sábado, 10 de janeiro de 2009

Equilíbrio - Mike Resnick

Susan Calvin subiu ao palco e observou a sua audiência: acionistas da US Robóticos e Homens Mecânicos.

'Quero agradecer a todos pelo comparecimento. Vou atualizá-los sobre nossos últimos desenvolvimentos' disse ela em seu jeito breve e profissional.

Que rosto medonho ela tem, pensou August Geller, sentado na quarta fileira da platéia. Ela me lembra a minha professora de inglês da sétima série, aquela que eu temia.

Calvin iniciou com uma detalhada explicação dos novos circuitos que haviam sido introduzidos no cérebro positrônico, em termos que um leigo - mesmo um acionista - pudesse entender.

Que mente brilhante, pensou Geller. Absolutamente brilhante. Imagine um semblante como esse sem um cérebro para contrabalançar.

'Alguma pergunta até este ponto?' Perguntou Calvin, seus olhos azuis escaneando a audiência.

'Eu tenho uma' disse uma bela e jovem moça, ficando de pé.

'Sim?'

A moça fez sua pergunta.

'Eu pensei ter explicado esta questão' respondeu Calvin fazendo o máximo para esconder sua irritação e começou a explicar de uma forma ainda mais simplista.

Não é surpreendente? Pensou Geller. Temos aqui duas mulheres, uma possui uma mente primorosa, a outra possui um QI que poderia congelar a água, e ainda assim não consigo tirar os olhos daquela que fez esta pergunta estúpida. Pobre doutora Calvin, a natureza tem um senso de humor bastante malicioso.

Calvin reparou que um bom número de homens estava admirando a questionante. Não era a primeira vez que aqueles homens haviam encontrado algo mais fascinante do que Calvin para direcionar suas atenções, nem a centésima, nem a milésima.
Que vergonha, ela pensou, que eles não eram mais parecidos com os robôs, que eles deixavam seus hormônios sobrepujassem a lógica. Aqui estou eu, explicando como gastei doze bilhões de dólares do dinheiro deles e eles estão mais interessados em um rosto bonito.

Após completar sua resposta, começou a discutir sobre as tentativas que estavam fazendo para tornar os corpos mais fortes para os robôs desenhados para uso extraterrestre usando a aplicação de ligas moleculares de titânio.

Imagino, pensou Geller, se ela algum dia já teve um encontro com um homem?
Ou uma noite de paixão selvagem.
Sabe Deus, apenas uma refeição, quem sabe uma ida ao teatro, onde ela não falaria de negócios.
Ele balançou a cabeça quase imperceptivelmente. Não, provavelmente este tipo de coisa a entediaria. Tudo com o que ela deve se importar são fórmulas e equações. Uma bela aparência seria inútil nela.

Calvin percebeu que Geller a encarava e permanecia assim.
Que homem elegante, ela pensou. Será que já o tinha visto antes em alguma reunião? Tenho certeza de que lembraria. Por que ele está me olhando assim, tão intensamente?

Imagino, pensou Geller, se ela já amou alguém e se foi correspondida.

Provavelmente era apenas mais um homem deslumbrado diante de uma mulher com cérebro, ela concluiu.

De fato, pensou Geller, será que ela já amou alguém?

Olhe para aquele bronzeado, pensou ela, ainda encarando Geller. É atraente, sem dúvida, mas será que ele trabalha ou passa o tempo descansando na praia, sem pensar em nada? Ela sentiu necessidade urgente de elaborar melhor seu pensamento. Às vezes é difícil imaginar que pessoas como eu e você pertencemos à mesma espécie; eu tenho muito mais em comum com meus robôs.

Às vezes, pensou Geller, quando a ouço dissertar assim, cheia de entusiasmo sobre cérebros positrônicos e ligas moleculares, é difícil acreditar que pertencemos à mesma espécie; ela parece um de seus robôs.

Ainda assim, pensou Calvin, contra a sua vontade, você é alta e elegante, e certamente tem um ar de autocontrole; a maioria dos homens não quer ou não conseguem me olhar assim. E seus olhos são azuis claros...

Ainda assim, pensou Geller, deve haver algo nela, algum espectro de feminilidade debaixo desta carapaça e dentro desta mente analítica.

Calvin balançou a cabeça inadvertidamente e quase perdeu o fio do que estava dizendo.
Ridículo, ela concluiu, absolutamente ridículo.

Geller continuou olhando para ela, estudando o seu queixo forte, os ombros largos, a postura agressiva, o rosto desprovido de maquiagem, o cabelo que poderia ser um pouco mais atraente.
Ridículo, ele concluiu, absolutamente ridículo.

Calvin falou por mais quinze minutos - então chegou a parte das perguntas.
Foram feitas duas e ambas respondidas sucintamente.

'Eu quero agradecer à Doutora Calvin por ter separado parte de seu tempo para passar conosco' concluiu Linus Becker, o jovem chefe de operações e executivo da US Robôs e Homens Mecânicos.

'Enquanto tivermos sua notável inteligência trabalhando para nós, estou confiante de que continuaremos a progredir e expandir os parâmetros da ciência robótica.'
'Eu quero acrescentar que quando nós tivermos condições de produzir um cérebro positrônico com a metade da capacidade da nossa doutora, a área de robótica terá chegado ao seu auge' disse um dos acionistas majoritários.

'Obrigada' disse Calvin, ignorando uma estranha sensação de vazio. 'É uma honra.'

'Nós é que estamos honrados com tal brilhante presença.' disse Becker suavemente.

Ele a aplaudiu e logo toda a audiência também aplaudia, incluindo Geller, que se ergueu e deu a ela sua ovação de pé. Então cada um deles avançou na sua direção, se apresentando e apertando sua mão e comentando sobre sua inteligência e criatividade.

'Obrigada' disse Calvin, agradecendo outro cumprimento.
Você pegou minha mão como se esperasse que fosse de tungstênio ou aço, ao invés de carne e osso. Será que eu pareço tanto assim com meus robôs?

'Adorei seus comentários.' disse Calvin para outro acionista. Imagino se amantes falam um com o outro assim neste mesmo tom amigável.

Então Geller deu um passo à frente e apertou sua mão, e ela quase pulou com aquela sensação, a eletricidade passando através de sua mão forte e bronzeada.

'Acho que você é nosso ativo mais valioso, Doutora Calvin' ele disse.

'Nossos robôs são nosso maior ativo.' ela respondeu graciosamente e completou: 'Sou apenas uma parteira científica.'

Ele a confrontou intencionalmente por algum tempo e subitamente a tensão se desfez. Impossível. Você é por demais parecida com seus robôs. Se eu a convidasse para sair, você acharia ser um ato de caridade, e penso que você é muito orgulhosa para aceitar esta gentileza.

Ela olhou nos olhos dele mais uma última vez. Impossível. Tenho meu trabalho a fazer e meus robôs nunca me desapontaram, provando serem mais do que meramente humanos.

'Atenção! Lembrem-se que haverá um banquete daqui a três horas' disse Becker, e virando-se para Calvin disse: 'Você vai estar lá, é claro.'
Calvin assentiu. 'Estarei.'

Ela só tinha quatro horas para se trocar, vestindo algo mais formal para o banquete e já estava atrasada.

Entrou em seu indescritível apartamento, caminhando através da sala de estar e do quarto, ambos repletos de jornais e suplementos científicos, abriu o closet e começou a tirar suas roupas de dentro dele, esticando-as sobre a cama.

'Alguém já lhe disse que você tem os mais belos olhos azuis?' perguntou o robô mordomo.

'Obrigada' disse Calvin.

'É verdade, sabe, lindos, lindos olhos, tão azuis quanto safiras.'

A robô arrumadeira entrou no quarto para ajudá-la a se vestir.

'E um belo sorriso.' disse a arrumadeira, e completou 'Se eu tivesse um sorriso como esse, os homens brigariam apenas pelo prazer de vê-lo.'

'Você é muito gentil' disse Calvin.

'Ah, não, senhorita Susan. Você é muito bonita.' Corrigiu a empregada.

Calvin percebeu que seu robô cozinheiro estava parado à entrada do quarto.

'Pare de olhar para mim' ela falou. 'Eu estou apenas meio-vestida. Onde estão os seus modos?'

'Com pernas como as suas, você achava que eu pararia de olhar?' disse o cozinheiro com uma risada seca e mecânica. 'Toda noite eu sonho em encontrar uma mulher com pernas assim.'

Calvin escorregou para dentro do vestido e esperou a robô empregada subir o zíper nas suas costas.

'Uma pele tão clara e macia.' sussurrou a empregada. 'Se eu fosse uma mulher, este seria o tipo de pele que eu iria querer ter.'

Eles eram criaturas com percepção extrema, refletiu Calvin em frente ao espelho e aplicou uma camada leve de batom. Que criaturas adoráveis. Era claro que estavam apenas respondendo às necessidades da Primeira Lei - minhas necessidades - mas quanta consideração eles tinham.

Pegando a bolsa, seguiu para a porta.
Pensou se eles se cansavam de recitar esta litania.

'Você será a mais bela da festa' disse prontamente o robô mordomo, enquanto ela atravessava o apartamento.

'Obrigada, muito obrigada.' disse ela 'Você se torna mais bajulador a cada dia que passa.'

O robô inclinou sua cabeça metálica e disse pouco antes da porta se fechar atrás dela:
'Só se fosse mentira, minha senhora.'

Com seu equilíbrio emocional plenamente restaurado, como sempre se fazia necessário ao chegar em casa após lidar com seres humanos, ela tomou o caminho do banquete sentindo-se revigorada e renovada.

Pensou se poderia sentar próximo ao elegante August Geller, que havia prestado tanta atenção nela durante sua explanação. Depois de refletir, esperou que pudesse sentar em qualquer lugar. Ele parecera manifestar alguns sentimentos desconfortáveis a seu respeito, aquele homem jovem e galante - e as fantasias, uma vez que tudo tivesse sido dito e feito, existiam somente para intelectos inferiores que, diferente dela, não sabiam lidar com as frias verdades do mundo real.

Fim