sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Os Prazeres e os Perigos de Ensinar Ficção Científica à Nível Universitário

Os Prazeres e os Perigos de Ensinar Ficção Científica à Nível Universitário
Science Fiction Studies

Introdução:

Cursos regulares de ficção científica foram introduzidos em muitas universidades americanas à partir do início da década de 1960. Embora os tradicionalistas tenham torcido o nariz à novidade, os departamentos administrativos das universidades quase sempre exultavam com a medida, pelo retorno em publicidade gratuita.
A Science Fiction Studies dedicou um número inteiro, o 70, de 1996, para ensaios sobre o ensino de FC em sala de aula, sua repercussão, aceitação, desafios etc. O presente artigo foi escrito por Barbara Bengels, professora-adjunta da Universidade Hofstra (Hempstead, New York), e uma das pioneiras no ensino de FC. O curso de Bengels, para eventuais interessados, ainda existe e vai bem, obrigado. A.B.L.

Ficção científica é, por sua própria natureza, um esporte perigoso e subversivo. Poucas pessoas a encaram muito seriamente - todavia, como não fazê-lo? Alvin Toffler escreve em O Choque do Futuro, "Nossa crianças deveriam estar estudando Arthur C. Clarke, William Tenn, Robert Heinlein, Ray Bradbury e Robert Sheckley, não porque estes escritores possam falar-lhes sobre espaçonaves e máquinas do tempo, mas, mais importante, porque eles podem conduzir suas mentes através de uma exploração imaginativa da selva de questões políticas, sociais, psicológicas, e éticas que confrontarão estas crianças quando adultas" (425). Em God Bless You, Mr. Rosewater, Kurt Vonnegut faz com que Eliot Rosewater diga à uma platéia de escritores de ficção científica, "Eu amo vocês, seus filhos da puta... Vocês são tudo o que eu leio agora. Vocês são os únicos que falam sobre as mudanças realmente espantosas que estão acontecendo... Vocês são os únicos que têm coragem de se importar com o futuro, que realmente percebem o que as máquinas fazem conosco, o que os enganos, erros, acidentes e catástrofes tremendos fazem conosco. Vocês são os únicos otários o suficiente para agonizar sobre tempo e distância sem limite, sobre mistérios que nunca morrerão..."

Assim, se a ficção científica merece estudo, como poderia ser melhor apresentada num campus universitário, num curso acadêmico sério? (Claramente, eu não sou da escola "mande isso para a sarjeta à qual pertence", iniciada por uma fã ardorosa, Dena Benatan, quando ela expressava sua preocupação de que o escrutínio acadêmico poderia minar o campo da FC, fazendo-a excessivamente auto-consciente) (Hartwell 188). Quais são os perigos e prazeres de tentar ensinar FC na sala de aula? Eu gostaria de falar sobre as dificuldades inerentes e únicas de ensinar um corpo de literatura que está mudando no momento em que tentamos examiná-lo; eu gostaria de transmitir o entusiasmo e o sentimento de assombro que continuam a separar a ficção científica de qualquer outra forma de literatura.

Os problemas de ensinar FC começam fora da sala de aula, nomeadamente convencer seus administradores à permitir que tal curso seja enfim ensinado. Eu fui sortuda.

Comecei o meu nos anos 70, quando a relevância ditava o currículo. O New York Times iniciara sua coluna regular de ficção científica e talvez isso fôsse autorização suficiente. Eu também frisava que faria uma abordagem histórica, começando com os clássicos, mas isto não me livrou dos sorrisos polidos dos meus colegas e dos sorrisos de absoluto desdém dos tradicionalistas mais rígidos.

Até hoje, quase vinte e cinco anos depois, eu ainda constantemente me sinto como se devesse me desculpar por ensinar um curso que eu amo e que penso que é importante; em último caso, eu entro em modo justificativo, explicando quantas pérolas literárias estão incluídas no meu currículo e quão intelectualmente desafiante o curso é. Nunca, contudo, eu senti que ele tinha recebido o respeito que merece - mas eu sei, e meus estudantes sabem, que vale a pena de verdade.

O que me leva ao próximo dilema: enquanto alguns membros da faculdade questionam a validade da ficção científica como um curso universitário, os estudantes não o fazem - e eles chegam em manadas.

Os cursos de Milton podem ter vagas sobrando; FC requer múltiplas seções.
Isto obviamente cria uma potencial má vontade. Para somar ao problema, os estudantes freqüentemente requisitam um segundo curso semestral, e então eu tentei propôr um curso separado de FC Moderna. Absolutamente fora de questão, me disseram. O motivo? Obviamente porque isso atrairia ainda mais estudantes para longe dos tradicionais cursos de Inglês. Eu compreendi a situação e retrocedi - mas não sem um sentimento de perda.

Outra situação irritante que encontrei, emergiu quando o curso de FC - o qual eu tinha planejado e lutado por ele - foi temporariamente dado à uma professora incompetente e desinformada, mas que tinha estabilidade, porque os alunos não queriam participar de nada do que ela ensinasse. Ficção científica, no entanto, era uma tamanha atração que eles estavam querendo pegar o curso, à despeito dela. (Eu tentei apresentá-la aos vários periódicos de crítica de FC que existem, mas ela assegurou-me que não estava interessada; quando eu descobri que seu programa inteiro consistia de Frankenstein, todos os livros de Duna, e 2001, percebi imediatamente seu objetivo - e saí de cena.)

Uma vez que um curso de ficção científica tenha sido aprovado, um novo conjunto de problemas emerge. Por exemplo, encomendar os livros de estudo pode ser um desafio. Livros de ficção científica estão disponíveis hoje, esgotados amanhã. Uma de minhas antologias favoritas, The Road to Science Fiction, em quatro volumes, editada por James Gunn, está esgotada nos EUA enquanto, não obstante, tenha sido editada e traduzida e será brevemente impressa na Alemanha com um novo volume, o 5, acrescentado. Entrementes, eu estou constantemente batalhando para encontrar outra antologia de contos igualmente boa, barata e abrangente - por enquanto, sem sucesso. Em qualquer dado semestre, eu posso ter de substituir um dos livros de um autor por outro, rastrear qual editora publica um determinado romance, e simplesmente descartar um trabalho seminal porque ele não está mais disponível.

Existem dois outros problemas únicos de preparação: na maioria dos cursos, se eu quero ler a crítica de um livro, eu sei exatamente onde encontrá-la. Freqüentemente, todavia, não há qualquer material de crítica disponível sobre um trabalho de FC em particular.

Um de meus primeiros artigos foi uma comparação de Odd John e Sirius de Olaf Stapledon. Naquela época, em meados dos anos 1970, não havia muita crítica de FC existente.
Mesmo à um curto tempo atrás, quando eu submeti um artigo sobre "A Martian Odissey" de Stanley Weinbaum, não havia necessidade de alocar horas para procurar no CD-ROM. De fato, críticas literárias não estavam disponíveis nos computadores de nossas bibliotecas mesmo dois anos atrás, outro pequeno lembrete de quão rapidamente nossas vidas estão sendo mudadas pela nova tecnologia.

De fato, não ter muitas críticas disponíveis é uma espada de dois gumes: permite-nos escrever a nossa própria. Temos muito mais oportunidade no campo da FC para publicar - mas, ali jaz outra questão: a maioria dos nossos autores de FC ainda estão vivos (e eu, por exemplo, não desejaria que fosse de outro jeito). Todavia, enquanto um crítico e estudioso possa estar escrevendo o trabalho "definitivo" sobre um autor, o autor em questão pode ter acabado de entrar numa nova fase em seu desenvolvimento como escritor.
Eu sei de pelo menos dois casos em que um excelente pesquisador estava tentando publicar um livro sobre um brilhante e prolífico autor (Fred Pohl em um caso e Isaac Asimov no outro) mas à cada vez que o "último" capítulo era finalizado, o sujeito do livro aparecia com mais dois novos volumes seus, deixando seu crítico-biógrafo comendo poeira.

Quando você finalmente está pronto para entrar na sala de aula e lecionar para sua primeira classe, um grande problema vêm à tona quase imediatamente.
Tente definir o que ficção científica é, e você entenderá o que quero dizer.

O paciente não fica quieto na mesa enquanto você o examina.
É mais produtivo examinar a composição de uma classe típica - aqui não há nada dos agrupamentos homogêneos do Inglês tradicional! Não somente eu tenho uma audiência de interesses muito diversificados, mas tenho também alguns estudantes que não têm a mais pálida idéia do que seja FC (mas eles sabem que parece mais fácil que Shakespeare). Outros pensam que ficção científica é Jornadas nas Estrelas e mais Jornada nas Estrelas - ou Star Wars e Robocop. De fato, existem sempre uns poucos estudantes que entram em choque total quando percebem que lerão mais do que assistirão FC por todo o semestre.

Eu sei que para muitos destes estudantes, este será provavelmente o último curso de Inglês que eles farão; é minha esperança e responsabilidade deixá-los tão entusiasmados pela ficção científica que desejarão continuar lendo, mesmo quando não fôr mais exigido que o façam.

A gama de experiência dos estudantes com FC é fenomenal e enquanto uma certa percentagem de qualquer dada classe está lá porque o curso pareceu-lhes fácil e "divertido", eu sempre tenho uns poucos estudantes que não são meramente interessados em ficção científica, eles são verdadeiros fanáticos. É sempre possível encontrar estudantes que desejam compartilhar seu entusiasmo sobre uma área particular do campo de um autor favorito, e dado que é impossível para mim saber tudo sobre um assunto tão vasto, eu aprecio grandemente quaisquer lacunas que eles me ajudem a preencher.

Eu nunca vou esquecer, por exemplo, o estudante que deu à classe uma demonstração do sintetizador MOOG original (seu co-inventor é um professor da Hofstra), mostrando como os filmes de FC criam sua trilha sonora do outro mundo. Obviamente, um dos grandes prazeres de ensinar ficção científica é os estudantes que você têm. Eles são alguns dos mais interessantes, mais entusiasmados e entusiasmantes, mais agradecidos estudantes que vocês possam imaginar - também freqüentemente os mais brilhantes.
Vamos encarar isso: a maioria das pessoas que se voltaram para a ficção científica têm a mente aberta, desejosos de explorar novas idéias, altamente inteligentes, e muito criativos. (Sim, e algumas vezes eles são muito, muito esquisitos: como Damon Knight disse certa vez, todos os escritores de FC começaram como sapos. Eu tive muitos pulando pulando para dentro e para fora da minha sala de aula durante anos.)
Eu tive estudantes que foram ser grandes autores de quadrinhos na DC, estudantes que publicaram seus primeiros romances - romances de verdade - enquanto ainda estavam no primário, e estudantes que se vestem de preto e dançam nas estradas à noite. Fãs de ficção científica são um segmento especial da população por causa de sua disposição para audaciosamente examinar novas idéias - e para debater sobre elas interminavelmente.

Há um senso especial de comunidade no mundo da FC que encontra seu caminho direto na sala de aula; novas idéias podem ser lançadas de um para o outro, criando discussões em sala de aula muito excitantes: novas palavras, novos mundos, novos conceitos, todos para serem explorados juntos.

Finalmente então, meu prazer em ensinar ficção científica está integralmente atado às razões pelas quais eu amo lê-la: é um conteúdo realmente excitante! Nós vivemos num mundo de ficção científica e não podemos abrir nossos jornais sem ler histórias de FC transformadas em verdade: no New York Times, manchetes dizem "Cometa Vai Atingir Júpiter", "Funerais Domésticos Drive-Through Ganham Aceitação", "3 Cientistas Dizem Que a Viagem no Tempo Não Está Muito Distante"; artigos em revistas descrevem congelamento à vácuo de nossos animais de estimação, panfletos oferecem oportunidades para piquenique em Three Mile Island.

Quando eu não estou lendo as notícias, eu estou mandando e-mails para uma filha ou ouvindo outra ponderando que se ela pudesse clonar à si mesma, então ela poderia dizer à sua filha algum dia, "Eu sei exatamente o que você está pensando!"

Nos mais de vinte anos desde que eu comecei a ensinar ficção científica, o mundo e sua tecnologia mudaram enormemente. A ficção científica, por sua própria natureza, sugere que o futuro será ainda mais estranho do que podemos imaginar; isso nos faz flexíveis, tolerantes ao que virá; ela se esforça para nos fazer ansiosos por conhecer esse futuro - ou nos dá a previdência para evitá-lo. Se eu puder exitosamente ajudar meus estudantes a se prepararem para o futuro em que viverão - e fazê-los gostar de ler também - todos os perigos e políticas que eu encaro tornam-se um pequeno preço à pagar.

TRABALHOS CITADOS:

Hartwell, David. Age of Wonders. New York: Walker and Co., 1984.
Toffler, Alvin. Future Shock. New York: Bantam, 1970.
Vonnegut, Kurt, Jr. God Bless You, Mr. Rosewater. New York: Dell Publishing Co., 1972.

traduzido por Alexis B.Lemos