sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Atravessando a fronteira do País Assombrado


Entrevista com William Gibson para a Amazon.com


Amazon.com: Pode começar nos contando um pouco sobre onde se passa este novo livro?

William Gibson: Na verdade, não me preparei para isso.


Amazon.com: É como costumamos fazer, pegamos as pessoas antes que tenham tempo de decorar suas falas.

William Gibson: Sabe, quando faço a promoção do livro, já tenho uma idéia do que se trata. Ou sobre como o livro está sendo entendido, sobre o que se trata realmente. Neste livro temos alguns personagens misteriosos, uma pequena família criminosa de Nova Iorque, um tipo de contrabandistas ou, como se diz, de facilitadores ilegais, que fazem coisas entrarem na America do Norte. E você tem que ler até o fim para entender direito. Então eu imagino que seja um romance criminal.


A: Sim, tem todos os elementos de um thriller -tudo leva a crer que sim. Nós falávamos mais cedo - que você não sabe o que está dentro do pacote, até escrever?

WG: Não, eu não sei. Em certo ponto eu estou certo de que está cheio de objetos de arte retirados do museu de Bagdá (risos) e então me dou conta que contém as lendárias baterias de Bagdá, que Erich Von Daniken se referia nos anos 70 (as baterias seriam uma prova de um paleocontato com alienígenas).


A: Mas nada de armas de destruição em massa.

WG: Bem, estou preocupado com isso. Às vezes eu não gosto de confessar que sei muito pouco sobre como estas coisas começam, mas começo a admitir que quando menos eu souber, melhor.


A: Temos a proposta inicial do livro em seu site, e algo que me pegou foi que nenhuma das possibilidades acaba se concretizando ao fim. Estou curioso sobre como você faz, na medida em que passa de um personagem para outro, enquanto planeja o livro ou o está escrevendo.

WG: Bem, eu acho que a chave é que eu não acredito em propostas.


A: E aqueles que te publicam acreditam?

WG: Eu não sei - parece ser uma espécie de objeto ritualístico e temo realmente que tenha feito um contrato sem uma proposta, mas me surpreendo às vezes quando acaba sobrevivendo à publicação.


A: Mas sempre sobrevive em um livro diferente. Você cria a idéia. a põe de lado e depois encontra um lugar para ela?

WG:É interessante. De verdade, eu nunca percebi isso. Eu costumo não olhar para ter certeza se está lá. (Risos). Definitivamente eu não a procuro enquanto estou escrevendo. Ninguém tem reclamado.


A: A idéia do seu último livro “Reconhecimento de Padrões” (Pattern Recognition) era de que o presente alcançou o futuro de William Gibson. Muito daquilo que você imaginou se tornou realidade, de certa forma como se estivéssemos todos vivendo a ficção científica hoje. Foi assim que você se sentiu ao escrevê-lo, que o mundo real se tornou as suas idéias?

WG: Acho que escrever sobre o mundo de hoje é algo provavelmente mais desafiador, no sentido da ficção científica, mais do que simplesmente continuar a imaginar coisas. E acho que este é absolutamente o caso. Se vou escrever ficção sobre um futuro imaginário hoje, preciso de parâmetros que me dêem uma percepção acurada de quão estranhas estão as coisas. Por que vou precisar ir além daquilo. E penso que na direção apontada dos dois últimos livros - não acho que cheguei lá ainda - trabalho estes parâmetros. Mas não sei se serei capaz de fazê-lo de novo. Não sei se serei capaz de criar um futuro imaginário de novo. Nos anos 80 e 90 - é esquisito falar isso - tínhamos o luxo da estabilidade. As coisas não estavam mudando tão rápido assim, como um dos personagens de Reconhecimento de padrões diz, você não tem aquele lugar onde ficar e poder olhar para um futuro em detalhes.


A: Você já pensou em mover-se no passado? Em Difference Engine você escreveu sua própria versão do passado.

WG: Talvez. Não sei. Ontem, por um motivo qualquer, eu estava tentando imaginar um RPG (real player game) online, multi-jogador, onde o mundo que você entra é algo do tipo Guerra Civil Americana. Não a Guerra Civil Americana dos generais e das tropas, mas um tipo de guerra civil silenciosa, realmente às escondidas, acontecendo fora de um mapa militar. Estava pensando em quem poderia ir para lá, e por que as pessoas poderiam querer ser um comerciante do rio, ou um traficante de escravos e por que não. Estou muito curioso a respeito, mas não fiz nada ainda.


A: Falando sobre mundos de multi-jogadores virtuais, você tem ido ao Second Life? Sei que fará promoção do livro por lá.

WG: Vou fazer algo lá, será a primeira vez desde o último inverno. Foi uma experiência estranha.


A:Trataram você bem?

WG: Não fui como eu mesmo. Fui como outra pessoa e ninguém sabia quem eu era. E hoje aquilo é algo como um shoppping na periferia de Edmonton no meio do inverno, misturado ao pior dia que você passou na escola (risos).


A: Conheço a periferia e é assustadora.

WG: É deserta. Como se para ser funcional precisasse ser assim. Se não estiver deserto então dá erro (crash). Existe todo este vazio, arquitetura vazia. Todas estas cidades onde só há uma pessoa e mesmo assim não querem você por perto. E quando você consegue encontrar um grupo de avatares, elas não são tão legais.


A: São inferiores ao que são - são como as pessoas são em seus carros.

WG: É, são inferiores ao que realmente são no mundo real. Mas podem haver outros lugares que não fui...


A: Se você tivesse dito quem é, provavelmente ficaria bastante popular, eu imagino.

WG: Mas aí você não descobriria como é. Mas também quem acreditaria em mim? (risos) Quem sabe se parte da minha fria recepção se deveu a escolher um avatar bem diferente daquele que a maioria das pessoas escolheria. Eu escolhi um grotesco e gordo smurf azul. Usando um saiote de bailarina. Ninguém sabe, mas foi legal. Quer saber o que na verdade me preocupa sobre o Second Life? Depois de passar umas 4 ou 5 horas por lá, dezembro passado, eu fui a um shopping repleto de compradores na véspera de Natal e todo mundo me pareceu ter saído do Second Life. Tinha algumas pessoas, com menos de 30 anos, que pareciam ter escapado do Second Life,


A: Vestiam-se como avatares.

WG: Sim, se vestem como um avatar, é algo bem assustador. E acho que em algum lugar, no meu arquivo de idéias, existe uma sobre um cara e sua namorada que se parece com aquela que ele tem no Second Life.


A: Então você coleciona idéias que podem acabar sendo usadas para um personagem sem definição?

WG: Sim, mas eu não as uso assim. Eu conto com algum atrito natural da memória para lidar com isso. E às vezes você tenta, mas não funciona ou não encontra o lugar certo, não encontra a aplicação certa para aquele material. Mas quando eu estou trabalhando muito bem com algo, me parece que tudo de alguma forma, funciona. Todas as experiências do mundo podem potencialmente encontrar seu caminho na textura da coisa. E se não acontecer, é por que não ocorre na vida.


A: Tem que ser parte da sua vida.

WG: Sim, tenho que sentir que é parte da minha experiência neste mundo.


A: E como é a sua pesquisa? Se quer escrever sobre, digamos, GPS, como fez no seu último livro, você pesquisa e procura os especialistas ou só observa as coisas aí fora e faz do seu jeito?

WG: Eu googlo (Google) e estrago tudo (risos), ou se tenho sorte, Cory Doctorow (escritor de Ficção Científica expert em tecnologia) me corrige. Uma das coisas que descobri enquanto estava escrevendo ‘Padrão de reconhecimento’ é que todo romance contemporâneo tem uma espécie de aura Google ao redor, pois todo mundo poder googlar tudo do texto. As pessoas - e isso acontece comigo em ‘Reconhecimento de Padrões’, encontrarão minhas pegadas pelo Google: Olha, ele tirou isso daqui e esta informação veio deste site.


A: Suas anotações estão por aí.

WG: Sim, é como se existisse esta extensão texto-nebulosa. Tudo é hiperlincável agora. Isso muda tudo. Tenho certeza de que muitos autores ainda não se deram conta disso, como as coisas mudaram, mas já me vi googlando partes do meu texto e algumas vezes fui levado em diferentes direções.


A: Então você consegue googlar enquanto escreve ou você se desliga de tudo?

WG: Não, tenho o Word (programa editor de texto) aberto no topo do Firefox (navegador de internet).


A: Você tem coragem.

WG: É tipo o único jeito que consigo fazer isso. Tomou o lugar de olhar pela janela, mas eu preciso...


A: Você precisa de um certo estímulo...

WG: Sim, preciso. É como quando você está nadando debaixo d’água e respira pelo canudo. O Firefox é este canudo. Eu poderia sair se eu quisesse. Posso ficar ou ir para o BoingBoing (site para o qual WG escreve) ou qualquer outro site.


A: Acho que alguns escritores nunca pulariam na piscina com o Google.

WG: Não tenho problemas, pois não me atrai tanto. O que me limita em relação ao Google é o que você pode pensar fora dele. Existe um tipo de limitação pessoal nisso, a não ser que você dê sorte e algo que você googlou te leve até algo que você nunca viu antes. Você ainda sim tem uma versão inicial daquilo na cabeça.


A: Certo, ao invés de estar numa livraria onde você pode pesquisar e as coisas virem até você, você está pesquisando dentro de sua própria cabeça.

WG: Na minha internet, as coisas que estão nos meus favoritos são pequenas. Algumas vezes muito pequenas, mas elas estão armazenadas lá.


A: É a sua vizinhança.

WG: Imagino que a maioria das pessoas faz isso.


A: Você não tem escrito não-ficção. É algo que sempre fez, uma extensão do seu trabalho? A sua editora não tem lhe cobrado um livro de memórias?

WG: Não, ninguém me pediu para escrever minhas memórias. Tenho uma proposta - uma proposta bastante bizarra - que eu escreva a biografia de um físico, puxa, nunca fiz nada assim. E me parece tão fora de propósito que penso, ok, vou considerar a idéia. É uma oportunidade batendo à porta. Mas quando penso, e eu penso a respeito, não sei como fazê-lo. Não sou um jornalista, não fui treinado para tal. Bruce Sterling teve aulas na faculdade para isso, e é algo completamente diferente, ele pode escrever algo assim. Ele pode escrever algo sobre o mundo real sem problemas. Eu nem tenho idéia de como fazê-lo.


A: É difícil escrever sobre a vida real.

WG: Entendo como uma extensão do que me permito, sinto que posso, entre as coisas que sei fazer. E história é especulação também. Estou quase convencido. A história muda. Se eu pudesse escolher saber de uma coisa sobre o mundo, daqui a cem anos, ou ter acesso a informações, eu penso que iria querer saber da história do nosso tempo, não somente por que diria muita coisa que eu não sei sobre nosso tempo, mas me diria tudo que preciso saber sobre tempo, como o que eles aceitaram acreditar.


A: Agora que você está escrevendo sobre o presente, você se considera um escritor de ficção científica? Por que, para as pessoas, você ainda é um.

WG: Nunca acreditei nesta separação. Mas a Ficção Científica é definitivamente de onde venho. A ficção científica é minha cultura literária nativa. Foi onde comecei como leitor e o que me faz um pouco diferente dos outros escritores de ficção científica da minha idade, é que eu descobri Edgar Rice Burroughs e William Burroughs ao mesmo tempo. E comecei a ler os poetas beatniks um ano depois e misturei tudo. E é melhor não ser rotulado. É uma questão de onde você está autorizado a estacionar. Se você quiser estacionar na seção de FC da livraria, ótimo. Se puder estacionar em outra seção, é ótimo. Se as pessoas quiserem comprar na Amazon, ótimo também.


A: Sim, nós o colocaremos em todas nossas seções virtuais. De certo modo, isso permite a você fazer o que quer, escrever o livro que desejar, sem se importar com o rótulo que lhe dão.

WG: Sim, tenho certeza de que tenho leitores que me conhecem há vinte anos e que estão desesperados pela ausência daquela coisa ‘ciber’, de garotas com unhas biônicas. Mas é assim mesmo. Hoje tudo está diferente. Acho que nada fica fora de moda tão rápido quanto a ficção científica. Nada fica tão datado quanto um futuro imaginário. Adquire teia de aranha mesmo antes de colocar no envelope e mandar para o editor.


A: Então você acha que é o seu caminho como escritor, estar menos interessado em imaginar o futuro, ou você acha que o mundo está mudando?

WG: As duas coisas. Até recentemente eu pensava que era eu, que havia me cansado deste conjunto de ferramentas que ganhei quando jovem, e tenho usado o velho conjunto para a ficção do século 21. Mas nos últimos cinco ou seis anos, comecei a perceber que tem algo acontecendo, algo que talvez seja o que os personagens do meu livro ‘Idoru’ chamam de ‘Ponto nodal’, ou uma série deles. Estamos em um lugar onde as coisas podem caminhar em qualquer direção. Algumas semanas atrás eu li o argumento de Charles Stross de que nós jamais faremos uma viagem espacial tripulada. Não vai acontecer. Não vamos colonizar Marte. Tudo não passa de fantasia. E foi tão convincente o argumento que li aquilo e pensei ‘Meu Deus, lá se vai toda a ficção que li quando criança. ’


A: Nós sabemos muito sobre o que podemos fazer, mas sabemos muito mais sobre o que não podemos.

WG: Sim, sim. E se for isso? Não somente quanto a estarmos destruindo o planeta, mas e se for o único? O único que a raça humana irá ter? Só por causa das distâncias.


A: Uma coisa que me prendeu em País Assombrado (Spook Country) é que de certo modo o futuro é como viver ao longo do passado recente. Como se alguns daqueles personagens do livro vivesse no futuro e outros não. Tem um momento que Milgrim está voando sobre o Golfo, em seu jato particular e ele se sente tipo ‘Oh, então é assim, com as outras pessoas. ’

WG: Sim, exatamente.


A: Este é o clássico romance do século 19, é tudo sobre divisão de classes e negociação entre elas. É o motor que move o livro.

WG: Existe algo que percebi enquanto escrevia este livro, por que precisei voltar a ler partes de ‘Neuromancer’, pois no mundo de Neuromancer não há classe média. Só há gente muito, muito rica ou desesperadamente pobre, a maioria criminosos. É um mundo bastante vitoriano e quando eu escrevia País Assombrado, eu procurei lutar contra isso que o mundo que eu tentava predizer se tornava mais vitoriano, não menos. Menos classe média, mais como o México, mais como a cidade do México. O que provavelmente não é uma boa direção.


A: Para o livro ou para nós?

WG: Para nós.