terça-feira, 21 de abril de 2009

Conselhos para escrever Ficção Científica - Bruce Sterling


De certo que nada posso ensinar sobre escrever Ficção Cientifica(FC), ainda que muitas vezes tentamos.

Escrever ficção é uma atividade acumulativa, pelo hábito de escrever se vai dominando as técnicas narrativas e se obtêm melhores resultados.

Existem aqueles especialmente dotados que de forma natural e espontânea são capazes de escrever muito bem desde o primeiro instante. São pouquíssimos, a maioria dos escritores passam por muitas dificuldades até conseguir resolver os diversos problemas que abrangem o oficio de escrever e entreter os leitores.

Apesar disso, recentemente temos visto surgir um grande número de livros, cursos e artigos que se prepõe a ensinar, e que na realidade podem evitar que a pessoa perca tempo em suas primeiras tentativas.

Trata-se, no entanto de dar ao escritor iniciante, a possibilidade de conhecer alguns dos métodos utilizados por escritores de maior experiência. Mas não se tratam de receitas seguras.
É necessário escrever e se por a prova, mais uma vez tentar e ainda voltar a fazê-lo.
Porém, esta é uma daquelas vezes em que dar conselhos resulta num risco e agora que me pretendo a tal coisa, me recordo da famosa frase atribuída a Napoleão:
"Não me dêem conselhos, pois já sou capaz de me equivocar sozinho".

Outra advertência antes de começar. Pretendo falar sobre narrativa tradicional.

Na FC existem outras formas, como a experimental, porém não a recomendo para um escritor no inicio de carreira.

Um editor de FC italiano, me disse alguns anos atrás que a maioria dos jovens autores italianos que o procuravam, definiam suas primeiras histórias como sendo 'a novela definitiva de sua vida', aquela que haviam sido bem sucedidas em incorporar toda a mensagem temática e estilística que foi pretendida.
Não é este o ponto de vista que pretendo discutir.
Meu enfoque aqui tem mais relação com a narração bem entendida como um ofício e não como arte.

Os ofícios podem ser aprendidos enquanto que para a arte são imprescindíveis outras qualidades especiais e não somente a habilidade.Por isto, creio não ser possível ensinar-las.

Na literatura existem obras que são de arte e outras não. Se seu objetivo é escrever obras de arte, nada posso ensinar, apenas você pode ter êxito em expressar o que lhe passa internamente.

Então aqueles com pretensão artística não devem continuar lendo. Mas se o que pretende é entreter e interessar aos leitores (o que não é pouca coisa) talvez possa seguir lendo o que tenho a dizer.

Na realidade ainda que tentemos generalizar e fazer piada, escrever best-sellers é uma habilidade que se pode aprender, ainda que um fator importante é que quase sempre precisamos de um editor que aceite fazer de sua obra um best-seller... ainda que ele só o aceitará fazê-lo, se esta satisfizer alguns requisitos mínimos.

Mas comecemos.

É imprescindível saber captar e manter a atenção do leitor.

Se você é uma daquelas pessoas que sabem contar uma piada ou que quando falam sobre um filme aos amigos é capaz de fazer com que estes sintam estar vendo as imagens, então tudo está bem para você. Se é assim com você, significa que você é capaz de explicar a história e é do que se trata escrever narrativas, como no caso da FC que tratamos aqui.

Se você não é um 'narrador natural', existem quatro ou cinco coisas que pode aprender e é isto que eu vou tentar lhe mostrar a partir de agora.

A primeira coisa que deve ter em conta, ainda mais nos tempos modernos, é que apesar de você querer ser um escritor, vai encontrar pela frente pessoas que não vão estar interessadas no que você escreve. Devemos lembrar sempre que o leitor está cercado de outras atividades recreativas, como a televisão, o cinema, os jogos, esportes, artes, etc.

Se o leitor for utilizar seu precioso tempo para ler sua história, deve ser algo que vai ser recompensador, afinal trocar seu tempo pela leitura.

Os elementos narrativos.
Se pode interessar ao leitor descrevendo um ambiente novo e surpreendente, uma nova sociedade, uma tecnologia diferente, alguns seres fascinantes, roupas estranhas, etc.
Na Ficção Científica este é um elemento com muitas e ricas possibilidades, e na realidade o chamado 'sense of wonder' que se aponta como característico do gênero, reside nesta 'ambientação' que os americanos chamam de 'background' (pano de fundo).

Também se pode captar o interesse do leitor com a idéia central da história.

As vezes a idéia reside precisamente nesta ambientação, em que transcorre a narrativa, e se a FC é realmente uma literatura de idéias, como dizem alguns, muitas vezes tudo começa a partir de uma idéia.

Vejamos um exemplo famoso: O que ocorreria se o sexo de uma pessoa não fosse estável, se durante a vida de uma pessoa, ela pudesse ser tanto homem quanto mulher? Uma resposta a isso podemos encontrar em 'The left hand of darkness' ('A mão esquerda da Escuridão') de Ursula K. Le Guin, uma história clássica de Ficção Cientifica.

Na Ficção Cientifica, a principio (ainda que não sempre) é a idéia o motor principal da narrativa, ou em todo caso, da vontade do escritor em contar a história.

Outra possibilidade de atrair o leitor é através dos personagens.
Podem ser tanto atrativos quanto repulsivos, mas em qualquer um dos casos, não devem deixar o leitor indiferente. Por exemplo, os vilões: JR de Dallas era suficientemente malvado para interessar aos espectadores, como também por outras razões, são os heróis. Os leitores vão se identificar com o personagem e este é o meio mais antigo e mais seguro de atrair o interesse do leitor.
Para tal, os personagens devem reagir como faria um ser humano, com seu conhecimento, seu caráter, como o escritor imagina que ele deve ser.
E o mais importante de tudo, o personagem principal ou protagonista, deve mudar em conseqüência daquilo que ocorre. Todos sabemos que a vida nos faz mudar, as vezes pouco ou muito, e não seria verossímil que este personagem importante passasse por desventuras sem 'evoluir'.

Na prática, muitas histórias de FC tem pouco ou quase nenhum prestigio literário ou narrativo devido a personagens que são caricatos e não reagem como se pode esperar logicamente como conseqüência do que lhes ocorre. Pense por exemplo nos personagens de Han Solo de Star Wars ou James T Kirk de Star Trek ou ainda com Harrison Ford, o aventureiro arqueólogo Indiana Jones. Para eles, a aventura não significa nada, pois são sempre os mesmos. Procure evitá-los.

Mesmo assim, as vezes criamos personagens que não evoluem, com toda certeza por que a trama da história resulta em ser tão interessante que é o bastante pata prender a atenção do leitor/espectador. As aventuras de Indiana Jones ou de James Kirk são por si só eficientes para manter o espectador preso a ela.

Aqui vai então outro conselho: Nunca conte tudo.

Deixe que o leitor fique intrigado por algo que o motive a virar uma página após a outra. Qual os vilões tradicionais, que vão amarrando aos poucos seus argumentos. Ainda que torne a trama mais complexa, devemos ser capazes de juntar todas as pontas de forma que o leitor não se sinta enganado ao fim. Nunca duvide do poder de um mistério, ele é praticamente imprescindível.

Imagine a pobreza temática de uma saga como Star Wars sem a 'força'!

Para mantermos uma trama eficiente, precisamos de conflitos.
Os personagens devem passar por problemas, e a narrativa deve explorar como eles fizeram para solucioná-los ou como fracassaram.
Os problemas ou conflitos, devem ser grandes (o centro da história) e pequenos (que dão vida e mantêm a ação em movimento). É conveniente que haja um grande clímax que solucione a história, mas devem também ocorrer outros pequenos climaxes que resolvam os conflitos menores e preparem o caminho para o final.
É claro que tudo isto depende do tamanho da história e como disse, não existem receitas únicas.
Em todo caso, é conveniente destacar aqui que personagens distintos devem resolver de forma diferente os mesmos problemas, ou melhor, para personagens diferentes, o mesmo fato deve gerar conflitos distintos.


Um breve resumo.
Já temos cinco elementos que podem manter o leitor interessado em nossa história.
Há outros além destes, mas estes são os principais na maior parte das vezes.
É lógico que em cada narrativa, um pode se sobressair em relação ao outro.
Nas histórias de aventura, são os conflitos, a trama e os perigos que enfrentam os personagens são o aspecto dominante. Em contos curtos, a idéia é tudo.

Nas narrativas mais longas é possível se organizar histórias centrais, cercada por outras menores, que a complementam, cuidando sempre para que estas não sejam gratuitas e tenham fácil e compreensível relacionamento com o eixo principal.

Para sintetizar, poderia dizer que:
A trama é o que se sucede, o conflito é a razão final do que se sucede, o motor da trama, o pano de fundo é a circunstância ou o lugar onde ocorre a trama e os personagens são aqueles aos quais as coisas acontecem e que desejam solucionar os problemas e que acabam mudando em conseqüência disso.

A idéia, se existe explicita como elemento central, é o que move o escritor, porém, isto é muito importante, deve ser mostrada de forma indireta por meio dos elementos discutidos anteriormente.

Convém lembrar que é imprescindível ter a atenção do leitor enquanto este está lendo e também depois de terminar a leitura. O leitor deve poder pensar que o tempo gasto na leitura foi bem usado. Deve pensar que se tratou de um bom entretenimento e inconscientemente também propor uma reflexão a partir da idéia apresentada e da sua especulação. Deve sentir-se maravilhado e satisfeito pelo que encontrou ao ler, para que possivelmente o personagem principal, por algum tempo permaneça em sua memória.

Inventando histórias.
Parece que o principal problema para os jovens escritores é encontrar uma boa história.
Muitos autores de livros e palestrantes em cursos se vêem constantemente diante da pergunta:
'De onde os escritores tiram suas histórias?'

Novamente não há uma receita fácil nem única.

Graham Greene fala sobre a necessidade um bom narrador ser também um bom observador e creio que isto também vale para escritores de FC.

Exagerar alguma característica social, tecnológica ou econômica observável, colocar um personagem em um ambiente exótico, ou em uma situação imprevista, inventar o que ocorreria se...etc.

Os caminhos para se encontrar uma história são os mais variados e sempre podemos encontrar novos caminhos.

De fato, devido a anos e anos de Ficção Cientifica, a maior parte das histórias que se podem inventar, muito provavelmente já foram exploradas.

Orson Scott Card, aconselha que não devemos nos preocupar com isso. É difícil ter idéias verdadeiramente novas e que não tenham sido exploradas. Porém, mesmo que repita uma história (é óbvio, evitando sempre o plágio) pode se dar um enfoque diferente, um ponto de vista novo.

Pensemos no exemplo de 'AVISO' de Cristobal Garcia, que ganhou um prêmio UPCF em 1993.
A história que nos narra Cristobal, possivelmente não é nova, porém a escolha da forma narrativa se tornou interessante. As vezes quando se carece de novas idéias, podemos praticar sobre um conto velho, ou algo que foi lido algum tempo atrás e que nos recordamos.
Sem o reler, tão somente através da nossa lembrança, podemos escrever uma nova versão e depois disso, comparar ao conto original, e reparar nas diferenças.
É um bom exercício!

Como a memória é sempre seletiva, pode ocorrer de o novo conto resultar em algo totalmente diferente do original e bastante razoável para utilizarmos.

Robert A. Heinlen, um dos escritores mais admirados nos EUA, costuma chamar atenção de três temas centrais nas histórias.
Homem encontra mulher, uma história de amor ou de uma busca e do seu fracasso.As variações são infinitas. O mocinho valente ou o contrário. O personagem que evolui, aprende. A história de alguém que pensa de uma maneira ao iniciar a narração e por conseqüência dos conflitos, muda sua forma de pensar.

É claro que são muitas as variáveis, mas se Heinlein conseguiu construir uma carreira de êxito com isso, talvez você também possa. Lembre que Heinlein foi o primeiro que conseguiu viver de sua profissão, como escritor de Ficção Cientifica. Em nosso país, por enquanto isto não é possível, mas talvez quem sabe no futuro?
Alguém deveria começar a tentar.

Um caminho para construir histórias.
Para concluir uma compilação de conselhos, da minha maneira resumida, a partir das dicas passadas pelos editores da revista Asimov Science Fiction, e que me parece bastante razoável.

Comece com uma idéia.

Leve esta idéia para a vida, através de um conflito. Utilize o personagem que possa melhor 'dramatizá-la', e faça com que este seja afetado pelos eventos que vão se suceder.

Estabeleça uma seqüência de fatos, uma trama, que pode mostrar os passos principais através dos quais os seus personagens detectam o problema ou os problemas, buscam as soluções possíveis e procuram levar a pratica estas soluções.

Prepare uma ambientação para envolver tudo que vai se suceder na história. Faça que seja razoável, Não é necessário que a explique detalhadamente mas também, como um futuro escritor, deve ter tudo muito claro em sua imaginação.

Se for possível, inicie a história da metade, já apresentando o conflito, de modo a atrair o leitor.
Na maioria dos casos, o escritor deve ter domínio sobre a estrutura geral da trama, inicio , meio e fim, segundo estabelece a tradição clássica, mas nada o obriga a manter uma narrativa linear.

Busque um bom ponto de vista para explicar a história (convêm dizer que esta é uma tarefa bastante complexa, e que merecia um tratamento a parte para o qual não é possível no momento.)

Mas, vamos deixar de teorias...escreva!

Advertência Final. Tudo isto deve resultar evidentemente insuficiente para se escrever profissionalmente, mas não para se começar!

Talvez fosse interessante estudar alguns contos, analise-os como foram feitos e encare como exercício, reconhecer nele os elementos que discutimos, identificar os conflitos (principais e secundários), analisar a trama, localizar o ponto de vista sob o qual está sendo narrado, veja como os personagens sofrem mudanças, estude a harmonia do ambiente criado e identifique a idéia central.

A maioria dos cursos de literatura nos faz realizar estas abordagens, as vezes com mais ou menos teoria.

A prática é em definitivo, a única que encerra a verdade.

Comece analisando como se faz porém pratique você também.

O caminho não é curto, mas vale a pena.



Conselhos para escrever FC - Bruce Sterling (da versão de Miguel Carqueija)