sábado, 16 de maio de 2009

Descanse em paz ciberpunk - Paul Saffo


Como um cometa iluminado pelo sol em sua trajetória no espaço profundo, o movimento ciberpunk desapareceu tão rápido como surgiu.

Além disso, foi pouco mais substancial do que a cauda de um cometa quando analisamos os números - nunca houve mais do que 100 seguidores antes do termo chegar na grande imprensa.

Mas não podemos dizer que o impacto social foi pequeno, apesar de insubstanciais, os cometas sempre serviram como mensageiros.

Suspeito que os ciberpunks foram para os anos 90 o que os beatniks foram para os 60 - arautos de um movimento de massa que estava por vir. Assim como os beatniks anteciparam os hippies, ciberpunks são o estágio inicial de uma contracultura digital por vir e que terá os anos 90 como seu início.

Paralelos entre estes dois movimentos, oferecem dicas do que está à caminho.
Para começar, ambos tiveram seu foco na literatura. Os beatniks tiveram seus escritores-beat (Jack Kerouac, Alan Ginsberg, Gregory Corso e William S. Burroughs), enquanto os ciberpunks encontraram suas identidades no gênero de ficção cientifica através de escritores como William Gibson, Rudy Rucker, Bruce Sterling e John Shirley Alem disso, das suas obras principais, surgiram as infra-estruturais do movimento; ON THE ROAD de Kerouac tomava o rumo das estradas interestaduais enquanto NEUROMANCER de Gibson mostrava um mundo futuro através das estradas da informação.

Mesmo os leitores mais atentos nunca se deram conta de que seus escritores não viviam suas obras: Kerouac detestava dirigir e Gibson escreveu NEUROMANCER em uma máquina de escrever Hermes, de 1927.

Assim como os ciberpunks, nunca houve mais do que alguns poucos verdadeiros beatniks - talvez 120, antes do movimento ganhar a mídia no final dos anos 50, de acordo com o ensaísta George Leonard. A palavra chegou às festas regadas a vinho e dos almofadões, e como nas raves, tomaram os eventos quase-comerciais do underground.

Assim como os ciberpunks levaram suas identidades da rede para o mundo físico, os beatniks tinham seus nomes. "Todos tinham um apelido, como num romance de Damon Runyon" observa Leonard. Ironicamente, seus membros não foram responsáveis por dar nome ao próprio movimento, assim como os ciberpunks foram batizados por alguém de fora (o editor Dozois), o termo 'beatnik' foi cunhado pelo colunista do San Francisco Chronicle, Herb Caen.

Uma vez batizados e rendidos, ambos movimentos entregaram seus arquétipos visuais à cultura de massa. Em 1960, jovens de todo o mundo deixavam crescer as barbas, adotando a aparência dos beatniks, enquanto hoje os 'Homens de preto', com seu estilo de vida repletos de engenhocas eletrônicas, são numerosos. Esta rendição iria mandar ambos os movimentos para o buraco negro na historia, mas não sem antes de inspirar maiores movimentos vindouros.

Após o surgimento dos beatniks, os hippies surgiram para mudar o panorama cultural para sempre. Como os ciberpunks, os beatniks foram na maior parte contidos lobos solitários.

O individualismo beatnik era uma reação ao materialismo otimista do homem-empresa da era Eisenhower, assim como os ciberpunks se caracterizam como um contraste à ordem industrial-militar anti-séptica dos anos Reagan-Bush.

Kerouac mais tarde concluiu que 'beat' (batida) também significava beatífico, que enche de prazer ou felicidade - e foi este aspecto dos beatniks que serviu como princípio para o movimento hippie, de acordo com Leonard, 'um tempo de boa-vontade', se referindo ao início, quando parecia que uma nova era de consciência cultural estava verdadeiramente amanhecendo.

Otimismo e senso de comunidade distinguiam os hippies dos beatniks, assim como irão distinguir os ciberpunks da contracultura digital que há de vir.

O mundo ciberpunk é não-utópico, um retrato tecnológico visto no filme Blade Runner.

Aposto que a contracultura digital rejeitará esta fria visão do futuro, trocando por uma na qual a tecnologia amplia o espírito humano, como uma nova ferramenta de conscientização, do mesmo modo que os hippies se apropriaram do desdobramento da química psicoativa do complexo militar-industrial.

Este novo movimento será o ciberpunk com calor humano, substituindo com o senso de interdependência no lugar do isolamento tipo lobo-solitário.

Os ciberpunks enxergam o ser humano como um ciber-rato eletrônico fuçando nas brechas da mega-máquina de informação; o evangelho do movimento pós-ciberpunk será a máquina a serviço do aumento da nossa humanidade.

É cedo para dizer como esta contracultura digital irá se chamar, mas a história dos hippies oferecem uma pista.
'Hippie' se originou de 'hipster', uma gíria para uma subcultura dos anos 50 que perseguia os beats. Da mesma forma esta contracultura poderia se apropriar de um termo antigo, de forma totalmente nova.

Eu apostaria em 'tekkies', conscientemente adotando a gíria desdenhosa usada para os nerds nos anos 80, tirando desta palavra, a coisa fria e industrial e fazendo-a sinônimo do controle da humanidade sobre a tecnologia.

Hippies apareceram em 65, alguns anos depois dos beatniks se tornarem conhecidos do público. Seguindo esta cronologia, os tekkies devem aparecer na metade dos anos 90, se não antes.

Olhe para os céus e procure por um novo cometa - ele será digital e sua cauda irá brilhar em tecnicolor. E sua chegada irá mudar nossas vidas para sempre.

Paul Saffo (psaffo@MCImail.com) pesquisador do Instituto para o Futuro, em Menlo Park, Califórnia, escreveu este artigo para a Wired em 1993.