sábado, 20 de março de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 21


CAPÍTULO 21
Este capítulo é dedicado à Pages Books em Toronto, Canadá. Um ponto conhecido de longa data na badalada Queen Street West. Pages está localizada perto da CityTV, a pouca distância da velha Bakka, onde trabalhei. Nós, na Bakka, amávamos ter a Pages ali na rua. O que nós da Bakka representávamos par a Ficção Cientifica, a Pages significava para todo o resto, sempre com produtos que não eram encontrados em nenhuma outra parte, coisas que você não sabia estar procurando até que você as via lá. Pages também tinha uma das melhores bancas de jornal que já vi, várias revistas incríveis e zines de todo o mundo.
Pages Books: 256 Queen St W, Toronto, ON M5V 1Z8 Canada +1 416 598 1447

Eles deixaram a mim e Barbara sozinhos na sala então eu usei um dos chuveiros para me lavar... subitamente fiquei embaraçado por estar coberto de urina e vômito. Barbara chorava.
“Seus pais...” ela começou a dizer.
Senti como se fosse vomitar de novo. Deus, meus pobres pais. O que eles devem ter passado!
“Eles estão aqui?”
“Não. É complicado.” Ela disse.
“O quê?”
“Você ainda está preso, Marcus. Todos aqui estão. Eles não podem simplesmente vir aqui e abrir a porta para que saiam. Todos aqui irão passar pelo sistema criminal de justiça. Isso pode levar, bem, eu diria meses.”
“Vou ter que ficar aqui por meses?”
Ela agarrou minhas mãos.
“Não, eu acho que conseguiremos tirar você daqui bem rápido. Mas rápido é um termo relativo. Não espero que nada aconteça ainda hoje. E não será como estas pessoas que estavam aqui. Vocês serão tratados com humanidade. Vão comer comida de verdade. Nada de interrogatórios. As famílias vão poder visitá-los. Não é pelo DHS estar afastado daqui que significa você poderá simplesmente sair. O que está acontecendo aqui é algo que combatemos, uma versão do sistema de justiça do mundo bizarro que eles instituíram e colocaram no lugar do antigo sistema. Aquele com juízes, tribunais e advogados.  Então nós tentaremos transferi-lo para um centro juvenil no continente, mas Marcus, estes lugares podem ser barra pesada. Realmente barra pesada. Isto aqui pode ser melhor para você até que consigamos libertá-lo de vez.”
Libertá-lo. É  claro, eu era um criminoso... eu ainda não tinha sido acusado mas haviam muitas acusações que eles poderiam escolher para mim. Era praticamente ilegal apenas pensar coisas ruins sobre o governo.
Ela apertou minhas mãos novamente. “Isso é uma droga, mas é como vai ser. O ponto é, acabou. O Governador mandou o DHS deixar o estado, desmantelou todos os postos de controle. O Promotor Geral expediu mandatos de prisão para oficiais envolvidos em interrogatórios e aprisionamentos secretos. Eles vão para a cadeia Marcus e tudo pelo que você fez.”
Eu estava sonado. Ouvia as palavras, mas dificilmente entendia o significado. De alguma forma parecia ter acabado, mas não havia acabado de verdade.
“Olhe, nós provavelmente temos uma hora ou duas antes de tudo se ajeitar, antes de virem e levarem você de novo. O que você quer? Quer caminhar um pouco na praia? Quer comer alguma coisa? Este pessoal tem uma sala incrível para refeições... nós passamos PR ela vindo para cá. Culinária da melhor qualidade.”
Agora sim uma pergunta que eu podia responder. “Quer achar Ange. Quero achar Darryl.”

#

Tentei usar um computador que encontrei para procurar pelos números de suas celas, mas requeria uma senha, então foi necessário que andássemos pelos corredores, chamando seus nomes. Por trás das portas das celas, prisioneiros gritavam respondendo nossos chamados, ou choravam, ou suplicavam que os deixassem ir embora. Eles não entendiam o que havia acontecido, não podiam ver os guardas sendo levados algemados para as docas, vigiados pelas equipes da SWAT da Califórnia.
“Ange!” eu chamei acima do barulho, “Ange Carvelli ! Darryl Glover! É Marcus!”
Caminhamos por toda extensão do bloco de celas e eles não responderam. Achei que ia chorar. Eles podiam ter sido mandados para fora do país... podiam estar na Síria ou pior. Eu nunca os veria de novo.
Sentei-me com as costas contra a parede do corredor com meu rosto entre as mãos. Vi o rosto da mulher de cabelo curto, vi seu sorriso afetado quando me perguntava pela senha. Ela poderia ir para a cadeia por isso, mas não era o bastante. Pensei isso ao vê-la novamente. Eu poderia matá-la. Ela merecia.
“Vamos!” Barbara disse. “Vamos, Marcus, não desanime. Tem mais lugares para procurar, vamos.”
Ela estava certa. Todas as portas por quais passamos naquele bloco eram velhas, enferrujadas e datavam da época da construção. Mas no final do corredor, havia algumas portas de alta segurança grossas como um dicionário. Nos a abrimos e entramos por um corredor escuro.
Havia mais quatro celas, com portas com códigos de barras. Cada uma delas tinha um painel eletrônico junto delas.
“Darryl?” eu gritei. “Ange?”
“Marcus?”
Era Ange, chamando de dentro da cela mais distante. Ange, minha Ange, meu anjo.
“Ange!” gritei. “Sou eu, sou eu!”
“Oh Deus, Marcus!” ela respondeu e então começou a chorar.
Golpeei as outras portas. “Darryl! Darryl, você está aí?”
“Estou aqui.” A voz era baixa e bastante rouca. “Estou aqui. Sinto muito, sinto muito. Por favor, eu sinto muito mesmo.”
Ele parecia arrasado. Partido em pedaços.
“Sou eu, D!” disse encostado contra a porta. “É Marcus, acabou… eles prenderam os guardas. Eles acabaram com a DHS. Vão ser julgados, julgamentos públicos. E iremos testemunhar contra eles.”
“Eu sinto muito. Por favor, sinto muito mesmo.”
 Um patrulheiro da Califórnia chegou na porta. Sua câmera ainda estava ligada. “Senhorita Stratford?” Sua máscara facial estava levantada e parecia com outro policial qualquer, não como meus salvadores. Como qualquer um que viesse me prender.
“Capitão Sanchez.” ela disse. “Localizamos dois prisioneiros que são do meu interesse presos aqui. Gostaria que os soltasse e eu me responsabilizarei pessoalmente.”
“Madame, ainda não temos acesso ao código destas portas.” ele disse.
Ela levantou sua mão.
“Este não foi nosso acordo. Eu teria completo acesso a esta unidade. Este acordo foi feito diretamente com o Governador, senhor. Não iremos a lugar nenhum até que abra estas celas.” Seu rosto era perfeitamente tranqüilo. Ela falava sério.
O Capitão parecia como se precisasse dormir. Ele fez uma careta. “Verei o que posso fazer.” ele disse.

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Eles finalmente conseguiram abrir as celas, quase meia hora depois. Precisaram de três tentativas, mas eventualmente conseguiram os códigos corretos que batiam com o dos arphids dos distintivos de identificação que foram tirados dos guardas presos.
Entraram primeiro na cela de Ange. Estava vestida com avental hospitalar, aberto nas costas e sua cela era ainda mais desnuda que a minha, apenas o acolchoado, sem pia, sem vaso, cama ou luz. Ela veio para o corredor piscando os olhos e a câmera de polícia a estava filmando, com a luz brilhante em seu rosto. Barbara deu um passo a frente ficando entre nós e a câmera. Ange deu um passo para fora ainda cambaleante um pouco. Havia algo de errado com seus olhos, com seu rosto. Ela chorava, mas não era isso.
“Eles me drogaram. Quando eu não parei de gritar pedindo um advogado.” Ela disse.
Foi quando eu a abracei. Ela se sucumbiu contra mim, mas me abraçou também. Ela fedia e estava suada e eu não cheirava melhor do que ela. Não quis soltá-la. Nunca.
Foi então que eles abriram a cela de Darryl.
Seu avental hospitalar estava reduzido a frangalhos. Ele estava curvado e nu, no fundo da cela, protegendo-se da câmera e de nossos olhares. Corri para ele.
“D!” sussurrei em seu ouvido. “D, sou eu. Marcus. Acabou. Os guardas foram presos. Vão nos libertar, nós vamos para casa.”
Ele tremia e apertava os olhos “Desculpa...” ele sussurrou e virou o rosto.
Eles me afastaram dele, um policial usando armadura e Barbara me levaram de volta à minha cela e fecharam a porta e foi ali que passei a noite.

#

Não me recordo muito da viagem até a corte judicial. Me acorrentaram com outros cinco prisioneiros, todos eles tinham estado presos a muito mais tempo do que eu. Um deles só falava árabe... era velho e trêmulo. Os outros eram todos jovens, eu era o único branco. Depois que fomos reunidos no deque no barco, eu vi que todos ali presos em Treasure Island eram de cor.
Eu tinha estado lá dentro apenas por uma noite, mas durou muito tempo. Uma chuva fina caía e normalmente este era o tipo de coisa que me faria procurar proteção, mas hoje eu me juntei a todos os outros jogando minha cabeça para trás, olhando para o céu infinito e cinzento deleitando-me com aquelas picadas molhadas enquanto atravessávamos a baia em direção as docas.
Eles nos levaram em ônibus. As correntes fizeram com que subir ao ônibus fosse difícil e levou um tempo até que todos se acomodassem. Ninguém se importava. Enquanto dávamos um jeito de resolver o problema geométrico de seis pessoas, uma corrente e um corredor estreito, ficamos olhando a cidade ao nosso redor, para os prédios altos.
Tudo que eu pensava era em encontrar Darryl e Ange, mas nenhum dos dois estava à vista. Era uma multidão e não tínhamos permissão de nos movermos livremente através dela. As tropas estaduais que tratavam conosco eram gentis, mas ainda assim eram enormes, armados e encouraçados. Achei ter visto Darryl na multidão, mas sempre era outra pessoa com a mesma aparência abatida que ele tinha quando o tiraram da cela. Ele não era o único que tinha sido quebrado.
Na corte de justiça nos levaram para salas de entrevistas. Uma advogada da ACLU pegou nossos dados e nos perguntou algumas coisas... quando ela veio falar comigo ela sorriu e me chamou pelo meu nome... e então fomos levados para a frente do juiz. Ele vestia a túnica habitual e parecia estar de bom humor.
O acordo foi que todos que tivessem um familiar que se encarregasse da fiança poderiam sair livres, e os outros seriam mandados para a prisão. A advogada do ACLU falou bastante com o juiz, pedindo mais tempo para localizar os familiares e trazê-los até a corte. O juiz foi simpático quanto a isso, mas quando eu me dei conta que algumas daquelas pessoas estava presa desde a explosão da ponte e que tinham sido dados como mortos pelos familiares, sem um julgamento, e tinham sido submetidos a interrogatórios, isolamento e tortura...eu mesmo quis quebrar aquelas correntes de deixá-los livres.
 Quando fui levado diante do juiz, ele me olhou e tirou seus óculos. Parecia cansado. A advogada parecia cansada. Os funcionários pareciam cansados. Pude ouvir um cochicho atrás de mim quando meu nome foi chamado. O juiz bateu seu martelo.
“Senhor Yallow” ele disse “o processo identificou-o como de risco de evasão. Acho que eles têm razão. Você certamente tem uma, digamos, história diferente a contar, do que as outras pessoas aqui. Estou tentado segurá-lo para o julgamento, não importando o quanto seus pais possam pagar de fiança.”
Minha advogada começou a dizer algo, mas o juiz a fez silenciar-se apenas com uma olhada.
“Você tem algo a dizer?”
“Eu tive a chance de fugir.” eu disse “Na semana passada. Alguém se ofereceu para me levar para fora da cidade, me ajudar a conseguir uma nova identidade. Ao invés disso eu roubei seu telefone, escapei do caminhão e corri. Eu fiz com que seu telefone... que continha evidências sobre meu amigo Darryl Glover nele...chegasse a uma jornalista e me escondi na cidade.”
“Você roubou um telefone?”
“Decidi que não podia fugir. Que tinha que encarar a justiça... que minha liberdade não valeria nada se eu fosse um homem procurado ou se a cidade permanecesse sob o controle da DHS. Se meus amigos continuassem presos. Esta liberdade para mim não era tão importante quanto a liberdade do país.”
“Mas você roubou um telefone.”
Fiz que sim.
“Sim, roubei. Planejava devolver se algum dia encontrasse a jovem dona do telefone.”
“Bem, obrigado, senhor Yallow, pelo seu discurso. Você é um jovem muito comunicativo.”
 Ele olhou para o Promotor.
“Alguns poderiam dizer que também é um jovem muito corajoso. Há um certo vídeo no telejornal desta manhã. Ele sugere que você possui razões legitimas para fugir das autoridades. Em vista disso, e de seu pequeno discurso aqui, eu lhe concederei a fiança, mas também pedirei ao Promotor Publico que acrescente uma acusação de contravenção de menor delito, devido à questão do telefone. Por conta disso, estabeleço mais 50 mil a ser acrescido na sua fiança.”
Ele bateu o martelo novamente e minha advogada apertou minha mão.
O Juiz olhou para mim novamente e ajeitou seus os óculos. Ele tinha caspa nos ombros e um pouco mais caiu quando as hastes dos seus óculos tocaram seu cabelo cacheado.
“Pode ir agora, meu jovem. E fique longe de encrencas.”

#

Me virei para sair quando alguém me agarrou. Era papai. Ele literalmente me levantou do chão, num abraço tão apertado que fez minhas costelas rangerem. Me abraçou de um jeito que me lembrou quando era criança, quando ele brincava de me jogar para o alto e me agarrando e me abraçando tão forte que quase machucava.
Um par de mãos macias me puxou gentilmente de seus braços. Mamãe. Me prendeu nos braços um pouco, sem dizer nada, as lágrimas rolando pelo seu rosto. Sorriu e o sorriso virou choro e então nos abraçávamos e os braços de papai ao nosso redor.
Quando me soltaram, e finalmente consegui dizer algo: “Darryl?”
“Encontrei com o pai dele. Darryl está hospitalizado.”
“Quando poderei vê-lo?”
“É nossa próxima parada.” papai falou. Ele estava zangado. “Darryl não...” Calou-se. “Eles disseram que ele vai ficar bem.” Sua voz sumiu.
“E Ange?”
“A mãe dela a levou para casa. Ela queria esperar por você, mas...”
Eu entendi. Sentia-me cheio de compreensão agora, de como todas as famílias de todos aqueles presos há muito tempo deviam se sentir. A corte de justiça estava repleta de lágrimas e abraços e até os meirinhos não conseguiam contê-los.
“Vamos ver Darryl.” falei. “E me empresta seu telefone?”
Liguei para Ange no caminho do hospital onde estava Darryl... São Francisco General, bem descendo a rua... e combinamos de nos ver depois do jantar. Ela falava sussurrando e rápido. Sua mãe não sabia se a castigava ou não, mas Ange não queria correr riscos.
Havia dois policiais no corredor onde Darryl estava internado. Eles mantinham uma legião de repórteres afastados. Os flashes das suas câmeras estouraram em nossos olhos como estrobos. Meus pais tinham me trazido roupas limpas  e eu havia trocado  de roupa no banco de trás do carro, mas ainda me sentia sujo mesmo depois de me lavar no banheiro da corte de justiça.
Alguns repórteres gritavam meu nome. Tá certo, eu era famoso agora. Um policial me olhou como se reconhecesse meu rosto ou meu nome gritado pelos repórteres.
O pai de Darryl nos encontrou à porta do quarto, falando baixo o bastante para que a imprensa não ouvisse. Estava usando roupas civis, jeans e suéter, roupas que imaginava que ele usava normalmente, mas tinha as insígnias de serviço espetadas no peito.
“Ele está dormindo.” ele disse. “Ele acordou há pouco e começou a chorar. Não conseguia parar. Deram algo para ele dormir.”
Ele nos deixou entrar e lá estava Darryl, seu cabelo limpo e penteado, dormindo de boca aberta. Tinha uma coisa branca nos cantos dos lábios. Seu quarto era semi-privado, e na outra cama havia um cara mais velho com aparência árabe, por volta dos 40 anos. Imaginei que fosse o sujeito a quem estive acorrentado ao sair de Treasure Island. Trocamos uma saudação embaraçada.
Então me voltei para Darryl. Peguei sua mão. Sua unhas estavam mastigadas até carne viva. Ele costumava roer as unhas quando criança, mas tinha se livrado do habito quando entrou para a escola. Acho que Van o fez largar, dizendo-lhe o como parecia grosseiro ter sempre a mão enfiada a boca o tempo todo.
Ouvi meus pais e o pai de Darryl se afastando, fechando a cortina entre nós. Coloquei meu rosto perto do dele no travesseiro. Ele tinha uma barba desigual e rala que me lembrou Zeb.
“Ei, D. Você conseguiu. Você vai ficar legal.” eu disse.
Ele roncou um pouco. Eu quase disse “Eu te amo.” uma frase que só disse para uma pessoa que não era da minha família, e que era estranha demais para ser dita para outro cara. Por fim, apenas apertei sua mão. Pobre Darryl.



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