sábado, 8 de maio de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 6)



O PEQUENO feixe de luz branca iluminava, fixo, o olho esquerdo de Rachael Rosen; colado a seu rosto, o disco de tela de arame.
Ela parecia calma.

Sentado numa posição de onde podia ver as leituras dos dois medidores do aparelho de teste Voigt-Kampff, disse Rick Deckard:
— Vou descrever certo número de situações sociais. Você deve manifestar sua reação com a maior rapidez possível. O seu tempo de resposta será medido, naturalmente.
— E, naturalmente — respondeu Rachael, a voz distante —, minhas reações verbais não terão importância. Você usará como índices exclusivamente as reações oculares e capilares. Mas vou responder. Quero ir nisto até o fim e... — interrompeu-se. — Continue, Sr. Deckard.

Escolhendo a questão três, Rick disse:
— No seu aniversário, você recebe de presente uma carteira de couro de vaqueta. — Ambos os medidores passaram imediatamente do verde para c vermelho, as agulhas tremeram violentamente e depois pararam.
— Eu não a aceitaria — respondeu Rachael. — Denunciaria também à polícia a pessoa que me deu o presente.

Depois de fazer um tique na folha de anotações, Rick continuou, passando para a oitava pergunta na escala de perfil Voigt-Kampff:
— Você tem um filhinho e ele lhe mostra sua coleção de borboletas, incluindo o jarro onde as mata por sufocação.
— Eu o levaria a um médico. — Rachael falou em voz baixa, mas firme.

Mais uma vez, os dois medidores registraram reação, mas desta vez as agulhas não se moveram muito. Ele anotou isso, também.
— Você está sentada, assistindo TV — continuou ele — e, de repente, descobre uma vespa andando pelo seu punho.
— Eu a mataria — respondeu Rachael.

Desta vez os medidores quase nada registraram: apenas um tremor fraco e momentâneo. Ele anotou o fato e, cauteloso, selecionou a pergunta seguinte.
— Numa revista, você encontra uma página inteira em cores de uma moça nua, — Interrompeu-se.
— Esse teste é para saber se eu sou andróide — perguntou maliciosa Rachael — ou se sou homossexual? — Os medidores nada registraram.

Ele continuou:
— Seu marido gosta da foto. — Os medidores continuaram a não indicar reação alguma. — A moça — acrescentou — está deitada de bruços num belo tapete de pele de urso. — Os medidores permaneceram inertes e ele disse para si mesmo: uma reação de andróide.
Ele não conseguiu detectar o principal elemento, a pele do animal morto.

A mente dela, da máquina, concentra-se em outros fatores.
— Seu marido pendura a foto na parede do gabinete dele — concluiu Rick e, desta vez, os ponteiros se moveram.
— Eu, de modo algum, deixaria que ele fizesse isso — disse Rachael.
— Muito bem — concordou Rick, inclinando a cabeça. — Agora, considere o seguinte: você está lendo um romance escrito nos velhos dias, antes da guerra. Os personagens estão visitando o Fisherman's Wharf, em São Francisco. Ficam com fome e vão fazer uma refeição num restaurante de frutos do mar.
Um deles pede lagosta.
O maítre lança a lagosta numa panela de água fervente, enquanto os personagens olham.
— Oh, Deus — disse Rachael —, isso é horrível! Faziam realmente isso? É tão depravado! Você quer dizer, uma lagosta viva — Os medidores, contudo, não registraram coisa alguma.

Formalmente, uma reação correta. Mas simulada.
— Você aluga uma cabana na montanha — prosseguiu ele — numa área ainda verde. É do tipo rústico, de toras de pinheiro, com uma imensa lareira.
— Sim — disse Rachael, inclinando impaciente a cabeça.
— Numa das paredes, alguém pendurou velhos mapas. Reproduções Currier e Ives e, em cima da lareira, há uma cabeça de cervo empalhada, de um macho, com galhadas bem desenvolvidas.

As pessoas que estão com você admiram a decoração da cabana e vocês todos resolvem. .
— Não, com a cabeça do cervo — disse Rachael. Os medidores, contudo, indicaram movimento apenas dentro da faixa verde.
— Você é engravidada — continuou Rick — por um homem que prometeu casar com você. O homem vai embora com outra mulher, sua melhor amiga. Você faz um aborto e...
— Eu nunca faria um aborto — retrucou Rachael — De qualquer modo, não posso. Significa prisão perpétua e a polícia anda sempre vigilante.

Desta vez, ambos os ponteiros saltaram violentos para o vermelho.
— Como é que você sabe disso? — perguntou-lhe curioso Rick. — Sobre a dificuldade de fazer um aborto?
— Todo mundo sabe disso — respondeu Rachael.
— Deu a impressão de que você falava por experiência pessoal. — Observava atento os ponteiros que ainda varriam um largo caminho pelos mostradores. — Mais uma. Você está namorando e o homem convida-a a visitar o apartamento dele. Enquanto se encontra lá, ele lhe oferece uma bebida. Ali, com o copo na mão, você olha para o quarto de dormir, atraentemente decorado com cartazes de touradas e se aproxima para olhar mais de perto. Ele a segue, fechando a porta. Colocando o braço em volta de seu corpo, ele diz...

Rachael interrompeu-o:
— O que é um cartaz de touradas?
— Desenhos, geralmente em cores, e muito grandes, mostrando um matador com sua capa, e um touro tentando chifrá-lo. — Pareceu confuso. — Qual é sua idade? — perguntou. Aquilo poderia ser um fator.
— Dezoito — respondeu Rachael. — Muito bem, então esse homem fecha a porta e passa o braço em volta de mim. O que é que ele diz?
— Sabe como é que terminavam as touradas? — perguntou Rick.
— Acho que todo mundo ficava machucado.
— O touro, no fim, era sempre morto. — Esperou, observando os dois ponteiros. Eles palpitaram inquietos, nada mais. Nenhuma leitura absolutamente. — A pergunta final — disse. — Em duas partes. Você está assistindo a um velho filme na TV, um filme de antes da guerra. Mostra um banquete. Os convidados estão saboreando ostras vivas.
— Ugh — exclamou Rachael e os ponteiros giraram rápidos.
— A entrada — continuou ele — consiste de cão cozido, recheado com arroz. — Os ponteiros moveram-se menos desta vez, menos do que haviam feito com as ostras cruas. — Ostras cruas são mais aceitáveis para você do que um prato de cão cozido? Evidentemente que não. — Pôs de lado o lápis, desligou o feixe de luz e retirou o disco adesivo do rosto dela.
— Você é um andróide — disse a ela — ou melhor, à coisa. — Esta é a conclusão do teste — informou a Eldon Rosen, que o observava, contorcendo-se de preocupação.

O rosto do homem idoso contraiu-se, mudando plasticamente com irritada preocupação.
— Estou certo, não? — perguntou Rick.
Nenhuma resposta, de nenhum dos dois Rosens, — Escute aqui — disse em tom conciliador — nós não temos conflitos de interesses. É importante para mim que o Teste Voigt-Kampff funcione, quase tão importante quanto para você.
O Rosen mais velho respondeu:
— Ela não é um andróide.
— Não acredito nisso — retrucou Rick.
— Por que mentiria ele? — perguntou feroz Rachael a Rick. — Se fôssemos mentir, mentiríamos em sentido contrário.
— Eu quero que seja feita uma análise de sua medula óssea — disse-lhe Rick. — O teste pode, finalmente, determinar se você é um andróide ou não. É um teste lento, doloroso, reconheço, mas...
— Legalmente — retrucou Rachael — eu não posso ser obrigada a me submeter a um teste de medula óssea. Isto foi resolvido pelos tribunais. Seria um caso de auto-incriminarão. E de qualquer modo, numa pessoa viva — não no cadáver de um andróide aposentado — leva um bocado de tempo. Você pode aplicar essa droga de Teste de Perfil Voigt-Kampff por causa dos especiais. Eles têm que ser testados constantemente e, enquanto o governo fazia isso, vocês das forças policiais conseguiram passar com o Voigt-Kampff por baixo do pano. Mas o que você disse é verdade: isto foi o fim do teste. 

Levantou-se. Afastou-se dele e, com as mãos nos quadris, ficou de costas para ele.
— A questão não é a legalidade da análise de medula óssea — disse rouco Eldon Rosen. — A questão é que seu teste de identificação de empatia falhou em relação a minha sobrinha. Posso explicar por que ela reagiu como um andróide reagiria. Rachael cresceu a bordo do Salader 3. Nasceu nele. Passou quatorze dos seus dezoito anos vivendo de sua biblioteca de fitas gravadas e do que os nove outros membros da tripulação sabiam sobre a Terra. Depois, como você sabe, a espaçonave voltou quando já havia coberto um sexto do caminho para Próxima Centauri. De outro modo, Rachael jamais teria visto a Terra... de qualquer modo, não até muito depois na vida.
— Você teria me aposentado — disse Rachael por cima do ombro. — Numa rede de arrastão policial, eu teria sido morta. Sei disso desde que cheguei aqui há quatro anos; esta não é a primeira vez em que me aplicam o Teste Voigt-Kampff. Para dizer a verdade, raramente saio deste prédio. O risco é enorme, devido a essas barreiras nas estradas que vocês policiais levantam por aí, aquelas blitzes, aquelas incertas para prender especial; não registrados.
— E andróides — acrescentou Eldon Rosen. — Embora, naturalmente, o público não seja informado disso. O público não deve saber que os andróides estão na Terra, ao nosso redor.
— Eu não acho que estejam — respondeu Rick. — Acho que os vários órgãos policiais, aqui e na União Soviética, prenderam todos eles. Agora, a população já é suficientemente pequena, Todas as pessoas, mais cedo ou mais tarde, caem num ponto de identificação. Essa, de qualquer modo, era a idéia.
— Quais são suas instruções — perguntou Eldon Rosen — se acabar designando como andróide um ser humano?
— Isso é assunto departamental.

Começou a recolocar a aparelhagem na pasta. Os dois Rosens observavam-no, em silêncio.
— Obviamente — acrescentou — recebi instruções para cancelar aplicações ulteriores de testes.
Se falhou uma única vez, não há razão para continuar. — Fechou com um estalo a pasta.
— Nós podíamos tê-lo enganado — disse Rachael. — Coisa alguma nos obrigou a reconhecer que você me testou mal. E a mesma coisa se aplicaria aos nove outros sujeitos que escolhemos. — Fez um gesto vigoroso. — Tudo o que tínhamos que fazer era simplesmente aceitar os resultados de seus testes, quaisquer que fossem.
— Eu teria insistido numa lista antecipada. Um controle de envelope fechado. E comparado os resultados de meus testes, em busca de congruência. Teria que haver congruência. — E vejo agora, compreendeu, que não a teria obtido. Bryant tinha razão. Graças a Deus, não saí por aí caçando cabeças na base deste teste.
— Sim, acho que o senhor teria feito isso — concordou Eldon Rosen. Lançou um rápido olhar a Rachael, que inclinou a cabeça. — Nós discutimos essa possibilidade — continuou depois, relutante.
— Este problema — disse Rick — tem origem, inteiramente, em seus métodos de operação, Sr. Rosen. Ninguém obrigou sua empresa a aperfeiçoar a produção de robôs humanóides a um ponto em que . .
— Nós produzimos o que os colonos queriam — retrucou Eldon Rosen. — Seguimos o princípio, consagrado pelo tempo, de todas as empresas comerciais. Se nossa empresa não tivesse produzido esses tipos cada vez mais humanos, outras firmas neste campo o teriam feito. Sabíamos o risco que corríamos quando criamos a unidade cerebral Nexus-6. Mas seu Teste Voigt-Kampff já era um fracasso antes de lançarmos esse tipo de andróide. Se houvesse classificado um andróide Nexus-6 como andróide, se houvesse descoberto que era um ser humano...mas não foi isso o que aconteceu. — Sua voz se tornara dura e contundentemente penetrante. — Seu departamento de polícia, e outros também, podem ter aposentado, com toda probabilidade aposentaram, seres humanos autênticos com capacidade empática subdesenvolvida, tal como minha inocente sobrinha aqui. Sua situação, Sr. Deckard, é extremamente má, moralmente falando. A nossa não!
— Em outras palavras — disse astutamente Rick —, não vou ter oportunidade de examinar um único Nexus-6. Antes de mais nada, vocês me lançaram nos braços essa moça esquizóide. — E meu teste, deu-se conta, está liquidado. Não devia ter aceito fazer isso, disse a si mesmo. Contudo, era tarde demais.
— Nós o temos em nossas mãos, Sr. Deckard — concordou Rachael, com voz tranqüila e razoável. Virou-se para ele, e sorriu.
Não podia compreender, mesmo naquele instante, como a Rosen Association conseguira prendê-lo numa armadilha, e com aquela facilidade toda. Especialistas, percebeu. Uma empresa gigantesca como essa tem experiência demais. Possui, na verdade, uma espécie de mente coletiva. Eldon e Rachael Rosen eram porta-vozes dessa entidade anônima. Seu erro, evidentemente, consistira em considerá-los como indivíduos. Este era um erro que não repetiria.
— Seu superior, o Sr. Bryant — disse Eldon Rosen —, vai achar difícil compreender como foi que o senhor deixou que anulássemos seu aparelho de teste antes que o teste começasse. — Apontou para o teto, e Rick viu a lente da câmara. Seu cabeludo erro no trato com os Rosens fora devidamente documentado. — Acho que, para nós, a coisa certa a fazer — continuou Eldon — é sentarmo-nos e... — fez um gesto afável. — Podemos chegar a um acordo, Sr. Deckard. Nenhuma necessidade de preocupação. A variedade Nexus-6 de andróide é uma realidade. Nós aqui na Rosen Association reconhecemos isto, e acho que o senhor, agora, também.

Rachael, inclinando-se para Rick, perguntou:
— Com que intensidade você gostaria de ter uma coruja?
— Eu duvido que algum dia vá possuir uma coruja. — Mas sabia o que era que ela insinuava. Entendia perfeitamente a transação que a Rosen Association queria fazer com ele. Tensão, de um tipo que jamais sentira antes, manifestou-se nele e explodiu, vagarosamente, em todas as partes de seu corpo.

Sentiu a tensão, a consciência do que estava acontecendo, assumir inteiramente o controle.
— Mas uma coruja — disse Eldon Rosen — é a coisa que você quer. — Olhou indagador para a sobrinha. — Acho que ele não tem uma idéia...
— Claro que tem — contraditou-o Rachael. — Ele sabe exatamente para onde está se encaminhando esta conversa. Não sabe, Sr. Deckard? — Mais uma vez, inclinou-se para ele, mais perto agora. Ele podia sentir nela um leve perfume, quase um calor, — O senhor praticamente conseguiu, Sr. Deckard. O senhor praticamente tem sua coruja. — Virou-se para Eldon Rosen: — Ele é um caçador de cabeças a prêmio, lembra-se? De modo que vive dos prêmios que obtém, não de seu salário. Não é assim, Sr. Deckard?
Rick inclinou a cabeça.
— Quantos andróides escaparam desta vez? — perguntou Rachael.
Ele respondeu no mesmo instante:
— Oito. Inicialmente dois já foram aposentados por alguém. Não por mim.
— Quanto é que o senhor ganha por aposentar cada andróide? — quis saber Rachael.
Encolhendo os ombros, Rick explicou:
— Isso varia.
— Se o senhor não tem um teste que possa administrar, então o senhor não tem meios de identificar um andróide — disse Rachael. — E se não houver maneira de identificar um andróide, não há maneira de receber seu prêmio. De modo que, se a Escala Voigt-Kampff tem que ser abandonada...
— Ela será substituída por uma nova escala — retrucou Rick. — Isto já aconteceu antes. — Três vezes, para ser exato. Mas a nova escala, o aparelho analítico mais moderno, já existia. Nenhum lapso ocorrera. Desta vez, era diferente.
— No fim, claro, a Escala Voigt-Kampff tornar-se-á obsoleta — concordou Rachael. — Mas não agora. Estamos convencidos de que ela identificará os tipos Nexus-6 e gostaríamos que o senhor continuasse nessa base em seu trabalho particular, peculiar. — Balançando-se levemente para frente e para trás, os braços bem cruzados, ela fitou-o com intensidade, procurando avaliar-lhe a reação.
— Diga que ele pode ganhar a coruja — sugeriu com voz áspera Eldon Rosen.
— Você pode ganhar a coruja — repetiu Rachael, observando-o ainda. — Aquela que está lá no telhado. Scrappy. Mas nós vamos querer cruzá-la se conseguirmos pôr as mãos num macho. E todos os filhotes serão nossos, isto tem que ficar absolutamente claro.
— Eu dividirei pela metade a ninhada — disse Rick.
— Não — respondeu no mesmo instante Rachael. Atrás dela, Eldon Rosen sacudiu a cabeça, apoiando-a. — Dessa maneira, você teria direito exclusivo à linhagem de sangue das corujas, pelo resto da eternidade. E há outra condição. Você não pode deixar em testamento sua coruja a pessoa alguma. Em caso de sua morte, ela volta para a empresa.
— Isso parece — comentou Rick — um convite para que vocês entrem e me matem. Para conseguir de volta, imediatamente, sua coruja. Não concordo com isso. É perigoso demais.
— Você é um caçador de cabeças a prêmio — disse Rachael. — Sabe como manejar uma pistola laser... Na verdade, está portando uma delas nesse instante. Se não pode se proteger, como é que vai aposentar os seis andros Nexus-6 restantes? Eles são muito mais sabidos do que os velhos W-4 da Gozzi Corporation.
— Mas sou eu quem os caça — replicou Rick. — Desta maneira, com uma cláusula de reversão, alguém estaria me caçando, — E não gostava da idéia de ser sorrateiramente seguido. Vira o efeito disso em andróides. Produzia algumas mudanças notáveis, mesmo neles.
— Muito bem, nós cedemos nesse ponto — concordou Rachael. — Você pode deixar a coruja em testamento a seus herdeiros. Mas nós insistimos em ficar com a ninhada inteira. Se não puder concordar com isto, volte a São Francisco e reconheça para seus superiores do departamento que a Escala Voigt-Kampff, pelo menos da forma aplicada pelo senhor, não pode distinguir um andro de um ser humano. E, em seguida, vá procurar outro emprego.
— Dê-me algum tempo — pediu Rick.
— Muito bem — anuiu Rachael. — Nós o temos aqui, onde é confortável. — Lançou um olhar ao relógio.
— Meia hora — disse Eldon Rosen. Em silêncio, ele e Rachael dirigiram-se para a porta. Haviam dito o que queriam, compreendeu Rick; o resto, agora, cabia a ele.
No momento em que Rachael começava a fechar a porta, depois de terem saído ela e o tio, Rick disse sombrio:
— Vocês me pegaram numa boa. Gravaram em fita que eu me enganei com vocês. Sabem que meu emprego depende do uso que faço da Escala Voigt-Kampff, e, para completar, têm aquela droga de coruja.
— Sua coruja, querido — disse Rachael. — Lembra-se? Prenderemos o endereço de sua casa na perna da coisa e a mandaremos por via aérea para São Francisco. Ela o receberá em casa toda vez que você encerrar o expediente.

A coisa, pensou ele. Ela continua a chamar a coruja de coisa. Ela, não.
— Um segundo só — disse.
Parando à porta, Rachael perguntou:
— Já decidiu?
— Eu quero — respondeu ele, abrindo a pasta de documentos — fazer-lhe mais uma pergunta sobre a Escala Voigt-Kampff. Sente-se outra vez.
Rachael lançou um olhar ao tio, que inclinou a cabeça.
De má vontade, ela voltou à sala e sentou-se como antes.
— Para que, isso? — perguntou ela, suas sobrancelhas erguidas de antipatia... e cautela.
Ele percebeu-lhe a tensão, anotou-a profissionalmente.

No mesmo instante, apontou para o olho direito dela o lápis de luz e pregou-lhe no rosto o disco adesivo. Rachael olhou fixamente para a luz, ainda visível a sua expressão de extrema antipatia.
— Minha pasta — comentou Rick, enquanto procurava nela os formulários Voigt-Kampff. — Bonita, não? Distribuição do departamento.
— Bem, bem... — disse distante Rachael.
— Pele de bebê — disse Rick, alisando a superfície preta de couro da pasta. — Couro de bebê humano, garantido como autêntico, cem por cento. 

Notou que os ponteiros dos dois mostradores giravam freneticamente. Mas apenas depois de uma pausa.
A reação viera, mas tarde demais. Conhecia o período de reação até a fração de segundo, o período de reação correto. Não devia ter havido atraso algum.
— Obrigado, Srta. Rosen — disse, reunindo outra vez o equipamento, Concluíra seu teste. — Isto é tudo.
— Vai embora? — perguntou Rachael.
— Vou — respondeu ele. — Estou satisfeito.

Cautelosa, Rachael perguntou:
— E os nove outros sujeitos de teste?
— A escala foi suficiente no seu caso — respondeu ele.
— Posso extrapolar a partir daí. Evidentemente, ainda não é eficiente. — Para Eldon Rosen, que desmoronara devagar junto à porta da sala, disse: — Ela sabe? — As vezes, elas não sabiam. Falsas recordações haviam sido tentadas várias vezes, geralmente na concepção errada de que, graças a elas, reações aos testes pudessem ser alteradas,
— Não — respondeu Eldon Rosen. — Nós a programamos inteiramente. Mas acho que, no fim, ela desconfiava. — À moça, disse: — Você desconfiou quando ele quis fazer outra tentativa.
Pálida, Rachael inclinou rigidamente a cabeça.
— Não tenha medo dele — disse-lhe Eldon Rosen — Você não é um andróide fugitivo, que escapou ilegalmente para a Terra. Você é propriedade da Rosen Association, usada como expediente de vendas para emigrantes em perspectiva. — Dirigiu-se para ela e colocou num gesto de consolo a mão sobre seu ombro.

Ao toque, ela se encolheu toda.
— Ele tem razão — confirmou Rick. — Não vou aposentá-la, Srta. Rosen, Bom dia. — Dirigiu-se para a porta, mas parou por um momento. Aos dois, perguntou: — A coruja é autêntica?
Rachael lançou um rápido olhar ao Rosen mais velho.
— Ele vai embora, de qualquer modo — disse Eldon Rosen. — Não importa mais agora. A coruja é artificial, Não há mais corujas.
— Hummmm — murmurou Rick e saiu em passo ágil para o corredor.
Os dois observaram-no, enquanto ele se afastava. Nenhum dos dois disse coisa alguma.
Coisa alguma restava a dizer.

Então, é assim que opera o maior fabricante de andróides, disse Rick para si mesmo. Tortuosamente, e de uma maneira como nunca encontrara antes. Um novo e complicado tipo de personalidade. Não era de espantar que os órgãos mantenedores da lei estivessem tendo problemas com o Nexus-6.
O Nexus-6. Agora encontrara um deles. Rachael, compreendeu, devia ser um Nexus-6. Estou vendo um deles, pela primeira vez. E, droga, quase conseguiram, chegando bem perto de minar a Escala Voigt-Kampff, o único método de que dispomos para identificá-los.

A Rosen Association faz um bom trabalho — faz uma boa tentativa, pelo menos — para proteger seus produtos.

E tenho que enfrentar mais seis deles, pensou. Antes de acabar com a coisa.
Ganharia, com toda justiça, o dinheiro do prêmio. Cada centavo.
Supondo que conseguisse chegar vivo ao fim.


O Caçador de Andróides - Philip K. Dick  (parte 6) [ Download ]