sábado, 20 de junho de 2009

Livro de Philip K. Dick oferece uma metáfora para a angústia existencial humana


'Do Androids Dream Of Eletric Sheep?'

Preso dentro da pergunta de Philip K. Dick está o enigma (conundrum) da existência.

Dentro da máquina a nossa própria busca filosófica pela natureza de nossa existência e ao reconhecimento como seres humanos.

Desde de que Donna Haraway publicou seu ensaio "Manifesto ao Ciborgues" (1985), críticos culturais têm se intrigado com organismos cibernéticos. Mais metáfora do que máquinas, os ciborgues de Haraway servem como um potente talismã à convergência global do corpo humano às redes eletrônicas, estendendo nosso romance com a tecnologia.

Entretanto, em uma época em que vimos Norbert Wiener dar a Sigmund Freud, o papel de árbitro da psique, a interface homem-tecnologia desperta o re-pensar de perguntas antigas e significantes, no que concernente a existência humana.

Cibernética é a ciência de sistemas auto-reguladores e, como a psicanálise, fundamentalmente é um estudo do comportamento humano. A idéia básica é que o estudo de processos mecânicos de resposta e feedback poderiam ser vistos como analogias ao comportamento orgânico. Portanto, defeitos mecânicos fornecem visões válidas dentro de sintomas disfuncionais (tal como neuroses).

Entretanto o olhar da cibernética pode também ser invertido (para nós mesmos), podendo fornecer uma visão crítica do comportamento de máquinas.
Ao invés da cibernética transcender a carne e tornar-se mais do que uma máquina (como diz Arthur Kroker), o desenvolvimento da inteligência artificial e da robótica (o superhumanismo de Hans Moravec) nos força a considerar o esboço de um filme potencialmente assustador:

Como seria se as máquinas pudessem tornar-se humanas?


O organismo cibernético é mais ser humano que máquina.
Isto é o sonho de Prometeu (fonte para Frankenstein e outras criaturas) revisitado, o corpo humano aprimorado pela tecnologia: O clássico de Haraway - "Nós somos ciborgues" - muito atesta algo desta recombinação étnica, a vontade para desafiar o carne obsoleta.

Entretanto, a gradual domesticação da idéia do ciborgue como um ser humano tecnologicamente melhorado, tem tido o efeito de esconder a visão de outra criatura dos romances “de carne humana e circuitos eletrônicos”, o andróide.

O andróide, ou robô humanóide, está definitivamente mais próximo da máquina do que o ser humano. Enquanto que (ainda) não exista fora da ficção científica, ele tem virtualmente sido usado como um sinônimo da incompreensão do ciborgue, o andróide está realmente mais ligado aos problemas metafísicos que nos ocorrem, quando começamos a pensar em máquinas em termos humanos; quando obscurecemos distinções filosóficas entre o ser humano e a máquina.

Como o ciborgue seria um inegável impacto sociológico (e antropológico) , o andróide tem sido também imaginado dentro da cultura popular, como uma espécie de meio que facilitaria o pensar no que é ser humano.

A beldade pela qual Will Robinson se apaixona em Perdidos no Espaço, os robôs de Dick, ou Data, de Jornada nas Estrelas: A Próxima Geração; tudo fornece um contexto de ‘externacidade‘ que habilita ao truque, comunhão com charme. Destes exemplos, Dick é, não surpreendentemente, o mais hostil à idéia do andróide, simplesmente porque é artificial, alguma coisa que esconde a verdade, faz se passar por um ser humano.

A decepção, com "coisas frias e ferozes [que são], tentando passar-se por seres humanos que não são".

O fato de que esses simulacros (Dick usa o termo para descrever andróides) são projetados para enganar, para fazer com que pensemos que são humanos também, sugere que a ontologia* do andróide, a natureza de sua existência, é efetivamente calcada na sua “aparência” para o outro.

Refletindo sobre isso em um ensaio de 1976 chamado "Homem, Andróide e Máquina", Dick conclui que a diferença entre um ser humano e um andróide estava não em uma diferença de essência (como nós poderíamos razoavelmente esperar), mas no seu comportamento.



Esta noção surpreendente contradiz a maior parte de nossas verdades filosóficas e antropológicas.

Gostamos de acreditar que nosso comportamento reflete nossa essência, que a impressão que temos das coisas, têm um correlação direta para com a realidade aceita.

Entretanto a natureza de um andróide é tal que nós não temos o conhecimento de que seu comportamento não reflita a sua essência. Na obra de Dick os andróides simulam o comportamento humano, acreditando que as pessoas reais não os percebam.

Em "Do androids dream of..." este problema é claro; a necessidade autêntica de ter que provar a cada instante de que é um ser humano de fato, falha virtualmente em todos. De modo parecido, seres humanos são atordoados pela dúvida e a paranóia, o medo de ser andróides. Tudo começa e termina com impressões vagas, superfícies sem profundidade, cópias do comportamento humano e escassas do fundamento da natureza humana.

A este respeito, o 'queer-andróide' combina categorias distintas de ser humano e de máquina.

O termo 'queer' tem sido usado em anos recentes para designar o “gosto” de pessoas por outras de mesmo sexo, sem declarar o sexo do desejado, e que é o objeto do desejo.
Parecido ao comportamento inicial de um andróide com o humano, sem ter que declarar sua diferença essencial (já que é essencialmente não-humano).

Como o simulacro da novela de Philip K. Dick, “We Can Build You”, que é enviado para uma pizzaria por seu fabricante como uma demonstração:
"Você verá como convincente este simulacro é quando pede sua própria pizza"
; seu ‘queers’ de comportamento é a distinção notável entre sua aparência e sua essência.

Este é um grande problema para a metafísica**

No fundamento do quanto humano um andróide parece ser (como Dick foi rápido em reconhecer), não poderá haver qualquer reclamação para uma ‘desumanidade’ essencial na relação, já que os andróides são o ‘Outro’.



Se o ciborgue representa o êxito do exterior evolucionário sonhado através do corpo humano aprimorado pela tecnologia, o andróide é o lado do pesadelo daquele sonho, uma pessoa com colapsos de confiança, norma ontológica tanto para o humano quanto para a máquina.

A este respeito, o caráter de Data é muito mais amigável (e certamente mais 'correto') do que a Rachael Rosen de Dick (de ‘Do Androids dream of...’ ).

Data não tem dúvida de que é um andróide e está sempre tentando compreender o comportamento apropriado que sabe ser humano (como o humor, embora seja uma coisa totalmente desconhecida para ele).

Rachael, como muitos outros iguais na quimera de mundos de Dick, não sabe ser uma criatura artificialmente construída, até que isto é revelado pelo caçador de recompensas Rick Deckard.



Em um momento catárdico, Rachael é confrontada com uma peculiar situação humana.
Tendo falhado no teste Voigt-Kampff (único meio de Deckard para identificar um andróide), Rachael é forçada a aceitar saber de que não está realmente viva, que ela não tem uma natureza humana.

Rachael fora programada para esquecer que é um andróide, tem memórias falsas de uma infância que ela nunca experimentou, uma identidade implantada que não possui.

Neste momento, ela habita uma utopia metafísica, no sentido literal do termo:

Um “em nenhum lugar”.

Estamos familiarizados a isso graças a ficção especulativa e gêneros particularmente pós-modernos, que descrevem o problema ontológico causado pela introdução do irreal ou do fantástico, dentro do domínio do viável.

Rachael Rosen 'auto'-revelada entretanto, é uma curiosa contaminação do irreal pelo real, o desumano contaminado pelo humano.

Máquinas, tal como computadores, podem ser infectadas por vírus que corrompem relacionamentos binários entre uns e zeros.

O que falar então do ‘espírito’ da máquina?

Se andróides fossem contaminados por um ‘meme’, um vírus metafísico que invadisse e colonizasse o hospedeiro, alterando não só seu arranjo de dados, mas seu equilíbrio ontológico?

Imagine as conseqüências de um andróide que não mais simule o comportamento humano, mas realmente se torne MAIS DO QUE HUMANO; a vida humana artificial mutacionando-se para vida humana.

A este respeito, a máquina podia ser pensada como uma espécie de ‘morto-vivo’, vindo para a vida de um estado de não-vida.

Sob tais condições, andróides podem sem dúvida sonhar com carneiros elétricos, relógios moles...

Como tal, a idéia de que um andróide poderia adquirir uma metafísica através da contaminação viral, é por si só uma abstração tantalizante*** que compromete a obsessão da cibercultura por corpos, assim como o desejo evangélico de querer ver o corpo orgânico funcionando com a monotonia infalível de uma máquina.

Enquanto nós desejamos ser mais parecido com eles, eles poderiam se tornar mais parecidos conosco.

Um episódio especial de Jornada nas Estrelas: A Próxima Geração, intitulado 'Elementar meu caro Data' , destaca uma batalha holográfica entre Sherlock Holmes (Data) e seu nemesis Moriarty (um avatar configurado pelo programa de computador do Holodeck).


Durante uma simulação, Moriarty-avatar se torna ‘consciente’, resultado de uma confusão nas instruções dadas ao computador para encontrar um adversário mais digno para Data (uma entidade ‘real’), do que Holmes, o personagem literário interpretado por Data (uma confusão digna de Pirandello ou do autor de Slaughterhouse-Five, Kilgore Trout).

Em si mesmo, uma bela ironia, já que Data não ‘é’ uma pessoa para começar (ele não está nem mesmo tecnicamente vivo), ainda assim o Holodeck interpretou que ele devia estar, dado que aquele Holmes foi seu alter-ego escolhido.

Esta exceção ontológica habilita em Moriarty, motivar ações reais com efeitos reais, e por esse meio, torna-se uma ameaça genuína para outros. Em outras palavras, ele momentaneamente sai da realidade virtual para a nossa realidade, como uma existência humana.


Ele será certamente derrotado, pois a ficção científica não pode tolerar a idéia metafísica de que as máquinas (via Moriarty) derrotem a nostalgia, marca registrada da serie; mas com uma diferença... Com a simulação desligada no Holodeck, ele encara a quase-morte, uma existência armazenada na memória da Enterprise.

Isto pode obviamente ser entendido como uma paródia da vontade de virtualizar-se, ou o desejo humano pela imersão digital.

Porém, um pouco mais profundamente, isto é o cenário da terra-de-ninguém da metafísica de vanguarda, máquinas tornando-se humanas e voltando a ser máquinas outra vez, e de algum modo, atentas às bizarras implicações disso.


Publicado na Worldideas por Darren Tofts



(* ontologia - Parte da filosofia que trata do ser concebido como tendo uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um dos seres.)
(**metafisica - Parte da filosofia, que com ela muitas vezes se confunde, e que, em perspectivas e com finalidades diversas, apresenta as seguintes características gerais, ou algumas delas: é um corpo de conhecimentos racionais (e não de conhecimentos revelados ou empíricos) em que se procura determinar as regras fundamentais do pensamento (aquelas de que devem decorrer o conjunto de princípios de qualquer outra ciência, e a certeza e evidência que neles reconhecemos), e que nos dá a chave do conhecimento do real, tal como este verdadeiramente é (em oposição à aparência).)
(***tantalizar - Atormentar com alguma coisa que, apresentada à vista, excite o desejo de possuí-la, frustrando-se este desejo continuamente por se manter o objeto dele fora de alcance, à maneira do suplício de Tântalo. Provocar desejos irrealizáveis.)