sábado, 7 de novembro de 2009

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 2



CAPÍTULO 2

Este capítulo é dedicado à Amazon.com, o maior site de vendas de livros pela internet do mundo.
A Amazon é uma loja fantástica onde você pode conseguir praticamente qualquer livro já publicado (e tudo mais, desde laptops até grelhas), onde as recomendações foram levadas ao seu ponto mais alto, eles permitem que os clientes se comuniquem diretamente com outros clientes, e constantemente inventam novas e melhores maneiras de conectar livros e leitores. A Amazon sempre me tratou como ouro - o fundador, Jeff Bezos, até colocou uma nota sua em uma revisão para meu primeiro romance - e eu compro neles adoidado (olhando minha lista de compras, parece que eu compro algo lá a cada seis dias, aproximadamente.).
A Amazon reinventou o processo de venda de livros no século vinte e não consigo pensar em um grupo melhor de pessoas para encarar esta espinhosa tarefa.



“Estou pensando em estudar física quando for para Berkeley” disse Darryl. Seu pai ensinava na Universidade da Califórnia em Berkeley,o que significa que ele ganharia uma bolsa de estudos quando fosse para lá. E nunca houve nenhuma dúvida na família de Darryl sobre em que faculdade ele iria estudar.

“Legal, mas você não podia pesquisar online?”
“Meu pai disse que eu deveria ler este livro. Além disso, eu não planejei cometer nenhum crime hoje.”
“Escapar da escola não é crime. É uma infração. São coisas totalmente diferentes.”
“Marcus, o que vamos fazer?”
“Bem, se eu não consigo esconder o livro, então vou precisar detoná-lo!”

Matar arphids era uma arte pouco conhecida. Nenhum comerciante queria que fregueses maliciosos andassem pelo shopping deixando para trás um monte de mercadorias lobotomizadas sem seu código em barra invisível, então a indústria havia se recusado a criar um ‘sinal assassino’, com o qual você poderia desligar um arphid. Com a ferramenta certa era possível reprogramá-lo, mas eu odiava fazer isso com os livros da biblioteca. Não era como arrancar páginas de um livro, mas ainda assim era ruim, pois um livro com o arphid reprogramado não poderia voltar à biblioteca, pois não poderia ser mais encontrado. Seria como transformá-lo numa agulha em um palheiro.

Aquela situação só me deixou com uma saída: detonar a coisa. Literalmente, 30 segundos em um forno de microondas acabariam com qualquer arphid no mercado. Como o arphid não responderia quando fosse checado de volta na biblioteca, então eles simplesmente mandariam imprimir um novo para o livro, o recodificariam no catálogo informativo de livros e ele voltaria para as prateleiras.
Tudo que precisávamos era de um forno de microondas.

“Espere uns dois minutos e a sala dos professores estará vazia”, eu disse.
Darryl agarrou o livro e seguiu para a porta: “Esqueça, nem pensar. Vou para a aula.”
Agarrei-o pelo ombro, forçando-o a ficar. “Vamos lá D, calma. Vai dar tudo certo!”
“A sala dos professores? Se liga, Marcus. Se me pegarem mais uma vez, sou expulso. Me ouviu? Expulso.”
“Não vão te pegar!”, eu disse. Se havia um lugar onde você não acharia um professor era a sala dos professores.
“Vamos lá na volta.” A sala tinha uma pequena cozinha em um dos lados, com sua entrada particular para aqueles que queriam apenas pegar uma xícara de café. O forno de microondas - que cheirava a pipoca e sopa pronta - ficava em cima de um frigobar.
 
Darryl suspirou e eu pensei rápido: “Olha, o sinal já vai tocar. Se você for para a sala de estudo agora, vai perder o barco. Melhor não aparecer por aí. Posso entrar e sair de qualquer sala no campus, Darryl. Você sabe que eu posso. Vou te proteger!”
Ele suspirou de novo. Esta era uma das “dicas” de Darryl: sempre que ele começava a suspirar,estava prestes a concordar.
“Simbora”, disse, e saímos

Foi perfeito. Passamos pelas salas, pegamos as escadas dos fundos para o porão e saímos pelas escadas da frente bem diante da sala dos professores. Nenhum som vinha de trás da porta; eu girei a maçaneta e empurrei Darryl para dentro antes de fechar a porta.
O livro coube direitinho dentro do microondas, que parecia mais sujo do que da ultima vez. Eu costumava vir ali para usá-lo. Cuidadosamente, embrulhei o livro em papel toalha antes de colocá-lo dentro. “Cara, estes professores são uns porcos”, falei.
Darryl, pálido e tenso, nada disse.
O arphid morreu soltando fagulhas, o que foi muito legal (Não tanto quanto o efeito que conseguimos quando se aquece um cacho de uvas congelado, que era algo realmente inacreditável.)
Agora podíamos escapar do campus em perfeito anonimato.
Darryl abriu a porta e saiu, comigo em seus calcanhares. Um segundo depois ele pisava meus tênis, me empurrando com os cotovelos, de volta para a pequena cozinha de onde tínhamos acabado de sair.
‘Volta, rápido! É o Charles!’ Sussurrou nervoso.

Charles Walker.

Estávamos na mesma série e eu o conhecia há tanto tempo quanto Darryl, mas as semelhanças acabavam por aí. Charles sempre fora grande para a sua idade, e agora que estava jogando futebol americano, ficara ainda maior. Ele tinha problemas sérios de controle de raiva: graças a ele, eu perdi um dente de leite na terceira série. Ele conseguia escapar das punições sendo o maior dedo duro da escola.
Era uma péssima combinação: um brigão que era também alcagüete, que tinha um enorme prazer em levar aos professores qualquer infração que encontrasse. Benson amava Charles. Charles havia deixado transparecer que tinha algum tipo de problema na bexiga, o que dava a ele a licença para andar pelos corredores da Chávez, durante as aulas, procurando alguém que pudesse delatar.
A última vez que Charles me arranjara problemas, tinha terminado comigo desistindo de uma partida de LARP. Não tinha a intenção de deixar que ele me pegasse de novo.

“O que ele está fazendo?”
“Ele está vindo para cá, é o que está fazendo.”  Darryl disse tremendo.
“OK, tá na hora de contramedidas de emergência.” Peguei meu telefone. Tinha planejado isso com antecedência. Charles nunca me pegaria de novo. Passei um email para o servidor de casa e ele começou a agir. Segundos depois o telefone de Charles zuniu espetacularmente. Eu tinha toneladas de chamadas simultâneas aleatórias e mensagens de texto prontas para serem enviadas, causando gorjeios e trinares o bastante para obrigá-lo a desligar e continuar desligando sem parar. O ataque era acompanhado de um botnet, o que fazia com que me sentisse mal, mas era por uma boa causa.

Botnets infectaram computadores por toda a vida. Quando você pega um worm ou um vírus, seu computador manda uma mensagem para um canal de chat de IRC (Internet Relay Chat). A mensagem diz ao botmaster - o cara que soltou o vírus - que o computador está pronto para ser invadido por ele.

Botnets são extremamente poderosos, pois podem comprometer milhares e até centenas de milhares de computadores, espalhando-se por toda internet, pegando as conexões de banda-larga mais apetitosas nos PCs caseiros mais potentes. Estes PCs normalmente funcionam de acordo com a vontade de seus donos, mas quando um botmaster os aciona, eles surgem como zumbis prontos para obedecer a suas ordens.

Haviam tantos PCs infectados na internet, que o preço de usar seus serviços por uma hora ou duas em uma botnet caiu. A maioria destas coisas trabalhava para aqueles que espalhavam spam, distribuindo spambots e enchendo sua caixa de entrada de correio com anúncios de pílulas para os ossos ou novos vírus que podem te infectar e recrutar sua máquina para juntar-se à botnet.

Eu usei apenas 10 segundos do tempo de três mil PCs, ordenando que cada um mandasse uma mensagem de texto ou chamada de voz para o telefone de Charles, cujo número eu tirara de uma caderneta de notas fedorenta da mesa de Benson, durante uma visita infeliz ao seu escritório.

Não é preciso dizer que o telefone de Charles não estava equipado para lidar com isso. Primeiro a memória de seu telefone encheu-se de SMSes (torpedos), o que causou o acionamento das rotinas de operação que precisavam fazer coisas como controlar a campainha e registrar cada um dos números de retorno das chamadas fictícias (você sabe que é muito fácil gerar um número de retorno falso em uma chamada? Existem umas cinqüenta maneiras de se fazer isso - procure no Google ‘SPOOF CALLER ID’)

Charles parou embasbacado e passou a bater furioso no aparelho. Suas sobrancelhas finas se mexiam e contorciam como se estivesse lutando contra demônios que haviam se apoderado do seu aparelho mais querido. O plano estava funcionando bem, mas ele não estava fazendo o que eu achava que iria fazer em seguida - supostamente ele deveria ir para algum lugar se sentar e tentar consertar seu telefone.

Darryl bateu no meu ombro e eu me afastei da brecha aberta da porta.
“O que ele está fazendo?” Perguntou Darryl sussurrando.
“Eu zoei com o telefone dele, mas ele está só parado lá, ao invés de ir embora.” Não seria fácil colocar aquela coisa para funcionar de novo. Uma vez que sua memória estivesse completamente cheia, seria difícil recuperar o código para apagar as mensagens falsas e não havia jeito fácil de apagar as mensagens de texto naquele aparelho, o jeito era apagar uma por uma de milhares de mensagens.
Darryl assumiu meu lugar na porta, espiando pela brecha. Um segundo depois seus ombros começaram a tremer. Fiquei assustado imaginando que ele estava entrando em pânico; mas quando ele se voltou, vi que estava rindo tanto que lágrimas corriam em suas bochechas.
“Galvez acabou de ferrá-lo por ficar no corredor durante sua aula. Ela estava adorando”.

Apertamos as mãos solenemente e voltamos para o corredor, direto para as escadas, dando a volta e seguindo pela porta dos fundos, passando a cerca e saindo em direção ao sol maravilhoso naquela tarde na Missão. A rua Valencia nunca me pareceu tão linda. Olhei meu relógio e gritei:
‘Vambora! O resto da galera vai nos encontrar em vinte minutos.’

#

Van nos reconheceu primeiro. Ela estava no meio de um grupo de turistas coreanos, que era uma das suas maneiras prediletas de se camuflar quando fugia da escola.  Desde que o monitoramento da cabulagem se tornou parte da internet, nosso mundo é cheio de donos de lojas intrometidos e xeretas que se encarregam de nos delatar na rede para os administradores escolares.
Ela saiu da multidão e se juntou ao bando. Darryl tinha uma queda por Van desde sempre, e ela era doce o bastante para fingir que não sabia disso. Ela me abraçou e foi em direção a Darryl, lhe dando um rápido beijo fraternal no rosto que o fez ficar vermelho até as orelhas.

Os dois faziam uma dupla engraçada. Darryl era um pouquinho gordo, mas nada demais, e ficava vermelho a cada vez que ficava excitado. Tinha barba desde 14 anos, mas graças a Deus ele começou a se barbear após um breve período chamado por nós de “Os anos Lincoln”. E ele era alto. Muito, muito alto. Alto como um jogador de basquete.

Van era quase meia cabeça mais baixa do que eu, magra com cabelos compridos negros elaboradamente loucos, cheios de tranças em penteados que ela pesquisava na rede.  Sua pele era ligeiramente bronzeada, olhos negros e ela adorava anéis de vidro imensos, do tamanho de rabanetes, que faziam barulho quando ela dançava.

‘Cadê Jolu?’ Perguntou.
‘Como vai Van?’ Perguntou Darryl com uma voz esganada. Ele sempre estava um passo atrás na conversa, quando Van estava perto.
‘Tô legal D. Como vai o seu mundinho?’
Ohhh, ela era malvada, malvada mesmo. Darryl quase desmaiou.

Jolu o salvou de uma desgraça social prestes a ocorrer. Apareceu usando uma jaqueta de basquetebol vários números maior que o seu, tênis bacanas e um boné do seu lutador mascarado mexicano predileto. El Santo Junior, virado ao contrário. Jolu se chamava Jose Luis Torrez, e completava o quarteto. Ele vinha de uma escola católica super-restrita em Outer Richmond, então não tinha sido fácil escapar de lá. Mas ele sempre conseguia. Ninguém era tão bom em escapar da escola como nosso Jolu. Ele gostava da jaqueta, pois o fazia passar por gente comum - além de parecer estilosa em certas partes da cidade - e escondia seu uniforme escolar, que seria um alerta para os idiotas xeretas que tinham o número do serviço de caça-gazeteiros armazenado em seus telefones.

“Quem está pronto para ir?” perguntei e todos disseram ok.
Tirei o meu telefone e mostrei o mapa que eu havia baixado no BART.

“Assim que eu puder agir, voltamos para o Nikko e vamos ao O’Farrel, e seguimos pela esquerda até Van Ness. Lá, em algum lugar, vamos encontrar o sinal wireless.”
Van fez uma careta. “É uma parte asquerosa de Tenderloin.”
 Eu não podia argumentar com ela. Aquela área de São Francisco era das mais nojentas - você vai para a entrada da frente do Hilton e encontra aquela coisa pra turista, como as estações finais dos bondes e restaurantes familiares. Na direção contrária vai parar no Loin, para onde vão todos os travestis e prostitutas, cafetões casca-grossa, vendedores de drogas e onde todos os sem-teto da cidade se concentram. Nenhum de nós tinha idade o bastante para fazer parte do que eles vendiam e compravam, apesar de haver várias prostitutas adolescentes batalhando em seus negócios pelo Loin.

“Olhe pelo lado positivo. A única vez que você precisa ir naquelas bandas é à luz do sol. Nenhum dos outros jogadores chegará perto de lá até amanhã de manhã. Isso, em termos de ARG, se chama uma vantagem inicial monstruosa.”

Jolu riu. “Você faz isso parecer como boa coisa.” Ele disse.
“Estamos nessa juntos”, eu disse.
“Vamos ficar falando ou vamos vencer?” disse Van. Depois de mim, ela era a jogadora mais durona do nosso grupo. Leva a sério a coisa de vencer.
Saímos dali, quatro bons amigos, em seu caminho para decodificar uma pista, ganhar o jogo - e perder para sempre tudo aquilo que estimávamos.

#

O componente físico da pista de hoje era um grupo de coordenadas de GPS - haviam coordenadas para a maioria das grandes cidades onde HFM era jogado - onde encontraríamos um ponto com acesso ao sinal de WiFi.  Aquele sinal estava sendo deliberadamente interferido por outro ponto de WiFi próximo, que estava escondido de maneira a não poder ser encontrado por buscadores de WiFi convencionais, pequenos o bastante para pendurar num chaveiro, e que diziam quando você estava dentro do alcance de um ponto de acesso aberto para uso gratuito.

Nós tínhamos que rastrear a localização do ponto de acesso escondido medindo a força da interferência sobre aquele ‘visível’, encontrando o ponto onde ele misteriosamente ‘enfraquecia’. Lá acharíamos outra pista - a última vez tinha sido um dia de graça no Anzu, o pretensioso restaurante de Sushi no hotel Nikko em Tenderloin. O Nikko pertencia à Japan Airlines, um dos patrocinadores da Harajuku Fun Madness, e o staff fez uma tremenda confusão conosco quando nós finalmente encontramos a pista. Deram-nos tigelas e mais tigelas de miso (sopa) e nos fizeram provar uni, que era sushi feito de ouriço do mar, que tinha textura de queijo derretido e um cheiro de cocô de cachorro. Mas o gosto era bom. Foi o que o Darryl me disse: eu não comeria aquela porcaria de jeito nenhum.

Encontrei o sinal do WiFi com o buscador de WiFi do meu telefone, três quadras subindo a O’Farrel, logo antes da rua Hyde, em frente ao suspeito Salão de Massagem Asiático, que tinha um sinal luminoso vermelho piscando “FECHADO” na janela. O nome da rede era HarajukuFM, então sabíamos que estávamos no caminho certo.

“Se estiver lá dentro, eu não vou entrar” disse Darryl.
“Vocês estão com seus varredores de WiFi?” eu perguntei.
Darryl e Van tinham eles internos aos telefones, enquanto Jolu, que era chique demais para carregar um telefone maior do que seu dedo mindinho, tinha um pequeno buscador direcional no chaveiro.
‘Ok, vamos entrar e ver o que achamos. Estamos procurando uma queda abrupta de sinal, que fica pior à medida que nos aproximamos.’
Dei um passo para trás e acabei pisando no pé de alguém. Uma voz feminina disse “cai fora” e me virei com medo de alguma viciada me esfaquear por ter quebrado seus saltos.

Ao invés disso dei de cara com alguém da minha idade. Ela tinha os cabelos cor-de-rosa-choque e uma cara de roedor, com enormes óculos de sol, que eram praticamente óculos de pilotos da força aérea. Vestia tiras rasgadas sobre um vestido preto vovozinha, decorado por montes de pequenos brinquedos de  personagens de anime (desenho animado japonês) presos por alfinetes, velhos lideres mundiais e emblemas de Soda-pop estrangeiros.

Levantou a câmera e tirou uma foto minha e da turma.
“Sorria!” ela disse. “Você está no Candid Xereta Câmera.”
“Nem vem!” eu disse. “Você não vai...”
“Eu vou.” ela disse. “Vou mandar esta foto para o Caça-Gazeteiros em trinta segundos, a menos que vocês três larguem esta pista e deixem que eu e meus amigos continuemos daqui. Podem voltar em uma hora e ela será toda sua. Acho mais do que justo.”

 Olhei para trás e vi outras três meninas no mesmo estilo - uma de cabelo azul, outra verde e outra púrpura. “Quem vocês pensam que são? O esquadrão Quatro-sabores?”
“Somos o time que irá chutar o traseiro do seu time no Harajuku Fun Madness” ela disse. “E eu sou aquela que está prestes a lhe trazer muitos problemas...”
Atrás de mim senti Van começar a recuar. Sua escola apenas para meninas era notória pelas brigas e eu tinha certeza de que ela estava prestes a partir para cima da guria.

Então, o mundo mudou para sempre.

Sentimos primeiro aquele movimento do cimento sob nossos pés, que todo californiano conhece instintivamente - terremoto. Minha primeira idéia, como sempre, foi a de fugir: “Quando estiver em apuros, corra e grite.” Mas o fato era que nós já nos encontrávamos no lugar mais seguro possível: não estávamos dentro de um prédio que poderia desabar, ou no meio da rua onde estilhaços poderiam nos atingir.
Terremotos são assustadoramente silenciosos - pelo menos a principio - mas este não. Foi alto, um inacreditável rugido mais alto do que qualquer coisa que eu tivesse ouvido antes.Tão doloroso que me fez cair de joelhos - e não fui o único.Darryl bateu no meu braço e apontou para os prédios e vimos uma gigantesca nuvem escura vindo da região nordeste, da baía.

Houve outro trovão e a nuvem nos alcançou, aquela coisa escura que crescemos vendo em filmes. Ouvimos mais trovões e sentimos mais tremores. Cabeças apareceram nas janelas por toda rua.
Olhávamos em silêncio para a nuvem em forma de cogumelo. Então começaram as sirenes.

Já tinha ouvido sirenes assim antes - eles testavam as sirenes da defesa civil nas tardes de terça. Mas só tinha ouvido sirenes fora de hora em filmes antigos sobre a guerra e em vídeo games, quando alguém está bombardeando do alto outro jogador. Sirenes de ataque aéreo. Aquele som woooooo fez tudo menos real.

“Sigam imediatamente para os abrigos.” Foi como a voz de Deus vindo de todas as partes. Havia alto-falantes em postes, algo que eu nunca tinha reparado, e todos foram acionados ao mesmo tempo.

“Sigam imediatamente para os abrigos.”

Abrigos? Olhávamos confusos uns para os outros. Que abrigos? A nuvem se expandia. Seria nuclear? Será que estávamos respirando pela ultima vez?

A garota de cabelo rosa agarrou suas amigas e partiu correndo rua abaixo de volta para a estação BART ao pé das colinas.

“SIGAM IMEDIATAMENTE PARA OS ABRIGOS.” Agora os alto-falantes berravam e um monte de turistas passou correndo. Você sempre pode identificar os turistas, aqueles que pensam CALIFÓRNIA = CALOR e passam seus feriados em São Francisco congelando em seus shorts e camisetas, correndo em todas as direções.

“Vamos embora!” Daryl gritou em meu ouvido, um pouco mais audível do que as sirenes, que se juntavam as tradicionais sirenes da polícia. Uma dúzia de carros da polícia local passou gritando por nós.

“SIGAM IMEDIATAMENTE PARA OS ABRIGOS.”

“Vamos para a estação BART” gritei. Meus amigos concordaram. Corremos.

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