terça-feira, 21 de outubro de 2008

Ridley Scott compara BLADE RUNNNER com ANNIE, A PEQUENA ORFÃ

No dia 14 de Julho, em Los Angeles, um evento único, reuniu no antigo set de filmagem de Blade
Runner, nos estúdios Warner Brothers, o diretor Ridley Scott, o co-roteirista Hampton Fancher e
convidados.

Para os fãs de BLADE RUNNER foi uma ocasião especial, não apenas pela primeira apresentação
totalmente digital (som e video) do filme, mas por poder testemunhar durante a sessão de
perguntas e respostas, um acalorado debate entre Scott e Fancher, sobre a questão de Deckard ser ou não um replicante.

O evento beneficente, que teve todos seus ingressos vendidos, foi organizado visando levantar
fundos para a organização Brain Trust, dedicada ao produtor e artista Paul Prischman, que sofre
de câncer no cérebro.

Após a exibição do filme, ovacionado pela plateía presente, Ridley subiu ao palco e respondeu
perguntas, como o por que do filme ainda permanecer tão popular.

'Pelo fato de que, apesar de terem sido feitos muitos filmes de Ficção Científica desde BLADE
RUNNER, poucos são realmente bons. Talvez apenas um para cada dez.'

Scott acha que deve muito de sua habilidade como diretor, por ter sido operador de câmera em seus primeiros filmes e comerciais.

'Eu era o cara atrás das câmeras de DUELISTAS, em ALIEN e LEGEND, mas quando vim para os EUA para filmar BLADE RUNNER, fui proibido de ser meu próprio cameraman. Era como para um pintor, ter as mãos arrancadas. Tudo para mim acontece ali no visor da câmera. Você trabalha essencialmente como um fotógrafo, e penso que outros diretores deveriam tentar, porque a integração, a comunhão com os atores fica bem mais próxima. E os atores gostam de saber que você se importa, que não está indiferente, mas ligado a eles por trás das lentes. É muito importante.'

Um dos aspectos conhecidos sobre BLADE RUNNER foi o esquema rigoroso de filmagem noturna, onde por 16 semanas, a equipe de produção dificilmente via a luz do dia. Perguntado se isso havia contribuído para compor o aspecto sombrio do filme, a resposta surpreendeu a todos: Revista sem quadrinhos.

'Eu acho que Batman e Super-homem eram noturnos, e para popularizar BLADE RUNNER, eu queria que fosse como uma tira de quadrinhos. Hampton estava sempre me mostrando
quadrinhos, e nós falavamos muito a respeito disso. Annie*, a pequena orfã é sombria - Daddy
Warbucks é tão sinistro - é como O SILÊNCIO DOS INOCENTES! Repleta de pequenas coisas terriveis e corpos em espaços pequenos, eu prestei muita atenção nos desenhos, particularmente de Harold Gray - eles eram bons para a época.

'Enquanto eu filmava BLADE RUNNER, eu tinha em mente que faziamos um cartoon. Você poderia colocar Batman nos cenários do filme - e funcionaria. Acho que BLADE RUNNER é uma tirinha de quadrinhos sofisticada.'

Como sempre, em qualquer discussão sobre BLADE RUNNER, a grande pergunta:
Deckard era ou não um replicante? E por que o unicórnio foi escolhido como simbolo?

'Eu tinha que encontrar algo que fosse único, e que Gaff não pudesse ter pensado simplesmente. Eu já estava pensando no meu filme seguinte, LEGEND, onde haveriam unicórnios, então pensei, por que não usar um unicórnio? Assim eu já poderia testar como faria aquele maldito chifre parecer real.'

Havia outro aspecto do sonho de Deckard que atormentava o diretor - o cenário de fundo.

'Já que todo o filme se passa em uma paisagem urbana; onde se travaria a parte psicológica, da
sua imaginação? Eu pensei, deveria ser na natureza. Este é um dos motivos pelo qual o final original não faz sentido, quando eles fogem para a natureza. Pois, se haviam lugares como aquele, por que eles iriam escolher viver naquela porcaria de cidade? O sonho deveria ser o único momento do filme em que, na natureza, se encontra a beleza e a normalidade; talvez por isso tentamos fazer Deckard um pouco romântico.

Scott diz que seu atual entendimento do filme o fez mudar seu pensamento em relação a Deckard.
'Compreendo agora o ponto principal do filme - se eu conseguisse defini-lo com uma palavra, esta
seria paranoia. Se o principal personagem, o detetive, o caçador, o BLADE RUNNER, ao olhar as
fichas dos replicantes e penetrar no meio deles (que são tão humanos quanto é possível ser),
começaria a pensar, por que trabalhava para o departamento, eles não estariam querendo testá-lo, como um nexus seven? Isso se chama paranoia. O conceito inteiro de Deckard ser um replicante, envolve o origami de Gaff - Gaff não estava no livro, ele é uma invenção, para colocar mais tensão na história, então, ao final do filme, ele deixa claro, o que ele diz é "sei algo sobre seus pensamentos que só você poderia saber - e o único jeito de eu saber disso é por que sou parte da equipe que o criou."'

Neste ponto, o co-roteirista Hampton Fancher, que sempre negou a possibilidade se Deckard ser
outra coisa se não humano, balançou a cabeça e disse: 'Ridley não sabe o que diz, está
completamente errado.'

A audiência explodiu em gargalhadas, e Fancher continuou:

'Sua ideía é complexa demais. Acho que existe uma metáfora que funciona bem no filme - para mim pelo menos, é como se deseja alguma coisa e se fracassa; sempre acontece isso. Nunca temos certeza de estarmos sendo genuínos, verdadeiros. Não sinto a autenticidade - talvez Ridley sim.
(Risos)

Ele continua:
'A questão sobre ser ou não um replicante, deve permanecer uma dúvida eterna. Não tem uma resposta e é o que eu sempre digo, é o que Pound dizia, a arte duradoura é aquela que não oferece resposta. Gosto de me perguntar sobre Deckard, gosto quando me perguntam, mas penso que é uma tolice respondê-la...não me interessa.'

O moderador decide então interromper e pergunta para a audiência, quem acha que Deckard era - ou não - um replicante. Surpreendente a reação é quase dividida, mas com pequena vantagem para um Deckard de laboratório.

Ao final, Ridley respondeu uma última pergunta sobre os rumores de conflitos no set, entre o diretor e a equipe durante as filmagens.

Scott admitiu que seus filmes são difíceis de serem feitos, mas que as pessoas que não estavam contentes de trabalhar nele, não deviam estar no negócio de cinema.

texto original



*Harold Gray criador de 'Annie, a pequena orfã', publicou mais de mil tiras entre 1924 e 1927.
A história é sobre uma menina que foge do orfanato e acaba adotada por Daddy, salva o vira-latas Sandy, entra para o circo e conhece o elefante Pee Wee, e então, sozinha e sem
dinheiro, bota o pé na estrada numa série de perigosas, porém edificantes aventuras.