sábado, 6 de fevereiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 15

CAPÍTULO 15
Este capítulo é dedicado a Chapters/Indigo, a mega-cadeia canadense. Eu trabalhava na Bakka, uma livraria independente de FC, quando a Chapters abriu a primeira loja em Toronto, e eu soube que alguma coisa grande iria acontecer, porque dois de nossos fregueses mais bem informados, pararam para me dizer que tinham sido contratados para trabalhar na seção de FC da loja. Desde o começo, a Chapters elevou o nível de como uma grande livraria corporativa deve ser, sempre aberta, com um espaço-café amigável, e um monte de lugares para se sentar, com terminais de auto-atendimento, e estocando grande e surpreendente variedade de títulos.
Chapters/Indigo

Estava blogado para a conferência de imprensa antes mesmo de mandar os convites para a imprensa. Todos me queriam como um tipo de líder, general ou comandante guerrilheiro. E eu descobri que o jeito de resolver isso seria ter um bando de Xneters por perto, respondendo perguntas também...
Então mandei emails para a imprensa. As respostas foram de intrigantes a entusiásticas; apenas um repórter da Fox se mostrou ultrajado por eu tê-lo convidado a participar de um game ao invés de aparecer em seu show de televisão. O resto deles pareceu pensar que ao menos daria uma boa história, e muitos queriam informações técnicas de como se logar ao jogo.

Mamãe estava curiosa sobre onde eu passava as tardes fora de casa, e então eu finalmente contei a ela sobre Ange. Daí ela veio com toda aquela aura, e aquele olhar de “meu garotinho está crescendo”. Ela queria conhecer Ange e eu usei isso, dizendo que eu a traria em casa na noite seguinte, se eles me deixassem “ir ao cinema” com Ange aquela noite.

A mãe de Ange e a irmã estavam fora de novo - elas não eram muito caseiras - o que me deixava sozinho com Ange em seu quarto com seu Xbox e o meu. Eu despluguei um dos monitores ao lado da cama, e pluguei no meu Xbox para que pudéssemos logar juntos.
Com ambos Xboxs conectados, entramos no Clockwork Plunder.
“Vai ser legal!” ela disse. “O Patcheye Pete’s Market está com 600 jogadores!”

Tínhamos escolhido o Patcheye Pete’s por que era o mercado mais perto da praça da vila, onde os novos jogadores surgiam. Se os repórteres não fossem jogadores costumeiros - hahaha - então seria o lugar mais à vista. Mandei uma mensagem pelo blog pedindo que as pessoas ficassem por perto, e orientei qualquer um que parecesse um repórter perdido.
“O que diabos vou dizer para eles?”
“Você vai apenas responder as perguntas - se não gostar de uma pergunta, basta ignorar. Alguém pode responder por você. Vai dar tudo certo.”
“Isso é loucura.”
“Isso é perfeito, Marcus. Se quer mesmo ferrar a DHS, precisa envergonhá-los. Não pode ganhar deles numa luta justa. Sua única arma é fazer com que eles se pareçam estúpidos.”

Me virei na cama, ela colocou minha cabeça no seu colo e despenteou meu cabelo. Eu já tinha tido muitos cortes de cabelo antes da bomba e das cores mais engraçadas, mas desde que saí da prisão eu não me importei mais com isso. Já tive minha diversão e agora eu os mantinha curtos, o que representava zero esforço para cuidar deles e me ajudava a parecer invisível quando estava por ai zoando e clonando arphids.

Abri os olhos e encarei aqueles grandes olhos castanhos por trás dos óculos. Redondos, úmidos e expressivos. Ela conseguia arregalá-los de tal maneira que pareciam que iriam saltar, quando queria me fazer rir, ou fazê-los calmos ou tristes ou preguiçosos ou sonolentos de um jeito que me transformava em um prato de pudim.
Era o que ela estava fazendo agora.

Sentei-me e a abracei e ela me abraçou de volta. Nos beijamos. Ela beijava muito bem. Eu sabia. Já tinha dito isso, mas sempre repetia. Nos beijávamos muito, mas por uma razão ou outra, sempre parávamos quando as coisas esquentavam.

Agora eu queria ir além. Encontrei a beirada de sua camisa e a puxei. Ela ergueu os braços para o alto da cabeça e eu sabia que ela queria aquilo. Desde a noite no parque. Talvez por isso nós não tínhamos ido além - sabia que não podia falhar com ela, o que me apavorava um pouco.
Mas eu não estava nem um pouco apavorado agora. A iminente conferência com a imprensa, as brigas com meus pais, a atenção internacional, a sensação de que havia um movimento se espalhando pela cidade como um pinball louco - fazia minha pele latejar e meu sangue se agitar.
E ela era linda e esperta e inteligente e engraçada e eu estava me apaixonando por ela.
Sua blusa subiu e ela de costas para mim pediu ajuda para puxá-la sobre os ombros. Ela fez um movimento e seu sutiã se soltou. Eu era todo olhos, não me movia ou respirava e então ela arrancou minha camisa puxando-a pela minha cabeça, e colocou seu peito nu contra o meu.
Rolamos na cama e nos tocamos um ao outro espremendo o corpo um contra o outro gemendo. Ela beijou meu peito e eu fiz o mesmo com ela. Eu não respirava. Nem pensava. Apenas me movia, e beijava e lambia e tocava.
E não parou por aí, fomos em frente e eu abri seu jeans. Ela abriu o meu. Corri seu zíper, ela o meu, arranquei meu jeans, ela o dela. Logo estávamos nus, exceto por minhas meias, que eu arranquei com os dedos dos pés.
Foi então que olhei para o relógio do lado da cama, que já estava caído no chão, nos iluminando.
“Caramba!” gritei “Começou há dois minutos!” Eu não podia acreditar que iria parar com aquilo que estava fazendo. Quer dizer, se você me perguntasse “Marcus, você está prestes a ter a sua primeira vez na sua vida, você pararia se detonassem uma bomba nuclear no mesmo quarto que você?” a resposta seria um ressonante e inequívoco NÃO.
E ainda assim nós paramos tudo.
Ela me puxou e beijou meu rosto, então agarramos nossas roupas e mais ou menos nos vestimos, puxamos o teclado e o mouse e rumamos para Patcheye Pete’s.

#

Dava para dizer com facilidade quem era da imprensa: eram os novatos (n00bs) cujos personagens pareciam bêbados, indo para lá e para cá, tentando pegar o jeito da coisa, ocasionalmente apertando a tecla errada e oferecendo para estranhos todo ou parte de seu inventário ou dando beijos e abraços acidentais.
Os Xnetes eram fáceis de identificar também, éramos todos jogadores de Clockwork Plunder sempre que tínhamos tempo livre (ou não estávamos fazendo lições de casa) e tínhamos os personagens com as armas mais incríveis e apetrechos de defesa.

Quando apareci, uma mensagem de status do sistema mostrou “M1K3Y ENTROU NO PATCHEYEPETE’S. BEM VINDO MARUJO, NÓS TE OFERECEMOS NEGÓCIO HONESTO E BOAS BEBIDAS.” Todos os jogadores na tela congelaram, então me cercaram. O chat explodiu. Pensei em ligar o som e arranjar um headset mas vendo quantas pessoas estavam tentando falar ao mesmo tempo eu pensei que seria muito confuso. Por texto seria mais fácil e eles não poderiam me citar erroneamente (hehehe).

Eu  já tinha explorado o lugar com Ange antes - era ótimo trabalhar em equipe com ela, já que podíamos nos proteger um ao outro. Havia um lugar mais alto numa pilha de caixotes de rações salgadas que eu consegui alcançar e onde seria visto por todos no mercado.

>Boa noite e obrigado por terem vindo. Meu nome é M1k3y e não sou o líder de coisa alguma. Ao redor de vocês estão os Xnetes que tem tanto a dizer quanto eu sobre o porquê de estarmos aqui. Eu uso a Xnet por que acredito na liberdade e na constituição dos Estados Unidos da América. Eu uso o Xnet por que o DHS transformou minha cidade em um estado policial onde todos somos suspeitos de terrorismo. Eu uso a Xnet por que penso que não podemos defender nossa liberdade rasgando os direitos civis. Eu aprendi sobre a constituição Americana em um colégio da Califórnia e aprendi a amar meu país por sua liberdade. Se eu tenho uma filosofia, então é essa.
>Os Governos são instituídos entre os homens, dando a eles o poder pelo consenso dos governados, sendo que se de alguma forma este se tornar destrutivo. É do direito do povo alterá-lo ou o abolir e instituir novo governo, amparando sua fundação em ais princípios e organizando seus poderes da forma que garantam sua efetiva segurança e felicidade
>Eu não escrevi isso, mas é no que eu acredito. O DHS não governa com meu consentimento.
>Obrigado.
Eu tinha escrito isso um dia antes e colar a mensagem só levou um segundo, contudo levou algum tempo para todos no jogo conseguirem ler. Um monte de Xneters aplaudiu, um grande “Hurra!” de piratas com sabres levantados e papagaios gritando e voando sobre nossas cabeças.
Gradualmente os jornalistas digeriram aquilo. O painel de chat passava correndo rápido, tão rápido que mal dava para ler, vários Xneters diziam coisas como “É isso aí” e “América, ame-a ou deixe-a” e “DHS vá para casa” e “América saia de São Francisco”, todos slogans famosos da blogosfera Xnet.
>M1k3y, sou Priya Rajneesh da BBC. Você diz que não é o líder do movimento, mas você acredita que exista um movimento? Se chama Xnet?’
Várias respostas surgiram. Alguns diziam que não havia um movimento, alguns diziam que sim e outros tinham idéias sobre o que era Xnet, Pequenos Irmãos, Pequenas Irmãs, e meu preferido, Os Estados Unidos da América. A coisa estava fervendo. Deixei que respondessem enquanto pensava no que poderia dizer. Quando soube, então teclei.
>Penso que isso tudo responde sua pergunta, não? Pode haver um ou mais movimentos e eles podem se chamar Xnet ou não.
>M1k3y, sou Doug Christensen do Washington Internet Daily. O que pensa que a DHS deveria fazer para prevenir de outro ataque contra São Francisco, se o que estão fazendo não funciona?
Mais respostas. Um monte de gente dizendo que os terroristas e o governo são a mesma coisa - até literalmente, ou então que são igualmente ruins. Alguns diziam que o governo sabia como capturar os terroristas, mas preferia não fazê-lo por que “os presidentes que declaram guerras” são os reeleitos.
>Eu não sei.
E teclei, enfim.
>Não sei mesmo. Me pergunto muito sobre isso, porque não quero morrer e não quero minha cidade destruída. Eu penso que, se é o trabalho do DHS nos deixar seguros, eles estão falhando nisso. Toda a porcaria que fizeram não vai impedir a ponte de ser explodida de novo. Nos rastreando pela cidade? Tirando nossa liberdade? Nos fazendo suspeitar uns dos outros, nos jogando uns contra os outros? Chamando de traidores? A idéia do terrorismo é nos aterrorizar. A DHS me aterroriza.
>Não tenho nada para dizer sobre o que os terroristas fizeram comigo, mas se este é um país livre; então eu poderia ao menos poder dizer o que os policiais fizeram comigo. Eu deveria poder evitar que eles me aterrorizassem.
>Sei que não é uma boa resposta. Desculpe.
>O que você quer dizer quando diz que o DHS não é capaz de parar os terroristas? Como sabe disso?
>Quem é você?
>Sou do Sydney Morning Herald.
>Tenho 17 anos de idade. Não sou o melhor aluno da classe ou coisa assim. Mesmo assim, sei usar a internet de maneira que eles não possam me grampear. Seu zonear com a tecnologia de rastreamento de pessoas, posso transformar pessoas inocentes em suspeitas e culpados em inocentes aos olhos deles. Consigo entrar com metais em aviões e enganar uma lista de pessoas proibidas de voar. Consigo isso pesquisando na internet ou apenas pensando. Se eu posso fazer isso, os terroristas também podem. Eles dizem que vão tirar nossa liberdade por conta da nossa segurança. Você se sente seguro?
>Na Austrália? Sim, me sinto.

Todos os piratas riram.
Mais jornalistas fizeram perguntas. Alguns foram simpáticos e outros foram hostis. Quando ficava cansado passava o teclado para Ange e a deixava ser M1k3y por um pouco. Não achava mesmo que ele e eu éramos a mesma pessoa de qualquer jeito. M1k3y era do tipo que falava com jornalistas internacionais e inspirava um movimento. Marcus fora suspenso na escola, brigava com o pai e pensava se era bom o bastante para sua namorada fenomenal.
Por volta das 11 da noite eu estava cheio. Além disso, meus pais me esperavam em casa e eu não podia demorar. Saí do jogo e Ange também e deitamos por um minuto. Peguei sua mão e ela apertou a minha com força. Nos abraçamos.
Ela beijou meu pescoço e murmurou algo.
“O quê?”
“Eu disse que te amo. Por quê? Quer que te mande por telegrama?”
“Uau.”
“Está surpreso?”
“Não. Huh, é só que… eu ia dizer o mesmo para você.”
“Tá bom que ia.” E me deu um peteleco no nariz.
“É que eu nunca disse isso antes. Então estava me preparando.”
“Você não precisa dizer, você sabe. Não pense que eu não reparei. Nós, garotas, ligamos para estas coisas.”
“Eu te amo, Ange Carvelli.” eu disse.
“Também te amo, Marcus Yallow.”
Nos beijamos e partimos um para cima do outro e comecei a respirar pesado e ela também. Foi quando a mãe dela bateu na porta.
“Ângela,” ela disse. “acho que está na hora do seu amigo ir para casa, não acha?”
“Sim, mamãe.” ela disse e imitou um machado descendo no ar. Coloquei minhas meias e sapatos ela resmungou: “Eles dirão, aquela Ângela, era uma garota tão boa, quem pensaria que todo aquele tempo que estava no jardim, ela estava ajudando sua mãe a afiar aquela machadinha.”
Eu comecei a rir. “Você não sabe a moleza que tem. Duvido que meus pais nos deixassem sozinhos no meu quarto até as 11 da noite.”
“11:45.” ela disse checando seu relógio.
“Caramba!” gritei e amarrei os sapatos.
“Vá embora!” ela disse “Corra e seja livre! Olhe para ambos os lados antes de atravessar a rua! Escreva se conseguir um trabalho. Não pare nem mesmo para um abraço! Se não estiver longe daqui quando eu contar dez, então teremos problemas, moço. Um. Dois. Três.”

Calei-a, empurrando-a para a cama e sobre ela a beijei até que parasse de contar. Satisfeito com minha vitória, desci as escadas com meu Xbox debaixo do braço.
Sua mãe estava no pé da escada. Só a tinha encontrado algumas vezes. Parecia com uma versão mais velha e mais alta de Ange - Ange tinha dito que seu pai era o mais baixo da família - com lentes de contato ao invés de óculos. Ela parecia me classificar como um bom moço e eu gostei disso.
“Boa noite, senhora Carvelli.” eu disse.
“Boa noite, senhor Yallow.” ela disse. Este era um dos nossos rituais, desde que a tinha chamado assim da primeira vez.
Parei meio sem jeito ao seu lado na porta.
“O que foi?” ela disse.
“Huh, obrigado por me receber na sua casa.”
“Você será sempre bem vindo em nossa casa, meu jovem.” ela disse.
“E obrigado por Ange.” disse ao fim me odiando pelo jeito que aquilo soou. Mas ela sorriu largo e me deu um breve abraço.
“Você é muito bem-vindo.” ela falou.
Por todo o caminho de ônibus de volta para casa pensei na conferência de imprensa além de Ange nua e escrevendo comigo na sua cama além de sua mãe sorrindo e me mostrando a porta.
Minha mãe esperava por mim. Me perguntou sobre o filme e lhe dei a resposta que havia preparado com antecedência, depois de ter lido uma resenha no jornal Bay Guardian.
Enquanto adormecia a conferência de imprensa me voltou. Estava orgulhoso de verdade daquilo. Tinha sido tão legal, com todos aqueles figurões das notícias no jogo, me ouvindo e ouvindo a todos os outros que acreditavam nas mesmas coisas que eu. Peguei no sono com um sorriso nos lábios.

#

Eu deveria saber.
LÍDER DA XNET AFIRMA: EU PODERIA ENTRAR COM METAL EM UM AVIÃO.
DHS NÂO TEM MEU CONSENTIMENTO PARA GOVERNAR.
OS GAROTOS DO XNET CLAMAM: ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, SAIAM DE SÃO FRANCISCO.

Eram as manchetes. Todo mundo me mandava artigos para o blog, mas era a última coisa que eu queria fazer.
Tenho que acabar com isso de algum jeito. A imprensa tinha vindo à minha conferencia e concluído que éramos terroristas ou simpatizantes deles. O pior foi o repórter da Fox News, que aparentemente apareceu lá de qualquer forma e que dedicou um comentário de dez minutos para nós, falando sobre “traição criminosa.” Seu bordão sensacionalista que era repetido a cada chamada era:
“Eles dizem que não têm um nome. Eu tenho um para eles. Vamos chamar estas crianças mimadas de Cal-Quaeda (trocadilho com Al Quaeda e Califórnia). Eles fazem o trabalho dos terroristas no front caseiro. Quando - não ‘se’, mas quando - a Califórnia for atacada novamente, estes pirralhos serão tão culpados quanto a família real Saudita.”

Líderes do movimento anti-guerra nos chamaram de extremistas. Um cara foi à TV dizer que acreditava que nós tínhamos sido fabricados pela DHS para desacreditá-los.
A DHS, em sua conferência para imprensa, anunciou que dobraria a segurança em São Francisco. Eles tinham posto a mão em um arphid clonado e fizeram uma demonstração de como funcionava e alertaram a todos sobre jovens com o comportamento suspeito.
Eles não estavam de brincadeira. Terminei meu trabalho sobre Kerouac e comecei o trabalho sobre o Verão do Amor, o verão de 1967 quando o movimento anti-guerra e os hippies se encontraram em São Francisco. Os caras que fundaram a sorveteria Ben and Jerry’s, dois hippies velhos, fundaram também um museu da cultura hippie em Haight onde era possível ter acesso aos arquivos de documentos e exibições.
Mas não estava fácil. Ao final da semana eu fui parado uma média de quatro vezes por dia. Policiais checaram minha identidade e questionaram sobre o motivo de estar na rua, Leram atentamente a carta da Chavez dizendo que eu estava suspenso.

Tive sorte. Não fui detido. Mas o resto da Xnet não teve a mesma sorte. Toda noite a DHS anunciava mais e mais detenções, “líderes” e “participantes” da Xnet, gente que eu não conhecia e que nunca tinha ouvido falar desfilava na TV com aparelhos de clonagem e outros aparelhos em seus bolsos. Anunciaram que estas pessoas estavam dando outros nomes da rede Xnet e que mais detenções eram esperadas para breve. O nome “M1k3y” era sempre ouvido.

Papai e eu assistíamos os noticiários juntos, ele alegre com a infelicidade alheia e eu me apequenando, quase perdendo o controle. “Você devia ver as coisas que eles fazem com estes garotos.” disse papai. “Já os vi em ação. Eles pegaram um par destes moleques  e vasculharam as listas de amigos deles no IM e nas agendas dos celulares, procurando por mais e mais nomes, buscando padrões que levassem a mais e mais garotos. Vão puxando a linha, como de um suéter velho.”
Cancelei o jantar com Ange no nosso recanto e comecei a passar mais e mais tempo na casa dela. A irmã pequena dela me chamava de “hóspede-convidado” e “aquele-que-jantava-com-a-gente”. Eu gostava de Tina. Tudo que ela gostava era de sair e festejar com amigos e encontrar garotos, mas ela era engraçada e muito devotada à Ange. Uma noite, enquanto lavávamos os pratos, ela secou as mãos e disse, conversando conosco: “‘Sabe, você parece um cara legal, Marcus. Minha irmã é louca por você e eu também gosto de você. Mas preciso lhe dizer uma coisa. Se você a magoar, eu vou atrás de você e arranco seu escroto fora. Não vai ser nada bonito.”
Eu garanti a ela que eu preferia eu mesmo arrancar meu escroto a fazer mal a Ange,e ela concordou: “Então estamos conversados.”
“Sua irmã é maluca.” eu disse quando voltei para cama de Ange, enquanto víamos alguns blogs na Xnet. E isso era tudo que fazíamos, ficávamos de bobeira e líamos na Xnet.
“Ela usou a história de cortar seu saco com você? Odeio quando ela faz isso. Ela adora a palavra ‘escroto’, sabe. Não é pessoal.”
Eu a beijei. Lemos um pouco mais.
“Ouça isso.” ela disse. “A polícia projeta entre quatrocentos e seiscentas detenções neste final de semana, na maior ação coordenada contra os dissidentes da Xnet até hoje.”
Me senti mal com isso.
“Temos que fazer com que isso pare.” eu disse. “Tem gente por aí fazendo interferência apenas para mostrar que não pode ser intimidado. Isso não é uma loucura?”
“Acho corajoso.” ela disse. “Não podem nos obrigar a ficar submissos.”
“O quê? Não, Ange, não. Não podemos deixar que centenas sejam mandadas para a cadeia. Você nunca esteve lá. É pior do que você pode imaginar.”
“Tenho uma imaginação bem fértil.” ela disse.
“Pare, tá bem? Fale sério por um segundo. Não quero isso. Não quero que estas pessoas sejam mandadas para a cadeia. Se o fizer, então serei o cara que Van pensa que eu sou.”
“Marcus, eu estou falando sério. Acha que estas pessoas não sabem que podem ir presas? Elas acreditam na causa. Você acredita também. Dê a elas o crédito de saber onde estão se metendo. Não é problema seu decidir quem pode e quem não pode correr riscos.”
“É minha responsabilidade, porque se eu mandar que parem, eles irão parar.”
“Pensei que você não era o líder.”
“Não sou, é claro. Não posso fazer nada se eles me vêem como uma liderança. E sendo assim, eu tenho a responsabilidade que mantê-los em segurança. Você entende, certo?”
“Tudo que vejo é você prestes a correr e desistir ao menor sinal de problema. Acho que tem medo que descubram quem você é. Acho que está com medo por você.”
“Isso não é justo.” eu disse me afastando dela.
“Mesmo? Quem foi que quase teve um ataque do coração quando ficou sabendo que sua identidade secreta não era tão secreta assim?”
“Aquilo foi diferente.” eu disse. “Isso não é sobre mim, sabe que não é. Por quê está fazendo isso?”
“Porquê?” ela disse. “Por que não aceita que você foi o cara com coragem bastante para começar isso tudo?”
“Isso não é coragem, é suicídio.”
“Drama adolescente barato, M1k3y.”
“Não me chame assim.”
“Do quê? M1k3y? Por que não M1k3y?”
Calcei os tênis e peguei minhas coisas. Fui para casa.

#

> Por que não estou fazendo interferência por aí?
> Não vou dizer a ninguém o que fazer, porque não sou o líder de ninguém, não importa o que a Fox News pense.
> Mas vou dizer a vocês o que planejo fazer. Se acharem que é o certo, talvez possam querer fazer também.
> Não estou zoando por ai, não nesta semana. E não é por que estou apavorado. É por que sou esperto o bastante para saber que sou mais útil livre do que na prisão. Eles acham que sabem como interromper nossa tática, então é hora de uma nova tática. Não importa qual a tática, desde que funcione. É uma estupidez ser preso. Só funciona zoar se você estiver livre para isso.
>Tem outra razão. Se você for preso, podem usar você para achar os seus amigos, e os amigos dele e os amigos deles e os amigos deles. Podem detê-lo mesmo que não faça parte da Xnet, por que a DHS é como um touro louco e eles não querem saber se você é o cara certo.
> Não estou dizendo a vocês o que fazer.
> Mas o DHS é burro e nós somos espertos. O que fazemos é uma prova de que eles não podem combater o terrorismo, pois sequer conseguem lidar com um bando de crianças. Se vocês forem presos, parecerá que o DHS é mais esperto que a gente.
>ELES NÂO SÃO MAIS ESPERTOS QUE A GENTE. Nós somos mais espertos. Vamos achar um jeito de ferrá-los, não importa quantos policiais eles coloquem nas ruas da nossa cidade.
Postei aquilo e fui para a cama.
Sentia falta de Ange.

#

Ange e eu não nos falamos nos quatro dias seguintes, incluindo o final de semana e então chegou a hora de voltar à escola. Tinha ligado quase um milhão de vezes para ela, mandado milhares de emails e IMs.
 Agora estava de volta à aula de Estudos Sociais e Mrs Andersen me saudou sarcástica, me perguntando docemente como tinham sido minhas férias. Sentei-me sem dizer coisa alguma. Podia ouvir Charles rindo baixo.

Ela começou a falar para a classe sobre o Destino Manifesto, a idéia de que os Americanos eram destinados a tomar o mundo inteiro (ou ao menos foi o que ela parecia querer parecer) e parecia me provocar com isso como se esperasse que eu dissesse algo.
Sentia os olhos da turma sobre mim e lembrei-me de M1k3y e das pessoas atrás dele. Eu estava cansado de ser vigiado. E sentia falta de Ange.
Passei o resto do dia sem dizer me importar com o que pudesse dizer respeito a mim. Acho que não disse sequer oito palavras.
Finalmente quando acabou, chutei as portas e tomei rumo do meu bairro estúpido e da minha casa sem sentido.
Mal tinha passado o portão quando alguém trombou comigo. Era um sujeito de rua, sem teto, talvez da minha idade, talvez um pouco mais velho. Ele vestia um casaco verde comprido, jeans largos e tênis gastos e parecia que tinha dormido numa serraria. Seu cabelo longo caia sobre o seu rosto e alguma barba.
Isso tudo eu vi ainda caído ao lado dele na calçada, as pessoas passavam e olhavam para a gente com estranheza. Parecia que ele tinha tropeçado e caído sobre mim enquanto descia a Valencia com pressa.
Ficou de joelhos e rolou para trás e para frente como se estivesse bêbado ou tivesse batido a cabeça.
‘Desculpa, meu chapa’ ele disse. ‘Não te vi. Está machucado?’
Sentei. Não tinha me machucado.
“Não, estou ok.”
Ficou de pé e sorriu. Seus dentes eram brancos e perfeitos,como um comercial de clinica odontológica. Esticou a mão para me ajudar e ela era forte e firme.
“Lamento mesmo.” Sua voz era clara e inteligente. Eu esperava que soasse como um daqueles bêbados que ficam pela Missão tarde da noite, mas se parecia mais como um balconista de alguma livraria conhecida.
“Sem problema.”
Ele esticou de novo a mão.
“Zeb.” ele disse.
“Marcus.”
“É um prazer, Marcus. Espero cruzar com você por aí algum dia.”
Rindo, ele pegou sua mochila virou-se e foi embora rápido.

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Fiz o resto do caminho de casa de forma distraída. Mamãe estava na mesa de cozinha e tivemos uma conversa rápida sobre coisa alguma em geral, do jeito que sempre fazíamos antes de tudo mudar.
Subi para meu quarto e fui me sentar na cadeira. Não queria me logar na Xnet. Já tinha dado uma checada de manhã antes de ir para a escola e tinha descoberto que meu post provocara uma controvérsia gigantesca entre pessoas que concordavam e pessoas que estavam furiosas por eu dizer que deviam parar com sua querida diversão.

Eu tinha uns três mil projetos e estava no meio deles quando a coisa toda começou. Eu estava construindo uma câmera caseira feita de legos, estava brincando com um jeito de tirar fotografias aéreas usando uma pipa e uma velha câmera digital com um obturador preparado para disparar progressivamente em intervalos. Eu fazia um amplificador de tubo a vácuo sendo feito a partir de um velho e corroído latão de óleo de cozinha que parecia mais com um achado arqueológico - e quando estivesse pronto, eu planejava fazer uma conexão para meu telefone e um set de auto-falantes sorround 5.1 de latas de atum. 

Dei uma olhada por sobre a mesa de trabalhos e peguei a câmera caseira. Colocar os legos metodicamente juntos era fácil. Tirei meu relógio e o anel de prata de dois dedos onde um macaco e um ninja brigavam e larguei tudo numa pequena caixa que usava para guardar a porcariada que tirava dos bolsos e do pescoço. Celular, carteira, chaves, wifinder, troco, pilhas, cabos retráteis... largava tudo na caixa e assim não precisava pensar onde tinha colocado as coisas depois.
Um pedaço de papel cinza, macio como flanela, ficou no meio de tudo. Nele estava escrito algo à mão, cuidadosamente escrito como eu nunca vira antes. Desdobrei-o. Estava escrito do dois lados, do canto esquerdo até o canto oposto e assinado abaixo do canto direito de um dos lados.
“ZEB”
Comecei a ler:
“Caro Marcus. Você não sabe quem eu sou, mas eu sei quem você é. Desde que a ponte da baía foi explodida há três meses atrás, fui mantido prisioneiro na Treasure Island. Eu estava lá quando você falou na quadra com a menina asiática e foi pego. Vocês foram corajosos. Bom pra vocês. Eu tive um apêndice supurado no dia seguinte e fui parar na enfermaria. Na cama ao lado da minha conheci um cara chamado Darryl. Nós estivemos nos recuperando por bastante tempo e ficamos bem, tínhamos causado problemas demais para simplesmente nos deixarem partir.  Então decidiram que devíamos ser culpados por alguma coisa. Nos interrogaram todos os dias. Você esteve sendo interrogado também. Imagine isso por meses.  Darryl e eu terminamos companheiros de cela. Sabíamos que nos vigiavam e então só falávamos de bobagens. Mas numa noite, quando estávamos nos catres, trocamos mensagens em código Morse (eu sabia que meu rádio Morse teria utilidade algum dia).  Primeiro, suas perguntas para nós eram aquela baboseira do quem fez isso, quem fez aquilo, como fizeram isso. Mas depois de um tempo, passaram a nos perguntar sobre a Xnet. É claro que nunca tínhamos ouvido falar dela. Mas isso não os impedia de perguntar. Darryl me disse que eles haviam trazido clonadores, xboxers e todo tipo de tecnologia e ordenaram que ele dissesse como usá-los e como podiam aprender a usá-los. Darryl me contou sobre os jogos de vocês e as coisas que aprendeu. Especialmente a DHS queria saber sobre seus amigos. Quem nós conhecíamos? Como eram? Se tinham ligações políticas, se tinham problemas na escola ou com a lei. Faz uma semana que me liberaram e acho que ninguém sabe que seus filhos e filhas estão presos bem ali no meio da baía. À noite, podemos ouvir risos e festas no continente. Não vou dizer como saí, no caso disso cair em mãos erradas. Talvez outros possam usar a mesma saída que eu. Darryl me disse como encontrar você e me fez prometer que diria o que eu sabia quando eu voltasse. Agora eu vou embora daqui. Vou deixar este país de qualquer jeito. Que se dane a América. Força irmão. Eles têm medo de você. Acabe com eles por mim e não  deixe que te peguem. ZEB.”

Lágrimas enchiam meus olhos ao terminar de ler. Eu tinha um isqueiro em algum lugar da mesa que era usado para queimar o encapamento dos fios. Eu iria usá-lo para queimar o bilhete. Sabia que devia isso a Zeb, destruir a mensagem para que ninguém pudesse jamais ler aquilo no caso de estarem procurando por ele, aonde quer que estivesse indo.
Segurei a chama e o papel, mas não consegui fazê-lo.
Darryl.
Com toda esta porcaria sobre Xnet e Ange e a DHS, tinha quase esquecido que ele existira. Tinha se tornado um fantasma como um velho amigo de colégio que se muda para longe ou parte para um programa de intercâmbio. Todo este tempo eles tinham interrogado ele, o obrigado a ensinar sobre o Xnet, os aparelhos de interferência. Estivera em Treasure Island, na base militar abandonada que ficava no meio do caminho ao longo da ponte demolida da baía. Tão perto que poderia nadar até lá.
Baixei o isqueiro e li o bilhete de novo. Quando terminei estava chorando. Tudo voltou, a mulher com cabelos curtos e as perguntas e a urina e o fedor da urina seca na calça.
"Marcus?"
Minha porta estava aberta e minha mãe estava de pé junto dela, me olhando com um ar preocupado. Quanto tempo ela estivera ali?
Sequei as lagrimas do rosto e engoli o choro. “Mãe.” eu disse. “Oi!”
Ela veio até mim e me abraçou. “O que foi? Quer conversar?”
O bilhete estava sobre a mesa.
“É aquela garota? Está tudo bem?”
Ela estava me dando uma saída. Eu podia colocar a culpa nos problemas com Ange e ela sairia e me deixaria sozinho.  Abri a boca para falar isso e então o que saiu foi:
“Eu fui preso. Depois que a ponte explodiu. Eu fiquei numa cela o tempo todo.”
O choro que veio não parecia vir de mim. Soava como um animal, talvez um macaco ou o som de um gato gordo no meio da noite. Chorava e minha garganta ardia e doía.
Mamãe me pegou nos braços, do mesmo jeito quando eu era pequeno e acariciou meu cabelo e murmurou no meu ouvido e me embalou e gradualmente o choro cedeu.
Respirei profundamente e mamãe me trouxe um copo de água. Sentei na cama e ela na cadeira, e eu lhe contei tudo.
Tudo.
Bem, quase tudo.



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