sábado, 1 de agosto de 2009

Jack Vance, criando um planeta após o outro


Ninguém pode negar o impacto de Jack Vance sobre os gêneros Ficção Científica e Fantasia.

Na Enciclopédia da FC, Vance é descrito como um 'jardineiro de mundos, um artista de paisagens', um 'gênio'. Esta genialidade o levou a escrever histórias fantásticas sobre mundos incríveis por mais de 50 anos.


Pergunta: Quando criança, você imaginava que o mundo pudesse ser como é hoje?
Vance: Não quero ofende-la tão cedo nesta entrevista, mas este é o tipo de pergunta que não possui uma resposta lógica, de verdade; porque uma criança, quero dizer, todo mundo especula sobre todo tipo de mundos em que viverão quando crescer. Mas eu raramente pensava sobre isso. Eu achava que automóveis seriam mais rápidos e aviões voariam mais rápido. Eu sabia que as viagens espaciais eram iminentes, mas eu não fazia muita especulação.

P: Você sempre quis ser um escritor?
V: Sim. Não por que tivesse um enorme instinto criativo. Eu apenas queria trabalhar em alguma coisa onde eu não tivesse um patrão, um trabalho onde não precisasse estar todo dia no mesmo lugar. Eu nunca trabalhei em um escritório na minha vida. Isso limita você, quando você trabalha num escritório, você é uma criatura numa pequena jaula, sob a supervisão e vigilância de alguém. Mas é lógico que já trabalhei em empregos onde estive sob a supervisão de alguém. Fui carpinteiro por algum tempo e todo mundo vigia o que você faz. Na verdade, quase todo trabalho que se faz, tem alguém te observando.

P: Mesmo agora como escritor.
V: Eu não ligo. Me preocupava com isso quando era jovem, mas quando comecei a vender minhas histórias, não pensava mais sobre isso. Eu somente escrevia o que eu sentia e esperava que vendesse. Nunca fiz muito dinheiro com isso, mas vendi bastante. Nunca escrevi para o publico. Nunca. Se eu o fizesse, eu estaria escrevendo Star Trek.

P: Como eram as coisas quando você começou a escrever?
V: Bem difíceis. Era difícil entrar no mercado e não se ganhava dinheiro com isso. Eu trabalhei por metade de um centavo por palavra. Para começar eu não sou rápido em escrever, então precisei trabalhar em outras coisas. Mencionei que fui carpinteiro. Trabalhei numa empresa que construía divisórias para escritórios.Era um bom trabalho. Eu tinha um caminhão e podia ir por ai, fazia meu próprio horário de trabalho. Era fácil. Bastante simples, como montar um lego. A carpintaria tinha um trabalho danado, sério. Exige muito de você, física e mentalmente, você tem que estar alerta para evitar erros e tem sempre um capataz fungando no seu pescoço. Se não produzir você está fora!

P:Você teve influências quando começou a escrever?
V: Bem, acho que quase tudo que li contribuiu para formar o pano de fundo sobre o qual eu escrevia. Mas quando eu era jovem, eu lia todos os livros de Oz, que tiveram enorme influência em mim.
E havia Edward Stratemeyer e sua fábrica de escritores de ficção, [Howard R. Garis e outros] com o pseudônimo de Roy Rockwood, escreviam diversos tipos de histórias de FC. ‘Through Space to Mars’ e ‘Lost on the Moon’ e ‘The Mystery of the Centre of the Earth’. Este tipo de coisa. Acho que foram de verdade, as primeiras histórias de FC publicadas. É claro, se não considerar Jules Verne e H .G. Wells, que nunca tiveram a intenção de serem escritores de Ficção Científica. Eles estavam comprometidos com outros motivos. H.G.Wells era filósofo e Verne, era engenheiro, acho. As histórias de Verne são uma mistura de engenharia e aventura, enquanto que H.G. Wells tinha este eixo filosófico a explorar. Mas não sou um estudioso da obra, nem de um nem de outro. Esta é a minha impressão geral apenas.
Mas Roy Rockwood era FC como conhecemos hoje.
Eu adorava P.G. Wodehouse. Era um escritor maravilhoso. Ainda acho hoje. Acho que não foi apreciado o bastante, por sua magnífica criatividade e a beleza de sua escrita. Eles riam dele, não o levavam a sério por o acharem frívolo.
E havia um escritor chamado Jeffrey Farnol, no inicio dos anos 20. Escrevia ótimas histórias de aventura, que li na minha adolescência.
Eu era fascinado pela sua maestria ao criar atmosferas e ritmos, excitação e ousadia. Ficou um pouco datado. Era um pouco sentimental demais em suas atitudes sobre mulheres e velhos. Muito nobre. Ele não é conhecido hoje tanto quanto foi. Ele escreveu ‘The Amateur Gentleman’, que se tornou um filme. São dois homens que admiro.
E tinha Clark Ashton Smith, que escreveu para Weird Tales e tinha uma imaginação incrível. Não era um escritor talentoso, mas sua imaginação era poderosa. E também Edgar Rice Burroughs. Não penso que foi uma influência para mim, mas adorava ler suas histórias. Eu era jovem. Especialmente Barsoom. Burroughs sabia como criar uma atmosfera..
Estes são apenas a ponta do iceberg, por que eu lia, lia, lia, lia tudo. Não fui publicado quando jovem. Eu era onívoro em matéria de leitura, então tudo que li de certa forma, contribuiu.
Tinha um escritor nos anos 20 chamado Christopher Morley, que me influenciou um pouco, mas eu não consigo me lembrar bem.

P: Você fez um enorme e árduo trabalho ajudando a definir os gêneros da Fantasia Científica e Romance planetário. Você foi a maior influência para outros autores. O que pensa sobre o impacto de seu trabalho?
V: Não penso nisso. Não me interessa. Nem particularmente me impressiona. O que não significa dizer que não é melhor que seja assim do que se não o fosse. Não sou vaidoso, só não sei o que fiz. Só o fiz por ser capaz de fazê-lo, e o fiz sem nenhuma pretensão. Se isso (o impacto) aconteceu, significa que sou bom no que faço, o que evidentemente sou. Eu devo falar sobre isso na convenção (Vance foi o escritor convidado de honra na NorwesCon).
Este reconhecimento chegou lentamente, me parece que as coisas vem muito tardiamente. Recebo crédito pelo que fiz. O que é gratificante, mas um pouco tarde. Preferia que tivesse vindo acompanhado de cheques quando eu era jovem (risos).
E sobre esta influência a qual você se referiu, não me afeta de maneira alguma.

P: Você se vê em outros ao ler Ficção Científica ?
V: Não leio a FC de outros. Nenhuma na verdade. Não vou a cinema desde que alguém me deu algumas entradas grátis para Star Trek, que assisti. Tenho um desconforto total em ser parte da audiência. Ficar sentado lá com todo mundo rindo e chorando ao mesmo tempo, como se os botões fossem apertados ao mesmo tempo. Parece um tipo de prostituição em massa. me sinto sujo sentado numa audiência.
Eu leio livros. O que suponho que seja mais ou menos a mesma coisa, mas pelo menos estou sozinho e sou um indivíduo. Posso parar quando quiser, o que freqüentemente faço. Mas eu desprezo a mídia de massa. Como disse, nunca assisto FC, nem sei o que está acontecendo.
Eu conheço (Robert) Silverberg é claro, mas nunca li nada que escreveu.
E Poul Anderson, que era amigo meu, eu li um de seus livros apenas por que era curto e foi editado pela Ballantine com quatro histórias. Uma era minha. Mas essencialmente era um livro meu e de Poul, e ele tinha uma história ótima no livro. Falava sobre sereias e sua vida debaixo d'água, era maravilhosa.

P: O que você lê hoje em dia?
V: Mistérios policiais. Em fitas cassetes (Jack Vance ficou cego por conta de um glaucoma). Eu as encomendo e tenho aqueles que são meus favoritos, como uma escritora chamada M.C.Beaton, que escreve sobre uma vila escocesa no noroeste da Escócia, e que tem livros maravilhosos. Seu protagonista é Hamish Macbeth, um policial de vila. Ela é uma escritora maravilhosa. E escreve com humor.
Anne Perry escreve livros sobre a Inglaterra Vitoriana. Eu gosto do que escreve, apesar do seu último, chamado Half Moon Street, eu não ter gostado tanto. Ela tem o mau hábito de espalhar capítulos inteiros com diálogos que não levam a história para frente.
Também gosto da velha Agatha Christie. Há um tipo de honestidade no que faz. Não tem pretensões de ser uma grande escritora ou coisa assim.
John MacDonald é um bom escritor. Não gosto dos episódios com sexo, em cada livro seu. Eles estragam os livros. São totalmente desnecessários. Sinto certa vergonha por ele ter que colocar esta certa quantidade de sexo em seus livros. Tirando isso, é um escritor maravilhoso.


P: O que faz os livros de mistério serem mais interessantes para você do que os de FC?
V: Não sei. Não sei. Acho em geral o trabalho 'artesanal' de melhor qualidade. Gosto do senso de localização. Alguns escritores fizeram de certos lugares suas propriedades privadas. M.C. Beaton fez isso com a vila no noroeste da Escócia. MacDonald com Miami.

P: Como escritor, existe algo que você não tenha feito?
V: Eu não sei. Eu não vendi para o cinema. Em outras palavras, não recebi ainda um cheque polpudo. E agora que sou velho se eu o recebesse não saberia o que fazer com ele. Não viajo mais. Não preciso, nem quero, coisa alguma. Daria para o meu filho, imagino, e o deixaria desfrutar dele.

P: Você tem mais histórias para contar? Não tem uma seqüência de seu último livro, Ports of Call?
V: Sim. Estou trabalhando nele agora (Lurulu), é claro.Mas sou muito lento para escrever por que acho terrível fazê-lo com computadores. Os computadores falam comigo, mas é tão lento, e sou terrivelmente devagar usando-os. E não gosto. Depois dele eu não sei. Provavelmente ficarei nervoso por não estar trabalhando em algo, mas não tenho nada em mente no momento. Talvez apareça alguma coisa.

P: Ports of Call e Lurulu se passam no Universo Gaean Reach. O que tem de especial nele para você?
V: Nada em especial. Nele existem naves espaciais que permitem que se vá de uma estrela para outra em um tempo razoável, uma coisa que não podemos fazer agora, é claro. Levaria uma vida sob condições de prisão, para alcançar outra estrela. É tão impraticável que eu duvido que alguém vá tentar fazê-lo. A não ser que se descubra um jeito mais rápido.
Alguns escritores assumem que haverá maneiras de viajar rapidamente de uma estrela a outra, em um tempo razoável e isso é uma das convenções na FC escrita, que possui muitas convenções. E várias delas não são muito razoáveis.
Outra é que a qualquer parte que vá as pessoas falam a mesma língua, o que no caso de Gaean Reach seria dificilmente lógico. As pessoas depois de ficarem isoladas por centenas de anos, desenvolvem dialetos que não seriam compreensíveis para estranhos. Mas para podermos tornar possível que possamos ir a outro mundo e nos comunicar com as pessoas que vivem nele, você precisa assumir que todos falam a mesma língua. É uma convenção da FC que fazemos de conta ser possível.

P: Qual foi o maior desafio que enfrentou em sua vida?
V: Oh, as grandes quantias de dinheiro. Desafiadoras. Tenho um instinto competitivo, é claro. Não que eu queira ser melhor do que ninguém, mas penso que se alguém recebe 100 mil dólares, eu quero o mesmo. Não fico furioso pelo cara ganhar 100 mil. Não o invejo. Mas por que eu não posso? Fico louco comigo mesmo! Com meu agente! Quando comecei a escrever eu usei, sem pensar Jack Vance. Penso que deveria ter usado John Holbrook Vance, que é bem melhor do que Jack Vance. John Holbrook Vance é bem mais sonoro e sério e acho que algumas pessoas pensariam que se trata de um homem lúcido e sério, coisa que sou, é claro. Bem, de qualquer forma, quando assino meus livros, fico feliz de ter usado Jack Vance (risos).

P: Talvez fizesse mais diferença se você escrevesse mainstream ao invés de FC&F.
V: Também acho. Não vou mentir. Se alguém me pergunta o que eu escrevo, eu nunca digo FC. Penso em Kurt Vonnegut, ele era intenso e bravo, ele combinava bem com a imagem de escritor de FC. No meu caso, eu digo:'Bem, não sei o que escrevo. É Ficção Especulativa. Ficção sobre o futuro. Ficção social-antropológica. E mesmo assim se usarem o termo FC, do qual não gosto, eu tenho que agüentar. Seria simples se eu pudesse me permitir dizer FC, mas não posso por que eu detesto esta área. Não gosto das pessoas envolvidas com ela. Não os escritores, mas os fãs. Os jovens fãs e algumas pessoas com atitude adolescente e que vão a convenções com roupas engraçadas e trekies, e tem todas aquelas sociedades esquisitas. Não quero estar associado a esta gente. Existe um monte de gente nestas convenções, eu conheci várias, extremamente educadas e que são inteligentes.

P: O que mais o surpreende ao longo dos anos?
V: Ainda estar vivo, eu acho.

P: Vivo e trabalhando.
V: Sim. Se alguém me dissesse que eu ia chegar nesta idade e trabalhando ao invés de estar sentado em frente a uma televisão, eu ficaria surpreso. É claro que se me dissessem que eu ficaria cego, eu não iria gostar disso também. Quando eu tinha 8 ou 9 anos fui a um oftalmologista que tinha a fama de ser o melhor de São Francisco e ele me perguntou: 'Meu jovem, você lê muito?' 'Sim doutor, eu leio.' 'Bem, não leia tanto assim. Você precisa parar ou então você vai ficar cego quando velho.'
Não acho que ele sabia o que dizia, por que perdi meus olhos por decorrência de um glaucoma, que nada tem a ver com meu hábito de leitura. Foram outros fatos. Como o fato do médico que tentou reparar meus olhos usando laser a cada vez que me operava, meus olhos ficavam ainda piores. Até que ele desistiu. E fiquei assim.

P: Você é um escritor bastante visual. Ter perdido a visão teve impacto na sua escrita?
V: Não me atrapalha nem um pouco. Tenho memória e posso ver as coisas na minha cabeça. Não, não tive problemas em não poder mais ver.

P: De tudo que escreveu, do que gosta mais?
V: Não queria responder esta. Eu gosto de todas minhas últimas coisas. Só não gosto muito das primeiras que fiz. Acho que não havia aprendido a minha arte, o que não deveria fazer, sendo tão exibicionista, tentando aprender como escrever.

P: Qual o segredo de continuar a escrever tão bem?
V: Primeiro não ter Alzheimer. Sabe disso tanto quanto eu. Continuar a ter algum sentimento de querer escrever e continuar a ter idéias e ficar inquieto se não estiver escrevendo. Agora mesmo, eu ficaria feliz se não tivesse que escrever mais, até ter outra idéia. Não me importo com minha idade. Não tenho medo de morrer por que primeiro isso não faz bem. É uma tolice ter este tipo de medo, eu acho. Não gostaria de ter câncer, como o coitado do Poul Anderson. Me senti muito mal por ele, eu o admirava muito. Ele era um ótimo camarada. Um dos meus melhores amigos, Poul.

P: Você tem imaginado o futuro a muito tempo. Para onde você acha que a humanidade caminha?
V: Não me faça estas perguntas. Você espera que eu venha com alguma sabedoria, com comentários filosóficos que irão surpreender a todos e irão dizer 'Este Jack Vance sabe de tudo! Ele é um filósofo de verdade!' É óbvio que não sei sobre o futuro, mais do que qualquer um sabe.

P: Quais são seus interesses quando não está escrevendo?
V: Um deles é Cosmologia. Coisas como mecânica quântica. Física astronômica, o que é essencialmente cosmologia. Estou lendo um livro muito bom de um sujeito chamado Martin Rees, chamado ‘Before the Beginning’. Não vou aborrecê-lo com minhas teorias, mas sou particularmente cético sobre certas idéias. Adoro discuti-las e argumentar com astrofísicos. Por algum tempo um dos meus maiores interesses na vida era - de fato penso em mim mesmo mais como um música na metade do tempo, do que como um escritor - o jazz. O jazz original, não o que chamam de novo jazz, que eu não considero que seja jazz de verdade. Só um barulho abstrato. O jazz de Nova Orleans, que ainda existe hoje. Não é música popular, mas é ótimo. Eu costumava tocar corneta e banjo, mas quando meus olhos se foram eu desisti.

P: Você tocava bem?
V: Meu melhor instrumento era a harmônica (risos). Não, não posso dizer que era bom. Meus dedos eram finos demais, mas toquei em banda certa vez. Ninguém me chamava para tocar quando precisavam de alguém, a não ser como último recurso. mas eu me diverti bastante.

P: Que conselho você dá para os novos escritores que estão começando e que querem ser publicados?
V: O óbvio, apenas trabalhe. Esta é a chave. E não tente escrever com exibicionismo. Em outras palavras, não tente ser ultra-espetaculoso. Tente fazer com que funcione, não inflar seu trabalho com montes de adjetivos e advérbios. O principal é ter uma boa história, uma boa trama. Ter bons personagens e não tentar ser sensacional sempre. Seja comedido ao escrever.

Entrevista concedida a Kathie Huddleston (Science Fiction Weekly - 2002)