domingo, 22 de fevereiro de 2009

Algum tipo de consistência interna - Entrevista com Alastair Reynolds




O terceiro romance de Alastair Reynold, 'Redemption Ark', foi publicado em 2002.
É a sequência de seu primeiro romance, 'Revelation Space' (2000), onde estavam presentes alguns dos temas de 'Chasm City', seu segundo romance. Todos os três livros se passam 500 anos na frente de nosso tempo, quando a humanidade se lançou ao espaço utilizando-se de naves que viajam quase à velocidade da luz.

Seu universo é sombrio, humanos e pós-humanos em meio aos problemas causados pela tecnologia e por espécies alienigenas. A capacidade de elaborar intrigantes cenários, assim como suas histórias, se desenvolveram ao longo do tempo, como o talento de Alastair, desde seus primeiros contos publicados em 1990.

P: Astronomia é um campo antigo de estudo e existe uma imagem que remete ao telescópio de Galileo e também aos modernos super telescópios de hoje. O que você faz exatamente?

A: Acho que posso dizer que sou um astrônomo, mas isto muda bastante de ano para ano. Agora mesmo estou me dedicando a astronomia pura, apesar de estar escrito 'consultor' em minha porta. Faço parte de uma equipe que está construindo um novo tipo de câmera óptica super sensivel para a Agência Espacial Europeia. Utiliza equipamento quântico e trabalha próximo de zero K, banhada em hélio. Quando um fóton,uma particula de luz a atinge, você não tem apenas o tempo de contato com precisão de microsegundos, você tem também a energia do fóton. Se você construir um vetor a partir disso, pode construir uma imagem com tanta informação quanto queira. É muito importante se está estudando fenômenos que variam rapidamente. Eu acho fascinante!

P: A FC séria, quase por definição, dá mais atenção a ciência do que deveria. Não parece uma reação, já que a midia de FC não o faz?

A: Não sei dizer, pois eu sempre achei a ciência intrinsicamente interessante.Eu não estruturo minhas histórias a partir de conceitos cientificos, basicamente tento contar uma história - se quiser - uma aventura, uma perseguição, algo como um thriller de espionagem, o que seja, mas procuro fazê-lo cientificamente consistente no todo. É uma escolha estética. Gosto de coisas do tipo, escritas por Samuel Delany e Philip K Dick, que não eram escritores particularmente preocupados com a acuracidade cientifica. Se a história é boa, então isto não interessa! O que eu procuro é um tipo de consistência interna. Gosto muito de China Melville.
Obvio que isto não faz sentido do ponto de vista racional, mas existe uma consistência lá que faz com que o que está sendo dito seja convincente. É isso que eu procuro, de verdade, apenas a impressão de que o escritor pensou um pouco sobre aquilo.
'Nova', de Samuel Delany é um dos meus romances de FC preferidos, um que eu já li diversas vezes. Foi publicado em 1968, mas fica claro que ele baseou todos os conceitos cientificos em um livro de astronomia que deve ter sido escrito em 1930. Muita coisa só ficou para nós claras com o Hubble. Mas no trabalho de Delany, ele se refere a uma espaçonave emergindo dentro de uma nebulosa e então disparando para outra parte do universo. É claro que não havia uma acuridade cientifica nisso ou ele estava baseando-se em informações cientificas ultrapassadas, uma visão antiga do cosmos, mas isso não tira meu interesse da leitura nem por um minuto. Eu quero ler apenas uma história decente, personagens decentes e algo inteligente. Não estou interessado em FC Hard, como estive anos atrás, particularmente por que o campo mudou bastante. Inevitavelmente você começa a se perguntar o por que, o que esta acontecendo. Está acontecendo uma estranha união entre FC e Fantasia, as linhas divisórias estão se desfazendo. Isto parece ser interessante, não? Não importa se você é um leitor ou escritor, pode reparar no fim destas fronteiras. Como no livro de Melville, como eu posso saber se aquilo é FC ou Fantasia?

P: Você já tem um nome para a seu próximo livro?

A: Não, eu vou pensar em um nome. Esta é uma destas coisas que não planejo. Eu escrevo uma história e só então eu penso no nome. Eu poderia escrevê-la como parte de outra e então escrevo outra história, como parte de um universo próprio. Mas eu nunca penso mais do que uma ou duas histórias ao mesmo tempo.

P: Então os próximos 500 anos não estão planejados antes de você começar?



A: Eu não crio detalhes assim tão antecipadamente, sempre tenho que voltar atrás e fazer mudanças para acomodar certas coisas depois. As vezes por questões de vendas eu começo com um nome, mas acho que todo mundo entende, quando eu digo que é uma história que faz parte do mesmo universo de 'Revelation Space'. Alguns dizem que a série 'The Conjoiner' tem personagens que não aparecem como centrais em muitas historias e parece que estou apenas interessado em enrolar os leitores, e isto é uma coisa que eu tento evitar.

P: Eu estava procurando por nomes parecidos com 'Exordium' e acabei achando vários na internet, que no caso se tratava de uma sequência de cinco livros que outra pessoa escreveu.

A: Sim, é engraçado por que o titulo original para o livro era 'Exordium and Terminus', tirado de uma canção dos anos 60. Sempre pensei que 'Exordium' era um grande nome, mas o que significava? Fui olhar no dicionário e descobri que significava o início ou prólogo e pensei que estava perfeito para um experimento do tipo viagem no tempo ou algo assim. Então falei para meu editor que meu próximo livro se chamaria 'Exordium'. Mas ele disse que precisariamos de um nome com duas palavras, então eu falei, 'Exordium e Terminus'. Foi então que descobrimos outra série com o nome 'Exordium' e eu não poderia usá-lo.

P: Um dos prazeres de escrever é ser capaz de usar palavras, como 'Demarchist', e fazê-las suas, quando soam como um termo de FC.

A: Bem, 'Demarchist' não é minha, está no dicionário. É um termo politico - democracia e anarquia, é basicamente democracia participativa. A primeira vez que vi esta palavra foi no livro 'The outcasts of Heaven Belt' de Joan D.Vinge. Ela usa a cultura 'demarchist' como contraste à cultura encontrada na nave que penetra em um citurão de asteroides. É um grande livro! Tem só umas 100 páginas, mas teve muito efeito sobre mim.

P: Eu entendi que existe outro livro da série que está por vir.

A: O próximo, o número quatro, será ainda parte do mesmo universo futuro, mas minha intenção é que seja também completamente isolado, destacado do que ocorreu nos outros. O seguinte já não fará parte deste universo, será um romance completamente novo, já tenho algumas ideías pra onde eu pretendo ir. Depois disso eu não sei. Em algum ponto vai haver algum livro que volte até a história contada em 'Redemption Ark', depois de talvez 50 anos. Tenho algumas ideias sobre o que vai ocorrer, mas eu preciso de algum tempo antes de me dedicar a isso.
[Nota: Desde que falamos com Alaistair, ele mudou seus planos para o novo romance, agora ele sugere que possa concluir a história iniciada pelos 'inhibitors'.]
'Redemption Ark' parece para mim o meio da trilogia, como se carregasse o peso das ideias que desenvolvi em 'Chasm City', mas separado de 'Revelation Space'.

P: Um tema constante em seus livros são revelação e redenção.

A: Não analiso assim. 'Redemption Ark' era algo que já vinha me perseguindo por um longo tempo antes de eu me dedicar a ele. Isto pode parecer estranho mas acho que outros escritores fazem o mesmo - eles já sabem o que fazer a partir de alguns titulos. Eles acabam sendo úteis para o imaginário. Não me interessa a fórmula 'limpinha' dos personagens de space opera tradicional, que são ou bons ou ruins. Eu gosto da ideia de como se fosse um mecanismo, de personagens que tiveram um passado terrivel, atroz, e estão pagando por isso. É algo infinitamente interessante. Algo que vemos bastante na ficção policial, particularmente na ficção moderna, dos autores americanos mais barra pesada. Seus personagens estão longe de serem herois, quase sempre são sombrios e tem um passado violento, que ocasionalmente vem à tona. Estão sempre buscando um tipo de redenção pessoal, é algo que sempre me interessou.
Se você vai se aventurar a escrever uma space opera, por que não tentar trazer alguns temas que ocorrem sempre nos romances policias.

P: Você deve ter lido um pouco de romances policiais.

A: Leio toneladas deles - talvez não tanto quanto anos atras, talvez até eu tenha começado tarde. Não conheço muito dos novos escritores do gênero. Minha irmã me manda algumas recomendações, sobre romances policiais, e eu tento fazer um pacote com eles para ler durante as férias. Eu amo ficção policial. Acho que o gênero mexe com alguns tópicos que a FC também faz - ambas tem muito a dizer quando se trata de mistérios.

P: Mas quando os escritores tentam explicitamente misturar Policial e Ficção Científica, eles fracassam - talvez por que tudo pode acontecer em FC, enquanto o gênero policial precisa seguir algumas regras.

A: Acho que o bom romance de FC também deve obedecer alguns parâmetros. Estes parâmetros devem estar implicitos e o leitor deve estar conciente sobre eles. Quando voce está no meio de um romance de FC, você sabe que se o personagem estiver em perigo ele pode escapar se teleportando. O escritor deve estabelecer algumas regras para serem aplicadas ao universo proposto. Acho que se o escritor for bastante hábil, ele pode aplicar a mesma técnica para uma história policial. É obvio - tentar fazer duas coisas diferentes numa só - contar uma história convincente de FC e um mistério também convincente, é dificil. Eu tenho feito algumas tentativas, sem contar propriamente uma história de detetives, que é algo que eu ainda farei algum dia. Já tenho inclusive pensado nisso. Já tenho um detetive na minha cabeça, mas preciso pensar mais no crime agora, então tentar ver a coisa toda por diversos angulos, para que seja consistente, como fazer uma história agradável para o leitor e recheada de fatos. Acho que já consegui em outros livros, então sou capaz de fazê-lo de novo. O que me interessa em histórias policias é poder aplicar diversas técnicas. Estudar o modo que os escritores policias escrevem, como os escritores de FC também.

P: Seus livros parecem se utilizar de tudo que é possivel em termos de Ficção Científica, mas também parece querer justificar tudo que aparece nele.

A: É algo que parece ter surgido na FC britânica nos últimos anos, que nós podemos nos utilizar dos 'antigos brinquedos' pelo tempo que quisermos, desde que encontremos boas justificativas.
Alguns cenários de FC parecem plausíveis e outros não. Você pode perceber o cuidado que o autor teve ao pensar naquele cenário. Não é como jogar tudo num saco e depois ficar pensando como estas coisas podem interagir. Não posso dizer que sou meticuloso em detalhes, algumas coisas surgem quase organicamente, mas espero que também fique interessante para o leitor, da maneira em que eu escolho me aprofundar em algumas ideias. É algo que eu gosto no trabalho de outros autores, quando você percebe aquele ponto quanto tudo se torna bem elaborado e interessante. É excitante, como ocorre nos livros de Ian Banks. Eu não gostei tanto das primeiras space operas dele, realmente não gostei de 'Consider Phlebas', mas três ou quatro delas são boas. Na medida que o autor se sente mais à vontade com o universo que criou, ele é capaz de escrever coisas mais interessantes. Eu acho. É claro que também acontece do autor ficar desinteressado e procurar outra coisa para fazer. Também não pretendo passar todo o resto da minha carreira com o mesmo universo.
Existem certos parâmetros com os quais eu quero trabalhar. Tenho muito interesse em tudo sobre viagem espacial e colonização do universo, de um ponto de vista filosófico. O que significará para nós, seremos capazes de manter nossas caracteristicas humanas ou teremos que mudar, nos adaptar? São perguntas que eu sempre me pego pensando sobre nosso destino no universo. Acho que devemos perseguir nossas obsessões, como escritores. porque vai acabar resultando em um material melhor, mais interessante. Se isto se tornar fora de moda, eu não me importo, por que é o que me interessa fazer.

P: E quanto aos nomes em seus livros...

A: A maior parte das minhas naves tem o nome retirado de pinturas surrealistas e coisas assim. Deixo como um exercício para o leitor o significado e de onde vieram. Tenho muito problemas com nomes, de personagens e naves. Odeio quando a ideia está fluindo e derrepente tenho que colocar um nome de um personagem e vem um bloqueio e passo duas horas tentando encontrar o nome certo, dou uma caminhada e bebo uma xicara de chá. É o mesmo com nome de espaçonaves - constantemente estou mudando o nome. As vezes o nome certo vem de primeira.

P: Como criou a lingua 'canasian' ?

A: É uma combinação de chinês com o francês do Canada. Não me peça pra falar como ela surgiu ou como soa... É como os romances de Paul McAuley passados no Brasil do futuro, não faz muito sentido. Nunca se sabe. Daqui a duzentos anos, muita coisa pode acontecer.

P: Você tem se concentrado mais em contos ou o próximo romance já tem data pra começar?

A: Tem data sim. Vou começar a escrever no fim do verão.

(Entrevistado por Duncan Lawie em 2004.)