quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Minority report - A nova Lei - Philip K.Dick

O PRIMEIRO PENSAMENTO que ocorreu a Anderton quando viu o rapaz foi: estou ficando careca. Careca, gordo e velho. Mas não disse isso em voz alta. Pelo contrário, afastou a cadeira, pôs-se de pé, e deu a volta na mesa, com a mão direita firmemente estendida. Sorrindo com uma amabilidade forçada, apertou as mãos do rapaz.
— Witwer? — perguntou, conseguindo soar simpático.
— Isso mesmo — respondeu o rapaz. — Mas Ed para você, é claro. Quer dizer, se partilhar da minha aversão pela formalidade desnecessária. — A expressão em seu rosto louro, francamente confiante, mostrava que considerava o assunto encerrado. Seriam Ed e John: tudo seria agradavelmente cooperativo desde o começo.
— Teve dificuldades em encontrar o edifício? — perguntou Anderton reservadamente, ignorando a apresentação excessivamente amigável. Cristo, ele tinha de se segurar em alguma coisa. O medo abalou-o, e começou a transpirar. Witwer andava pelo escritório como se já fosse o seu dono — como se estivesse medin¬do o seu tamanho. Será que não podia esperar alguns dias, um intervalo decente?
— Nenhuma — respondeu Witwer com júbilo, as mãos nos bolsos. Com ansiedade, examinou os arquivos volumosos que ocupavam a parede. — Não estou vindo no escuro à sua agência, você sabe. Tenho algumas idéias pessoais sobre como a Precrime é dirigida.
Nervoso, Anderton acendeu seu cachimbo.
— Como é dirigida? Eu gostaria de saber.
— Nada mal — disse Witwer. — Na verdade, muito bem. Anderton olhou-o fixamente.
— É a sua opinião particular? Ou simplesmente um jargão? - Witwer encarou-o francamente.
— Particular e pública. O Senado está satisfeito com o seu trabalho. De fato, estão entusiasmados — acrescentou ele. — Tão entusiasmados quanto homens muito velhos podem ficar.
Anderton estremeceu, mas, externamente, permaneceu impassível. No entanto, custou-lhe um esforço. Perguntou a si mesmo o que Witwer realmente achava. O que se passava, de fato, naquela cabeça com o cabelo à escovinha. Os olhos do rapaz eram azuis, brilhantes — e perturbadoramente inteligentes. Witwer não era nenhum bobo. E, obviamente, tinha um bocado de ambição.
— Pelo que entendi — disse Anderton com cautela —, você será o meu assistente até eu me aposentar.
— Foi o que eu entendi também — replicou o outro sem hesitar nem por um instante.
— O que pode acontecer este ano ou no próximo. Ou daqui a dez anos. — O cachimbo na mão de Anderton tremia. — Não estou sendo pressionado a me aposentar. Fundei a Precrime e vou permanecer aqui o tempo que quiser. É uma decisão minha, exclusivamente.
Witwer anuiu com a cabeça, a expressão ainda franca.
— É claro.
Com esforço, Anderton acalmou-se um pouco.
— Só quis deixar as coisas claras.
— Desde o começo — concordou Witwer. —Você é o chefe. Você manda. — Demonstrando sinceridade, perguntou: — Importa-se de me mostrar a organização? Gostaria de me familiarizar com a rotina o quanto antes.
Ao passarem pelas salas cheias e sobrecarregadas de trabalho, com a sua iluminação amarelada, Anderton disse:
— Você está a par da teoria da prevenção do crime, é claro. Suponho que isto seja ponto pacífico.
— A informação que tenho é a que está disponível publicamente — replicou Witwer. — Com a ajuda de seus mutantes precognitivos, você conseguiu, audaciosamente, abolir o sistema punitivo pós-crime de cadeias e multas. Como todos sabemos, a punição nunca foi um grande impedimento, e provavelmente nunca ofereceu conforto à vítima já morta.
Tinham chegado ao elevador. Enquanto este os levava rapidamente para baixo, Anderton disse:
— Deve ter percebido o inconveniente legal básico da metodologia pré-crime. Prendemos indivíduos que nunca infringiram a lei.
— Mas que certamente infringirão — afirmou Witwer com convicção.
— Felizmente, não. Nós os pegamos primeiro, antes que cometam qualquer ato de violência. Desse modo a comissão do crime, em si mesma, é uma metafísica absoluta. Alegamos que são culpados. Eles, por sua vez, afirmam eternamente ser inocentes. E, de certa maneira, são inocentes.

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