sábado, 26 de setembro de 2009

Stalker (A máquina dos desejos) - Parte 3 de 6


TERCEIRA PARTE


O Stalker abre os olhos.
Permanece deitado por um pouco, ouvindo com atenção.
Logo se levanta e sai da sombra e para junto ao Professor e ao Escritor que estão dormindo. Os examina com cuidado, primeiro um e depois o outro. Sua expressão é concentrada e parece medir-los, finalmente mordendo o lábio inferior, ordena em voz baixa:
- De pé!

A estreita ravina entre as colinas está cheia de um liquido viscoso e turvo.
Seguem por um terreno pantanoso e podre. Sobre a superficie da água vê-se uma névoa repulsiva. O Stalker vai à frente com o Escritor e o Professor ao final. Respiram com dificuldade, vê-se que estão exaustos.

Derrepente o Stalker para como se tivesse tropeçado em um obstáculo invisível. Parece preso ao chão e move a cabeça cheirando o ar.
O Escritor se detém ao lado e apoia-se num bastão, percebe algo errado.
- O que se passa? Pergunta.
- Silêncio! Disse com a voz baixa o Stalker

Faz um movimento como se fosse andar, mas está imóvel no mesmo lugar. Mete a mão no bolsinho e puxa uma arruela, vai lançá-la mas não se decide. A arruela cai ao chão. Seu rosto lívido está banhado de suor.

- Se não for isso... sussurra.
Retrocede abrindo os braços. Depois sem olhar, pega o bastão do Escritor e o afunda ao pântano junto ao seu pé.
- Por aqui será mais seguro... venham, sigam-me!
Avançam com cuidado, afundando até os joelhos quase.
- Pra que? Pergunta o Escritor aborrecido e cansado.
O Stalker não responde, tateando o caminho com a vara, ele vai se afastando da parte seca.

Em meio à névoa, com água na cintura, caminham com dificuldade, caindo e se levantando, submergindo e voltando à tona cuspindo e tossindo. Não podem parar, pois o pântano os engoliria.

Subitamente o Professor afunda até a altura do pescoço, se esforça para sair, mas não consegue.
- Socorro! Grita com suas últimas forças.
O Stalker se vira. Seu semblante reflete sincero horror.
- Aonde pensa que vai? Grita com a voz rouca e avança para o Professor – A mochila! A mochila!
O Professor faz um movimento com a cabeça ainda na superfície.
- O bastão! Dê-me o bastão! Grita afônico.
-Tire a mochila!
- Largue da mochila, seu idiota! Grita o Escritor igualmente impotente preso ao pântano.
- O bas... - a cabeça do Professor afunda e reaparece e ele ruge – Me dá o bastão seu imbecil!
Tenta agarrar-se ao bastão estendido e falha, por fim o encontra e o segura com as duas mãos.
É então puxado para a parte seca.

- Você ia direto pro fundo, feito uma pedra, grita com ele o Stalker – E me levaria com você.
O Escritor havia sido deixado sozinho, arrastando-se pelo pântano, sem largar a mochila.
- Não devia ter nos metido ali, argumenta o Professor.
- A você não importa onde decido meter-nos.
- Pois a mochila também pouco te importa!
- O que leva dentro dela? Um tesouro? Levantou a voz o escritor, mas o Professor fingiu não o ouvir.
- Parece mentira! Estávamos indo por um caminho plano e seco, e derrepente você cisma em nos enfiar nesta... latrina!
- O olfato me disse que deveríamos fazê-lo... entende? O olfato!
- Que olfato!
- Quatro olhos imbecil! O Stalker bate em seus joelhos e pedaços de barro seco caem.
- Meus olhos não são da sua conta! E basta! Uma besteira atrás da outra...
- Não é besteira! Eu devia te bater com este cajado! Me dá a garrafa… por causa de calças secas esteve a ponto de ir para outro mundo.
- Que calças? Perguntou o Escritor.
- Não é o que ele leva na mochila? Ou seria comida?
- O que levo na mochila não importa! Eu não podia me libertar, não podia! Teria me afogado antes de largar a mochila, maldito seja!
- Bom, já basta! O Stalker se levantou e tomando a frente, escrutinou o caminho – Onde viemos parar? Não conheço este lugar! Por que o canalha do Raposa não assinalou nada sobre este pântano... e tem algo ali... claro, pode ser que tenha aparecido depois dele...
- A propósito – deixou ouvir sua voz o Professor – O Raposa foi o único que chegou ao tal lugar?
- Não conheço outros.
- E quem tentou e não chegou lá? Perguntou de pronto o Escritor.
- Sei de alguns. Eu também não cheguei.
- E para que tentaram? Perguntou o Professor.
- Cada qual tinha seu sonho... Dinheiro principalmente, claro. Acha que não sei por que você está aqui? Quer que eu diga? Não te admitiram na expedição científica e você está aqui para provar que foi um equivoco! Quer resolver assuntos pessoais e fazer alguma descoberta que os deixe de queixo caídos. Que digam: Olha, o nosso Professor é realmente um homem importante! Vamos lhe dar um prêmio Nobel.
- Está bem... e você?
O Stalker calou-se contrariado.
- Tenho meus motivos... familiares.
- Como o Raposa? Perguntou baixinho o Professor.

O Stalker se virou bruscamente e o encarou, mas o Professor tinha os olhos cerrados, os braços cruzados sobre o peito.
- Não me compare com ele! Disse o Stalker em tom ameaçador – Você não o conhece, nunca o viu e nem me conhece. Não há como comparar.
- Não sabe de nada, disse o Professor sem abrir os olhos.
- Deixe-o, está bem – disse irritado o Escritor –...fique com seu ‘não sabe nada de nada’. Não sabe nem o que é o binômio de Newton. Motivos familiares... perdeu tudo nas corridas, não tem o que comer em casa, não quer trabalhar por que é um pobretão de nascimento... amigo das biritas e das cartas... e das mulheres, claro, um mendigo e uma bruxa pedindo dinheiro... e com um monte de filhos, uns bandidos que não saem da carceragem... 'não sabe nada de nada'...

Durante todo o discurso o Stalker ficara ruborizado, tentando dizer algo e interrompê-lo, mas sem poder. E quando o Escritor se calou então disse:
- Você... como pode falar assim de mim? O que sabe? Você é um escritor vagabundo e vendido à melhor oferta... deveria escrever nas paredes de banheiros, seu aproveitador... e da minha filha, o que você sabe? Nasceu inválida, sabe disso? É apenas uma criaturinha, mas a fazem sofrer porque é cega e anda com muletas! Tudo que eu trouxe da Zona gastei com médicos, que nunca prometeram cura alguma. Professores tão bons! Como você! Para que falar com você, imbecil!

Levantou-se bruscamente e saiu dali desaparecendo na névoa.

- Não devia ter dito isso – disse o Professor.
- Por quê? Me diga por quê? Tudo que ele disse foi mentira. Acabou de inventar!
- Não mesmo. Eu o conheço faz tempo. Sua biografia é de meter medo. Começou como Stalker ainda cedo, esteve várias vezes na prisão e só se deu mal na vida. E a sua filha é mesmo uma mutante, uma vitima da Zona, como dizem os jornais. Faz tempo que trabalhou no instituto, então...
- De todo jeito ele mente. Não se trata da filha. Falou da filha pela primeira vez. Mas os marginalizados não gostam de ser chamados assim. Precisam de ajuda, que lhes dêem de bandeja nobres sentimentos... o patrão diante do coitado, o trata com benevolência, mas volta para casa com um saco de dinheiro...
Faz uma pausa.

O Professor sorri sarcasticamente.
- Que volte com migalhas, mas já é uma fortuna. Que volte vivo, sorte dele. Que o alcance uma bala da patrulha, azar o dele. E tudo o destino...
- Que sabedoria desanimadora é essa?
- Folclore local. Você esquece sempre que estamos na Zona. Na Zona não se pode fazer movimentos bruscos, nem soltar expressões ásperas.
- Perdão, mas não gosto quando enchem de filosofia aquilo que é o mais elementar possível.
- Bom... mas você gosta de alguma coisa... de uma maneira geral?
- Gostava de escrever, mas agora não gosto de nada.
- Você nunca pensou no que vai acontecer com todas as pessoas que acreditam neste lugar para o qual estamos indo? Perguntou o Professor.
- Muitos acreditam que ele existe, mas como chegarão até lá?
- Chegarão meu amigo, chegarão. Um entre cada mil consegue chegar. Por que o raposa chegou... e o raposa não é o pior. Tem outros. Não precisam de ouro, nem tem assuntos familiares para tratar. Donos do mundo, meu caro! Rechaçaram o mundo inteiro à sua vontade, todos frustrados imperadores da Terra, grandes inquisidores, Fuhrers de todo o tipo, benfeitores e simpatizantes... Já pensou nisso?
- Francamente não, respondeu o Escritor.
- Pois pense. Estou inclinado a pensar nas histórias assustadoras que ocorrerão. Nas boas não, mas nas assustadoras sim...
O Escritor torceu a boca e olhou firme o Professor.
- Apesar de tudo você não compreende estas pessoas – disse ao fim – mais uma vez os filósofos de plantão. Claro, é possível que consigam refazer o mundo inteiro, mas na realidade não se importam com o mundo, tudo o que quer são as mulheres, aguardente e quanto mais dinheiro melhor... porque lhes falta imaginação Professor! Ou em último caso, desejarão que um automóvel atropele seu chefe. Compreende de onde saem todos estes Fuhrers? Mesmo que não goste de mulheres, ou não se importe com os críticos, ou tenha um bafo horroroso, você professor, vai se convencer disso quando chegar ao local, por que eu te conheço muito bem. Tem escrito na sua cara que pensa em fazer um bem monstruoso para toda a humanidade. Outro em meu lugar ficaria assustado com isso. Mas eu... vê? Estou tranquilo.
- Parece tranquilo – disse o professor – Sim. Você nos analisa com sua própria régua. Não sei se você seria um bom político ou sociólogo... Mas e você?
- Não se meta em meus assuntos. Para mim o mundo de vocês não vale um peido. Do mundo de vocês só me interessa um homem, este aqui – o Escritor aponta com o dedo para o próprio peito – Este homem não é o máximo? Está muito bem neste mundo, apesar de tudo tem assentado tijolos de ouro...
- Ouça – disse o Professor – Não se engane. Você mesmo disse que estava indo para lá em busca de inspiração, em busca de beleza e tranquilidade...
- Mas quando 'aquilo' souber quem eu sou, terei tranquilidade, inspiração e beleza...
- E se entender que você é uma porcaria? E se entender que você não só não fez bom uso de seus tijolinhos de ouro, mas que os roubou de outros? Que bela tranquilidade!
- Isso, meu querido Einstein, não é problema seu. Dedique-se por favor à salvar a sua humanidade, mas sem contar comigo.
- Sim, sim, eu compreendo. O que me preocupa é outra coisa. A mim me parece que você simplesmente quer que todos te deixem em paz, se possível para sempre.
- Palavras sábias.
- Todos e, portanto, você também – disse o Professor – por este motivo eu te peço que pense bem no porquê você está indo até aquele lugar. Pense bem! Por que existem milhares de milhões de seres que não tem culpa alguma por você ser um merda!

O Stalker volta.
- Chega de descansar! Andando!


FIM DA TERCEIRA PARTE