sábado, 7 de fevereiro de 2009

O mundo submerso - J.G.Ballard


(...Além de poucos homens como Bodkin, não havia ninguém que ainda se lembrasse de como
era viver nas cidades e mesmo na infância de Bodkin elas já haviam se transformado em
cidadelas protegidas por enormes diques, pouco a pouco sendo desintegradas pelo pânico,
pelo desespero, relutantes Venezas em se casar com o mar. Seu charme e beleza residiam
precisamente em seu vazio, uma estranha junção de extremos da natureza, como uma coroa de
ouro abandonada e coberta de orquídeas selvagens.

A sucessão dos cataclismas geofísicos que transformaram o clima da Terra havia se iniciado
sessenta ou setenta anos antes. Uma série de violentas e prolongadas tempestades solares
durante anos causou uma instabilidade solar que acabou por expandir o cinturão de Van
Allen, diminuindo o campo gravitacional e enfraquecendo as camadas da ionosfera. Assim
que elas se foram, cessando de agir como uma barreira contra o impacto direto da radiação
solar, as temperaturas começaram a subir e o calor atmosférico se expandiu até os limites da
ionosfera, fechando o ciclo.

Pelo mundo todo, as temperaturas começaram a subir alguns poucos graus a cada ano.
A maioria das áreas tropicais rapidamente se tornou inabitável; populações inteiras migraram
para o norte ou para o sul, fugindo de temperaturas que chegavam a sessenta graus. Uma vez
que as áreas temperadas se tornaram tropicais, Europa e a América do Norte foram lavadas
por contínuas ondas de calor, raramente abaixo de trinta e cinco graus. Sob a direção das
Nações Unidas, a colonização do platô Antártico se iniciou, assim como das bordas ao norte
da Rússia e do Canadá.

Neste período inicial de vinte anos, o gradual ajuste das formas de vida ao clima alterado se
fez notar. Era inevitável preservar o tempo escasso, e pouca energia podia ser despendida para
conter o avanço das florestas na região equatorial.

Não apenas houve um crescimento acelerado de todas as formas de plantas, mas com o
aumento dos níveis de radiação, a taxa de mutação natural cresceu como nunca antes.

As primeiras aberrações botânicas surgiram na forma de gigantescas árvores do período
Carbonífero e houve uma drástica aparição de todo tipo de plantas rasteiras e de novos
animais.

A chegada desses parentes remotos foi praticamente relegada devido ao acontecimento de
uma segunda catástrofe. O aquecimento contínuo da atmosfera acabou por derreter os mantos
polares. A penetração destes mares antes congelados da Antártica dissolveu dezenas de
centenas de glaciários junto ao círculo antártico, da Groelândia ao norte da Europa, Rússia e
América do Norte lançando ao mar milhões de acres de permafrost liquefeitos em gigantescos
rios.

Mais do que alguns poucos metros, a subida do nível global das águas subitamente se tornou
avassaladora, carregando bilhões de toneladas de sedimentos. Imensos deltas surgiram
abrindo continentes de uma costa a outra, ligando oceanos. Os mares que antes ocupavam
dois terços da superfície do planeta passaram a tomar mais da metade.

Levando consigo o solo agora submerso, os novos oceanos redefiniram completamente o
formato e os contornos dos continentes sobreviventes. O mediterrâneo contraiu-se num
sistema de ilhas, as ilhas britânicas estavam novamente ligadas ao norte da França. O meio
oeste da América do Norte foi dividido pelo novo Mississipi até as Rochosas, formando um
enorme golfo que começava na baía de Hudson, enquanto o mar do Caribe virou um deserto
plano de sal. A Europa se tornou um sistema de gigantescas lagoas, concentrado
principalmente nas cidades mais baixas, niveladas pela inundação de sedimentos carregados
pelos rios que se expandiam.

Durante os trinta anos seguintes, a migração das populações do planeta em direção aos pólos
continuou. Poucas cidades fortificaram-se o bastante para poder resistir à subida do nível das
águas e o crescimento das florestas, com a construção de engenhosas paredes de contenção do
oceano ao redor de seus perímetros, porém uma por uma elas foram derrotadas. Somente nos
antigos círculos árticos e antárticos a vida ainda era tolerável. A incidência oblíqua dos raios
solares provinha de uma barreira contra a poderosa radiação. As cidades mais altas e situadas
em áreas montanhosas na linha do Equador tiveram que ser abandonadas, apesar de suas
temperaturas mais frias, devido à diminuição da proteção atmosférica.

Este último fator acabou sendo determinante para solucionar o problema do reassentamento
das populações migrantes naquela Nova Terra.

Com o declínio da fertilidade dos mamíferos e o crescimento acentuado de anfíbios e répteis,
mais adaptados ao cenário aquático da lagoas e pântanos, houve a inversão do balanço
ecológico. Na época do nascimento de Kerans em Campo Byrd, uma cidade de dez mil
pessoas na Groelândia do norte, foi estimado que pouco mais de cinco milhões de pessoas
estavam vivendo nos pólos.

O nascimento de uma criança havia se tornado algo raro, praticamente ocorrendo em apenas
um em cada dez casamentos.

Como se lembrava Kerans ocasionalmente, a árvore genealógica da raça humana podava a si
mesma de tempos em tempos, aparentemente movendo-se para trás no tempo, chegando a um
ponto onde novos Adão e Eva se encontrariam sozinhos no Éden...)

O mundo submerso - J.G.Ballard [ Download ]