sábado, 29 de agosto de 2009

Viagem Fantástica 2 - Rumo ao Cérebro - Isaac Asimov



A viagem, por si só, pode ser a melhor parte da
empreitada, mas só se você conseguir chegar até seu destino. Dezhnev (pai)



MORRISON SENTIU calor imediatamente e perdeu o fôlego. Como dissera Konev, a temperatura era de trinta e sete graus, como a de um dia quentíssimo de verão, sem que houvesse sombra ou brisa para refrescar.

Olhou em volta, tentando se orientar. Ficou claro que Natália miniaturizara ainda mais a nave enquanto ele estivera lutando para se enfiar no escafandro.

A parede ladrilhada do capilar estava bem mais longe.

Ele só conseguia ver um pequeno pedaço dela, porque havia um imenso objeto nebuloso atrapalhando a visão: um glóbulo vermelho, era claro. Uma plaqueta também passou entre o eritrócito e a parede, deslizando bem devagar.

Tanto os objetos quanto a nave e ele próprio estavam navegando com a corrente muito lenta do interior do capilar, pelo que ele pôde deduzir quando escolheu alguns “ladrilhos” como referência.
Morrison tornou a se perguntar por que sentia tão pouco o movimento browniano.

Continuava tendo a sensação de tremor, ainda que pouco intensa, e podia ver que os objetos à sua volta também pareciam tremer. Até o desenho das células da parede parecia se alterar um pouco, de um forma estranha. Mas não tinha tempo para especulações e análises.

Tinha que cumprir a missão e voltar para a nave.

Estava a mais ou menos um metro dela. Um “metro subjetivo”, pensou. Quantos mícrons teria, de quantos milionésimos de metro seria a distância real? Não se deu ao trabalho de tentar calcular.

Começou a manobrar com as nadadeiras para voltar à superfície da nave. O plasma era muito mais viscoso que a água do mar e a sensação era desagradável.

O calor, naturalmente, continuava. Não diminuiria enquanto o corpo dentro do qual se encontrava estivesse vivo. Sua testa já estava coberta de suor. Tinha que trabalhar rápido. Esticou o braço para tocar o ponto pelo qual deixava a nave, mas não conseguiu. Era quase como se a mão estivesse apertando uma almofada elástica de ar comprimido, mas ele não via nada entre ela e o casco, a não ser o próprio fluido.

Compreendeu logo o que estava acontecendo. A superfície externa do escafandro tinha carga elétrica negativa e a porção do casco que tentara tocar, também. Estava sendo repelido. Mas aquilo não deveria causar problema: era só achar algum pedaço do casco com carga contrária. Tateou até sentir o plástico mas isso não adiantou muito.

A sensação era a mesma que tocar uma superfície incrivelmente escorregadia.

De repente, com um “clique” quase audível, a mão esquerda grudou no casco. Encontrara um ponto com carga positiva. Tentou soltá-la com um pequeno esforço e, logo em seguida, com toda a força do braço. Era como se a mão estivesse soldada à superfície.

Começou a tatear com a direita, procurando um ponto de apoio para livrar a esquerda. “Clique”, outra vez. Apoiou o peso do corpo na direita e puxou a esquerda com toda a força.

Nada aconteceu. Estava preso ao casco, crucificado nele.

O suor rolava fortemente pelo rosto e depositava-se sob as axilas.
Começou a gritar, inutilmente, e a agitar as pernas. Os da nave acompanhavam com os olhos todos os seus movimentos, mas como gesticular sem usar as mãos?

O glóbulo vermelho que o vinha acompanhando o tempo todo aproximou-se e apertou seu corpo contra a nave. Seu tronco, no entanto, não ficou grudado.

Tocara, por sorte, uma área sem carga positiva. Sophia estava observando-o fixamente, tentando dizer-lhe alguma coisa, mas Morrison não sabia ler os movimentos de seus lábios, pelo menos em russo.

Notou que ela mexia num controle do computador e o braço esquerdo soltouse.
A moça devia ter reduzido a intensidade da carga. Balançou a cabeça para ela, torcendo para que entendesse seu gesto de agradecimento.
Tudo o que tinha a fazer agora era caminhar com os braços, saltando de carga em carga positiva, até a popa da nave.

Foi-se movimentando aos poucos, com dificuldade, e descobriu que, mais que a força da interação eletromagnética, o que atrapalhava agora era a pressão macia do glóbulo vermelho.
— Sai! Vai embora! — gritou em vão. O corpúsculo desempenhava um papel completamente passivo. Não era afetado por gritos.

Empurrou-o com força, usando os dois pés e uma das mãos. A superfície elástica e fina do glóbulo, de início, recuou e afundou, mas a resistência foi aumentando à medida que seus membros foram avançando.

Morrison viu que aquilo não adiantava.
Cansado, deixou o corpo ser empurrado de volta contra a nave.
Tentou recuperar o fôlego, o que não foi fácil, quente e ensopado de suor como estava. Começou a tentar imaginar o que o poria fora de combate primeiro: a desidratação ou a febre, que fatalmente viria, se continuasse incapaz de se livrar do calor produzido pelo próprio corpo e, ainda por cima, extenuando-se daquele jeito na luta para afastar o glóbulo vermelho.

Levantou o braço o máximo que conseguiu e o baixou com toda a força num golpe, voltando a borda da nadadeira manual contra a película do glóbulo, que se rompeu como um balão de borracha. A tensão superficial foi alargando cada vez mais o corte e o conteúdo começou a vazar: uma nuvem fina de grânulos.

O corpúsculo foi esvaziando e encolhendo.
Morrison sentiu-se culpado. Teve a sensação de que matara uma criatura inofensiva. Consolou-se com o pensamento de que havia trilhões daqueles no sistema circulatório e que seu tempo de vida, de qualquer maneira, não passava de uns quatro meses.

Agora já podia se deslocar até a popa. Não havia condensação no plástico do escafandro. Nem poderia haver: tudo estava à mesma temperatura e o tecido fora desenvolvido de forma a não aderir a nada.

O que poderia se condensar provavelmente estava rolando de um lado para outro, com seus movimentos, e se acumulando nas dobras do escafandro.
Chegou à popa, ao ponto em que as linhas aerodinâmicas da nave eram rompidas pelas saídas dos três motores a microfusão.

Estava o mais longe possível do centro de gravidade. Confiou na sorte e esperou que os outros quatro tivessem a mesma idéia e se reunissem o mais perto possível da proa.

Lamentou não lhes ter recomendado aquilo antes.
O que tinha a fazer agora era encontrar áreas com cargas positivas para apoiar as mãos e empurrar com força.

Sentiu-se um pouco tonto. A causa seria física ou emocional?
Não fazia diferença. O efeito era o mesmo.

Respirou profundamente, sentindo os olhos ardendo com as gotículas de suor que escorriam sobre eles. Não podia fazer nada quanto a elas. Teve outro acesso de fúria contra os idiotas que haviam projetado aquele traje de mergulho.

Entre aquilo e nada, pouca diferença havia.
Conseguiu firmar as mãos no casco e começou a bater as nadadeiras dos pés. Daria certo? A massa que tinha que movimentar era de alguns microgramas, apenas, mas de que energia dispunha? Uns poucos microergs? Sabia que a relação entre quadrados e cubos lhe dava uma vantagem enorme mas, mesmo assim, qual seria a eficiência de seu empurrão?

A nave moveu-se. Era fácil constatar o movimento, usando os “ladrilhos” da parede do capilar como referência. Seus pés já podiam tocar a parede, o que significava uma rotação de noventa graus.

O eixo principal da nave estava perpendicular à corrente. Firmou os pés na parede e empurrou de novo, com um exagero de força.

Se rompesse o capilar, as conseqüências poderiam ser terríveis, mas sabia que não dispunha de muito tempo, e não estava suficientemente lúcido para pensar a longo prazo. Felizmente, seus pés soltaram-se das células da parede, como se tivesse chutado uma cama elástica, e a nave girou um pouco mais.

Em seguida, encalhou.
Morrison procurou entender o que estava acontecendo, apertando os olhos com esforço para ver melhor. Estava perdendo a respiração no calor úmido e abafado do escafandro.
Era, com certeza, outro glóbulo vermelho. Só podia ser.

Dentro do capilar, o trânsito engarrafava-se como os carros na avenida principal de alguma cidade grande. Desta vez não hesitou. Baixou logo a nadadeira da mão direita, repetindo o golpe anterior, e causou um enorme talho.

E não perdeu tempo, como antes, lamentando a execução de uma vítima inocente.
Tornou a bater os pés e a nave retomou a rotação.
Torceu para que estivesse na direção certa.

E se tivesse invertido sua posição durante o selvagem ataque ao eritrócito, deslocando a nave de volta à situação anterior? Deixou sem resposta a pergunta.
Já estava quase sem condições de raciocinar.
A nave agora estava paralela a eixo do capilar.

Completamente sem fôlego, ele tentou observar os “ladrilhos” da parede.
Se parecessem se deslocar na direção da popa, a proa estaria apontada de maneira correta, contra a corrente, voltada para a junção do capilar com a arteríola.

Achou que tudo estava certo. Não, não conseguia achar mais nada.
Certo ou errado, tinha que retornar para a nave.

Não estava disposto a dar a vida em troca de êxito.

Mas onde estava a escotilha? Tateou cegamente a superfície do casco, sentindo aqui e ali as áreas de carga positiva e deslocando o corpo aos trancos.

Conseguiu entrever quatro figuras no interior da nave, fazendo gestos que não foi capaz de interpretar. Os vultos começaram a sair de foco. Alguém. apontou para cima. E onde era para cima?

Encontrava-se sem força para mover o corpo.

O último pensamento foi o de que, para cima ou para baixo, não fazia muita diferença para quem não tinha massa nem peso.

Deu um impulso para cima, sem entender bem por quê, e a escuridão o envolveu completamente.




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