domingo, 29 de novembro de 2009

Entrevista com Gregory Benford




Pergunta: Além de ser um escritor premiado de ficção científica, você é um cientista de considerável distinção, professor de física dos plasmas e astrofísica. Como estas duas vocações e maneiras de olhar o mundo convivem? Será que o escritor de FC em você já tentou substituir o físico no meio de um experimento, ou é o cientista que controla a imaginação do escritor?

Benford: Há uma tensão entre as duas vocações, é claro - o mundo dis fatos versus o imaginário. No entanto a ciência balança entre os dois, como ocorre no  meu livro Cosm, que se passa no meu departamento de física e no presente, eu mesclo os dois mundos de uma forma lúdica. Mas a imaginação é fundamental para a ciência, por que é de onde vem as hipóteses, para que o trabalho duro de laboratório possa então verificar. Frequentemente tenho que escolher entre a plausibilidade científica e as necessidades do enredo, quando estou escrevendo. Geralmente faço com que a ciência, pelo menos, se sobressaia. Este stress inevitável vem de uma fidelidade ao material que, por exemplo, deixa muito a desejar na mídia "sci-fi", na sua integridade e poder. O filme 2001: Uma Odisséia no Espaço foi absolutamente FC Hard em sua maior parte, mas com um clímax transcendente, metafórico. Compare isto com Mission to Mars, tentando imitar essa estratégia, com um plano de missão plausível e provável unido a diversão e um molho de sentimentalismo. O resultado é um filme que parece ter sido feito por crianças com muito dinheiro e tempo para gastar, mas sem idéias.

Pergunta: Seu novo romance, Eater, apresenta uma inteligência extraterrestre alojada dentro do campo magnético de um buraco negro ambulante. No entanto, apesar das suas qualidades divinas, prova ser limitado pelas leis da física, como nós. Você acredita que há limites para o que é possível no universo e na ficção científica?

Benford: Limites nos definem e também a nossa obra. Um soneto com 20 linhas, sem rima, pode não ser ruim, mas não é um soneto. O Eater é a coisa mais próxima que eu poderia imaginar para o Livro de Jô, do Antigo Testamento. É completamente admissível pela física, e por isso mesmo é terrível. A imortalidade também.

Pergunta: Ao final de Eater, me peguei pensando sobre o fenômeno da consciência e o quanto nós realmente entendemos sobre isso.

Benford: Minha definição favorita de consciência é bastante geral, por isso se aplica a qualquer coisa: a capacidade de modelar tanto o mundo externo quanto ao mundo interno, sendo que no conjunto, um sabe do outro. Sendo assim, você pode entender os outros e antecipar seus movimentos e necessidades. Ao longo de Eater, este entendimento é falho, como se encontrássemos uma mente diferente. Mas nem toda ideia é sem sentido.

Pergunta: Seu trabalho é muitas vezes elogiado por oferecer retratos realistas de cientistas, como se os cientistas fossem exóticos, não fossem humanos. Menos comentado, mas igualmente digno de nota, penso, é a humanidade de seus cientistas.

Benford: Eu cubro uma parte da literatura por muito tempo negligenciada, sobre uma classe de pessoas com enorme impacto na sociedade, mas ainda não explorada corretamente. Os cientistas têm uma visão oblíqua do mundo e se comunicam mal com seu público, infelizmente. E eles ainda penalizam aqueles que tentam fazê-lo; como está sendo negada a Carl Sagan a entrada ao National Academy of Sciences, uma estupidez retumbante apoiada sobretudo pelos físicos de alta-energia ... a quem satirizei em Cosm, aliás.

Pergunta: Channing Knowlton, bravamente lutando contra o câncer é uma de suas criações mais consistentes, certamente está entre os personagens mais intensamente femininos que você já escreveu. Você sente por ela uma ligação em especial?

Benford: Eu gostei muito dela, sabendo que ela estava condenada desde o começo. Mas eu senti uma forte ligação com Alicia de Cosm, uma afro-descendente atrevida. E Julia, bióloga em Martian Race, também. Estranho é que eu não tinha notado ter feito personagens femininas tão centrais à minha obra, até bem recentemente.

Pergunta: E por que você acha que o fez?

Benford: Eu sinto que as mulheres são mais interessantes dramaticamente falando, do que os homens, porque elas têm mais escolhas reais a fazer em nosso tempo. Elas devem equilibrar casamento versus profissão, ter filhos ou não, muito mais do que os homens fazem, justamente porque elas podem se mover com fluidez de uma esfera para outra. Os homens sabem que irão trabalhar durante toda sua vida, ponto.

Pergunta: Em seu romance Timescape premiado com um Nebula, você escreveu sobre as tentativas de uma realidade futura de se comunicar com o seu passado, a fim de mudar a história e evitar um desastre ecológico. O tempo foi gentil com as especulações temporais desse romance?

Benford: Mais do que eu esperava, sim. David Deutsch usou da física do livro e criou uma teoria matemática. Ele até escreveu um livro sobre isso, sem ter nunca citado Timescape ... morro de medo destas bobagens da carreira acadêmica. As idéias do romance caminham para o centro do pensamento atual sobre o tempo, e todo mundo já sabe da conversão para a teoria moderna, especialmente na escolha entre as teorias das cordas.

Pergunta: Sua série Galactic Center trata do conflito entre humanos e máquinas inteligências. Como você acha que uma máquina ou a inteligência artificial (IA) irá provavelmente surgir (se é que já não ocorreu em algum lugar no cosmos), e existe alguma razão para supor que seria hostil aos seres humanos?

Benford: Eu só assisti a uma conferência da NASA, de um dia, sobre as implicações de inteligências artificiais alienígenas. Acredito que seria uma boa aposta a longo prazo para o SETI (Programa de busca de inteligência extraterrestre) mantendo uma estratégia por buscar sinais de rádio em um raio de mais de 155 anos-luz (onde existem 1.000 estrelas do tipo do nosso sol). Mas na verdade, algumas IA poderiam ser hostis a formas orgânicas, com medo que consumíssemos os recursos da galáxia, o que realmente uma cultura de vida bem longa, iria querer fazer. Podemos parecer um perigo para eles. Eu escrevi a série Galactic Center explorando estas ideias, em seis romances, por mais de 25 anos.

Pergunta: Em toda sua ficção, o universo está repleto de vida e de inteligência. E na verdade, aqui na Terra estamos descobrindo que encontramos vida sob as condições aparentemente mais inóspitas. Você acredita que há uma força anti-entrópica trabalhando no universo para favorecer o desenvolvimento e a evolução da vida?

Benford: Eu suspeito que sim, e apoio os experimentos para testar esta idéia: Procurar vida debaixo da superfície de Marte e expandir o SETI, como disse. Chega de teorizar! Precisamos de dados concretos. Só então saberemos se as leis do universo favorecem a inteligência, como suspeito.

Pergunta: Talvez seja estranho falar das raízes de um escritor de ficção científica. No entanto, não posso deixar de sentir que a sua herança sulista tem muito a ver com Galactic Center, a luta que dizimou a humanidade em uma gloriosa "causa perdida", contra adversários numericamente e tecnologicamente superiores.

Benford: É uma boa percepção. Eu escrevi recentemente um ensaio, "O Sul na Ficção Científica," e a propósito eu devo publicar no meu site, em  breve, eu espero. A família Bishop da série Galactic Center, vem dos meus primos, os Bishops, e eles falam com sotaque do sul, típico de Birmingham, Alabama, onde eu cresci

Pergunta: Que escritores e cientistas mais o influenciaram?

Benford: Oh Jesus... Hemingway e Heinlein, Faulkner e Forward... muitos. Dyson e Einstein, Minsky e Fermi (o último grande físico a trabalhar tanto na experiência quanto na teoria, como eu mesmo procuro fazer). Muitos.

Pergunta: Entre os seus romances qual é o seu favorito?
Benford: Against Infinity... o mais fácil de escrever também. Uma escolha estranha, eu sei.

Pergunta: O que você pode nos dizer sobre o filme que está sendo feito a partir de Cosm?

Benford: Está parado no Departamento de Desenvolvimento do Inferno da Fox: Jan de Bont será o diretor e estão em acordos para ter Dustin Hoffman e Angela Bassett. Estão á procura de um grande roteirista para fazer um trabalho melhor do que o último fez. Lembre-se que, menos de dez por cento de todos os projetos comprados por Hollywood, são lançados.

Pergunta: Vou resistir à tentação de perguntar sobre a busca de vida inteligente em Hollywood e ao invés disso vou te perguntar sobre este novo século. Será que a nossa espécie sobreviverá às suas maravilhas e seus perigos?

Benford: Claro, com facilidade. Somos maus, estúpidos, feios e aterrorizamos todas as outras espécies no planeta, mas somos difíceis de matar.

Entrevista concedida a Paul Witcover - Science Fiction Weekly