domingo, 18 de outubro de 2009

Entrevista com Jeff VanderMeer sobre o lançamento da antologia Steampunk



Então, o que é "steampunk"?

"Algo cool, com uma linguagem elaborada. Ciência inventada - reinventada" disse James Blaylock, um pioneiro do steampunk e autor do livro Lord Kevlin's Machine.

"Steampunk (um sub-gênero da ficção científica) oferece em quantidade, aquilo que é mais visualmente excêntrico e aventureiro, sobre a época vitoriana e suas especulações científicas."

A antologia Steampunk editada por Ann e Jeff VanderMeer, faz barulho e cliques com engenhocas, dirigíveis e robôs a vapor de doze metros de altura.

As treze histórias contidas nesta coleção são reforçadas por um prefácio, uma introdução e dois ensaios. Os editores não são novatos neste tipo de ficção. Ann VanderMeer é editora da Weird Tales e Jeff VanderMeer é vencedor do prêmio World Fantasy, autor de Shriek: bem como de uma coleção de histórias conectadas, situadas no mundo imaginário de Ambergris.

"Em Steampunk", escrevem os VanderMeers em seu prefácio, "nós tentamos fornecer uma mistura do tradicional e do idiossincrático, o novo e o velho, mantendo-se fiel à idéia de steampunk como uma diversão pseudo-vitoriana sombria. Você vai encontrar histórias sobre golens mecânicos, máquinas infernais, os personagens de Júlio Verne e é claro, dirigíveis."

A antologia resultante é tanto prazeirosa como um alívio, já que os VanderMeers encontraram uma maneira de reforçar o gênero sem sugerir (ou impor) um conjunto restrito de parâmetros.

"Steampunk", diz Magpie Killjoy, editor da SteamPunk Magazine, "é uma forma filosófica de reanalisar nossas interações com as máquinas. Para este fim, encontramos na era dos motores a vapor, as promessas, verdadeiras e falsas, que nos foram oferecidas por volta do século 19. Assim steampunk é uma estética, um gênero, uma subcultura, e uma filosofia que gira em torno deste entendimento. "

No coração do steampunk, como um ethos, diz Paul DiFilippo, autor dos romances Joe's Liver e Fuzzy Dice, existe o desejo de "voltar a uma época em que a tecnologia e o artesanal ainda não tinham sido separados, quando partes do nosso mundo permaneciam inexploradas, onde o heroísmo individual vinha antes de tudo, quando a linha entre o bem e o mal era clara, e você poderia vestir-se bem. "



Pergunta: Você tem uma estratégia como antologista?

Jeff VanderMeer: Procuramos [Ann e eu] trabalhar como uma equipe, a partilhar tarefas e dividi-las conforme nossas outras atividades de trabalho permitam. Temos uma abordagem consistente contudo, de querer que nossas antologias sejam bem organizadas, abrangentes e não apenas profundas, mas também surpreendentes de alguma forma. Se um leitor ao ler nossas antologias, não encontrar algo de muito diferente e maravilhoso, talvez então não estejamos fazendo bem nosso trabalho.

Pergunta: Que desafios você enfrenta como um antologista em geral e em particular com o steampunk?

JV: Não é só escolher a combinação certa de material, mas ser capaz de adquiri-la para a reedição nas antologias. Para as antologias originais, certificamos de torná-las as mais abertas possíveis aos novos escritores.

Pergunta: Quais são os prós e os contras de trabalhar em conjunto?

JV: Eu não escuto muito bem às vezes. Mas nós raramente discutimos. Acho que em geral, trabalhar juntos nos aproxima.

Pergunta: Houve algo engraçado e/ou frustrante durante este processo?

JV: Em Steampunk não. Em New Weird tivemos Clive Barker que nos telefonou para dizer que seu conto fora publicado com erros tipográficos. Realmente não é o que se espera para a primeira conversa por telefone com alguém. Mas ele disse que gostou muito da antologia e era um erro de digitação que o perseguia por dezoito anos.

Pergunta: Num programa de rádio recentemente você falou sobre "tecnologia verde" em relação ao steampunk. Pode explicar melhor?

JV: Embora possa não ser verdade para a indústria da era vitoriana, eu sinto que um segmento da cultura moderna steampunk vê a re-mecanização da tecnologia, como uma maneira de nos mover em direção ao pensamento ecológico. No sentido de que poderiamos ser capazes de consertar as coisas (quem realmente pode, hoje em dia, consertar seu próprio carro, já que está tudo computadorizado?), o primeiro passo para ser verdadeiramente independente, plantar sua própria comida, etc. Um futuro de sustentabilidade exige que tomemos esta medida em um nível individual.

Pergunta: Nas duas últimas décadas você produziu uma grande variedade de trabalhos de edição, blogs para a Amazon.com, jornalismo para lugares como o The Washington Post e Publisher's Weekly e, claro, escreveu contos e romances. Será que aquilo que você escreve, que não é ficção, inspira você para escrever ficção?

JV: Não-ficção sob a forma de entrevistas e opiniões me expõe a outras formas de pensar a escrita. Eu também, muitas vezes, uso da não-ficção na minha ficção, para soar irônico ou absurdo.

Pergunta: O que você mais gosta em escrever?

JV: O ato físico da escrita - à mão ou teclando, perder-se neste processo. Envolver-se numa situação e com o personagem. Escrever um livro é um ato de imersão.

Pergunta: Onde uma história começa para você?

JV: No final. Até que eu saiba onde termina uma história ou um romance, na minha cabeça, eu não consigo começar. Até lá não posso colocar nada no papel. O fim geralmente muda quando eu chego nele, mas deve ter algum sentido antes de eu começar.

Pergunta: Você surpreendeu - e espantou - um bom número de fãs seus, por ter escrito Predator: South China Seas.

JV: Trabalhando em um mundo compartilhado, como o universo de Predator, eu tinha muita preocupação com o público. Eu estava interessado em escrever um romance que iria satisfazer o público de Predator primeiro, e se pudesse satisfazer também meus leitores, tudo bem. Mas esse não era o objetivo.

Eu acho que com mundos compartilhados você tem que respeitar o público específico dele, enquanto que para os meus romances, a melhor maneira de servir ao meu público é ignorá-lo. Satisfazer-me em primeiro lugar. Isso significa, claro, que o livro Predador é muito menos pessoal e também muito diferente do meu trabalho habitual. Estou feliz com os resultados, mas não tenho ideia do que o meu público vai pensar. Eu só espero que os fãs de Predator gostem.

Pergunta: E onde se inicia uma antologia para você?

JV: Isso realmente depende da antologia. Primeiro, qualquer antologia que eu faço é uma colaboração com minha esposa Ann, que atua como co-editora. Depende do projeto e de outras limitações de tempo. Às vezes uma editora nos procura, como foi o caso de New Weird e de Steampunk. Em outros casos temos uma idéia e buscamos uma editora.

A chave, no início, é tentar certificar-se do projeto da editora e do formato (capa dura ou não) se adequa corretamente. É também um desafio inicial de pensar a antologia em termos de restrição e oportunidade. O que significa dizer que você pretende explorar a idéia da forma mais completa e profunda possível, mantendo um foco que vai dar a forma da antologia.

Pergunta: Que história da antologia Steampunk realmente te ganhou?

JV: Eu amo "The Minutes of the last Meeting' de Stephan Chapman. Ela tem uma bela estrutura experimental e acessível. Eu também amo a maneira perversa que só Joe R.Lansdale dá ao gênero steampunk, como uma espécie de Deus impaciente.


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