sábado, 6 de março de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 19

 

CAPÍTULO 19
Este capítulo é dedicado à livraria MIT Press, uma loja que visito nos últimos 10 anos sempre que vou a Boston. MIT, é claro, é um dos lugares lendários de onde se originou a cultura nerd mundial, e a livraria do campus sempre me surpreende, desde que coloquei o pé dentro dela pela primeira vez. Em adição aos títulos maravilhosos publicados pela editora MIT Press, a livraria fornece um tour pelo que há de mais excitante em matéria de publicações high-tech no mundo, desde zines sobre hackers, até grossas antologias acadêmicas sobre design de videogames. Este é um dos lugares em que tenho que pedir para enviar as compras para minha casa, pois elas nunca cabem em minha mala.
MIT Press Bookstore: Building E38, 77 Massachusetts Ave., Cambridge, MA USA 02139-4307 +1 617 253 5249

O email que foi enviado às 7 da manhã seguinte, enquanto eu e Ange pintávamos “VAMPMOB CENTRO CIVICO->” em pontos estratégicos pela cidade, dizia:
>REGRAS PARA A VAMPMOB
>Você faz parte de um clã de vampiros diurnos. Você descobriu o segredo de como sobreviver na luz do sol. O segredo é o canibalismo: o sangue de outro vampiro pode lhe dar a força para andar entre os vivos.
>Você precisa morder outros vampiros, quanto mais, melhor, para poder continuar no jogo. Se você passar um minuto sem morder alguém, estará fora do jogo. Uma vez que esteja fora, vista sua camiseta de trás para frente e você se torna um juiz - siga alguns vampiros para ver se eles estão mordendo.
>Para morder outro vampiro, você tem que dizer “MORDIDA!” cinco vezes antes que ele o faça. Então procure um vampiro, faça contato visual e grite “MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA” e se conseguir antes que o outro o faça, você vive e o outro se torna pó.
>Você e os outros vampiros que você encontrar no seu ponto de encontro formam o seu time. O clã. O sangue deles não serve.
>Você pode se tornar invisível ficando parado e cruzando os braços em frente ao peito. Você não pode morder vampiros invisíveis e eles não podem te morder.
>Este sistema usa o sistema de honra dos jogos. A idéia é se divertir é vampirizar por ai e não vencer.
>O jogo tem um fim que será comunicado assim que alguém for declarado vencedor. Os mestres do jogo irão fazê-lo assim que acontecer, preste atenção nos avisos.
>M1k3y
>MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA, MORDIDA!

Nós esperávamos que por volta de uma centena de pessoas aparecesse para jogar. Mandamos quase duzentos convites cada um. Mas quando fui ver no Xbox às 4 da manha, haviam 400 respostas. Quatrocentas.
Eu alimentei com os endereços o email programado e saí. Desci as escadas, ouvi meu pai roncando e minha mãe se mexendo na cama. Fechei a porta atrás de mim.

#

As 4:15 da manhã, Potrero Hill estava tão calma quanto uma cidade do interior. Alguns sons de trânsito distante e uma vez um carro passou por mim. Parei no caixa eletrônico e tirei 320 dólares em notas de 20, enrolei-as, coloquei um elástico em volta e enfiei num bolso nas minhas calças de vampiro.
Eu vestia novamente a capa e a camisa bufante e calças de smoking que eu tinha modificado para ter bolsos suficientes para carregar um monte de coisas. Usava minhas botas de fivelas de caveira de prata e tinha despenteado o cabelo feito um dente-de-leão negro. Ange estava trazendo a maquiagem branca e tinha prometido usar o delineador nos meus olhos e pintar minhas unhas de negro. Por que não? Quando eu poderia me vestir assim de novo?
Ange me encontrou na frente da sua casa. Ela trazia sua mochila também e meias arrastão, um vestido de empregadinha estilo Lolita gótica, o rosto pintado de branco, uma maquiagem de olhos elaborada estilo kabuki,  os dedos e garganta cobertas por jóias de prata.
“Você está demais!” dissemos um para o outro ao mesmo tempo, então rimos e saímos pelas ruas, com latas de tinta spray nos bolsos.

#

Quando pensei no Centro Cívico, pensei como seria ver 40 vampmobs seguindo para lá. Eu os esperava em dez minutos em frente ao prédio da prefeitura. Na grande praça, havia apenas alguns passantes que educadamente se desviavam dos mendigos esmolentos.
Eu sempre odiei o Centro Cívico. Uma coleção de enormes prédios em formato de bolo de noiva, prédios da justiça, museus e outros prédios como a prefeitura. As calçadas eram largas, os prédios eram brancos. Nos guias turísticos de São Francisco eles faziam com que parece o Epcot Center, futurístico e austero.
Mas visto do chão era sujo e embrutecido. Sem-tetos dormiam nos bancos. O distrito ficava vazio às 6 da tarde, exceto pelos bêbados e viciados, porque com apenas um tipo de prédio por ali, não havia razão das pessoas aparecerem ali após o pôr do sol. Estava mais para uma avenida do que para uma vizinhança e as únicas casas de comercio ali eram lojas de penhora e mercadinhos de bebidas para atender aos  familiares dos vigaristas, e vender aos bêbados que faziam desse lugar seu lar durante a noite.
Eu realmente comecei a entender aquilo quando li uma entrevista de uma antiga e fabulosa planejadora urbana chamada Jane Jacobs, a primeira pessoa que realmente pensou no motivo de ser errado fatiar a cidade com auto-estradas, enfiar os pobres em projetos habitacionais e usar leis de zoneamento para se controlar o que pode e o que não pode ser feito ali.
 
Jacobs explicava que as cidades são orgânicas e tem uma grande variedade - ricos e pobres, brancos, mestiços, anglo-saxões e mexicanos, varejo e residencial e até industrial. Uma vizinhança como aquela que tem todo tipo de gente passando por ela o tempo todo seja dia ou noite precisa ter um tipo de comércio para cada necessidade, ter gente ao redor o tempo inteiro agindo como os olhos da rua.

Você já viu isso antes. Quando caminha pela parte antiga de alguma cidade e você encontra um monte de lojas legais, caras de terno, pessoas usando a última moda, restaurantes finos e cafeterias bacanas, um pequeno cinema talvez, casas com uma fachada transada. É claro que pode ter umas Starbucks também, mas tem sempre um mercado de frutas e uma floricultora cuja dona parece ter trezentos anos e ela cheira as flores gentilmente em suas vitrines. Isso é o oposto de um espaço planejado, como um shopping. É mais como um jardim selvagem ou uma floresta na maneira que surgiu.

Você não poderia estar mais longe disso do que neste Centro Cívico. Li uma entrevista com Jacobs onde ela fala sobre a antiga e ótima vizinhança que eles colocaram abaixo para construir aquilo. Era o tipo de vizinhança que aparece sem permissão ou razão.
Jacobs disse que ela havia previsto isso há alguns anos, que o Centro Cívico seria a pior vizinhança na cidade, uma cidade fantasma à noite, um lugar com algumas lojas baratas vendendo birita e motéis pulguentos. Na entrevista ela não parecia feliz em ser inocentada deste fato, soava mais como se falasse sobre um amigo falecido quando descrevia o que o Centro Cívico se tornaria.

Agora era a hora do rush e o Centro Cívico fervilhava. A estação Bart também servia como a maior estação para as linhas de bondes municipais e, se você precisasse trocar de um para outro, era lá que você o faria. Às oito da manhã, milhares de pessoas vinham pelas escadas, subindo ou descendo as escadas, entrando em táxis ou saindo de ônibus. Elas eram afuniladas pelos pontos de verificação do DHS frente aos edifícios, e driblavam os pedintes mais agressivos. Cheiravam a xampus e colônias, frescas de banho recém-tomado e armadas em seus trajes de trabalho, empunhando valises e pastas com laptops. Às 8 da manhã, o Centro Cívico era uma central de negócios.

E para cá vinham os vampiros. Uma dúzia deles vindo de Van Ness, outra vindo do Mercado. Mais alguns vindo do outro lado do Mercado. Mais alguns chegando de Van Ness. Escorregavam pelos lados dos prédios, com suas faces pintadas de branco e os delineadores pretos nos olhos, roupas escuras, jaquetas de couro, botas. Mitenes de rendinha.
Eles começavam a encher a praça. Alguns trabalhadores passavam olhando  sem aceitar que estes esquisitos perturbassem suas realidades pessoais, enquanto se empenhavam em fazer uma porcaria qualquer nas suas próximas oito horas. Os vampiros se aglomeravam em grupos, sem muita certeza de quando o jogo se iniciaria. Se juntavam em grandes grupos, como uma mancha de óleo vazando, todos estes pontos negros num só lugar. Vários usavam cartolas e casacas antigas. Muitas das meninas elegantes vestiam fantasias empregadinhas góticas com gigantescos saltos plataforma.
Tentei estimar um número. 200. E cinco minutos depois, 300. 400. E continuavam chegando. Os vampiros tinham amigos.
Alguém beliscou meu traseiro. Virei e vi Ange, rindo tanto que tinha que se segurar.
“Olhe para eles, cara, olhe para todos eles!” ela disse. O dobro do povo que tinha poucos minutos atrás. Não tinha idéia de quantos eram Xneters, mas facilmente uns mil deles compareceram à minha festinha. Cristo.
O DHS e a Polícia de São Francisco começavam a aparecer por ali, falando em seus rádios. Ouvi uma sirene ao longe.
“Certo.” disse segurando Ange pelo braço. “Vamos lá!”
Mergulhamos em meio a multidão e logo que achamos nosso primeiro vampiro, ambos dissemos bem baixinho “mordida mordida mordida mordida mordida!” Minha vitima era um surpresa - mas bela- garota com teias de aranha pelas mãos e uma máscara grotesca. Ela disse “Droga!” e saiu dali sabendo que eu a tinha pego.
A coisa do “mordida mordida mordida mordida mordida!” já rolava pelos vampiros mais próximos. Alguns atacavam os outros e outros corriam buscando proteção, se escondendo. Esquivei-me entre os mundanos usando-os como cobertura, após ter garantido minha primeira vitima. Por toda volta, gritos de “mordida mordida mordida mordida mordida!” e risos e pragas.
O som se espalhava como um vírus através da multidão. Todos os vampiros sabiam que o jogo tinha começado e aqueles que antes permaneciam juntos agora partiam como moscas. Riam e sibilavam e corriam por toda parte passando a notícia de que o jogo começara. E mais vampiros estavam chegando.
8:16. Hora de pegar outro vampiro. Me abaixei e me movi assim entre as pernas daqueles que iam em direção às escadas do Bart. Eles saltavam ao me ver, surpresos, e tentavam me evitar. Minha mira-laser estava apontada para um par de botas na plataforma com dragões nas pontas e não esperava isso quando fiquei de cara com outro vampiro, um garoto de 15 ou 16 anos, cabelo cheio de gel, penteado para trás e usando uma jaqueta de PVC de Marilyn Manson com colar de dentes falsos onde estavam inscritos intrincados símbolos.
“Mordida mordida mordida…” ele começou, quando um dos mundanos voou sobre ele tropeçando e foram ao chão. Cai por sobre ele e gritei “mordida mordida mordida mordida mordida!” antes que pudesse se recompor de novo.

Mais vampiros chegavam. As roupas eram realmente de assustar. O jogo congestionou as calçadas e foi em direção a Van Ness, espalhando-se na direção da  rua do Mercado. Motoristas buzinavam, os condutores de bonde mostravam sua irritação com as campainhas. Ouvi mais sirenes, mas agora o tráfego começava a parar em todas as direções.

Aquilo era assustadoramente fantástico.

MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA 

O som vinha de toda parte. Havia tantos vampiros agora, brincando com tanto vigor, que era um rugido. Arrisquei-me de pé ali, olhando a volta e percebendo estar bem no meio de uma multidão gigantesca de vampiros que iam tão longe o quanto podia enxergar em todas as direções.
MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA 
Aquilo era melhor que o concerto no Parque Dolores. Aquele tinha sido furioso e mandara ver, mas este era, bem, era divertido. Era como voltar ao tempo do recreio, aos jogos que brincávamos enquanto o sol brilhasse, centenas de moleques perseguindo uns aos outros. Os adultos e os carros apenas faziam a coisa mais divertida, muito mais.
E era isso que era, diversão pura e simples. Todos nós estávamos rindo agora.
Mas a polícia a esta altura já estava mobilizada. Ouvi helicópteros. Daqui a alguns segundos estaria terminado. Era hora de decretar o fim e jogo.
Agarrei um vampiro.
“Fim de jogo: quando a polícia ordenar que nos dispersássemos, finjam que estão sendo envenenados por gás. Passe adiante. O que foi que eu disse?”
A vampira era uma menina, pequena que pensei ser realmente muito nova, mas devia ter uns 17 ou 18 pelo seu rosto e sorriso. Ela disse: “Oh, esta é boa.”
“O que eu disse?”
“Fim de jogo: quando a polícia ordenar que nos dispersemos, finjam que estão sendo envenenados por gás. Passe adiante. O que foi que eu disse?”
“Certo. Passe adiante.”
Ela se misturou com a multidão. Eu agarrei outro vampiro e disse a mensagem para ele. E ele partiu para passar a mensagem.
Em algum lugar da multidão eu sabia que Ange estava também fazendo o mesmo. No meio da multidão devia haver gente infiltrada, falsos Xnetters, mas o que eles fariam ao saber disso? Os policiais não tinham escolha. Eles iam dar ordens para que dispersássemos. Isso era garantido.
 Eu tinha que achar Ange. O plano era nos encontrarmos na estatua do fundador, na praça, as chegar lá seria complicado. A multidão não se mexia mais, ela se aglomerara, como a multidão no caminho da Bart quando as bombas explodiram. Era praticamente impossível conseguir atravessá-la.
“AQUI É O DEPARTAMENTO DE SEGURANÇA ESTADUAL. DISPERSEM IMEDIATAMENTE!”
Ao redor, centenas de vampiros se atiravam ao chão, apertando suas gargantas esfregando os olhos, tossindo buscando ar. Era fácil fingir ter sido intoxicado por gás, nós todos havíamos visto os vídeos da festa em Missão Dolores Parque, com as nuvens de pimenta.
“DISPERSEM IMEDIATAMENTE!”
Caí ao chão protegendo minha mochila, retirei um boné de basebol vermelho que estava preso ao cinto das calça e o enfiei na cabeça então agarrei minha garganta e fiz a pior imitação de intoxicação.
Os únicos ainda de pé eram os mundanos,os assalariados que apenas queriam chegar aos seus empregos. Olhei ao redor enquanto tossia.
“AQUI É O DEPARTAMENTO DE SEGURANÇA ESTADUAL. DISPERSEM IMEDIATAMENTE! DISPERSEM IMEDIATAMENTE!”
A voz de Deus fazia meus intestinos doerem. Sentia-a nos molares, nos fêmures, na minha espinha.
Os assalariados estavam apavorados. Afastavam-se tão rápido quanto podiam, mas não em uma direção em particular. Os helicópteros pareciam pairar diretamente sobre nós não importando onde estivéssemos. Os policiais agora avançavam com dificuldade em meio à multidão e tinham os capacetes fechados. Alguns com escudos. Alguns com mascaras contra gases. Eu tossia forte.
Então os assalariados começaram a correr. Eu provavelmente teria que correr também. Vi um cara rasgar uma jaqueta de 500 dólares e amarrar os trapos ao redor do rosto antes de seguir para o sul em direção à Missão

Não era para isso acontecer - a coisa do fingimento era para assustar as pessoas e deixá-las confusas, mas não levá-las ao pânico de um estouro de boiada.
E então havia gritos agora, gritos. Reconheci da noite do parque. Este era o som de gente aterrorizada, correndo e se chocando uns contra os outros na tentativa de fugir dali.
E vieram as sirenes de ataque aéreo.
Não ouvia aquilo desde as bombas, mas eu nunca as esqueceria. Me cortaram e foram direto ao meu ponto fraco, fazendo minhas pernas virarem geléia. Isso me fez querer correr em pânico. Fiquei de pé, com o boné vermelho a cabeça, pensando somente numa coisa. Ange. Ange e a estátua do fundador.
Todos estavam de pé agora, correndo e gritando, em todas as direções. Empurrei algumas pessoas n meu caminho, segurando a mochila e o boné, enquanto ia na direção da estátua. Masha devia estar me procurando e eu procurava por Ange. E Ange não estava lá.
Empurrei e xinguei. Usei os cotovelos. Alguém pisou tão forte no meu pé que achei ter se quebrado e o empurrei e ele caiu. Ele tentou se levantar e alguém tropeçou nele. Eu era empurrado e empurrava.
Então alguém com mãos fortes agarrou meu pulso e cotovelo e num movimento fluido trouxe meu braço para as minhas costas. Senti como se meu ombro fosse sair do lugar e imediatamente me curvei. Gritando, um som que mal se ouvia devido ao brilho da multidão, do bater das pás dos helicópteros e do lamento das sirenes.
Fui endireitado, seguro por mãos fortes as minhas costas que me seguravam como se fosse uma marionete. Estava seguro de tal maneira que mal dava para virar-me. Não podia pensar nos helicópteros ou em Ange. Tudo que conseguia pensar era em me livrar de quem me mantinha preso. Consegui me mexer de maneira a ficar frente a frente com esta pessoa.
Era uma garota seu rosto anguloso parecendo um roedor, estava meio oculto por enormes óculos de sol. Sob os óculos, escapava um pouco de seu cabelo rosa espetado.
‘Você!” eu disse. Eu a conhecia. Ela tinha tirado uma foto minha e ameaçado me delatar ao vigia de gazeteiros. Cinco minutos antes dos alarmes de bomba começarem.  Ela tinha sido esperta e cruel. Nós corremos juntos daquele lugar em Tenderloin quando a polícia caiu sobre a gente e eu fui hostil e eles decidiram que eu era um inimigo.
Ela - Masha - se tornara aliada deles.

“Olá M1k3y!” ela disse beijando minha orelha, de perto, como se fossemos amantes. Ela soltou meu braço e eu me desvencilhei dela.
“Cristo! É você!”
“Sim, eu. O gás vai vir em dois minutos. Vamos ralar fora.”
“Ange, minha namorada, está na estátua do fundador.”
Masha olhou por sobre a multidão. “Sem chances! Se tentarmos chegar lá estamos ferrados. O gás vai baixar em dois minutos, caso não tenha entendido o que eu disse.”
Parei ali mesmo. “Não vou sem Ange!”
Ela riu: “Problema seu. É seu funeral!” ela gritou no meu ouvido.
Ela começou a empurrar a multidão se afastando para o norte em direção aos subúrbios. Eu continuei forçando caminho para a estátua. Um segundo depois, meu braço estava de novo às costas e eu estava sendo puxado para trás.
“Você sabe demais, seu Mané! Já viu meu rosto. Você vai comigo.”
Gritei e lutei contra ela até parecer que meu braço se partiria, mas ela continuava me puxando para trás. Com ela me usando como aríete, fizemos um bom avanço através da multidão. O som dos helicópteros mudou de repente e ela me deu um forte empurrão e gritou “Corre! Aí vem o gás!’
O barulho da multidão também mudou. Os gritos e reclamações pareceram diminuir bastante. Eu já tinha ouvido aquele som de algo sendo lançado no ar antes. Aquilo me levou de volta ao parque. O gás caia como chuva lentamente. Prendi a respiração e corri.
Nos livramos deles e ela soltou meu braço. Avancei com dificuldade o mais rápido que pude pelas calçadas enquanto a multidão ia se esvaziando. Íamos em direção a um grupo de policiais da DHS com escudos para confronto, capacetes e máscaras. Assim que passamos perto deles, eles se moveram em nossa direção para nos bloquear mas Masha exibiu um distintivo e eles se dissiparam como ela fosse Obi Wan Kenobi dizendo “Nós não temos os droids que vocês estão procurando.”
“Sua filha da puta!” falei enquanto corríamos pela rua do mercado. “Temos que voltar para pegar Ange!”
Ela apertou os lábios e balançou a cabeça “Sinto muito, chapa! Eu não vejo meu namorado há meses. Ele deve achar que estou morta. Se voltarmos para pegar Ange, estamos mortos. Se continuarmos, teremos uma chance. E se nós tivermos uma chance, ela também terá. Aqueles garotos não vão todos ser mandados para a prisão. Provavelmente irão pegar uns poucos para interrogatório e mandar o resto para casa.”
Tínhamos alcançado a rua do mercado, passado pelas casas de strip-tease onde os bêbados e viciados acampavam e usavam de banheiro ao ar livre. Masha me levou para uma pequena alcova, por uma portinha daqueles night-clubes. Tirou a jaqueta e virou ao avesso - o forro era de uma padrão grosso e do lado de dentro virado parecia diferente. Ela tirou um chapéu de lã do bolso e atarraxou na cabeça, parecendo um pico fora do lugar. Então ela pegou removedor de maquiagem e começou a trabalhar no seu rosto e unhas. Em minutos, era uma mulher diferente.

 “Mudança de guarda-roupa” ela disse. “Agora é sua vez. Tire os sapatos, a jaqueta e este boné.”
Eu sabia onde ela queria chegar. Os guardas deviam estar procurando atentamente por qualquer um que pudesse estar participando de um Vampmob. Tirei o boné. Nunca gostei de bonés de basebol. Enfiei minha jaqueta na mochila e peguei uma camisa de mangas longas com a foto de Rosa Luxemburgo nela, coloquei sobre a camisa preta. Deixei que Masha tirasse a maquiagem de meu rosto e tinta das unhas e um minuto depois eu estava limpo.
“Desligue o telefone.” ela disse. “Está carregando algum arphid?”
Eu tinha meu cartão do estudante, meu cartão de banco, meu Passe Rápido. Foi tudo para uma bolsa prateada que ela carregava consigo e que reconheci como sendo um saco Faraday à prova de ondas de rádio. Mas assim que ela a guardou percebi que tinha dado minha identidade para ela. Se ela estivesse trabalhando para o outro lado…

A grandeza daquilo que estava acontecendo começou a aparecer para mim claramente. Em minha cabeça eu imaginava ter Ange comigo neste ponto. Ange faria com que fosse dois contra um. Ange me ajudaria a ver se eu deixasse algo escapar. Se Masha não fosse tudo que ela dizia ser.
“Coloque estes seixos dentro dos sapatos antes de ….”
“Estou bem. Eu dei um jeito no pé. Nenhum programa de identificação vai me apanhar agora.”
Ela concordou e vestiu sua mochila. Eu peguei a minha e saímos dali. O tempo total pra nos trocarmos não chegou a um minuto. Parecíamos e andávamos agora como duas pessoas diferentes.
Ela consultou o relógio e balançou a cabeça. “Vamos lá. Temos que ir para o ponto de encontro. Não pense em correr. Você tem duas opções: eu ou a cadeia. Eles ficarão analisando os filmes daquela reunião de vampiros por vários dias, mas quando acabarem, cada rosto neles estará num banco de dados. Nossa saída do local será notada. Agora somos dois criminosos procurados.”

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Ela nos levou até a rua do Mercado, através de Tenderloin. Eu conhecia a vizinhança. Era aquela onde estivemos procurando por um ponto de acesso aberto de WiFi, jogando Harajuku Fun Madness.
“Para onde vamos?” perguntei.
“Vamos pegar uma carona. Cale a boca e me deixe pensar.” ela respondeu.
Nos movíamos rapidamente e o suor escoria por nossos rostos, sob o cabelo, através das costas, escorregando pelo rego da bunda e coxas. Meu pé doía de verdade e eu via as ruas de São Francisco provavelmente pela última vez.
E estávamos subindo com dificuldade, indo para aquele lugar onde a miséria de Tenderloin dava lugar aos imóveis mais inacessíveis de Nob Hills. Minha respiração se transfomava em arfadas irregulares. Ela nos levava por becos estreitos usando as ruas maiores apenas para alcançar a ruela seguinte.
Acabávamos de entrar por outra viela, Sabin Place, quando alguém atrás de nos gritou: “Parados aí!” cheio de júbilo perverso. Paramos e nos viramos.
Na beira da viela Charles meio vestido a caráter para o Vampmob, uma camisa preta e jeans com o rosto pintado. “Olá, Marcus. Vai a algum lugar?” Sorriu um sorriso largo e úmido. “Quem é a sua namorada?”
“O que você quer, Charlie?”
‘Bem, eu tenho estado de olho naqueles traidores da Xnet desde que eu te vi distribuindo DVDs na escola. Quando fiquei sabendo da sua VampMob, eu resolvi participar, só para ver se você ia dar as caras e o que iria fazer. E sabe o que eu vi?’
Não disse nada. Ele estava com o telefone na mão, apontando para nós, Gravando. Talvez estivesse já pronto para discar 911. Ao meu lado, Masha ficou dura como uma tábua.
“Eu vi você liderando a maldita coisa. E eu gravei tudo, Marcus. Agora eu vou chamar a polícia e você vai esperar quietinho por eles. E depois você vai passar um bom tempo na prisão.”
Masha deu um passo à frente.
‘Parada aí, guria’ ele disse. “Eu te vi trazendo ele até aqui. Eu vi tudo…”
Ela deu outro passo e arrancou o telefone da sua mão, enquanto que com a outra ela mostrava uma carteira aberta.
“DHS, seu babaca! Eu sou do DHS. Eu estava seguindo este tapado até seus líderes para ver onde ele iria. Agora você estragou tudo. Nós temos um nome para isso e chamamos de ‘Obstrução da segurança nacional!’ Você vai ouvir muito sobre isso a partir de agora.”
Charles recuou, suas mãos no ar, na frente dele. Parecia mais pálido ainda sob a maquiagem. “O quê? Não! Quer dizer, eu não sabia! Eu só estava tentando ajudar!”
“A última coisa que precisamos é de um bando de agentes especiais juniores nos ajudando, camarada. pode falar isso para o juiz!”
Ele se moveu recuando de novo, mas Masha foi rápida. Agarrou seu pulso e o girou do mesmo jeito que fizera comigo no Centro Cívico. A mão dela foi aos bolsos de trás e trouxe uma tira de plástico, uma algema, com a qual ela rapidamente prendeu seus pulsos.
Isso foi a última coisa que vi antes de sair correndo dali.

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Já estava longe, perto fim da viela quando ela me alcançou, lançando-me ao chão. Eu não conseguia me mover muito rápido por conta do pé machucado e o peso da mochila. Fui de cara ao chão e meu rosto feriu-se no asfalto.
“Jesus Cristo! Você é um idiota! Você acreditou naquilo, não foi?” ela disse.
Meu coração queria sair do peito. Ela estava sobre mim e lentamente me deixou sair.
“Vou precisar algemar você, Marcus?”
Fiquei de pé. Tudo doía. Eu queria morrer.
“Vamos lá!” ela disse, “Agora não estamos tão longe.”

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Nosso objetivo acabou sendo um caminhão estacionado numa ruazinha de Nob Hill, dezesseis rodas, do tamanho de um daqueles inconfundíveis caminhões da DHS que ainda se viam pelas esquinas de São Francisco, com suas antenas à vista.
Este, contudo, tinha estampado na lateral “Três caras e um caminhão de mudança” e os três caras estavam saindo e entrando de um alto prédio de apartamentos, com toldo verde. Carregavam móveis, caixas fechadas, enchendo o caminhão e cuidadosamente empacotando tudo.
Ela nos levou para dar uma volta pelo quarteirão, aparentemente insatisfeita com alguma coisa e ao passarmos novamente por eles, ela fez contato visual com o homem que tomava conta do caminhão, um cara com um cinto de ferramentas e luvas grossas. Tinha um rosto gentil, sorriu para nós, enquanto subia os três degraus da escada, entrando em seu interior. “Debaixo da mesa grande”, ele disse. “Deixaremos um espaço para vocês.”
O interior estava cheio pela metade, ou um pouco mais. Mas havia um corredor estreito ao redor de uma enorme mesa coberta por cobertores e com plástico bolha nas pernas.
Masha me puxou para baixo da mesa. Ali era apertado e empoeirado e tive que segurar um espirro assim que nos metemos entre as caixas. O espaço era tão pequeno que estávamos praticamente um sobre o outro. Eu não achava que Ange pudesse caber ali conosco.
“Puta!” eu disse olhando para Masha.
“Cala a boca! Você devia lamber minhas botas em agradecimento. Você acabaria numa cela em uma semana. E não seria aqui em São Francisco. Talvez você fosse parar na Síria. Acho que é para lá que mandam quando querem sumir com alguém.”
Eu coloquei minha cabeça entre meus joelhos e respirei profundamente.
“Por quê você fez uma coisa tão estúpida quanto declarar guerra a DHS?”
Eu contei para ela. Sobre ter sido humilhado e sobre Darryl.
Ela vasculhou os bolsos e tirou um telefone. Era de Charlie. “Telefone errado.” Tirou outro telefone do bolso. Ligou e a luz do telefone iluminou nosso pequeno forte. Após teclar por um instante elao  mostrou  para mim.
Era a foto que ela tinha tirado de nós, um pouco antes das bombas explodirem. Uma foto de Jolu e Van, eu e… Darryl.
Eu segurava na minha mão a prova de que Darryl estivera conosco antes de sermos levado para ficar em custódia da DHS. Prova de que ele estava vivo e bem e em nossa companhia.
“Você tem que me dar uma cópia disso. Eu preciso.” Eu disse.
“Quando a gente chegar em Los Angeles.” ela falou, fechando o telefone. “Quando você tiver entendido como ser um fugitivo sem nos colocar em perigo de sermos despachados para a Síria. Não quero que tenha idéias sobre resgatar este cara. Ele está seguro onde está… por enquanto.”
Pensei em tirar o telefone dela à força, mas ela já demonstrara sua força física. Ela devia ser faixa preta ou algo assim.

Ficamos sentados lá no escuro, ouvindo os outros três caras encherem o caminhão, caixa após caixa, amarrando coisas e grunhindo de esforço ao fazê-lo. Tentei dormir, mas não consegui. Masha não tinha problemas para isso. Ela roncava.
Ainda havia luz brilhando através do estreito e obstruído corredor através do qual entrava o ar fresco do exterior. Fiquei olhando para lá, pensando em Ange.
Minha Ange. Seus cabelos escorrendo sobre seus ombros enquanto virava a cabeça de um lado para outro, rindo de algo que fiz. Pensei em seu rosto quando a vi pela ultima vez, sumindo na multidão da VampMob. Todas aquelas pessoas da VampMob, como aquelas no parque, sendo derrubadas e sofrendo, o DHS avançando com seus cassetetes. Aqueles que desapareceram.
Darryl. Preso na Treasure Island, sendo levado da sua cela para intermináveis interrogatórios sobre os terroristas.
O pai de Darryl, acabado, barbado e embriagado. Depois, de banho tomado para “as fotos.” Lacrimejando feito um menininho.
Meu próprio pai, e o jeito com que ele mudou devido ao meu desaparecimento em Treasure Island. Tinha sido quebrado, como o pai de Darryl, mas ao seu modo. E seu rosto, quando eu contei onde eu estivera.
E foi então que eu soube que não podia fugir.
Foi quando eu soube que precisava ficar e lutar.

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A respiração de Masha era pesada e ritmada, mas quando eu tentei alcançar seu bolso com um movimento tão lento quanto o de uma geleira, tentando pegar seu telefone, ela se mexeu um pouco e fungou. Congelei e sequer respirei por dois minutos inteiros, contando um hipopótamo, dois hipopótamos…
Devagar, sua respiração voltou a ficar como antes. Retirei seu telefone do bolso do casaco milímetro por milímetro, meus dedos tremiam pelo esforço de mover-se tão lentamente.
Então o peguei, tinha a forma de uma pequena barra de doce.
Virei-me em direção a luz quando tive um flash de memória. Charles segurando seu telefone, nos filmando. Com um telefone na forma de uma pequena barra de doces, prateado, com logos de uma dúzia de companhias. O tipo de telefone subsidiado em que você é obrigado a ouvir um comercial cada vez que faz uma ligação.

Estava escuro demais para ver o telefone perfeitamente no caminhão, mas eu podia senti-lo. Tinha decalques nas laterais. Sim. Sim. Eu tinha roubado o telefone de Charles.
Virei-me devagar, devagar, bem devagar. Alcancei seu outro bolso. O seu telefone era grande e massudo, com uma ótima câmera e sabe-se lá mais o quê.
Eu já tinha conseguido antes, o que fazia a coisa toda mais simples. Milímetro por milímetro novamente, libertei-o do seu bolso, parando apenas quando ela fungou por duas vezes.
Estava com ele e comecei a me voltar, levando-o comigo, quando sua mão moveu-se rápida como uma cobra e agarrou meu pulso, com força, os dedos se fechando nos ossos da minha mão.
Engasguei e vi os olhos de Masha abertos me fitando.
“Você é um idiota!” ela disse, tirando-me o telefone. “Como achava que ia conseguir desbloqueá-lo?”
Engoli em seco. Senti os ossos do meu pulso sendo espremidos. Fiz força para não gritar.
Com a outra mão ela me socou. “Era isso que você queria?” Ela me mostrou a nossa foto. “Esta foto?”
Não disse nada. Meu pulso parecia que iria se quebrar.
“Talvez eu a apague, acabando com esta tentação!” Sua mão livre moveu-se em direção ao telefone. Seu telefone perguntava se ela estava certa do que iria fazer e ela teve que olhar para ele para ver o botão certo.
Foi aí que eu ataquei. Eu ainda tinha o telefone de Charles na minha outra mão e acertei sua mão o mais forte que consegui, batendo meus dedos na mesa sobre nós. Acertei-a tão forte que o telefone se partiu e ela gritou e sua mão se afrouxou. No mesmo movimento alcancei sua outra mão, e seu telefone agora desbloqueado com seu polegar ainda sobre a tecla de OK. Seus dedos ficaram no ar quando arranquei o telefone dela.

Corri para o corredor estreito usando as mãos e joelhos, em direção da luz. Senti suas mãos acertando meus pés e tornozelos por duas vezes. E ainda precisei empurrar uma daquelas caixas que haviam nos emparedado como o Faraó em sua tumba. Algumas caixas caíram atrás de mim e ouvi Masha gemer.
A porta de correr do caminhão estava aberta numa brecha e eu mergulhei através dela. Os degraus haviam sido retirados e me vi balançando sobre a rua, pendurado. Agarrei-me ao pára-choques e arrastei desesperadamente o fecho da porta, até o seu fim. Masha gritou do lado de dentro… Eu devia ter acertado seus dedos. Pensei que iria vomitar, mas não o fiz.
Eu tinha trancado o caminhão. 



Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 19 [ Download ]