sábado, 27 de março de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Epílogo


EPÍLOGO
Este capítulo é dedicado à Hudson Booksellers; eles estão praticamente em todos os aeroportos dos EUA. A maioria dos stands da Hudson tem poucos títulos (apesar da diversidade surpreendente),  mas os maiores, como o do terminal AA do aeroporto O’Hare de Chicago, é tão bom quanto qualquer loja da vizinhança. Eles dão um toque pessoal a um aeroporto, e a de Hudson já me salvou mais de uma vez durante escalas.
Hudson Booksellers



Barbara me ligou no escritório no final de semana de 4 de Julho. Eu não era o único que ia ao trabalho no feriado de final de semana, mas eu era o único que tinha a desculpa de que minha condicional não me deixava sair da cidade.

Por fim, fui condenado por roubar o telefone de Masha. Acredita nisso? A acusação fizera um acordo com minha advogada onde esqueceriam todas as acusações de “terrorismo eletrônico” e “incitação a desordem” em troca de me declarar culpado por um crime menor. Peguei três meses de liberdade condicional de meio período numa casa para jovens defensores na Missão. Eu dormia neste lugar, dividindo o dormitório com um bando de criminosos, garotos de gangues e metidos com drogas, um bando de maluco. Durante o dia eu estava “livre” para sair para “trabalhar”.

“Marcus, eles vão deixá-la sair.” ela disse.
“Quem?”
“Jonhstone, Carrie Johnstone”. ela disse. “O tribunal militar privado a isentou de qualquer delito. Os arquivos estão encerrados. Ela irá voltar a atividade. Vão mandá-la para o Iraque.”

Carrie Jonhstone era o nome da mulher com o corte de cabelo militar.  Seu nome surgiu nas audições preliminares na corte superior da Califórnia, mas só isso. Ela não disse uma palavra sobre quem de quem recebia ordens, sobre o que ela fizera, quem tinha sido preso e por quê. Ela apenas se sentou em total silencio, dia após dia, na corte de justiça.

Enquanto isso, os federais tinham feito bastante alarde sobre a decisão “ilegal e unilateral” do Governador ao fechar a prisão de Treasure Island, e da decisão do prefeito de retirar os policiais federais de São Francisco. Um monte destes policiais terminaram na prisão do estado, assim como os guardas da prisão da Baía.

E então um dia, não houve nenhuma declaração por parte da Casa Branca, nada do Congresso. E no dia seguinte, uma tensa e seca conferência de imprensa ocorreu aos degraus da mansão do Governador, onde a liderança do DHS e o governador anunciaram um “entendimento”.

O DHS iria conduzir um tribunal militar fechado para investigar “possíveis erros de julgamento” comitidos após o ataque da ponte da Baía.

O tribunal se encarregaria de utilizar todas as ferramentas possíveis para garantir que os atos criminosos seriam corretamente punidos. Em recompensa, o controle sobre as operações do DHS na Califórnia ficariam a cargo do Senado, que teria o poder de concluir, inspecionar ou repriorizar a segurança interna do Estado.

O alvoroço dos repórteres foi ensurdecedor e Barbara teve direito a fazer a primeira pergunta.

“Senhor Governador, com todo respeito, temos uma evidência incontestável gravada em vídeo de que Marcus Yallow, um cidadão deste país, nascido aqui, foi sujeito a uma execução simulada por parte dos oficiais da DHS, aparentemente agindo sob ordens da Casa Branca. O Estado realmente concordou em abandonar qualquer pretensão de justiça para seus cidadãos em face à ilegal e bárbara tortura imposta?”
A voz dela tremia mas não vacilava.

O Governador estendeu as mãos.

“Os tribunais militares se encarregarão da justiça. Se o senhor Yallow... ou qualquer pessoa que tiver um motivo de culpar o DHS... quiser justiça, além disso, é claro que poderá entrar com um processo por tais danos por conta própria contra o governo federal.”

Era isso que eu estava fazendo. Mais de vinte mil processos civis estavam arquivados contra o DHS na semana após a declaração do Governador. O meu processo estava tramitando pela ACLU e foi registrada moção, terminando nos tribunais militares exclusivos. Até aqui as cortes tinham sido bastante simpáticas.
Mas eu não tinha esperança.

“Ela saiu totalmente livre de qualquer pagamento ou castigo?”
“A declaração para a imprensa não disse muito.”
“Após um exame dos eventos ocorridos em São Francisco e em especial ao centro de detenções anti-terrorismo de Treasure Island, este tribunal chegou ao veredicto que as ações de Senhorita Jonhstone não justificam ações disciplinares posteriores. Esta palavra “posteriores” é como se eles já a tivessem punido.”

Bufei. Eu sonhara com Carrie Jonhstone quase que cada noite desde que fui libertado da prisão da Baia. Eu via sua face sobre a minha, com aquele sorrisinho enquanto dizia ao homem para me dar o que beber.

“Marcus...” Barbara disse, mas eu a interrompi.

“Tudo bem, tudo bem. Vou fazer um vídeo sobre isso. Deve ficar pronto neste fim de semana. Segunda feira é um ótimo dia para um vídeo viral. Todo mundo estará voltando do feriado, procurando alguma coisa com que se distrair na escola ou no trabalho.”

Eu via um psiquiatra duas vezes por semana como parte do meu acordo de custódia parcial.  Uma vez que meu acordo estabelecia a consulta como forma de punição, então tinha que servir para alguma coisa. Ele me ajudava a focar em fazer coisas construtivas quando estava bravo ao invés de deixar a coisa me devorar por dentro. Os vídeos ajudariam.

“Tenho que ir.” eu disse, engolindo forte para manter a emoção sob controle.
“Cuide-se, Marcus.” disse Barbara.

Ange me abraçou pelas costas assim que larguei o telefone.

“Eu tinha lido sobre isso online.” ela disse. Ela lia um milhão de feeds de notícias, puxando-as por um leitor de manchetes. Ela era nossa blogueira oficial e era boa nisso, separando as notícias interessantes e descarregando-as online como um ajudante de cozinha distribuindo pedidos de café da manha.

Virei-me em seus braços para abraçá-la de frente. Verdade seja dita, não tínhamos muito trabalho para fazer naquele dia. Eu não tinha permissão de sair à noite e ela não podia me visitar lá. Nos víamos no escritório, mas geralmente havia um monte de gente por perto, cortando nossos carinhos. Ficar sozinhos no escritório o dia todo era tentador demais. Eu estava com calor também, o que significava que estávamos ambos de camisetas e shorts, muito contato de pele acontecia, já que trabalhávamos um ao lado do outro.

“Vou fazer um vídeo.” eu disse. “Quero liberá-lo postar ainda hoje.’
“Bom. Vamos fazer, então.” ela disse.
Ange lia o realese da imprensa. Fiz um monologo sincronizado com a famosa filmagem minha na mesa de tortura, olhando para a luz da câmera como um louco, as lágrimas escorrendo, o cabelo despenteado e cheio de vômito.

“Este cara sou eu. Estou numa tábua de tortura. Estou sendo torturado numa simulação de execução. A tortura está sendo supervisionada por uma mulher chamada Carrie Johnstone. Ela trabalha para o governo. Vocês devem lembrar dela deste vídeo.”
Cortei para o vídeo de Johnstone e Kurt Rooney.
“Aqui está Johnstone e o secretário de estado Kurt Rooney, presidente em chefe estrategista: ‘A nação não ama aquela cidade. Não como pensam, é uma Sodoma e Gomorra de bichas e ateus que merecem apodrecer no inferno. A única razão do país se preocupar com o que pensam em São Francisco é que eles tiveram a sorte de serem mandados para o inferno por alguns terroristas islâmicos.’
“Ele está falando da cidade onde eu vivo. Na última contagem ,4.215 vizinhos meus foram mortos no dia que ele está se referindo. Mas alguns deles não estavam mortos. Alguns desapareceram na mesma prisão onde fui torturado. Mães e pais, crianças e amantes, irmãos e irmãs que jamais encontraram seus entes queridos novamente.... porque estavam secretamente aprisionados em uma cadeia ilegal aqui mesmo na Baía de  São Francisco. Foram mandados para fora do país. Os registros são meticulosos, mas só Carrie Johnstone tem as chaves de criptografia.”
Cortei de volta para Carrie Johnstone, o filme dela sentando-se na mesa com Rooney, rindo.
Cortei para o filme de Johnstone sendo presa.
“Quando a prenderam eu pensei que nós tínhamos justiça. Para todas as pessoas que ela feriu e fez desaparecer. Mas o presidente...”
Cortei para o Presidente rindo e jogando golfe em um dos muitos dias de descanso seus.
“...e seu chefe estrategista...”
Agora uma foto de Rooney apertando a mão de um infame terrorista que costumava estar “do nosso lado”
“...decidiram intervir. Eles a mandaram para um tribunal secreto militar e agora aquele tribunal a absolveu. De alguma forma, eles não viram nada de errado nisso tudo.”
Editei uma fotomontagem com centenas de fotos de prisioneiros em suas celas e que Barbara havia publicado no site do Bay Guardian no dia em que fui libertado.
“Nós elegemos estas pessoas. Nós pagamos seus salários. Supostamente deveriam estar do nosso lado. Supostamente deveriam defender a nossa liberdade. Mas estas pessoas...”
Uma série de fotos de Johnstone e outros sendo levados para o tribunal
"...traíram nossa confiança. Estamos a quatro meses das eleições. É tempo bastante. O bastante para vocês saírem e encontrarem cinco vizinhos…cinco pessoas que tenham desistido de votar por suas escolhas não serem ‘nenhuma dos nomes acima nenhuma das alternativas acima’.”
“Converse com eles. Faça com que prometam que irão votar. Faça com que prometam que irão tirar nosso país das mãos de torturadores e criminosos. As pessoas que riram de nossos amigos enquanto eles ainda mal acabavam de repousar no fundo da baía. Faça-os prometer falar que também irão com seus vizinhos.”
“A maioria de nós escolhe “nenhum dos acima nenhuma das alternativas acima’. Isso não funciona. Temos que escolher... escolher a liberdade.”

“Meu nome é Marcus Yallow. Eu fui torturado em meu país, mas ainda o amo. Tenho dezessete anos. Quero crescer num país livre. Quero viver em um país livre.”
Fiz a imagem desaparecer lentamente mostrando o logo do web site. Ange tinha feito com ajuda de Jolu, que tinha nos arranjado hospedagem na internet de graça, toda que precisássemos, no Porco Melancólico.

O escritório era um lugar interessante. Tecnicamente nos chamávamos Coalisão de Eleitores para uma América Livre, mas todos nos chamavam de Xneters. A organização...  sem fins lucrativos... tinha sido co-fundada por Barbara e alguns amigos advogados dela, logo após a libertação da Treasure Island. Os fundos financeiros vieram de alguns milionários da tecnologia que não acreditavam que um bando de garotos tinha ferrado com o DHS. Às vezes, eles nos pediam para ir até a Península até Sand Hill Road, onde estavam todas as empresas capitalistas e fazer uma pequena apresentação sobre a tecnologia Xnet. Haviam um zilhão de iniciativas que tentavam faturar um trocado na Xnet.
Que fosse… Eu não precisava ter nada a ver com isso, e tinha uma mesa e um escritório com fachada, bem na Valencia Street, onde distribuíamos CDs do ParanoidXbox e fazíamos workshops de como se construir antenas de WiFi melhores.

Um número surpreendente de pessoas comuns apareceu com doações, tanto de hardware (você pode rodar PanaoidLinux em quase tudo, não somente no Xbox Universal) e dinheiro. Eles nos amavam.

O grande plano era lançar nosso próprio ARG em Setembro, em tempo apara as eleições e conseguir votos e levá-los apara votar. Na ultima eleição apenas 42 por cento dos Americanos votaram... os não-votantes eram maioria. Eu continuava tentando trazer Darryl e Van para um de nossas reuniões de planejamento, mas eles continuavam declinando procurar palavra melhor, mais adequada para um adoelescente. Eles estavam passando muito tempo juntos e Van insistia em dizer que não havia nada de romântico entre eles. Daryl não me falava muito, mas me mandava longos emails sobre tudo que não tivesse ligação com Van ou terrorismo ou prisão.

Ange apertou minha mão.
“Deus, eu odeio esta mulher!” ela disse.
Eu concordei
“Mais uma destas coisas estragadas que este país mandou para o Iraque.” eu disse. “Se eles mandassem ela para o meu país, eu provavelmente me tornaria um terrorista.”
“Você se tornou um quando eles a mandaram para sua cidade.”
“É verdade.” Respondi.

“Você vai na audiência de Senhorita Galvez na segunda?”
“Com certeza.”

Eu tinha apresentado Senhorita Galvez para Ange semanas antes, quando minha antiga professora me convidou para jantar. O sindicato dos professores tinha conseguido uma audiência para ela diante do comitê Unificado das escolas do distrito para que pudesse conseguir seu velho emprego de volta. Disseram que Fred Benson seria convocado de sua (precoce) aposentadoria para testemunhar contra ela. Eu queria muito vê-la de novo.

“Quer sair para comprar um burrito?”
“Claro!”
“‘Deixa eu pegar meu molho picante.” ela disse.
Chequei meu email mais uma vez… meu email do PirateParty, que ainda tinha algumas mensagens pingadas de velhos Xneters que ainda não tinham meu endereço da Coalizão de Eleitores.
A última mensagem vinha de um dos novos provedores de anonimato brasileiro.
>Eu a achei. Você não me disse que ela era tão h4wt!
De quem seria?
Comecei a rir. “Zeb.” eu disse. “Lembra de Zeb? Eu dei a ele o email de Masha. Imaginei que já que ambos estavam vivendo as escondidas, poderia apresentar um ao outro.”
“Ele acha Masha bonita?”
“Dê um tempo para o cara, Ele devia estar animado por conta das circunstâncias.”
“E você?”
“Eu?”
“É... a sua mente está animada pelas circunstâncias?”
Segurei Ange pelo braço e olhei para ela de cima a baixo, duas vezes. Olhei fundo nos seus olhos por trás das lentes dos óculos. Corri os dedos por seus cabelos.
“Ange, eu nunca pensei tão claro em minha vida inteira.”
 Ela me beijou e eu a beijei de volta e algum tempo depois saímos para comprar aquele burrito.


FIM.








AGRADECIMENTOS.

Este livro está em débito enorme com vários escritores, amigos, mentores e heróis que o fizeram possível.

Para os hackers e ciberpunks:  Bunnie Huang, Seth Schoen, Ed Felten, Alex Halderman, Gweeds, Natalie Jeremijenko, Emmanuel Goldstein e Aaron Swartz

Para os heróis: Mitch Kapor, John Gilmore, John Perry Barlow, Larry Lessig, Shari Steele, Cindy Cohn, Fred von Lohmann, Jamie Boyle, George Orwell, Abbie Hoffman, Joe Trippi, Bruce Schneier, Ross Dowson, Harry Kopyto e Tim O'Reilly

Para os escritores: Bruce Sterling, Kathe Koja, Scott Westerfeld, Justine Larbalestier, Pat York, Annalee Newitz, Dan Gillmor, Daniel Pinkwater, Kevin Pouslen, Wendy Grossman, Jay Lake e Ben Rosenbaum

Para os amigos: Fiona Romeo, Quinn Norton, Danny O'Brien, Jon Gilbert, danah boyd, Zak Hanna, Emily Hurson, Grad Conn, John Henson, Amanda Foubister, Xeni Jardin, Mark Frauenfelder, David Pescovitz, John Battelle, Karl Levesque, Kate Miles, Neil and Tara-Lee Doctorow, Rael Dornfest e Ken Snider

Para os mentores: Judy Merril, Roz e Gord Doctorow, Harriet Wolff, Jim Kelly, Damon Knight e Scott Edelman

Obrigado a todos por me dar as ferramentas para que eu pudesse pensar e escrever sobre estas idéias.

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