raiz mais perto havia agora um abismo vertical que não existia dois minutos antes. Jogaram-na através. Não conseguiram ver onde ela caiu, porque Neil tinha esquecido a lamparina.
Sem dúvida, ela caiu por um longo, longo tempo.
Agora seu pai estava vingado.
Agora ele iria procurar Orville. Havia apenas uma bala no Colt Python .357 Magnum. E era para Orville.
Mas primeiro ele deveria encontrar Flor. Ela devia ter fugido para algum lugar quando ouviu que seu pai estava morto. Neil conseguia entender isso. A notícia tinha aborrecido-o também.
Em primeiro lugar procuraria Flor. Então Orville.
Ele esperava que, e como esperava, não encontrá-los juntos. Isso seria terrível demais.


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