sábado, 22 de maio de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 8)



ENTÃO É ASSIM, pensou J. R. Isidore, apertando ainda na mão o cubo mole de margarina. Talvez ela mude de idéia sobre eu chamá-la de Pris. E possivelmente sobre o jantar também, se eu conseguir achar uma lata de verduras de antes da guerra.

Mas talvez ela não saiba cozinhar, lembrou-se de repente. Muito bem, eu posso. Preparo o jantar para nós dois. E mostro-lhe como, de modo que ela possa fazê-lo no futuro, se quiser. Provavelmente, vai querer, logo que eu lhe mostre como. Tanto quanto posso entender, a maioria das mulheres, mesmo jovens como ela, gosta de cozinhar. É um instinto.

Subindo os degraus escuros, voltou para seu apartamento.
Ela está realmente fora de alcance, pensou enquanto vestia seu uniforme branco de trabalho. Mesmo que se apressasse, chegaria atrasado e o Sr. Sloat ficaria zangado, mas, e daí? Por exemplo, ela jamais ouvira falar em Buster Amigão. E isso é impossível. Buster é a pessoa viva mais importante, exceto, claro, "Wilbur Mercer... Mas Mercer, refletiu, não é um ser humano. Evidentemente, é uma entidade arquetípica vinda das estrelas, superposto sobre nossa cultura por um gabarito cósmico.
Pelo menos, foi isso que ouvi pessoas dizerem. É isso o que o Sr. Sloat diz, por exemplo. E Hannibal Sloat deve saber.

Estranho que ela não seja coerente sobre seu próprio nome, ponderou. Talvez precise de ajuda. Posso lhe dar alguma ajuda?, perguntou a si mesmo. Um especial, um debilóide? O que é que eu sei? Não posso casar, não posso emigrar e, no fim, a poeira vai acabar comigo. Não tenho coisa alguma a oferecer.

Vestido e pronto para sair, deixou o apartamento e subiu ao telhado, onde se encontrava estacionado seu usado e arruinado hovercar.

Uma hora depois, ao volante do caminhão da companhia, apanhara o primeiro animal defeituoso do dia. Um gato elétrico. Deitado na gaiola plástica à prova de poeira do caminhão, arfava espasmodicamente. Quase se pensaria que era real, observou Isidore, voltando ao Hospital Van Ness de Animais de Estimação — a pequena empresa com o nome cuidadosamente mal escolhido, que mal conseguia sobreviver no duro e competitivo campo de reparos de falsos animais.

O gato, em seu sofrimento, gemeu.
Uau, pensou Isidore, ele parece mesmo que está morrendo. Talvez sua bateria de dez anos de duração tenha entrado em curto e todos os seus circuitos estejam sistematicamente queimando. Um trabalho grande. Milt Borogrove, mecânico do hospital, teria as mãos ocupadas. E eu não dei uma estimativa do custo ao dono, pensou deprimido Isidore. O cara simplesmente me lançou o gato nas mãos, disse que ele começara a enguiçar durante a noite e depois, acho, foi trabalhar. De qualquer modo, de repente, cessara a momentânea troca verbal: o dono do gato subira para o céu em seu novo e belo modelo de hovercar, feito sob medida. E aquele homem constituía um novo cliente.

Ao gato, disse:
— Você não pode esperar até chegarmos à loja? — O gato continuou a gemer. — Vou recarregá-lo, enquanto estamos a caminho — decidiu. Baixou o caminhão para o telhado disponível mais próximo e lá, temporariamente estacionado e com o motor em funcionamento, foi até o fundo do veículo, abriu a gaiola de transporte à prova de poeira, a qual, juntamente com seu uniforme branco e o nome do caminhão, criavam a impressão total de um verdadeiro veterinário apanhando um animal de verdade.

O mecanismo elétrico, dentro de sua pelagem cinzenta convincentemente autêntica, gorgolejou e expeliu bolhas, vidradas suas videolentes, as mandíbulas de metal trancadas. Isto sempre o deixara atônito, esses circuitos de "doença" instalados nos falsos animais. A peça que segurava nesse momento no colo fora construída de tal maneira que, quando um componente básico enguiçava, a coisa toda parecia não quebrada, mas organicamente doente. Ele teria me enganado, pensou Isidore, enquanto tateava pela pele falsa do estômago, em busca do painel de controle oculto (bem pequeno nessa variedade de animal artificial), além dos terminais da bateria de rápido carregamento. Não encontrou nenhum dos dois. Tampouco pôde procurar muito tempo: o mecanismo entrara quase em pane total. Se o defeito consiste de um curto, refletiu, que está queimando todos os circuitos, então talvez o melhor seja soltar um dos cabos da bateria; o mecanismo parará e nenhum outro mal será feito.
E lá na loja, Milt pode recarregá-lo.

Habilmente, passou os dedos pela pseudo-espinha óssea. Os cabos deviam estar por ali. Um trabalho danado de perfeito, uma imitação absolutamente perfeita. Os cabos não eram visíveis nem mesmo com a observação mais cuidadosa. De ser um produto Wheelright & Carpenter — custam mais, mas vejam só que bom trabalho fazem.

Desistiu. O falso gato deixara de funcionar, de modo que evidentemente o curto-circuito — se era isso o que fazia mal à coisa — acabara com o suprimento de energia e o mecanismo básico de propulsão. Isso vai custar um bocado de dinheiro, pensou, pessimista. Bem, a coisa evidentemente não passara pela limpeza e lubrificação trianual, o que fazia toda a diferença. Talvez isto ensine a seu dono — da pior maneira.

Voltando para o assento do motorista, colocou o volante em posição de subida, ganhou o ar mais uma vez com um zumbido e reiniciou o vôo de volta à oficina de reparos.

De qualquer modo, não ouvia mais o chiado asmático, de dar nos nervos, do falso gato. Podia relaxar. Engraçado, pensou, mesmo que eu saiba, racionalmente, que é falso o som emitido por um falso animal que queima seu elemento propulsor e ligações do suprimento de energia, meu estômago está revirado. Como gostaria, pensou tristemente, de conseguir outro emprego. Se não houvesse sido reprovado naquele teste de inteligência, não estaria reduzido a este trabalho ignominioso, com os subprodutos emocionais que o acompanham.

Por outro lado, os sofrimentos sintéticos dos falsos animais não incomodavam Milt Borogrove ou o chefe de ambos, Hannibal Sloat. Assim, talvez a culpa seja minha, disse a si mesmo. Talvez, quando uma pessoa se deteriora e retroage na escada da evolução, como eu, quando mergulha na fossa da sepultura do mundo sendo um especial, bem, é melhor abandonar esta linha de indagação. Coisa alguma o deprimia mais do que os momentos em que comparava seus atuais poderes mentais com os que antes possuíra. Todos os dias, declinava em sagacidade e vigor. Ele e milhares de outros especiais em toda a Terra, todos eles a caminho do monte de cinzas. Transformando-se em entulho vivo.
Para arranjar uma companhia, ligou o rádio do caminhão e sintonizou o programa de áudio de Buster Amigão, o qual, como a versão de TV, continuava durante vinte e três ininterruptas e cálidas horas por dia... a hora restante sendo tomada por uma despedida religiosa, dez minutos de silêncio e recomeço religioso...
"— ... que prazer tê-la no programa outra vez — dizia Buster Amigão. — Vejamos, Amanda. Fazem dois dias inteiros desde que tivemos sua última visita. Começando algum novo filme, querida?"
"— Bem, eu ia fazer um filme ontem, mas, bem, eles queriam que eu começasse às sete..."
"— Sete da manhã?" — interrompeu-a Buster Amigão.
"— Sim, isso mesmo, Buster, sete da manhã!" — Amanda Werner soltou seu famoso riso, quase tão imitado como o de Buster. Amanda Werner e várias outras senhoras, belas, elegantes, de seios cônicos, originárias de países não especificados e vagamente definidos, além de alguns chamados humoristas, constituíam o núcleo perpétuo da programação de Buster. Mulheres como Amanda Werner jamais faziam filmes, nunca apareciam em peças de teatro. Viviam vidas belas, refinadas, como convidadas do programa interminável de Buster, aparecendo, calculara Isidore certa vez, umas setenta horas por semana no vídeo.

Como era que Buster Amigão encontrava tempo para gravar seus programas de áudio e vídeo?, perguntou-se Isidore. E como era que Amanda arranjava tempo para ser convidada dia sim, dia não, mês após mês, ano após ano? Como era que continuavam a falar daquele jeito? Eles nunca se repetiam — não, tanto quanto podia saber.
Suas observações, sempre espirituosas, sempre novas, não eram ensaiadas.
O cabelo de Amanda brilhava, seus olhos faiscavam, seus dentes reluziam; ela nunca pifava, nunca se cansava, nunca lhe faltava uma resposta inteligente para a torrente contínua de piadas, graçolas e agudas observações de Buster.

O Programa Buster Amigão, transmitido pelas ondas sonoras e pelo vídeo para toda a Terra, via satélite, cobria também os imigrantes nos planetas-colônias. Transmissões experimentais, dirigidas para Próxima Centauri, haviam sido tentadas, para o caso de a colonização humana chegar até aquela distância. Tivesse o Salander 3 chegado ao seu destino, os viajantes teriam encontrado o Programa Buster Amigão à espera, e teriam ficado satisfeitos.

Mas havia algo em Buster Amigão que o irritava, uma coisa específica. De modo sutil, quase ridicularizava as caixas de empatia. Não uma, mas muitas vezes.
Na verdade, fazia isso exatamente naquele instante.

"—... nada de arranhões de pedras em mim" — disse ele a Amanda Werner. — "E, se vou subir a encosta de uma montanha, vou querer levar comigo umas duas garrafas de cerveja Budweiser!" — A platéia no estúdio bateu palmas e Isidore ouviu um borrifo de palmas isoladas. — "E mostrarei, de lá de cima, minha denúncia cuidadosamente documentada... a denúncia que será feita dentro de exatamente dez horas a partir de agora!"
"— Eu também, querido!" — borbotou Amanda. — "Leve-me com você! Vou com você e, quando atirarem uma pedra, eu o protejo." — Mais uma vez, a audiência uivou e John Isidore sentiu uma raiva confusa e impotente surgir em sua nuca. Por que seria que Buster Amigão dava sempre essas tacadinhas no mercerismo? Aparentemente, ninguém se incomodava com isso. Até as Nações Unidas aprovavam isso. E não obstante, as polícias americana e soviética haviam declarado publicamente que o mercerismo reduzira a taxa de crimes, ao tocar os cidadãos mais preocupados com as tributações de seus vizinhos. A humanidade precisa de mais empatia, declarara várias vezes Titus Corning, Secretário-Geral das Nações Unidas. Talvez Buster esteja com ciúme, conjecturou Isidore, Certo, isto explicaria a coisa: ele e Wilbur Mercer concorrem um com o outro. Mas pelo quê?

Nossas mentes, decidiu Isidore. Estão lutando pelo controle de nossos eus psíquicos: a caixa de empatia, de um lado, e as gargalhadas e as piadas improvisadas de Buster, do outro. Vou ter que dizer isso a Hannibal Sloat, resolveu. Perguntar se é verdade. Ele deve saber.

Logo que parou o caminhão no telhado do Hospital Van Ness de Pequenos Animais, apanhou rapidamente a gaiola plástica com o falso gato imóvel e desceu as escadas correndo para o escritório de Hannibal Sloat. No momento em que entrou, Sloat levantou os olhos de uma página de estoque de peças sobressalentes, seu rosto cinza e riscado de rugas tremendo como águas agitadas. Velho demais para emigrar, Hannibal Sloat, embora não fosse um especial, estava condenado a arrastar-se pelo resto de seus dias na Terra. A poeira, com o passar dos anos, havia-o corroído, encolhido seu corpo e lhe tornado as pernas finas como as de uma aranha, o andar trôpego.
Via o mundo através de óculos literalmente enevoados pela poeira.
Por alguma razão, Sloan jamais limpava os óculos. Era como se houvesse desistido; aceitara a sujeira radiativa e ela iniciara seu trabalho, há muito tempo, de sepultá-lo. E já lhe turvava a vista. Nos poucos anos que lhe restavam, degenerariam seus outros sentidos, até que sobrasse apenas sua voz de ave e, em seguida, ela emudeceria também.

— O que foi que você trouxe? — perguntou o Sr. Sloat.
— Um gato com um curto no suprimento de força. — Isidore colocou a gaiola na escrivaninha coberta de documentos do patrão.
— Por que o está mostrando a mim? — indagou Sloat.
— Leve-o para a oficina e entregue-o a Milt. — Contudo, pensativamente, abriu a porta e deu um puxão no gato. Outrora, fora mecânico. Um mecânico muito bom.
— Acho que Buster Amigão e o mercerismo estão lutando pelo controle de nossas almas psíquicas — disse Isidore.
— Se é assim — comentou Sloat, examinando o gato, — Buster está ganhando.
— Está ganhando agora — afirmou Isidore — mas, no fim, vai perder.

Sloat ergueu a cabeça e fitou-o.
— Por quê?
— Porque Wilbur Mercer renova-se sempre. Ele é eterno. No alto da colina, ele é empurrado para baixo, Cai na sepultura do mundo, mas sempre se levanta. E nós com ele. Assim, também somos eternos. — Sentia-se bem, falando assim tão desembaraçado. Em geral, na presença de Sloat, gaguejava.
— Buster é imortal, como Mercer. Não há diferença entre eles.
— Como é que ele pode ser? Ele é um homem.
— Não sei — reconheceu Sloat. — Mas é verdade. Mas eles nunca admitiram isso, claro.
— É assim que Buster Amigão pode fazer quarenta e seis horas de programa por dia?
— Isso mesmo — concordou Sloat.
— E Amanda Werner e aquelas outras mulheres?
— Elas são imortais também.
— Será que são uma forma de vida superior, vinda de outro sistema?
— Eu nunca consegui aparar isso com certeza — disse Sloat, ainda examinando o gato.

Nesse momento, tirou os óculos cobertos de pó, e olhou sem eles para a boca semi-aberta. — Como apurei conclusivamente no caso de Wilbur Mercer — terminou em voz quase inaudível. Soltou uma praga e, em seguida, uma série de palavrões que pareceu a Isidore durar um minuto inteiro.
— Este gato — disse finalmente Sloat — não é falso. Eu sabia que isto ia acontecer um dia. E ele está morto. — Olhou fixamente para o cadáver do gato. E soltou outro palavrão.

Usando seu sujo avental de pano azul grosso, o corpulento e sardento Milt Borogrove apareceu à porta do escritório.
— O que é que está havendo? — perguntou. Vendo o gato, entrou e levantou o animal.
— O debilóide — disse Sloat — trouxe-o para cá. — Nunca, anteriormente, utilizara ele essa palavra em frente a Isidore.
— Se ainda estivesse vivo — disse Milt —, poderíamos levá-lo a um verdadeiro veterinário. Duvido que isto valha a pena. Alguém por aí tem um exemplar do Sidney's?
— O s-s-seu s-s-eguro cobre isto? — perguntou Isidore a Sloat. Sob o corpo, suas pernas vacilaram e achou que a sala começava a tornar-se marrom, pintalgada de pontos verdes.
— Cobre — respondeu Sloat finalmente, meio rosnando, — Mas é o desperdício que me irrita. A perda de mais uma criatura viva. Você não pôde ver, Isidore? Não notou a diferença?
— Eu pensei — conseguiu Isidore dizer — que fosse um trabalho realmente bem-feito. Tão bem-feito que me enganou. Quero dizer, parecia vivo e um trabalho tão bom assim...
— Acho que Isidore não pôde ver a diferença — observou baixinho Milt. — Para ele, todos são vivos, falsos animais inclusive. Ele provavelmente tentou salvá-lo. — Virando-se para Isidore, disse: — O que foi que você tentou fazer, recarregar a bateria? Ou localizar o curto?
— I-s-so mesmo — reconheceu Isidore.
— Ele provavelmente estava tão doente que não teria feito a mínima diferença — comentou Milt. — Deixe em paz o debilóide, Han. Ele tem um bom argumento: os falsos estão começando a parecer quase reais, principalmente com esses circuitos de doença que estão instalando nos novos modelos. E animais vivos, de fato, morrem. Este é um dos riscos de possuí-los. Nós simplesmente não estamos acostumados com isso, por que tudo o que vemos são os falsos.
— Que droga de desperdício — repetiu Sloat.
— De acordo com M-mercer — observou Isidore —, t-toda vida retorna. O ciclo é c-cc-completo também para a-animais. Quero dizer, todos nós subimos com ele, morremos ...
— Diga isso ao cara que era dono deste gato — sugeriu Sloat.
Sem saber bem se o patrão falava sério, Isidore perguntou :
— O senhor quer dizer que vou ter que fazer isso? Mas é o senhor que faz sempre as videochamadas. — Tinha fobia aos videofones e, para ele, era virtualmente impossível fazer uma chamada, especialmente no caso de estranhos. O Sr. Sloat, claro, sabia disso, também.
— Não o obrigue a fazer isso — disse Milt. — Eu faço. — Estendeu a mão para o aparelho. — Qual é o número dele?
— Eu tenho o número em algum lugar. — Isidore procurou nos bolsos de seu guarda-pó.
— Eu quero que o debilóide faça isso — disse Sloat.
— Eu n-n-não p-posso usar o videofone — protestou Isidore, o coração batendo-lhe com força. — Porque sou cabeludo, feio, sujo, encurvado, desdentado, e grisalho. Além disso, a radiação me faz mal. Penso que vou morrer.
Milt sorriu e disse a Sloat:
— Acho que se me sentisse assim, também não usaria o videofone. Vamos com isso, Isidore. Se não der o número do dono, não vou poder telefonar e você terá que fazer isso. — Estendeu cordialmente a mão.
— O debilóide faz a chamada — insistiu Sloat — ou está despedido. — Não olhou nem para Isidore nem para Milt, apenas fixamente para a frente.
— Ora, vamos — protestou Milt.
— Eu n-n-não gosto de ser c-chamado de debilóide. Quero dizer, a p-p-poeira também f-fez um bocado com o senhor, fisicamente. Embora, talvez n-n-não ao seu cérebro, como no meu caso. — Estou demitido, compreendeu. Não posso dar o telefonema.
De repente, lembrou-se de que o dono do gato partira em grande velocidade para o trabalho. Não haveria pessoa alguma em casa. — A-a-acho que posso telefonar para ele — disse, tirando finalmente do bolso a etiqueta com a informação.
— Está vendo? — disse Sloat a Milt. — Ele pode, se tiver que dar o telefonema.
Sentado ao videofone, aparelho na mão, Isidore discou.
— Isso mesmo — concordou Milt —, mas ele não devia ter que fazer isso. E ele tem razão. A poeira afetou-o. Você está quase cego e, dentro de uns dois anos, não vai mais ouvir.
— E pegou você também, Borogrove. Sua pele está da cor de bosta de cachorro.

Na videotela aparecera um rosto, uma mulher de aparência bem-cuidada, mitteleuropaische, que usava os cabelos num coque apertado.
— Sim? — disse ela.
— S-S-Sra. Pilsen? — perguntou Isidore, o terror percorrendo todo seu corpo. Não pensara nisso, naturalmente, mas o dono tinha uma esposa que, naturalmente, se encontrava em casa. — Eu queria lhe f-f-falar a respeito do seu g-g-gato. — Interrompeu-se e esfregou num tique nervoso o queixo. — Seu gato.
— Oh, sim, o senhor veio buscar Horace — disse a Sra. Pilsen, — É mesmo pneumonia? Foi isso o que o Sr. Pilsen pensou.
— Seu gato morreu — disse Isidore.
— Oh, não, Deus no céu!
— Nós o substituiremos — disse ele. — Temos seguro.
— Lançou um olhar ao Sr. Sloat, que pareceu de acordo.
— O proprietário de nossa firma, o Sr. Hannibal Sloat — parou, à procura de palavras — pessoalmente...
— Não — disse Sloat — nós lhe daremos um cheque. No valor da lista de preços da Sidney's.
—... pessoalmente escolherá outro gato para substituí-lo — descobriu-se Isidore dizendo.
Tendo iniciado uma conversa que não podia suportar, verificava que não podia livrar-se dela. O que dizia possuía uma lógica intrínseca que não tinha meios de deter, e que teria que ir forçosamente até sua conclusão. Sloat e Milt Borogrove olharam-no fixamente enquanto ele continuava:
— Dê-nos as especificações do gato que deseja. Cor, sexo, subtipo, tais como Manx, Persa, Abissínio...
— Horace morreu . — disse a Sra. Pilsen.
— Ele estava com pneumonia — explicou Isidore. — Morreu a caminho do hospital. Nosso médico-chefe, Dr. Hannibal Sloat, disse que no estado em que ele se encontrava, coisa alguma poderia tê-lo salvo. Mas, Sra. Pilsen, não é uma boa notícia a de que vamos substituí-lo? Certo?

Lágrimas enchendo-lhe os olhos, a Sra. Pilsen disse:
— Só havia um gato como Horace. Ele costumava, desde que era apenas um gatinho, olhar para a gente, como se estivesse fazendo uma pergunta. Nunca compreendemos que pergunta era essa. Talvez, agora, ele saiba a resposta. — Novas lágrimas apareceram. — Acho que, no fim, todos nós descobriremos.

Ocorreu uma inspiração a Isidore:
— Que tal uma duplicata elétrica exata de seu gato?
Podemos conseguir um soberbo serviço artesanal da Wheelright & Carpenter, no qual todos os detalhes do antigo animal são fielmente reproduzidos em permanente...
— Oh, isso é horrível — protestou a Sra. Pilsen. — O que é que o senhor está dizendo? Não diga isso a meu marido. Não sugira isso a Ed ou ele enlouquecerá. Ele amava Horace mais do que qualquer outro gato que já teve, e teve gatos desde menino.
Tomando o videofone de Isidore, Milt disse à mulher:
— Podemos dar-lhe um cheque no valor listado na Sidney's ou, como sugeriu o Sr. Isidore, podemos escolher um novo gato para a senhora. Sentimos muito a morte de seu gato, mas, como disse o Sr. Isidore, ele estava com pneumonia, uma doença quase sempre fatal. — Continuou a falar em tom profissional.
Dos três ali no Hospital Van Ness de Pequenos Animais, Milt era o que se saía melhor na questão de telefonemas de negócios.
— Eu não posso contar a meu marido — disse a Sra. Pilsen.
— Muito bem, madame — respondeu Milt e fez uma leve careta — nós telefonaremos para ele. Poderia me dar o número do trabalho dele? — Estendeu a mão para pegar caneta e um bloco. Sloat passou-lhe os dois artigos.
— Escute aqui — disse a Sra. Pilsen. Parecia ter recobrado o ânimo. — Talvez o outro cavalheiro tenha razão. Talvez seja bom eu encomendar um substituto elétrico de Horace, mas sem Ed jamais saber. Poderia ser uma reprodução tão fiel que meu marido não notasse a diferença?

Em dúvida, Milt respondeu:
— Se é isso o que a senhora quer. Mas, segundo nossa experiência, o dono do animal jamais é enganado. Isto só acontece com observadores casuais, como vizinhos. A senhora compreende, logo que se examina bem um animal falso .
— Ed nunca se tornou fisicamente íntimo de Horace, embora o amasse, Era eu que cuidava de todas as necessidades pessoais de Horace, como levá-lo à caixa de areia.

Acho que gostaria de tentar um sucedâneo e, se a coisa não desse certo, os senhores nos poderiam arranjar um animal autêntico para substituir Horace. Eu, simplesmente, não quero que meu marido saiba. Acho que ele não conseguiria sobreviver a essa perda. Foi por isso que ele nunca se aproximou muito de Horace. Tinha medo de aproximar-se. E quando Horace adoeceu — com pneumonia, como o senhor disse —, Ed entrou em pânico e, simplesmente, não queria enfrentar a realidade. Foi por isso que esperamos tanto antes de chamar os senhores. Demorou demais, como eu sabia, antes que vocês telefonassem, eu sabia. — Inclinou a cabeça, as lágrimas nesse instante sob controle. — Quanto tempo vai demorar isso?
Milt fez um cálculo mental:
— Podemos tê-lo pronto dentro de dez dias. Faremos a entrega durante o dia, enquanto seu marido estiver no trabalho. — Encerrou a conversa, despediu-se, e desligou: — Ele vai saber — disse ao Sr, Sloat. — Dentro de cinco segundos. Mas se é isso o que ela quer...
— Donos que chegam a amar seus animais — disse sombrio o Sr. Sloat — ficam arrasados. Estou contente porque em geral não nos envolvemos com bichos de verdade.

Vocês compreendem que autênticos veterinários têm que dar telefonemas como esse o tempo todo? — Olhou para John Isidore. — De algumas maneiras, você não é tão estúpido, afinal de contas, Isidore. Você tratou do assunto razoavelmente bem. Mesmo que Milt tivesse que intervir e tomar a frente depois.
— Ele estava indo muito bem. — disse Milt. — Deus, aquilo foi duro. — Apanhou o falecido Horace. — Vou levá-lo para a oficina. Han, telefone para a Wheelright & Carpenter e peça para mandar aqui o construtor deles, para medir e fotografar o gato. Não vou deixar que o levem para a oficina deles. Eu mesmo quero comparar a réplica.
— Acho que vou mandar Isidore conversar com eles — decidiu o Sr. Sloat. — Foi ele quem começou isto. Deve poder tratar com a Wheelright & Carpenter depois de ter tratado com a Sra. Pilsen.
— Simplesmente, não deixe que eles levem o original — disse Milt a Isidore. Entregou-lhe Horace. — Vão querer porque isso torna o trabalho deles muito mais fácil. Seja firme.
— H-h-hummm — fez Isidore, pestanejando. — Muito bem. Talvez seja bom telefonar agora, antes que o corpo comece a apodrecer. Corpos mortos não apodrecem, ou coisas assim? — Sentiu-se jubiloso.



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