sábado, 13 de março de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 20

CAPÍTULO 20
Este capítulo é dedicado à The Tattered Cover, uma legendária livraria de Denver. Eu descobri a The Tattered Cover quase que por acidente. Alice e eu tínhamos acabado de aterrissar em Denver, vindos de Londres; era bem cedo, fazia frio e precisávamos de café. Dirigimos nosso carro alugado em círculos, sem um objetivo, até darmos com a placa da Tattered Cover. Algo se acendeu no meu cérebro… eu sabia já ter ouvido falar daquele lugar. Entramos na loja (e conseguimos o café)  - uma maravilhosa loja de madeira escura,  com vários refúgios confortáveis para leitura e quilômetros e quilômetros de prateleiras.
The Tattered Cover 1628 16th St., Denver, CO USA 80202 +1 303 436 1070


Nenhum dos três caras estava por ali naquele instante, então me afastei. Minha cabeça doía tanto que achei estar sangrando, mas não achei sangue algum. Meu joelho torcido tinha enrijecido durante o tempo no caminhão, de forma que eu corria como uma marionete quebrada, e parei uma vez apenas, para cancelar o comando de deletar da foto no telefone de Masha. Desliguei seu rádio, para conservar a bateria e para evitar que alguém me rastreasse e configurei o tempo de desligamento para, no máximo, duas horas. Tentei configurar para não pedir senha para reativar ma requeria uma senha para isso. Eu teria apenas que dar um toque no teclado a cada duas horas ao menos, até que pudesse descobrir como retirar a foto do telefone. Eu precisaria recarregar também.

Eu não tinha um plano. Eu precisava de um. Precisava sentar e entrar online… para ver o que eu faria depois. Estava cansado de outros fazerem planos para mim. Não queria fazer as coisas por que Masha me mandou, por causa da DHS ou do meu pai. Ou por causa de Ange? Bem, talvez não por Ange. Isso até seria legal.
Descia em direção a casa, seguindo pelas vielas quando podia e quando podia seguia no meio da multidão de Tenderloin. Não tinha um destino na cabeça. De tempos em tempos eu colocava a mão no telefone e apertava uma tecla do telefone de Masha para evitar que entrasse em modo soneca. Fazia um certo volume, aberto no bolso da jaqueta.

Parei e me encostei a um prédio. Meu joelho estava me matando. Onde eu estava?
O’Farrel, na Hyde Street. Em frente ao “Salão de Massagem asiática”. Meus pés traidores tinham me levado de volta ao inicio, me levado de volta ao lugar onde a foto no telefone de Masha tinha sido tirada segundos antes da ponte da Baía explodir, antes da minha vida mudar para sempre.
Queria sentar no chão e chorar, mas isso não resolveria meus problemas. Tinha que ligar para Barbara Stratford, contar para ela o que havia acontecido. Mostrar a foto de Darryl.
O que eu estava pensando? Eu tinha que mostrar o vídeo que Masha me mandara - aquele onde o homem de confiança do presidente defendia ardentemente os ataques a São Francisco e admitia quando e onde os próximos ataques aconteceriam e isso não iria parar por que eles precisavam reeleger aquele homem.
Esse era o plano: Contatar Barbara, dar a ela os documentos para que os publicasse. O Vamp-evento devia ter feito as pessoas enlouquecerem, feito-os pensar que éramos mesmo um bando de terroristas. É claro que quando eu planejei isso eu pensava em como seria bom ter um pouco de distração, não importando como pareceria isso para um NASCAR Dad (pessoa que não se prende politicamente a partidos, mas à defesa de valores sociais /humanos /éticos /comportamentais ) em Nebraska.
Eu ligaria para Barbara, mas faria isso da maneira mais inteligente, de um telefone pago, usando um capuz, de maneira que as câmeras não conseguissem tirar uma foto minha. Pesquei vinte e cinco centavos do bolso e poli a moeda na aba da camisa, apagando qualquer impressão digital nela.

Fui descendo a colina até a estação BART e aos telefones da estação. Um bonde acabara de chegar quando avistei a página principal do semanário Bay Guardian na pilha junto a um negro sem-teto que sorriu para mim “Vá em frente, dê uma olhada na primeira página, é de graça. Mas olhar o jornal todo vai lhe custar 50 centavos.”
A manchete principal com letras grandes que eu não via deste o 11/9.
DENTRO DA PRISÃO DA BAÍA.
Ao lado, em letras menores:
“Como a DHS mantêm nossas crianças e amigos numa prisão secreta bem na nossa cara.”
“Por Barbara Stratford, especial para o Bay Guardian.”
O vendedor de jornais balançou a cabeça: “Pode acreditar nisso?” ele disse. “Bem aqui em São Francisco. Cara, este governo não presta!”
Teoricamente o Guardian era de graça, mas este cara parecia ter se apoderado de todas as cópias para si. Eu tinha vinte e cinco centavos à mão. Joguei na sua caneca e peguei mais uma moeda, sem me importar desta vez em apagar as impressões digitais.
“Nos disseram que o mundo mudou para sempre após o ataque a ponte da Baía. Milhares de amigos e vizinhos nossos morreram naquele dia. Praticamente nenhum corpo foi encontrado e presumidamente descansam no porto da cidade.”
“Mas uma extraordinária história contada a esta repórter por um jovem que foi feito prisioneiro do DHS minutos após a explosão, sugere que nosso governo tem ilegalmente mantido em Treasure Island, muitos daqueles que pensamos estar mortos, um lugar que foi evacuado e declarado fora dos limites para os civis logo após o atentado.”
Sentei-me no banco, o mesmo banco, notei com um arrepio na nuca, onde havíamos colocado Darryl após escapar da estação BART e li o artigo. Me custou muito não me acabar em lágrimas ali mesmo. Barbara tinha usado algumas fotos de Darryl junto comigo e elas estavam distribuídas ao longo do texto. Eram fotos de um ano atrás talvez, mas eu parecia muito mais jovem, como se tivesse uns 10 ou 11 anos. Eu havia envelhecido bastante nos últimos meses.

O artigo tinha sido muito bem escrito. Senti-me abalado por conta daquelas pobres crianças sobre as quais Barbara escrevia, e então me lembrava que ela escrevia sobre mim. O bilhete de Zeb estava lá também, sua letra de difícil leitura tinha sido reproduzida aumentada no jornal. Barbara tinha também acrescentado informações sobre outras crianças que estavam desaparecidas e presumidamente mortas, uma longa lista e perguntava quantas estavam cativas na ilha, apenas a alguns minutos de distancia dos seus pais.
Peguei mais vinte e cinco centavos do bolso e então mudei de idéia. Qual era a chance do telefone de Barbara não estar grampeado? Não tinha como ligar para ela agora, não diretamente. Eu precisava de um intermediário que entrasse em contato com ela e que a levasse para se encontrar comigo em algum lugar. Tanto para planejar.

O que eu realmente precisava era da Xnet.
Como diabos eu conseguiria entrar online? O buscador de WiFi do meu telefone piscava feito louco… havia conexão sem fio disponível à minha volta, mas eu não tinha um Xbox e uma TV, nem um DVD do ParanoidXbox para conectar este WiFi.

Foi então que eu os vi. Dois garotos da minha idade, se destacando da multidão ao topo das escadas da BART. O que me chamou a atenção foi o jeito com que se moviam, meio desajeitados, se batendo contra os usuários e turistas. Cada um deles tinha as mãos nos bolsos e evitava o contato visual. Estavam zoando com certeza, e aquele tipo de gente daquela área era a melhor para isso. Naquela vizinhança, com tantos mendigos e pedintes e loucos, ninguém faz contato visual nem nada.
Fui até um eles, que parecia realmente novo, mas não mais do que eu.
“Hei. Vocês podem vir aqui um instante?”
Ele fingiu não me ouvir. Olhou através de mim, do jeito que fazemos com um mendigo.

“Vamos lá, cara. Não tenho muito tempo.” eu disse agarrando seu ombro e sussurrei em seu ouvido: “A polícia está atrás de mim. Eu sou da Xnet.”
Ele parecia assustado, como se quisesse correr dali e seu amigo veio na nossa direção. “Estou falando sério.” Eu disse. “Me ouve.”
Seu amigo chegou junto, era mais alto e mais massudo… como Darryl.”Ei! Algum problema?”
Seu amigo cochichou em seu ouvido. Estava parecendo que iriam sair correndo.
Peguei meu Bay Guardian debaixo do braço e sacudi na frente deles. “Dê uma olhada na página 5, certo?”
Eles olharam. Olharam a manchete e a foto. E eu.
“Mano!” o primeiro disse. “Nós não merecemos.” Ele riu feito um louco e o mais forte me deu um tapa nas costas. “Não brinca…Você é o M…”
Tapei sua boca. “Cheguem aqui, OK?”
Levei-os até meu banco. Percebi algo marrom e antigo ao lado da calçada sob ele. Seria o sangue de Darryl? Aquilo me arrepiou. Nos sentamos.
“Sou Marcus” disse, acreditando que dando meu nome real eles já soubessem que eu era M1k3y. Eu estava acabando com meu disfarce, mas o Bay Guardian já o tinha feito para mim.
“Nate.” apresentou-se o menor dos dois. “Liam.” disse o maior. “Cara, é uma honra te conhecer. Você é o nosso herói…”
“Não diga isso. Não diga isso. Vocês dois parecem estar carregando um letreiro que diz ‘Somos dois vigaristas, por favor me levem para a prisão da Baía. Não podiam ser mais óbvios.”
Liam me olhou como se fosse chorar.
“Não se preocupe, ninguém pegou vocês. Depois eu dar algumas dicas para vocês.”
Ele voltou a sorrir. O que ficou estranhamente claro foi que aqueles dois realmente idolatravam M1k3y e que fariam qualquer coisa que eu dissesse. Sorriam feito dois idiotas. Aquilo não me fez bem, fiquei enjoado.
“Ouçam, eu preciso entrar na Xnet agora, mas não posso ir para casa ou sequer perto de casa. Vocês moram por aqui?”
“Eu moro.” disse Nate. “Ali na Califórnia Street. É logo ali subindo.’”Eu tinha vindo de lá. Masha estava por algum lugar por lá. Mas ainda assim, era o melhor que eu podia conseguir.
“Vamos lá.” eu disse.

#

Nate me emprestou um boné de basebol e trocamos de casacos. Eu não precisava me preocupar com o reconhecimento visual, pois meu joelho machucado do jeito que estava… eu balançava ao andar feito um cowboy do cinema.
Nate morava num apartamento enorme de quatro quartos no topo e Nob Hill. O prédio tinha um porteiro vestido com um casaco vermelho com brocados dourados e tocou o chapéu e chamou Nate de “Mister Nate” e nos deixou entrar. O lugar brilhava e cheirava a polidor de móveis. Tentei não pensar que aquele apartamento devia valer muitos milhões.
“Meu pai” explicou ele “era investidor. Tinha um bom seguro de vida. Ele morreu quando eu tinha 14 anos e nós ficamos com isso tudo. Ele estava divorciado, mas deixou minha mãe como beneficiária.”
Da janela que ia do chão ao teto era possível ver uma vista estonteante do outro lado de Nob Hill, até Fisherman’s Wharf, até as feias ruínas da Ponte da Baia e um monte de guindastes e caminhões. Através da névoa dava para vislumbrar Treasure Island. Olhar para baixo daquele jeito me deu vontade louca de pular dali.
Entrei online em seu Xbox numa enorme tela de plasma na sala de estar. Me mostrou quantos pontos de rede WiFi eram acessíveis devido a morar tão alto…uns vinte ou  trinta deles. Um bom lugar para se ser um Xnetter.

Havia um monte de emails para M1k3y. Umas 20 mil novas mensagens desde que Ange e eu tínhamos saído de sua casa naquela manhã. Muitos eram da imprensas, solicitando entrevistas, mas a maior parte dos Xnetters, pessoais que haviam lido a matéria no Guardian e queriam me dizer que fariam tudo para me ajudar, tudo que eu precisasse.
Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
Nate e Liam trocaram olhares. Tentei parar, mas não deu. Eu chorava agora. Nate foi até um armário de carvalho e fez surgir um bar entre os livros, revelando várias garrafas. Colocou algo dourado e marrom num copo e trouxe para mim.
“Um uísque irlandês raro. O favorito da minha mãe.” ele disse.
Tinha gosto de fogo, como ouro. Engoli, tentando não engasgar. Eu não gostava de bebidas, mas esta era diferente. Respirei fundo várias vezes.
“Obrigado, Nate” falei. Ele parecia como se eu tivesse acabado de condecorá-lo com uma medalha. Era um garoto legal.
“Certo.” eu disse agarrando o teclado. Os dois me olharam fascinados quando paginei através dos meus emails na gigantesca tela.
O que eu procurava mais do que tudo, era um email de Ange. Havia uma chance dela ter sido presa.
Eu fui um idiota. Não havia nada dela. Comecei separando os emails de solicitações da imprensa, os emails de fãs, os de ódio, o spam.
E então achei um de Zeb.
‘Não foi legal acordar esta manhã e encontrar o bilhete que eu pensei que você havia destruído, nas páginas de um jornal. Me fez sentir…caçado. Mas eu começo a entender por que você o fez. Não sei se consigo aprovar suas táticas, mas é fácil ver aonde quer chegar e os motivos que o movem. Se você estiver lendo isso, significa que há uma boa chance de você estar agora no submundo. Não é fácil viver assim. Eu aprendi isso. E aprendi muito mais também. Não posso te ajudar. Eu deveria. Você está fazendo o que pode por mim (mesmo sem a minha permissão). Me responda se recebeu esta mensagem, se você estiver sozinho e fugindo. Ou me responda se estiver sob custódia, na prisão da Baía, procurando um jeito de fazer a dor passar. Se eles te pegaram, você irá fazer o que eles mandarem. Sei disso. Assumirei o risco. Por você M1k3y.”
“Uau! Caaaaaaaaara!” gritou Liam. Eu queria socá-lo. Me virei para dizer algo terrível e cortar seu barato, mas ele olhava para mim com olhos do tamanho de pratos, como se ele quisesse cair de joelhos ali em devoção.
“Posso dizer...” Nate começou a dizer. “Posso somente dizer que esta é a maior honra em toda minha vida, ajudar a você? Posso?”
Agora eu estava encabulado. Não havia nada a fazer quanto a isso. Estes dois eram completamente vidrados em personalidades, mesmo eu dizendo não ser uma estrela ou algo assim, pelo menos não na minha cabeça.
“Caras, vocês podem… me deixar sozinho um pouco?”
Eles se arrastaram para for a da sala como dois cachorrinhos sendo punidos e me senti como um feitor. Teclei rápido.
“Eu fugi, Zeb. Estou fugindo. Preciso de toda ajuda que puder conseguir. Quero acabar agora com isso.” Lembrei-me do telefone de Masha no bolso e tirei-o, teclando-o para evitar que entrasse em pausa.
Eles me deixaram usar o chuveiro, me deram roupas novas, uma mochila com metade do kit de emergência dentro… barras energéticas, remédios, compressas químicas de calor e frio e um velho saco de dormir. E também enfiaram um Xbox Universal extra carregado com ParanoidLinux dentro. Foi legal da parte deles.
Continuei checando meu email para ver se Zeb respondia. Respondi os emails dos fãs. Respondi os emails da imprensa. Apaguei os emails de ódio. Eu meio que esperava encontrar algo de Masha, mas havia uma chance de a estas horas ela estar na metade do caminho para Los Angeles, com os dedos machucados e sem poder teclar direito. Teclei seu telefone de novo.

Eles me encorajaram a dormir um pouco e por um breve e vergonhoso instante eu fiquei paranóico achando que aqueles garotos estavam pensando em me delatar quando eu estivesse dormindo. O que era idiotice minha… eles poderiam tê-lo feito mesmo comigo acordado. Só não conseguia processar o fato deles saberem tanto sobre mim. Eu sabia, intelectualmente, que havia pessoas que seguiriam M1k3y. Eu tinha encontrado muitas delas naquela manhã, gritando “MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA MORDIDA” e vampirizando no Centro Cívico. Mas estes dois eram mais íntimos. Eles eram legais, dois bobões, poderiam ter sido meus amigos naqueles dias que antecederam a Xnet, só dois caras saindo por aí para viverem suas aventuras adolescentes. Eles tinham se voluntariado para juntar-se ao meu exército, meu exército. Eu tinha responsabilidade por eles. Se os deixasse por conta própria, eles seriam pegos cedo ou tarde. Eram confiantes demais.

“Caras, prestem atenção por um segundo. Preciso falar uma coisa séria com vocês.”
Eles quase pararam em atenção. Seria engraçado se não fosse assustador.
“É o seguinte. Agora que vocês me ajudaram, a coisa fica perigosa. Se vocês forem presos, eu serei preso. Eles vão tirar tudo que sabem…” Ergui minha mão antes que começassem a protestar. “Não, parem. Vocês não sabem o que é isso. Todo mundo fala. Todo mundo pode ser quebrado. Se vocês forem presos, vocês contarão tudo rapidinho, o mais rápido que puderem, tudo que puderem. Eles vão conseguir de qualquer jeito. É como a coisa funciona. Então vocês não podem ser presos e por isso é que vocês não podem fazer nunca mais aquilo que estavam fazendo hoje. Considerem-se afastados da ativa. Vocês serão…” busquei da memória do vocabulário dos filmes de espionagem  “uma célula adormecida. Fiquem na sua. Voltem a ser garotos comuns. Vou dar um jeito nesta situação, acabar com isso. Ou então essa coisa vai me pegar, finalmente, dar um jeito em mim. Se vocês não tiverem notícias minhas em 72 horas, assumam que fui preso. E façam o que quiserem. Mas nos próximos três dias… e para sempre, se eu fizer aquilo que quero fazer…fiquem calmos. Prometem?”

Eles prometeram com toda solenidade. Deixei que me levassem para tirar um cochilo com a promessa de me acordarem em uma hora. Tinha que cuidar do telefone de Masha e queria saber se Zeb iria entrar em contato comigo.

#

O encontro se deu num vagão do BART, o que me deixou nervoso. Câmeras demais por toda parte. Mas Zeb sabia o que estava fazendo. Ele me encontrou no último carro de certo trem partindo da estação de Powell Street, num horário que o trem ficava bem cheio. Ele esgueirou-se na multidão e os bons cidadãos de São Francisco abriram espaço para ele, com o horror que sempre cerca os mendigos de rua.
“Legal te ver de novo.” ele murmurou, de cara para a porta. Olhando para o vidro negro eu pude ver que não havia ninguém perto o bastante para nos escutar, não sem algum tipo de microfone altamente sensível - e se eles soubessem o bastante para ter grampeado o local, nós estávamos mortos de qualquer jeito mesmo.
“Legal te ver também.” eu disse “Sinto muito por aquilo.”
“Calado. Não se desculpe. Você é mais corajoso do que eu. Está pronto para ir ao submundo agora? Pronto para desaparecer?”
“Sobre isso.”
“Sim?”
“Este não é o plano.”
“Oh.” ele disse.
“Preste atenção, ok? Eu tenho…tenho fotos e vídeos. Coisas que podem realmente provar algo.”
Mexi no bolso e alcancei o telefone de Masha. Eu tinha comprado uma bateria na Union Square no caminho e tinha carregado-a num café, para que pudesse durar ainda algumas horas de uso.
“Eu preciso fazer com que isso chegue a Barbara Stratford, a mulher do Guardian. mas eles estarão vigiando... esperando que eu apareça.”
“Você não acha que eles vão estar esperando por mim também? Se o seu plano envolve me mandar a um quilômetro de distância que seja daquela mulher ou do seu local de trabalho…”
“Quero que pegue Van e venha me encontrar. Darryl não te falou sobre Van? A garota…”
“Ele me falou. Sim, falou. Não acha que eles também a estarão vigiando? Todos vocês não foram presos?”
“Acho que sim. Mas não tão intensamente. E Van está limpa. Ela nunca cooperou com nenhum dos meus… com meus projetos. Assim eles devem estar um pouco mais relaxados com ela. Se ela ligar para o Bay Guardian para fazer uma declaração para explicar porque eu estou errado fazendo tudo isso, eles podem deixá-la passar.”
Ele ficou parado, sem falar por um tempo.
“Sabe o que vai acontecer se eles nos pegarem novamente.” Não era uma pergunta.
Fiz que sim.
“Tem certeza? Alguns daqueles que estavam na prisão conosco foram levados de helicópteros. Levaram  eles para fora do país. Existem países onde a América pode usar de tortura. Países em que você irá apodrecer para sempre. Países onde você deseja que eles te matem logo, que te deixem cavar um buraco e atirar na sua nuca e acabar logo com tudo.”
Eu engoli em seco e concordei.
“Vale o risco? Podemos nos esconder por bastante tempo, bastante tempo mesmo. Algum dia nós teremos nosso país de volta. Podemos esperar que isso aconteça.”
Eu fiz que não com a cabeça.
“Não se consegue nada deste jeito. É o nosso país. Eles o tiraram de nós. Os terroristas que nos atacaram ainda estão livres… nós não estamos. Não posso me esconder por um ano, dez anos, minha vida toda, esperando que me dêem a liberdade. Liberdade é algo que você tem que pegar sozinho.”

#

Naquela tarde Van deixou o colégio como sempre, sentou-se no fundo do ônibus junto com seus colegas, rindo e falando por todo o caminho como sempre fazia. Os outros passageiros no ônibus a perceberam, pois ela falava alto, e além disso, usava um chapéu estúpido gigante, algo que parecia ter saído de uma peça escolar sobre espadachins da renascença. Em um certo ponto, todos se juntaram e então se viraram para olhar para trás, apontando e caçoando. A garota que usava o chapéu, agora, tinha o mesmo peso de Van e vista de longe, poderia ser ela.

Ninguém prestou atenção na pequena asiática que saltou alguns paradas antes da estação BART. Usava um uniforme de escola e olhava tímida para os degraus quando desceu. Ao mesmo tempo, a garota coreana que falava alto na parte dos fundos do ônibus deu um grito e seus colegas a imitara, rindo tanto que até o motorista do ônibus, se virou para vê-las com uma expressão contrariada.

Van já atravessava a rua com a cabeça baixa e seu cabelo preso atrás e cobrindo o colarinho da sua jaqueta fora de moda. Ela tinha acrescentado palmilhas nos sapatos que a faziam um tanto mais alta e tinha dispensado as lentes de contato e usava seus óculos, não o par favorito, mas o de lentes grossas que tomavam metade de seu rosto. Apesar de estar esperando por ela sob a coberta da parada de ônibus, eu quase não a reconheci. Levantei-me e a acompanhei, atravessando a rua, seguindo-a por meio quarteirão.
As pessoas que passavam por mim desviam a vista assim que podiam. Eu parecia um mendigo jovem, com minhas roupas sujas, um casacão com fita passada nos cotovelos. Ninguém olhava para um garoto de rua, porque se você faz contato visual com um, ele pode te pedir um trocado. Andei assim por toda Okland e a única pessoa que se atreveu a falar comigo foi uma testemunha de Jeová e um cientologista, ambos tentando me converter.

Van seguiu as indicações conforme eu tinha escrito. Zeb as havia passado para ela da mesma maneira que ele tinha me passado o bilhete do lado de fora da escola. Um esbarrão enquanto ela esperava o ônibus, seguido de um pedido de desculpas copioso. Eu tinha escrito um bilhete bem simples e claro: “Eu sei que você não aprova, eu entendo. Mas este é o favor mais importante que já lhe pedi. Por favor, por favor”
Ela tinha vindo. Sabia que viria. Tínhamos muita história juntos, Van e eu. Ela também não gostava do que o mundo se tornara. Apesar disso, uma pequena voz maléfica ficava me dizendo que ela estava sobre suspeita agora que o artigo de Barbara for a publicado.

Caminhamos desta forma por seis ou sete quarteirões, olhando para as pessoas mais próximas, para os carros que passavam.  Zeb me falara sobre uma forma de seguir pessoas onde cinco pessoas diferentes disfarçadas trocam de lugar enquanto te seguem, tornando impossível percebê-lo. Você precisa ir para algum lugar totalmente deserto, onde qualquer outro além de você chamaria atenção.
O viaduto para a 880 ficava a poucos quarteirões da estação BART do Coliseu e, mesmo depois de andar em círculos, não demoramos a chegar lá. O estrondo sobre nossas cabeças era atordoante. Ninguém por perto, não que eu pudesse ver. Já tinha estado ali antes de sugerir no bilhete para Van, tomando cuidado para verificar lugares onde alguém pudesse se esconder. Não havia ninguém ali.

Uma vez que ela chegou ao lugar marcado, movi-me rápido para alcançá-la. Ela piscava como uma coruja por detrás das lentes.
“Marcus!” ela disse e lágrimas surgiram em seus olhos. Acho que eu chorava também. Eu era um fugitivo muito fajuto. Muito sentimental.
Ela me abraçou tão forte que mal consegui respirar. Abracei-a ainda mais forte.
Então ela me beijou.
Não no rosto, não como uma irmã, mas nos lábios, quente e molhado, e parecia durar para sempre. Eu estava longe de me envolver…
Mentira. Sabia exatamente o que fazia. Eu a beijei de volta.
Então parei e disse afastando-a de mim: “Van.”
“Ooops...” ela disse.
“Van...” eu disse de novo.
“Desculpa. Eu…”
Algo me ocorreu naquele instante. Algo que eu acho que deveria ter percebido há muito tempo.
“Você gosta de mim, não é?”
Ela fez que sim. “Faz muitos anos.” disse.
Oh Deus. Darryl, todos estes anos tão apaixonado por ela e o tempo todo, ela pensando em mim, secretamente me desejando. E então eu acabei ficando com Ange. Ange disse que vivia brigando com Van.
“Van,” eu disse. “Van, eu lamento tanto.”
“Esqueça.” Disse, olhando para longe. “Eu sei que não daria certo. Eu só queria fazer isso uma vez, no caso de eu nunca…” Calou-se.
“Van, eu preciso que você faça algo para mim. Algo importante. Preciso que encontre com a repórter do Bay Guardian, Barbara Stratford, que escreveu o artigo. Preciso que dê uma coisa para ela.” Expliquei sobre o telefone de Masha e sobre o vídeo que Masha me mandou.
“Que bem isso pode fazer, Marcus? Qual é o objetivo?”
“Van, você está certa, pelo menos em parte. Não conseguiremos consertar o mundo colocando pessoas em risco. Quero resolver o problema dizendo aquilo que sei. Devia ter feito isso desde o início. Devia ter ido direito da prisão para a casa do pai de Darryl e contado o que sabia. Agora, eu tenho provas. Isso pode mudar o mundo. Esta é minha última esperança. A única para tirar Darryl de lá, de ter uma vida onde eu não precise ficar escondido, fugindo da polícia. E você é a única pessoa em quem confio para fazer isso.”
“Por que eu?”
“Tá brincando, né? Veja como você chegou até aqui. Você é profissional. Você é a melhor de nós. É a única em quem eu posso confiar. Isso explica por que escolhi você.”
“E por que não sua amiga Ange?” ela disse o nome sem nenhuma inflexão, como se fosse um bloco de cimento.
Olhei para baixo. “Achei que você sabia. Eles a prenderam. Ela está na prisão da baía… em Treasure Island. Está lá há dias.” Eu tentara não pensar na coisa, não pensar no que poderia ter acontecido com ela. Agora eu não conseguia me conter e comecei a chorar. Sentia meu estômago doer, como se tivesse levado um chute, e segurava-o com as mãos. Me curvei ali e a próxima coisa que me lembro foi de estar caído de lado no chão sob o viaduto, abraçando a mim mesmo e chorando.
Van ajoelhou-se ao meu lado. “Me dá o telefone.” disse com a voz cheia de raiva. Eu o tirei do bolso e passei para ela.

Envergonhado, parei de chorar e sentei. Sabia que um pouco de muco escoria pelo meu rosto. Van estava me dando aquele olhar de pura repulsa. “Você precisa evitar que isso entre em modo pausa” eu disse. “Tenho uma bateria carregada aqui’. Procurei com cuidado na mochila. Não tinha dormido à noite desde que a comprei. Coloquei o alarme para tocar a cada 90 minutos e assim podia acordar e manter o telefone fora do modo pausa. “Não feche o telefone também.”
“E quanto ao vídeo?”
“Isso é mais difícil. Mandei uma copia para mim mesmo por email mas não posso mais usar a Xnet.” Eu poderia voltar a Nate e Liam e usar do Xnet deles de novo mas não queria correr risco. “Olha, vou te dar meu login e minha senha para o servidor de email do Pirate Party. Vai precisar acessar pelo Tor… a DHS vai estar escaneando as pessoas que acessam o email do PParty.”
“Seu login e senha!” ela disse um pouco surpresa.
“Confio em você, Van. Sei que posso.”

Ela balançou a cabeça: “Você nunca deu sua senha, Marcus.”
“Não acho que isso importe mais. Ou você tem sucesso ou eu… ou será o fim de Marcus Yalow. Talvez eu consiga uma nova identidade, mas não sei. Acho que vão me pegar. Acho que sabia disso o tempo todo, que eles iriam me pegar algum dia.”
Ela olhou para mim furiosa agora. “Que desperdício! Pra quê tudo isso, afinal?”
De tudo que ela pudesse dizer, nada me magoaria tanto. Era como outro soco no estomago. Que desperdício, tudo isso, futilidade. Darryl e Ange, desaparecidos. Eu podia nunca mais ver minha família de novo. E ainda assim, a DHS tinha atirado minha cidade e meu país numa loucura fora de razão onde tudo podia ser feito em nome de deter o terrorismo.
Van parecia esperar que eu falasse algo, mas eu nada tinha a dizer.
Ela me deixou lá.

#

Zeb tinha uma pizza para mim quando voltei para “casa”… ou a tenda debaixo do viaduto da auto-estrada em Missão na qual tínhamos passado a noite. Ele tinha uma pequena tenda de acampamento, suprimentos militares, onde se lia Comissão de Coordenação de Sem-tetos de São Francisco.
A pizza era da Domino´s, fria e azeda mas deliciosa mesmo assim. “Gosta de abacaxi na sua pizza?”
Zeb sorriu condescendente comigo. “Um freegan não pode ser exigente.” ele disse.
“Freegan?”
“Como Vegan, mas só que só come comida grátis.”
“Comida grátis?”
Ele riu: “Você sabe, destas lojinhas de comida de graça?”
“Você roubou?”
“Não, maluco! Da outra loja. Daquela que fica nos fundos, feita de metal azul. Sabe? Que tem um cheiro esquisito.”
“Você pegou isso do lixo?”

Ele jogou a cabeça para trás e gargalhou: “É isso ai. Devia ver sua cara. Mas é boa, não é como se estivesse podre ou coisa assim. É fresquinha, só um pouco bagunçada. Eles jogam fora ainda na caixa. Eles jogam veneno de rato quando estão fechando, mas se você for rápido, você consegue pegar. Você tem que ver o que as lojas de doces jogam fora! Espere até ver o café da manhã. Vou te trazer uma salada de frutas que você não vai acreditar. Assim que um dos morangos fica um pouco maduro, eles atiram tudo fora.”
A pizza estava boa. Não era porque tinha ficado dentro do latão que ela estaria infectada ou algo assim. Se estava daquele jeito era só por que tinha vindo da Domino´s… a pior pizza da cidade. Nunca gostei da comida deles e eu os detestava desde que soube que eles bancavam um bando de políticos malucos que pensavam que o aquecimento mundial e evolução eram parte da trama do diabo.
Mas havia outro jeito de ver a coisa. Zeb tinha me mostrado um segredo, algo que eu não tinha pensado e que havia um mundo inteiro as escondidas lá fora, um modo de viver sem participar do sistema.
“Freegan, né?”
“Iogurte também. Para a salada de fruta. Eles jogam fora um dia após o fim de validade, mas não é como se ficasse verde à meia-noite.É iogurte, quero dizer, basicamente é leite estragado.”
Eu acreditei. O gosto da pizza era engraçado. Veneno de rato. Iogurte estragado. Morangos mofados.
Comi outra fatia. Na verdade a pizza da Domino´s não parecia tão ruim quando era de graça.
O saco de dormir de Liam era quente e muito bom após um longo e exaustivo dia. Van devia estar entrando em contato com Barbara neste instante. Ela ficaria com o vídeo e a foto. Eu telefonaria para ela pela manhã e perguntaria o que ela acha que eu devia fazer em seguida.
Eu teria que aparecer depois que ela publicasse aquilo.

Pensava sobre isso quando fechei os olhos, como seria me mostrar diante das câmeras e coisas do tipo, as câmeras seguindo o infame M1k3y entre os prédios enormes do Centro Cívico.
O som os carros passando pelo viaduto se transformou em um som parecido com o do oceano quando me deixei adormecer. Havia outras tendas por perto, de pessoas sem-teto. Eu tinha encontrado algumas delas naquela tarde, antes de escurecer e todos vinham buscar abrigo perto das tendas. Todos mais velhos que eu, com aparência rude e irritada. Contudo, nenhum deles parecia louco ou violento. Apenas gente que tivera azar ou tomara as decisões erradas ou ambas as coisas.
Devo ter dormido então, pois não me lembro de nada até que uma luz forte brilhou na minha cara, e a luz era cegante.
“É ele.” disse uma voz por detrás da luz.
“Empacote ele.” disse outra voz, uma que eu já havia ouvido antes, várias vezes nos meus sonhos, me criticando, pedindo minhas senhas. A mulher com cabelo curto.
O saco desceu rápido sobre minha cabeça e fechou tão apertado na minha garganta que vomitei minha pizza grátis. Enquanto eu tossia em espasmos, mãos fortes juntaram meus pulsos e meus tornozelos. Fui rolado até uma maca e erguido, então carregado até um veiculo, para cima ao som de passos metálicos.  Me soltaram no chão acolchoado. Nenhum som era audível na traseira do veículo após fecharem as portas. O acolchoado abafava, tudo exceto minha tosse.
“Olá, de novo” ela disse. Senti o chão se mexer. Eu estava sufocando, tentando respirar. Vômito enchia minha boca e escorria pela traquéia.
“Não vamos deixar você morrer.” ela disse. “Se você parar de respirar, vamos fazer com que respire novamente. Não se preocupe com isso.”
Eu sufocava de verdade. Tragava o ar. Mal conseguia. Profundamente, meu peito se enchia e distendia, expulsando o vômito. Mais ar.
“Veja.” ela disse. “Não é tão ruim. Bem vindo à casa, M1k3y.Temos um lugar especial para você.”
Relaxei sobre minhas costas, sentindo o veiculo se mover. O cheiro da pizza deglutida tomava tudo, mas com tão forte estimulo, meu cérebro gradualmente se acostumou, filtrando-o até que ficasse apenas um leve aroma. O balançar da van era quase reconfortante.

 E então aconteceu. Uma incrível e profunda calma me envolveu como se eu estivesse deitado na praia e o oceano viesse me levar gentilmente, carregando-me para o alto para me levar para um mar quente sob um sol quente. Depois de tudo que aconteceu, me pegaram, afinal, mas não importava. Eu tinha conseguido entregar a informação para Barbara. Eu tinha organizado a Xnet. Eu tinha vencido. E se não venci, fiz tudo que podia fazer. Mais do que eu jamais pensei que poderia fazer. Fiz uma lista mental pensando em tudo que eu tinha realizado. A cidade, o país, o mundo estava cheio de gente que não queria viver do jeito que a DHS queria que vivêssemos. Nós lutaríamos contra isso para sempre. Não podiam prender a todos.
Eu suspirei e sorri.

Ela não parava de falar, percebi. Estive tão distante em meu “lugar feliz” que ela simplesmente sumira.
“…garoto esperto como você. Achava que sabia como nos prejudicar. Nós tínhamos um olho em você desde o dia em que o liberamos. Nós teríamos agarrado você mesmo se você não tivesse ido chorar no colo daquela jornalista lésbica traidora. Não compreendo isso…achei que nós tínhamos nos entendido, você e eu…”
 Passamos sobre uma superfície metálica e a van rolou sobre pedras e então o chão mudou. Estávamos na água. Em direção a Treasure Island. Ei. Ange estava lá. Darryl também. Talvez.

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O capuz não foi tirado até que eu estivesse na minha cela. Eles não se importaram com as algemas prendendo pulsos e tornozelos, apenas me rolaram para fora da maca para o chão. Estava escuro, mas o luar penetrava por uma pequenina janela no alto. Dava para ver o beliche sem o colchão. A sala tinha uma pia, um espaço para a cama, o vaso e nada mais.
 Fechei os olhos e deixei o oceano me levar. Flutuei livre. Em alguma parte, longe e abaixo, estava meu corpo. Eu podia dizer o que aconteceria a seguir. Seria deixado ali até mijar em mim mesmo. De novo. Eu sabia como era aquilo. Já tinha ocorrido antes. Eu ficaria cheirando muito mal. Coçava. Era humilhante, como voltar a ser um bebê.
Mas eu sobreviveria.

Gargalhei. O som foi estranho e trouxe-me de volta ao meu corpo, de volta ao presente. Gargalhei e gargalhei. Tinha passado pelo pior que eles podiam fazer e tinha sobrevivido a isso, tinha vencido eles durante meses, tinha mostrado a todos como eram tolos tiranos. Eu vencera.
Deixei minha bexiga se aliviar. Doía e estava cheia, e não havia nada de errado com o presente.
O oceano levou-me para longe.

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Quando a manhã chegou, dois eficientes e impessoais guardas vieram cortar as tiras que prendiam meus tornozelos e pulsos. Ainda assim eu não conseguia andar… quando tentei, minha pernas reagiram como se fosse um marionete com as cordas cortadas. Tempo demais na mesma posição. Os guardas levantaram meus braços sobre seus ombros e meio que me carregaram meio que me arrastaram pelo corredor conhecido. Os códigos de barra das portas começavam a sair e descolar por conta do ar marinho.
Tive uma idéia. “Ange!” gritei. “Darryl!” gritei. Meus guardas apressaram o passo, claramente perturbados mas sem saber o que fazer a respeito. “Pessoal, sou eu, Marcus!”
Atrás de uma das portas alguém gemeu. Outro alguém gritou e aquilo soou árabe. Então uma cacofonia, mil vozes diferentes gritando.
Levaram-me a uma nova sala. Era uma velha sala de chuveiros e os canos ainda estavam lá, saindo dos azulejos mofados.
“Olá, M1k3y.” disse a mulher de cabelo curtíssimo. “Parece que você teve uma manhã muito atarefada.” ela disse, enrugando o nariz.
“Me urinei.” falei animadamente. “Você deveria experimentar.”
“Talvez devêssemos dar um banho em você”, ela disse.

 Ela assentiu e meus guardas me levaram até uma maca. Esta tinha tiras ao longo dela. Me jogaram sobre ela ,que era fria como gelo. Antes que percebesse já haviam me prendido com tiras pelos meus ombros, cintura e tornozelos. Um minuto depois, mais três tiras foram presas. Mãos de homens agarraram os corrimãos junto da minha cabeça e soltaram as travas e no momento seguinte eu era inclinado, de cabeça para baixo.
“Vamos começar com uma coisa simples.” ela disse. Suspendi a cabeça para conseguir vê-la. Tinha se aproximado de uma mesa com um Xbox nela, conectada a uma cara TV de tela plana. “Quero que me diga seu login e senha de seu email no Pirate Party, por gentileza.”
Fechei os olhos e deixei oceano me levar da praia.
“Você sabe o que significa ‘waterboarding’, M1k3y? Colocamos você de cabeça para baixo como está e jogamos água sobre seu rosto, dentro do seu nariz e boca. Não dá para segurar o reflexo de contração da laringe. Chamam isso de execução simulada e pelo que posso dizer deste lado da sala onde estou, esta é uma definição bastante justa. Não dá para lutar contra a sensação de estar morrendo.”
Tentei não prestar atenção. Tinha ouvido falar naquilo. Era tortura de verdade. E era só o começo.
Não consegui me desconcentrar. O oceano não me levava dali. Havia um aperto no meu peito, minhas pálpebras tremiam. Podia sentir a urina úmida nas minhas pernas e o suor em meu cabelo. Minha pele coçava devido ao vomito seco.
Ela deslizou a frente da minha vista. “Vamos começar pelo login.” ela disse.
Fechei os olhos, apertando-os para permanecerem fechados.
“Dêem-lhe o que beber.” ela disse.
Ouvi pessoas se movendo. Respirei fundo e segurei.
A água começou a cair em me queixo primeiro como um gotejar, uma mão de água caindo aos meus lábios, pelas narinas viradas para cima. Começava a chegar na garganta, começando a me asfixiar, mas eu não tossi. Segurava a respiração e apertava os olhos com força.
Houve um barulho do lado de fora da sala, um som caótico de botas, batendo com raiva, insultos gritados. A concha foi esvaziada sobre meu rosto.

Ouvi um murmúrio trocado entre alguém na sala, então para mim ela disse: “Só me dê o login, Marcus. É uma pergunta simples. O que posso fazer apenas com seu login?’
Desta vez foi um balde de água, de uma vez só, uma inundação sem fim, gigantesca. Não dava para segurar. Tossi e a água entrou por meus pulmões, tossi e mais água entrou. Sabia que eles não iriam me matar, mas não dava para convencer meu corpo disso. Cada fibra do meu ser. Sabia que ia morrer. Sequer podia chorar… a água continuava a jorrar sobre mim.
Então parou. Eu tossi, tossi e tossi, mas do ângulo que estava a água que eu expulsava voltava a entrar pelo nariz e queimava através dos sinus.
A tosse era tão profunda que doía, doía nas costelas e quadris enquanto eu me torcia. Odiava como meu corpo me traía, como minha mente não conseguia controlar meu corpo e eu nada podia fazer.
Ao final, a tosse cedeu e consegui ver o que se passava ao meu redor. Pessoas gritavam e parecia como se alguém estivesse brigando, lutando. Abri meus olhos e pisquei devido à luz brilhante e então virei meu pescoço ainda tossindo um pouco.
A sala tinha bem mais gente do que antes. A maioria parecia vestir armaduras corporais, capacetes e visores. Gritavam com os guardas de Treasure Island, que gritavam em resposta, seus pescoços marcados por veias saltadas.
“Pro chão!” gritou um dos homens com coletes “De joelhos no chão e as mãos para cima. Vocês estão presos.”

A mulher de cabelo curto falava em seu telefone. Um dos homens com armaduras a percebeu e foi até ela, arrancando seu telefone com um tapa da mão enluvada. Todos fizeram silêncio quando o telefone fez um arco atravessando a sala e espatifou-se em pedaços contra o chão.
O silêncio foi quebrado e os soldados encouraçados moveram-se pela sala. Dois deles pegaram cada um dos meus torturadores. Quase sorri ao ver a expressão do rosto da mulher de cabelo curto quando dois homens a seguraram pelos ombros e a viraram de costas, aplicando tiras de plástico imobilizando-a pelos pulsos.
Um dos sujeitos foi até a porta. Ele tinha uma câmera de vídeo ao ombro, onde piscava uma luz branca. Dali ele tinha visão para a sala inteira, circulou ao me redor me filmando. Fiquei o mais parado que pude, como se posasse para um retrato.
Aquilo era ridículo.
“Pode me tirar daqui?” eu consegui dizer somente com um pequeno engasgar.
Dois outros homens de armaduras blindadas vieram até mim, um deles era uma mulher e começou a me soltar. Levantaram seus visores e sorriram para mim. Tinham cruzes vermelhas em seus ombros e capacetes.
Debaixo das cruzes havia uma outra insígnia. CHP. Califórnia High Patrol. Eram da polícia estadual.
Comecei a perguntar o que faziam ali e foi quando vi Barbara Stratford. Ela passava pelo corredor e agora entrava empurrando. “Aí está você!” ela disse, vindo até meu lado e me dando o maior e mais longo abraço de minha vida.
Foi então que eu soube que a Guantánamo da Baía tinha caído nas mãos dos seus inimigos.
Eu estava salvo.


Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 20 [ Download ]