quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A Ficção Científica está morrendo? - William Gibson

O futuro da FC ? Nós o estamos vivendo hoje.

Aquela série “História do Futuro” ( ‘Future History’, descreve um futuro projetado para a raça humana da metade do século 20 ao início do séc.23) que nós liamos nos livros de Robert A.Heinlein, quando eu tinha 14 anos de idade, ficou para trás.

Sempre havia uma ditadura teocrática americana. Acho que passamos disso.

Aquela coisa que chamamos de FC e que fazemos através da literatura, sempre estará conosco.

O gênero é chamado assim desde 1927.
É algo relativo a natureza dos gêneros, não a natureza da FC em si.

A coisa mais interessante que aprendi com a FC é que cada momento presente, é sempre o passado de alguém e o futuro de outro. Entendi isso quando criança, nos anos 50, quando eu lia FC escrita nos anos 40; antes mesmo de saber na verdade muita coisa sobre a história dos anos 40, ou sobre história como um todo. Eu literalmente tive que deduzir o fato da segunda grande guerra mundial, como se faz em engenharia-reversa, minha primeira iteração pessoal da história do século 20 fora da FC dos anos 40.

Eu cresci numa monocultura - o que era altamente problemático - e a FC me permitia um grau de perspectiva cultural salvadora, que eu nunca teria de outro modo.

Eu espero que isso ainda aconteça hoje, para pessoas que precisam disso, mas hoje em dia, temos outras possibilidades.

Poucos anos depois de descobrir as ‘Histórias do Futuro’ de Heinlein, eu adotei , como um completo idiota, o lema de Ballard - ‘A Terra é um planeta alienígena’ - de que o futuro é quase como hoje.

O espaço (para onde a FC nos levava) se tornou metafórico. Virou espaço interior.

Quando comecei a escrever FC, aos 20 e poucos anos, descobri que só poderia deixar a Terra de uma forma auto-consciente, nostalgicamente, algo do tipo orbita baixa, o futuro havia migrado para uma forma diferente que emergia, que eu decidi chamar de ciberespaço.

Quando eu tinha 20 anos eu não queria nada além de ser um escritor de FC.
Hoje eu não tenho certeza de que me tornei um.

Eu suspeito que eu já fosse algo mais quando comecei - provavelmente o que Donald Theall (1928-2008) definiu como ‘para-modernista’ significando qualquer texto cultural que não é nem moderno nem pós-moderno, mas que também pode ser classificado tanto quanto um como outro ou ambos. Eu assumo isso ao concordar que o momento presente é sempre infinitamente mais estranho e mais complexo do que qualquer futuro que eu possa imaginar.

Meu trabalho será (por um tempo, de qualquer maneira) capturar estranhos fragmentos deste nosso presente-alienígena em mundos (como dizemos em FC) que podem vir a ser ‘o futuro’.

Se eu pudesse magicamente acessar alguma informação do futuro de verdade, eu escolheria ver a história passada e aquilo que eles poderiam ter e que se parecesse com FC. Os produtos de duas diferentes atividades especulativas. Eles sabem tudo do nosso passado, mais do que nós sabemos, e tentando fazer uma engenharia reversa da história, fora dos sonhos, como eu me lembro, seria algo excitante e único.

O último livro de William Gibson se chama ‘Spook Country’.

Site oficial de William Gibson