domingo, 26 de julho de 2009

Ray Bradbury ( Entrevista )



Muitos de vocês que estão lendo isso, sabem quem é Ray Bradbury.
Os novos leitores contudo, precisam conhecer um pouco mais sobre ele.

Ray Bradbury começou a publicar seus trabalhos em 1941 e o faz até hoje. Recebeu tantas honrarias e prêmios que não caberiam aqui se fossem listadas (destaque especial para o título de Grande Mestre pela SFFWA.)
Mas Ray Bradbury não se deixa enganar com tudo isso.

GZ: Vamos começar com uma pergunta difícil. O que você pensava ou esperava ao começar a escrever?
RB: Hah! Eu só queria ser um bom escritor, é só. Eu tinha 12 anos de idade.

GZ: Cedo assim?
RB: Pode acreditar.

GZ: Você teve o que pode ser chamada de uma longa aprendizagem, do final dos anos 30 até o inicio dos 50. Por que você acha que demorou tanto esta aprendizagem? Pareceu longo para você?
RB: Não. Cada dia era uma maravilha. Você faz aquilo por que ama fazê-lo. Eu escrevi um monte de contos nos anos 40. Comecei a me tornar um bom escritor aos 22, em 1942, e não me pareceu tanto tempo assim. Uns 10 anos.

GZ: Hoje quando falamos de The Martian Chronicles (1950) não estamos falando somente para os leitores de FC e Fantasia, mas para os leitores americanos em geral. Isso te surpreende?
RB: Não é bem assim, eu não consegui coisa alguma. O livro não vendeu tanto assim. Não teve resenhas. Vendeu 5 mil cópias. Então acho que não foi tudo isso.

GZ: Bem, voltando aos anos 50, certamente me pareceu que foi.
RB: Você fazia parte de uma minoria, poucos milhares.

GZ: De onde veio a idéia? Foi sua?
RB: Não, foi de Walter Bradbury, meu editor na Doubleday. Estávamos jantando, era 1949. Minha esposa estava grávida e eu estava sem dinheiro. Fui a NY encontrar os editores e todos disseram. Você não tem um romance? Eu disse que não, que eu tinha vários contos. No jantar daquela noite, Walter, que não é meu parente, disse 'e que tal aquelas histórias marcianas? Se você as colocar juntas, poderia chamar o livro de As Crônicas Marcianas? Me escreva um esboço e entregue no escritório amanha e se eu gostar lhe pagarei 750 dólares'. Então fiquei acordado a noite inteira e ele me deu um adiantamento no dia seguinte.

GZ: Como se sentiu?
RB: Muito bem. Tinha ficado rico derrepente.

GZ: Era muito dinheiro na época. O que pode me dizer sobre sua associação com John Huston e o roteiro de Moby Dick? Sempre me pareceu que você era o cara certo para isso. Quando vi seu nome na tela eu disse. 'É claro!'.
RB: Foi bem difícil. Ele era um homem estranho. Podia ser maravilhoso ou um monstro. Ele não sabia nada sobre Moby Dick e não podia mesmo me ajudar. O principal foi que ele me encorajou e eu ao fim, consegui terminar o roteiro. Mas foi uma relacionamento estranho e fiquei muito grato pelo trabalho, é claro, por que foi o meu primeiro roteiro.

GZ: Você costuma escrever sobre como evitar certos futuros, mais do que predizê-los ou defendê-los. Você vê a boa ficção científica como um tipo de vacina cultural contra um futuro ruim ?
RB: Oh, pode ser. Quero dizer, Fahrenheit 451 é um exemplo perfeito de coisas erradas que você precisa evitar e estamos vivendo isso agora mesmo. Como esta televisão de má qualidade. Noticiários televisivos pavorosos. Os telejornais em cada estação de televisão americana hoje são abomináveis. Não dá para ouvir ou ver aquilo. É tudo mentira. Estão inventando coisas que não deveriam ser feitas. Não existe noticiário de verdade. São quinze segundos de violência. Assassinato. Estupro. Não há noticia.

GZ: Tudo para vender produtos. Agora, você pensa, todavia, que a FC aspira descrever futuros desejáveis, ou isso é impossível ou indesejável?
RB: Não você não deveria aspirar coisa alguma. Apenas faça seu trabalho, se for positivo, ótimo, e se for negativo, ótimo. O que quer que seja, o que quer que escreva, faça seu trabalho e se servir para influenciar as pessoas, ótimo, mas não dá para sair por ai querendo fazê-lo apenas por fazer.

GZ: Então você nunca tentou imaginar um futuro desejável?
RB: Não.

GZ: Poderia descrever um? Um que seria possível?
RB: Não. Acho que não. Se acontecer de ocorrer em uma história, excelente. Existem coisas boas e ruins em qualquer cultura, o tempo todo. O automóvel é uma máquina maravilhosa e ao mesmo tempo horrível. Pode transportar-nos, mudar uma civilização e também já matou dois milhões de pessoas aproximadamente.

GZ: Mas há inovações que poderiam ser consideráveis desejáveis?
RB: Bem, o foguete é uma. A viagem espacial é uma das coisas mais incríveis que ocorreram com a humanidade.

GZ: Quais são os autores que você mais admira?
RB: Jules Verne, H.G. Wells, F. Scott Fitzgerald, os primeiros trabalhos de John Steinbeck, contos de Hemingway, Eudora Welty, Katherine Ann Porter, Jessamyn West ...

GZ: O que mais você admira em Hemingway?
RB: Vamos falar de um escritor de verdade —John Collier. Um dos mais importante escritores do século 20 e ainda assim, poucos o conhecem.

GZ: É triste.
RB: Ele tinha uma imaginação fantástica e aptidão para metáforas, foi uma enorme influência para mim.

GZ: Tirando os escritores, que outras pessoas você admira?
RB: Gente como Federico Fellini, o diretor de cinema. Loren Eiseley, chefe do departamento de antropologia da Universidade da Pensilvânia. Seus ensaios tiveram uma grande influencia em mim, nos anos 20 e 30. Eu escrevi uma carta para ele, uma carta de fã, e o encorajei a escrever um livro, lá por volta de 1948. Ele me respondeu dizendo, por Deus, acho que é uma excelente idéia. Ele se sentou e escreveu 30 livros. Então eu fico feliz em dizer que eu fui uma influência em sua vida.

GZ: Sim e eu sempre associo ele a sua obra, na minha cabeça.
RB: Um homem maravilhoso.

GZ: Da última vez que conversamos você mencionou a ajuda que recebeu de Robert Heinlein, Leigh Brackett e Henry Kuttner. Como foi esta experiência com estes notáveis escritores?
RB: Especialmente Leigh Brackett. Encontrei-me com ela toda tarde de domingo, desde que eu tinha 21 anos até os 25. Nós sentávamos na praia e eu lia suas maravilhosas histórias e ela lia as minhas péssimas histórias. Eu ainda não sabia escrever e ela dava um jeito no lixo que eu produzia. Escrevi muitas imitações de seus contos, e finalmente me libertei e comecei a escrever coisas da minha própria psique e quando eu tinha uns 25 já escrevia bem, mas mesmo assim eu a encontrava todo domingo, ficava vendo-a jogar voleibol e lia suas histórias, o que me ajudava muito. Algum tempo depois ela casou com Edmond Hamilton e o casal teve influências sobre mim. Fui padrinho do casamento deles. Edmond era um homem educado e me apresentou alguns dos grandes escritores do seu círculo de amizades. Tive sorte de tê-los como amigos. Henry Kuttner era um crítico contumaz. Não posso dizer que fomos amigos íntimos, mas tivemos os mesmos amigos íntimos. Ele lia meus contos e era duro comigo, quando precisava. Tinha dúzias de cartas dele, do inicio dos anos 20. Ele tentou vender algumas histórias minhas. Tentou com John W.Campbell, mas não conseguiu. Foi um privilégio conhecer Kuttner.

GZ: E Robert Heinlein?
RB: Não, eu não conheci Heinlein muito bem. Encontrei-o quando tinha 19 e ele tinha 31. Ele tinha acabado de vender suas primeiras histórias. Ele entrou para a SFL (Science Fiction League) de Los Angeles. e eu ainda o vi em uma ocasião. Ele me ajudou a vender a minha primeira história. Ele a mandou para Rob Wagner. Foi minha primeira publicação. Eu tinha 21 anos e agradeci muito a Heinlein por sua gentileza.

GZ: Ao aconselhar novos escritores, você sugeriu que não lessem seus contemporâneos, mas que se agarrassem a Shakespeare, Pope, Pepys ...
RB: Isso depois. Você precisa ler seus contemporâneos quando tem 19 anos para saber o que está acontecendo. Mas a medida que vai envelhecendo, deve se libertar - não fique lendo FC e Fantasia ou você vai acabar imitando-os, repetindo clichês. O problema com a FC de hoje é que você vê todas estas repetições de títulos e temas que são repetições de outros temas - impérios galácticos, Dungeons and Dragons. Isso é terrível! Você precisa se libertar disso.

GZ: E quais são os grandes escritores que precisam ser lidos?
RB: F. Scott Fitzgerald. Eu ia sempre a Paris em Julho e levava uma cópia de 'Tender Is the Night' (Suave é a noite), e sentava ao ar livre, em restaurantes de rua e bebia café e lia o romance.

GZ: No que trabalha hoje Ray?
RB: Três romances, dois livros de contos, um de poesia e dois de ensaio. Nada além disso.

GZ: Os dois são sobre seus ensaios já publicados?
RB: Alguns sim, de diversas revistas. Tenho um prestes a sair no National Geographic.

GZ: E uma história sendo reimpressa em Skylife, editada por Gregory Benford e George Zebrowski.
RB: É verdade!

GZ: Ficamos felizes de contar com você nesta coleção.O que você está lendo hoje?
RB: Estou relendo George Bernard Shaw, Shakespeare e Alexander Pope. Não existem muitos autores vivos hoje que valham a pena perder tempo. Volto a ler Steinbeck e Hemingway, e ensaios de Aldous Huxley. Fico tão ocupado escrevendo que não tenho tanto tempo assim para ler.

GZ: Sei a que se refere. Que mudanças você vê na indústria editorial desde que você começou?
RB: Hoje é mais fácil se tornar um escritor de FC. São publicadas centenas de livros de FC e Fantasia por ano. Quando eu estava crescendo e queria ser um escritor, se publicavam sete ou oito livros por ano. Existe mais oportunidade hoje para o jovem escritor.

GZ: E quais foram as mudanças, positivas e negativas na área de FC&F ?
RB: Eu só posso imaginar, já que não leio. Não posso julgar.

GZ: Tem alguma pergunta que você gostaria que eu fizesse e que não fiz? E se existe, qual seria?
RB: Você deveria me perguntar se eu já escrevi uma ópera e a resposta é sim. Escrevi vários musicais, escrevi uma semi-ópera dramática baseada em Fahrenheit 451, que foi apresentada em Chicago e NY, e que será apresentada ao redor do mundo no ano que vem. Estou trabalhando em uma grande ópera chamada Leviathan 99, baseada numa peça minha sobre Moby Dick no espaço - The Great White Comet. Peguei a metáfora e a transferi dos barcos a vela para foguetes, do mar para o espaço e Ahab é um capitão do espaço que ficou atraído por um cometa quando ele era um jovem astronauta, e ele parte pelo universo procurando este grande cometa branco, que deseja tanto destruir. Este é o material básico da minha ópera, que eu espero escrever com Jerry Goldsmith, o compositor.

GZ: Ele compõe para filmes.
RB: Ele é um dos melhores.

GZ: Já foram feitos vários filmes a partir da sua obra. O que você pensa deles em geral?
RB: Eu adoro Something Wicked This Way Comes. Não é perfeito, mas ficou muito bom. Fahrenheit 451 é bom também, exceto por eles terem deixado muita coisa de fora. Espero que se Mel Gibson for filmá-lo, ele coloque tudo de volta. Mas não sou muito otimista, por que já se passaram muitos anos e ele nunca me ligou. Então não sei o que vai acontecer.

GZ: Parece que você está bastante ocupado, como sempre.
RB: Farei 80 anos em Agosto.

GZ: Só oitenta. Você e Charles L. Harness e Jack Williamson. Bem, Jack Williamson faz qualquer um parecer mais jovem.
RB: Jack é um homem maravilhoso. Ele foi muito gentil comigo quando eu tinha 19 anos de idade. Ele leu meu material muito antes de Leigh o fazê-lo, e eu escrevia mal naquela época.

GZ: É difícil pensar que Frederik Pohl leu Jack Williamson quando Fred tinha 11.
RB: Jack começou a ser publicado em revistas quando eu tinha 7 ou 8.

GZ: Isso é incrível!
RB: Eu não tinha dinheiro para comprar revistas, mas eu conseguia ler emprestado de amigos da época.

GZ: Obrigado por responder com rapidez as minhas perguntas.
RB: Bem, estou acordado faz bastante tempo. Já tirei meu cochilo!


Entrevista concedida em 2004 para o SYNERGY SF/New Science Fiction (Five Star), editado por George Zebrowski


foto: The Cult of the eye

Ray Bradbury (The Pendulum, The Dragon, The Mafioso Cement, The marriage mender, The end of the beggining, Icarus Montgolfier Wright, Feverdream, A story of love, And this Dante do, In a Season of calm weather, Last rites, A scent os salsaparrilha, A wild night at Galway, The Finnegan, The town where no one got off, The small town plaza, The October Game, A medicine for melancholy, Unterdearseaboat Doktor, The foghorn, Dorian in Excelsius, Mr.Pale, The sound of thunder, The fruit at the bottom of the bow, Mars is Heaven, The Veldt, Fahrenheit 451, Let's all kill Constance, The wonderful ice cream suit, The Martian Chronicles, The Illustrated Man, Quicker than the eye, Dandelion wine, Something wicked this way comes, Death is a lonely bussiness, The october country, A graveyard for lunatics, From the dust returned ) [ Download ]