segunda-feira, 10 de março de 2008

Entrevista com Vernor Vinge



‘A FC é para a humanidade, o que o sonho é para o indivíduo’.

O nome Vernor Vinge não soa com a mesma força de nomes como Philip K Dick, Ursula K.Le Guin ou Isaac Asimov, mas o escritor e professor de matemática da Universidade da Califórnia está entre os grandes nomes da FC americana, como estes três legendários autores.
Entre outras coisas, Vinge ganhou o prêmio Hugo de 2007 com seu livro ‘Rainbows End’ (ganhou em 2000 por ‘Deepness in the sky’ e em 1993 por ‘Fire on the deep’). O Hugo é o prêmio mais importante da literatura de FC e Fantasia escrita em inglês e é entregue desde 1953.

Vinge é um escritor de FC hard. O que significa dizer que ele projeta mundos futuros onde o avanço tecnológico é extrapolado, com rigor científico, a partir da realidade atual. ‘Rainbows End’ se passa em San Diego, Califórnia, em 2025. As tecnologias de comunicação evoluíram ao ponto de haver uma realidade virtual coexistindo com a realidade cotidiana. Dispositivos como a roupa inteligente fazem com que a conectividade com a Internet seja constante e em 3 dimensões e as pessoas trocam mensagens mentais como se ‘telepaticamente’.
Neste mundo, que parece de certa forma, inevitável, Vinge questiona - entre outras muitas dúvidas existenciais futurísticas - sobre o fim da privacidade e da natureza da memória humana em um tempo de bases de dados infinitas e a onipresente ciber-vigilância.
Além de matemático e escritor, Vinge é um dos profetas da Singularidade Tecnológica, a idéia de que a evolução exponencial do desenvolvimento tecnológico irá criar uma espécie de super-inteligencia artificial que funcionaria de maneira independente da humanidade, como um novo ser vivo.

Vinge afirma que vivemos um momento na história do planeta, comparável a primeira aparição da vida, milhões de anos atrás. Longe de ser uma ficção, mas, sua descrição deste fenômeno (corroborado por muitos cientistas de prestígio internacional) foi apresentada oficialmente à NASA em março de 1993. Um ensaio na revista Technology Review do MIT, diz que os mundos imaginados por Vinge, tiveram um impacto real e importante no desenvolvimento de novas tecnologias. Em grande parte por que os inventores destas tecnologias eram leitores fanáticos de seu trabalho.

Em uma conversa telefônica, Vernor Vinge explicou a dedicatória em ‘Rainbows End’:
‘Para as ferramentas cognitivas da Internet que estão mudando nossas vidas: Wikipedia, Google, Ebay e outras.’

O que significam estas novas tecnologias para a cultura humana?

Vernor Vinge: Creio que há uma grande possibilidade de que a Internet - quero dizer, os computadores e as bases de dados e as pessoas ligadas a ela - sejam algo inédito, um fenômeno sem precedentes na história. Se fizer as contas, há centenas de milhões de pessoas instruídas que estão hoje se comunicando pela rede. E dentro desta grande massa há provavelmente um milhão de pessoas que são mais inteligentes que todas as pessoas que no passado mandaram neste mundo.
Além disso, qualquer coisa que queira saber, sobre qualquer tema, você pode encontrar milhares de especialistas no assunto, não importa o quão insignificante seja.
Toda esta gente está trabalhando por conta própria, sem um controle central, mas estão colaborando com algo que, pela primeira vez na história, não requer que alguém seja extraordinariamente rico ou bem aventurado para entender e está conectado com o panorama global, com aquilo que se passa no mundo.
Nos últimos 200 anos, mais ou menos, estivemos indo nesta direção lentamente, mas agora a coisa é tão intensa que já existe uma esperança de que se minimize bastante a influência dos governos sobre a humanidade. Não significa que os governos vão desaparecer. Apenas que eles se tornarão provedores de infra-estrutura, ao invés de serem donos de nossas vida.

Não te preocupa que a sociedade na rede, pode ter seu lado negro, por exemplo, a vigilância e o fim da privacidade?

VV: Antes de mais nada, creio que ninguém pode prever o futuro. Mas considero que há motivos para ser otimista. No caso dos governos, por exemplo. Creio que a cada vez mais estão se dando conta de que a base de seu poder não vem dos exércitos mas de ter uma população instruída. E que esta população de centenas de milhões de pessoas criativas, possuem uma liberdade genuína. Isso é o que necessitam e estão começando a dar conta disso.

Você foi um dos primeiros profetas da ‘Singularidade’. Acha que vamos viver o bastante para vê-la acontecer?

VV: Penso que a singularidade é um evento não-catastrófico, que irá ocorrer em nossas vidas. Se não ocorrer um desastre, acho que a veremos. Mas também acredito que se uma super inteligência nascer repentinamente, será talvez incompreensível para nós. Nem sequer poderemos entendê-la. Seria como tentar explicar uma chamada telefônica para um peixe, seria impossível. Esta é a escala da diferença.

Colocou seu livro online e para acesso livre. Por que o fez?

VV: Junto com a maioria das pessoas que ganham a vida escrevendo ficção, observo com ansiedade o que se passa com a idéia da propriedade intelectual. E creio que as pessoas que trabalham para as editoras também. Ao mesmo tempo, sei que posso publicar obras online grátis. No meu caso, vi que muitos ganhadores anteriores do Hugo já o fizeram. Então eu e meu editor decidimos tentar, para ver o que acontece. É uma experiência.

Foi dito que seus livros exercem uma verdadeira influência sobre o desenvolvimento de certos produtos tecnológicos. Quanta influência você acha que a Ficção Científica tem sobre o mundo real?

VV: A Ficção Científica (FC) faz duas coisas. A mais importante é que ela estimula os jovens a se interessar pela ciência e ingressar em carreiras tecnológicas. A outra coisa é - apesar de soar grandiloquente - é que a FC é para a humanidade o que o sonho é para o indivíduo. E você sabe que os sonhos não tem, em geral, nenhum valor como previsão, mas as vezes geram boas idéias, que não ocorreriam de outra forma.

Finalmente, te incomoda que a Ficção Científica seja um gênero marginalizado? Ou seria indelicado fazer esta pergunta?

VV: É preciso se dar conta de uma coisa. Nos anos 50 eu era uma criança e a FC estava marginalizada, no sentido real da palavra. Não creio que era visível para todos. Foi um gênero depreciado, mais do que é hoje em dia. Todavia, naquele tempo as pessoas pensavam que o progresso seguia seu curso muito rapidamente e estavam seguras sobre a maioria das coisas. Hoje a FC - de uma forma ou de outra e não necessariamente o que escrevem os autores de FC -é dominante na nossa cultura. Nos filmes e na cultura popular.
Minha sensação é que assimilamos profundamente o fato de que o futuro não vai ser como esperávamos. Não podemos planejar com antecedência. E se esta mentalidade e estilo de se pensar é hoje, comum a toda raça humana, a FC teve muito a ver com esta mudança.

Por André Hax.
http://vrinimi.org/rainbowsend.html