terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Eldest - Christopher Paolini


“O canto dos mortos é o lamento dos vivos.”
Pensou Eragon enquanto passava por cima do corpo retorcido e despedaçado de um Urgal. O rosto destroçado do monstro o olhava com receio enquanto Eragon escutava os lamentos das mulheres que retiravam seus entes queridos do chão de Farthen Dür, enlameado pelo sangue. Depois dele, Saphira cobriu com delicadeza o cadáver. A única cor que brilhava na penumbra da montanha oca procedia de suas escamas azuis.

Tinham se passado já três dias desde que os varden e os anões se enfrentaram com urgals pela posse de Tronjheim, a cidade da montanha, mas a matança seguia esparramada pelo campo de batalha. A quantidade de cadáveres tinha frustrado a intenção de enterrar os mortos. Ao longe, uma pira de fogo emitia um lúgubre brilho junto ao muro de Farthen Dür, onde se queimavam os urgals. Não haveria enterro nem lugar honroso de descanso para eles.

Ao despertar, Eragon tinha descoberto que Angela tinha curado suas feridas, e tinha tentado por três vezes colaborar nas tarefas de recuperação. Em cada ocasião o tinham atacado terríveis dores que pareciam estalar em sua coluna, e os curadores lhe tinham proporcionado diversas poções. Arya e Angela lhe disseram que estava perfeitamente são, mesmo assim, doía-lhe. Saphira tampouco podia ajudar, quase não conseguia compartilhar sua dor quando esta percorria o elo mental que os unia.

Eragon passou uma mão pelo rosto e elevou o olhar às estrelas que apareciam pela cúpula de Farthen Dür, esfumadas pela fumaça suja de fuligem da pira.

Três dias. Três dias desde que matara Durza, três dias desde que começassem a chamá-lo o
Assassino da Sombra, três dias desde que os restos do bruxo arrasassem sua mente e o misterioso Togira Ikonoka o salvasse, o Aleijado que está ileso. Só tinha falado disso com a Saphira. Lutar contra Durza e os espíritos escuros que o controlavam tinha transformado a
Eragon, mas ele ainda não sabia com certeza se para bem ou para mau. Sentia-se frágil, como se qualquer golpe repentino pudesse fazer seu corpo e sua consciência em pedacinhos, recém reconstruídos.

Agora tinha ido ao lugar do combate, impulsionado por um mórbido desejo de ver as seqüelas. Ao chegar, não tinha encontrado mais que a incômoda presença da morte e a decomposição, nada da glória que tinha aprendido a esperar pelas canções heróicas.

Antes que os ra'zac assassinassem seu tio Garrow, a brutalidade que Eragon tinha presenciado entre humanos, anões e urgals o havia destroçado. Agora, aturdia-o.

Tinha aprendido, com a ajuda da Saphira, que a única maneira de conservar a racionalidade enquanto persistisse a dor consistia em fazer algo. Além disso, entretanto, já não acreditava que a vida possuísse nenhum sentido inerente, não depois de ver os homens rasgados pelos kull, o solo transformado em um leito de corpos desmembrados e tanto sangue derramado que até empapava suas botas. Se havia alguma honra na guerra, concluiu, só consistia em lutar por evitar o dano alheio.

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