sábado, 19 de setembro de 2009

Stalker (A máquina dos desejos) - Parte 2 de 6


SEGUNDA PARTE


A neblina se foi.

À esquerda do aterro o horizonte, uma planície acidentada, sem qualquer sinal de vida, mergulhada em sombras verdes. Mas sobre o horizonte, espalhando-se no céu claro, despontava um brilho esmeralda, puro como as cores do arco-íris: a aurora própria da Zona.

E depois a cadeia de montanhas negras sob o sol verde, quebrada em pedaços desiguais.

- Vim até aqui por isso também… disse o Escritor com a voz rouca.
Seu rosto estava verde como o do Professor em silêncio.
- Não olhem para lá, disse o Stalker. Olhem aqui.
O Escritor e o Professor se viram.

À direita do terreno uma planície também acidentada, com postes visíveis à distância e a armação retorcida de uma linha de energia de alta voltagem.
Podia se ver uma estrada entre as montanhas.

Aqui o terreno descreve um arco largo, e é possível ver um comboio que trouxe até ali, há algum tempo atrás, uma unidade de tanques do exército. Mas algo havia acontecido, logo adiante.
A locomotiva e os primeiros vagões haviam descarrilado. Vários vagões estavam atravessados no terreno, os tanques tombados e virados de lado, expondo as lagartas ao ar.
Pelo visto haviam conseguido baixar vários tanques ao terreno e alguns conseguiram chegar quase até a estrada, mas não avançaram muito além, parados entre o terreno e a estrada, em grupos pequenos, com os canhões apontando para direções diversas.
Alguns deles, não se sabe por que, sem as lagartas, outros fundidos ao chão até a altura das torres, outros fechados hermeticamente e outros deixados com as escotilhas abertas.

- Onde estão… as pessoas? Perguntou em voz baixa o Escritor – Havia gente ali.
- Penso a mesma coisa sempre que venho aqui, respondeu o Stalker falando baixo. -Por que eu os vi quando embarcaram na nossa estação de trem, eu era um menino. Na época todos achavam que se tratava de um inimigo que queria nos conquistar. Por isso enviaram estes tanques… estratagemas - cuspiu – Ninguém nunca voltou. Nem uma alma viva. Bom, chega. Nossa direção será aquele poste que se vê ali… - estendeu o braço demonstrando – mas não olhem para o poste. Olhem para seus pés. Já disse e repito. Vocês são uns merdas! Novatos! Sem mim não valem nada, estarão perdidos como coelhos. Por este motivo seguirei atrás, iremos em fila indiana. Mudaremos o cabeça da fila por turnos. Primeiro será o Professor. Indicarei a direção e não se afastem, porque será pior para vocês. Peguem suas mochilas!

O professo se abaixa e joga a mochila ao ombro.
- Professor, a primeira direção será aquela pedra branca. Vê? Vamos andando… ordena o Stalker.
O professor começa a atravessar o terreno primeiro. Depois de uns cinco passos, o Stalker ordena:
- Escritor, é tua vez, siga-o.
E pouco depois ele mesmo o faz.

A manhã esverdeada da Zona havia se diluído com a luz habitual do sol.
Depois de percorer o aterro, agora subiam devagar, em fila única, pela suave encosta de uma colina. A partir dali é possível ver o aterro como a palma da mão. Algo estranho está acontecendo sobre os tanques tombados, parecem jorros de ar quente subindo, sobre este lugar, de tempos em tempos, as luzes iridescentes neles formam um arco-íris brilhante.
Mas eles não olham para lá. O Professor vai na frente e antes de cada etapa, examina suspeitando de onde pisa. O Escritor segue atrás, sem se importar tanto onde pisa.
O Stalker está calado. Seu olhar vai dos pés rápidos e de passos automáticos, acostumados com o lugar, até a nuca do Escritor e da nuca do Professor para a direita do Professor e a esquerda do Professor, e de novo aos seus pés.
O Professor alcança o topo e o Stalker ordena:
- Pare!

O Professor para obediente, mas o Escritor dá outros passos e se volta descontente.
O Stalker está imóvel, de olhos semicerrados e move os dedos da mão estendida como se apalpasse algo no ar.
- O que é? Pergunta com irritação o Escritor.
O Stalker baixa a mão lentamente e se aproxima do Professor. Seu rosto está pleno de tensão e perplexidade.
- Não se movam! Diz com a voz rouca.
O Escritor olha ao redor assustado.
- Não se mova imbecil – ordena o Stalker.
Estão imóveis como estátuas, cercados pelo mato verde, e os arbustos ondulam vagarosamente ao vento e um sol os ilumina gentilmente. Logo o Stalker diz de súbito:
- Acabamos de sair de um mau caminho… vamos andando. Não! Aguardem, vamos fumar um cigarro.
Senta-se de cócoras e retira do bolsinho um maço de cigarros. Tira um com os lábios e oferece-a para o Professor, que se põe ao seu lado. O Escritor pergunta com irritação:
- Bem, posso ao menos ficar com vocês?
- Sim. Responde o Stalker. - Pode se aproximar. Sua voz endurece – O que foi que eu te disse?
O Escritor se detém na metade do caminho.
- O que foi que eu te disse desgraçado? Eu disse ‘Pare’ e você seguiu andando, e eu disse ‘Não se mova’ e você se moveu. Assim ele não vai chegar ao final, diz o Stalker ao Professor.
- O que posso fazer? Sou lento para reagir, queixou-se lamentando o Escritor – Me dê um cigarro, por favor…
- Se tem problemas devia ter ficado em casa, disse o Stalker tirando do bolso um punhado de porcas de diversos tamanhos. Começa a “tatear” o caminho.
Atira a porca adiante dele. Para. Vai até onde a porca caiu. Joga outra. E assim vai, de uma porca até outra. Chama o Professor.
- Venha. Parece que saímos do caminho.
Avançam com passos de passarinho. O professor, depois o Escritor e o Stalker.

O sol está no alto e no céu não há uma nuvem sequer.
À esquerda um aclive, à direita um açude cheio de água negra parada.
Um silêncio profundo, não se ouvem pássaros nem insetos, apenas o som da vegetação sob os pés. Poucos passos depois o Escritor começa a cantar uma musiqueta. Dá alguns passos, se agacha, pega uma varinha e com ela começa a golpear a perna da calça.
O Stalker observa sério suas ações. E quando o Escritor põe-se a quebrar com a vareta as florezinhas à direita e à esquerda, o Stalker tira do bolsinho uma tarraxa e com boa pontaria acerta a nuca do escritor. Um repentino grito interrompe sua musiqueta alegre.
Ele leva as mãos à cabeça e se senta de cócoras, encolhendo-se. O Stalker para a seu lado.
- É assim que vai ser, diz. – Não temos tempo para reclamações… Não fez nas calças, fez?
O escritor se endireita lentamente.
- O que foi que eu fiz de errado? Pergunta assustado, apalpando a nuca.
- Quis te mostrar o que vai lhe acontecer se continuar agindo assim na Zona – explica o Stalker – Você é um suicida.
- Está bem, está bem, responde o Escritor umedecendo os lábios com a língua. – Eu entendi.

Atravessam um terreno baldio. Brilham vidraças quebradas, um chaleira velha, uma boneca com as pernas arrancadas, trapos, montes de latas de conservas oxidadas.
O Escritor vai na frente, tem o rosto tenso e uma expressão malévola.
Chegam a uma vala enorme. Dentro, o corpo desinflado de um balão para defesa antiaérea. Seguem pisando com cuidado a superfície que cede abaixo dos pés, e logo o Escritor solta um grito, parecido mais com o grasnado de um corvo, e se detém.
E começa a ensopar. O liquido brota de seu corpo atravessando a roupa, goteja pela cara, dos dedos esticados jorram esguichos, e os cabelos se agarrando ao rosto e bochechas e depois começam a escorrer pelo peito e ombros.
- Calma pessoal – diz o Stalker – Nos pegaram! Pro chão – grita para o Escritor – Jogue-se ao chão! E você também Professor! Pro chão!
O Stalker e o Professor agora estão deitados, mas o Escritor não. Câimbras estremecem seu corpo. Mas logo tudo cessa inesperadamente. O liquido vai secando a olhos vistos. O Escritor está tão seco quanto antes, a não ser por tufos de seu próprio cabelo que estão por sobre ele.
Ele desfalece e tomba de costas.
O Stalker e o Professor se levantam e cautelosamente vão até o Escritor.
- Não é nada, não é nada – diz o Stalker. – Logo ele vai se levantar. Mas para falar a verdade, o maldito teve sorte… Aqui mesmo, pessoas boas tiveram os olhos arrancados, e ele não perdeu mais do que cabelo… Está bem, levante-se, levante-se… saia do chão!
O Escritor se põe de pé com dificuldade. Apalpa a cabeça e olha os cabelos em suas mãos.
- Vamos – diz o Stalker. – Não vai poder contá-los mesmo. Professor, siga na frente!

Entram por debaixo de uma rede de camuflagem apodrecida pelo tempo.
Percebe-se que ali haviam, em outros tempos, nichos para metralhadoras. Vêem caixas de munição, metralhadoras fundidas com o terreno, capacetes e antigas máscaras cobertas de areia.
- Vamos fazer uma parada – anuncia o Stalker.
Todos permanecem de pé, imóveis. O silêncio os envolve e apenas o vento sibila num jornal sujo e rasgado, que se enrolou na perna do Professor.
- Esperem – diz o Escritor – Não sei o que há com minhas pernas… não funcionam.
- O que foi? Pergunta o Professor sem se virar.
O escritor solta uma risada nervosa e diz:
- Não sei… já passou, graças a Deus – e olhando para os lados grunhe – Que lugar infeliz!
Acomodam-se à sombra da rede. O Stalker derrama bebida nos copos de cada um. Eles bebem.
- Está com fome Professor? Pergunta o Escritor mordendo com asco um ovo cozido.
- Para falar a verdade, não estou bem – responde o outro.
- Uma cerveja cairia bem – suspira o Escritor. - Bem gelada! Minha garganta está seca.
O Stalker serve mais uma dose para cada um. O Professor pergunta apreensivo:
- Ficaremos muito tempo aqui?
- Não sei - o Stalker responde sombrio.
- O que diz o mapa?
- O que poderia dizer um mapa? E para que serve um? Não há escala. É verdade que o Raposa retornou em dois dias, mas era o Raposa.
- Quem é o Raposa? Pergunta o Escritor.
O Stalker sorri dissimulado, acende vagarosamente um cigarro.
- O Raposa, meu amigo, não era como nós. Ele começou nos primeiros dias, me trouxe até aqui quando eu cresci. Era um grande homem. Um que…
- E por que era? Perguntou o Escritor – Ele…?
- Sim, isso mesmo que está pensando. Ele saia com um ou dois e voltava sozinho. Vocês tinham que ter ido com ele... -riu de modo desagradável olhando para o Professor e o Escritor – Mas chegariam até aqui com ele também. Bom – interrompe-se – Façam o que quiserem, que eu vou tirar uma soneca. Só não façam barulho... e nem pensem em sair andando por aí...

O Stalker se preparou para dormir, colocando a cabeça sobre a mochila.
O Professor e o Escritor se recostaram contra o declive argiloso. Fumam e conversam.
- E o que aconteceu com este sujeito, o Raposa? Perguntou o Escritor.
- Foi o único que chegou ao centro da Zona e retornou – respondeu o Professor - Voltou e dois dias depois estava rico... fabulosamente rico. O Professor calou-se.
- E o que mais?
- Uma semana depois ele se enforcou.
- Por quê?
O Professor fez que não sabia com os ombros.
- Um caso pouco comum. Pensei que poderíamos ir ao tal lugar com o nosso Stalker. Ele foi ver o Raposa e o encontrou pendurado pelo pescoço. Numa mesa havia um mapa e um bilhete de despedida, desejando-lhe sorte.
- E o nosso guia não teria lhe...?
- Sim, pode ser, assentiu o Professor.
Fumaram calados por um momento.
- E o que lhe parece Professor? Será verdade que este lugar existe? O lugar onde os desejos se realizam?
- O Raposa ficou rico. Toda sua vida ele sonhou em ser rico.
- E se enforcou.
- Mas você tem certeza que ele queria mesmo a riqueza, o Raposa? Por isso pergunto, para que alguém iria querer ir até a Zona? O que acontece é que a gente nunca sabe realmente o que deseja. É complicado. A cabeça quer uma coisa, a medula outra e a alma outra ainda. É um problema sem solução. Em todo caso, estou aqui por um motivo intimo, compreende? Um desejo intimo.
- Certo – concorda o Escritor – você explicou muito bem. Antes eu disse que vinha até aqui em busca de inspiração. Mentira. Não dou a mínima para a inspiração…
O Professor o olha curioso.
O Escritor continua depois de uma pausa.
- Mesmo que seja verdade, e que busque inspiração… como vou saber chamar aquilo que desejo? E como vou saber se quero aquilo que quero? São coisas incompreensíveis, basta dizer e seu sentido se perde, se dilui. Como uma água viva ao sol. Já viu uma?
O Professor baixa os olhos e passa a observar suas unhas sujas e ruídas.
- Tá bom, tá bom. A propósito, devo dizer-lhe que para você é contraproducente ir até lá…
O escritor concorda hipocritamente.
- Sim claro, sim,… e vou logo dizendo, não sou um cientista… você é diferente! É um cientista de verdade? Então está claro! Trata-se de um experimento… a verdade em última instância. Mas, acredito eu, não existem provas. Tudo pode ter sido inventado por alguém, é o que acha? Tudo isso é uma invenção idiota! Estão enganando a todos nós, mas quem? Não se sabe quem. E para que? Tampouco se sabe…
- Apesar de tudo seria interessante saber quem e por que.
- Não é nada disso! 'Quem e para que’! Para que servem seus conhecimentos? Que consciência poderá ser mais pura? Qual consciência irá doer? A minha? Eu não tenho uma, não tenho nada além de nervos. Quando critico algum canalha, eu sofro. Elogio outro canalha, mais uma ferida. Para eles tanto faz o que eu escrevo. Engolem qualquer coisa. Coloque sua alma e seu coração e eles engolirão também. Tanto faz a porcaria que eu escrevo. Todos, sem exceção, são gente instruída, e tem fome sensorial, e todos ronroneiam ao meu redor, jornalistas, redatores, críticos e damas da sociedade sem fim… mas logo elas se gabam diante dos maridos, que eu me dignei a dormir com elas! E todos exigem, me dá me dá! E eu dou, e sinto asco, faz tempo que deixei de ser um escritor. Que escritor dos infernos sou eu que odeio escrever, se para mim escrever é um martírio, uma ocupação desagradável e vergonhosa, algo como uma dolorosa função fisiológica.
Calou-se subitamente e permaneceu por um pouco com os olhos fechados. Um tique nervoso contraiu a musculatura do seu rosto.
- Antigamente eu achava que eu era necessário para eles – prossegue em voz baixa – Achava que alguém podia se tornar melhor e mais honrado por haver lido meus livros. Mais puro… não sou necessário para coisa alguma! A única coisa que tenho é minha casa. Com piscina. Quando morrer, dois dias depois terão me esquecido e começarão a devorar outro qualquer. Queria fazê-los à minha imagem e semelhança. Mas eles me transformaram à maneira deles. Antes o futuro era só uma repetição do presente, e todas as mudanças se vislumbravam no horizonte. Agora não há mais futuro. Uniu-se ao presente. Mas será que estamos preparados para isso? Eu tentei prepará-los, mas eles não querem se preparar. Tanto faz para eles, não fazem mais do que engolir a tudo.
- Quanta veemência – disse devagar o Professor – muita veemência... você está disposto a salvar a todos, Senhor Escritor!
- Me deixe em paz! Responde o outro sem abrir os olhos.
- Não, não mesmo, isso é muito perigoso, não percebe? Um benfeitor veemente!
O Escritor se senta de frente ao Professor e o encara furioso.
- Quem é perigoso? Quem? Eu quero tranqüilidade, entende? A Paz!
- Entendo! Mas você não vai para o deserto e busca uma vida tranqüila. Você vai para a Zona
O escritor se põe novamente de costas ao barranco e tapa os olhos com as palmas das mãos.
- Ouça, não quero discutir com você! Da discussão nasce a luz... maldita seja!


FIM DA SEGUNDA PARTE