sábado, 15 de maio de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 7)



O APARELHO de TV berrava. Descendo os degraus cobertos de poeira do grande prédio de apartamentos para o nível embaixo, John Isidore identificou, nesse momento, a voz conhecida de Buster Amigão, borbotando, feliz, para sua audiência, que cobria todo o sistema.

"—... hei, hei, pessoal! Hora para uma curta notícia sobre o tempo amanhã. Em primeiro lugar, a costa leste dos Estados Unidos. O satélite Mangusto informa que a precipitação será especialmente pronunciada perto do meio-dia e que, em seguida, desaparecerá. Assim, vocês todos, queridos amigos, que estavam pensando em sair, devem esperar até a tarde, hem? E por falar em esperar, faltam agora apenas dez horas para aquela grande notícia, minha denúncia especial! Digam a seus amigos para assistir! Vou revelar uma coisa que os deixará tontos. Bem, vocês podem pensar que é apenas o habitual..."

No momento em que Isidore bateu à porta do apartamento, a televisão morreu imediatamente, caindo na inexistência. Não silenciara simplesmente, deixara de existir, assustada, de volta à sua cova pela batida à porta.

Ele sentiu, por trás da porta fechada, a presença de vida, além daquela da TV. Fazendo um esforço, suas faculdades fabricaram ou captaram um medo obcecado, mudo, de parte de alguém que se retirava para longe dele, alguém lançado para a parede mais distante do apartamento numa tentativa para evitá-lo.

— Hei — chamou. — Eu moro lá em cima. Ouvi sua TV. Vamos nos conhecer. Certo? — Esperou, à escuta. Nenhum som, nenhum movimento. Suas palavras não haviam conseguido relaxar a pessoa. — Eu lhe trouxe um cubo de margarina — insistiu, mais perto da porta, num esforço para penetrar-lhe a espessura. —

Meu nome é J. R. Isidore e trabalho para o conhecido veterinário, Sr. Hannibal Sloat. Você deve ter ouvido falar nele. Sou uma pessoa séria, tenho emprego. Eu guio o caminhão do Sr. Sloat.

A porta foi aberta um pouco e ele viu, dentro do apartamento, uma figura fragmentada, mal alinhada, se contraindo toda, uma moça que se encolheu e procurou afastar-se, mas, ainda assim, segurando a porta, como se precisasse de um apoio físico. O medo fazia-a parecer doente, distorcia-lhe as linhas do corpo, e ela dava uma impressão como se alguém a houvesse quebrado toda e depois, maliciosamente, a tivesse consertado mal. Os olhos dela, enormes, olhavam-no, vidrados, fixos, enquanto ela fazia um esforço para sorrir.

Com uma súbita compreensão, ele disse:
— Você achou que ninguém vivia neste prédio. Pensou que estivesse abandonado.
Inclinando a cabeça, a moça murmurou:
— Sim.
— Mas — disse Isidore — é bom ter vizinhos. Diabo, até que você aparecesse, eu não tinha vizinho nenhum. — E isso não era nada divertido, Deus sabia.
— Você é o único? — perguntou a moça. — Neste prédio, além de mim? — Parecia menos tímida nesse momento. Endireitou o corpo e, com a mão direita, arrumou o cabelo escuro. Nesse momento, viu que ela possuía um bom corpo, embora pequeno, e bonitos olhos bem destacados por longos cílios pretos. Olhando para trás dela, notou que a sala estava toda desarrumada, com valises aqui e acolá, abertas, seu conteúdo meio derramado pelo chão coberto de detritos. Mas isto era natural. Ela mal acabava de chegar.
— Sou o único, além de você — garantiu-lhe Isidore. — E não vou incomodá-la. — Sentiu-se deprimido.

Seu oferecimento, exibindo a característica de um velho e autêntico ritual de antes da guerra, não fora aceito.

Na verdade, a moça nem parecia notá-lo. Ou, talvez, ela não soubesse para que servia um cubo de margarina. Teve essa intuição; a moça parecia mais confusa do que qualquer outra coisa. Perdera o pé e flutuava impotente num redemoinho cada vez mais fundo de medo. — Bacana aquele cara, o Buster — disse, tentando fazer com que ela afrouxasse a rigidez da postura. — Gosta dele? Assisto ao programa todas as manhãs, e à noite, quando volto para casa. Vejo o programa dele enquanto janto e depois o programa coruja até a hora de ir dormir. Pelo menos assistia, até que meu aparelho pifou.
— Quem ...— começou a moça e, logo em seguida, interrompeu-se, mordendo o lábio como se estivesse furiosa. Evidentemente, consigo mesma.
— Buster Amigão — explicou ele. Parecia-lhe estranho que essa moça jamais tivesse ouvido falar desse que era o mais conhecido dos cômicos da TV. — De onde foi que você veio? — perguntou, curioso.
— Não vejo no que é que isso importa. — Lançou-lhe um rápido olhar. Algo que viu como que reduzir-lhe a preocupação, e seu corpo se relaxou visivelmente. — Terei prazer em receber visitas — disse — mais tarde, quando estiver instalada. No momento, claro, está fora de cogitação.
— Por que fora de cogitação? — Estava perplexo, Tudo nela deixava-o perplexo. Talvez, pensou, eu tenha vivido aqui sozinho por um tempo longo demais. Eu me tornei estranho. Dizem que debilóides são assim. O pensamento fê-lo sentir-se ainda mais deprimido. — Eu poderia ajudá-la a desfazer as malas — aventurou ele. A porta, nesse momento, virtualmente foi fechada em sua cara. — E arrumar seus móveis.
— Eu não tenho móveis — respondeu a moça. — Todas estas coisas — indicou a saía às suas costas — já estavam aqui.
— Elas não vão servir — garantiu Isidore. Podia ver isso com um simples olhar. As cadeiras, o carpete, as mesas — tudo apodrecera, desmoronando na ruína geral, vítima da força despótica do tempo. E do abandono. Ninguém residira naquele apartamento durante anos e o estrago era quase completo. Não podia imaginar como ela pudera pensar em viver num lugar desses. — Escute aqui — disse, muito interessado —, se dermos uma busca no prédio, procurando, provavelmente vamos encontrar coisas que não estão tão acabadas assim. Um abajur de um apartamento, uma mesa de outro.
— Eu faço isso — disse a moça. — Eu mesma, obrigada.
— Você entraria sozinha nesses apartamentos? — Isto era uma coisa em que ele não podia acreditar.
— Por que não? — Mais uma vez ela estremeceu, nervosa, fazendo careta ao perceber que dissera alguma coisa errada.
— Eu tentei, uma vez — disse Isidore. — Uma única vez. Depois daquela vez, eu simplesmente volto para casa, entro no meu lugar e não penso mais no resto. Os apartamentos onde ninguém mora, centenas deles e todos eles cheios de coisas que as pessoas tinham, como fotografias de família, roupas. Os que morreram não podiam levar coisa alguma e, os que emigraram, não queriam. Este prédio, exceto pelo meu apartamento, está inteiramente entulhado.
— Entulhado? — Ela não compreendeu.
— Entulho é objeto inútil, como correspondência descartada, caixas de fósforos; depois que a gente usa o último fósforo, ou a fita gomada do jornal da véspera. Quando não há ninguém em volta, o entulho se reproduz. Por exemplo, se a gente vai dormir deixando entulho no apartamento, quando acorda na manhã seguinte há duas vezes mais. Ele aumenta sempre cada vez mais.
— Compreendo. — A moça fitou-o, incerta, sem saber se devia acreditar nele ou não. Não tinha certeza se ele falava a sério.
-— Esta é a Primeira Lei do Entulho — explicou ele.
— "O entulho expulsa o não-entulho." Tal como a Lei de Gresham sobre o dinheiro ruim. E nesses apartamentos não há ninguém para combater o entulho.
— Então, ele tomou conta de todo o lugar — concluiu a moça. Inclinou a cabeça. — Agora, compreendo.
— Seu lugar aqui — disse ele —, este apartamento que escolheu... está entulhado demais para se viver nele. Podemos fazer recuar o fator entulho. Podemos fazer como eu disse, fazer incursões pelos outros apartamentos. Mas...— interrompeu-se.
— Mas o quê?
— Não podemos vencer — disse Isidore.
— Por que não? — A moça saiu para o corredor, fechando a porta às suas costas, braços cruzados em frente a seus pequenos seios, olhando-o séria, ansiosa para compreender. Ou, de qualquer modo, assim lhe pareceu. Pelo menos, ela estava escutando.
— Ninguém pode vencer o entulho — disse ele —, exceto temporariamente e talvez num único lugar, como no meu apartamento, onde criei um espécie de estase entre a pressão do entulho e do não-entulho, por ora.

Mas, no fim, eu morro ou vou embora e o entulho tomará conta, novamente. Trata-se de um princípio universal, que opera em todo o universo; o universo inteiro está-se movendo para um estágio final de entulhamento total, absoluto. — E acrescentou: — Exceto, claro, pela ascensão de Wilbur Mercer.

A moça fitou-o, curiosa.
— Não estou percebendo a relação.
— Isso é tudo o que há no mercerismo. — Mais uma vez, sentiu-se perplexo. — Você não participa da fusão? Não tem uma caixa de empatia?
Depois de uma pausa, a moça respondeu, medindo as palavras:
— Não trouxe a minha comigo. Achei que ia encontrar uma aqui.
— Mas uma caixa de empatia — disse ele, gaguejando em sua agitação — é a posse mais pessoal que uma pessoa pode ter! É uma extensão de seu corpo. É a maneira como você toca outros seres humanos, a maneira como deixa de estar sozinho. Mas você sabe disso. Todo mundo sabe disso. Mercer permite mesmo que pessoas como eu ... — Interrompeu-se. Mas tarde demais. Já lhe dissera e percebeu pelo rosto da moça, pelo relâmpago de súbita aversão, que ela sabia. — Eu quase passei no teste de quociente de inteligência — disse ele em voz baixa e abalada. — Eu não sou muito especial, apenas moderadamente, não como alguns que você vê por aí. Mas essa é a coisa com a qual Mercer não se importa.
— No que me interessa — retrucou a moça —, pode considerar isso como uma grande objeção ao mercerismo. — Ela falava em voz clara e neutra. Queria apenas declarar um fato, compreendeu ele. O fato de sua atitude no que dizia respeito a debilóides.
— Acho que vou voltar lá para cima — disse ele e começou a afastar-se dela. O cubo de margarina na mão fechada se tornara mole e pegajoso.
A moça observou-o afastar-se, conservando ainda a expressão neutra. De repente, disse:
— Espere.
Voltando-se, ele perguntou:
— Por quê?
— Vou precisar de você. Para conseguir um mobiliário adequado. Dos outros apartamentos, como você disse. — Dirigiu-se para ele, o torso nu, esguio e elegante, sem um grama de excesso de gordura. A que horas você volta do trabalho? Você poderá me ajudar, então.
— Você poderia, talvez, preparar o jantar para nós dois? — perguntou Isidore. — Se eu trouxesse os ingredientes?
— Não, tenho muita coisa a fazer. — A moça recusou o pedido tranqüilamente e ele notou o fato, percebeu-o sem compreendê-lo. Agora que diminuíra o medo inicial dela, alguma coisa começara a emergir. Algo mais estranho. E, pensou ele, deplorável. Uma frieza. Como, pensou ele, um sopro do vácuo existente entre mundos habitados; na verdade, de parte alguma. Não era o que ela fazia ou dizia, mas o que não fazia ou dizia. — Noutra ocasião — disse a moça, e voltou na direção da porta de seu apartamento.
— Você guardou meu nome? — perguntou ele, interessado. — John Isidore, e que eu trabalho para...
— Você me disse para quem trabalha. — Parou por um momento à porta, abriu-a e disse: — Para alguma incrível pessoa chamada Hannibal Sloat, que tenho certeza que não existe fora de sua imaginação. Meu nome é. .. — Lançou-lhe um de seus últimos olhares gelados, enquanto entrava no apartamento, hesitou, e disse: — Eu sou Rachael Rosen.
— Da Rosen Association? — perguntou ele. — O maior fabricante de robôs humanóides usados em nosso programa de colonização?

Uma expressão complicada passou no mesmo instante pelo rosto da moça, rapidamente, e logo desapareceu.
— Não — retrucou. — Nunca ouvi falar nessa empresa. Não sei de coisa alguma a respeito dela. Mais de sua imaginação de debilóide, acho. John Isidore e sua caixa de empatia pessoal, privada. Pobre Sr. Isidore.
— Mas seu nome sugere...
— Meu nome — disse a moça — é Pris Stratton. O meu nome de casada. Sempre o uso. Nunca uso outro nome, senão Pris. Pode me chamar de Pris. — Pensou por um momento e, em seguida, corrigiu: — Não, é melhor me chamar de Srta. Stratton. Porque nós não nos conhecemos, realmente. Pelo menos, não o conheço.

A porta se fechou sobre ela e ele ficou sozinho no corredor escuro coberto de poeira.


O Caçador de Andróides - Philip K. Dick  (parte 7) [ Download ]