sábado, 17 de outubro de 2009

Stalker (A máquina dos desejos) - Parte 6 de 6




SEXTA PARTE



Outra vez no bar.
O lugar está vazio. Atrás do balcão o corpulento atendente com o avental manchado.

Nossos personagens estão sentados na mesa do canto, sujos, maltrapilhos, com a barba de vários dias por fazer. À frente de cada um, há uma caneca de cerveja meio vazia.

O Escritor começa um discurso:
- …imagino este prédio como um gigantesco templo. Tudo que a imaginação já criou, a fantasia e o pensamento ousado do homem são tijolos de ouro, com que foram levantadas as paredes deste templo. Filosofia, livros, pinturas, teorias éticas, tragédia, sinfonias... até mesmo, porque não, as ideias científicas fundamentais. Tudo isso se deve a vossa tecnologia, os altos fornos, as colheitas… tudo para que se trabalhasse menos e se devorasse mais. As ideias científicas são os andaimes, guindastes... naturalmente necessários para se construir o templo, sem eles o templo seria impossível, mas eles cedem e desmoronam, e são erguidos de novo. Primeiro de madeira, depois pedra, de aço e plástico finalmente, mas não passam de guindastes e andaimes para se levantar o grande templo da cultura, objetivo maior e infinito da humanidade. Tudo morre, tudo é esquecido e desaparece, fica somente este templo... falando com franqueza, a humanidade existe unicamente para...

O Professor toma um gole da caneca e grunhe:
- Você se atreve a responder... para que serve a humanidade?
- Não me interrompa – diz o Escritor – é pouco educado! Existe unicamente – continua – para produzir obras de arte! Imagens da verdade absoluta.
Pausa.

O Escritor sorri irônico.
- É uma piada – acrescenta – Olhe aqui a cerveja... é cerveja isso não? Que tal tomarmos outra rodada?
- Não tenho mais dinheiro, fala o Professor.
- Eu tampouco, profere abatido o Escritor.
- Você acha mesmo que em toda parte vão te fazer fiado – diz irritado o Professor para o Escritor.
- Sim, menos aqui...

O Stalker deixa sobre a mesa várias moedas pequenas, junto com lixo, e move as moedas com um dedo contando-as.
- Aqui está – diz ele – tem o bastante para outras canecas.

Junto da mesa aparece o atendente, coloca com destreza as canecas entre eles, cheias de cerveja e cobertas de espuma. Retira aquelas vazias. O Stalker com ar compungido, observa o atendente e acerta a pilha exigua de moedas. O atendente faz um gesto tranquilizador e desaparece.

- É um leitor meu – diz o Escritor com ares de superioridade – ele me reconheceu!
O Stalker e o Professor olham para o sembante sujo do Escritor, para o enorme hematoma do seu olho direito, e o trapo ensanguentado sobre ele, olham e depois sem dizer uma palabra, bebem um grande gole das canecas.

- Não – diz o Stalker – isso não é beber de verdade camaradas! Vou telefonar agora mesmo para minha mulher e ordenar que me traga dinheiro.
O Escritor o segura pela manga.
- Para que? Telefonarei para qualquer redação.
O Stalker o rechaça.
- Calma ai... fui eu quem os convidou, e não você. Fique quieto ai!

Vai até o telefone público, marca um número e neste momento enxerga pela janela suja sua mulher chegando ao Bar. Desliga e retorna para a mesa.

Sua mulher vai até eles e diz ao marido:
- O que faz aqui sentado? Vamos embora!
- Agora mesmo – diz – mas sente-se um pouquinho. Sente conosco. Por que está com pressa?

Ela se senta satisfeita, pega-o pelo braço e olha para o Escritor e o Professor.
- Sabem que minha mãe era contra meu casamento com ele? Por que ele era um bandido de verdade. Metia medo a toda comarca! Era jovem e ágil como... bem, minha mãe dizia: É um stalker, um suicida, vai passar a vida na cadeia... e os filhos? Lembra, ela dizia, como são os filhos de um stalker... eu não discutia, eu sabia perfeitamente que era um suicida, que passaria a vida na cadeia e sabia quanto aos filhos. Mas o que eu podia fazer? Estava certa que seria feliz com ele. Sabia também, é claro, que passaria por maus momentos, porém mais vale uma felicidade amarga que uma vida apagada. Mas pode ser que tudo isso só tenha me ocorrido agora. Ele chegou junto de mim e disse carinhosamente ‘Vem comigo!’ e eu fui. E nunca me arrependi. Nunca! Passamos maus momentos. Tive que superar o medo. Passei vergonha, mas nunca me arrependi e nunca invejei a ninguém. Ele tampouco. O destino é assim. A vida é assim, somos como somos. E se não existissem tristezas na vida, não existiriam as alegrias. Seria muito pior. Nem haveria esperança. Assim é. Agora temos que ir. Vamos! Deixei a bebê sozinha.

Levantam.

- Estes são meus amigos – diz o Stalker – Até agora não consegui nada melhor...

Se vão.

O Escritor e o Professor observam o casal se afastar.




FIM