sábado, 25 de julho de 2009

O contribuinte








Ele queria ir para Marte no foguete.

Foi bem cedo até o campo de lançamento e gritou através da cerca de arame farpado para o homem uniformizado, que ele queria ir para Marte.

Disse que pagava seus impostos, e que seu nome era Prochard, e tinha o direito de ir a Marte. Afinal não era um bom cidadão nascido em Ohio?

Então por que ele não poderia ir para Marte?

Balançou os punhos na direção deles e disse que queria ir embora da Terra, qualquer um com juízo queria ir embora da Terra.

Haveria uma guerra nuclear acontecendo na Terra nos próximos anos e ele não queria estar ali quando acontecesse.

Ele e milhares de outros como ele, se tinham algum juízo, iriam para Marte. Não iriam?
Para fugir das guerras, da censura, estadismo e o recenseamento, e o controle do governo disso ou daquilo, da arte e da ciência! Podiam ficar com a Terra!
Ele ofereceu a mão direita boa, seu coração, sua cabeça, pela oportunidade de ir para Marte!
O que precisava fazer, onde precisava assinar para entrar no foguete?

Eles riram dele. Ele não queria ir a Marte, disseram, será que não sabia que a primeira e a segunda Expedições haviam falhado, desaparecido, e os homens provavelmente haviam morrido?

Mas eles não podiam provar, não tinham certeza, ele disse, colado na cerca de arame.
Talvez fosse a Terra do Leite e do Mel, de onde o Capitão York e o Capitão Williams nunca se preocuparam de voltar.

Agora, ou eles abririam o portão para que ele entrasse a bordo do foguete da terceira Expedição ou ele teria que chutá-los para longe?

Mandaram que se calasse.

Ele viu os homens indo para o foguete.

Esperem por mim! Gritou. Não me deixem aqui neste mundo terrível, eu tenho que sair daqui, tem uma guerra atômica chegando! Não me deixem na Terra!

Eles o arrastaram para longe.
Bateram a porta da viatura policial fechando-a na sua cara, e o levaram naquele início de manhã, seu rosto contra o vidro da janela, e pouco antes das sirenes, viu o fogo vermelho e ouviu o estrondo e então sentiu o enorme tremor do foguete prateado que partia, deixando-o para trás em uma segunda-feira comum em um banal planeta Terra.


THE TAXPAYER - THE MARTIAN CHRONICLES por Ray Bradbury
(Doubleday - Maio de l950)