domingo, 13 de abril de 2008

Pretensões da Ficção Científica do século 21 - Entrevista com David Brin


Entrevista concedida a by Cristopher Hennessey-DeRose

David Brin, este autor-pai-marido-professor de ciências, escreveu diversos romances, entre eles o indicado ao Hugo, ‘The Postman’, que o levou a ganhar um Locus e foi adaptado para o cinema. ‘The uplift war’ e ‘Earthwere’ foram indicados para um Hugo assim como seu trabalho ‘Kiln People’.

Também tem escrito sobre a ciência por trás da FC, para revistas respeitadas, como Analog e Science Fiction Age, se tornando uma voz reconhecida, quando o assunto envolve questões políticas e sociais.

Cristopher: A Ficção Científica é largamente utilizada por inúmeros autores para contar histórias de interesse humano, e como uma decisão pode afetar muitos, tentando assim, tornar a mensagem mais fácil de digerir.

Brin: Somente uma fração dos autores de Ficção Científica possuem algum conhecimento científico. Aquilo que mais nos dá prazer em ler é a história. Eu penso que um nome melhor para nosso gênero devia ser 'história especulativa' - da saga humana, o que Einstein chamou de 'gedankeneksperimenten', ou 'considerações-experimentais colaborativas', onde o leitor é um parceiro ativo. O futuro é uma dimensão para estes experimentos. Outros podem se ocupar criando um passado plausível ou um presente alternativo, como Nabokov tentou fazer em seu romance Ada.

De uma maneira geral, FC é sobre expandir as perspectivas disponíveis, além do limitado presente familiar, libertando a literatura pela extensão da história do homem através do reino das possibilidades. A Fantasia vai além, mergulhando na improbabilidade.

Isto acontece por que se dá na mais poderosa parte do cérebro humano, o lóbulo prefrontal, que usamos diariamente para explorar nossas opções, criando cenários futuros ou simplesmente para o dia seguinte. Nada é mais humano. Ainda assim, algumas pessoas parecem compelidas a menosprezar a FC como uma caricatura - pastiches de Star Wars (Guerra nas Estrelas).
Não tenho idéia do porquê fazem isso.

Cris: O que pensa a respeito da clonagem?

Brin: A clonagem é inevitável, como o avião ou a eletricidade. Não é necessariamente mal. O ponto chave moral é que o clone de qualquer pessoa será uma pessoa viva, com direitos humanos. Duplicar genes não muda isso, assim como vemos gêmeos idênticos como uma cópia do outro. Se chegarmos a isso, o estúpido dilema moral - como o dos ricos pagando por órgãos novos, para se manterem vivos - irá desaparecer.

Glory Season fala sobre clonagem em um futuro próximo. Kiln People é sobre algo diferente - sobre fazer cópias temporárias de si mesmo. Essas cópias - ou golems - de vida curta, apenas um dia, não são seres vivos independentes, mas extensões da pessoa original, que redeposita suas memórias ao final do dia, oferecendo a conveniência de poder estar em dois ou mais lugares simultaneamente. Em outras palavras, é o sonho das pessoas muito ocupadas, mas com conseqüências.

Cris: Você tem uma visão especial, de como as pessoas lidam com mudanças?

Brin: Eu tento evitar colocar esta 'Coisa', nas mãos de alguma elite convenientemente segregadora - algum tipo de agência governamental obscura e conspiradora, ou de um cientista louco. Estas convenções acabam gerando histórias divertidas - mas se tornam terríveis clichês. Ao invés disso, gosto de imaginar o que aconteceria se todos tivessem acesso a esta novidade. Dando-a para as massas. Não somente por que é mais interessante, mas é o que acontece.

Cris: Ter nascido no sul da Califórnia teve algum efeito nos seus escritos?

Brin: Se o ambiente onde você cresce te afeta? A Ficção Científica floresce sob condições como eu conheci quando criança - um misto de confiança e otimismo e novos tipos de terror abstrato. Abundância sem precedentes, os pulmões queimando pela fumaça venenosa de Los Angeles. Os livros de história afirmavam que, qualquer outro tempo da história humana era mais violento do que a minha calma vizinhança, uma segurança surpreendentemente acolhedora, balanceada pela expectativa do mundo, a qualquer momento, fritar numa guerra nuclear. Estas justaposições significam dizer que eu, como muitos escritores da Califórnia, nos sentimos seguros sobre discutir e explorar extravagantemente , com completa falta de inibição pessoal. Não tenho medo de ser queimado na estaca. E ao mesmo tempo, não estamos tranquilos. De uma posição segura, podemos olhar horrorizados uma miríade de fracassos, dez mil maneiras de brilhantes esperanças acabarem mal. Isso acaba criando o hábito de sempre se perguntar - ‘e se’. É claro que não é a primeira vez que o paradoxo favorece a exploração. Sempre existiu alguns jovens pirados, querendo contrariar a aristocracia e mudar as convenções. Só que agora estes poucos são centenas, e não pertencem a uma casta rica. Excentricidade tornou-se um dos traços pessoais mais admiráveis - ao menos é o que mostra a mídia de massa. Algo, definitivamente mudou e a Ficção Científica fez seu papel.

Cris: Ser classificado como autor de Ficção Científica preocupou você?

Brin: Isso pode ser um pouco cansativo. Aqueles que desesperadamente procuram erguer os muros nesse gueto, estão sempre se auto proclamando independentes, alardeando sua veneração às ‘eternas verdades da humanidade’ - uma das frases mais decrépitas que posso imaginar. Isso glorifica a crença de que a natureza humana é intrinsicamente extática - exatamente os mesmos problemas, os mesmos erros paralisantes que contaminam cada geração. Nem sequer tranformam isso em uma coisa boa! Não me entenda mal. A Ficção Científica reconhece o valor da grande literatura do passado, de Aristóteles a Melville, de Shakespeare a Shelley. Mas neste longo percurso, nossos jovens devem lutar contra as mesmas agonias mostradas por Eurípides, Dostoyevsky e Fitzgerald? Não é o propósito de uma boa história, transmitir empatia pelo sofrimento do outro, para que outros não precisem repetí-los?

As crianças não são capazes de aprender com os erros dos pais? Se podem, então certamente eles se depararão com problemas novos e estarão diante de novos desafios, iguais aqueles que enfrentamos, que nossos avós consideravam impossíveis. Ao invés de ‘verdades eternas’, a ficção cientifica é obcecada por transformações e mudanças. Explorar as possibilidades - para o bem e para o mal - o que nos espera logo à frente. Que gênero poderia ser mais relevante nos tempos em que vivemos?

Cris: Do ponto de vista de negócios, você prefere tratar com editores ou diretores de cinema?

Brin: Hollywood tem a vantagem de estar voltada para o lucro obsceno - de uma maneira ou de outra, você não pode resistir. Em contraste, publicar é relativamente barato. O lado bom disso é que os grandes egos são atraídos para o cinema. Publicar é bem menos avarento e intrometido. Se você se garante como autor, você fica livre para criar o que você bem quizer. O meio do caminho entre uma coisa e outra, é o mundo das graphic novels (quadrinhos para adultos). Meu segundo título (enorme - 144 páginas) chamou-se ‘The life eaters’ (DC Comics, Outubro de 2003), foi uma colaboração fascinante com um grande artista, Scott Hampton, mais Todd Klein, assim como produtores, diretores de arte, etc.
O processo de roteiro - é muito parecido com o de um filme. Um filme de orçamento baixo porém, com maravilhosos - apesar de planos - efeito especiais, e a complexa satisfação de ter participado dos esforços de uma equipe de verdade. Espero que venham a aparecer outras formas de intermediar as artes no futuro, de uma maneira de que toda a noção de fazer um filme e contar uma história, se misturem em algo novo.

Cris: Como você fica por dentro da tecnologia atual?

Brin: As pessoas me mandam coisas. Sou convidado a participar de conferencias científicas. Sou contratado como consultor ‘tecno-futurista’ por empresas de ponta. Em outras palavras, sou bem pago para fazer perguntas para as mentes mais brilhantes do mundo. A vida é tão injusta. Em outras civilizações, eles queimavam gente como eu em estacas. Apesar de uma miríade de perigos e rompantes de estupidez, vivemos uma verdadeira renascença.

Cris: O que te inspira?

Brin: A difícil saga da história humana. Toda manhã quando levanto e percebo que os bárbaros não incendiaram minha casa, nem levaram meus filhos, é um grande dia. Qualquer um que nega a palpável existência do progresso, não sabe nada sobre a vida, ou o passado. Mas é uma confiança frágil. Pode ser destruída se formos tolos ou não batalharmos o máximo que pudermos. Não quero que minhas crianças voltem a viver em cavernas. Quero vê-los voando por ai, feito deuses, em um mundo seguro. É pedir muito? Os chatos e os niilistas que criticam sem parar, sem ver o progresso, não estão tentando fazer as coisas melhorarem. Estão só aproveitando o barato entorpecente do ressentimento, sem contribuir com coisa alguma construtiva. De qualquer forma, é melhor eu estar certo. Por que só um mundo, cheio de pessoas espertas, será capaz de lidar com os problemas que esperam à nossa frente. Grandes problemas requerem atenção de uma civilização melhor.

Cris: Qual a responsabilidade dos escritores de FC hoje?

Brin: Liberdade. Liberdade para explorar. Para se encantar com a mudança e com a transformação e compartilhar com prudência este encanto, com as pessoas que irão experimentar rápidas mudanças em suas vidas.

Cris: O quanto deste papel de desorientação social cabe a Ficção Científica atual?

Brin: Bastante, eu creio. Poucos autores estão dispostos a considerar a possibilidade das pessoas comuns serem mais inteligentes do que eles pensam. De fato, eu acho isso surpreendente, quão adaptáveis as pessoas comuns podem ser. Se fossem completos idiotas, ao invés de agir como tolos - todos estariam mortos. Então por que tantos escritores agem como se tivessem inventado o ultraje moral e o as roupas de couro pretas? Não tem uma mensagem mais comum na mídia em massa - dos vídeos de rock aos filmes e romances - do que a 'Suspensão da Autoridade' (“Rebeldes são sempre os heróis. Obediência das normais é mostrado como algo pior do que a morte" Jean Baudrillard) Recebemos esta mensagem desde bem cedo. Não dá para convencer as pessoas de sua quase infinita capacidade criativa, se as pessoas inteligentes permanecerem nos mesmos ‘tropos’ (movimento orientado por um estimulo exterior que opera unilateralmente) com que foram amamentadas.

Cris: Algum conselho final para se viver o século 21 ?

Brin: Questione conjecturas. O esperado. Meus colegas autores de FC - vocês são pagos para isso! Em algumas outras culturas, seriamos queimados por isso! Diabos, nossa cultura
pode derrepente se deteriorar - está mais perto disso e já quase aconteceu várias vezes.


www.davidbrin.com

www.futurist.com/portal/future_trends/david_brin_empowerment.htm