sábado, 20 de fevereiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 17


CAPÍTULO 17
Este capítulo é dedicado à Waterstone, a cadeia nacional inglesa de livrarias. Waterstone é uma cadeia de lojas, mas cada qual tem independência em relação aos seus estoques (especialmente de audiobooks) e um staff que sabe das coisas.
Waterstones

Então contamos tudo para ela. Foi engraçado. Ensinar as pessoas a usar a tecnologia é sempre excitante. É muito legal ver as pessoas descobrirem que a tecnologia ao seu redor pode fazer melhor as suas vidas. Ange foi ótima também, nós formamos um ótimo time. Explicamos o funcionamento e Bárbara também saiu-se bem, é claro.

Ela cobrira as guerras de criptografia, o período no começo dos anos 90 quando grupos como a Electronic Frontier Foundation batalhou pelo direito dos Americanos de usar criptografia forte. Eu sabia pouco sobre este período, mas Bárbara o explicou de um jeito que me fez cair para trás.
É inacreditável hoje, mas houve um tempo em que o governo classificava a criptografia como armamento e a tornou ilegal para qualquer um exportá-la ou utilizá-la em território nacional. Entendeu? Nós tínhamos matemática ilegal neste país.

A Agência de Segurança Nacional (NSA) era a principal interessada nesta proibição. Eles tinham uma criptografia padrão que diziam ser boa o bastante para os bancos e seus clientes usarem, mas não boa o bastante para a máfia manter seus livros secretos para eles. O padrão, DES-56, era tido como praticamente inquebrável, Então um dos co-fundadores milionários da EFF pagou por um software que poderia quebrar o código em duas horas.
Ainda assim a NSA argumentou que isso seria capaz de deixar os cidadãos Americanos guardar seus segredos sem poder bisbilhotá-los. Então o EFF deu o golpe mortal. Em 1995 representaram um estudante de matemática da universidade de Berkeley, chamado Dan Bernstein, diante de um juiz. Bernstein havia escrito um tutorial sobre criptografia que continha código de computador que podia ser usado para fazer um código mais forte que o DES-56. Milhões de vezes mais forte. 
Quando o NSA se preocupou, bastou para transformar o seu artigo numa arma e conseqüentemente ele se tornou impublicável.

Deve ter sido complicado para um juiz entender criptografia e o que significava, mas ficou claro que a média dos juízes da corte de apelação não era realmente entusiasta sobre o fato de se dizer a um estudante graduado, que tipo de artigo ele tinha permissão de escrever. A guerra da criptografia terminou com a vitória dos mocinhos quando a justiça determinou que o código era uma forma de expressão protegida sob a primeira emenda – “O Congresso não pode aprovar uma lei redutora da liberdade de expressão”. Sempre que você compra algo pela internet ou manda uma mensagem secreta ou consulta sua conta bancária, você está usando criptografia que a EFF legalizou. A NSA não era tão esperta. Tudo que eles sabem como decifrar você pode ter certeza de que os terroristas e mafiosos podem saber também.
Bárbara foi uma das repórteres que ganhou sua reputação cobrindo esta matéria. Ela começou cobrindo o movimento dos direitos civis em São Francisco e reconhecia similaridade entre a luta pela defesa da Constituição no mundo real e a luta no ciberespaço.

Então ela entendia da coisa. Acho que não conseguiria explicar isso para meus pais, mas para Bárbara foi fácil. Ela fazia perguntas inteligentes sobre nossos protocolos de criptografia e processos de segurança, algumas vezes perguntando sobre coisas que nem eu sabia responder, por vezes apontava furos potenciais em nossos procedimentos.

Plugamos o Xbox e entremos online. Encontramos quatro pontos de rede WIFI visíveis a partir da sala e eu disse que ela poderia mudá-los entre intervalos randômicos. Ela entendeu tudo também, uma vez que estava plugada na Xnet era como estar na internet, somente um pouco mais lento e tudo era anônimo e inviolável.
“E agora?” Perguntei. Eu estava seco e com uma terrível sensação de acidez por conta do café. Além disso, Ange ficava apertando minha mão debaixo da mesa como se quisesse ir embora e encontrar algum lugar privado para fazermos as pazes depois da nossa primeira briga.
“Agora eu vou fazer jornalismo. Você vai embora e eu faço as pesquisas sobre tudo que me falou e tento confirmar estas informações, levando-as até onde eu puder. Deixarei que veja o que vou publicar e aviso quando for ao ar. Prefiro que não fale com ninguém sobre isso por enquanto, porque eu quero este furo de reportagem e porque eu quero ter certeza que tenho a historia antes que chegue no lodaçal da imprensa especulativa e no DHS.”
“Terei que procurar o DHS para que eles façam seus comentários antes de ir à imprensa, mas o farei de um jeito que irá proteger vocês de qualquer coisa que aconteça como conseqüência. E também irei deixar você saber  de tudo antes que isso aconteça.”
“Eu preciso deixar uma coisa muito clara: esta não é mais a sua historia. É minha. Você foi muito generoso em dá-la para mim e eu tentarei compensá-lo pelo presente, mas você não terá o direito de editar nada, mudar ou me deter. Agora que a coisa está em movimento, não pode ser parada. Entendeu?”
Eu não tinha pensado nisso naqueles termos, mas uma vez que ela falou, ficou óbvio para mim. Significava que eu tinha disparado o míssil, mas não podia trazê-lo de volta. Iria cair onde estava apontado, ou sairia do curso; mas uma vez no ar, não podia mudá-lo. Quem sabe, num futuro próximo, eu deixaria de ser o Marcus para ser uma figura pública. Eu seria o cara que acabou com a DHS.
Um homem condenado.
Apostava que Ange pensava do mesmo jeito, pois ela estava de uma cor entre o branco e o verde.
“Vamos sair daqui!” ela disse.

#

A mãe e a irmã de Ange estavam fora novamente, o que facilitou a decisão de onde passaríamos o fim de tarde. Já passava um pouco da hora do jantar, mas meus pais sabiam que eu tinha um encontro com Bárbara e não me dariam uma bronca se eu chegasse tarde.
Enquanto ia para o quarto de Ange não tinha pressa em entrar no meu Xbox. Já tinha tido Xnet demais por um dia. Tudo o que eu pensava era Ange, Ange, Ange. Viver sem Ange. Saber que Ange estava brava comigo. Que Ange nunca mais falaria comigo de novo. Ange nunca me beijaria de novo.
Ela tinha pensado a mesma coisa. Dava para ver nos seus olhos assim que fechamos a porta de seu quarto e olhamos um para o outro. Eu tinha fome de Ange, fome como se tem por não comer durante dias. Como sede de um copo de água após jogar bola por três horas seguidas.
Nem era isso. Era muito mais. Algo que eu nunca sentira antes. Eu queria comê-la por inteiro, devorá-la.
Até aquele momento, ela tinha sido a parte sexual de nosso relacionamento. Eu tinha deixado ela no controle das ações. Era maravilhosamente erótico, me agarrando e tirando minha camisa e puxando meu rosto para o seu.
Mas esta noite eu não iria me deter.

Ao som do fecho da porta eu já retirava sua camisa. Tirei a minha puxando pela cabeça.
Seus olhos brilhavam, sua boca aberta, a respiração rápida e profunda. A minha também, minha respiração e meu coração e o sangue soando nos meus ouvidos.
Tirei o resto das roupas, jogando-a nas pilhas de roupas sujas e as limpas vindas da lavanderia ao chão. Havia muitos livros e papéis por toda sua cama e eu joguei tudo para o lado. Mergulhamos entre suas cobertas e no segundo seguinte os braços já envolviam um ao outro, apertando como se quiséssemos atravessar um ao outro. Ela gemia na minha boca e sentia sua voz nas minhas cordas vocais, uma sensação mais íntima do que qualquer outra que já tivera.
Ela descolou-se e alcançou a cabeceira. Puxou uma gaveta e de dentro puxou um saco branco de farmácia e me entregou. Olhei para dentro. Caixas de camisinhas do tipo com espermicida. A maioria ainda fechada. Sorri para ela e ela sorriu de volta e eu abri uma caixa.

#

Por anos eu tinha pensado como seria. Imaginei centenas de vezes como seria. Eu não pensava em outra coisa.
Não foi nada como eu esperava. Algumas partes foram melhores. Outras partes muito pior. Enquanto acontecia, pensei ser uma eternidade. Depois, parecia que tinha durado um piscar de olhos.
E depois, eu me sentia igual. Mas também me sentia diferente. Algo havia mudado entre nós.
Fora estranho. Estávamos tímidos ao vestirmos nossas roupas e ficamos pelo quarto, olhando ao redor, evitando os olhos um do outro. Envolvi a camisinha num lenço de papel de uma caixa ao lado da cama e fui ao banheiro e o enrolei com papel higiênico e joguei-o na lixeira.
Quando voltei, Ange estava sentada na cama jogando no seu Xbox. Sentei-me cuidadosamente ao lado dela e peguei sua mão. Ela olhou para mim e sorriu. Estávamos cansados e trêmulos.
“Obrigado.” eu disse.
Ela não disse nada. Ela tentava sorrir, mas as lágrimas rolavam por suas bochechas.
Eu a abracei forte contra meu peito. “Você é um bom homem, Marcus Yallow.” ela sussurrou. “Obrigada.”
Eu não sabia o que dizer, mas a apertei também. Finalmente nos separamos. Ela não estava mais chorando, mas ainda sorria.
Apontou para meu Xbox caído ao lado da cama. Eu entendi. Fui pegá-lo, liguei e conectei em seguida.
Nenhuma novidade, apenas o de sempre. Montes de email. Deus, como eu recebia spam. Minha caixa postal sueca estava cheia de “joe-jobbed” - que indicava quando o endereço de resposta para os spams mandavam centenas de milhões de contas da Internet, de forma que todo tipo de mensagem de bounce e mensagens de irritação chegavam para mim. Não sabia quem estava por trás disso. Talvez fosse o DHS tentando entupir minha caixa de entrada. Talvez fosse apenas alguém testando os filtros do Pirate Party.

Filtrei aquilo tudo e castiguei a tecla delete. Eu tinha uma caixa de correio separada para coisas que chegavam criptografadas para minha chave pública. Os espalhadores de spam não sabiam que utilizando chaves públicas eles tornariam seu lixo mais plausível, então, por enquanto, tudo estava funcionando bem.
Tinha uma dúzia de mensagens criptografadas de pessoas da rede de confiança. Dei uma espiada - links para vídeos e fotos de novos abusos por parte do DHS, histórias horrorosas. O de sempre.
E uma delas estava criptografada apenas pela minha chave pública. O que significava que ninguém mais podia ler, mas eu não tinha idéia de quem a escrevera. Dizia ter vindo de Masha, que poderia ser um apelido ou um nome, não sabia.

>M1k3y. Você não me conhece, mas eu conheço você. Eu fui preso no dia que explodiram a ponte. Eles me interrogaram. Decidiram que eu era inocente. Me ofereceram um trabalho: ajudá-los a encontrar os terroristas que mataram nossos vizinhos. Me pareceu um bom acordo na época. Até que percebi que meu novo emprego seria espionar garotos ressentidos por que sua cidade se tornou um estado policial. Eu me infiltrei na Xnet no dia que foi lançada e estou na sua rede de confiança. Se eu quisesse revelar minha identidade eu poderia mandar um email para você de um endereço que você confie. Estou dentro da sua rede como apenas outro garoto de 17 anos. Alguns dos emails que você recebeu foram cuidadosamente feitos para confundi-lo por mim e meus patrões. Eles não sabem quem você é, mas estão perto de descobrir. Eles continuam a pegar pessoas e fazer acordo com elas. Estão minando os sites da rede social e usando de ameaças para transformar garotos em informantes. Existem centenas deles trabalhando para a DHS na Xnet neste momento. Eu tenho seus nomes, apelidos, chaves públicas e privadas.  Quando a Xnet foi lançada nós trabalhamos explorando o ParanoidLinux. Encontrarmos uma brecha, é inevitável. Uma vez que tomemos o controle, você estará morto. Acho que é seguro dizer que se meus patrões souberem que estou escrevendo isso, meu rabo vai parar no presídio da baía até que eu vire uma velha senhora.  Mesmo se eu não conseguir quebrar o código do ParanoidLinux, existem outros ParanoidXbox envenenados por aí. Eles não se importam com as atualizações, mas quantas pessoas se importam além de eu e você? Um monte de garotos já está ferrado e nem sabe ainda. Tudo depende de como meus patrões vão decidir a melhor hora para ferrar com você e fazer o maior estardalhaço na mídia. Esta hora está próxima, não vai demorar. Acredite. Você deve estar se perguntando o porquê de estar lhe contando tudo isso. Eu também. Cheguei aqui por ter assinado que iria combater terroristas. Ao invés disso, estou espionando Americanos que acreditam em coisas que o DHS não gosta.  Não as pessoas que planejam explodir pontes, mas aquelas que protestam. Não posso mais fazer isso. E nem você, mesmo que não saiba disso. Como disse, é apenas uma questão de tempo até você estar algemado em Treasure Island. Não se trata de ‘se’, mas ‘quando’. Fico por aqui. Em Los Angeles tem umas pessoas que dizem que podem me proteger se eu quiser sair disso. E eu quero. Eu levo você comigo se você quiser. É melhor ser um combatente do que um mártir. Se você vier comigo, podemos vencer juntos. Sou tão esperta quanto você, acredite em mim. O que me diz? Aqui está a minha chave pública. Masha.”

#

Quando estiver em apuros ou em dúvida, corra em círculos, berre e grite.
Já ouviu isso antes? Não é um bom conselho, mas ao menos é fácil de seguir. Eu saltei da cama e fiquei andando para lá e para cá. Meu coração queria sair e meu sangue fervia em uma paródia cruel de quando viemos para cada. E não era por excitamento sexual, e sim puro terror.
“O que foi?” Ângela disse. “O quê?”
Eu apontei a tela. Ela rolou até junto e pegando meu teclado, tocou o touchpad com seu dedo e leu em silêncio.
Eu continuei andando.
“Tem que ser mentira. O DHS está brincando com sua cabeça.”
Olhei para ela. Ela mordia um lábio. Ela não parecia acreditar no que dizia.
“Você acha?”
“Claro. Eles não conseguem te pegar, então estão usando a Xnet.”
“É.”
Sentei na cama. Minha respiração estava acelerada.
“Relaxa. São só jogos mentais. Aqui.”
Ela nunca tinha usado meu teclado antes. Mas agora havia uma nova intimidade entre nós. Ela começou a teclar.
> Boa tentativa.
Ela agora escrevia como se fosse M1k3y. Estávamos juntos de uma forma diferente do que era antes.
“Vá em frente e assine. Vamos ver o que ela vai dizer.”
Eu não sabia se era a melhor idéia, mas não tinha uma melhor. Assinei e criptografei com minha chave privada e a chave pública que Masha tinha passado. A resposta foi instantânea.
> Sabia que iria dizer algo assim. Mas eu tenho algo que você não pensou. Eu posso passar vídeos de maneira anônima pelo DNS. Aqui estão alguns links que você pode querer ver antes de se decidir. Estou cheia deles. Estas pessoas estão todas gravando umas as outras, o tempo todo, como garantia de que não serão traídas. Masha.
Tinha anexado um código fonte de um pequeno programa que aparentava ser exatamente o que Masha dizia poder fazer: Tunelar um vídeo passando pelo protocolo DNS (Domain Name Service).
Deixe-me explicar uma coisa antes. Ao fim do dia, todo protocolo de internet é somente uma seqüência de texto mandada de lá para cá em uma ordem prescrita. É algo como pegar um caminhão e colocar um caro dentro e então pegar uma moto e colocar no carro e depois colocar os patins na moto. Exceto que, se você quiser, você pode colocar o caminhão nos patins.
Por exemplo, peque o SMTP (Simple Mail Transport Protocol) que é usado para mandar email.
Uma conversa entre eu e meu servidor de email seria assim, mandando uma mensagem para mim.

> Olá littlebrother.com.se
250 mail.pirateparty.org.se Olá mail.pirateparty.org.se, quer ver você
> EMAIL DE:m1k3y@littlebrother.com.se
250 2.1.0 m1k3y@littlebrother.com.se... Remetente ok
> RCPT para:m1k3y@littlebrother.com.se
250 2.1.5 m1k3y@littlebrother.com.se... Destinatário ok
> DADOS
354 Enter mail, end with "." on a line by itself
> Quando em apuros ou em dúvida, corra em círculos, berre e grite
> .
250 2.0.0 k5SMW0xQ006174 Mensagem aceita para envio.
SAI
221 2.0.0 mail.pirateparty.org.se fechando a conexão
Conexão encerrada pelo host estrangeiro.

A gramática desta conversa foi definida em 1982 por Jon Postel, um dos heróis do antepassado da internet que literalmente tinha os mais importantes servidores de rede debaixo de sua mesa na universidade do sul da Califórnia, numa era paleolítica.
Agora imagine se você pendurar um servidor de email numa sessão de IM. Você poderia mandar um IM ao servidor dizendo “Olá littlebrother.com.se” e ele responderia “250 mail.pirateparty.org.se Olá mail.pirateparty.org.se, deseja ver você.” Em outras palavras, você poderia ter a mesma conversa pelo IM como usando o SMTP. Com o ajuste certo, toda a coisa do servidor de email poderia ser dentro de um chat. Ou numa sessão de web. Ou qualquer outra coisa.
Isso se chama tunelamento.
(Técnica através da qual um pacote é encapsulado num protocolo de alto nível e passado através de um sistema de transporte. O MBONE tunela cada datagrama IP multicast dentro de um datagrama IP tradicional.Fonte: USP.Esquema de Tunneling. (http://penta.ufrgs.br/redes296/mbone/tunel.htm)
Você coloca um SMTP dentro de um tunelamento de chat. E então colocar o chat de volta dentro de um tunelamento de SMTP se quiser realmente ser bem esquisito, tunelamento de tunelamentos.
De fato qualquer protocolo de internet é suscetível a este processo. É bacana, porque significa que, se você está numa rede com somente acesso a web, você consegue mandar um email por ela. Você pode mandar um endereço P2P predileto por ele. Até a Xnet - que por si só é um tunelamento de diversos protocolos - por ela.

DNS é um protocolo de internet antigo e muito interessante, criado em 1983. É desta maneira que seu computador converte um nome de computador - tipo pirateparty.org.se - para um número de IP que usualmente os computadores utilizam para conversar na rede entre eles, tipo 204.11.50.136. Parece mágica, apesar de milhões de partes móveis - cada ISP usa um servidor de DNS, assim como os governos e vários operadores privados. Estas caixas de DNS falam entre si o tempo todo, preenchendo e fazendo pedidos uma para a outra, então não importa quanto seja obscuro o nome que você colocou em seu computador, ele será capaz de se tornar um número.

Antes do DNS havia os arquivos HOSTS. Acredite ou não, havia um único documento onde estavam todos os nomes e endereços de cada computador conectado à internet. Cada computador tinha uma cópia disso. Este arquivo acabou ficando grande demais para ser transmitido então o DNS foi inventado e rodava num servidor que costumava ficar debaixo da mesa de Jon Postel. Se o pessoal da limpeza sem querer arrancava a tomada, toda a internet perdia sua habilidade de se achar. É sério.
O grande lance do DNS hoje é que ele está em toda parte. Todo lugar onde tem uma rede tem um servidor de DNS nela e todos estes servidores são configurados para falar entre eles e de caracterizar aleatoriamente as pessoas pela internet.

O que Masha fez foi pensar num jeito de tunelar um vídeo pela DNS. Ela tinha partido o vídeo em bilhões de pedaços e escondido cada parte dele em uma mensagem comum para o servidor DNS. Rodando seu código eu conseguia puxar o vídeo de todos aqueles servidores DNS por toda a internet numa velocidade incrível. Isso deve parecer bizarro num histograma da internet, como se eu estivesse procurando por todos os endereços de cada computador pelo mundo.
Isso tinha duas vantagens. Eu era capaz de baixar um vídeo num piscar de olhos - assim que eu clicasse no primeiro link eu começaria a receber imagens de tela cheia sem qualquer interrupção ou perda - e eu não teria a menor idéia de onde estaria hospedado. Totalmente anônimo.
Vídeo a partir da DNS? Aquilo era tão esperto e esquisito que era praticamente uma perversão.
Gradualmente o que eu via começou a fazer sentido.
Era uma sala pequena com uma mesa e um espelho em uma das paredes. Eu conhecia aquela sala. Eu tinha me sentado nela, enquanto a mulher do corte de cabelo rigoroso tinha me feito falar minha senha. Havia cinco cadeiras confortáveis ao redor da mesa, e em cada uma estava pessoa sentada confortavelmente, vestindo o uniforme da DHS. Reconheci o Major Graeme Sutherland, o comandante da DHS na área da baía, ao lado da mulher do cabelo curto. Os outros eram desconhecidos. Olhavam para uma tela na extremidade da mesa, na qual havia um rosto bastante familiar.

Kurt Rooney era conhecido nacionalmente como o chefe estrategista do presidente, o homem que deu ao governo um terceiro mandato e a possibilidade de um quarto. Eles o chamavam de “Impiedoso” e eu tinha visto uma reportagem na tevê sobre o quão rigoroso ele era com seus subordinados, controlando-os, observando cada emoção, cada passo. Ele era velho com um rosto marcado, de olhos cinzentos e pálidos e um nariz chato e lábios finos; um homem que parecia estar percebendo algo de podre o tempo todo.
Era ele o homem na tela. Ele falava e tinha a atenção de todos, tomando notas rapidamente, tentando parecer espertos.
“…diz estar zangado com as autoridades mas precisamos mostrar ao país que eles precisam culpar os terroristas e não o governo. Entendem? A nação não ama aquela cidade. Não é como pensam, é uma Sodoma e Gomorra de bichas e ateístas que merecem apodrecer no inferno. A única razão do pais se preocupar com o que pensam em São Francisco é que eles tiveram a sorte de serem mandados para o  inferno por alguns terroristas islâmicos. Estas crianças do Xnet chegaram ao ponto em que podem ser úteis para nós. Quanto mais radical ficam, mais o resto da nação compreende que existem ameaças por toda parte.”

Sua audiência acabou de tomar notas.
“Acho que podemos controlar isso.” disse a mulher do corte de cabelo. “Nosso pessoal na Xnet já tem uma forte influência. Os bloggers manchurianos estão rodando são quase 50 deles, enchendo os canais de bate-papo, linkando uns aos outros, se aproveitando do esquema deste M1k3y. Mas já mostraram do que são capazes de fazer, mesmo quando M1k3y tenta refreá-los.”
O Major Sutherland fez que sim. “Temos planejado deixá-los escondidos até um mês antes da metade do semestre.” Imaginei que significavam as eleições da metade do semestre e não meus exames de escola na metade do semestre. Este foi o plano original. Mas parece que…”
“Temos outros planos.”disse Rooney. “É necessário que se saiba, é claro, que não podemos esperar mais. Acabe com a Xnet agora, o mais rápido que puder. Enquanto eles estão ainda moderados, são confiáveis. Transforme-os em radicais!”
O vídeo se encerrou.
Ange e eu nos sentamos na beira da cama, olhando a tela. Ange se esticou e fez o vídeo se iniciar de novo. Assistimos. Foi pior na segunda vez.
Afastei o teclado e me levantei.
“Estou cansado de ter medo.” eu disse “Vamos deixar isso com Barbra e deixar que ela o publique. Vamos colocar tudo na rede. Melhor que me peguem. Ao menos saberei o que vai acontecer. Ao menos terei uma pequena certeza na vida.”
Ange me agarrou e me abraçou. “Eu sei, anjo, é tudo terrível. mas você está olhando apenas o lado ruim e ignorando a parte boa. Você criou um movimento. Você está indo contra os caipiras da Casa Branca, os corruptos em uniformes do DHS. Você chegou numa posição onde pode ser responsável por detonar a tampa que cobre todos os podres da DHS.”
“É claro que eles querem te pegar. Algum dia você duvidou disso? Eu sempre vi isso. Mas, Marcus, eles não sabem quem é você. Pense nisso. Todas estas pessoas, dinheiro, armas e espiões e você, um cara de dezessete anos na escola - está derrotando a todos. Eles não sabem de Bárbara. Nem de Zeb. Você bagunçou a coisa toda nas ruas de São Francisco e os humilhou diante do mundo. Então pare de se queixar está bem? Você está vencendo.”

“Eles estão vindo atrás de mim. Você viu. Vão me colocar atrás de grades para todo sempre. Nem será uma cadeia. Eu desaparecerei feito Darryl. Talvez pior. Talvez me enviem para a Síria. Por que me deixar em São Francisco? Sou influente enquanto permaneço nos EUA.”
Ela se sentou na cama ao meu lado.
“É.” ela disse. “Tem isso.”
“Tem isso.”
“Bem, você sabe o que precisa fazer, certo?”
“O quê?” Ela olhou para o teclado como se o apontasse. Vi as lágrimas rolando em seu rosto.
“Não! Você está maluca! Acha que vou fugir com algum doido que conheci na Internet? Um espião?”
“Tem uma idéia melhor?”
Chutei uma das pilhas de roupa da lavanderia. “Que seja. Certo. Vou falar com ela”
“Fale com ela.” disse Ange. “Diga a ela que você e sua namorada querem pular fora.”
“O quê?”
“Quietinho, cabeça de minhoca. Você acha que corre perigo? Eu corro tanto perigo quanto Marcus. Isso se chama culpa por associação. Onde você for, eu vou junto.” Ela fez aquela cara irredutível. “Você e eu, estamos juntos agora. Entenda isso.”
Nos sentamos.
“A não ser que não me queira com você.” Disse, em voz baixa.
“Tá brincando comigo, certo?”
“Parece que eu estou brincando?”
“Não tem jeito de eu ir voluntariamente sem você, Ange. Eu nunca poderia pedir a você para vir comigo, mas fiquei sem saber o que dizer quando você se ofereceu.”
Ela sorriu e pegou meu teclado.
“Mande um email para esta tal de Masha. Vamos ver o que esta guria pode fazer por nós.”
Mandei o email, criptografando a mensagem, esperando um retorno. Ange se encostou a mim e eu a beijei e nós nos abraçamos. Algo na coisa do perigo e de fugirmos juntos, me fez esquecer o sexo que fizemos e me fez excitado de novo.
Estávamos quase nus quando o email de Masha chegou.
> Vocês dois? Jesus Cristo, como se já não fosse difícil. Eu não saio exceto para fazer trabalho de campo após aprontar alguma coisa na Xnet. Entende? Os meus responsáveis vigiam cada movimento meu, mas eu consigo sair quando acontece algo grande com os Xneters. Aí sou mandada a campo por eles. Faça alguma coisa grandiosa. Eu serei mandada e nos dois fugiremos. Nos três, se preferir assim. Mas faça logo. Não posso ficar respondendo email para você, entende? Eles me vigiam. E estão a cada vez mais perto de você. Você não tem muito tempo. Semanas, talvez. Talvez alguns dias. Preciso de você para me tirar daqui. É por isso que estou fazendo isso, caso esteja pensando no motivo. Não posso escapar sozinha. Preciso de uma grande distração na Xnet. Este é seu departamento. Não vá falhar comigo M1k3y, ou estaremos mortos. Sua garota também. Masha.
Meu telefone tocou dando-nos um susto. Era minha mãe querendo saber quando eu chegaria em casa. Eu disse que estava a caminho. Ela não falou de Bárbara. Nós tínhamos combinado que não falaríamos sobre isso ao telefone. Foi idéia do meu pai. Ele podia ser tão paranóico quanto eu.
“Tenho que ir.” falei.
“Nossos pais ficarão…”
“Eu sei. Vi o que aconteceu com eles quando eles pensaram que eu tinha morrido. Saber que eu me tornei um fugitivo não vai ser muito melhor. Mas eles vão preferir que eu seja um fugitivo a ser um prisioneiro. É o que eu penso. De qualquer jeito, quando nos desaparecermos, Bárbara poderá publicar sem se preocupar de nos colocar em apuros.”
Nos beijamos na porta do seu quarto.Não um beijo quente, um daqueles quando estamos nos despedindo, mas um beijo doce e demorado. Tipo um beijo de adeus. 

#

As viagens pelo BART são introspectivas. Quando o vagão balança para lá e para cá e você tenta não fazer contato visual com os olhos de outros viajantes e tenta não ler as propagandas de cirurgia plástica, agentes de fiança e testes para AIDS, quando tenta ignorar as pichações e não olhar para aquelas coisas pelo chão. É ai então que a sua mente começa a viajar.
Balançando de lá pra cá e a sua mente alcança tudo que você negligenciou, volta todos os filmes de sua vida onde você não foi o herói, mas um otário vacilão.
Sua mente concebe teorias como esta.
Se a DHS queria pegar M1k3y, o que seria melhor que atraí-lo para um lugar aberto, levá-lo a encabeçar algum evento grande e público da Xnet? 
Seu cérebro faz este tipo de coisa, mesmo quando você está viajando apenas duas ou três estações distante. Quando você sai e começa a se mover, seu sangue começa a correr, e seu cérebro volta ao normal.
Algumas vezes ele te dá soluções para problemas.


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