domingo, 31 de janeiro de 2010

Entrevista com Algis Budrys


Embora Algis Budrys tenha escrito somente um punhado de livros em sua carreira de mais de 50 anos, ele é considerado por muitos estudiosos como uma voz importante e vital na Ficção Científica.

Seu romance de 1959 "The Torch Falling" vendeu mais de 250.000 cópias e permaneceu em catálogo por mais de uma década (foi posteriormente relançado em 1991 com o texto restaurado como "Falling Torch"), enquanto seu clássico de aventura "Rogue Moon” (1960) foi escolhido pelo Science Fiction Writers of America, como uma das histórias mais influentes da literatura de FC.

Nesta entrevista, Budrys revela por que ele acredita que é importante para os escritores de FC, não só pensar e escrever sobre o amanhã, mas também orientar os autores de amanhã, que definirão o futuro da Ficção Científica.



Pergunta: Você nasceu na Prússia Oriental, em 1931, de pai lituano, e sua família se mudou para os Estados Unidos quando tinha apenas cinco anos de idade. Como este 'desenraizamento' afetou sua visão sobre a vida e a sua escrita?

Budrys: Eu realmente não penso nisso como uma experiência de 'desenraizamento', porque viajei muito, de trem e outros meios, Deus sabe para onde, com minha mãe. Então, quando finalmente decidiram vir para a América, era apenas outra viagem. Mas foi uma viagem fascinante! Primeiro pegamos um barco através do Mar Báltico, então desembarcou na Suécia. Pegamos um trem atravessando a Suécia, chegamos até a Noruega e lá subimos a bordo do nosso navio.

O navio partiu para Nova York, e sofremos muito devido a uma tempestade! Uma terrível tempestade ... Pelo menos assim pareceu-me. E todo mundo ficou mal: Todos estavam em seus beliches vomitando as tripas! Exceto eu - eu estava bem! Então, eu tinha o navio todo para passear. As únicas pessoas que não perderam o controle de suas funções, foram eu e a tripulação. Foi muito divertido! Depois, desembarcamos em Nova York, e foi divertido, também. Nós fomos à rua 46 e à Quinta Avenida, que era onde ficava o Consulado Geral da Lituânia. E cada pedacinho dele me pareceu simplesmente fascinante.

Minha vida já era cheia de coisas maravilhosas, o que não perdurou quando cheguei na primeira séria [onde surgiram problemas]. As pessoas começaram a me chamar de alemão, o que realmente me deixava muito chateado, porque eu não era alemão: eu era lituano. O fato de ter nascido na Alemanha, era irrelevante, porque tínhamos passaportes diplomáticos e nós éramos cidadãos do nosso país natal. Mas ninguém queria ouvir. Ninguém se importava. As pessoas ficavam me chamando de alemão, e isso era ruim porque, eu não era, e também por que estávamos em uma comunidade judaica, o que não tornava a vida mais fácil para nós. Mamãe e papai não se importavam, porque eles estavam no consulado, mas eu estava nas ruas, por assim dizer. E foi aí que eu comecei a sentir essa sensação de alienação; de ser injustamente deixado de fora de tudo. Na verdade, eu nunca me recuperei desse sentimento.


P: Como foi o impacto na sua escrita?

Budrys: Bem, deve ter impactado na minha escrita, porque, geralmente eu escrevo sobre pessoas alienadas fazendo coisas que sentem serem perfeitamente normais, mas que em geral, sente não estando em consonância com o que os outros sentem. Escrevo bem, mas escrevo sobre coisas peculiares.


P: Será que estes incidentes, pelo menos em parte, não foram as sementes para a sua carreira de escritor?

Budrys: Minha carreira como escritor profissional, sim. Eu tive 12 anos para aprender a escrever sobre isso. Eu era muito jovem quando comecei - Eu realmente comecei quando tinha nove anos. Eu escrevi minha primeira história, e estava trabalhando constantemente em histórias. Quando tinha uns 17 ou 18, eu comecei a escrever coisas que achava ser bom ou bom o suficiente, para fazê-lo. E não era. Mas eu insisti, e quando eu tinha 21 anos, Fred Pohl pegou uma daquelas velhas histórias e vendeu-a para a Astounding, o que me fez rir, porque era o mesmo manuscrito que a Astounding tinha recusado quando eu tinha 17 anos. A diferença é que agora a Astounding já não era o 'Rei da Colina'. Haviam a Galaxy, a The Magazine of Fantasy and Science Fiction. As coisas eram mais difíceis para a Astounding. E como posso dizer isso... era uma história horrível!


P: Qual era o nome?

Budrys: Chamava-se 'The high purpose', e era sobre a tripulação do primeiro foguete para a luar conversando e reclamando, porque os alienígenas haviam desembarcado na Terra e portanto, os foguetes para a lua se tornaram obsoletos antes mesmo de decolar. Mas eles foram assim mesmo, e era essa a história.


P: Você se lembra como você imaginava que o mundo seria na virada do século?

Budrys: Sim, mas acho que eu nunca pensei sério a este respeito . Eu achava que os carros seriam como aviões, e que as cidades teriam prédios mais altos, e que rodovias teriam estes helicópteros e outros sabe-se-lá-o-que. Mas eu não me importava. Eu escrevia histórias que se passavam no futuro, e eu estava preocupado com o que as pessoas fariam, não verdadeiramente como as cidades seriam. Isso é verdade para a maioria dos meus livros. Eu acho que para mim, ficção científica é simplesmente uma outra literatura. Tem basicamente as mesmas regras, mesmo que haja muitas histórias de ficção científica que não as seguem, mas para mim, é mais importante escrever sobre as pessoas, e deixar o resto simplesmente acontecer.


P: Você disse em entrevistas anteriores que "a Ficção Científica não é realmente ficção científica. mas ficção tecnológica." Pode falar um pouco sobre isso?

Budrys: Bem, Ficção Científica seria o tipo de coisa que Hal Clement escreve, em que a ciência é central. A maioria da Ficção Científica - a esmagadora maioria - está preocupada com melhorias na tecnologia. As pessoas têm uma televisão melhor, etc. Não tem nada de realmente à ver com ciência.


P: Além de escrever, você também é um professor atuante, particularmente através de seu trabalho no Writers of the Future. Porque a educação dos novos talentos de FC é tão importante para você?

Budrys: Nos bons e velhos tempos, os editores ensinavam jovens escritores a escreverem melhor. Um escritor pegava a história e dizia: "Olha, você poderia ter feito isso dessa maneira". Estes editores não existem mais. Na verdade, não tenho certeza se existem ainda editores. Há pessoas que se assumem posições editoriais, mas isso é diferente. Então, alguém tem de ensinar as crianças como fazer as coisas. Com a Writers of the Future, eu vi uma oportunidade de ouro. Nós temos algo como mais de 200 escritores de Ficção Científica agora, que não necessariamente devem a sua natureza como escritores de FC à Writers of the Future, mas que começaram lá. Eles têm uma chance de se aprimorar mais rapidamente do que se tivessem que aprender na base da tentativa e erro, e eles têm um lugar melhor para serem conhecidos.

Estou muito orgulhoso de tudo isso, e o fato de que alguns deles têm escrito muitos livros, e muitos são bons livros. Eu apenas senti que alguém deveria estar fazendo isso! Também lecionei por 11 anos consecutivos no Clarion, o que não poderia ter feito: era contra as regras, mas mesmo assim eu fiz. De um modo geral, a gestão do Clarion - principalmente com Damon Knight e Kate Wilhelm - iria deixar um cara ensinar por um par de anos, e depois não voltaria lá por um tempo. Bem, eu continuei. E isso foi importante porque eu realmente comecei a conhecer as pessoas que estavam tentando ser escritores. Na verdade, muitos deles ainda estão em contato comigo. Então, quando eu estava lá, ensinando talvez 20 pessoas por ano, durante uma semana, a Writers of the Future floresceu em mim. Eu trabalhei com um monte de jovens (e algumas vezes não tão jovens), e eu não trocaria isso por nada neste mundo!


P: Ao longo dos anos você também dedicou uma grande quantidade de energia para a crítica de FC. Que papel esta função desempenha no desenvolvimento e na promoção da literatura de FC?

Budrys: Eu acho que ela ajuda a melhorar a raça. A maneira que eu faço a crítica é, eu pego um livro e aponto o que poderia ter sido feito melhor: Aponto erros, elogio outros pontos. Eu não sabia que ia ser um crítico, mas certamente não foi uma das minhas ambições. Simplesmente aconteceu, e eu sinceramente não me importava se alguém gostou do jeito que eu fiz a crítica ou não. Mas eu sinto que sou parte de uma tradição como Damon Knight e Blish Jim, de ser um crítico mais conhecedor do assunto do que a maioria, porque eu escrevi bastante, coisa que a maioria dos críticos não o fez. Sei mais sobre o interior de um escritor, do que a maioria dos críticos, e isso veio de forma muito fácil para mim, por esse motivo. Não sou de perder muito tempo revisando e revisando. Escrevo rápido estas críticas.


P: O quão diferente é de escrever um livro?

Budrys: Bem, essencialmente é deste jeito que eu escrevo livros também, embora não tão rapidamente.


P: Todo ano aparece alguém que proclama que a FC está morta ou moribunda. No entanto, como um juiz do concurso literário da Writers of the Future, você encontra novos autores regularmente. Como você caracterizaria o estado atual da FC?

Budrys: A Ficção Científica parece ser a mesma que sempre foi. Eu acho que há quem busque destaque ao proclamar a morte de Ficção Científica, mas é um disparate. Ficção Científica, apesar do fato de ser tratada como um gênero, não é um gênero. É uma literatura completa. E a mais antiga literatura, até!

Não foi somente apenas há uma centena de anos atrás, que alguém pensou em escrever sobre coisas que estão por acontecer, o que se poderia chamar de ficção descritiva. Ficção Científica vai durar para sempre, embora possivelmente terá um nome diferente. Veja, o gênero western pode ter sido dizimado quando a moda mudou. O mesmo ocorreu com histórias policiais e outras. Mas a ficção científica não é assim. Não cede às restrições temporárias. Então acho que as pessoas que proclamam a morte de FC estão erradas.


P: Nós conversamos um pouco sobre Writers of the Future, mas há uma outra competição de prestígio - Illustrators of the Future - afiliada ao referido concurso. Do ponto de vista de um autor como você, até que ponto isso é importante para ilustração de Ficção Científica?

Budrys: Eu não sei, mas gostei das imagens que Edd Cartier colocou com as histórias. Eu realmente gosto do trabalho de Kelly Freas e Michael Whelan, e de outras pessoas. Não sei se as duas coisas podem estar totalmente separadas. Eu desaprovo fantasia e ficção científica que não contenham ilustrações: Dá ao livro uma espécie de tom seco. The Magazine of Fantasy and Science Fiction teve ilustrações, mas a experiência não funcionou. Há uma magia em ter uma imagem de um cara levantando uma espada, ou uma imagem de um cara correndo pela pista de um aeroporto. Há um sentimento de que a história foi completada por bons ilustradores. Então eu não acho que a Ficção Científica e a ilustração de Ficção Científica, possam ser separadas.


P: Em 1997, você foi um dos pioneiros em trazer FC à Internet, quando converteu sua revista Tomorrow em uma publicação periódica online. O que o motivou a fazê-lo, e porque ultimamente não se faz mais isso?

Budrys: Se eu soubesse por que não deu certo, eu provavelmente consertaria! Perdemos uma fortuna fazendo a publicação na versão impressa. Nós fizemos 24 edições, que continuam a ser muito boas até hoje.

Mas percebi que eu não poderia mantê-la, então fui para a internet com ela, o que me permitiu ampliar a revista. Permitiu-me levantar mais recursos, e coisas assim, mas ainda não estava decolando. A cada vez tinha menos dinheiro, e finalmente chegou a um ponto onde eu não podia pagar por novas histórias. Eu mantive por algum tempo e finalmente um dia percebi que não era somente derramar o meu dinheiro num buraco sem fundo, mas eu estava derramando minhas intenções para o mesmo buraco, e eu não podia mais fazer isso. Por que a revista não deu certo, eu não sei. Eu suspeito que é porque sem fazer a devida promoção, ela não valia nada. Mas eu posso estar errado: Quero dizer, ninguém que eu conheça, nunca ganhou dinheiro com isso também.


P: Qual o futuro da FC na internet?

Budrys: Se conseguirem descobrir como ganhar dinheiro com internet, então funcionará. Revistas impressas estão caindo no esquecimento, e a internet de alguma forma contribui para isso. A forma como a Internet publica hoje, se equivale aos fanzines. Existem centenas de sites por ai, e alguns deles publicam alguns trabalhos de ficção científica muito bons. Mas a maioria deles não é de boa qualidade, e não pagam os escritores, ou não pagam muito. Portanto, é um jogo diferente. Eu tentei publicar um zine totalmente profissional, primeiro na versão impressa e depois na Internet, e não funcionou. Eu tinha bastante gente assinando, mas não o suficiente.


P: E o que o futuro reserva para Algis Budrys?

Budrys: Eu provavelmente serei encontrado caído sobre um teclado de computador em algum momento. Eu tenho 70 anos de idade. Eu não sei quanto tempo mais eu posso continuar, mas pretendo continuar trabalhando até o fim. Eu não tenho mais nada que eu prefira fazer, e não recebo aposentadoria (embora eu estivesse recebendo da Securidade Social durante algum tempo), então eu vou continuar.


P: Olhando para trás em sua carreira, o que você acredita ter sido sua maior contribuição para a literatura de Ficção Científica?

Budrys: O ensino. Eu escrevo bem, como eu disse, me admiro com o que fiz. Mas eu não escrevo muito, eu só escrevi algo como 10 livros na minha vida. São bons livros, e ainda há pessoas que vêm até mim e dizem: "Puxa, tal livro foi um bom livro." Mas eu não acho que isso seja, sequer próximo, de ser tão duradouro como o ensino. Eu lecionei, penso ao menos, provavelmente para mil pessoas, que aprenderam de mim. E isso é realmente algo!


Entrevista por Jeff Berkwits