quinta-feira, 2 de abril de 2009

O Regresso de Tarzan - Edgar Rice Burroughs

Tarzan, que quer dizer macaco branco, criado por E. R. B. num dos seus sonhos - ele não transportou para a sua literatura a sua experiência de vida, que era vasta e profunda - procurava apenas ser uma coisa diferente, como coisas diferentes seriam as aventuras que ERB escreveu com John Carter sobre Marte. ERB trazia no espírito as leituras de Júlio Verne, o insólito prendia-o e fascinava-o. Por isso Tarzan foi um herói refeito diversas vezes.

O seu primeiro romance fechava o ciclo da vida: ali começava e acabava. Mas o êxito fê-lo regressar à escrita. E então ERB procurou dar-lhe uma formação inglesa, tentando enquadrá-lo dentro do absurdo homem selvagem, aristocrata inglês -, o mesmo é dizer, de um pólo ao outro da civilização.

Mas logo se cansou disso, e nos romances seguintes, a partir do quarto, ele encontraria de novo o Tarzan das primeiras páginas e, quase libertando-o da mulher e do filho - Jane é esquecida na maioria dos seus livros -, faz dele o homem que rompe barreiras com a civilização padrão para se consagrar à vida natural, àquela que se lhe dá pouco quanto a conforto, dá-lhe muito quanto a soluções de personalidade e luta, que é aqui onde o homem tem de encontrar-se.

Por isso mesmo Tarzan é um herói que encontrou justificativa sobretudo em duas épocas: em 1929 quando da depressão econômica da América do Norte - foi em 1929 que ele surgiu pela primeira vez em banda desenhada pela mão de Hal Foster e agora, nesta segunda metade do século em que vivemos, onde o tecnicismo impera já a níveis de invadir o espírito humano, e sujeitá-lo à máquina.

Resultado? Num período de tão grande avanço técnico, onde a nossa atual civilização quase se engalfinha em proporcionar ao ser humano conforto sobre todos os pontos de vista, distrações nunca sonhadas (e cômodas), requintes a todos os níveis que ele faz na sua grande maioria?
Pois bem, consultem-se as estatísticas, e se verificará que nunca como agora se praticou tanto campismo nem tanto caravanismo, nem se desfrutou de tantos fins-de-semana.
Isto sem contar com as legiões que se limitam a refugiar, por impossibilidade do tempo, um dia que seja no pinhal ou no campo!
Porquê? A técnica, em que todos vivemos, dentro de casa, cá fora, no emprego, e mais tarde que vimos na televisão, no cinema e nos jornais, provoca uma espécie de intoxicação que leva o
homem tentando reencontrar-se na verdade pura da sua essência.

Então, perante tanta máquina que o envolve e o controla, passar o tempo em contacto com a natureza é como o sinônimo da libertação, que ele sente que o dignifica.

Aqui volta a surgir Tarzan, como símbolo, pois ele é o homem que tendo sido criado na selva, conhece um dia a civilização e, por a conhecer, compreende que só voltando à vida natural pode encontrar aquela felicidade a que se julga com direito.

Tarzan aparece, desta maneira, como resposta a todos aqueles que, encafuados nas cidades, aproveitam todos os momentos de se livrarem dela. E retoma o êxito que alcançou em 1929 quando a depressão trouxera aos homens consciência de que viver bem não é viver opulentamente, mas viver de acordo consigo próprio. - Nota de R. P.

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