sábado, 26 de dezembro de 2009

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 9


CAPÍTULO 9
Este capítulo é dedicado à Compass Books/Books Inc,  a livraria independente mais antiga do oeste dos EUA. Eles têm lojas por toda Califórnia, em São Francisco, Burlingame, Mountain View e Palo Alto, mas o mais legal é que eles têm uma livraria no meio da Disneylândia em Anaheim. Sou maluco por parques da Disney (como podem ver no meu primeiro livro, Down and Out in the Magic Kingdom, se não me acreditam) e sempre quando morei na Califórnia, eu comprava um passe anual para a Disneylândia e praticamente em cada visita eu passava na Compass Books da Disney. Eles possuem um estoque sensacional de livros não-autorizados  sobre Disney (e são até criticadas por isso), bem como uma grande variedade de livros infantis e ficção cientifica; e a loja ao lado faz um cappuccino inesquecível.
Compass Books/Books Inc




Ele estava furioso. Pensei que fosse explodir. Sabe quando disse que raramente eu vejo meu pai perder o controle? Aquela noite ele perdeu mais do que nunca.
‘Vocês não acreditariam. Esse policial devia ter uns 18 anos e ficava falando “Mas senhor, por que o senhor esteve em Berkeley ontem se os seus clientes ficam em Mountain View?” E eu ficava explicando que eu ensino em Berkeley e então ele disse “Pensei que fosse um consultor” e começávamos tudo novamente. Parecia uma destas comédias de televisão onde os tiras são atingidos pelo raio da estupidez.”
“O pior foi que ele insistia que eu tinha estado em Berkeley e eu dizia que não, eu não tinha mesmo ido lá e ele dizia que sim. Então ele me mostrou o histórico do meu passe rápido e ele dizia que eu tinha atravessado a ponte San Mateo três vezes naquele dia.”
“E não é tudo!” disse, e respirou profundamente, o que me fez ver que ele realmente estava de cabeça quente. “Eles tinham informações sobre eu ter estado em lugares onde sequer possuem pedágios. Eles estiveram rastreando meu passe nas ruas. Isso é errado! Santo Deus, quero dizer, eles estão nos espionando e sequer conseguem ser competentes nisso.”
Eu tinha entrado na cozinha seguindo-o e agora eu olhava para ele da porta. Mamãe me viu ali e nós dois erguemos nossas sobrancelhas como se dizendo “E agora? Quem vai dizer a ele ‘Eu te disse’?” Eu fiz sinal para que ela o fizesse. Ela podia usar de seus poderes de esposa para anular a raiva de papai de uma maneira que estava além do meu alcance de mera unidade filial.
“Drew...” ela disse segurando-o pelo braço para que parasse de andar de um lado para o outro feito um pregador das ruas.
“O quê?” ele disse.
“Acho que você deve um pedido de desculpas a Marcus.” Ela manteve a voz baixa a calma. Papai e eu éramos os trouxas da casa. Mamãe mandava ver!
Papai olhou para mim. Seus olhos se estreitaram enquanto pensava por um minuto. “Tudo bem” disse ao fim. “Você está certo. Eu falava sobre vigilância competente. Esses caras são amadores. Desculpe, filho. Você estava certo. Aquilo foi ridículo.” Ele estendeu a mão e segurou a minha e então me deu um abraço inesperado e forte.
“Deus, o que estamos fazendo com este país, Marcus? Sua geração merece herdar algo melhor do que isso.” Então me soltou e pude ver profundas rugas que nunca notara antes em seu rosto.
Voltei ao quarto e joguei um pouco no Xnet que era bom para coisas para multi-jogadores, tinha um game de piratas onde você tinha que fazer coisas que iriam aos poucos aperfeiçoando sua tripulação, até poder sair saqueando e pilhando por aí. Era o tipo de jogo que eu odiava, mas não conseguia parar de jogar: Não era totalmente satisfatório, com pouco combate jogador contra jogador (lutando para ver quem seria o capitão do barco), e não tinha tantos quebra-cabeças legais para resolver . Na maioria das vezes, jogar este game me deixava com saudades de HFM, que misturava sair por aí no mundo real, resolver desafios online e criar estratégias com seu time.
Mas hoje aquilo era o que eu precisava, diversão sem necessidade de pensar.

Meu pobre pai.
Eu tinha feito aquilo com ele. Ele era feliz antes, confiante de que os dólares de impostos eram usados para mantê-lo seguro. Eu destruí esta confiança. Era uma confiança falsa, de qualquer maneira, mas o mantinha satisfeito. Olhando para ele agora, quebrado e desanimado, pensei se era melhor ter os olhos abertos e sem nenhuma esperança ou viver no paraíso dos bobos. Aquela vergonha - a vergonha que eu sentia por ter dado minha senha, desde que eles me quebraram retornara, deixando-me apático e querendo largar tudo.

Meu personagem era um marinheiro do navio pirata Embarcação Zumbi, e ele foi ferido enquanto estive fora. Tinha que chamar pelo IM todos os outros jogadores do meu navio até achar um que quisesse me ajudar. Isso me manteve ocupado. Isso era legal, havia algo de mágico em um total estranho fazer-lhe um favor. E sendo na Xnet, sabia que todos os estranhos eram amigos, de certo modo.

>Onde vc está?
O personagem que iria me ajudar chamava-se Lizanator, uma mulher, o que não significava que fosse uma garota de verdade. Alguns caras tinham alguma estranha relação com personagens femininos.
>São Francisco.
 Eu disse:
>Não mané, onde em San Fran?
>Por quê? Você é um pervertido?
Aquela pergunta normalmente encerraria a conversa. É claro que todo jogo online estava cheio de pedófilos e pervertidos e tiras se fazendo passar por pedófilos e pervertidos (contudo, eu esperava que não tivesse nenhum policial na Xnet!). Uma acusação como esta era o bastante para derrubar a conversa em nove entre dez vezes.
>Missão? Potrero Hill? Noe? East Bay?
Ela parou por um instante.
> Está com medo?
> Estou tranqüilo - por quê?
> Só curiosidade.
Senti uma má vibração sobre ela. Era mais do que curiosa. Pode chamar isso de paranóia. Desconectei e desliguei meu Xbox.

#

Papai olhou para mim na mesa de refeições na manhã seguinte e disse: “Parece que enfim as coisas vão melhorar.” Ele estava com o Chronicles aberto na terceira página.

(Um porta-voz da DHS confirmou que o escritório da DHS em São Francisco fez a requisição de um aumento de 300 por cento no orçamento para treinamento de pessoal a Washington D.C.)

O quê?

(O General Graeme Sutherland, oficial comandante para as operações do DHS no norte da Califórnia, confirmou a requisição em uma conferência de imprensa ontem, apontando que a atividade suspeita na área da baía justificava a requisição. ‘Nós estamos averiguando as atividades e acreditamos que os sabotadores estão deliberadamente criando falsos alarmes de segurança para minar nossos esforços’)

Não era possível.

 (“Estes alarmes falsos são armadilhas de radar em potencial, com a intenção de mascarar ataques verdadeiros. O único e efetivo modo de combatê-los é indo além, aumentando nosso pessoal e também o nível de analise de maneira a poder investigar cada indício.”)

(Sutherland afirmou que os incidentes experimentados por toda a cidade eram “infelizes” e que iriam ser eliminados.)

Tive uma visão da cidade tomada por quatro ou cinco vezes mais investigadores e policiais, graças às minhas idéias estúpidas. Van estava certa. Quanto mais eu os combatia, pior a situação.
Papai apontou para o jornal. “Esses caras podem ser uns tolos, mas são tolos metódicos. Eles estão só direcionando recursos para este problema até resolvê-los. A situação tem solução, você sabe. Filtrando todos os dados na cidade, seguindo cada indicio, eles vão pegar os terroristas.”
Eu tinha perdido. “Pai! Você está ouvindo o que está dizendo? Eles estão querendo investigar praticamente todas as pessoas de São Francisco!”
“Sim, está certo. Vão pegar todos aqueles que devem pensão alimentar, cada vendedor de drogas, cada mendigo e cada terrorista. Espere para ver. Isso pode ser a melhor coisa que já aconteceu a este país!”
“Me diz que você está brincando! Eu te imploro. Você acha que era essa a intenção quando eles escreveram a constituição? E quanto aos direitos civis?”
“Os direitos foram escritos antes de existir pesquisa em bancos de dados.” Ele estava espantosamente calmo, convicto de sua certeza. “O direito à liberdade de associação é bom, mas por que os policiais poderiam ter a permissão de vasculhar sua malha social para descobrir se você anda saindo com membros de uma gangue ou terroristas?”
“Por que é invasão da minha privacidade!” eu disse.
“Qual o problema? Você prefere ter sua privacidade ou terroristas?”
Ahhh! Eu odiava discutir com meu pai assim. Precisava de café. “Pai, fala sério!. Tirar nossa privacidade não é agarrar terroristas, são só pessoas normais e inconvenientes.”
“Como sabe se não vão pegar terroristas?”
“Onde estão estes terroristas que capturaram?”
“Estou certo de que veremos prisões sendo feitas no tempo certo. É só esperar para ver.”
“Pai, o que aconteceu com você desde a noite passada? Você estava pronto para explodir com os policiais que te fizeram parar...”
“Não use este tom de voz comigo, Marcus. O que aconteceu na noite passada foi que eu pude pensar e ler isso aqui” ele mostrou o jornal. “A razão pela qual eu fui pego foi que os caras do mal que andam por aí fazendo este tipo de interferência eletrônica. Precisamos ajustar nossos aparelhos para não sermos enganados por eles. Mas eles chegam lá. Enquanto isso, uma parada na estrada ocasional é um preço justo a pagar. Esta não é a hora para dar uma de legislador dos direitos civis. É tempo de fazer alguns sacrifícios para manter a cidade segura.”
Não consegui terminar minha torrada. Coloquei o prato no lava louças e fui para a escola. Tinha que sair dali.

#

Os Xnetters não estavam contentes com o aumento da vigilância policial, mas não iriam desistir.Alguém ligou para um programa de radio ao vivo na KQED e disse que a polícia estava perdendo tempo, que eles não conseguiriam sabotar o sistema mais rápido que eles conseguiriam consertar. Foi a gravação mais ouvida na Xnet aquela noite.
“Aqui é Califórnia ao vivo e estamos com um ouvinte anônimo ligando de um telefone pré-pago em São Francisco. Ele tem informações sobre os problemas que estivemos enfrentando pela cidade esta semana. Ouvinte, você está no ar.”
“É isso ai, isso é só o começo, sacou? Quero dizer, tipo, estamos só começando. Deixe que eles contratem um bilhão de porcos e coloquem um posto de checagem em cada esquina. Nós vamos bagunçar com eles todos! E tipo, toda esta besteira sobre terrorismo. Nós não somos terroristas! Dá um tempo! Nós estamos interferindo no sistema por que a gente detesta a DHS e por que amamos nossa cidade. Terroristas? Eu não sei nem soletrar ‘JIHAD’. Fiquem em paz!”
Ele soava como um idiota. Não somente pelas palavras incoerentes, mas pelo tom arrogante. Parecia um garoto que estava indecentemente orgulhoso de si mesmo. Ele era mesmo um garoto indecentemente orgulhoso de si mesmo.
A Xnet bombou depois disso. Várias pessoas pensavam que o cara era um idiota por ligar, enquanto outras que ele era um herói. Eu estava preocupado com a possibilidade de ter uma câmera no telefone publico que ele usou. Ou que um leitor de arphid tivesse lido seu passe rápido. Esperava que fosse esperto o bastante para limpar suas digitais, mantido o capuz do agasalho cobrindo a cabeça e deixado todos seus arphids em casa. Mas eu duvidava. Pensei que ele poderia se ferrar logo, logo.
A maneira que eu sei que aconteceu algo grande na Xnet era que de uma hora para outra eu recebia um milhão de emails de pessoas que queriam que M1k3y soubesse dos últimos acontecimentos. Assim que eu li sobre o Mister-não-sei-nem-soletar-jihad minha caixa de entrada enlouqueceu. Todo mundo tinha uma mensagem para mim, um link para um jornal ao vivo na Xnet - um dos muitos blogs anônimos baseados em Freenet, um sistema de publicação de documentos, que também era usado pelos defensores da democracia na China.
> Estamos agindo em Embarcadero esta noite e fazendo alguma confusão, dando aos carros novas chaves ou embaralhando passes rápidos, espalhando um pouco de pólvora de mentirinha. Tem policia por toda parte, mas nós somos mais espertos do que eles, fazemos só um pouquinho todas as noites e assim eles não nos pegam.
>Fomos pegos esta noite. Foi um erro idiota e fomos agarrados. Um sujeito disfarçado pegou meu companheiro e então o resto de nós foi pro buraco. Eles estavam observando a multidão por um bom tempo e tinham um desses caminhões por perto e eles capturaram quatro de nós, mas perderam os outros.
>O caminhão parecia uma lata de sardinha com todo tipo de gente dentro: velhos, jovens, negros, brancos, ricos e pobres, todos suspeitos. E tinha dois policiais nos fazendo perguntas e o sujeito disfarçado continuava a trazer mais e mais gente. Muitos tentavam alcançar a frente da fila para o interrogatório, mas nós íamos para trás e demorou horas lá e era quente à beça e cada vez tinha mais gente e não menos.
>Lá para as 8 da noite eles trocaram de turno e dois policiais novos e tomaram o lugar dos dois outros policiais que estavam lá com aquele papo furado. Eles tiveram uma briga feia e então dois policiais das antigas saíram e os novos policiais sentaram na mesa e sussurram entre eles um pouco.
>Então um policial ficou de pé e começou a gritar TODO MUNDO VAI PARA CASA; JESUS CRISTO. NÓS TEMOS COISAS MELHORES PARA FAZER DO QUE ENCHER O SACO DE VOCÊS COM MAIS PERGUNTAS. SE VOCÊS FIZERAM ALGO ERRADO, SÓ NÃO FAÇAM DE NOVO E ESTE É UM AVISO PARA TODOS VOCÊS.
>Um bando de gente ficou irritada o que foi hilário porque dez minutos antes eles estavam falando sobre prender todo mundo e agora estavam mandando todos embora, tipo, dando conselhos!
>Nós nos separamos e viemos para casa para escrever isso. Tem gente disfarçada por toda parte, acreditem, se vocês estão zoando por aí, fiquem de olhos abertos e preparados para correr quando o problema aparecer. Se te pegarem, tente esperar até eles estarem tão cheios que vão mandar todos embora.
>Nós fizemos com que eles ficassem assim tão cheios. Todas aquelas pessoas no caminhão estavam lá por que nós zoamos com eles, espalhando interferência, bagunçando. Zoando eles!
Senti como se fosse vomitar. Aquelas quatro pessoas - garotos que nunca conheci - quase tinham desaparecido para sempre por causa de algo que eu comecei.
Por causa de algo que eu disse para eles fazerem. Eu não era melhor do que um terrorista.

#

A DHS teve seu requerimento aprovado. O Presidente foi na televisão com o governador, dizer-nos que nenhum preço era alto o bastante quando se tratava de segurança. Tivemos que assistir isso no dia seguinte numa assembléia escolar. Meu pai comemorou. Ele odiava o Presidente desde o dia em que ele fora eleito, vivia dizendo que ele não era melhor do que o anterior e o último fora um desastre completo, mas agora tudo que ele fazia era falar sobre como aquele novo Presidente era direto e dinâmico.
 “Você precisa pegar leve com o seu pai.” minha mãe me disse na noite seguinte, depois que cheguei em casa da escola. Ela estava trabalhando em casa o máximo que podia. Mamãe era uma especialista freelancer em realocação, que ajudava ingleses a se estabelecerem em São Francisco. Ela era paga pelo governo britânico para responder emails de ingleses perdidos pelo país, totalmente assustados sobre como os Americanos eram esquisitos. Ela explicava sobre os Americanos e disse que naqueles dias era melhor fazer isso de casa, onde ela não precisava na verdade ver Americanos ou falar com eles.
Eu não tinha nenhuma ilusão sobre a Grã Bretanha. A América podia atirar no lixo sua constituição cada vez que um árabe olhasse enfezado para nós, mas eu aprendera durante meu projeto de estudos sociais na nona série que os britânicos sequer tinham uma constituição. Eles tinham leis por lá que eram de arrepiar os cabelos da nuca. Eles podiam colocar você na cadeia por um ano inteiro se estivessem certos de que você é um terrorista, mesmo sem ter evidências para provar. Como eles podiam ter tanta certeza sem ter provas? Como tinham esta certeza? Será que eles podiam ver você cometendo atos de terrorismo enquanto sonhavam?
E a vigilância na Grã Bretanha fazia a América parecer amadora. Em média, um londrino é fotografado 500 vezes por dia, somente ao andar pelas ruas. Cada placa de automóvel é fotografada em cada esquina do pais. Todo mundo, de bancos à companhia de trânsito público é entusiasta de rastrear seus movimentos e bisbilhotar você se eles pensarem que você é, mesmo remotamente, suspeito.
Mas mamãe não via deste jeito. Ela tinha deixado a Inglaterra na metade do ginásio e nunca se sentiu em casa aqui, não importa se ela casou com um cara de Petaluma e teve um filho aqui. Para ela, isso aqui será sempre a terra dos bárbaros e a Grã-Bretanha será sempre seu lar.
“Mãe, ele está errado. Você, entre todas as pessoas, deveria saber disso. Tudo que faz este país ser maravilhoso está sendo jogado na privada e nós indo junto. Já notou que eles não pegaram nenhum terrorista até agora? Papai fica dizendo ‘Nós precisamos de segurança’ mas ele tem que saber que a maioria de nós não se sente segura. Nós nos sentimos ameaçados o tempo todo.”
“Sei disso tudo, Marcus. Acredite em mim.Não sou a favor do que está acontecendo neste pais. mas seu pai é... quando você não voltou para casa após o ataque, ele pensou...”
Ela se levantou e preparou uma xícara de chá, algo que sempre fazia quando estava desconfortável ou desconcertada.
“Marcus,”  ela disse, “nós pensamos que você tinha morrido. Entende o que isso significa? Ficamos chorando por sua causa durante dias. Ficávamos imaginando você em pedaços, no fundo do oceano. Morto porque algum bastardo decidiu matar centenas de estranhos para provar um ponto de vista.”
Aquele me tocou fundo. Quero dizer, eu entendi que eles tinham se preocupado comigo. Muita gente morreu nas explosões - 4 mil era a estimativa atual - e praticamente todo mundo conhecia alguém que não voltou para casa naquele dia. Duas pessoas da minha escola estavam desaparecidas.
“Seu pai estava prestes a matar alguém. Qualquer um. Ele perdeu o controle. Você nunca o viu assim. Eu também nunca tinha visto ele assim. Fora de controle. Ele ficava sentado nesta mesa, amaldiçoando e xingando. Palavras terríveis, palavras que eu nunca o tinha ouvido dizer. Um dia - no terceiro dia - alguém ligou e ele estava certo de que era você. Mas era engano, número errado, e ele bateu o telefone com tanta força que o aparelho ficou em pedaços.” Eu já tinha reparado no telefone novo da cozinha.
“Algo se partiu dentro dele. Ele te ama. Nós te amamos. Você é a coisa mais importante das nossas vidas. Acho que você não se dá conta disso. Você se lembra quando tinha dez anos e eu fui para Londres e fiquei aquele tempo todo fora? Lembra?”
Eu disse que sim.
“Nós estávamos quase nos divorciando, Marcus. Oh, não importa mais o porquê. Foi apenas uma fase ruim, o tipo de coisa que acontece quando pessoas que se amam param de prestar atenção uma na outra por algum tempo. Ele me convenceu a voltar por você. Não conseguíamos pensar em estar fazendo aquilo com você. Nós nos apaixonamos novamente por sua causa. Estamos juntos, hoje, por você.”
Eu tinha um nó na garganta. Nunca tinha sabido disso. Ninguém nunca me contou.
“Então seu pai está passando por um momento difícil. Ele não está raciocinando direito. Vai levar algum tempo até que ele volte a ser aquele homem que eu amo. Até lá ele precisa de compreensão.”
Ela me deu um abraço demorado e reparei em como seus braços estavam finos, a pele do pescoço frouxa. Eu sempre pensei nela como uma jovem pálida de bochechas rosadas e bastante astuta, atrás de seus óculos de aros metálicos. Agora ela parecia mais como uma senhora. Eu tinha feito isso com ela. Os terroristas tinham feito isso com ela. O DHS tinha feito isso com ela. De uma maneira estranha, nós estávamos todos do mesmo lado, enquanto mamãe e papai e todas as pessoas amedrontadas estavam do outro.

#

Não consegui dormir aquela noite. As palavras de mamãe ficaram na minha cabeça. Papai estava tenso e calado no jantar e conversamos pouco, porque eu não confiava em mim mesmo: eu podia falar a coisa errada; ele estava amargurado devido às últimas notícias, que o Al Queda tinha se responsabilizado pelo atentado. Seis grupos terroristas diferentes tinham reclamado a responsabilidade do ataque para si, mas apenas o vídeo do Al Qaeda na internet revelava fatos que a DHS não havia revelado para ninguém.
Deitado na cama eu prestava atenção no programa ao vivo de radio tarde da noite. O tópico era problemas sexuais, com um sujeito gay que eu normalmente adorava ouvir, que dava duros conselhos para as pessoas, mas eram bons conselhos e ele era realmente engraçado e extravagante.
Nesta noite eu não conseguia rir. A maioria dos ouvintes que ligavam para o programa queria saber o que fazer quanto ao fato de estarem tendo dificuldades com os parceiros desde o ataque. Mesmo num programa de radio sobre sexo eu não conseguia me livrar do assunto.

Desliguei o rádio e ouvi um ruído de motores na rua.
Meu quarto ficava no último andar da casa, uma daquelas damas maquiadas. O teto do sótão era inclinado e com duas janelas laterais - uma para a Missão e outra para a frente de casa. Havia sempre carros passando de lá para cá a noite toda, mas tinha algo diferente naquele som.
Fui até a janela da rua e levantei a persiana. Na rua embaixo havia uma van branca sem qualquer identificação, cujo teto estava infestado com antenas de radio, mais antenas do que já vira em um carro. Estava passando bem devagar pela rua, uma antena tipo prato, girando e girando.
Assim que a vi, a van parou e uma das portas traseiras se abriu. Um cara num uniforme da DHS - podia reconhecê-los de uma distância de centenas de metros - pulou para a rua. Tinha algum tipo de equipamento de mão e que projetava uma luz azul em seu rosto. Foram para frente e para trás, primeiro nos meus vizinhos, mexendo no aparelho, então na minha direção. Tinha algo de familiar na maneira que ele andava, olhando para baixo...
Ele estava usando um rastreador WiFi! O DHS estava procurando pelas conexões de Xnet. Larguei a persiana e corri através do quarto até o meu Xbox. Tinha deixado ligado enquanto baixava algumas animações bacanas que um dos Xnetters tinha feito a partir do discurso nenhum-preço-é-alto-o-bastante do Presidente. Arranquei o plug da parede então voltei à janela e afastei a persiana apenas algumas frações de centímetro.
O cara estava olhando para baixo, para o buscador de WiFi novamente, andando para lá e para cá na frente da nossa casa. Então voltou e entrou na van e partiu.
Eu tinha a câmera por perto e tirei varias fotos da van e suas antenas. Então as abri num editor de imagem gratuito chamado The Gimp e editei retirando da imagem tudo menos a van, apagando minha rua e qualquer coisa que pudesse me identificar.
Postei-a então na Xnet e escrevi embaixo tudo que podia sobre ela. Estes caras estavam realmente procurando pela Xnet, com certeza.
Agora mesmo é que eu não conseguia mais dormir.

Fui jogar então o jogo dos piratas. Muitos jogadores online mesmo àquela hora. O nome do jogo era Clockwork Plunder e era um hobby-projeto criado por uns adolescentes doidos por death-metal da Finlândia. Era totalmente gratuito para jogar e tão divertido quanto qualquer outro serviço de 15 dólares do tipo Elder’s Universe e Middle Earth Quest e Discworld Dungeons.
Me loguei e já estava lá, no deque da Embarcação de Zumbis, esperando alguém que me desse vida. Eu odiava esta parte do jogo.
>Alô você!
Digitei para um pirata que passava próximo.
>Me dá vida?
Ele parou e olhou para mim.
>Por que deveria?
>Estamos no mesmo time. Além disso você ganha pontos de experiência.
Que mané.
>Onde você está?
>São Francisco.
Aquilo começava a me parecer familiar.
>Onde em São Francisco?

Desloguei. Tinha algo de errado acontecendo neste jogo. Passei para os live journals e então fiquei saltando de blog para blog. Tinha passado por uma dúzia até achar algo que fez meu sangue congelar.
O pessoal adorava quiz. Que tipo de hobbit você é? Você é um bom amante? De que planeta você parece ter vindo? Que personagem de filme você é? Qual é seu tipo emocional? Eles preenchem as respostas e seus amigos também e então todos comparam seus resultados. Diversão inocente.
Mas o quiz que tinha sido colocado nos blogs da Xnet naquela noite foi o que me assustou, por que podia ser tudo menos inofensivo.

- Qual o seu sexo?
- Qual a sua série escolar?
- Qual a sua escola?
- Em que cidade você mora?

O resultado aparecia em um mapa com pontos coloridos por escolas e vizinhanças e com recomendações marcadas para lugares para comprar pizza e coisas assim.
Mas olhei para aquelas perguntas. Pensei nas minhas respostas:

- Masculino
- Dezessete.
- Chávez High
- Potrero Hill

Só duas pessoas em toda a minha escola tinham aquele perfil. Para muitas escolas deveria acontecer o mesmo. Se você quer descobrir quem os Xnetters são, você pode usar de um Quiz para achá-los.
Aquilo era terrível o bastante, mas o pior era o que estava implícito: Alguém do DHS estava usando o Xnet para nos pegar. O Xnet tinha se rendido a DHS.
Tínhamos espiões em nosso meio.

#

Eu tinha dado discos de Xnet para centenas de pessoas e eles fizeram o mesmo. Eu sabia para quem tinha dado os discos. Alguns eu conhecia muito bem. Eu morava na mesma casa toda minha vida e tinha feito centena de amigos ao longo de anos, desde gente que foi para a creche comigo até quem jogava futebol e LARP comigo, que encontrava nos clubes, que conhecia da escola. Meu time de ARG eram os mais íntimos, mas havia vários que eu conhecia e confiava o bastante para dar um disco de Xnet.
Eu precisava deles agora.
Acordei Jolu ligando para seu celular e desligado após o primeiro toque, por três vezes em seqüência. Um minuto depois ele estava na Xnet e podíamos conversar com segurança. Mostrei-lhe meu blog com as fotos da rádio-van e ele pirou.

>Tem certeza de que estão procurando por nós?
Em resposta, mandei para ele o quiz.
>OMG (Oh My God = Oh meus Deus) estamos ferrados!
>Não. Não é tão ruim assim, mas precisamos saber em quem podemos confiar.
>Como?
>É isso que eu queria te perguntar - quantas pessoas você confiaria de verdade, em todo o mundo?
>Umas 20 ou 30.
>Quero juntar um bando de pessoas realmente confiáveis e fazer uma espécie de key-exchange de web-confiança.
Web-confiança é uma destas coisas legais sobre criptografia que eu li, mas nunca tinha tentado. Era uma maneira quase à prova de falhas de conversar com alguém que você confiava, de modo que ninguém mais pudesse ouvir. O problema é que requeria que você se encontrasse fisicamente com a pessoa na web, pelo menos uma vez para começar.
>Entendo. Não é uma idéia ruim. Mas como vai fazer para reunir todas as pessoas para criar a chave?
>É sobre isso que eu quero te perguntar - como fazemos isso sem que nos peguem?
Jolu digitou algumas palavras e então as apagou e digitou e apagou de novo.
>Darryl saberia como.
Eu digitei.
>Caramba, ele era bom nisso.
Jolu não teclou nada e então:
>Que tal uma festa?
Ele teclou
>E se a gente juntasse todos em algum lugar como se fosse apenas um bando de adolescentes fazendo uma festa? Assim teríamos uma desculpa se alguém nos perguntasse o que a gente estava fazendo lá.
>Isso funcionaria! Você é um gênio, Jolu.
>Eu sei disso. E você vai adorar: Eu também sei exatamente onde fazer isso.
>Onde?
>Sutro Baths!



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