sábado, 12 de junho de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 11)



O PRÉDIO DO Palácio de Justiça na Mission Street, no telhado do qual desceu o hovercar, projetava-se para cima numa série de espirais barrocas, ornamentadas.
Complicada e moderna, a bela estrutura pareceu atraente a Rick Deckard — exceto por um único aspecto. Nunca a vira antes.

O carro pousou. Minutos depois, ele estava sendo identificado.
— 0.304 — disse o guarda Crams ao sargento de serviço na alta escrivaninha. — E... 612.4 e, deixe-me ver. Fazendo-se passar por policial?
— 406.7 — disse o sargento, preenchendo formulários. Escrevia preguiçosamente, de uma maneira algo entediada.
Caso de rotina, declaravam sua postura e expressão. Nada de importância.
— Para ali — disse o guarda Crams, levando-o para uma pequena mesa branca, na qual um técnico operava equipamento conhecido. — Para tirar seu padrão cefálico — explicou Crams. — Para fins de identidade.
— Eu sei — disse bruscamente Rick.

Nos velhos dias, quando ele mesmo fora policial fardado, trouxera muitos suspeitos para uma mesa como aquela. Como esta mesa, mas não esta mesa em particular.
Tirado o padrão cefálico, foi levado para uma sala igualmente conhecida.

Pensativo, começou a juntar seus artigos de valor para entregá-los.
Isto não faz sentido, disse a si mesmo. Quem são estas pessoas? Se este lugar sempre existiu, por que nada sabíamos a respeito dele? Dois órgãos policiais paralelos, pensou, o nosso e este aqui. Mas que nunca entraram em contato — tanto quanto sei — até agora. Ou talvez tenham, refletiu. Talvez esta não seja a primeira vez. É difícil acreditar que isto não tenha acontecido há muito tempo. Se isto aqui é, realmente, um organismo policial, se é o que afirma que é.

Um homem, à paisana, afastou-se do lugar onde estivera até então e aproximou-se de Rick Deckard em passos medidos, tranqüilos, fitando-o, curioso.
— O que é, esse aí? — perguntou ao guarda Crams.
— Um suspeito de homicídio — respondeu Crams. — Temos um cadáver: encontramo-lo no carro dele, mas ele alega que é um andróide. Estamos examinando isso, fazendo uma análise de medula óssea no laboratório. E passando por policial, caçador de cabeças. A fim de obter acesso ao camarim de uma mulher, a fim de fazer-lhe perguntas sugestivas. Ela duvidou que ele fosse o que dizia e nos chamou. — Dando um passo atrás, perguntou Crams: — Quer acabar o interrogatório dele, senhor?
— Muito bem. — O policial graduado, à paisana, olhos azuis, nariz estreito de narinas largas e lábios inexpressivos, olhou para Rick e em seguida estendeu a mão para tomar-lhe a pasta.
— O que é que o senhor tem aí, Sr. Deckard?
— Material relativo ao Teste de Personalidade Voigt-Kampff — respondeu Rick. — Eu estava submetendo um suspeito a teste quando o guarda Crams me prendeu.

Observou o policial inspecionar o conteúdo da pasta, examinando cada um dos artigos.
— As perguntas que fiz à Sra. Luft são questões-padrão Y-K, impressas no...
— O senhor conhece George Gleason e Phil Resch? — perguntou o policial.
— Não — respondeu Rick. Nenhum desses nomes significava coisa alguma para ele.
— Eles são os caçadores de cabeça da região norte da Califórnia. Ambos adidos ao nosso Departamento. Talvez os conheça, enquanto está aqui. O senhor é andróide, Sr. Deckard? O motivo por que pergunto isto é que, no passado, tivemos por aqui vários andros fugitivos passando por caçadores de cabeças de fora do Estado, à procura de um suspeito.
— Eu não sou andróide — retrucou Rick. — Pode me aplicar o Teste Voigt-Kampff. Fui submetido a ele antes e não me importo de passar pela mesma coisa outra vez. Mas sei quais vão ser os resultados. Posso telefonar para minha esposa?
— O senhor tem direito a um único telefonema. Prefere telefonar para ela ou para seu advogado?
— Telefonarei para minha esposa — decidiu Rick. — Ela pode me arranjar um advogado.

O policial à paisana entregou-lhe uma moeda de cinqüenta centavos e apontou:
— Há um videofone ali. — Ficou observando enquanto Rick se dirigia ao telefone. Em seguida, voltou ao exame do conteúdo da pasta.
Inserindo a moeda, Rick discou o número de casa. Ficou à espera durante o que lhe pareceu uma eternidade.

Finalmente, um rosto de mulher apareceu na videotela.
— Alô — disse ela.
Não era Iran. Nunca vira aquela mulher antes em toda sua vida.

Desligou e voltou em passos lentos para junto do policial.
— Sem sorte? — perguntou o policial. — Bem, pode dar outro telefonema, Nós temos uma política liberal a este respeito. Não posso lhe oferecer a oportunidade de telefonar para um defensor público porque seu crime é inafiançável. Quando for indiciado, contudo...
— Eu sei — retrucou amargo Rick. — Conheço bem o procedimento policial.
— Eis aqui sua pasta — disse o oficial. Devolveu-a a Rick. — Venha até meu gabinete... Gostaria de conversar mais com o senhor, — Começou a descer um corredor lateral, Rick atrás dele. Em seguida, parando e voltando-se para ele, disse: — Meu nome é Garland. — Estendeu a mão, que Rick apertou. — Sente-se — disse, quando abriu a porta do gabinete e se acomodou por trás de uma grande escrivaninha nua.

Rick sentou-se de frente para ele.
— Esse Teste Voigt-Kampíf que o senhor mencionou — disse Garland, indicando a pasta de Rick —, todo esse material que você leva — encheu e acendeu um cachimbo, tirando baforadas durante algum tempo — é um instrumento analítico para identificar andros?
— É o nosso teste básico — retrucou Rick. — O único que empregamos atualmente. O único capaz de identificar a nova unidade cerebral Nexus-6. Nunca ouviu falar neste teste?
— Ouvi falar de várias escalas de análise de perfil, para emprego com andróides. Mas não desse. — Continuou a olhar atentamente para Rick, pomposo o seu rosto. Rick não podia imaginar o que ele estava pensando. — Essas cópias a carbono apagadas — continuou Garland — que o senhor tem aí em sua pasta. Polokov, Srta. Luft...suas missões. O seguinte na lista sou eu.

Rick olhou-o fixamente e, em seguida, agarrou a pasta.

Um momento depois, as cópias a carbono estavam espalhadas à sua frente.
Garland dissera a verdade. Examinou a folha. Nenhum dos dois homens — ou melhor, nem ele nem Garland — falou durante algum tempo.

Em seguida, Garland pigarreou, e tossiu, nervoso.
— É uma sensação desagradável — disse ele — descobrir subitamente que se está na lista de missões de um caçador de cabeças. Ou o que quer que você seja, Deckard.

Apertou um botão na escrivaninha e disse: — Envie aqui um dos caçadores de cabeça. Não me interessa qual. Muito bem, obrigado. — Soltou o botão. — Phil Resch chega dentro de um minuto ou dois — disse a Rick. —Quero que você veja a lista dele, antes de eu continuar.
— O senhor acha que eu posso estar na lista dele? — perguntou Rick.
— É possível. Vamos saber logo. É melhor termos certeza a respeito destes assuntos críticos. Melhor não deixar nada ao acaso. Esta folha de informações sobre mim... — Indicou a cópia apagada. — Ela não me lista como inspetor de polícia. Inexatamente, dá minha ocupação como corretor de seguros. À parte isso, está correta quanto à descrição física, hábitos pessoais, endereço residencial. Sim, sou eu, tudo certo. Veja por si mesmo. — Empurrou a página para Rick, que a apanhou e leu rapidamente.

Abriu-se a porta nesse momento e entrou um homem alto, descarnado, feições duras, usando óculos de aro de osso e barba fofa em ponta. Garland levantou-se, indicando Rick.
— Phil Resch, Rick Deckard. Vocês dois são caçadores de cabeça e, provavelmente, chegou a ocasião de se conhecerem.
Apertando a mão de Rick, perguntou Phil Resch:
— A que cidade você está adido?
Garland respondeu por Rick:
— São Francisco. Aqui. Dê uma olhada na agenda dele. Este aqui é o próximo. — Entregou a Phil Resch a folha que Rick estivera examinando, a que continha sua descrição.
— Hei, Gar — comentou Phil Resch —, esse aí é você.
— E há mais — continuou Garland. — Ele tem também Luba Luft, a cantora de óperas, em sua lista de missões de aposentadoria, e Polokov. Lembra-se de Polokov? Está morto, agora. Este caçador de cabeças, ou andróide, ou o que quer que seja, pegou-o, e estamos neste momento fazendo um exame de medula óssea no laboratório. Para ver se há alguma base concebível para...
— Eu conversei com Polokov — disse Phil Resch. — Aquele Papai Noel grandalhão da polícia soviética? — Pensou um pouco, dando puxões na barba desalinhada. — Acho que será uma boa idéia fazer uma análise de medula óssea dele.
— Por que é que você diz isso? — perguntou Garland, evidentemente aborrecido. — Isto eliminaria qualquer base legal, na qual esse homem, Deckard, poderia alegar que não matou ninguém. Teria simplesmente "aposentado um andróide".
— Polokov pareceu-me frio — observou Phil Resch. — Externamente cerebral e calculador. Desligado.
— Um bocado de policiais soviéticos são assim — contestou Garland, visivelmente irritado.
— Quanto a Luba Luft — continuou Phil Resch —, não a conheço ainda. Embora tenha discos que ela gravou. A Rick, disse: — Você submeteu-a a um teste completo?
— Comecei — explicou Rick. — Mas não consegui uma leitura exata. Ela chamou o patrulheiro, que acabou com tudo.
— E Polokov? — perguntou Phil Resch.
— Tampouco consegui a mínima chance de submetê-lo a teste.
Principalmente para si mesmo, Phil Resch voltou a falar:
— E suponho que você também não teve uma oportunidade de submeter a teste o Inspetor Garland aqui.
— Claro que não — interrompeu Garland, sua face vincada de indignação. Calou-se, amargo e zangado,
— Que teste você usa? — quis saber Phil Resch.
— A Escala Voigt-Kampff.
— Não o conheço — Resch e Garland pareciam mergulhados em rápidos e profissionais pensamentos, mas não em uníssono. — Eu sempre disse — continuou ele — que o melhor lugar para um andróide esconder-se seria numa grande organização policial, como o W.P.O. Desde que conheci Polokov, quis testá-lo, mas não surgiu pretexto algum. E tampouco teria surgido. o que é um dos bons motivos por que um lugar desses seria bom para um andróide empreendedor.

Levantando-se devagar de sua cadeira, o Inspetor Garland olhou para Phil Resch e perguntou:
— Você também teve vontade de me testar?

Um discreto sorriso passou pelos lábios de Phil Resch. Começou a responder e, em seguida, encolheu os ombros. E continuou calado.
Não parecia receoso de seu superior, a despeito da visível raiva de Garland.
— Acho que você não compreende a situação — disse Garland. — Este homem, ou andróide, Rick Deckard, chega às nossas mãos vindo de um órgão policial fantasmagórico, alucinatório, inexistente, que supostamente opera a partir da velha sede departamental na Lombard Street. Nunca ouviu falar em nós e nós nunca ouvimos falar nele, embora, ostensivamente, estejamos trabalhando do mesmo lado da rua. Emprega um teste do qual nunca ouvimos falar. A lista que tem não é de andróides. É uma lista de seres humanos. Já matou uma vez, pelo menos uma vez, E se a Srta. Luft não houvesse conseguido chegar ao telefone, provavelmente a teria morto e, no fim, viria me caçar.
— H-h-hummm — comentou Phil Resch.
— H-h-hummm — imitou-o furioso Garland. Nesse momento, parecia que estava prestes a ter um ataque de apoplexia, — Isso é tudo o que você tem a dizer?

Uma voz feminina disse no intercomunicador:
— Inspetor Garland, acaba de chegar o laudo do laboratório sobre o cadáver do Sr. Polokov.
— Acho que deveríamos ouvi-lo — opinou Phil Resch.

Garland fitou-o, fumegando de raiva. Em seguida, inclinou-se, e apertou a chave do intercomunicador.
— Leia-o, Srta. French.
— O teste de medula óssea — leu a Srta. French — demonstra que o Sr. Polokov era um robô humanóide. O senhor quer um detalhado...
— Não, isso é suficiente. — Garland recostou-se em sua cadeira, olhando sombrio para a parede da sala. Não se dirigiu nem a Rick nem a Phil Resch.
— Qual é a base de seu Teste Voigt-Kampff, Sr. Deckard?
— Reação empática. Numa grande variedade de situações sociais. Principalmente, dizendo respeito a animais.
— O nosso é provavelmente mais simples — comentou Resch. — A reação de arco reflexo que ocorre nos gânglios superiores da coluna vertebral vários microssegundos mais num robô humanóide do que num sistema nervoso humano. — Puxando um bloco de papel da mesa do Inspetor Garland, fez um desenho com uma caneta esferográfica. — Utilizamos um sinal de áudio ou um pisca-pisca. O sujeito aperta um botão, e o tempo decorrido é medido. Tentamos isso um bocado de vezes, claro. O tempo decorrido varia em andros e humanos. Mas quando dez reações são medidas, achamos que temos uma pista segura. E, como no seu caso com Polokov, o teste de medula óssea confirma nossos resultados.

Ocorreu um intervalo de silêncio antes de Rick responder:
— O senhor pode me testar. Estou pronto. Naturalmente, eu gostaria de testá-lo, também. Se estiver disposto.
— Naturalmente — concordou Resch. Nesse momento, porém, ele olhava criticamente para o Inspetor Garland. — Eu digo há anos — murmurou — que o Teste de Arco Reflexo Boneli deve ser aplicado rotineiramente ao pessoal da polícia, quanto mais alto o indivíduo na cadeia de comando, melhor. Não digo, Inspetor?
— Isso é um direito que você tem — retrucou Garland. — E eu sempre fui contra isso. Com base no fundamento de que esse procedimento abaixaria o moral do departamento.
— Mas eu acho agora que o senhor tem que se submeter a ele — disse Rick. — Tendo em vista o laudo de seu laboratório sobre Polokov.
— Acho que sim — concordou Garland. Apontou um dedo para Phil Resch. — Mas estou-lhe avisando: você não vai gostar dos resultados dos testes.
— O senhor sabe o que é que eles vão ser? — perguntou Resch, visivelmente surpreso. Não parecia contente.
— Quase completamente — retrucou o Inspetor Garland.
— Muito bem. — Resch inclinou a cabeça. — Vou lá em cima apanhar o equipamento Boneli.

Foi até a porta, abriu-a, e desapareceu pelo corredor.
— Volto dentro de três ou quatro minutos — disse a Rick, antes de sair.
A porta fechou-se às suas costas

Mexendo na gaveta superior do canto direito da mesa, o Inspetor Garland procurou e achou um tubo laser, que virou até apontar para Rick.


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