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sexta-feira, 23 de março de 2012

Philip K. Dick and Philosophy: Do Androids Have Kindred Spirits?



Philip K. Dick and Philosophy: Do Androids Have Kindred Spirits? (EPUB) [ Download ]

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Minority Report - Philip K. Dick

O conto Minority Report (O relatório da minoria) de Philip K.Dick foi publicado a primeira vez em 1956 e aborda, como outros trabalhos seus, a questão do livre-arbítrio. Neste conto, PKD nos apresenta o Precrime, um nova tecnologia capaz de detectar crimes antes que eles aconteçam.




Precrime

Definido como um sistema profilático de segurança, o Precrime pune, com a detenção, pessoas que no futuro próximo cometerão um crime. O método substituiu o sistema tradicional de investigação-acusação-veredito, quando se tem uma vítima e se busca punir o culpado (ou culpados) pelo crime.
Como é dito no livro:

"A punição nunca foi um impedimento e dificilmente proporciona conforto para a vítima já morta".

O Precrime é baseado na noção de que assim que um caminho desagradável futuro é identificado, um caminho alternativo e melhor pode ser criado com a prisão antecipada do futuro agressor.

No cerne do sistema estão três mutantes conhecidos como 'PRECOGS', seres humanos que foram diagnosticados ao nascer como retardados (hidrocefalia) e que possuem a habilidade de 'ver o futuro' - um futuro próximo, somente algumas semanas adiante. Apesar da aparência humana, os PRECOGS são basicamente cérebros - seus corpos estão deformados e não possuem consciência ou qualquer ligação com o mundo real. Eternamente presos às máquinas que os mantém vivos, suas atividades cerebrais são monitoradas, decupadas e analisadas por computadores que transformam suas visões aleatórias em simbolos interpretáveis e que são convertidas, em parte, em predições (as informações não pertinentes à segurança dos cidadãos são passadas para outras agências governamentais). Os resultados finais são analisados conjuntamente pelo Precrime e pelas Forças Armadas, evitando, assim, qualquer tipo de manipulação. 

O sistema funciona da seguinte maneira: A interpretação das visões de cada PRECOG gera um relatório. Conforme são comparados e analisados, um relatório pode diferir do outro e o computador escolhe aqueles dois que mais se assemelham e então produz o relatório da maioria, considerado a predição mais acurada. Porém, sua existência implica na existência de um relato da minoria também, que acaba sendo desprezado.

A história inicia quando o comissário do Precrime John Anderton é apontado como o assassino de um homem desconhecido...





O Filme

Dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Tom Cruise (como o capitão John Anderton) a adaptação para o cinema é apenas vagamente baseado no conto de PKD. Estilicamente, o filme, que se passa em 2054, é uma combinação de ficção científica e thriller de ação, com uma forte dose de 'film noir', principalmente na concepção das imagens dessaturadas.

Lançado em 2002 e orçado em 142 milhões de dólares, teve sua produção iniciada muito tempo antes, em 1997, logo após Total Recall, outra adaptação de um conto de PKD. O roteiro escrito por John Cohen foi apresentado ao ator e produtor Tom Cruise (que na época estava compromissado com a série Missão Impossível) que o entregou ao amigo, o diretor Spielberg, que se mostrou bastante interessado. A produção iniciaria somente quatro anos depois, quando Spielberg, já de pré-contrato assinado, passou a encontrar-se com diversos cientistas e pesquisadores, a fim de conceber um futuro plausível para o filme. A filmagem acabou sendo postergada por conta do atraso dos projetos de Cruise e Spielberg (trabalhando em I.A). Posteriormente o roteirista Scott Frank precisou reescrever o roteiro de Cohen, acatando sugestões do diretor para acentuar os vilões e os mocinhos da trama. 

Nas palavras de Steven Spielberg: "A história de Philip K. Dick era só o trampolim. A maior parte do filme não segue a história - para o desgosto dos fãs Philip K. Dick, tenho certeza."

Ocasião e coincidência.

O conto de 1956, mesmo sem se passar em um tempo definido, reflete as preocupações de PKD (um eterno paranóico), com os rumos da política daquela época. Os roteiristas do filme captaram antecipadamente o frenesi anti-terror gerado pelo 11/9. A intuição de Dick foi trazida para as telas do cinema, justo no momento que tal especulação passou a se materializar na vida real de diversas formas, como o banco de dados para crimes futuros e a predição de roubos da polícia de NY.




Minority Report - A nova lei - Phulip K. Dick [ Download ]

Minority Report - Roteiro de Scott Frank [ Download ]

Minority Report - Roteiro de Jon Cohen [ Download ]




terça-feira, 5 de abril de 2011

O mapa-múndi de O Homem do Castelo Alto





[...No entanto, era um fato; o Pacífico não fizera nada para a colonização dos planetas. Estava envolvido – ou melhor, atolado – na América do Sul. Enquanto os alemães estavam ocupados em lançar no espaço enormes sistemas robotizados, os japoneses queimavam as florestas do interior do Brasil, erguendo edifícios de apartamentos de oito andares, de barro, para ex-caçadores de cabeças. Até os japoneses lançarem seu primeiro foguete, os alemães teriam posto o sistema solar no bolso. Segundo os pitorescos e antigos livros de história, os alemães ficaram para trás enquanto o resto da Europa consolidava seus impérios coloniais. Mas, refletiu Frink, desta vez não iam chegar por último; aprenderam....]
O Homem do Castelo Alto - Philip K.Dick

terça-feira, 15 de março de 2011

Philip K. Dick - Exhilaration and Terror of the Modern



Este livro discute a ficção científica de Philip K. Dick, tanto os contos quanto os romances.

A discussão é de dois pontos de vista: histórico e formal.

O primeiro considera a ficção como representação de uma resposta para a pós-modernidade, e investiga um confronto entre humanismo e pós-modernismo.

A segunda considera questões de gênero e forma. Dick é um entusiasta mais do que um escritor de ficção científica convencional, de modo que ele explora as convenções do gênero, em vez de obedecê-las. Não que sua versão de FC seja simplesmente lúdica: o choque entre humanismo e pós-modernismo escapa da ficção, a tensão entre realismo e fantasia, endêmica a Ficção Científica, é agravada no caso.

[...]

Preface 
Acknowledgments
Abbreviations 

PART I
1. Philip K. Dick and the Postmodern
2. Complications of Humanism and Postmodernism 
3. Static and Kinetic in Dick’s Political Unconscious 

PART II
4. Mired in the Sex War: Dick’s Realist Novels of the Fifties 
5. The Short Stories: Philip K. Dick and the Nuclear Family 
6. The Man in the High Castle: The Reasonableness and Madness of History
7. Eating and Being Eaten: Dangerous Deities and Depleted Consumers
8. Critique and Fantasy in Martian Time-Slip and Clans of the Alphane Moon
9. Critical Reason and Romantic Idealism in Martian Time-Slip
10. A Scanner Darkly: Postmodern Society and the End of Difference
11. Gestures, Anecdotes, Visions: Formal Recourses of Humanism
12. Postmodernism and the Birth of the Author in Valis 
Works Cited 
Index


Philip K. Dick - Exhilaration and Terror of the Modern - Christopher Palmer [ Download ]

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Caçador de Androides - Philip K. Dick



O Caçador de Androídes - Philip K. Dick  [ Download ]

sábado, 28 de agosto de 2010

Capas do livro Do androids dream of electric sheep?























O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 22)




RECOLOCOU O telefone no gancho e não mais despregou os olhos do ponto que se movera do lado de fora do carro.
A corcova no chão, entre as pedras. Um animal, disse a si mesmo.
Seu coração bateu devagar, sob a carga excessiva, o choque do reconhecimento.
Eu sei o que é, compreendeu. Nunca vi um deles antes, mas conheço pelos filmes que mostravam, no canal do governo. Eles estão extintos!, disse a si mesmo.

Rapidamente, tirou do bolso o amarfanhado e muito usado catálogo da Sidney's e virou as páginas com mãos trêmulas.
SAPO (Bufonidae), todas as variedades.

Extinto há anos. A criatura mais preciosa para Wilbur Mercer, juntamente com o jumento. Mas, sapos, acima de todas.
Preciso de uma caixa,
Girou sobre si mesmo com dificuldade, coisa alguma viu no assento traseiro do hovercar; saltou, correu até a mala, girou a fechadura, abriu-a.
Encontrou um recipiente de papelão, dentro dele uma bomba de combustível sobressalente para o carro. Despejou a bomba, encontrou um pouco de estopa grossa e dirigiu-se em passos lentos para o sapo. Sem tirar os olhos dele.

O sapo, notou, combinava inteiramente com a textura e tonalidade da poeira sempre presente. Evoluíra, talvez, enfrentando o novo clima, como enfrentara antes todos os climas. Se não se houvesse movido, jamais tê-lo-ia visto. Ainda assim, estivera sentado a não mais de metro e meio dele.
O que acontece quando a gente encontra — se encontra — um animal que se julga extinto?, perguntou a si mesmo, tentando lembrar-se.
Isso acontecia tão raramente. Havia alguma coisa sobre uma estrela de honra dada pelas Nações Unidas e uma soma em dinheiro. Uma recompensa que chegava a milhões de dólares.

E, dentre todas as possibilidades — encontrar a criatura mais sagrada para Mercer. Jesus, pensou, não pode ser.
Talvez isto se deva ao dano cerebral em mim: exposição à radiatividade.
Eu sou um especial, pensou. Alguma coisa me aconteceu. Como o debilóide Isidore e sua aranha. O que aconteceu a ele está me acontecendo. Será que foi Mercer quem providenciou isto?
Mas eu sou Mercer. Eu arranjei isto, eu descobri o sapo. Encontrei-o por que vejo através dos olhos de Mercer. Acocorou-se bem perto do sapo.

O animal empurrara para o lado a poeira, a fim de fazer um buraco parcial para si mesmo, afastara a poeira com a anca, de modo que só a parte superior de seu crânio chato e seus olhos projetavam-se acima do chão.
Entrementes, seu metabolismo reduziu-se quase à paralisação total, o animal entrou em transe. Nos olhos não havia fagulha, nem percepção de sua presença e, horrorizado, pensou: ele está morto, de sede, talvez. Mas se movera.
Pondo de lado a caixa de papelão, cuidadosamente começou a afastar a areia frouxa para longe do sapo. O bicho não pareceu objetar, mas, claro, ele não tinha consciência de sua existência.

Ao erguer o sapo, sentiu-lhe a frieza peculiar; em suas mãos, o corpo do animal parecia seco e enrugado — quase mole — e tão frio como se houvesse fixado residência em uma caverna sob a terra, a quilômetros do sol. Naquele momento, o sapo se mexeu; com suas fracas pernas traseiras, tentou livrar-se de sua empunhadura, querendo, instintivamente, afastar-se aos saltos.

Um bichão, pensou Rick. Adulto e sábio. Capaz, à sua maneira, de sobreviver mesmo àquilo a que não estamos realmente conseguindo sobreviver. Gostaria de saber onde ele encontra água para seus ovos.

Então, é isto o que Mercer vê, pensou, enquanto laboriosamente fechava a caixa, amarrando-a repetidas vezes. Vida que não podemos mais distinguir; vida cuidadosamente enterrada até a testa na carcaça de um mundo morto. Em cada brasa extinta do universo, Mercer provavelmente percebe vida que ninguém nota. Agora eu sei, pensou. E tendo uma vez visto através dos olhos de Mercer, provavelmente jamais pararei. E andróide nenhum, pensou, cortará as pernas deste animal. Como fizeram com a aranha do debilóide.

Com todo o cuidado, colocou a caixa amarrada no assento do carro e sentou-se ao volante.
É como ser criança outra vez, pensou.

Nesse momento, todo o peso o deixara, e a fadiga monumental, opressiva. Espere só até que Iran ouça isto.
Agarrou o aparelho e começou a discar. Depois, parou.
Vou fazer disto uma surpresa, concluiu.
Vai ser um vôo de apenas trinta ou quarenta minutos para voltar para lá.
Ansioso, ligou o motor e, logo depois, cortava o céu em direção a São Francisco, a mil e duzentos quilômetros ao sul.


No órgão condicionador Penfield, Iran Deckard estava sentada com o indicador da mão direita tocando o mostrador numerado. Mas não discou. Sentia-se inquieta e doente demais para fazer alguma coisa: um fardo que excluía o futuro e quaisquer possibilidades que ele poderia algum dia ter contido.
Se Rick estivesse aqui, pensou, ele me faria discar 3, e assim eu me descobriria querendo discar alguma coisa importante, fervilhante de alegria ou, se não isso, então possivelmente um 888, o desejo de assistir à televisão, qualquer que fosse o programa. O que será que estão mostrando? pensou.
Em seguida, pensou aonde teria ido Rick. Ele pode estar de volta e, por outro lado, pode não estar, disse a si mesma, e sentiu os ossos dentro do corpo se encolherem de velhice.
Uma batida à porta do apartamento.

Pondo de lado o manual Penfield, levantou-se de um salto, pensando: não preciso discar agora Já tenho o que quero...se for Rick.
Correu para a porta e abriu-a de par em par.
— Hei — disse ele.
Ali estava, um corte no rosto, as roupas amarrotadas e cinzentas, mesmo o cabelo saturado de poeira. As mãos, a face. .. a poeira colava-se a todas as partes de seu corpo; exceto aos olhos. Arredondados de espanto, seus olhos brilhavam como os de um menino.

Ele parece, pensou ela, como se tivesse estado brincando e chegou o momento de voltar para casa. Descansar, tomar um banho e contar tudo sobre os milagres do dia.
— Que bom ver você — disse ela.
— Eu tenho uma coisa para lhe mostrar. — Trazia e segurava com as duas mãos uma caixa de papelão. Quando entrou, não a depositou em lugar algum. Como se, pensou ela, a caixa contivesse algo frágil e valioso demais para soltar. Queria guardá-la eternamente em suas mãos.
— Vou-lhe preparar uma xícara de café.
No fogão, apertou o botão de café e, um momento depois, colocava uma imponente caneca ao lado dele na mesa da cozinha.

Segurando ainda a caixa, ele sentou-se e em seu rosto permanecia o olhar esbugalhado. Em todos os anos que o conhecia, jamais vira aquela expressão em seu rosto!
Algo acontecera desde que o vira pela última vez, desde que, na noite passada, ele saíra no carro. Agora, voltara e com ele essa caixa.
Na caixa, estava tudo o que lhe acontecera.

— Vou dormir — disse ele. — O dia inteiro. Telefonei e consegui falar com Harry Bryant. Ele me disse para tirar o dia de folga e descansar. Que é exatamente o que vou fazer.

Com todo o cuidado, pôs a caixa sobre a mesa e apanhou a caneca. Obediente, porque ela queria que fizesse isso, bebeu o café.
Sentada em frente a ele, ela perguntou:
— O que é que você tem aí nessa caixa, Rick?
— Um sapo.
— Posso vê-lo? — Ficou observando até que ele desamarrou a caixa e retirou a tampa. — Oh! — disse, vendo-o.
Por alguma razão, o bicho assustou-a. — Ele morde? — perguntou.
— Pegue-o. Ele não morde. Sapos não têm dentes.
Tirou o sapo da caixa e estendeu-o a ela. Suprimindo a aversão, ela pegou-o.
— Eu pensei que os sapos estivessem extintos — disse, virando-o, curiosa, sobre suas pernas. Pareciam quase inúteis. — Sapos podem saltar, como rãs? Quero dizer, este pode saltar subitamente de minhas mãos?
— As pernas de sapos são fracas — explicou Rick. — Esta é a principal diferença entre um sapo e uma rã, essa e a água. A rã permanece perto da água, mas um sapo pode viver num deserto. Encontrei este no deserto, perto da fronteira de Oregon. Onde tudo mais morreu.

Esticou a mão para tomá-lo de volta. Mas ela descobriu alguma coisa.
Ainda segurando-o de cabeça para baixo, mexeu no abdômen e, em seguida, com a unha, localizou o minúsculo painel de controle. Com um estalido, abriu-o.
— Oh! — A expressão do rosto dele desmoronou aos poucos. — Isso mesmo, agora estou compreendendo. Você tem razão.
Crista baixa, olhou mudamente para o falso animal. Tomou-o dela e mexeu-lhe nas pernas, como se confuso — não parecia entender inteiramente. Em seguida, com todo o cuidado, colocou-o na caixa.
— Eu gostaria de saber como foi que ele conseguiu chegar a uma parte tão desolada da Califórnia como aquela. Não há maneira de saber para quê.
— Talvez eu não devesse ter-lhe dito... que ele é elétrico. — Espichou a mão, tocou-lhe o braço. Sentia-se culpada, vendo o efeito que aquilo produzira nele, a mudança.
— Não — disse Rick —, estou satisfeito em saber. Ou melhor. .. — Ficou silencioso. — Eu preferiria saber.
— Quer usar o condicionador de estado de espírito? Sentir-se melhor? Você sempre tirou mais dele, mais do que eu, sempre.
— Eu vou ficar bem. 
Sacudiu a cabeça, como se tentasse clareá-la, ainda confuso. A aranha que Mercer deu ao debilóide, Isidore, provavelmente também era artificial. Mas isto não importa. As coisas elétricas também têm suas vidas. Insignificantes como essas vidas são.

— Você parece como se tivesse andado centenas de quilômetros.
— Foi um dia longo — concordou ele, abaixando a cabeça.
— Deite-se na cama e durma!
Ele fitou-a e, em seguida, como se perplexo:
— Acabou, não? — Confiante, pareceu esperar que ela lhe dissesse, como se ela soubesse. Como se ouvir a si mesmo dizer isso nada significasse. Tinha uma atitude dúbia em relação às suas próprias palavras; elas não se tornavam reais até que ela concordasse.
— Acabou — disse ela.
— Deus, que missão gigantesca — disse Rick. — Logo que comecei, não houve mais para mim maneira de parar. Ela continuou a me levar, até que finalmente peguei os Batys e então, de repente, não tive mais coisa alguma para fazer. E aquilo. .. — Hesitou, evidentemente atônito com o que começara a dizer. — Aquela parte foi pior. Depois que terminei o serviço. Não podia parar porque nada mais haveria, depois que eu parasse. Você teve razão esta manhã quando disse que eu nada mais sou senão um policial grosseiro, com mãos grosseiras.
— Eu não acho mais isso — retrucou ela. — Estou simplesmente feliz demais em tê-lo de volta em casa, que é o seu lugar. — Beijou-o e isto pareceu agradá-lo. O seu rosto se animou, quase tanto quanto antes — antes dela ter-lhe mostrado que o sapo era elétrico.
— Você acha que eu agi mal? — perguntou ele. — Pelo que fiz hoje?
— Não.
— Mercer disse que era errado, mas que devia fazê-lo, de qualquer maneira. Uma coisa realmente esquisita. Às vezes, é melhor fazer uma coisa má do que certa.
— É a maldição que caiu sobre nós — disse Iran. — Aquela de que fala Mercer.
— A poeira? — perguntou ele.
— Os assassinos que encontraram Mercer no seu décimo sexto ano, quando lhe disseram que ele não podia inverter o tempo e trazer de volta as coisas à vida. De modo que, agora; tudo o que ele pode fazer é continuar com a vida, indo aonde ela vai, para a morte. E os assassinos atiram pedras. São eles que fazem isso. Ainda perseguindo-o. E a todos nós, na verdade. Foi um deles que cortou seu rosto, aí onde está sangrando?
— Foi — disse ele fracamente.
— Você vai para a cama agora? Se eu sintonizar o órgão para um ambiente 670?
— O que é que isso produz? — perguntou ele.
— Uma longa e merecida paz — respondeu Iran.

Ele levantou-se dolorosamente, o rosto sonolento e confuso, como se um sem-número de batalhas houvessem sido travadas nele, durante muitos anos. Em seguida, devagar, tomou o caminho do quarto de dormir.
— Muito bem — concordou. — Uma longa e merecida paz.
Estirou-se na cama, a poeira despregando-se de suas roupas e cabelos nos lençóis brancos. Não havia necessidade de ligar o órgão, compreendeu Iran, apertando o botão que tornava opacas as janelas do quarto. Desaparecera a luz cinzenta do dia.
Na cama, após um momento, Rick adormeceu.

Ela permaneceu ali durante algum tempo, olhando-o para ter certeza de que ele não acordaria, não se sentaria, de medo, como às vezes fazia durante a noite. Em seguida, voltou à cozinha e se sentou mais uma vez à mesa.
Junto a ela o sapo elétrico batia e arranhava em sua caixa. Perguntou-se o que seria que ele "comia" e quanto custariam consertos seus. Moscas artificiais, decidiu.
Abrindo o catálogo telefônico, procurou nas páginas amarelas sob acessórios para animais elétricos„ Discou, e quando o vendedor respondeu, disse:
— Eu gostaria de encomendar meio quilo de moscas artificiais que sejam capazes de voar e zumbir, por favor.
— É para uma tartaruga elétrica, madame?
— Um sapo — disse ela.
— Neste caso sugiro nosso sortimento misto de insetos artificiais rastejadores e voadores de todos os tipos, incluindo...
— As moscas serão suficientes — disse Iran. — Quando poderá entregá-las? Eu não quero deixar o apartamento. Meu marido está dormindo e quero ter certeza de que tudo vai correr bem com ele.
— Para um sapo — disse o empregado — eu sugeriria também uma poça perpetuamente renovável, a menos que ele seja um sapo chifrudo, caso em que há um kit contendo areia, seixos multicoloridos, e pedaços de restos orgânicos. E se vai colocá-lo regularmente através de seu ciclo de alimentação, sugiro que deixe nosso departamento de serviços fazer um ajustamento periódico de língua. Num sapo, isto é vital.
— Ótimo — concordou Iran. — Quero que ele funcione perfeitamente. Meu marido gosta muito dele.
Deu o endereço e desligou.
E sentindo-se melhor, preparou finalmente para si mesma uma xícara de café forte e quente.



FIM.



O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 22) [ Download ]

sábado, 21 de agosto de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 21)



ÓTIMO — DISSE HARRY BRYANT ao ser informado. — Bem, agora vá descansar um pouco. Vamos mandar um carro de patrulha apanhar os três corpos.

Rick Deckard desligou.

— Andróides são estúpidos — disse selvagemente ao especial. — Roy Baty não conseguiu me distinguir de você. Pensou que era você que estava à porta. A polícia fará uma limpeza geral aqui. Por que não fica em outro apartamento até que termine tudo? Você não vai querer ficar aqui com o que sobrou.
— Eu vou deixar este p-p-prédio — respondeu Isidore. — Vou morar m-m-ais no centro da cidade, onde há m-m-mais gente.
— Eu acho que há um apartamento vago no meu prédio — lembrou Rick.
— Eu não q-q-quero morar perto de você — gaguejou Isidore.
— Vá lá para fora ou para cima — recomendou Rick. —Não fique aqui.

O especial permaneceu hesitante, sem saber o que fazer; uma grande variedade de expressões mudas cruzaram-lhe a face. Em seguida, voltando-se, saiu arrastando os pés do apartamento, deixando Rick sozinho.

Que trabalho este que faço, pensou Rick. Eu sou uma praga, como a fome ou a peste. Aonde quer que eu vá, acompanha-me a antiga maldição. Como disse Mercer, sou obrigado a proceder mal. Tudo o que fiz, desde o inicio, foi o mal. De qualquer modo, é tempo de voltar para casa.
Talvez, depois de passar algum tempo com Iran, eu esqueça tudo.

Ao chegar ao seu prédio, Iran foi recebê-lo no telhado. Fitou-o de uma maneira desequilibrada, peculiar. Em todos os seus anos com ela, jamais a vira assim.
Enlaçando-a com o braço, disse:
— De qualquer modo, acabou. E ando pensando, talvez Harry Bryant possa me designar para um...
— Rick — disse ela. — Tenho que lhe contar uma coisa. Sinto muito. A cabra morreu.

Por alguma razão, isto não o surpreendeu. Fê-lo apenas sentir-se pior, numa soma extra de peso que o comprimia por todos os lados,
— Acho que há alguma garantia no contrato — respondeu. — Se adoecer dentro de noventa dias da venda, o vendedor...
— Ela não adoeceu. Alguém — Iran pigarreou e continuou em voz rouca —, alguém veio até aqui, tirou a cabra da jaula e arrastou-a até a beira do telhado.
— E empurrou-a? — perguntou ele.
— Foi — confirmou ela, inclinando a cabeça.
— Você viu quem foi que fez isso?
— Eu vi perfeitamente — respondeu Iran. — Barbour ainda estava por aqui, tratando do animal dele. Desceu para me chamar e chamamos a polícia, mas a essa hora o animal estava morto e a pessoa tinha ido embora. Foi uma moça bem jovem, com cabelos escuros e grandes olhos pretos, muito magra. Vestia um casaco longo de escamas de peixe. Usava uma bolsa tipo sacola de correio. E não fez coisa alguma para evitar que a víssemos. Como se não se importasse.
— Não, ela não se importava — disse ele. — Rachael não daria a mínima se você a visse. Provavelmente, queria que a visse, de modo que eu soubesse quem fez isso. — Beijou-a. — Você esteve aqui esperando este tempo todo?
— Somente meia hora. Foi quando a coisa aconteceu. Faz meia hora. — Ternamente, retribuiu o beijo. — Foi tão horrível. Tão desnecessário.

Ele voltou-se para o carro estacionado, abriu a porta e sentou-se ao volante.
— Não foi desnecessário — disse. — Ela tinha o que lhe parecia uma razão. — Uma razão de andróide, pensou.
— Para onde você vai? Não vai descer e,,. ficar comigo? A TV deu uma notícia extremamente chocante. Buster Amigão diz que Mercer é uma impostura. O que é que você acha disso, Rick? Você acha que isso poderia ser verdade?
— Tudo é verdade — respondeu ele. — Tudo aquilo em que qualquer pessoa jamais pensou. — Ligou o motor do carro.
— Você vai se recuperar?
— Vou me recuperar — respondeu ele, e pensou: e vou morrer. Mas estas também são verdades.

Fechou a porta do carro, fez um sinal com a mão para Iran e mergulhou no céu noturno.
Antigamente, pensou, eu teria visto as estrelas. Há anos. Mas agora só há poeira, ninguém vê uma estrela há anos, pelo menos não da Terra. Talvez eu vá para algum lugar onde possa ver estrelas, disse a si mesmo quando o carro ganhou velocidade e altitude, afastando-se de São Francisco, a caminho da desolação desabitada do norte. Para um lugar onde ser vivo algum iria.
Não, a menos que achasse que chegara o fim.


À primeira luz da manhã, a terra embaixo se estendia aparentemente para sempre, cinzenta e juncada de lixo. Pedras do tamanho de casas haviam rolado e parado próximas umas das outras e ele pensou: isto parece uma sala de despacho, depois de mandadas embora todas as mercadorias. Permanecem apenas fragmentos de engradados, os recipientes que em si mesmo nada significam.
Antigamente, refletiu, aqui cresciam colheitas e animais pastavam.
Que pensamento estranho, que algum animal pudesse ter pastado aqui. Que lugar estranho para morrer, pensou.

Baixou o hovercar e deslizou durante algum tempo sobre a superfície.
O que Dave Holden diria de mim agora?perguntou a si mesmo.
Em um sentido, sou o maior caçador de cabeças que jamais viveu: nenhum jamais aposentou seis tipos Nexus-6 num único período de vinte e quatro horas e nenhum provavelmente jamais fará isto. Eu devia telefonar para ele, disse a si mesmo.

Uma encosta atravancada de morro levantou-se à sua frente; ergueu o hovercar quando o mundo se aproximou. Cansaço, pensou. Eu não devia estar guiando ainda. Desligou a ignição, planou por algum tempo e, em seguida, Pousou. O veículo tombou e rebotou pela encosta, espalhando pedras, subindo, até que parou finalmente com um chiado.

Levantando o telefone, chamou a telefonista de São Francisco.
— Ligue-me com o Hospital Monte Sion — disse.
No mesmo instante, outra telefonista apareceu na videotela:
— Hospital Monte Sion.
— Vocês têm aí um paciente chamado Dave Holden — explicou. — Eu poderia falar com ele? Ele está suficientemente bem para atender?
— Um momento; vou verificar isso, senhor. — Temporariamente, a tela escureceu.
Passou-se algum tempo. Rick tomou uma pitada do Rapé do Dr. Johnson e sentiu um calafrio. Sem o aparelho de aquecimento do carro ligado, a temperatura começava a cair verticalmente.
— O Dr. Costa informa que o Sr, Holden não pode receber telefonemas — informou a telefonista, reaparecendo.
— Trata-se de assunto policial — disse ele, colando na tela sua identificação.
— Um momento. — Mais uma vez, a telefonista desapareceu. Mais uma vez, Rick tomou uma pitada do Rapé do Dr. Johnson. O mentol do produto tinha um cheiro horrível, cedo assim pela manhã. Baixou a janela do carro e lançou no lixo a pequena lata amarela, — Não, senhor — disse a telefonista, mais uma vez na tela. — O Dr. Costa não acha que o estado do Sr. Holden permita que atenda ao telefone, por mais urgente que seja o assunto, por, pelo menos...
— Muito bem — disse Rick. E desligou.

O ar também tinha um cheiro ruim. Subiu outra vez a janela. Dave está realmente acabado, refletiu. Gostaria de saber por que eles não me pegaram. Porque me movi rápido demais, decidiu. Tudo num dia só. Não podiam ter esperado isto. Harry Bryant tinha razão.

O carro se tornara frio demais, de modo que abriu a porta e saiu. Um vento mefítico, inesperado, começou a penetrar em suas roupas e ele começou a andar, esfregando as mãos uma na outra.

Teria sido bem agradável conversar com Dave, pensou. Dave teria aprovado o que eu fiz. Mas acho também que ele teria compreendido a outra parte, que penso que nem Mercer compreende. Para Mercer, tudo é fácil porque ele aceita tudo. Coisa alguma lhe é estranha. Mas o que eu fiz, pensou, isso se tornou estranho a mim. Na verdade, tudo em mim se tornou antinatural. Eu me tornei um ser antinatural.

Continuou a andar, subindo a colina e, a cada passo, aumentava o peso sobre ele. Estou cansado demais para subir, pensou. Parando, enxugou o suor picante dos olhos, lágrimas salgadas produzidas por sua pele, por todo seu corpo dolorido.

Depois, zangado consigo mesmo, cuspiu — cuspiu com raiva e desprezo, por si mesmo, com ódio total, no chão estéril. Em seguida, continuou a subir penosamente a encosta, o terreno solitário e desconhecido, remoto a tudo. Coisa alguma vivia ali, exceto ele.
O calor. Esquentara, agora; evidentemente, passara o tempo. E sentiu fome. Não comia só Deus sabia havia quanto tempo. Fome e calor combinados, um gosto venenoso parecendo derrota. Sim, pensou, é isso o que é: fui derrotado de alguma maneira obscura. Por ter morto os andróides? Pelo assassinato de minha cabra por Rachael?
Não sabia, mas enquanto continuava a andar cansadamente, uma mortalha vaga e quase alucinatória toldou sua mente.

Quando deu por si, estava num ponto sem noção de como chegara lá,, a um passo de uma queda certamente fatal pela encosta — caindo de modo humilhante e impotente, pensou, sem mesmo uma única pessoa para presenciar o fato. Ali não havia ninguém para registrar sua degradação, ou a de alguém, e a coragem ou o orgulho que pudessem manifestar-se no fim permaneceriam sem registro: as pedras mortas, as ervas daninhas atacadas pela poeira, secas e morrendo, nada percebiam, de coisa alguma se lembrariam, sobre ele ou elas mesmas.

Naquele momento, a primeira pedra — e não era de borracha ou de plástico mole e macio — atingiu-o na região inguinal. E a dor, o primeiro conhecimento de solidão e sofrimento absolutos, tocou-o em todo o corpo, em sua forma real sem disfarces.
Parou. Em seguida, acicatado — o acicate invisível mas real, que não podia ser desobedecido —, reiniciou a subida. Rolando para cima, pensou, como as pedras.

Estou fazendo o que as pedras fazem. Sem vontade. Sem que isto signifique coisa alguma.
— Mercer — disse, arquejante. Parou, estatelado. À sua frente, distinguiu a figura nevoenta, imóvel. — Wilbur Mercer! É você? — Meu Deus, compreendeu. É minha sombra. Tenho que sair daqui, descer desta colina!

Recuou, atabalhoado. Uma vez, caiu; nuvens de poeira obscureciam tudo e fugiu delas — cada vez mais depressa, deslizando e tropeçando nos seixos soltos. À frente, viu seu carro estacionado. Estou de volta aqui embaixo, disse a si mesmo. Saí da colina. Abriu com força a porta do carro e espremeu-se para dentro. Quem foi que me atirou pedras?, perguntou a si mesmo. Ninguém! Mas por que isto me incomoda? Eu passei por isto antes, durante a fusão. Enquanto usava minha caixa de empatia, como todo mundo. Isto não é novo. Mas foi. Porque, pensou, fiz isto sozinho.

Tremendo, apanhou uma nova lata de rapé no porta-luvas. Tirando a fita aderente protetora, tomou uma grande pitada, descansou, metade do corpo dentro do carro, as pernas de fora, na terra árida e empoeirada. Este era o último lugar para vir, compreendeu. Não devia ter vindo aqui. E, naquele instante, estava cansado demais para voltar.

Se eu apenas pudesse falar com Dave, pensou, ficaria tudo bem comigo. Poderia escapar daqui, voltar para casa, para a cama. Ainda tenho minha ovelha elétrica e tenho meu emprego. Haverá mais andros para aposentar; minha carreira não acabou; não aposentei ainda o último andróide existente. Talvez seja isto, pensou, estou com medo que não haja mais.

Olhou para o relógio. Nove e trinta.
Apanhando o telefone, discou para o Palácio de Justiça, na Lombard.
— Ligue-me para o Inspetor Bryant — disse à telefonista da polícia, Srta, Wild.
— O Inspetor Bryant não está no escritório, Sr. Deckard. Saiu no seu próprio carro, mas não consigo nenhuma ligação com ele. Ele deve ter deixado o veículo temporariamente.
— Ele disse para onde tencionava ir?
— Alguma coisa sobre os andróides que o senhor aposentou na noite passada.
— Ligue-me então com minha secretária — pediu.

Um momento depois, apareceu na tela a face amarelada, peculiar, de Ann Marsten.
— Oh, Sr. Deckard... O Inspetor Bryant anda à sua procura. Acho que ele está submetendo seu nome ao Comissário Cutter, para um elogio em fé-de-ofício. Porque o senhor aposentou aqueles seis...
— Eu sei o que foi que eu fiz — grunhiu ele.
— Isso nunca aconteceu antes. Oh, sim, Sr. Deckard, sua esposa telefonou. Quer saber se o senhor está bem. O senhor está?

Ele permaneceu calado.
— De qualquer modo — opinou a Srta. Marsten —, talvez fosse bom o senhor telefonar, ela deixou recado avisando que vai ficar em casa, à sua espera.
— Ouviu falar de minha cabra? — perguntou ele.
— Não, eu nem mesmo sabia que o senhor tinha uma cabra.
— Mataram minha cabra — disse Rick.
— Quem matou, Sr. Deckard? Ladrões de animais? Acabamos de receber um relatório sobre uma nova e grande quadrilha, provavelmente adolescentes, operando em...
— Ladrões de vidas — disse Rick.
— Eu não estou entendendo, Sr. Deckard. — A Srta. Marsten observou-o atentamente. — Sr. Deckard, o senhor está com uma aparência horrível! E, meu Deus, seu rosto está sangrando.

Erguendo a mão, Rick sentiu o sangue. Provocado por uma pedra, provavelmente. Mais de uma, evidentemente, o atingira.
— O senhor está parecendo com Wilbur Mercer — disse ela.
— Eu sou — disse ele. — Eu sou Wilbur Mercer. Fundi-me permanentemente com ele. E não posso desfundir-me. Estou aqui, à espera da desfusão. Em um lugar qualquer, perto da fronteira do Oregon.
— Quer que enviemos alguém? Um carro do Departamento para apanhá-lo?
— Não — respondeu ele. — Eu não trabalho mais no Departamento.
— Evidentemente o senhor trabalhou demais ontem, Sr. Deckard — disse ela em tom de desaprovação. — O que o senhor precisa é de repouso na cama. Sr. Deckard, o senhor é o nosso melhor caçador de cabeças, o melhor que jamais tivemos.

Direi ao Inspetor Bryant quando ele chegar. Vá pra casa e pra cama. Telefone agora mesmo para sua esposa, Sr. Deckard, porque ela está terrivelmente, terrivelmente preocupada. Vocês dois estão pavorosos.
— É por causa de minha cabra — disse ele. — Não por causa dos andróides. Rachael enganou-se... Não tive problema algum para aposentá-los. E o especial enganou-se também, dizendo que eu não podia mais entrar em fusão com Mercer. O único que teve razão foi Mercer.
— É melhor o senhor voltar para a área da Baía, Sr. Deckard. Onde há gente. Não há nada vivendo aí perto do Oregon, não é verdade? O senhor não está sozinho?
— É estranho — disse Rick, — Tive a absoluta, total, ilusão, inteiramente real, que me tornara Mercer e que pessoas atiravam pedras em mim. Mas não da maneira como a gente experimenta quando segura os punhos de uma caixa de empatia. Quando a usamos, sentimos que estamos com Mercer. A diferença foi que não estive com pessoa alguma. Eu estava sozinho.
— Agora estão dizendo por aí que Mercer é uma impostura.
— Mercer não é uma impostura — disse ele. — A menos que a realidade seja. — Esta colina, pensou. Esta poeira e todas estas pedras, todas elas diferentes umas das outras. — Estou com medo — continuou ele — que não possa deixar de ser Mercer. Uma vez que se comece, é tarde demais para recuar — Vou ter que subir novamente a colina?, perguntou-se. Eternamente, como Mercer faz...encurralado pela eternidade. — Adeus — e começou a desligar.
— Vai telefonar para sua esposa? Promete?
— Sim, vou. — Inclinou a cabeça — Obrigado, Ann. — Descanso na cama, pensou.

A última vez em que me deitei numa cama foi com Rachael. Na violação de uma lei. Cópula com uma andróide, inteiramente contra a lei, aqui e nos mundos-colônias.
Ela deve estar de volta agora a Seattle. Com os outros Rosens, reais e humanóides.
Eu gostaria de fazer com você o que você fez comigo, desejou. Mas isto não pode ser feito com um andróide, porque ele não se importa. Se eu a tivesse morto ontem, minha cabra estaria viva agora. Foi nesse momento que tomei a decisão errada. Sim, pensou: tudo pode ser atribuído a isso e ao fato de ter ido para a cama com você.
Afinal de contas, você teve razão numa coisa: a experiência mudou-me. Mas não da forma que você previu.

De uma maneira muito pior, decidiu.

Mas, ainda assim, não me importo, realmente. Não mais. Não, pensou, depois do que aconteceu lá em cima, perto do topo da colina. Gostaria de saber o que aconteceria em seguida, se continuasse a subir e chegasse ao topo. Porque é lá que parece que Mercer morre. É lá que o triunfo de Mercer se manifesta, lá ao fim do grande ciclo sideral.

Mas se sou Mercer, pensou, jamais posso morrer, não em dez mil anos. Mercer é imortal!
Mais uma vez, apanhou o telefone. Ia chamar a esposa.
E ficou paralisado.


O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 21) [ Download ]

sábado, 14 de agosto de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 20)



OLHANDO PARA baixo, John Isidore viu as próprias mãos, agarradas aos punhos duplos da caixa de empatia. Enquanto continuava ali, fitando-as boquiaberto, as luzes da sala de estar de seu apartamento morreram de súbito. Viu, na cozinha, Pris correr para apagar o abajur que havia lá.

— Escute aqui, J. R. — murmurou áspera em seu ouvido Irmgard. Agarrara-o pelo ombro e suas unhas cravavam-se nele com frenética intensidade. Mas ela parecia estar inconsciente do que fazia nesse instante. À obscura luz noturna que se filtrava vinda de fora, o rosto de Irmgard se tornara distorcido, astigmático.

— Você — sussurrou — vai ter que ir até a porta, quando ele bater, se bater. Tem que mostrar sua carteira de identidade e dizer que é seu apartamento e que não existe mais ninguém aqui. E peça para ver o mandado de busca.

Pris, do outro lado dele, corpo arqueado, murmurou:
— Não o deixe entrar, J. R. Diga qualquer coisa, faça o que puder para detê-lo. Sabe o que é que um caçador de cabeças faria solto aqui? Compreende o que é que ele faria conosco?

Afastando-se das duas andróides, Isidore foi às apalpadelas até a porta. Tateando com os dedos, localizou a maçaneta e ficou à escuta. Sentiu o corredor do outro lado, como sempre acontecia: vazio e reverberante, e destituído de vida.

— Está ouvindo alguma coisa? — perguntou Roy Baty, curvando-se perto dele.

Isidore sentiu o odor rançoso do corpo acovardado, inalou o medo que dele se desprendia, medo evolando-se, formando um nevoeiro.

— Saia e dê uma olhada.

Abrindo a porta, Isidore olhou para um lado e para o outro do corredor escuro.
O ar ali fora tinha um cheiro limpo, a despeito do peso da poeira.
Em sua mão, conservava ainda a aranha que Mercer lhe dera. Seria realmente a mesma aranha que Pris esquartejara com a tesoura de Irmgard Baty? Provavelmente, não. Nunca saberia. Mas, de qualquer modo, ela estava viva; rastejava dentro de sua mão fechada, mas sem picá-lo, como no caso da maioria das aranhas pequenas, suas mandíbulas não podiam perfurar a pele humana.

Chegou ao fim do corredor, desceu os degraus e saiu para o que antes tinha sido um caminho, com um jardim interno. O jardim morrera durante a guerra e o caminho se fraturara em milhares de frações. Mas ele conhecia sua superfície; sob os pés o caminho conhecido produzia uma sensação agradável, e o seguiu, passou pelo lado mais comprido do prédio, chegando finalmente ao único lugar verde nas vizinhanças, um trecho de um metro quadrado de ervas daninhas semimortas, saturadas pela poeira.

Aí depositou a aranha. Sentiu-lhe os movimentos hesitantes quando ela deixou sua mão. Bem, isto era tudo. Espigou-se.

Um feixe de lanterna focalizou as ervas e, em seu brilho, os talos meio mortos apareceram nus, ameaçadores. Nesse momento, pôde ver a aranha, descansando sobre uma folha serrilhada. Assim, ela conseguiria mesmo fugir.

— O que foi que você fez? — perguntou o homem que segurava a lanterna.
— Coloquei uma aranha no chão — respondeu, perguntando-se por que o homem não a estava vendo: no feixe de luz amarela a aranha inchava, maior do que o normal, para que ela pudesse fugir.
— Por que não a leva para seu apartamento? Deve conservá-la numa jarra. De acordo com a edição de janeiro da Sidney's, a maioria das aranhas teve um aumento de dez por cento no preço de varejo. Você poderia ter ganho cento e tantos dólares com ela.
— Se eu a levasse de volta para lá, ela a esquartejaria novamente. Pedaço a pedaço, para ver o que a aranha fazia.
— Andróides fazem isso — disse o homem.

Enfiando a mão no casaco, tirou alguma coisa que abriu e estendeu a Isidore.
À luz irregular, o caçador de cabeças parecia um homem de estatura média, nada de impressionante. Rosto redondo e sem barba, feições lisas, como um empregado de escritório. Metódico, mas informal. Não com a forma de um semideus, não absolutamente como Isidore o imaginara.

— Eu sou investigador do Departamento de Polícia de São Francisco, Deckard, Rick Deckard. 
O homem fechou outra vez a lanterna e enfiou-a de volta no bolso do casaco.
— Eles estão lá em cima agora? O três?
— Bem, a coisa é a seguinte — disse Isidore —, eu estou cuidando deles. Há duas mulheres. São os últimos do grupo, o resto morreu. Levei o aparelho de TV para meu apartamento, de modo que eles pudessem assistir a Buster Amigão na televisão. Buster provou, acima de qualquer dúvida, que Mercer não existe. 

Isidore sentia-se animado, sabendo algo de tanta importância, uma notícia que o caçador de cabeças evidentemente ainda não ouvira.
— Vamos até lá em cima — disse Deckard.
De repente, apontou um tubo de laser para Isidore. Depois, indeciso, guardou-o.
— Você é um especial, não? Um debilóide.
— Mas eu tenho emprego. Dirijo o caminhão do — horrorizado, descobriu que se esquecera do nome — de um hospital de animais de estimação — disse. — Do Hospital Van Ness de Animais — continuou. — De p-p-propriedade de Hannibal Sloat.
— Pode fazer o favor de me levar até lá em cima e me mostrar em que apartamento eles estão? — pediu Deckard. — Há mais de mil apartamentos neste prédio. Você pode me economizar um bocado de tempo.
A voz dele como que gotejava de fadiga.

— Se matá-los, você não poderá fundir-se novamente com Mercer — lembrou Isidore.
— Não quer me levar lá em cima? Mostrar o andar? Simplesmente, diga o andar. Eu descobrirei, no andar, onde fica o apartamento.
— Não — respondeu Isidore.
— De acordo com a lei estadual e federal... — começou Deckard. Mas se interrompeu, desistindo do interrogatório. — Boa noite — disse e afastou-se, subindo o caminho e entrando no edifício, a lanterna traçando um caminho amarelado, difuso, à sua frente.

Dentro do prédio, Rick Deckard apagou a lanterna. Orientado pelas lâmpadas apagadas, em seus escaninhos, espaçadas à frente, começou a andar pelo corredor, pensando. O debilóide sabe que eles são andróides; já sabia, antes que eu lhe dissesse. Mas não compreende. Por outro lado, quem compreende? Eu? Compreendi? E uma delas será a cópia exata de Rachael, refletiu. Talvez o especial tenha vindo com ela. Será que gostou? perguntou a si mesmo. Talvez ela fosse aquela que ele achava que ia esquartejar sua aranha. Eu poderia voltar e pegar a aranha, refletiu.

Nunca encontrei um animal vivo, selvagem. Deve ser uma experiência fantástica olhar para baixo e ver uma coisa viva, correndo pelo chão. Talvez isso me aconteça algum dia como aconteceu ao especial.
Trouxera do carro aparelhagem de escuta. Instalou-a nesse momento, um cabeçote-detector giratório, com uma tela de blip. No silêncio do corredor, a tela nada indicou. Não neste andar, disse para si mesmo. Virou para escuta vertical e o cabeçote acusou um sinal fraco. Lá em cima. Reuniu o equipamento e a pasta e subiu a escada para o andar superior.

Uma figura esperava nas sombras.
— Se fizer um movimento, eu o aposento — disse Rick ao andróide à sua espera.
Sentiu duro entre os dedos cerrados o tubo de laser, mas não conseguiu erguê-lo e apontá-lo. Fora o primeiro a ser surpreendido, surpreendido cedo demais.

— Eu não sou um andróide — disse a figura. — Meu nome é Mercer. — Deu um passo para a área iluminada. — Moro neste prédio por causa do Sr. Isidore, O especial que tinha a aranha. Você falou com ele há pouco, lá fora.
— Estou, agora, como disse o debilóide, excluído do mercerismo? — perguntou — Por causa do que vou fazer nos próximos três minutos?
Mercer respondeu:
— O Sr. Isidore falou por si mesmo, não por mim. O que você anda fazendo tem que ser feito. Eu já disse isso.
Erguendo o braço, apontou para as estrelas às costas de Rick.
— Vim para lhe dizer que um deles está atrás de você e embaixo, não no apartamento. Será o difícil dos três e você terá que aposentá-lo em primeiro lugar. 
A voz rachada, antiga, ganhou inesperada urgência.
— Depressa, Sr. Deckard. Nos degraus.

Tubo de laser na mão, Rick girou sobre si mesmo, agachado, de frente para o lance de degraus. Por ele subia uma mulher, vinha na sua direção e sabia quem era, reconheceu-a e baixou o laser.
—Rachael — disse, perplexo.
Tê-lo-ia acompanhado em seu próprio hovercar, seguindo-o até ali? E por quê?
— Volte para Seattle — disse. — Deixe-me em paz. Mercer me disse que tenho que fazer isto. — E neste momento viu que a coisa não era exatamente Rachael.
— Pelo que significamos um para o outro — disse a andróide ao aproximar-se dele, os braços estendidos como se para abraçá-lo.
As roupas, pensou ele, estão erradas. Mas os olhos, os mesmos olhos. E há mais outras como esta, pode haver uma legião delas, cada uma com seu próprio nome, mas todas Rachael Rosen — Rachael, o protótipo, usado pelo fabricante para proteger as demais.

Atirou no momento em que, implorante, ela corria para ele.
A andróide explodiu e partes dela voaram.
Cobriu o rosto e olhou novamente, olhou e viu o tubo de laser que a coisa conduzia rolar para longe, de volta, pelas escadas; o tubo de metal saltou de degrau em degrau, o som ecoando e diminuindo.
O difícil dos três, dissera Mercer.

Olhou em volta, procurando-o. O velho desaparecera. Eles podem me seguir, usando outras Rachael Rosens até que eu morra, pensou, ou até que o tipo se torne obsoleto, o que quer que aconteça em primeiro lugar.
E, agora, os outros dois, pensou. Um deles não está no apartamento, dissera Mercer. Ele me protegeu, deu-se conta. Manifestou-se e ofereceu ajuda. Ela — a coisa — teria me pegado, disse a si mesmo, não tivesse Mercer me avisado. Eu posso fazer o resto, teve certeza. Aquela era a impossível; tinha certeza de que eu não poderia ter feito isto. Mas acabou. Num instante. Eu fiz o que não podia fazer. Quanto aos Batys, posso localizá-los utilizando os métodos habituais; serão duros, mas não como esta.

Estava sozinho no corredor vazio; Mercer fora embora depois de feito o que viera fazer; Rachael — ou melhor. Pris Stratton — fora desmembrada, e isto nada deixara ali, naquele momento, exceto ele. Mas em alguma outra parte do prédio os Batys esperavam e sabiam. Haviam percebido o que ele fizera. Provavelmente, a esta altura, estavam com medo. Esta fora a reação deles à sua presença no prédio. A tentativa feita por eles. Sem Mercer, teria dado certo. Para eles, chegara o inverno.

Isto tem que ser feito rapidamente. O que tenho que fazer agora, compreendeu. Desceu apressado o corredor e imediatamente sua aparelhagem de detecção registrou a presença de atividade cefálica. Descobrira o apartamento deles. Não havia mais necessidade da aparelhagem. Abandonou-a e bateu à porta do apartamento. De dentro, veio a voz de um homem:

— Quem é?
— Eu, o Sr. Isidore — disse Rick. — Deixe-me entrar porque estou cuidando de vocês e d-d-dois de vocês são mulheres.
— Nós não vamos abrir a porta — declarou uma voz de mulher.
— Eu quero ver Buster Amigão no aparelho de TV de Pris — insistiu Rick. — Agora que ele provou que Mercer não existe, é muito importante vê-lo. Eu guio o caminhão do Hospital Van Ness de Pequenos Animais cujo dono é o Sr. Hannibal S-S-Sloat. — Obrigou-se a gaguejar. — A-assim, por que vocês não abre ma p-p-porta? É o meu apartamento. 
Esperou, e a porta foi aberta.
Dentro do apartamento viu escuridão e formas indistintas, duas formas.
A forma menor, a mulher, disse:
— Você tem que aplicar os testes.
— Tarde demais — disse Rick.

A figura mais alta tentou fechar a porta e ligar algum tipo de equipamento eletrônico.
— Não — disse Rick. — Vou ter que entrar,
Deixou que Roy Baty atirasse uma vez; segurou o próprio fogo até que o feixe de laser passou por ele, tendo se esquivado com uma torção do corpo.
— Você perdeu sua base legal — explicou Rick — disparando contra mim. Devia ter-me forçado a lhe aplicar o Teste Voigt-Kampff. Mas agora não importa mais.
Mais uma vez, Roy disparou um feixe contra ele, errou, deixou cair o tubo e correu para dentro do apartamento, para outro cômodo, talvez para a aparelhagem eletrônica abandonada.
— Por que foi que Pris não o pegou? — perguntou a Sra. Baty.
— Não há Pris alguma — retrucou ele. — Apenas Rachael Rosen, repetida indefinidamente.

Viu o tubo de laser na mão mal delineada dela na escuridão; Roy Baty lhe passara a arma, quisera atraí-lo para dentro do apartamento, bem dentro, de modo que Irmgard Baty pudesse pegá-lo por trás, atingi-lo pelas costas.
— Sinto muito, Sra. Baty — disse Rick, e fuzilou-a.
Roy Baty, no outro cômodo, soltou um grito de angústia.
— Muito bem, você a amava — disse Rick. — E eu amava Rachael. E o especial amava a outra Rachael.

Atirou nele. O cadáver do homenzarrão sacudiu-se violentamente de um lado para o outro e desmoronou como uma coletânea de entidades separadas, quebradiças, excessivamente empilhadas umas sobre as outras, chocou-se com a mesa da cozinha e com ele arrastou pratos e talheres. Circuitos de reflexo no corpo fizeram-no contorcer-se e palpitar, mas estava morto. Rick ignorou-o, não o vendo nem vendo Irmgard Baty junto à porta da frente.

Peguei o último, compreendeu. Seis, hoje, quase um recorde. Agora está tudo acabado e posso voltar para casa, para Iran e para a cabra. E, pelo menos por uma vez na vida, teremos um bocado de dinheiro.

Sentou-se no sofá, e logo depois, no silêncio do apartamento, entre os objetos imóveis, apareceu à porta o especial, Sr. Isidore.

— É melhor não olhar — avisou Rick.
— Eu vi Pris na escada.
O especial chorava.
— Não se deixe abater tanto — consolou-o Rick. Levantou-se tonto, com um grande esforço. — Onde fica seu telefone?

O especial não respondeu, coisa alguma fez, senão permanecer no mesmo lugar.
Assim, o próprio Rick procurou-o, conseguiu localizá-la e discou para o escritório de Harry Bryant.



O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 20) [ Download ]

sábado, 7 de agosto de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 19)



— TRAGA AQUI pra cima o resto de minhas coisas — ordenou Pris a R. J. Isidore. — Em particular, o aparelho de TV. Para que a gente possa ouvir o anúncio de Buster.
— Isso mesmo — concordou Irmgard Baty, olhos brilhantes saltando de um lado para outro. — Precisamos de um aparelho de TV. Já estamos há muito tempo esperando e a coisa vai começar logo.
— Meu próprio aparelho pega o canal do governo — disse Isidore.
Num canto da sala de estar, sentado numa poltrona funda, como se tencionasse permanecer ali para sempre, como se houvesse decidido fazer da cadeira seu lugar de moradia, Roy Baty arrotou e disse paciente:
— É o programa de Buster Amigão e seus Amicíssimos Amigos que queremos assistir Isi. Ou prefere que eu o chame de J. R.? De qualquer modo, compreendeu? Assim, quer ir buscar o aparelho?

Sozinho, Isidore desceu o corredor ecoante e vazio a caminho da escada. Dele desprendia-se ainda a potência forte, fragrante da felicidade, a sensação de ser, pela primeira vez em sua monótona vida, útil a alguém. Outras pessoas dependem de mim agora, exultou, enquanto descia os degraus cobertos de poeira até o andar embaixo.

E, pensou, será bom ver Buster Amigão novamente na TV, em vez de simplesmente escutá-lo no rádio do caminhão da loja. E assim é que deve ser, compreendeu. Hoje à noite, Buster Amigão vai fazer a sua cuidadosamente documentada e sensacional denúncia. Assim, graças a Pris, Roy e Irmgard, vou assistir ao que será provavelmente a mais importante notícia divulgada em anos. O que é que você acha disto? Perguntou a si mesmo.

A vida, para J. R. Isidore, tomara, teria uma direção ascendente.
Entrou no antigo apartamento de Pris, desligou a tomada do aparelho de TV e soltou a antena. O silêncio, bruscamente penetrou. Sentiu os braços se tornarem imponderáveis. Na ausência dos Batys e de Pris, descobria-se como que desaparecendo, tornando-se estranhamente inerte como o aparelho de televisão que acabara de desligar. A pessoa tem que conviver com outras, pensou. Para viver, absolutamente. Quero dizer, antes deles chegarem, eu podia suportar isto, viver sozinho no prédio. Você não pode voltar, pensou. Não pode partir de pessoas para não-pessoas. Em pânico, pensou, sou dependente deles. Graças a Deus, eles ficaram.

Seriam necessárias duas viagens para levar as coisas de Pris para o apartamento do andar superior. Levantando o aparelho de TV, resolveu levá-lo primeiro e, em seguida, voltar a apanhar as valises e roupas restantes. Minutos depois, consegui levá-lo para cima.
Os dedos doendo, conseguiu colocá-lo numa mesinha de café na sala de estar.
Os Batys e Pris observavam-no impassíveis.
— Nós pegamos um bom sinal neste prédio — arquejou ele, enquanto ligava a tomada e prendia a antena.
— No tempo em que eu assistia a Buster Amigão e seus...
— Simplesmente, ligue o aparelho — disse Roy Baty. — E cale a boca.
Ele fez o que lhe mandavam e correu para a porta.
— Mais uma viagem — disse — e tudo estará aqui.
Demorou-se um pouco ali, aquecendo-se no calor da presença deles.
— Ótimo — disse Pris, voz distante.

Isidore saiu, mais uma vez. Eu acho, pensou, que eles estão me explorando, de alguma maneira. Mas não se importou. Eles ainda são bons amigos para uma pessoa ter, disse a si mesmo.
No apartamento embaixo, reuniu e enfiou em valises as peças de roupa da moça. Pesadamente carregado, percorreu com esforço o corredor e começou a subir a escada.

Num degrau à sua frente, alguma coisa pequenina movia-se na poeira.
No mesmo instante, deixou cair as valises, tirou do bolso uma garrafa de remédio, de plástico, que, como todo mundo, levava consigo justamente para uma ocasião como essa. Uma aranha, que mal conseguia ver, mas viva. Com todo o cuidado, colocou-a na garrafa e fechou bem a tampa — que fora perfurada com uma agulha.

No andar superior, à porta do apartamento, parou para recuperar o fôlego.
" ...sim, senhor, pessoal, a ocasião é agora. Aqui, Buster Amigão, esperançoso e confiante em que vocês estão tão ansiosos como eu para compartilhar da descoberta que fiz e que, por falar nisto, foi confirmada por pessoal de pesquisa de alta classe, que trabalhou horas extras para tanto na última semana. Hei, hei, pessoal, é o seguinte!”
— Eu achei uma aranha — disse John Isidore.
Os três andróides levantaram os olhos, desviando por um momento a atenção da tela de TV.
— Mostre-me — disse Pris, estendendo a mão.
— Não fale enquanto Buster está falando — disse Roy Baty.
— Eu nunca vi uma aranha — retrucou Pris. Colocou a garrafa de remédio na mão e examinou a criatura em seu interior. — Tantas pernas. Por que ela precisa de tantas pernas, J. R.?
— É assim que as aranhas são — explicou ele, o coração batendo forte. Tinha dificuldade em respirar. — Oito pernas.
Levantando-se, disse Pris:
— Sabe o que é que eu penso J. R.? Acho que ela não precisa dessas pernas todas.
— Oito? — repetiu Irmgard Baty. — Por que não poderia passar com quatro? Corte quatro e vamos ver.
— Impulsiva, abriu a bolsa e tirou uma tesoura nova e afiada, que entregou a Pris.
J. R. Isidore sentiu um profundo terror.

Levando a garrafa para a cozinha, Pris sentou-se à mesa de café de J. R, Isidore. Tirou a tampa da garrafa e deixou sair a aranha.
— Provavelmente, ela não vai poder correr tão depressa — observou — mas, de qualquer modo, não há aqui nada para ela pegar. Ela vai morrer, de qualquer jeito.
Pegou a tesoura.
— Por favor — disse Isidore.
Pris olhou curiosa para ele:
— Ela vale alguma coisa?
— Não a mutile — pediu ele, ofegante. Implorante.
Usando a tesoura, Pris cortou uma das pernas da aranha.

Na sala de estar, na TV, Buster Amigão dizia:
"Dêem uma olhada nesta ampliação de uma seção do fundo de cena. Este é o céu que vocês vêem usualmente. Espere. Espere, este aqui é Earl Parameter, chefe de minha equipe de produção, que vai explicar a vocês a descoberta que fizeram e que, virtualmente, abalará o mundo."

Pris amputou outra perna, segurando a aranha com a borda da mão. Sorria.
"Ampliações das imagens de vídeo — dizia nesse momento uma voz na TV —, quando sujeitas a rigoroso exame de laboratório, revelam que o pano de fundo cinza do céu e a lua durante o dia. em frente aos quais move-se Mercer, são não apenas terrestres, mas artificiais."
— Você está perdendo a denúncia! — gritou nervosa Irmgard. Correu até a porta da cozinha e viu o que Pris fazia nesse momento. — Oh, deixe isso para depois — insistiu; adulando-a. — É muito importante o que eles estão dizendo. Prova que tudo aquilo em que acreditávamos.
— Cale a boca — ordenou Roy Baty.
— ... é verdade — terminou Irmgard.
Continuava através do aparelho de televisão:
"A lua é pintada. Nas ampliações, uma das quais vocês estão vendo agora na tela, aparecem as pinceladas. E há mesmo alguma evidência de que as ervas raquíticas e espalhadas e o solo desolador e estéril — talvez mesmo as pedras atiradas em Mercer por supostas entidades ocultas — são igualmente falsas. É bem possível, na verdade, que as 'pedras' sejam feitas de plástico mole e que não ocasionem ferimentos autênticos."

"Em outras palavras"  interrompeu-o Buster Amigão "Wilbur Mercer não está sofrendo, absolutamente."
O pesquisador-chefe dizia nesse momento:
"Nós finalmente conseguimos, Sr. Amigão, localizar o antigo especialista em efeitos especiais de Hollywood, Sr. Wade Cortot, que declara categoricamente, baseado em anos de experiência, que a figura de 'Mercer5 bem pode ser simplesmente um figurante cruzando um estúdio de áudio. Cortot chegou a ponto de dizer que reconhece o estúdio como um que foi usado por um pequeno cineasta, hoje desempregado, com o qual teve vários negócios há algumas décadas."
"Segundo Cortot" garantiu Buster Amigão  "não pode haver virtualmente dúvida alguma".
Pris já cortara três pernas da aranha, que se arrastava infeliz sobre a mesa da cozinha, procurando uma maneira de escapar, um caminho para a liberdade. Não encontrou nenhum.

"Para sermos absolutamente francos, acreditamos em Cortot" prosseguia em uma voz seca e potente o chefe de pesquisas "e passamos um bocado de tempo examinando filmes de publicidade de figurantes outrora empregados pela agora defunta indústria cinematográfica de Hollywood".
"E você descobriu que..."
— Escutem isso — disse Roy Baty. Irmgard olhou fixamente para a tela da TV e mesmo Pris interrompeu a mutilação da aranha.
"Localizamos, após o exame de milhares e milhares de fotografias, um homem muito velho, chamado Al Jarry, que fez algumas pontas em filmes de antes da guerra. De nosso laboratório, enviamos uma equipe à casa de Jarry, em East Harmony, Indiana. Vou deixar que um dos membros dessa equipe revele o que encontrou.”

Silêncio e, em seguida, uma nova voz, igualmente banal.
"A casa na Lark Avenue, em East Harmony, esquálida, caindo aos pedaços, situa-se nos arrabaldes da cidade, onde ninguém vive mais, com exceção de Al Jarry. Cordialmente convidado a entrar e sentado na sala de estar cheirando a velhice, mofo, cheia de entulho, vasculhei, por meios telepáticos, a mente apagada, cheia de destroços, nebulosa, de Al Jarry, sentado à minha frente."
“Escutem” disse Roy Baty, à beira da cadeira, como prestes para saltar.
“Descobri" continuou o técnico "que o velho realmente fez uma série de filmes curtos para o vídeo, de quinze minutos, por conta de um empregador que jamais conheceu. E, conforme havíamos teorizado, as 'pedras' eram de plástico esponjoso. O 'sangue' era ketchup e..."  o técnico soltou uma risadinha. "O único sofrimento que o Sr. Jarry suportou foi ter que passar um dia inteiro sem um trago de uísque."
"Al Jarry"  disse Buster voltando à tela. "Bem, bem. Um velho que, mesmo na flor da idade, jamais chegou a ser coisa alguma que ele mesmo ou nós pudéssemos respeitar. Al Jarry fez um filme repetitivo e monótono, uma série deles, na verdade, para uma pessoa cujo nome não soube... e não sabe ainda hoje. Com freqüência, os adeptos da experiência do mercerismo têm dito que Wilbur Mercer não é um ser humano, que é, na verdade, uma entidade superior arquetípica, talvez vinda de outra estrela. Bem, em certo sentido, esta alegação revelou-se correta. Wilbur Mercer não é humano, na verdade não existe. O mundo que ele escala é um barato, comum estúdio de áudio de Hollywood, que se transformou em entulho há anos. E quem perpetrou essa fraude contra o sistema solar? Pense nisso por algum tempo, pessoal,"
— Talvez jamais venhamos a saber — murmurou Irmgard.
"Talvez jamais venhamos a saber"  disse Buster Amigão.  "Tampouco podemos sondar a finalidade estranha que se escondeu por trás dessa mentira. Sim, pessoal, mentira. O mercerismo é uma impostura!"
— Acho que nós sabemos — disse Roy Baty. — É óbvio. O mercerismo surgiu...
“Mas pensem no seguinte"  continuou Buster Amigão. "Perguntem a vocês mesmos o que é que o mercerismo faz. Bem, se queremos acreditar em seus muitos praticantes, a experiência funde..."
— É essa a empatia que os humanos têm — observou Irmgard.
"...homens e mulheres, em todo o sistema solar, numa única entidade. Mas uma entidade que é controlável pela chamada voz telepática de 'Mercer'. Notem isso. Um falso e politicamente inclinado Hitler poderia..."
— Não, é aquela empatia — disse vigorosamente Irmgard. Punhos cerrados, dirigiu-se para a cozinha e confrontou Isidore. — Isso não é uma maneira de provar que os humanos podem fazer uma coisa que nós não podemos? Isto porque, sem a experiência de Mercer, temos simplesmente a palavra de vocês de que sentem esse negócio de empatia, essa coisa compartilhada, coletiva. Como é que vai a aranha? — Debruçou-se sobre o ombro de Pris.

Usando novamente a tesoura, Pris amputou outra perna da aranha.
— Quatro agora — disse. Catucou a aranha. — Ela não quer andar, mas pode.
Roy Baty apareceu à porta, respirando fundo, uma expressão de pessoa realizada no rosto.
— Está feito. Buster disse alto e bom som, e quase todos os humanos no sistema ouviram-no dizer: "O mercerismo é uma impostura." A experiência toda de empatia é uma impostura. — Aproximou-se e olhou curioso para a aranha.
— Ela não quer tentar andar — disse Irmgard.
— Eu posso fazé-lo andar — Roy Baty tirou uma caixa de fósforos do bolso, acendeu um deles, aproximou-o da aranha, cada vez mais, até que ela debilmente se moveu para longe.
— Eu estava certa — disse Irmgard. — Eu não disse que ela podia andar só com quatro pernas? — Olhou expectante para Isidore. — O que é que há? — Tocando-lhe o braço, disse: — Você não perdeu coisa alguma. Nós lhe pagaremos o que — como é que é chamado? — o preço que consta do católogo da Sidney's No fique tão triste assim. Não foi importante isso sobre Mercer, o que eles descobriram? Toda aquela pesquisa? Hei, responda. — Catucou-o, ansiosa.
— Ele está abalado — disse Pris. — Porque tem uma caixa de empatia. No outro cômodo. Você a usa J.R.? — perguntou-lhe.
— Claro que ele usa isso — disse Roy Baty. — Todos a usam, ou usavam. Talvez, agora, eles comecem a pensar nisso.
— Eu não acho que isso acabe com o culto de Mercer — opinou Prist. — Mas, exatamente neste minuto, há por ai um bocado de seres humanos infelizes. — A Isidore, disse: — Esperamos, durante meses. Nós todos sabíamos que ia acontecer. — Hesitou e disse em seguida: — Bem, por que não? Buster é um dos nossos.
— Um andróide — explicou Irmgard. — E ninguém sabe. Nenhum humano, quero dizer.
Usando a tesoura, Pris cortou mais uma perna da aranha.

De repente, John Isidore empurrou-a para um lado e levantou a criatura mutilada. Levou-a até a pia e afogou-a. Nele, sua mente, suas esperanças, afogaram-se também. Com tanta rapidez como a aranha.
— Ele está realmente abalado — disse nervosa Irmgard. — Não fique assim, J. R. Por que não diz alguma coisa? — Voltou-se para Pris e para o marido. — Isso me deixa também terrivelmente abalada, ele ali junto à pia, sem dizer uma palavra. Não disse coisa alguma desde que ligamos a TV.
— Não foi a TV — corrigiu-a Pris. — Foi a aranha. Não foi, John R. Isidore? Mas ele sobreviverá a isso — disse a Irmgard, que nesse momento se dirigia para a outra sala a fim de desligar a TV.
Olhando divertido para Isidore, disse Roy Baty:
— Está tudo acabado agora. Is. Para o mercerismo, quero dizer. — Usando as unhas, levantou da pia o cadáver da aranha. — Talvez esta tenha sido a última aranha — disse ele, — A última aranha viva na Terra. — Refletiu por um momento. — Nesse caso, acabou tudo para as aranhas, também.
— Eu... eu não me sinto bem — disse Isidore.

Do armário da cozinha, tirou uma xícara. Ficou com ela na mão durante algum tempo, não sabia exatamente por quanto tempo. Em seguida, disse a Roy Baty:
— O céu que vemos por trás de Mercer é simplesmente pintado? Não é real?
— Você viu as ampliações na tela da TV — disse Roy Baty. — As pinceladas.
— O mercerismo não acabou — disse Isidore. Alguma coisa atormentava os andróides, alguma coisa terrível. A aranha, pensou. Talvez tenha sido a última aranha na Terra, como disse Roy Baty. E a aranha morreu; Mercer morreu: notou a poeira e a ruína do apartamento, espalhando-se e por toda parte — ouviu o entulho chegando, a desordem final de todas as formas, a ausência que, no fim, venceria.

Crescia em volta dele, ali, segurando na mão a xícara vazia de cerâmica; os armários da cozinha estalaram e se partiram e ele sentiu ceder o chão sob os pés.
Estendeu a mão e tocou a parede. A mão quebrou a superfície; partículas cinzentas escorregaram e desceram céleres, os fragmentos de reboco, lembrando a poeira radiativa do lado de fora. Sentou-se à mesa e, como se fossem tubos podres, vazios, as pernas da cadeira se dobraram; levantando-se rápido, pôs de lado a xícara e tentou consertar a cadeira, tentou devolver-lhe a forma certa. A cadeira se desfez em suas mãos, soltando-se e soltando os parafusos que antes haviam mantido num todo suas várias partes.
Viu na mesa que se rachava, a xícara de cerâmica, que uma teia de linhas finas crescia como as lianas de uma videira e, em seguida, uma lasca soltou-se da borda, e apareceu a parte interna bruta, não vidrada.
— O que é que ele está fazendo? — ouviu distante a voz de Irmgard Baty. — Ele está quebrando tudo! Isidore, pare... Eu não estou fazendo isso... — disse ele.

Trôpego, foi até a sala de estar para ficar sozinho. Ao lado do sofá esmolambado olhou para a parede amarela, manchada, que insetos mortos, que outrora rastejavam, haviam deixado, e mais uma vez pensou no corpo da aranha, com suas quatro pernas restantes. Tudo aqui é velho, compreendeu. Há muito tempo começou a apodrecer e não vai parar. O cadáver da aranha tomou conta de tudo.

Na depressão causada pelo afundamento do assoalho, pedaços de animais apareceram, a cabeça de um corvo, mãos mumificadas que poderiam ter sido uma vez partes de macacos. Viu um jumento um pouco afastado, imóvel e ainda aparentemente vivo.
Pelo menos, não começara ainda a apodrecer.

Dirigiu-se para ele, sentindo-se como se seus ossos fossem gravetos, secos como ervas, lascas sob seus pés. Mas antes de chegar ao jumento — uma das criaturas que mais amava — um lustroso corvo azul desceu do alto e pousou no insensível focinho do jumento Não faça isso, disse em voz alta, mas o corvo, rápido, bicou os olhos do jumento. Mais uma vez, pensou. Está acontecendo comigo outra vez. Ficarei aqui embaixo durante um longo tempo, compreendeu.

Como antes. Sempre demora muito porque aqui coisa alguma jamais muda; chega um momento em que não ocorre nem mesmo apodrecimento.
Soprou um vento seco e em volta deles desfizeram-se os montes de ossos. Até o vento os destrói, percebeu. Neste estagio. Pouco antes de o tempo cessar. Eu gostaria de me lembrar de como subir para fora daqui, pensou.

Olhando para cima, nada viu a que pudesse se agarrar.
— Mercer — disse em voz alta, — Onde está você agora? Esta é a sepultura do mundo e estou nela mais uma vez, mas desta vez você não está aqui também.

Alguma coisa rastejou por cima de seu pé. Ajoelhou-se e procurou-a, e encontrou-a, pois ela se movia tão lentamente, a aranha mutilada, andando e parando com as pernas que lhe restavam.
Apanhou-a e segurou-a na palma da mão. Os ossos, compreendeu, reverteram-se, a aranha está viva outra vez.

O vento soprou, partindo, lascando os ossos restantes, mas ele sentiu a presença de Mercer. Venha, disse a Mercer. Rasteje por cima de meu pé e descubra alguma outra maneira de me alcançar. Está bem? Mercer, pensou. Em voz alta disse:
— Mercer!

Por toda a paisagem à frente as ervas avançaram, contorceram-se e penetraram nas paredes em volta dele e nela trabalharam até que elas, as ervas daninhas, transformaram-se em seus próprios esporos. Os esporos expandiram-se, dividiram-se, explodiram dentro do aço podre e cacos de concreto que antes haviam sido paredes. Mas a desolação persistiu depois que as paredes desapareceram, continuou depois de tudo mais. Exceto a frágil e obscura figura de Mercer. O rosto do velho virado para ele, com uma plácida expressão.
— O céu é pintado? — perguntou Isidore. — Há. realmente as pinceladas que aparecem na ampliação?
— Há — confirmou Mercer.
— Mas eu não posso vê-las.
— Você está perto demais — respondeu Mercer. — Você tem que ficar bem distante, como ficam os andróides. Eles têm uma perspectiva melhor.
— E por isso que eles dizem que você é um impostor?
— Eu sou um impostor — confirmou Mercer. — Eles são sinceros. A pesquisa deles é autêntica. Do ponto de vista deles, eu sou um velho figurante aposentado, chamado Al Jarry. Tudo aquilo, a denúncia, é verdade. Eles entrevistaram em casa, como dizem. Disse a eles tudo o que queriam saber, que foi tudo.
—Incluindo aquilo sobre o uísque?

Mercer sorriu.
— Foi verdade. Eles fizeram um bom trabalho e, do ponto de vista deles, a denúncia de Buster Amigão foi convincente. Mas terão problema para compreender por que coisa alguma mudou. Porque você está ainda aqui e eu estou ainda aqui. — Como um gesto da mão, Mercer indicou a colina desolada, o lugar conhecido. — Eu o tirei a pouco do ventre do mundo e continuarei a erguê-lo até que você perca o interesse e queira desistir. Mas terá que deixar de me procurar por que eu nunca deixarei de procurá-lo.
— Eu não gostei daquilo sobre o uísque — disse Isidore. — Aquilo foi aviltante.
— Isso acontece porque você é uma pessoa altamente moral. Eu não sou. Não julgo, nem mesmo a mim mesmo.

Mercer estendeu uma das mãos fechada, a palma para cima. — Antes que eu esqueça, tenho aqui uma coisa para você. Abriu os dedos. Na mão descansava a aranha mutilada, mas restauradas as pernas que haviam sido cortadas.
— Obrigado — disse Isidore, aceitando a aranha. Começou a dizer mais alguma coisa quando ouviu o som da campainha de alarme.
— Há um caçador de cabeças no prédio! — rosnou Roy Baty. — Apaguem todas as luzes. Tirem-no da caixa de empatia. Ele tem que ficar em posição à porta. Vamos...empurrem-no!



O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 19) [ Download ]

sábado, 31 de julho de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 18)




DEPOIS, desfrutaram de um grande luxo: Rick mandou o serviço de quarto trazer café. Durante um longo tempo, permaneceu sentado na grande poltrona de folhagem verde, preta e dourada, bebericando o café e meditando sobre as horas seguintes.

Rachael, no banheiro, murmurava, cantarolava e chapinhava num banho quente de chuveiro.
— Você fez um bom negócio ao fazer aquele negócio — gritou ela, depois de fechar a água; pingando água, os cabelos amarrados num elástico, apareceu nua e rosada na porta do banheiro. — Nós, andróides, não podemos controlar nossas paixões físicas, sensuais. Você provavelmente sabia disso. Na minha opinião você se aproveitou de mim.— Ela, contudo, não parecia realmente zangada. Se alguma coisa, tornara-se alegre e certamente tão humana como qualquer moça que ele conhecera. — Temos, realmente, que ir pegar aqueles três andros hoje à noite?
— Temos — disse ele. — Dois que eu aposentarei; um que você aposentará. — Como dissera Rachael, o negócio fora feito.
Envolvendo-se numa grande toalha branca de banho, Rachael perguntou:
— Você gostou?
— Gostei.
— Você irá novamente para a cama com uma andróide?
— Se fosse jovem, e caso se parecesse com você.
— Sabe qual é — perguntou Rachael — a esperança de vida de uma robô humanóide como eu? Eu existo há dois anos. Quantos anos mais você calcula que eu disponho?
Depois de hesitar por um instante, ele respondeu:
— Mais ou menos mais dois anos.
— Eles nunca puderam solucionar esse problema. Quero dizer, a substituição de células. A renovação perpétua ou, de qualquer modo, semi-perpétua. Bem, é isso aí. — Vigorosamente, começou a enxugar-se. Seu rosto tornou-se inexpressivo.
— Sinto muito — disse Rick.
— Bolas — disse Rachael —, estou arrependida de ter mencionado isso. De qualquer modo, evita que seres humanos fujam para ir viver com um andróide.
— E isso é verdade também com os tipos Nexus-6?
— É o metabolismo. Não a unidade cerebral.
Saiu do banheiro, vestiu a calcinha e começou a se preparar.

Ele se vestiu também. Juntos, conversando pouco, subiram para o campo do telhado, onde seu hovercar fora estacionado pelo agradável garagista humano, vestido de branco.
No momento em que tomavam a direção dos subúrbios de São Francisco, Rachael observou:
— Está fazendo uma noite agradável.
— A esta hora, minha cabra provavelmente está dormindo — respondeu ele. — Ou talvez caprinos sejam animais noturnos. Alguns animais jamais dormem. Ovelhas, nunca, não que eu pudesse ver. Todas as vezes em que olhamos para elas, estão olhando para a gente.
— Que tipo de esposa você tem?
Ele não respondeu.
— Você...
— Se você não fosse uma andróide — interrompeu-a Rick —, se eu pudesse; legalmente, me casar com você, eu casaria.
— Ou poderíamos viver em pecado, exceto que eu não sou viva — observou Rachael.
— Legalmente, não é. Mas é, realmente. Biologicamente. Você não é feita de circuitos transistorizados, como um falso animal. Você é uma entidade orgânica. — E em dois anos pensou, você se desgastará e morrerá. Porque nós nunca solucionamos o problema da substituição das células, conforme você mesma disse. Assim, acho que não importa, de qualquer maneira.

Este é o meu fim, disse a si mesmo. Como caçador de cabeças a prêmio. Depois dos Batys, nenhum mais. Não depois disto, desta noite.
— Você parece tão triste — observou Rachael.
Estendendo a mão, ele tocou-lhe o rosto.
— Você não vai ser mais capaz de caçar andróides — disse ela, calma. — Assim, não fique triste. Por favor.
Ele olhou-a fixamente.
— Nenhum caçador de cabeças continuou — disse Rachael —, depois de ter estado comigo. Exceto um. Um homem muito cínico. Phil Resch. E ele é doido. Trabalha num campo só seu.
— Compreendo — disse Rick. Sentia-se embotado. Inteiramente. O corpo todo.
— Mas esta viagem que estamos fazendo — disse Rachael — não será desperdiçada porque você vai conhecer um homem maravilhoso, espiritual.
— Roy Baty — disse ele. — Conhece todos eles?
— Conheci-os a todos, quando eles ainda existiam. Conheço três, agora. Tentamos detê-lo esta manhã, antes de você começar a trabalhar com a lista de Dave Holden. Eu tentei novamente, pouco antes de Polokov encontrar você. Mas, depois disso, tive que esperar.
— Até que eu pifasse — sugeriu ele. — E tivesse que chamá-la.
— Luba Luft e eu fomos amigas muito íntimas durante quase dois anos. O que você pensava dela? Gostava dela?
— Gostei dela.
— Mas matou-a.
— Phil Resch matou-a.
— Oh, então Phil acompanhou-o de volta até a Casa da Ópera, Nós não sabíamos disso. Nosso sistema de comunicações pifou, mais ou menos nessa ocasião. Sabíamos apenas que ela fora morta. Naturalmente, presumimos que por você.
— Com base nas notas de Dave — observou Rick —, acho que posso ainda continuar e aposentar Roy Baty. Mas talvez não Irmgard Baty. — E não Pris Stratton, pensou. Mesmo agora; mesmo sabendo de tudo isto. — De modo que tudo o que aconteceu no hotel consistiu numa. .
— A empresa — explicou Rachael — queria pegar os caçadores de cabeças, daqui e da União Soviética. Isto parecia funcionar... por motivos que não conseguíamos compreender inteiramente. Nossas limitações, mais uma vez, acho.
— Duvido que funcione com tanta freqüência e tão bem como você diz — contestou ele, zangado.
— Mas funcionou com você.
— Isso é o que vamos ver.
— Eu já sei — declarou Rachael. — Quando vi aquela expressão em seu rosto, aquela mágoa. Eu procuro isso.
— Quantas vezes você fez isto?
— Não me lembro. Sete, oito. Não, acredito que é a nona. — Ela, ou melhor, a coisa, inclinou a cabeça. — Sim, nove vezes.
— Essa idéia é bem antiga — comentou Rick.
Sobressaltada, Rachael disse:
— O q-quê?
Empurrando o volante para a frente, Rick colocou o carro em planeio de descida.
— Ou, de qualquer modo, é assim que me parece. Vou matá-la — disse ele. — E, depois, vou pegar Roy e Irmgard Baty, e Pris Stratton, sozinho.
— E por isso que você está pousando? — Apreensiva, acrescentou: — Há uma muita. Eu sou propriedade, propriedade legal, da empresa. Não sou um andróide que está aqui fugido de Marte Não estou na mesma classe que os outros.
— Mas — disse ele —. se eu puder matá-la, posso matar os outros também.
As mãos delas mergulharam na bolsa volumosa, inchada, cheia de entulho. Procurou frenética e, em seguida, desistiu.
— Droga de bolsa — disse feroz. — Jamais consigo encontrar coisa alguma nela. Você me matará de uma maneira que não doa? Quero dizer, faça isso com cuidado. Se eu não resistir, certo? Prometo não lutar. Concorda?
— Eu agora compreendo por que Phil Resch disse aquilo — observou Rick. — Ele não estava sendo cínico. Simplesmente aprendera demais. Tendo passado por isto... Simplesmente, não posso censurá-lo. A experiência deformou-o.
— Mas da maneira errada. — Nesse momento, externamente, ela parecia mais controlada. Mas continuava basicamente agitada, tensa. Ainda assim, aquele fogo sombrio desaparecera e a força da vida escoava-se dela, como ele, com tanta freqüência, observara nos casos de outros andróides. A clássica resignação. Aceitação mecânica, intelectual, daquilo com que um organismo autêntico — com dois bilhões de anos de pressão para viver e desenvolver o desejo de viver — jamais se reconciliaria.
— Eu não posso agüentar a maneira como vocês, andróides, desistem de tudo — disse ele selvagemente. Nesse momento o carro quase tocava o chão. Ele teve que puxar para cima o volante a fim de evitar um desastre. Freando, conseguiu pará-lo, sacudindo-se todo e derrapando. Desligou com um repelão o motor e sacou o tubo de laser.
— No osso occipital, na base de meu crânio — disse Rachael. — Por favor. — Virou-se, de modo que não veria o tubo de laser. O feixe penetraria sem que ela o percebesse.
Guardando o tubo, Rick disse:
— Não posso fazer o que Phil Resch aconselhou. — Religou o motor e, um momento depois, subiam aos ares.
— Se você algum dia vai fazer isto — pediu Rachael —, faça-o agora. Não me faça esperar.
— Eu não vou matá-la. — Mais uma vez, embicou o carro na direção do centro de São Francisco. — Seu carro está no St. Francis, não? Vou deixá-la saltar lá, e você pode voltar para Seattle. — Com estas palavras, acabou o que tinha a dizer. Continuou a dirigir em silêncio.
— Obrigada por não ter me matado — disse logo Rachael.
— Bolas, como você disse, de qualquer modo você só tem dois anos de vida. E eu tenho cinqüenta. Viverei vinte e cinco vezes mais do que você.
— Mas você realmente me censura — disse Rachael. — Pelo que fiz. — Voltara a tranqüilidade e a ladainha de sua voz ganhou velocidade. — Você se comportou da mesma maneira que os outros. Os caçadores de cabeças a prêmio, como você. Todas as vezes, ficam furiosos e falam em me matar, mas quando chega a hora, não conseguem. Exatamente como você, há pouco. — Acendeu um cigarro e tragou com prazer. — Você compreende o que isto significa, não? Significa que eu tinha razão. Você não conseguirá aposentar mais andróide algum. Não apenas eu, mas os Batys e Stratton, também. Assim, volte para casa e para sua cabra, E descanse um pouco. — Subitamente, bateu com força no casaco, violentamente. — Ai! Uma brasa do cigarro caiu aqui... apagou. — Recostou-se no assento, relaxando.
Ele permaneceu calado.
— Aquela cabra — disse Rachael —, você a ama mais do que a mim. Mais do que a sua esposa, provavelmente. Em primeiro lugar, a cabra, depois sua esposa e, por último ...— Riu alegre. — O que é que a gente pode fazer, senão rir?
Ele não respondeu. Continuara em silêncio durante algum tempo enquanto Rachael procurava e encontrava o rádio do carro, ligando-o,
— Desligue isso — ordenou Rick.
— Desligar Buster Amigão e seus Amicíssimos Amigos? Desligar Amanda Werner e Oscar Scruggs? Está na hora de ouvir a grande e sensacional denúncia de Buster, quase na hora, finalmente. — Inclinou-se para ver o mostrador do relógio à luz do rádio. — Daqui a pouco. Sabia a respeito disso? Ele vem falando no caso, preparando o ambiente para ele, para...

Nesse momento, do rádio partiu a voz:
"—... hei, eu quero falar com vocês, pessoal, estou aqui, sentado com meu amigão Buster, e estamos falando em ter um tempo realmente bom, esperando, ansiosos, que chegue a hora para o que, eu sei, será o anúncio mais importante do..."
Rick desligou o rádio.
— Oscar Scruggs — disse. — A voz de um homem inteligente.
Rachael religou o rádio no mesmo instante.
— Eu quero escutar. Pretendo escutar. Isto é importante, o que Buster Amigão tem a dizer em seu programa hoje à noite.

A voz idiota pairou outra vez no alto-falante e Rachael Rosen recostou-se, procurando uma posição confortável.
Ao lado de Rick, na escuridão, a brasa do cigarro dela brilhava como a traseira de um complacente vagalume: uma indicação regular, que não tremia, do sucesso de Rachael Rosen. Da vitória dela sobre ele.



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