sexta-feira, 27 de março de 2009

A literatura de ficção científica questiona a ciência e sua ética


No século XIX, o desenvolvimento material resultante da aplicação de descobertas científicas a diversas instâncias da vida humana trouxe consigo inúm eras novidades e expectativas. O avanço tecnológico fazia com que m uitas previsões futuristas, que se acumulavam desde o renascimento, passassem a fazer parte do quotidiano das grandes cidades. (Booker, 1994). É, portanto, natural que esta época tenha testemunhado o nascimento do gênero literário que ficou mais tarde conhecido como ficção científica (FC). Afinal, como definiu Isaac Asimov, a FC é “ o ramo da literatura que trata das respostas do homem às mudanças ocorridas ao nível da ciência e da tecnologia” (Asimov, 1984, p. 46)

Até bem pouco tempo, a FC era vista freqüentemente como uma literatura de segunda categoria, provedora de diversão barata e escapista. Nos anos 70 surgiram os primeiros estudos que a reabilitavam, como o de Scholes, que defendendo a literatura cujo imaginário se projeta no futuro, afirma que ela é extr emamente relevante não só quando aler ta sobre a conseqüência de ações ainda não realizadas, mas quando “nos faz sentir essas conseqüências, em nossos corações e nossas vísceras” (Scholes, 1975, p.16). O olhar positivo sobre esse gênero literário tem perdurado e, bem mais recentemente, Moylan argumenta que “o famoso ‘escapismo’ atribuído à ficção científica não implica necessariamente numa fuga da realidade que aliena, mas também pode levar a um “escape que fortalece e que faz refletir, a uma maneira muito diferente de pensar o mundo, e possivelmente de se situar no mundo” (Moylan, 2000,p.5). A pausa para pensar um lugar no mundo envolve o questionamento do papel das instituições na sociedade, entre as quais está a ciência, sendo esse um dos temas mais recorrentes na FC.

Neste ponto, gostaríamos de parar para pensar na imbricação entre a ficção, com esse papel de questionamento, e o campo da divulgação científica, que se expandiu extraordinar iamente, assim como esse gênero literár io que aqui tratamos, a partir do início do século XX.

A literatura de ficção científica questiona a ciência e sua ética em A Lição de Prático, de Maurício Luz, e Oryx e Crake, de Margaret Atwood. Lucia de La Rocque & Claudia Kamel [ Download ]