sábado, 26 de janeiro de 2008

O sofrimento de um escritor (de Ficção Científica) - Isaac Asimov






Em teu cérebro repousam desordenadas as idéias.
Tramas de ficção científica que elabora com grande prazer.
Juntam-se em sua cabeça e de forma obstinada te ferem até se ver inquieto e louco de raiva.
Quando com a mulher amada, sua mente gira como um torvelinho, até o ponto de não mais ouvi-la. Quando em meio a um concerto, recorda o passado e perde uma nota da sinfonia que executava. Ao volante do carro, repara muitos metros depois, ter passado por um sinal vermelho e para completar, caramba, acerta a lateral de um outro veículo, espatifando seus faróis.
Quando teu chefe lhe dá um tapa nas costas (por ter feito um bom trabalho) e te olha com uma cara estúpida, e você diz algo idiota e ele se convence que você bebeu.
Quando coisas assim te sucedem, te deixando aborrecido, não culpe as forças sobrenaturais.
Se és um escritor de ficção científica, você se verá desviado de teu prumo, tão certo quanto as estrelas seguem suas órbitas, tua mente de escritor, surda, muda e cega às tolices da vida que te oprime, enquanto as maravilhas do espaço te apertam num abraço entre estrelas.
Começas com uma nave, mergulhada na vertigem do hiper-espaço, em rota para Castor e que percebe, para sua infelicidade, estar perdida em uma galáxia como a nossa, porém desconhecida.
Sentindo-se aflito pela continuação, inventa uma série de criaturas, vilãs e trapaceiras, de aparência horrível e com as piores e mais perversas intenções.
Nossos bravos heróis, enfrentando estas hordas, se vêem em situações cruciais, uma vez que o inimigo descobriu nossa galáxia e pretende subjuga-la.
Agora vem a complicação, pois precisa resolver a questão, de modo a manter o interesse no relato.
Os terrestres são quatro (não mais que isso) enquanto o número de inimigos é incalculável.
Nossos heróis são capturados e levados até os tirânicos e desprezíveis líderes que perguntam
‘Onde fica a Terra?’ e eles permanecem silenciosos, com a bravura que encantará os seus leitores.
Espera um pouco... Vejamos, assim não dá! Esqueceu da mocinha! Inventa uma e a faz boa e pura (com algum atrativo sexual) e não a veste por demais. Faz com que faça parte da tripulação, assim também será capturada e os inimigos lhe devorarão com olhos lascivos.
Há um desejo intenso nos olhos dos malvados, o que não espanta; a mocinha é de perto linda e suave como uma pluma.
Não, melhor corrigir esta parte e desfazer a parte da sedução, pois como os inimigos são répteis, não seriam atraídos por ela.
Que então assustem a mocinha, ameaçando com suas armas, para tentar arrancar a confissão dos terrestres. Então estes conseguem romper suas algemas, escreva algumas cenas violentas de luta. Cada terrestre é um lutador nato e seus punhos valem por dezenas.
E chegado a este ponto da história sua cabeça já estará dando voltas.
Já não sabe onde estás, nem onde estacionou o carro, sua gravata está torta e não tem idéia das horas, nem se dá conta do que estão a falar, nem por que te olham daquele jeito, duvidando se és um tipo esquisito ou se está louco, o que explica o brilho dos olhos, até que finalmente concluem que está fora de si.
Mas a tortura passou.
E foi por gosto e por prazer de deixar no papel antes em branco, as palavras bem escolhidas, por ter acabado de escrever um novo conto de ficção científica.
Isaac Asimov - 1957